The Favourite – A Favorita

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Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

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The Lobster – O Lagosta

Uma alegoria sobre as relações interpessoais de uma sociedade preto no branco e com uma boa dose de nonsense. The Lobster exagera em seus argumentos e no desenvolvimento da história para nos fazer pensar sobre os padrões estabelecidos, sobre sociedades muito regradas e, de quebra, nos apresenta uma história de amor inusitada. Um filme criativo, sem dúvida, mas que não chega a mexer com o espectador. Algumas vezes o exagero faz isso. Faz pensar, mas não nos cativa.

A HISTÓRIA: Uma mulher dirige um carro na chuva. Ela está atenta à paisagem e para em determinado ponto. Ela sai do carro, caminha alguns passos em direção a um pasto e dá três tiros contra um asno. Um outro animal próximo olha tudo e se aproxima lentamente do animal abatido. A mulher volta para o carro. David (Colin Farrell) está sentado no sofá e ouve um “sinto muito” da mulher. Ele pergunta se ele usa óculos ou lentes, e ela responde que óculos. Em seguida, David e o seu cachorro/irmão são levados da casa. Ele chega no hotel e faz o seu cadastro, logo sendo apresentado para as regras do local. Esta é a primeira vez que ele fica sozinho e terá pela frente uma série de desafios por causa disso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Lobster): Pouco a pouco o espectador vai entrando no mundo “maluco” criado pelos roteiristas Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou. Se bem que, depois que o filme termina, você fica pensando que o nonsense da história não é tão nonsense assim. Vamos falar sobre isso.

Quando The Lobster começa, percebemos que o protagonista foi abandonado pela mulher (que não aparece em cena), que encontrou alguém mais “interessante” que ele. A saída para David (Colin Farrell) é ir para um “hotel” que tem regras muito claras. Aparentemente, todo mundo que fica sozinho na “cidade” é levado para aquele hotel.

Ali, a pessoa tem duas opções: ou consegue arranjar alguém compatível e dar certo com esta pessoa em um determinado período de tempo ou, no final do prazo, a pessoa escolhe um animal para se “transformar” nele e, nesta nova condição, tentar ter um futuro melhor. Para alongar o período que a pessoa tem no hotel e aumentar as chances de conhecer alguém compatível, a pessoa participa em grupo de caçadas em que para cada pessoa “solitária” abatida, o caçador ganha um dia a mais de permanência no hotel.

Lendo estas linhas e vendo o filme sem interpretação, The Lobster parece um bocado absurdo, não é mesmo? Mas como a narrativa é lenta, durante a experiência de assistir a produção já começamos a refletir sobre as mensagens que o diretor e roteirista Lanthimos quer nos passar. Primeiro, vejo que ele exagera na narrativa para fazer os espectadores se questionarem sobre a sociedade em que vivemos. Para a maioria parece realmente que só faz sentido se uma pessoa encontrar a outra em viver em “casal”. Os que decidem fugir deste padrão são considerados “párias” sociais, não é mesmo?

Claro que cada vez mais, nas nossas sociedades modernas, o solitário acaba sendo aceito porque este perfil foi aumentando com o passar do tempo. Mas o padrão das sociedades ainda é de homem e mulher que formam um casal e, preferencialmente, tem filhos. As razões para defender este padrão são tão primárias quanto aquelas mostradas pelos administradores do hotel desta produção. Além disso, Lanthimos e Filippou brincam com alguns outros conceitos sociais muito interessantes.

De várias tiradas que The Lobster apresenta, me chamaram atenção duas. A primeira é que quando um “protótipo” de casal começa a ter problemas de convivência, como discussões e desentendimentos, eles podem receber dos administradores um “filho” para amenizar os problemas. Na vida real, infelizmente, muitos casais tem esta mesma leitura. Que um filho poderá resolver o que eles não conseguem sozinhos. Ter um filho por este motivo nunca é uma boa ideia.

A outra tirada interessante da produção é a lógica com que vivem os “solitários”. Não vivem sob regras rígidas apenas aqueles que estão no circuito do hotel. Os “párias” que vivem refugiados na floresta também estão sob regras rígidas. Eles podem até conversar e ter uma interação básica, mas não podem ter relações sexuais ou muito próximas. Nas festas, por exemplo, cada um dança música eletrônica com o seu próprio fone de ouvido e aparelho. Piada sobre os solitários que vivem em festas e em tantas outras partes de forma realmente individualista.

Analisando o comportamento dos personagens, todos são um bocado mecânicos. Não apenas as pessoas envolvidas na dinâmica do hotel, mas também aqueles que buscam ali uma nova oportunidade de seguir sendo “humano”, agem de forma pouco natural. As conversas são estranhas, assim como as atitudes. Para um casal ter chances, ele deve ter um elemento que os “define” em comum. Se um homem manco não encontra uma mulher que também seja manca, ele forja um problema de sangramento no nariz para combinar com uma garota que tem a mesma condição.

Ainda que todos, aparentemente, lidem bem com a ideia de serem transformados em animais se não conseguirem um(a) parceiro(a) em tempo hábil, a verdade é que todos parecem um tanto desesperados ou para ganhar mais tempo através da caça de solitários ou forjando semelhanças que não existem para fazer um casal. Vale também analisar esta ideia das pessoas serem “transformadas” em animais caso elas não sejam mais “úteis” como humanos (e a utilidade só existe se você vive como casal).

A ideia de The Lobster é que se uma pessoa não pode ser útil formando um casal, ela pode ganhar nova utilidade se transformando em um animal. Nesta circunstância ela poderá procriar, ajudar a aumentar a população de uma espécie em risco de extinção ou até ter uma “serventia” para outros humanos, seja como animal doméstico, seja como comida. Daí paro para pensar no início desta produção. Aquela mulher estaria se “vingando” de um ex-marido ou de outro tipo de desafeto? Bem possível. 😉

Engraçado como o protagonista acaba fazendo o mesmo que um colega e mentindo para tentar conseguir uma parceira no hotel e, depois que o plano dá errado, ele se lança para a vida solitária sem querer, na verdade, viver aquela realidade. No início ele até aceitou bem as regras dos solitários, mas quando conheceu uma mulher que era míope como ele, eles se apaixonaram. A partir daí, eles não podiam ser mais aceitos naquele grupo. Ao invés de serem expulsos, eles foram penalizados.

Isso faz pensar como determinados grupos – e isso é algo bastante atual – tem uma grande dificuldade de aceitar pessoas que tenham um padrão diferente. A resposta deles para os “rebeldes” é, geralmente, uma penalização grave, desde o banimento até a morte. Simplesmente os que são diferentes não são aceitos – e isso vale, na viagem deste filme, tanto para os que não formam casais quanto para aqueles que formam, dependendo se falamos do povo do hotel ou da floresta.

No fim das contas, David se vê obrigado a mutilar a si mesmo para que ele e a sua nova mulher tenham uma chance na cidade, onde as pessoas só são aceitas como casais. E é regra básica de qualquer casal ter “o que define o indivíduo” em comum. Com isso, Lanthimos e Filippou nos fazem refletir sobre como qualquer radicalismo e como qualquer sociedade cheia de regras é daninha, mortal. Deveríamos todos trabalhar para a inclusão das pessoas, e não para a exclusão. Um filme interessante, com um roteiro bem inusitado para nos fazer pensar sobre conceitos importantes. Só achei ele um pouco longo e com um desenvolvimento um tanto arrastado. Poderia ser mais curto e um tanto mais direto nos pontos centrais.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fazia tempo que eu não via o ator Colin Farrell em uma interpretação tão interessante. Ele exagera nas caras e bocas e nem faz uma interpretação caricatural – o que volta e meia ele apresenta. Não. Em The Lobster Farrell está coerente e em uma interpretação sem exageros e na qual é possível acreditar no personagem. Ele humanizou uma figura bem diferente do usual. O espectador agradece.

Além de Colin Farrell, The Lobster tem alguns grandes atores em papéis secundários. Deste elenco “de apoio”, destaque para Rachel Weisz como a narradora e a nova parceira que o protagonista encontra na floresta, entre os solitários; John C. Reilly como o “homem que sibila” e que vira amigo de David no hotel; Léa Seydoux como a maluquete líder dos solitários; Michael Smiley como o braço direito da líder dos solitários; Olivia Colman como a gerente do hotel; Ashley Jensen como a mulher do “biscoito” e que se desespera por não conseguir um companheiro; Angeliki Papoulia como a “sem coração” que é a psicopata que David resolve enganar sem sucesso; Garry Mountaine como o parceiro da gerente do hotel; Ariane Labed como a camareira que é “agente dupla”; Ben Whishaw como o jovem manco que finge ter o mesmo problema de uma jovem para fazer um casal com ela; e Jessica Barden como a jovem garota que tem um problema com o nariz que sempre sangra.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Yorgos Lanthimos. Ele soube explorar bem a interpretação dos atores e também os cenários restritos em que eles se movimentam. Só achei o filme um tanto longo demais. Alguns trechos menos relevantes para a história poderiam ter sido perfeitamente cortados. Vale ainda destacar a direção de fotografia de Thimios Bakatakis; a edição de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Jacqueline Abrahams e a trilha sonora contundente e bastante pontual, quase como outro narrador do filme, e executada por seis nomes do Departamento de Música.

O nome de Yorgos Lanthimos não me parecia familiar. Buscando mais informações sobre ele, descobri que o diretor grego tem 44 anos e fez, antes de The Lobster, oito curtas e longas. Foi vendo a lista do que ele tinha dirigido antes que eu percebi que The Lobster não foi o primeiro filme que eu vi dele. Antes, assisti a Kynodontas (comentado aqui), outro filme muito, muito peculiar e forte. Pelo visto, Lanthimos tem um estilo de cinema realmente diferenciado, que tende ao exagero para fazer o espectador pensar sobre determinados padrões e realidades. Não deixa de ser interessante.

Novamente a violência é um elemento importante em um filme de Lanthimos. Parece que ao explorá-la de forma tão crua e visceral ele está querendo nos alertar sobre o fascínio que nós como indivíduos e em coletivo, nas nossas sociedades, temos com a violência. Vale questionar isso sim, com certeza.

The Lobster teria custado cerca de 4 milhões de euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 9 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele teria feito outros US$ 8,98 milhões. Ou seja, conseguiu cobrir os gastos e faturar alguma coisa.

Esta produção foi totalmente rodada na Irlanda, em locais como o Parknasilla Hotel and Resort, em Sneem; o The Eccles Hotel, em Glengariff Harbour; o Grand Canal Dock e o Blanchardstown Shopping Centre, em Dublin; e a floresta Dromore, em Coillte Teoranta.

The Lobster é uma coprodução da Grécia, da Irlanda, da Holanda, do Reino Unido e da França. São poucos os filmes com tantas produtoras e países envolvidos. Interessante a forma com que os produtores deste filme conseguiram captar tantos recursos de diferentes países.

Esta produção ganhou 22 prêmios e foi indicada a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Olivia Colman no British Independent Film Awards; para o prêmio do júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cannes – onde o filme recebeu ainda o prêmio do júri do Palm Dog para o cachorro Bob e uma menção especial no Queer Palm para Yorgos Lanthimos; o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original no Florida Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme Estrangeiro no Hellenic Film Academy Awards; o de Melhor Roteiro no International Cinephile Society Awards; o de Melhor Diretor no Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Miami; e o de Melhor Trilha Sonora Original e Design de Som para Johnnie Burn no Festival Internacional de Cinema de Ghent.

Além destes prêmios que recebeu, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Colin Farrell. No primeiro ele perdeu para Manchester by the Sea (comentado aqui) e, no segundo, para Ryan Gosling, de La La Land (com crítica neste link). Francamente, acho que nos dois casos as derrotas foram merecidas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Um filme cerebral e nada emocional. O diretor e roteirista Yorgos Lanthimos leva ao extremo alguns conceitos de padronização da sociedade dos indivíduos para nos fazer pensar sobre como o excesso de regras pode nos tornar pouco mais que robôs. Mesmo sendo um “espetáculo do absurdo”, The Lobster mexe com diversos conceitos individuais e coletivos e mostra que mesmo em sociedades hiper controladas é possível improvisar e encontrar o amor.

Com roteiro bem criativo e curioso, esta produção é para quem não se importa com histórias e enredos estranhos e inusitados. É curioso, mas não chega a mexer com o espectador. Esta mais para uma obra nonsense do que para um grande filme.