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Moonlight – Moonlight: Sob a Luz do Luar

Sobrevivência. Ela nem sempre é um processo simples. E sem dúvida alguma ela é menos que o necessário para qualquer pessoa. Moonlight nos revela a história de uma dura luta pela sobrevivência. O filme também nos mostra como os efeitos da ignorância e da violência podem perdurar, ainda que eles nunca sejam o suficiente para realmente mudar aquilo que uma pessoa tem como essência. Grande filme. Mais uma bela descoberta desta temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Juan (Mahershala Ali) chega com o seu carrão e estaciona na calçada. Ele pega um cigarro, coloca sobre a orelha e caminha lentamente até cumprimentar a um de seus “homens”. Ele acompanha a conversa dele com um viciado que não tem dinheiro para comprar a droga. Enquanto o vendedor e o usuário discutem, Juan fica por perto. Ele pergunta como tudo está, e o vendedor diz que tudo está tranquilo.

Juan está fazendo a sua ronda normal pelo bairro que ele controla. Quando ele começa a voltar para o carro, passam por eles alguns moleques. Little/Chiron (Alex R. Hibbert) está na frente, sendo perseguido por alguns garotos. Little acha um local no qual ele pode se proteger. Depois de algum tempo da perseguição, aparece por ali Juan, que oferece comida para o garoto. Neste momento começa uma amizade entre os dois.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Moonlight): Que filme, meus amigos e amigas! Uma produção extremamente sincera e sensível. Que revela, entre outros pontos, como a violência pode ser determinante na vida de uma pessoa sensível e que vira alvo de babacas.

O diretor e roteirista Barry Jenkins, que trabalhou sobre uma história original de Tarell Alvin McCraney, nos apresenta aqui uma narrativa interessantíssima e muito, muito necessária. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A produção começa mergulhada na mais pura realidade, de um local em que as drogas e a violência são elementos presentes. Neste contexto, temos uma palhinha sobre a “desculpa” dos meninos em perseguir Chiron logo no início.

Quando os moleques passam correndo na frente de Juan, eles xingam Chiron de “viado”. O garoto não é forte, mas magro e frágil, e não entra no ciclo de agressões dos outros moleques. Por isso ele vira o saco de pancada dos garotos e logo é taxado de “viado”. Gostei da forma honesta com que a narrativa é construída. Aliás, diferente do favoritíssimo La La Land (comentado por aqui), Moonlight tem como um de seus destaques, justamente, o seu roteiro.

Este filme nos faz refletir por várias razões. Jenkins tem a coragem de quebrar uma série de lugares-comum e de subverter a crença comum e preconceituosa sobre comunidades marginalizadas. Logo no começo ele faz isso ao mostrar o respeito e o cuidado que o traficante Juan tem com um moleque frágil e acossado que cruza o seu caminho.

Enquanto isso, em casa, Chiron não tem nem um pouco deste cuidado. A mãe dele, Paula (Naomie Harris), conhecida no bairro por fazer programas em troca de qualquer trocado ou droga, não consegue dar o exemplo para o filho. E, mais que isso, não consegue dar o apoio ou o cuidado básico que se espera de uma mãe. Então temos, de um lado, o vendedor da “desgraça” que consegue ter sensibilidade com aquela história difícil e a mãe do garoto que é vítima da dependência de drogas – duas pontas de um mesmo problema, pois.

Bacana também como Moonlight é dividido em três atos. O primeiro mostra o protagonista na fase em que ele era conhecido como Little – entendido como “moleque”. Nesta fase, o garoto frágil considerado “esquisito” por muitos, inclusive pelo amigo Kevin (Jaden Piner), vira saco de pancadas dos valentões de sua idade e do colégio.

Cada vez mais ignorado pela mãe, que vai ficando pouco a pouco mais dependente das drogas, Little encontra algum apoio no casal Juan e Teresa (Janelle Monáe). Sem uma figura paterna em quem se espelhar, ele fica fascinado por Juan, que lhe ensina a beleza do mar e lhe conta algumas histórias, como quando ele andava descalço sob a luz do luar (o “moonlight” que dá nome ao filme).

Quando Juan encontra o garoto o esperando em casa, ele não o expulsa ou lhe dá uma bronca. Ele dedica um pouco de seu tempo para Little porque percebe que falta atenção e um pouco de carinho para o garoto. Juan e Teresa fazem isso de forma descompromissada, mostrando que nem sempre o traficante que pensamos ser pura crueldade é apenas isso. Todos tem as suas histórias, e todos deveriam poder contá-las para alguém.

Nesta fase, há uma sequência realmente preciosa – uma das melhores do filme. Ela acontece depois que Little percebe um pouco melhor a realidade que o cerca e, em uma sequência marcante na casa de Juan e Teresa, ele faz uma série de perguntas decisivas. Ele quer saber o que é um viado, se a mãe dele usa drogas e se o seu novo herói/referência, Juan, vende drogas. De arrepiar – e o ponto forte do trabalho de Mahershala Ali.

Na segunda fase do filme, quando o protagonista já é conhecido como Chiron (interpretado aí por Ashton Sanders), pouca coisa muda para ele. Chiron continua sendo perseguido e maltratado pelos garotos de sua idade e escola. Mas é nesta fase, um pouco mais crescido, que Chiron começa a dar uma direção para a vida dele.

É neste momento em que, em uma noite de luar, Chiron se encontra com o amigo Kevin (nesta fase, Jharrel Jerome) na praia, sem querer, e os dois tem o primeiro envolvimento amoroso. No fundo, Chiron não tem certeza que é gay, mas para ele é natural e faz sentido o que ele sente por Kevin. Enquanto isso, na escola, se aproxima o momento em que ele vai levar a grande surra da sua vida até então.

Finalmente, após o protagonista parar com a sequência de violências, ele é punido pela lei e aí o filme entra em sua terceira e última fase. Chiron agora é Black (Trevante Rhodes), um cara forte e livremente inspirado em seu ídolo Juan. O mundo foi cruel com Chiron, e ele aprendeu, finalmente, a se defender. Ora, se a melhor forma de ser respeitado seria transformar-se em um traficante temido, é isso que ele faz, ele se torna um deles.

Mas o interessante de Moonlight é que, a partir do momento em que Black recebe o telefonema da mãe, internada em um local que a ajuda a ficar “limpa”, e uma ligação de Kevin, percebemos que ele não deixou de ser aquele garoto sensível do início. Como ele mesmo conta para Kevin, ele não deixou de ser quem ele é, apesar de agora também assumir a figura de um traficante musculoso, rico e respeitado.

Por tudo isso, Moonlight nos mostra como a falta de estrutura e de proteção de uma criança, que é o que acontece com Chiron, pode ajudar a definir a uma vida, mas esta simplificação da narrativa não é tudo. Black é um cara que, a exemplo de Juan, está sempre no alvo, pode virar uma vítima fatal a qualquer momento, mas apesar dele lidar com a violência o tempo inteiro, ele não deixou de ser quem ele era desde o princípio.

Sobre violência, aliás, ele conhece bem. Na infância e na adolescência ele foi vítima dela, não teve escolha. Depois, quando pode revidar, ele escolheu seguir no mesmo círculo de violência, virando a figura de um traficante que, ironicamente, ajudou ele a chegar ali – seja vendendo drogas para a mãe dele, seja lhe dando apoio quando ele mais precisava.

A realidade das drogas é muito complicada. Moonlight mostra isso de forma muito transparente. Falta educação, cuidados médicos e amparo para pessoas que vivem neste círculo do tráfico. Além disso, falta cuidado em casa para que as crianças saibam se respeitar, independente de quem ou do que elas sejam.

Todos merecem receber amor e cuidados, mas quando as pessoas não recebem valores e educação em casa para fazer escolhas certas desde o princípio, temos vítimas como Chiron espalhadas por todos os países do mundo. Por tudo isso este filme é tão necessário, e potente. Ele faz todos pensarem um pouco mais sobre esta realidade complicada que nos cerca.

Precisamos achar soluções para estes cenários, e elas passam por famílias melhor estruturadas, por educação e por mais informações para as pessoas sobre os efeitos daninhos das drogas. Não vejo outra maneira. E essa é uma responsabilidade que deveria ser de todos.

Começando pelas famílias, passando pelas escolas e pelas outras pessoas que tem contatos com pessoas que são marginalizadas. Afinal, a exemplo de Juan, todos podemos estender a mão e ajudar um pouco a quem precisa, nem que for lhes garantindo um pouco de alegria e de afeto. Grande filme, muito bem realizado, com grandes atores e um roteiro impecável.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos elementos deste filme que me chamou a atenção logo no início foi a excelente trilha sonora de Nicholas Britell. Grandes escolhas para a produção, que tem músicas destacadas de forma cirúrgica aqui e ali, valorizando a história e os momentos importantes dela. Muito bacana.

Da parte técnica do filme, também gostei muito da direção de fotografia de James Laxton. Apesar destes elementos funcionarem muito bem, sem dúvida alguma é o roteiro e a direção de Barry Jenkins que tornam este filme especial. O texto é sincero, envolvente e bem direto. Tem algumas sequências surpreendentes e muito potentes, além de um aprofundamento sensível na realidade e nos sentimentos do protagonista de poucas palavras. Na direção, Jenkins procura estar sempre muito próximo dos atores de seu ótimo elenco, com uma câmera atenta e que lembra um pouco a dos documentários, muitas vezes.

Ah, e o elenco desta produção! Nenhum ator extremamente conhecido, mas todos muito bons. Claro que o destaque são os três atores que interpretam o protagonista nas três fases de sua vida. O garoto Alex R. Hibbert, o jovem Ashton Sanders e o ator Trevante Rhodes dão um show em seus respectivos momentos na produção. Difícil destacar apenas um deles, ainda que os garotos tenham um apelo um pouco maior que Rhodes. Mas estão todos muito bem.

Além deles, claro que se destacam na produção os personagens que estão mais próximos dos protagonistas, com destaque para o momento relativamente curto que está na produção para Mahershala Jenkins, para a estonteante e sempre interessante Janelle Monáe e para a esforçada Naomie Harris.

A personagem dela, como mãe de Chiron, é a que menos desperta simpatia, por razões óbvias. Mas ela realmente está muito bem nas diferentes fases da história. De sua maneira muito torta e errática ela tenta “fazer o certo” com o filho, lhe dando teto, comida e insistindo para que ele estude. Mas isso é tudo. Todo o restante necessário para o garoto, especialmente o carinho, o amor, a atenção e o exemplo, ficam de fora.

Em um momento tocante do filme ela se arrepende e pede perdão, mas no caso do filho dela, ficou um pouco tarde para esse arrependimento ter efeito. Por isso mesmo a importância das pessoas pensarem muito bem antes de terem filhos, até para perceberem se tem ou não condições para isso. Nem todos tem.

Vários garotos perseguem o protagonista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o principal algoz dele, na fase Chiron, é o covarde Terrel (Patrick Decile) que, como muitos perseguidores, não tem coragem dele mesmo encarar a sua vítima. Ele utiliza outros garotos, sobre os quais ele exerce influência através do medo, para fazerem o “serviço”. Claro que a origem do problema está na educação que o jovem recebeu em casa, mas a escola também deveria coibir esse tipo de atitude. Quando o pior acontece e estendem a mão para Chiron, já é tarde. Evidente.

Barry Jenkins acerta ao apostar em um número reduzido de personagens. Desta forma a história pode se concentrar mais no protagonista e na relação dele com as pessoas que lhe cercam e que são importantes para ele. Isso torna a história ainda mais legítima porque sabemos que figuras tímidas e oprimidas como Chiron realmente tem, normalmente, poucas pessoas como as mais próximas.

Da parte técnica do filme, vale destacar, ainda, a edição de Joi McMillon e Nat Sanders, a maquiagem de Doniella Davy e de Gianna Sparacino, e os 18 profissionais envolvidos no departamento de câmera e elétrica. Eles são fundamentais para contar esta história como o diretor e roteirista Barry Jenkins a imaginou e idealizou.

Moonlight estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro de 2016. Depois, o filme participou de outros 15 festivais em vários países no período de dois meses. Em sua trajetória até agora o filme ganhou impressionantes 141 prêmios e foi indicado a outros 222.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e para nada menos que 22 prêmios como Melhor Filme; 19 conquistas de Barry Jenkins como Melhor Diretor; 31 prêmios como Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali; quatro prêmios para Naomie Harris como Melhor Atriz Coadjuvante; 11 prêmios para o conjunto do elenco e 11 prêmios como Melhor Roteiro. Impressionante.

Alguns podem se perguntar porque eu não dei uma nota 10 para esta produção. Olha, admito que foi por causa de detalhes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E quais foram estes detalhes? Pois bem, acho que o filme evitou de mostrar uma certa violência necessária. Qual é ela? Para Juan e Black se tornarem os chefes do tráfico que eles se tornaram, certamente eles tiveram que se impor de alguma forma. Esta parte da história foi deixada totalmente de lado. A morte de Juan é citada, mas não é explicada. Ok que a intenção do diretor e roteirista era mostrar o lado bacana destes personagens, mas acho que ele ignorou uma parte importante da história e isso fez com que eu não desse uma nota melhor para a produção.

Não comentei antes, mas achei especialmente bonito o final. Quando Kevin e Black se reaproximam, é algo potente e muito belo, especialmente quando Kevin coloca a música para Black ouvir. Quem sabe o amor não possa dar uma nova chance para o protagonista do filme, fazendo ele escolher um caminho diferente a partir deste encontro? Afinal, agora ele é um adulto e não precisa ter mais medo do que ele sente. Cada um pode imaginar o desenrolar do fatos usando a sua imaginação.

Esta produção foi totalmente rodada na Flórida, em locais como Miami, na Liberty City e na Miramar High School, em Miramar.

Moonlight teria custado US$ 5 milhões. Ou seja, é um filme de baixo orçamento se levarmos em conta o padrão de Hollywood. Apenas nos Estados Unidos o filme fez quase Us$ 15,2 milhões nos cinemas. Ou seja, já entrou na lista de filmes que estão fechando com lucro.

Antes de filmar Moonlight, Barry Jenkins tinha apenas sete títulos no currículo como diretor, sendo cinco deles curtas-metragens, um deles um episódio de série de TV e apenas um longa, o filme Medicine for Melancholy, de 2008. Ou seja, é um diretor relativamente “iniciante” e que merece ter o seu trabalho acompanhado, certamente.

Agora, algumas curiosidades sobre Moonlight. Quando Juan ensina Little a nadar, o ator Mahershala Ali realmente está ensinando o jovem Alex R. Hibbert a nadar, porque o garoto não sabia fazer isso até então.

Em uma entrevista, o diretor Barry Jenkins disse que os três atores que interpretam a Chiron não se conheceram durante as filmagens. Essa foi uma determinação do diretor, que queria que cada um deles construísse a sua própria versão do protagonista. A mesma tática foi usada com os atores que interpretam a Kevin. Aliás, não comentei antes, mas todos estes atores que interpretam a Kevin são ótimos – a citar, Jaden Piner, Jharrel Jerome e André Holland, respectivamente aos nove, 16 e na fase adulta.

Em algumas premiações o filme foi reconhecido como tendo o melhor roteiro original, enquanto em outros ele foi reconhecido como roteiro adaptado. Nas notas de produção eu entendi a razão disso. O roteiro original de Barry Jenkins é inspirado na peça que não foi produzida “In Moonlight Black Boys Look Blue” de MacArthur Fellow Tarell Alvin McCraney. Ou seja, o filme teve um material original no qual ele se inspirou mas, ao mesmo tempo, não é uma adaptação, até porque o original não chegou ao mercado. Pode ser, assim, classificado tanto de uma forma quanto de outra, dependendo do entendimento da premiação.

Moonlight foi rodado em apenas 25 dias entre outubro e novembro de 2015. A atriz Naomie Harris filmou toda a sua participação na história em apenas três dias, em um intervalo da divulgação de Spectre.

A exemplo do personagem de Chiron, o diretor Barry Jenkins também tinha uma mãe que era viciada.

Cerca de 80% da produção foi rodada em Liberty City, bairro de Miami que é considerada uma das áreas mais atingidas pela pobreza nos Estados Unidos. Inicialmente, a produção do filme ficou um pouco apreensiva por gravar no bairro, com receio pela segurança da equipe, mas tudo melhorou quando foi espalhado pelo bairro que o diretor Barry Jenkins, a exemplo de Tarell Alvin McCraney, era originário do bairro. A partir daí a comunidade acolheu e recebeu muito bem a equipe do filme.

A inspiração para a estrutura narrativa de Moonlight veio do diretor Hsiao-Hsien Hou em Zui Hao de Shi Guang, de 2005.

Moonlight marca a estreia de Alex R. Hibbert nos cinemas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para a produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 193 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente o nível de avaliação dos críticos surpreende e coloca o filme em um patamar muito difícil de ser batido no Rotten Tomatoes.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há tempos atrás.

CONCLUSÃO: Um filme potente e muito duro. Assim como a realidade de muita gente. Moonlight revela como o acosso de um jovem frágil e que não é protegido por quem ele deveria ser no momento mais importante pode resultar em cicatrizes duradouras. Apesar de ser muito duro, Moonlight também tem uma mensagem muito bonita e importante. De que não importa o que façam contra a gente, se mantivermos o nosso coração protegido, podemos seguir a vida respeitando quem somos apesar de tudo.

Em uma época em que ainda existe muita ignorância e perseguição de homossexuais, Moonlight faz pensar sobre a violência que é praticada contra aqueles que não entendemos. Afinal, para que tanta agressão? Por que para alguns é tão difícil respeitar o que é diferente de si mesmos? Filme sensível, forte e muito interessante. Das boas descobertas do ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Não tenho dúvidas de que Moonlight vai chegar bem na premiação da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Os indicados para a premiação deste ano vão sair na próxima terça-feira, e acredita que Moonlight tem boas chances de ser indicado em seis categorias.

Ele deve ser indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original, e tem boas chances de emplacar em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora. De todas estas categorias, vejo que as melhores chances do filme são mesmo em Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original, ainda que será uma dura tarefa da produção vencer ao favorito La La Land na categoria principal da premiação.

Da minha parte, sei que Moonlight é menos “vistoso” e tecnicamente mais “simples” que La La Land. Mas se vamos falar de história, do trabalho do elenco, de roteiro e da importância do que é contado, Moonlight é mais filme que La La Land. O musical é mais um de seu gênero. Bem feito, mas apenas isso. Moonlight não, ele trata de temas fundamentais e apresenta eles com muita força, tornando o filme um dos melhores entre os que entraram em temas tão áridos antes.

Preciso ainda assistir a Manchester by the Sea e a outras produções cotadas para o Oscar, mas até o momento eu acharia mais interessante e justo Moonlight ou mesmo Fences levar o prêmio de Melhor Filme do que La La Land. Mesmo achando isso, tenho quase certeza que a Academia vai preferir o musical, por tudo que ele representa para a indústria do cinema. Mas o meu voto, sem dúvida, iria para Moonlight.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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Our Kind of Traitor – Nosso Fiel Traidor

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Um filme de espionagem clássico. Até demais. Our Kind of Traitor resgata alguns dos elementos básicos de filmes de espionagem mas cuida para inserir alguns elementos novos. Para começar, saímos da esfera do jogo de poder entre governos para cair no jogo de poder financeiro que envolve mafiosos, bancos usados para lavagem de dinheiro e políticos. Como em outros filmes do gênero, um “homem comum” acaba ganhando protagonismo no jogo que envolve gente graúda. Um filme bem feito, com um elenco escolhido à dedo, mas que carece de um certo “tempero”.

A HISTÓRIA: Começa com um artista em movimento no ar. Em paralelo, dois amigos, Misha (Radivoje Bukvic) e Dima (Stellan Skarsgard) se encontram e se cumprimentam. No teatro em que o artista se apresenta, a esposa de Misha, Olga (Dolya Gavanski), e a filha mais velha dele, Anna (Mariya Fomina), assistem à apresentação artística. Misha assina documentos para O Príncipe (Grigoriy Dobrygin). A história é ambientada em Moscou. O Príncipe entrega para Misha uma arma que herdou do pai e conta uma história sobre ela.

Misha agradece ao presente e vai embora. Na estrada, Misha e a família param em um local em que um caminhão recolhe toras de madeira. Todos são mortos. Corta para Marraquech. Em um quarto, o casal Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris) aproveita a viagem romântica, mas há tensão no ar. Depois, antes de terminarem de jantar, Gail sai para trabalhar e deixa Perry sozinho. Observando a cena, Dima chama Perry para beber com ele e os amigos. Dima aproveita esta rara chance de conhecer alguém diferente de seu meio para se aproximar de Perry e depois pedir a ajuda dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a assistir quem já viu a Our Kind of Traitor): Esta produção segue à risca o estilo do escritor John le Carré, um dos mestres em tramas de espionagem. Para começar, o filme dirigido por Susanna White é ambientado em diversos países, começando por Moscou, seguindo para Marraquech, depois por Londres, Paris e o interior da França. Além dos personagens, nas tramas de Carré sempre são importantes os países e a geopolítica.

Os diferentes países incluídos neste filme ajudam a torná-lo mais “internacional” e interessante para quem gosta de “viajar” na história. O desenvolvimento de personagens feito pelo roteiro de Hossein Amini baseado na obra de John le Carré tem os seus acertos, mas sem dúvida alguma ele não chega perto de um livro do autor. Normal. No cinema realmente não há muito espaço para desenvolver a história de diversos personagens. E ainda que Our Kind of Traitor tenha um pequeno núcleo de personagens principais – a história gira, essencialmente, ao redor do casal Perry e Gail e da família de Dima, além de Hector, do Serviço Secreto Inglês -, ele tem um grupo respeitável de coadjuvantes.

Estes coadjuvantes, no entanto, não tem as suas histórias e relações bem desenvolvidas, explicadas ou resolvidas. São muitos personagens secundários para tratar em tão pouco tempo. Assim sendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre o momento delicado da relação de Perry e Gail e um pouco do estilo de Dima, e isso é praticamente tudo. Os personagens melhor desenvolvidos, sem dúvida, são o de Perry e Dima, e isso ajuda a explicar a relação dos personagens que, de outra forma, pareceria muito forçada.

Aliás, ajuda muito a fazer o espectador “engolir” a trama de Our Kind of Traitor o talento dos atores Ewan McGregor e Stellan Skarsgard. Especialmente o segundo é, geralmente, brilhante. Em algumas cenas-chave o espectador percebe que os dois, apesar de terem origem em realidades muito diferentes, tem alguns elementos em comum – ou pelo menos é isso que o personagem de Dima quer nos fazer acredita. Ambos, por exemplo, tem honra e defendem as mulheres independente do risco que isso pode significar para eles.

Aparentemente Perry é um sujeito que “se deixa levar”. Afinal, ele nunca tinha visto Dima pela frente e logo de cara aceita não apenas tomar um drinque com ele, mas acompanha-lo em uma festa e, depois, em uma partida de tênis. Eles se aproximam muito rapidamente e de forma um tanto “forçada” – se ignorarmos o talento dos atores e olharmos apenas para as situações, certamente parece um bocado exagerada a aproximação tão rápida dos dois. Perry se revela não apenas um sujeito que “se deixa levar” mas, também, uma pessoa crédula e de bom coração.

Ele é facilmente convencido por Dima não apenas a embarcar em seus convites, mas também a levar para ele uma mensagem para o Serviço Secreto Britânico. Dá para entender a estratégia dele. Como Dima mesmo diz, ele tem poucas oportunidades de ter contato com alguém que não seja controlado pelo Príncipe e por sua máfia russa. Se ele quer fugir disso, só lhe resta uma figura como Perry, crente, bom coração, ético e suscetível a embarcar em um pedido de ajuda desesperado.

Normalmente um sujeito como Perry compartilharia com a mulher o que está acontecendo. Uma rápida cena no início do filme e depois uma outra em que fica claro que os dois vivem uma situação complicada por causa de uma traição de Perry ajudam a explicar o porquê do professor universitário deixar a esposa “no escuro” durante a fase inicial do filme. Só assim para ele embarcar no pedido de Dima. Mas a partir da chegada deles no Reino Unido isso muda e Gail passa a fazer parte da trama – o que é algo interessante, porque dificilmente a mulher do “mocinho” é envolvida na história e tem um papel tão relevante.

Esta pode ser considerada uma “inovação” deste filme. O fato do mocinho ser um sujeito comum, por outro lado, não é exatamente nova. Afinal, em uma das obras-primas do grande Alfred Hitchcock, North by Northwest, de 1959, um sujeito comum também acaba sendo envolvido em uma intricada história de espionagem. A diferença é que Our Kind of Traitor não tem a direção de Hitchcock, com eletrizantes cenas de ação que marcaram uma época, e nem mesmo um gigante como Cary Grant como protagonista. O nível dos filmes é muito, mas muito diferente – veja o clássico de Hitchcock caso você ainda não tenha feito isso.

Então ter um “sujeito comum” como protagonista de uma intricada trama internacional de espionagem não é novidade. O que Carré e Amini tentam apresentar de novo é que o conflito, desta vez, não está exatamente entre espiões russos e americanos, ou do governo que for, mas entre mafiosos que se juntaram ao governo russo e que tentam controlar políticos de outro país – desta vez do Reino Unido – através de compra de votos para abrir um banco próprio para a lavagem de dinheiro. Ou seja, não é a questão política que domina o jogo desta vez, mas a questão econômica. Todos sabemos que o dinheiro reina no mundo e que a política perdeu força nas discussões, “corações e mentes” das pessoas, por isso não deixa de ser interessante ver esta mudança de direção em um filme do gênero.

No mais, a narrativa de Our Kind of Traitor é um bocado previsível. Ela segue uma linha lógica do início ao fim e com um ritmo até interessante e adequado. Mas o problema da história é justamente a previsibilidade dela. Não existe, como é indicado para um bom filme de ação e/ou espionagem, uma boa reviravolta na trama. Não. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A única “surpresa” da trama, que é a explosão do helicóptero, era uma bola cantada desde que vemos o sujeito mexendo nas engrenagens da aeronave e que Dima decide embarcar sozinho.

Então, infelizmente, apesar de Susanna White fazer um bom trabalho na direção, este filme não tem o desejado elemento surpresa. A trama é interessante, mas nada inovadora ou surpreendente. Tudo que esperamos acontece, e ninguém que parecia uma coisa é outra. Todos são o que eles se apresentam e fim. Se a história não surpreende, ao menos temos um bom grupo de atores para ver em cena. Neste sentido, além dos protagonistas já citados, vale destacar o bom trabalho de Damian Lewis, sempre lembrado por Homeland, como um agente importante do MI6 chamado Hector. Ele está muito bem no papel, assim como o seu parceiro Luke. Filme bem feito, mas que poderia ser melhor. Há outros exemplares do gênero melhores para serem conferidos. Vale procurar outras opções.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem muitas qualidades técnicas. Susanna White apostou em uma direção clássica, que busca o equilíbrio entre o foco nas atuações dos atores, valorizando o trabalho dos protagonistas, e a aposta em cenas de ação e que mostram as cidades em que a história se desenvolve. Nada demais, mas um trabalho competente. Da parte técnica, contudo, destaco a ótima trilha sonora de Marcelo Zarvos e a edição de Tariq Anwar e Lucia Zucchetti. Bom o trabalho também do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle.

Do elenco, destaque realmente para o ótimo trabalho de Stellan Skarsgard, seguido do trabalho competente de Ewan McGregor e de Damian Lewis. Eles são os destaques principais. Tem um trabalho bom, ainda que um pouco atrás dos citados anteriormente, Naomie Harris e Khalid Abdalla. Além deles, o filme tem um elenco respeitável de coadjuvantes.

Vou citar alguns deles – os que eu não liste até o momento: Carlos Acosta como o bailarino que abre a produção; Velibor Topic como Emilio Del Oro, braço direito do Príncipe; Pawel Szajda como o Matador de Olhos Azuis; Alec Utgoff como Niki e Marek Oravec como Andrei, dois russos da máfia que acompanham Dima; Jana Perez como Maria, que atrai Perry na festa; Emily Beacock como Irina e Rosanna Beacock como Katya, as irmãs gêmeas e órfãs de Misha; Saskia Reeves como Tamara, esposa de Dima; Mark Stanley como Ollie; Mark Gatiss como Billy Matlock, chefe de Hector; Alicia von Rittberg como Natasha, filha de Dima; e Jeremy Northam em um papel estranho e bem secundário como o congressista Aubrey Longrigg.

Our Kind of Traitor estreou em maio no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. A produção participou de outros dois festivais nos Estados Unidos: o de Seattle e o de Provincetown. E isso foi tudo. Ela não recebeu nenhum prêmio até o momento.

A explicação sobre o racha na máfia russa e o perigo envolvendo Dima e família foi resumido a apenas uma cena. Achei pouco. Certamente havia uma situação bem mais complexa no original mas que acaba muito diluída e superficial nesta produção.

Esta produção conseguiu, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3,15 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 6,7 milhões. Um bom resultado – ainda que não sabemos quanto o filme custou para, só assim, descobrir se ele está no azul e no lucro ou não.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, Our Kind of Traitor foi rodado em diferentes locações de Marrakech, no Marrocos; de Paris, na França; de Moscou, na Rússia; de Londres, no Reino Unido; de Pralognan-la-Vanoise, na França (as cenas na neve); de Bern, na Suíça; da Filândia e nos Alpes Franceses. Pela lista considerável de locais em que a produção passou, certamente este foi um filme caro de ser feito.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção. Uma avaliação razoável se levarmos em consideração o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 77 textos positivos e 32 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 71% e uma nota média 6. Bastante justo.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido e da França.

CONCLUSÃO: Para quem gosta de filmes de espionagem e não assistiu a mais do que um punhado deles até agora, este pode ser um bom exemplar. Para quem tem mais “experiência” em filmes do gênero, Our Kind of Traitor é “mais do mesmo”. Apesar de bem feito e de se esforçar em renovar um gênero já conhecido e um tanto desgastado, este filme carece de ao menos uma boa reviravolta na história ou de algum outro elemento surpreendente. Não há inovação nesta produção, seja em estilo, seja em roteiro. Temos apenas um tipo de espionagem requentada e um pouco modificada para os dias atuais, mas sem nenhuma grande surpresa na trama. Filme morno. Se tiveres uma opção melhor para assistir, talvez seja uma boa apostar nesta outra alternativa.

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Southpaw – Nocaute

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Tem filmes que você procura por causa das pessoas envolvidas – o diretor, os atores, ou todo o conjunto da obra. Outros, pela temática. Southpaw me interessou pelo primeiro caso. Gosto do ator Jake Gyllenhaal. Venho acompanhando a carreira dele desde Donnie Darko. Depois, descobri que se tratava de um filme sobre boxe. Pois bem, se você gosta de boxe, do ator e do diretor, há grandes chances de gostar deste filme, mesmo ele tendo uma história bastante previsível. Agora, se você não gosta destes elementos ou de parte deles, avalie bem o risco de assistir a Southpaw e não gostar do que você vai ver. Porque aqui não há surpresas, ou inovação. Apenas uma narrativa conhecida mas bem contada.

A HISTÓRIA: Sonzeira no fone de ouvido e para os espectadores escutarem enquanto a mão de Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é enfaixada. Os juízes se certificam que tudo está sendo feito dentro das regras. Diversas pessoas estão ao redor de Billy e do comitê da luta, incluindo o agenciador Jordan Mains (50 Cent). Depois dele ser preparado e de tudo ser conferido, entra no local Maureen Hope (Rachel McAdams), mulher de Billy. Ela diz que ele está preparado e pede para que o marido não seja muito atingido. Corta. Com bastante sangue no rosto e um bom corte no olho, vemos Billy em ação. Ele não se defende muito, mas bate bem e acaba vencendo Jones (Cedric D. Jones) por nocaute. Na volta para casa, Maureen diz para o marido que ele deve se preparar para parar de lutar. Eles não sabem, mas em breve todos os planos da família vão mudar radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Southpaw): Sempre tive um fraco pelo boxe. Sou do tempo em que este esporte passava na TV e mobilizava uma massa considerável de pessoas para assistir figuras como Mike Tyson e Evander Holyfield. Importante comentar isso para explicar porque Southpaw me interessou. Filme com diversos lugares-comum, é verdade, mas que vale pelo trabalho do diretor e, principalmente, se você é fã de Jake Gyllenhaal.

Esta produção, como comentei antes, não inova. Ela segue aquela velha fórmula de filmes do gênero desde Rocky Balboa de um lutador de boxe que veio do zero, que era pobre, mas que se fez na vida pela própria garra e determinação. Até que ele tem um revés importante na vida, perde tudo, e tem que provar novamente que consegue se reerguer. Sim, meus caros, tudo isso está neste filme também.

Mas mesmo sendo bastante previsível – afinal, alguém duvida que o protagonista dará a “volta por cima” depois da tragédia? – este filme funciona. Por que? Primeiro, por causa da entrega de Jake Gyllenhaal. Sem dúvida alguma o ator é o melhor da produção. Depois, porque o diretor Antoine Fuqua entende bastante do seu ofício. Ele preza por uma direção próxima dos atores e o mais “naturalista” possível. As cenas de boxe são realistas – muito mais do que as do tempo de Rocky Balboa. Nos sentimos como audiência de lutas para valer.

Depois, o roteiro de Kurt Sutter, ainda que cheio de lugares-comum, não alivia em mostrar as dificuldades do protagonista para manter a cabeça no lugar. De fato, e isso ele vai aprender só quando começa a treinar com Tick Wills (o sempre ótimo Forest Whitaker), o que ele precisa dominar é a sua própria explosão. Um ensinamento válido para todos nós. Conhecer-se a si mesmo e saber como controlar-se é um dos grandes desafios para a vida.

Este é um dos acertos do filme. Outro é mostrar como a noção de família persiste apesar das perdas e do desespero. A filha de Billy Hope não sabe lidar com tudo que está acontecendo e passa a ter raiva do pai depois que ele perde o controle e a guarda dela. Dá para entender a reação da menina, assim como parece crível o que ele pensa como saída. Ele só conhece o boxe e procura em um novo confronto se reerguer. Não só não há caminho fácil para essa “redenção” como o cenário ao redor dele segue agreste – prova disso é o menino Hoppy (Skylan Brooks).

A referência de vida e de segurança de Billy é a mulher Maureen. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele fica perdido quando ela morre. E ainda que, em algum momento, a própria filha lembra ele com palavras duras de que ela também perdeu a mãe, ele não tem equilíbrio para saber lidar com aquela ausência. Depois de ser afastado da filha é que ele começa a correr atrás do prejuízo. O restante… bem, já sabemos por onde a banda vai tocar. Mesmo assim, devo admitir que o final é emocionante. Não pelo resultado da luta mais que esperado, mas pela manifestação de amor que ele tem por Maureen após a redenção. São histórias de amor assim que alimentam o cinema.

Além da história de amor e de recomeço que perpassa todo o filme, o que me agradou nesta produção foi o trabalho dos atores e do diretor, além da busca por um certo tom “realista” da produção. A vida é agreste, para muita gente, mas sempre há espaço para buscar o lugar ao sol. O boxe e outros esportes são prodigiosos em exemplos assim, de pessoas que dão o sangue e a vida para se superarem e vencerem. Isso me emociona e me agrada. Mesmo em um filme que parece carecer, muitas vezes, de um pouco mais de inovação.

Essa avaliação, claro, leva em conta que já assisti a vários filmes de boxe. Para as novas gerações e para quem não cresceu com produções de cinema sobre este tema e nem vendo o esporte na televisão, talvez esta produção seja mais surpreendente e inovadora. De qualquer forma, seja por uma ótica ou outra, o fato é que este filme é bem acabado e realista. Qualidades importantes para produções do gênero.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez você, caro(a) leitor(a), pode estar estranhando eu falar de Southpaw apenas agora. O filme estreou há algum tempo no Brasil é verdade. Eu assisti a essa produção há duas ou três semanas, mas só agora consegui parar para escrever sobre ele. Por isso essa demora. Não lembro com toda a perfeição da história, como se a tivesse assistido hoje, ontem ou nos últimos dias, mas a lembrança principal ficou.

O roteirista Kurt Sutter faz um trabalho apenas mediano se levarmos em conta os outros filmes que tem o boxe como pano de fundo principal. Mas ele acerta ao dedicar tempo para revelar a personalidade e um pouco da origem do protagonista, além de contar um pouco da história dos outros personagens. Há espaço para ótimas cenas de ação, ainda que o grosso da história seja o drama particular de Billy Hope. O roteiro é morno, mas o trabalho do diretor Antoine Fuqua não deixa o espectador ficar com sono.

Se Southpaw tem ritmo, parte do mérito é de Fuqua, e a outra parte do editor John Refoua. Os dois juntos registram com precisão os bastidores do boxe e da vida de quem vive do esporte, imprimindo o ritmo correto com a ajuda da trilha sonora marcante e bem planejada por James Horner.

A direção de fotografia de Mauro Fiore é outro elemento importante para a construção da identidade deste filme. Durante boa parte do tempo as imagens são um bocado escuras, com os momentos mais iluminados restritos ao ringue e a festa de arrecadação de fundos para a instituição em que o protagonista cresceu. Desta forma, é como se os realizadores deixassem claro o contraste entre a aridez da vida real e a superficialidade iluminada do circo que se monta ao redor do esporte. Interessante.

Para mim, o nome forte deste filme é o de Jake Gyllenhaal. Ainda que, admito, acho que algumas vezes ele exagera na cara perturbada, mas acho que ele realmente se esforçou em encarnar o personagem, dando legitimidade para a história. Além dele, merecem destaque o sempre excelente Forest Whitaker que, aqui, imprime a dignidade e o espírito de “não ser comprado” na medida certa; Rachel McAdams que, mesmo não aparecendo tanto na história, deixa as suas digitais logo no início e “paira” durante todo o filme na memória não apenas do personagem de Billy, mas também na do espectador; e a jovem Oona Laurence se sai bem como Leila Hope, filha de Billy e Maureen. A garota parece uma pequena prodígio e reage da maneira certa nos diferentes momentos da produção. Belas escolhas.

Falando em Jake Gyllenhaal, fiquei impressionada com o físico do ator. Quanta diferença daquele magrelo de Donnie Darko! Para mim, o papel de pugilista caiu como uma luva para ele. E não sei vocês, mas acho que ele está cada vez melhor – como um vinho envelhecido. Vale acompanhá-lo!

Entre os coadjuvantes do filme, acho que Naomie Harris faz um bom papel como a assistente social Angela Rivera – ainda que aquela sequência dela acompanhando Leila nos bastidores da luta tenha sido forçada demais; Miguel Gomez como Miguel “Magic” Escobar, o grande adversário de Billy, cumpre o seu papel – ainda que ele seja beeeem fraquinho em termos de interpretação; e Beau Knapp como Jon Jon, um dos poucos amigos que não abandonam Billy quando ele está “na pior”, também faz o seu – sem grande destaque porque o próprio papel dele era assim.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale comentar o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto de 11 profissionais e os figurinos acertados de David C. Robinson.

Southpaw estreou em junho no Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China. Depois, em agosto, o filme participou do Festival de Cinema de Locarno. E isso foi tudo. O único roteiro de prêmios da produção. Cá entre nós, fica meio evidente o porque disso – extremamente comercial e sem inovação, o filme não foi feito para o circuito de festivais mesmo.

Esta produção teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 51,8 milhões. Se juntar o desempenho em outros mercados, certamente o filme conseguiu registrar lucro.

Para quem gosta de saber sobre a locação das produções, Southpaw foi rodado em diferentes locais de Indiana, Pennsylvania (Pittsburgh e Washington) e em Las Vegas, Estado de Nevada. Ou seja, totalmente filmado nos Estados Unidos.

O MMA virou a última mania mundial de lutas. Mas, pessoalmente, eu achava muito mais interessante quando o boxe estava no auge. Ainda que, todos sabemos, e este filme acerta ao citar isso, o esporte decaiu justamente quando virou uma indústria e começou a ter o dinheiro como o verdadeiro juiz. Uma pena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: como Antoine Fuqua tinha um dinheiro bem restrito para esta produção – ainda que eu não achei US$ 30 milhões insignificante -, ele acabou não tendo grana para pagar a trilha sonora de James Horner. Mas o compositor veterano gostou tanto da história que teria feito o trabalho “na faixa”. Esse foi o último filme feito por Horner antes dele morrer em um acidente de avião em junho deste ano.

No início, o papel principal deste filme seria feito por Eminem. O rapper aceitou e começou a estrelar o filme, mas como a produção foi “congelada” por um tempo, Eminem resolveu focar na carreira musical e quando o filme voltou a ser rodado ele foi substituído por Jake Gyllenhaal. Claro que Eminem, a exemplo de 50 Cent, daria um “tempero” para a história mas, francamente, Jake é muito mais ator – sorte do público que houve essa troca.

Jake Gyllenhaal estudou o estilo do pugilista Miguel Cotto para construir o seu personagem.

Este é o primeiro roteiro de Kurt Sutter. Muito se explica. Torcemos para que ele evolua e fique melhor com o tempo.

A Universidade da Pensilvânia foi utilizada para simular os ringues de Las Vegas e de Madison Square Garden.

A música que aparece na parte final do filme, Wise Man, de Frank Ocean, foi originalmente escrita para o filme Django Livre, de Quentin Tarantino, mas como o diretor não conseguiu encaixá-la naquele filme, ela entrou agora na produção dirigida por Fuqua.

O título do filme faz referência à posição de mesmo nome adotada por um pugilista canhoto. A mesma expressão é usada também para falar de um lutador canhoto. Curioso que Jake Gyllenhaal é destro e o seu personagem também luta desta forma, até a estratégia final da luta decisiva. Eminem, por outro lado, é canhoto – o que faria o título do filme fazer mais sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Acho que eles se empolgaram com o ator e a direção tanto quanto eu – dando um bom desconto para o roteirista estreante. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por outro lado, foram mais “honestos” com a produção, dedicando 111 textos positivos e 76 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 59% e uma nota média 6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme com estilo, ainda que o roteiro seja fraco e previsível. Os pontos fortes são o trabalho dos atores e o estilo do diretor, que aposta em uma levada “realista”, seja nas cenas das lutas, seja na rotina do protagonista. O filme acerta ao mostrar os desafios de quem tenta viver do boxe e na origem de muitos pugilistas. O caminho é de pedras, mas com a motivação certa é possível superar cada uma delas. Southpaw nos lembra de valores importantes e entretém nas lutas ao mesmo tempo em que mergulha na história do protagonista. Se você gosta de boxe e de Jake Gyllenhaal, provavelmente vai apreciar esta produção.