The Favourite – A Favorita

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Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

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Mad Max: Fury Road 3D – Mad Max: Estrada da Fúria 3D

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A expectativa sobre um filme, um relacionamento ou um emprego é sempre algo ruim. Devemos viver sem ilusões, procurando conhecer como as coisas são sem fantasiar antes, durante ou depois. Dito isso, admito que eu tinha grandes expectativas para Mad Max: Fury Road e, possivelmente por esta razão, me frustrei com o resultado.

Fora os minutos iniciais de muita adrenalina e a construção visual do filme, sobra pouco para passar o tempo. Tanto que acabei cochilando em alguns trechos e, tudo indica, não perdi nada. História e roteiro contam pouco aqui. Adrenalina, infinitas cenas de ação e uma ótima fotografia são as protagonistas. Se você gosta disso, se jogue. Se não, procure um filme melhor e que tenha roteiro.

A HISTÓRIA: Ronco de carro. Uma voz se apresenta como Max (Tom Hardy), e afirma que o seu mundo é feito de fogo e sangue. Em seguida, o áudio de notícias explica como o mundo ficou caótico: primeiro com as guerras pelo petróleo, depois, pela água. O protagonista comenta que, um dia, ele foi um policial, mas que depois o mundo e a humanidade foi desmoronando, até que, agora, ele apenas sobrevive assombrado por vivos e mortos. Max aparece, apenas para, em seguida, ser perseguido por um bando em busca de sangue. Ele é levado para o reino de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), aonde acompanha a rebelião liderada por Imperator Furiosa (Charlize Theron).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mad Max: Fury Road): Antes de mais nada, meus bons leitores, quero pedir desculpas pela ausência. Tive meses de muito trabalho duplo – no jornal em que eu trabalho e também em casa, terminando uma novela particular nos estudos. Agora, finalmente, consigo começar a retomar o blog.

Importante comentar que eu comecei este texto ainda em maio, quando o filme estava em cartaz. Então, serei franca, que não lembro de todos os detalhes da produção, mas vou comentar os pontos principais. Para começar, devo dizer que filmes e personagens que marcaram época não deveriam ser revisitados, exceto se for para apresentar algo melhor. Fui ver este filme com o Mad Max original, de 1979, na cabeça.

Imaginem comigo que nada menos que 36 anos separam aquela produção dirigida por George Miller desta nova versão também dirigida por ele. O que aconteceu com o mundo, com a compreensão da humanidade sobre os recursos naturais e com o próprio cinema neste tempo todo? As mudanças não caberiam neste blog. O cinema, em especial, evoluiu muito tecnicamente, inclusive com direito ao cada vez mais presente 3D. Inclusive fui conferir este filme nesta versão.

Essa mudanças todas fizeram este Mad Max versão 2015 ficar melhor que o original? Em termos de história, com certeza não. O Mad Max de 1979 explorava muito mais a loucura das pessoas e as relações (des)humanas. Já naquele ano o olhar louco que marcaria Gibson começava a se revelar, e o ator mostrava a capacidade de demonstrar diversas nuances de seu personagem. Diferente de Tom Hardy, que apesar de ter aquele perfil durão e implacável, carece de habilidade para mostrar as nuances necessárias do personagem.

Se o protagonista e a história de 1979 eram melhores – ainda que com bem menos ação, é verdade – , outros aspectos técnicos da versão 2015 conseguem ganhar um certo protagonismo. O destaque principal vai, sem dúvida, para a direção de fotografia de John Seale. Esse é o ponto forte da produção, sem sombra de dúvida. Assim como os primeiros minutos do filme, que são de pura adrenalina. Primeiro, Miller aposta em uma clássica perseguição de carros. Depois, em uma tentativa de fuga de Max e uma consequente perseguição humana.

Se Hardy não tem expressividade, a protagonista feminina da história faz diferente. Logo após a segunda captura de Max, aparece em cena Charlize Theron. Ela sim, consegue imprimir emoção em sua destemida e também hardcore personagem. Ela brilha mais que o ator que faz Max, o que não deixa de ser um sinal dos tempos para esta grife de filmes. Nos primeiros minutos da produção também fica claro o tom rock’n roll de Mad Max: Fury Road.

Passado os minutos iniciais, o problema é o que vem na sequência. Não demora muito para percebermos que Imperator Furiosa se rebelou e que, com essa fuga, ela passou a ser o alvo do exército de Immortan Joe. E para onde ela e as outras mulheres que ela está levando junto com ela estão indo? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para um lugar que é para ser o Paraíso, aonde elas possam viver bem e em paz, longe da escravidão de Immortan Joe. E aí que o filme inteiro é a tentativa delas de encontrar este lugar e, depois de verem que o Paraíso não existe, retornar para o ponto de partida.

Claro que tudo isso é uma desculpa para inúmeras cenas de perseguição, porrada e violência. Mas inevitável perguntar: ok, tudo isso para mostrar um grupo de mulheres apoiada por poucos homens tentando a libertação e descobrindo que o “lugar prometido” não existe? Durante o filme, me pareceu evidente uma pegada feminista no roteiro de Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris. Afinal, são as mulheres que se rebelam, que carregam a ação nas costas e que acabam sendo a esperança do povo esfomeado em busca de migalhas de pão e de um pouco de água.

Com um pouco de criatividade, é possível imaginar que os roteiristas quiseram passar uma mensagem de rebeldia da figura materna, por muitos plasmada na Mãe Terra, diante de tanta cobiça e dominação dos homens – simbolizados por Immortan Joe. O próprio nome deste personagem poderia brincar com a ideia equivocada dos homens – enquanto Humanidade – de busca pela imortalidade sem saber que, neste tentativa, eles estão acabando com os recursos naturais e com a própria vida.

Claro que é preciso imaginação para pensar em tudo isso. Mas essa criatividade ajuda a deixar a história repetitiva e arrastada, apesar da ação constante – mas sem novidade – um pouco mais interessante. No mais, o filme poderia ser bem mais curto – quem sabe, até um curta. Comparado a outros filmes 3D, achei que esse recurso foi pouco utilizado na produção. A direção de fotografia continuou sendo o mais interessante, assim como inúmeras cenas com efeitos especiais de explosões e perseguições. Pena que apenas isso não torne o filme além de mediano.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para explicar esse novo Mad Max, é importante observar quem está à frente da produção: George Miller. Esse diretor australiano de 70 anos tem 16 filmes, curtas e séries no currículo. Depois de dirigir dois curtas em 1971, ele estreou nos longas justamente com o Mad Max de 1979.

Depois daquele primeiro filme estrelado por Mel Gibson, Miller fez outros dois filmes da grife até enveredar por outro caminho com filmes bem diferentes como The Witches of Eastwick, que marcou os anos 1980; o sentimental Lorenzo’s Oil; e os bonitinhos Babe: Pig in the City e Happy Feet.

Nenhum deles, contudo, com o impacto de Mad Max. Não por acaso o diretor voltou à sua grife de sucesso agora. Depois do filme de 2015, o diretor já está planejando a sequência, atualmente chamada de Mad Max: The Wasteland. Sem data ainda para estrear, o filme seria novamente estrelado por Tom Hardy e Charlize Theron.

Agora, algumas curiosidades sobre o Mad Max original e esta repaginada com outra configuração e levada de 2015. Os roteiristas da versão original foram outros: James McCausland e Byron Kennedy, junto com Miller. Além do diretor, um outro nome envolvido nos dois projetos foi o ator Hugh Keays-Byrne, que em 1979 interpretou ao vilão Toecutter e, agora, ao vilão Immortan Joe. No filme original ele teve bem mais trabalho na interpretação do que nesta última produção. O ator indiano de 68 anos tem 46 trabalhos no currículo e apenas um prêmio pelo trabalho em Rush, de 1974.

A direção de fotografia deste novo Mad Max é tão expressiva que conseguiu inspirar diversos artistas gráficos que não apenas criaram utilizando o estilo do filme, como inspirou fotógrafos e diversas empresas para fazer produtos com o novo estilo do filme.

Vale saber um pouco mais sobre o diretor de fotografia John Seale. Australiano que vai completar 73 anos de idade no dia 5 de outubro, Seale tem 42 produções no currículo e um Oscar, além de outros 20 prêmios. O Oscar ele recebeu pela direção de fotografia de The English Patient. Para o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ele foi indicado outras três vezes: por Witness, em 1985; Rain Man, em 1988; e Cold Mountain, em 2003. Uma de tantas referências na área e que merece os nossos aplausos.

Além da direção de fotografia e das ótimas cenas de ação, especialmente da sequência inicial do filme, Mad Max: Fury Road tem como uma de suas grandes qualidades a trilha sonora de Junkie XL, nome artístico do holandês Tom Holkenborg; a maquiagem importantíssima com 46 profissionais envolvidos; para a edição de Margaret Sixel; e para o design de produção de Colin Gibson. Há quem tenha gostado dos figurinos do filme, por isso vale citar quem assina esse trabalho: Jenny Beavan.

O elenco deste filme é muito, mas muito fraquinho. Charlize Theron salva a lavoura. Além dela e dos atores já citados, o filme é composto por meia dúzia de belas atrizes, do estilo modelo e com pouca variação interpretativa, e alguns atores que fazem caras de loucos e de maus antes de morrerem. Vale citar, do elenco, por terem mais destaque na trama, Nicholas Hoult como Nux (que vira-a-casaca lá pelas tantas, deixando de seguir o guru imortal para defender a mulherada desprotegida); Josh Helman como Slit; Nathan Jones como Rictus Erectus; Zoë Kravitz como Toast the Knowing; Rosie Huntington-Whiteley como The Splendid Angharad; Riley Keough como Capable; Abbey Lee como The Dag; e Courtney Eaton como Cheedo the Fragile.

Mad Max: Fury Road teve première na Califórnia no dia 7 de maio. No dia 13, a première foi em Sydney – no mesmo dia a produção estreou na Bélgica e na Jamaica. Nos dois dias seguintes o filme estreou massivamente em dezenas de países, inclusive no Brasil.

Esta foi uma produção milionária, de fato. Mad Max versão 2015 teria custado cerca de US$ 150 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme faturou US$ 151,15 milhões e, nos outros mercados, mais US$ 216 milhões. Ou seja, no total, cerca de US$ 367,15 milhões. Conseguiu se pagar e obter um pouco de lucro – já que não deve ter saído barata a divulgação mundial massiva como ele teve. Para comparar, o Mad Max original conseguiu US$ 8,75 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos – em um tempo em que este valor era bem significativo.

Para quem se interessa sobre as locações dos filmes, Mad Max: Fury Roda foi rodado principalmente no Deserto da Namíbia, mas teve cenas rodadas também em estúdios na África do Sul e na Austrália.

Esta é uma produção da Austrália e dos Estados Unidos.

Antes que alguém me interprete mal e venha aqui dizer: “Ah, mas você não gostou do filme porque você não gosta de filmes de ação e/ou pós-apocalípticos”, deixa eu tornar a questão mais clara. Meu problema com este novo filme não é apenas porque tenho uma lembrança melhor do Mad Max original – que, apesar de ser um pouco enrolado no desenvolvimento, valoriza muito mais a relação entre os personagens e a loucura que começa a tomar conta das pessoas -, mas porque eu não gosto de filmes sem história e que são pretensiosos.

Vou dar um exemplo: gostei mais de The Expendables 3 (comentado aqui) do que deste Mad Max: Fury Road. Os dois filmes são, declaradamente, de ação. Existem para isso, para um desfile de cenas de perseguições e afins. A diferença é que The Expendables 3 deixa claro que existe só para isso e o roteiro tira sarro do próprio gênero. Há “penso” e despretensão no filme. Mad Max: Fury Road se leva muito a sério e tenta ser icônico. Nada mais chato, para o meu gosto.

Além disso, assistindo a produtos como The Walking Dead (HQ e série de TV), que se passam em um ambiente pós-apocalíptico mas que vão muito além de uma história de zumbis versus humanos, explorando bem os sentimentos humanos e a desumanização das pessoas conforme a rotina vai se tornando cada vez mais cruel e sem esperança, Mad Max: Fury Road parece um retrocesso por não ter nenhum aprofundamento deste gênero.

Como em outros casos, a minha opinião parece não acompanhar a da maioria. Prova disso é que os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para este filme, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 273 textos positivos e apenas cinco negativos para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8,8. Nota essa, diga-se, bem acima da média para o site.

Antes que eu me esqueça: algo importante que fez eu não gostar tanto deste Mad Max é porque eu fui para o cinema com grandes expectativas. Amigos meus tinham visto a produção antes e achado ela incrível, fazendo bastante propaganda… fui seca, achando que eu veria algo inesquecível, mas rapidamente vi que não seria nada disso. Daí o cansaço bateu, e eu pesquei durante a exibição – algo que não é nada comum. Por isso, meus caros, tentem não ter expectativas antes de ver um filme. Agora, da minha parte, vou tentar manter esse blog mais atualizado. Mudando de foco da próxima vez. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que dá voltas ao redor do próprio rabo e que não se cansa disso. Ou, em outras palavras, uma história que poderia ser contada em meia hora. Mad Max: Fury Road tem um ótimo começo e um final edificante mas o recheio deixa a desejar. Como comentei na introdução desta crítica, apenas a fotografia, algumas cenas de ação e, para quem gosta de rock, a trilha sonora valem o esforço. Mas se tens pouco tempo para ver um filme, recomendo procurar uma produção melhor. Para quem lembra do Mad Max original, que marcou a carreira de Mel Gibson, não há dúvidas: aquela história foi muito melhor.