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BlacKkKlansman – Infiltrado na Klan

Um filme contundente, bem ao estilo de seu realizador. Mas nós precisamos de filmes assim, ao menos enquanto restarem pessoas intolerantes e racistas, do tipo que se acha superior a outros grupos e pessoas. BlacKkKlansman mergulha na diáspora racial dos Estados Unidos. Faz isso seguindo a lógica do “teatro do absurdo” sem deixar de lado o tom crítico político – com diversas citações a um governo que dá margem para brancos supremacistas acharem que a “hora deles chegou”. Por sua temática, crítica e narrativa envolvente, merece chegar até o Oscar 2019, sem dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa com uma sequência de …E o Vento Levou, com Scarlett (Vivien Leigh) buscando o Dr. Meade em meio a diversos feridos. Depois de perguntar pelo médico algumas vezes, ela diz: “Que Deus salve a Confederação”. A sequência fecha na bandeira dos Confederados. Em seguida, a mesma bandeira aparece nas costas do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin), que diz que o país está sob ataque. Ele comenta que as pessoas estão vivendo em uma época marcada pela “integração e miscigenação” e que isso precisa ser combatido. Em um mesmo vídeo de propaganda, ele ataca os negros, os judeus e a Suprema Corte que “obrigou” crianças brancas a conviverem com crianças negras na escola.

Esse é o pano de fundo desse filme, que conta a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs. Cercado de policiais brancos por todos os lados e inserido em uma sociedade com muitos rasgos racistas, Stallworth tem a ideia, após ver a um anúncio no jornal, de entrar em contato com a Ku Klux Klan local. Ele começa a investigar o grupo e tenta “entrar” nele como “policial infiltrado”. Como ele é negro, ele acaba dividindo a sua “identidade” com o colega Flip Zimmerman (Adam Driver).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a BlacKkKlansman): Na definição/categorização deste filme, ele aparece como “Biográfico, Crime, Drama”. Spike Lee acerta em cheio ao resgatar uma história realmente impressionante, de um homem que enfrentou todos os preconceitos e barreiras sociais e discriminatórias para se tornar o primeiro policial negro da sua cidade.

Mas não apenas isso. Ele faz algo inacreditável: se voluntaria como um novo voluntário para participar da Ku Klux Klan local. Mesmo que você não saiba muito sobre esse grupo, é claro que você sabe que eles são um bando de supremacistas brancos que se acham superiores e detentores da “missão” de atacar negros e pessoas que defendem o direito de todos terem a mesmas oportunidades e conviverem nos mesmos locais. Assim, como um negro pode trabalhar como um infiltrado na KKK? Impossível, é claro.

Mas é justamente isso que o protagonista desse filme faz. Ele sabe como ninguém como pensam os brancos preconceituosos e como falar/lidar com eles. Então ele está mais que preparado para lidar com os líderes do movimento, mas sempre por telefone. Quando tem que conviver com o grupo, quem se passa por Ron Stallworth é o seu colega, um dos policiais brancos mais abertos à conviver com um negro na corporação, Flip Zimmerman.

O diretor e roteirista Spike Lee – que escreveu esse roteiro juntamente com Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott – acerta na mosca na construção interessante que ele faz sobre essa história. Ele começa com uma provocação sobre a influência cultural que reforça ou sugere uma justificativa para o preconceito racial – inclusive em clássicos como …E o Vento Levou e O Nascimento de Uma Nação, dois filmes com trechos reproduzidos em BlacKkKlansman – e prossegue com a gravação de uma propaganda criminosa que reproduz essas ideias segregacionistas.

A forma com que BlacKkKlansman é construída é muito interessante por isso. Porque o filme constrói a narrativa de forma direta, mostrando todo o absurdo daquela corrente supremacista branca que considera todos os negros “estupradores e assassinos”, como argumenta Beauregard, apenas pela cor de sua pele. Isso não tem o mínimo sentido, evidentemente, mas o filme conta sobre uma época em que isso era defendido através de vídeos, de manifestações públicas e por grupos como a KKK.

Ao mesmo tempo, temos a um negro que sonha em ser policial e que se “aventura” em meio a um grupo de brancos – com parte deles sendo racistas também. Inicialmente, ele é colocado em uma tarefa burocrática, mas ele logo manifesta o seu desejo, para o Chefe Bridges (Robert John Burke), de ser um policial infiltrado. Qual é a primeira missão que dão para ele? Dele se infiltrar em um encontro político negro para saber sobre as “intenções dos agitadores” e, ao investigá-los, evitar “distúrbios” na cidade.

Os negros tem que ser controlados e calados. No mínimo. Isso é o que a autoridade policial defende, também influenciada por uma cultura historicamente racista. Vale ponderar que Colorado Springs é uma cidade situada na região central dos Estados Unidos – ou seja, fica entre o limiar do Sul mais preconceituoso e o Norte mais “liberal”. Spike Lee explora esses conceitos e esse “pano de fundo” muito bem.

Diversos momentos do filme beiram ao absurdo. Ao menos, sob a ótica de alguém “normal” que sabe que negros e brancos são iguais, deveriam ter os mesmos direitos e oportunidades, e vêem como absurdo o discurso supremacista branco. Por isso mesmo é especialmente incrível observar aquelas linhas iniciais de Lee comentando que “essa parada é baseada em uma merda muito, muito real”. Porque sim, existiu um Ron Stallworth que vivenciou aquilo que vemos em cena e que escreveu um livro para contar a sua experiência.

A narrativa de Lee é envolvente e o roteiro explora bem a história que beira o absurdo – mas que também convence por seus contratempos e pequenos “deslizes” aqui e ali. Stallworth e Zimmerman são corajosos ao assumir aquela missão de se infiltrarem na KKK para saber o que eles estão planejando. No fim, a missão deles evita uma ou mais mortes. Mas o grupo vai continuar aterrorizando, inclusive com a conivência de autoridades locais (ou nacionais).

Nesse quesito, claro, Spike Lee não poderia se furtar de fazer uma referência clara ao “supremacista branco” que está governando o país novamente. Assim, BlacKkKlansman conta sim uma história específica, mas também não fecha os olhos para um dos maiores líderes da KKK, David Duke (Topher Grace) que é, adivinhem?, um dos mais efusivos apoiadores do atual líder máximo da nação.

É de arrepiar que essas e tantas outras pessoas defendam os “sagrados valores brancos protestantes”. Me desculpem o palavreado, mas essa é uma gente escrota e sem contato com a realidade. Sem a mínima noção do que estão falando ou defendendo. Mas é uma gente desequilibrada e perigosa, como BlacKkKlansman mostra bem. O grupo no qual Zimmerman se infiltra tem pessoas beeem desajustadas – e armadas.

O filme nos faz pensar, especialmente até quando essa queda de braços vai continuar. Enquanto houver um grupo falando em “supremacia branca”, certamente haverá um grupo pedindo por “empoderamento dos negros”. Essa é uma luta que nunca irá terminar enquanto tiver pessoas dividindo a sociedade dessa forma. Será que é tão difícil vivermos em uma sociedade em que as políticas públicas e as pessoas comuns realmente busquem por igualdade de oportunidades para todos, independente da cor da pele.

Claro que existe uma desigualdade histórica que precisa ser resolvida. Mas espero que um dia os policiais e as autoridades dos Estados Unidos parem de fechar os olhos para grupos criminosos, racistas e violentos como a KKK e os combatam de uma maneira mais efetiva. E que outras medidas sejam tomadas para educar as pessoas e buscar eliminar tanta ignorância no mundo. BlacKkKlansman trata destas questões de maneira franca e crítica. Precisamos de filmes assim, que coloquem o dedo na ferida e que não façam esquecermos dos absurdos que perduram.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Spike Lee bebe de muitas fontes para fazer este filme. Apesar do foco dele ser o primeiro negro policial em uma cidade da área central dos Estados Unidos, ele também faz alusões a várias outras fontes de referência. Além dos filmes que ele “cita” na produção literalmente, ao reproduzir trechos das produções, ele faz “colagens” de rostos, ao estilo de filmes antigos que adotavam este tipo de transição para dar dinâmica para a narrativa, e também mergulha um pouco na cultura negra do final dos anos 1970 – quando o filme é ambientado.

Há quem tenha visto “comédia” nesse filme. Honestamente? Eu não vejo comédia em BlacKkKlansman. Esse filme nos conta histórias que fazem parte da realidade dos americanos até hoje. O conflito racial por lá é muito mais claro e mais extremo do que estamos acostumados no Brasil. Mas é bom falarmos sobre aquele nível de ignorância e sobre aquele preconceito que vemos em cena para evitar que isso aconteça por estas bandas. E sempre que vejo a um filme como BlacKkKlansman me pergunto: será quem um dia os Estados Unidos vão conseguir resolver este problema? Parece algo realmente complicado, especialmente no governo atual. O que é lamentável.

Bom ver Spike Lee em grande forma novamente. Acho que ele retorna em grande estilo para a temporada de premiações. Nesta produção, ele nos apresenta uma história realmente interessante e bem conduzida. Mérito dele, dos roteiristas que fazem o roteiro com ele e dos atores – especialmente John David Washington e Adam Driver estão muito bem.

Além de Washington e de Driver, grande responsáveis pelo sucesso desta produção, vale comentar o bom trabalho de diversos coadjuvantes, a começar por Robert John Burke como o Chefe Bridges, que está no limiar do racismo; Brian Tarantina em uma super ponta como o Oficial Clay Mulaney, apoiador de Stallworth e de Zimmerman; Ken Garito como o Sargento Trapp, outro que fica mais do lado de Stallworth do que contra ele – muitas vezes ele é “a voz da razõa” de Bridges; Frederick Weller como o policial racista Andy Landers; Laura Harrier como Patrice Dumas, a líder do movimento estudantil negro por quem Stallworth se interessa; Ryan Eggold como Walter Breachway, o líder local da KKK; Jasper Pääkkönen como Felix Kendrickson, um dos mais extremistas membros da KKK local, junto com a sua mulher Connie, interpretada por Ashlie Atkinson; e Paul Walter Hauser como o “bobão” Ivanhoe, outro membro da KKK sedento por puxar o gatilho e acertar alguns “negros”.

Acho impressionante como a galera “macho branca” retratada por este filme, tempos depois do final da Segunda Guerra Mundial, continua defendendo os “sagrados valores brancos protestantes”, classificando negros como inimigos e “estupradores e assassinos” que querem atacar as “mulheres brancas virgens” e atacando o que chamam de “conspiração judaica internacional”. Como alguém pode proferir estas palavras e ideias? E mesmo acreditar nisso? Honestamente, é algo ultrajante e que não faz rir, mesmo pelo absurdo, mas apenas lamentar e nos indignar.

Impressionante como Stallworth é “ensinado” a aceitar qualquer barbaridade que ele for escutar. Afinal, ele é a “minoria” que deve se adaptar. Sério? Sério mesmo? Não importa se você está sozinho ou se você é o único em uma batalha. Se você está certo e defende os valores certos, isso é o que importa.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a edição de Barry Alexander Brown; para a trilha sonora de Terence Blanchard; para a direção de fotografia de Chayse Irvin; para o design de produção de Curt Beech; para a direção de arte de Marci Mudd; e para os figurinos de Marci Rodgers.

Antes, eu falei, essencialmente, sobre os pontos positivos de BlacKkKlansman. Mas o filme não é apenas acertos. Para mim, apesar de ser uma história interessante e bem conduzida, o filme perde um pouco de força ao querer contar uma história “semi” de amor entre o protagonista e a sua protegida, assim como em querer “abraçar” toda a cultura negra da época. Algumas festas e inserção de música pode ter sido interessante, mas fica um bocado deslocado da história. Acho que o filme perde um pouco o interesse nesses pontos.

BlacKkKlansman estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até novembro, o filme participou de outros 14 festivais e mostras em diversos países. Até o momento, BlacKkKlansman ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 133 prêmios – incluindo quatro indicações ao Globo de Ouro. Ou seja, apesar de ter ganho alguns prêmios, ele foi mais derrotado do que saiu vencedor das premiações. Isso, acredito, mostre uma tendência. Do Globo de Ouro, por exemplo, ele saiu de mãos vazias.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Grande Prêmio do Júri para Spike Lee e para a Menção Especial do Júri Ecumênico para o diretor no Festival de Cinema de Cannes; para o Prêmio da Audiência para Spike Lee no Festival Internacional de Cinema de Locarno; para o Prêmio de Melhor Filme Drama (Independente) no Satelitte Awards; e para nove prêmios como Melhor Roteiro ou Melhor Roteiro Adaptado. BlacKkKlansman também foi eleito, junto com outros nove filmes, com um dos filmes do ano segundo o AFI Award.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre BlacKkKlansman. Quem apresentou a história de Ron Stallworth para Spike Lee foi o produtor Jordan Peele. Lee achou a história do “homem negro que se infiltra na KKK” absurda demais, até que Peele garantiu para ele que a história era autêntica. Foi aí que Lee embarcou no projeto, porque achou que a história era ultrajante demais para ser ignorada. As únicas condições que Lee colocou para dirigir o filme foram de que ele pudesse incluir elementos cômicos e que pudesse fazer paralelo com questões raciais contemporâneas.

John David Washington é filho de Denzel Washington, ator que contracenou em quatro produções de Spike Lee.

O diretor Spike Lee recebeu uma ovação de seis minutos depois do filme ter estreado no Festival de Cinema de Cannes.

David Duke só descobriu que Ron Stallworth era negro em 2006, quando um repórter do Miami Herald ligou para ele para ouvir o seu lado da história. Lembrando que a história original do contato entre os dois remonta à década de 1970.

BlacKkKlansman é dedicado da Heather Heyer, uma garota que foi atropelada e morta em uma manifestação contra o movimento supremacista branco em agosto de 2017. Quando ela morreu, o filme estava sendo editado. Ao saber da história, Spike Lee quis incluir a homenagem no filme, lançando-o em circuito comercial um ano apos a manifestação “Unite the Right” e a morte de Heyer.

Esta produção é baseada no livro de memórias Black Klansman, lançado em 2014 por Ron Stallworth. Segundo Stallworth, o único arrependimento dele foi não ter exposto a história mais cedo, o que poderia ter mostrado o quão “bobo” foi David Duke nessa história e, com essa exposição, talvez ele teria prejudicado a carreira política do membro da KKK.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para BlacKkKlansman, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 352 críticas positivas e 17 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,3. O site Metacritic apresenta um “metascore” 83 para esta produção – fruto de 54 críticas positivas, de uma mediana e de uma negativa -, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, BlacKkKlansman teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Ou seja, na soma, fez pouco mais de US$ 89,4 milhões – um grande sucesso para Spike Lee e um filme com lucro para os realizadores.

BlacKkKlansman é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

Importante comentar que já faz mais de 10 dias em que eu assisti a esse filme. Estou meio “devagar” nesse início de ano, eu sei, mas é por causa da correria. Mas tentarei ver a mais filmes a partir de agora, até porque em poucos dias teremos os indicados ao Oscar. E, além deles, temos muitos bons filmes interessantes para assistir. Tentarei acelerar as publicações por aqui, prometo. 😉

CONCLUSÃO: Spike Lee sempre foi contundente em seus filmes. Em BlacKkKlansman isso não é diferente. Em certo momento, ele resume o que vemos em cena. Enquanto houverem pessoas gritando por “poder branco”, haverão pessoas gritando por “poder negro”. De forma bastante honesta, envolvente e com um discurso político acertado perpassando tudo, Lee nos apresenta um filme chocante sobre o atraso em que muitos vivem ainda. Pessoas que buscam se colocar em patamar superior e menosprezar as outras, em um país dividido e com dificuldades de superar esta questão de atraso. Bem desenvolvido, BlacKkKlansman precisa ser visto. Simples assim.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Muitos apontam BlacKkKlansman como um filme forte na corrida pelas estatuetas do Oscar. Acredito que o filme tem grandes chances de figura entre as 10 produções que vão concorrer na categoria principal, de Melhor Filme. Não seria uma surpresa também se a produção emplacasse ainda indicações de Melhor Diretor, para Spike Lee, e de Melhor Roteiro Adaptado.

No Globo de Ouro, o filme também emplacou as indicações dos atores John David Washington e Adam Driver – como Melhor Ator – Drama e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. Não sei se eles terão apelo ou força para emplacar as suas indicações no Oscar também, mas é fato que ambos estão muito bem.

Agora, que chances o filme tem de ganhar nestas categorias? Difícil dizer, neste momento, porque faltam muitos filmes para serem vistos ainda. Mas acho que BlacKkKlansman, apesar de corajoso e com um tom político marcante, algo que está em voga na Academia nos últimos antes, não tem exatamente o perfil de um vencedor do Oscar de Melhor Filme. Seria uma surpresa, e bastante positiva, se a Academia tivesse a coragem de premiar a um filme crítico como este. Terei chance de opinar melhor após assistir a outras produções que estão cotadas para esta disputa.

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I, Tonya – Eu, Tonya

O sonho americano não é permitido para todos. Sim, os Estados Unidos são terra de grandes oportunidades, de empreendedorismo, de trabalho e para alguém desenvolver os seus talentos. Mas I, Tonya demonstra que isso não é igualmente válido para todas as pessoas e os seus sonhos. Da minha parte, como uma aficionada por Olimpíadas, esse filme me tocou especialmente. Estamos acostumados a ver aos atletas de elite dando o seu melhor para conquistar uma medalha e um pódio, mas nem sonhamos pelo que eles passaram antes de chegar ali. Um filme interessante sob vários pontos de vista e com pelo menos duas interpretações dignas de uma indicação no Oscar.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado “em entrevistas livres de ironia, extremamente contraditórias e totalmente verídicas com Tonya Harding e Jeff Gillooly”. A primeira a aparecer em cena é Tonya (Margot Robbie), ex-patinadora olímpica que aparece fumando em sua cozinha. Depois, vemos a Jeff (Sebastian Stan), ex-marido de Tonya, em outro ambiente e se queixando que o microfone estava muito próximo.

A terceira figura importante em cena é Lavona Harding (Allison Janney), mãe de Tonya, que fala com um pássaro em seu ombro na sala de casa e comum tubo de oxigênio ao lado. Ela brinca que o pássaro é o seu sexto marido – e o melhor de todos. Esses e outros personagens vão contar a história de Tonya Harding, a primeira atleta americana a fazer o Triple Axel em uma pista de patinação no gelo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a I, Tonya): Todos os anos, desde que eu era criança, eu tenho a tradição de assistir à premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, ao Oscar. Em alguns anos eu também assisti ao Globo de Ouro, mas sem tanta frequência. Esse ano, assisti a premiação dada pela associação dos jornalistas estrangeiros de Hollywood. E entre os filmes que eu vi serem apresentados, o que eu tive mais interesse de assistir logo foi esse I, Tonya.

Eu gostei da “pegada” da produção. Me pareceu um filme bastante direto e cheio de nuances, e foi exatamente isso que eu encontrei ao assistir a essa produção. Que filme interessante! Guardada as devidas proporções, ele me fez lembrar de Blue Velvet e de American Beauty, outros filmes que trataram com um bocado de ironia e um certo tom cínico o tão conclamado e “vendável” conceito de “sonho americano” ou de sociedade com “oportunidades para todos.

Voltar a falar sobre isso não é algo simples, especialmente na segunda década dos anos 2000, quando, aparentemente, cada vez mais pessoas se preocupam com as suas próprias vidas ou com dizer como os outros deveriam ser e menos com garantir que todos possam ser o que realmente desejam. I, Tonya é um filme muito interessante porque ele vai fundo na loucura dessa filosofia dos Estados Unidos. A busca constante por ser “a melhor”, a alta competitividade, a falta de justiça nas avaliações em algumas esferas da sociedade dependendo da sua classe social e uma série de abusos que uma mulher passava – e continua passando – na sociedade estão nessa produção.

Ou seja, antes de mais nada, I, Tonya é um filme corajoso. Ele trata de uma série de questões muito atuais e que merecem ser debatidas. Como fã extrema dos Jogos Olímpicos, esse filme me atraiu simplesmente pelo fato de contar a história de uma patinadora artística que chegou a competir duas vezes nas Olimpíadas de Inverno.

Como eu acompanho mais as Olimpíadas tradicionais e não as de Inverno, sou sincera em dizer que o nome de Tonya Harding não me trouxe lembranças imediatas. Mas quando, no final do filme, mostram algumas cenas da Tonya Harding original patinando quando ainda era jovem, tive uma leve lembrança sobre assistir, possivelmente nos anos 1990, algumas imagens da atleta quando saíram as notícias do envolvimento (ou não) dela no ataque à colega e rival de competições Nancy Kerrigan (interpretada por Caitlin Carver no filme).

Dito isso, imagino como esse filme significará algo diferente do que para mim para quem realmente conheceu a história de Tonya Harding e acompanhou a sua carreira nos anos 1980 e 1990. Como eu não era uma profunda conhecedora desta história quando ela aconteceu, me darei o direito de avaliar apenas o filme, tudo bem? Achei as escolhas do roteirista Steven Rogers e do diretor Craig Gillespie muito interessantes.

Para começar, esse filme faz uma junção interessante dos aspectos de um documentário com um filme biográfico. Assim, temos os atores interpretando as pessoas retratadas inclusive na reprodução dos depoimentos que elas deram para equipes de filmagens diversos anos antes. Interessante o trabalho de Gillespie ao mesclar esses “depoimentos” dados pelos personagens com sequências em que ele buscou reproduzir fatos que aconteceram com eles – e o mais interessante, segundo as diferentes óticas dos retratados.

Assim, esse filme, apesar de ter uma narrativa linear, não tem uma interpretação única. Os personagens e as suas histórias são bastante controversos e também contraditórios. Especialmente as óticas de Tonya e de Jeff divergem um bocado. A maioria das vezes, sobre as agressões que ela sofreu e sobre a violência vivida no casamento. Também existe um bocado de divergência entre as visões de Tonya e da mãe, Lavona. Claramente a relação entre elas era de abuso da mãe contra filha, mas sob a ótica de Lavona, ela apenas fez o que era necessário para tornar a sua filha uma “estrela”.

A história, por si só, é cheia de controvérsia. Ponto esse muito bem explorado pelo roteiro de Rogers. Como fã das Olimpíadas, esse filme me fez refletir ainda mais sobre como aqueles grandes atletas despertam uma imensa admiração ao mesmo tempo em que as pessoas que os admiram não sabem, na verdade, nada sobre eles. Sim, sabemos que eles se sacrificaram, e muito, para chegarem até lá. Para serem considerados atletas de elite. Mas não temos uma verdadeira ideia de todos os sacrifícios e da realidade pela qual eles passaram até uma medalha, um quarto ou oitavo lugar – estas dois últimas foram as posições em que Tonya ficou nas Olimpíadas de Inverno nas quais ela competiu.

I, Tonya revela de forma muito interessante como a vida foi dura para a protagonista. No início, ela amava patinar. Depois, ela seguiu fazendo isso por pressão da mãe e porque a patinação acabou sendo a única coisa que ela sabia fazer – e claro, ela ainda gostava disso, apesar dos pesares. Depois da introdução inicial da história que eu comentei acima, o filme retorna 40 anos no tempo e mostra o início da trajetória de Tonya, então com quatro anos de idade, na patinação.

A partir daí, vemos a garota “crescendo” sob os nossos olhos. Mas o tempo passa rápido entre a fase da infância, pré-adolescência e adolescência. Os anos que realmente interessam para a história foram aqueles em que Tonya começou a se destacar nas competições nacionais e a época que antecedeu o seu grande feito, que foi realizar o dificílimo Triple Axel no Campeonato Nacional dos EUA em 1991. Ou seja, a parte da história protagonizada pela excelente Margot Robbie – para mim, esta é a sua melhor interpretação até agora – começa nos anos 1980 e avança até a década de 1990.

Nos anos 1990, além de se tornar um destaque nacional e mundial por ter feito um Triple Axel, Tonya Harding se tornou uma figura conhecida por estar envolvida em um gesto extremo e absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O então ex-marido/marido dela – a relação deles era de “ficar junto e separar” a cada estação, praticamente – e um amigo com toda a pinta de maluco, chamado Shawn (Paul Walter Hauser) estiveram por trás de um ataque contra outra competidora forte dos Estados Unidos, Nancy Kerrigan.

Após o ataque, claro que as suspeitas recaíram sobre Tonya. Afinal, o quanto ela sabia sobre o plano maluco do ataque à Nancy? Ela teria planejado aquilo junto com Jeff e Shawn? Qual foi o papel de cada um deles nessa trama desastrada e desastrosa? I, Tonya não responde a todas essas perguntas, apenas expõe as diferentes versões dos personagens sobre o mesmo fato. Verdade que isso nos deixa um pouco frustrados. Afinal, quem está falando a verdade e quem está apenas tentando salvar o próprio rabo?

Ao mesmo tempo que a falta de uma resposta conclusiva pode deixara o espectador um pouco frustrado, essa falta de resposta também mostra algo que é fato na vida: a verdade é feita de muitos pontos de vista. Fatos são fatos, mas a versão dos fatos são múltiplas. Quanto antes percebermos e aceitarmos isso, melhor para a nossa visão crítica e sanidade mental. 😉 Então esse filme tem a coragem de não nos dar respostas simples ou mesmo fechar a questão, mas apenas nos apresentar diversas óticas sobre o tal “incidente” que foi decisivo na vida de Tonya e dos demais – mas, principalmente, na vida dela.

Existem duas formas de encarar o que aconteceu: assumindo que Tonya era totalmente inocente e que realmente tudo o que ela topou fazer foi escrever ameaças para a rival das pistas de patinação; ou aceitar que ela estava de acordo com (ou mesmo ajudou a idealizar) o ataque. Não importa em qual “verdade” você acredite. Em qualquer uma destas versões Tonya concordou em usar uma estratégia equivocada e que extrapolou em muito o espírito esportivo de uma competição justa em condições similares para os competidores.

Fazer terrorismo psicológico ou promover um ataque físico contra a rival nas pistas de patinação só mostra em que nível Tonya levou a sua ânsia competitiva. E aí está a parte brilhante desse filme. Verdade que Tonya foi produto de uma realidade de abusos físicos e psicológicos praticados contra a mãe e o preconceito que ela sofreu dos juízes do esporte para o qual se dedicou a vida inteira, mas esses aspectos são, no fim das contas, fruto de que tipo de cultura? Esse é o ponto central dos questionamentos de I, Tonya.

Uma cultura em que é vendida a ideia de que o “o sol é para todos” desde que você se esforce ao máximo para isso mas que, na prática, não coloca essa filosofia na prática para todos – vide os negros, muitas mulheres e pessoas de classe média baixa dos Estados Unidos -, abre espaço para insatisfeitos e para extremistas que resolvem adotar práticas equivocadas para chegar aonde querem. Muitas pessoas vão seguir a linha do “fim justificam os meios”, e vão fazer de tudo para atingir o tal sucesso valorizado pela cultura da sua sociedade.

Isso é o que vemos em I, Tonya. Em certo momento, a protagonista comenta como ela está sendo amada – após o feito do Triple Axel. Depois, ela admite que com a mesma facilidade com que começou a ser amada, ela começou a ser odiada pelas pessoas. E é essa a sociedade daquele anos 1990 e, principalmente, destes anos 2017, 2018 e afins. As redes sociais potencializam essa “modernidade líquida” (vide Zygmunt Bauman) em que muitas pessoas flutuam, rapidamente, entre um extremo e outro.

Efeito das sociedades individualistas em que as pessoas pensam sempre em si mesmas antes de desenvolverem a capacidade de olhar para o outro de forma mais generosa e compreensiva. E é isso que vemos em I, Tonya. Além disso, observamos uma cultura de opressão e de violência doméstica. Tonya, que foi educada por uma mãe castradora e que abusava da filha através de violência física e emocional, acaba procurando no primeiro idiota que aparece pela frente a fuga daquela realidade.

E o que aconteceu? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O que acontece com muitas e muitas histórias reais nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países. Tonya procurou fugir dos abusos da mãe de forma tão desesperada que encontrou um abusador igual ou pior do que ela. Tonya seguiu apanhando e sendo mal tratada de todas as formas possíveis pelo marido do qual ela parecia ter uma grande dificuldade de se livrar. E por que ela tinha toda essa dificuldade? Em certo momento a própria Tonya afirma que tudo que ela queria era ser amada.

Certamente. Especialmente vindo de um lar desfeito e cheio de abusos por parte da mãe, tudo o que ela queria era ser amada. E qualquer migalha de amor lhe fazia justificar ficar perto de um espancador e abusador como Jeff. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder tudo que era importante para ela, ou seja, a carreira na patinação artística, Tonya finalmente conseguiu se livrar realmente do marido e partiu para reiniciar a própria vida de uma outra forma.

Existe um momento no filme, mais no início da produção, em que Tonya afirma que ela acredita que as pessoas vem nela uma pessoa normal. Vinda de uma realidade difícil, cheia de problemas e de controvérsias, como acontece com tantas e tantas pessoas. Esse filme encanta por isso. Por trazer a história de uma pessoa real que foi do Céu ao Inferno em pouco tempo e que ajuda a explicar um bocado da cultura dos Estados Unidos – e de outras latitudes mundo afora.

Um filme realmente interessante, e que só não ganha uma nota maior do que a que eu vou dar abaixo porque eu estou naquela onda de ser “mais exigente” com as minhas avaliações. Mas saibam que esse patamar de nota já coloca o filme na categoria de “muito, muito bom” e próximo de “excelente” – depois desses níveis ainda vem as categorias “excepcional” e “imperdível”. 😉

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olha, eu vou dizer para vocês. A minha expectativa de que eu veria interpretações excepcionais de Margot Robbie e de Allison Janney realmente se realizaram. Para mim, as duas atrizes estão excelentes. A exemplo do Globo de Ouro, eu vejo ambas sendo indicadas ao Oscar. Sei que elas terão pela frente o super badalado e “queridinho” dos críticos Lady Bird (comentado por aqui), com Saoirse Ronan e Laurie Metcalf liderando as respectivas bolsas de apostas. Mas, para o meu gosto, achei as interpretações de Robbie e de Janney mais potentes e dignas de prêmio do que os belos trabalhos de Ronan e Metcalf.

De fato, a disputa é difícil. Mas acho que mais até na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante do que na categoria de Melhor Atriz. Gosto de Saoirse Ronan, antes que alguém me questione que tenho alguma “bronca” pessoal contra ela. Mas comparando as interpretações de Ronan em Lady Bird e de Margot Robbie em I, Tonya, sem dúvida alguma o meu voto iria para Robbie. Agora, entre Allison Janney e Laurie Metcalf, acho que existe praticamente um empate técnico. Vejo como sendo uma escolha justa tanto uma quanto a outra ganhar a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

As duas atrizes se destacam por suas interpretações em I, Tonya. Para mim, elas roubam a cena toda vez em que aparecem. Mas, além delas, vale citar o bom trabalho dos seguintes atores: Sebastian Stan como o marido agressor da protagonista, Jeff Gillooly; Julianne Nicholson muito bem como Diane Rawlinson, primeira treinadora de Tonya; Paul Walter Hauser como Shawn, amigo de Jeff e que se considerava o “guarda-costas” de Tonya; Bobby Cannavale como Martin Maddox, jornalista que acompanhou a carreira de Tonya e as polêmicas envolvendo ela; Bojana Novakovic como Dody Teachman, treinadora de Tonya quando ela fez o primeiro Triple Axel; Caitlin Carver como Nancy Kerrigan; a encantadora Maizie Smith como Tonya aos quatro anos de idade; Mckenna Grace como Tonya entre os oito e os 12 anos de idade; Ricky Russert como Shane Stant, o agressor de Nancy; e Anthony Reynolds como Derrick Smith, o motorista do atentado contra Nancy.

Como acontece com muitos filmes que são baseados em histórias reais e/ou com períodos que realmente aconteceram na História, logo após assistir I, Tonya, fui atrás de mais informações sobre Tonya Harding. Foi aí que eu encontrei muuuuito material sobre ela na internet. Para os curiosos a respeito, há desde vídeos como esse, publicado no YouTube, que mostra quando ela fez o Triple Axel pela primeira vez, em 1991, no Campeonato Nacional dos EUA; até reportagens como esta da ABC que tratam sobre o que aconteceu com Tonya desde que ela fez o seu grande feito. Enfim, há um grande material sobre ela na internet. Basta pesquisar para você encontrar muuuita coisa e tirar as suas dúvidas.

Vendo aos dois links que eu mencionei, assim como outros materiais, percebi melhor que I, Tonya, apesar de mostrar diferentes depoimentos e pontos de vista, acaba tendo muito o tom da perspectiva de Tonya sobre os fatos. O que é uma escolha bacana também, porque assim o filme acaba defendendo a visão da mulher que passou por um bocado – e que, ainda que tenha sido corrompida pela ideia de sucesso, pagou todo os preços por suas escolhas. As boas e as ruins.

Para quem ficou curioso(a) para saber mais sobre o Triple Axel, encontrei esse artigo na Wikipédia (em inglês) que trata sobre este salto e suas características. Vale a leitura.

Uma curiosidade sobre esta produção. Em certo momento, no início do filme, Jeff Gillooly comenta que, aos 27 anos de idade, ele era a “pessoa mais odiada da América, talvez do mundo”. Interessante como I, Tonya revela esta outra faceta dos americanos. Como eles acreditam que realmente o que eles fazem se tornam algo marcante não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. Realmente eles tem uma perspectiva sobre a realidade muito particular – para dizer o mínimo.

O roteiro e os diálogos de I, Tonya são dois dos pontos altos do filme. O linguajar da maioria dos personagens não é polido, até porque eles vieram de realidades um tanto quanto agrestes. O filme vai direto ao ponto e faz pensar. Um exemplo do diálogo interessante dessa produção está no momento em que Tonya comenta sobre “os juízes frígidos” que buscam a versão antiquada de como uma mulher deveria ser. De fato, se existiu – ou ainda existe – preconceito sobre como deve se comportar uma mulher para ser valorizada em um esporte cheio de regras não ditas como a patinação artística, o problema está nas associações e nos juízes que julgam e não nas atletas que não se “encaixam” em um perfil distante do que se espera do esporte e da meritocracia tão promulgada e tão pouco praticada.

Uma das qualidades mais marcantes desse filme, além das interpretações de Margot Robbie e de Allison Janney, é a excelente trilha sonora de Peter Nashel. Uma verdadeira viagem no tempo, emocional e marcante ao mesmo tempo. Muito boa também a direção de Craig Gillespie, que dá uma aula de escolhas acertadas em cada sequência do filme; o roteiro bem escrito, com narrativa envolvente e cheia de recursos de Steven Rogers; e a expressiva e interessante direção de fotografia de Nicolas Karakatsanis – ele é fundamental para marcar os tempos desta produção.

Sério. Ouçam a trilha sonora. Ela é fantástica! Um verdadeiro deleite para quem viveu os anos 1980 e 1990. 😉

Além desses elementos técnicos, vale comentar o bom trabalho de Jennifer Johnson nos figurinos; de Tatiana S. Riegel na edição; de Jade Healy no design de produção; de Andi Crumbley na direção de arte; de Adam Willis na decoração de set; e dos 13 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

O diretor Craig Gillespie tem 10 títulos no currículo. A história dele na direção começou em 2007 com Mr. Woodcock. No mesmo ano, ele dirigiu a Lars and the Real Girl. Ele ganhou prêmios por comerciais que dirigiu e por filmes como Lars and the Real Girl, Millon Dollar Arm e The Finest Hours. Mas I, Tonya, que eu me lembrei, é o primeiro filme dele que eu assisto. Acho que ele pode apresentar coisas interessantes daqui para a frente. A conferir.

I, Tonya estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais em diferentes países. Em sua trajetória até o momento, I, Tonya ganhou 23 prêmios e foi indicado a outros 72. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Allison Janney; para 5 prêmios de Melhor Atriz para Margot Robbie; para 14 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney – sem contar o Globo de Ouro; para o prêmio de Melhor Elenco do Ano no Hollywood Film Awards; e para o prêmio de Melhor Narrativa no Key West Film Festival.

Agora, algumas curiosidades sobre esse filme. A atriz Margot Robbie fez parte de uma liga amadora de patinação quando era mais jovem, mas treinou mais seriamente para fazer o papel de Tonya com a coreógrafa Sarah Kawahara – que treinou, na vida real, Nancy Kerrigan. Ainda assim, claro, a sequência do Triple Axel não foi feita por ela. Para reproduzir esse difícil salto, o diretor utilizou cenas filmadas com Margot e complementada por computação gráfica.

A atriz Margot Robbie é apenas cinco centímetros mais alta que Tonya Harding.

O crítico de cinema, ator, diretor e escritor Caillou Pettis colocou I, Tonya como o terceiro filme, de uma lista de 20, que ele mais gostou de 2017.

Tonya Harding gostou da produção I, Tonya, mas disse que tem dois aspectos que o filme mostra e que ela disse que não são reais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, ela disse que não xinga a cada 10 segundos como a personagem que a retrata na produção. Depois, ela disse que não chegou a confrontar o júri de uma das competições, chegando a xingá-los, como I, Tonya mostra. No mais, ela achou o filme excelente.

De acordo com o site Box Office Mojo, I, Tonya faturou pouco mais de US$ 7,6 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria ainda pequena. Não encontrei informações sobre os custos da produção, mas me parece que falta arrecadação maior nas bilheterias para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,9. Especialmente o nível das notas dos dois sites está muito bom, acima do padrão das duas páginas.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso I, Tonya passa a figurar em uma lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme sem papas na língua e que procura revelar todos os aspectos da vida de uma atleta americana que se tornou famosa não apenas pelos seus feitos no esporte, mas também por aparecer nas páginas policiais. Misturando ficção com o tom de documentário, I, Tonya apresenta uma história interessante que revela muito sobre as limitações do tão conclamado “sonho americano”. Até hoje existem “esportes de elite” e distinção entre posições na sociedade que alguns insistem em preservar. Este filme também trata sobre os diferentes abusos que uma mulher pode passar durante a vida e como ela pode superá-los. O roteiro é bem escrito e direto, e o filme tem uma direção bem conduzida e ótimas interpretações dos atores principais. Mais uma produção que merece ser vista nesta safra do Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Sigo aqui no desafio de assistir ao máximo de filmes com chances de ganhar um Oscar nesse ano. Missão divertida essa, eu admito. 😉 I, Tonya pode ser indicado em mais de uma categoria. Mas ainda é difícil de acertar na mosca sobre as chances desse filme ou de qualquer outro. Mas vou falar sobre o que as bolsas de apostas e os especialistas nas premiações dos EUA nos apontam.

As maiores chances de I, Tonya no Oscar 2018 estão nas indicações nas categorias de Melhor Atriz para Margot Robbie e de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney. Seria uma surpresa se as duas atrizes não forem indicadas. O filme também pode emplacar indicações nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Mas em quais destas categorias I, Tonya realmente tem chances? Acredito que em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Maquiagem e Cabelo. Ainda preciso ver a alguns filmes que estão bem cotados no Oscar, mas entre Saoirse Ronan e Margot Robbie, acho que a segunda merece mais a estatueta. Para resumir, vejo esse filme sendo indicado em três ou quatro categorias e ganhando uma ou duas – mas podendo também sair de mãos abanando. Logo mais, nós saberemos. 😉