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I, Tonya – Eu, Tonya

O sonho americano não é permitido para todos. Sim, os Estados Unidos são terra de grandes oportunidades, de empreendedorismo, de trabalho e para alguém desenvolver os seus talentos. Mas I, Tonya demonstra que isso não é igualmente válido para todas as pessoas e os seus sonhos. Da minha parte, como uma aficionada por Olimpíadas, esse filme me tocou especialmente. Estamos acostumados a ver aos atletas de elite dando o seu melhor para conquistar uma medalha e um pódio, mas nem sonhamos pelo que eles passaram antes de chegar ali. Um filme interessante sob vários pontos de vista e com pelo menos duas interpretações dignas de uma indicação no Oscar.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado “em entrevistas livres de ironia, extremamente contraditórias e totalmente verídicas com Tonya Harding e Jeff Gillooly”. A primeira a aparecer em cena é Tonya (Margot Robbie), ex-patinadora olímpica que aparece fumando em sua cozinha. Depois, vemos a Jeff (Sebastian Stan), ex-marido de Tonya, em outro ambiente e se queixando que o microfone estava muito próximo.

A terceira figura importante em cena é Lavona Harding (Allison Janney), mãe de Tonya, que fala com um pássaro em seu ombro na sala de casa e comum tubo de oxigênio ao lado. Ela brinca que o pássaro é o seu sexto marido – e o melhor de todos. Esses e outros personagens vão contar a história de Tonya Harding, a primeira atleta americana a fazer o Triple Axel em uma pista de patinação no gelo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a I, Tonya): Todos os anos, desde que eu era criança, eu tenho a tradição de assistir à premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, ao Oscar. Em alguns anos eu também assisti ao Globo de Ouro, mas sem tanta frequência. Esse ano, assisti a premiação dada pela associação dos jornalistas estrangeiros de Hollywood. E entre os filmes que eu vi serem apresentados, o que eu tive mais interesse de assistir logo foi esse I, Tonya.

Eu gostei da “pegada” da produção. Me pareceu um filme bastante direto e cheio de nuances, e foi exatamente isso que eu encontrei ao assistir a essa produção. Que filme interessante! Guardada as devidas proporções, ele me fez lembrar de Blue Velvet e de American Beauty, outros filmes que trataram com um bocado de ironia e um certo tom cínico o tão conclamado e “vendável” conceito de “sonho americano” ou de sociedade com “oportunidades para todos.

Voltar a falar sobre isso não é algo simples, especialmente na segunda década dos anos 2000, quando, aparentemente, cada vez mais pessoas se preocupam com as suas próprias vidas ou com dizer como os outros deveriam ser e menos com garantir que todos possam ser o que realmente desejam. I, Tonya é um filme muito interessante porque ele vai fundo na loucura dessa filosofia dos Estados Unidos. A busca constante por ser “a melhor”, a alta competitividade, a falta de justiça nas avaliações em algumas esferas da sociedade dependendo da sua classe social e uma série de abusos que uma mulher passava – e continua passando – na sociedade estão nessa produção.

Ou seja, antes de mais nada, I, Tonya é um filme corajoso. Ele trata de uma série de questões muito atuais e que merecem ser debatidas. Como fã extrema dos Jogos Olímpicos, esse filme me atraiu simplesmente pelo fato de contar a história de uma patinadora artística que chegou a competir duas vezes nas Olimpíadas de Inverno.

Como eu acompanho mais as Olimpíadas tradicionais e não as de Inverno, sou sincera em dizer que o nome de Tonya Harding não me trouxe lembranças imediatas. Mas quando, no final do filme, mostram algumas cenas da Tonya Harding original patinando quando ainda era jovem, tive uma leve lembrança sobre assistir, possivelmente nos anos 1990, algumas imagens da atleta quando saíram as notícias do envolvimento (ou não) dela no ataque à colega e rival de competições Nancy Kerrigan (interpretada por Caitlin Carver no filme).

Dito isso, imagino como esse filme significará algo diferente do que para mim para quem realmente conheceu a história de Tonya Harding e acompanhou a sua carreira nos anos 1980 e 1990. Como eu não era uma profunda conhecedora desta história quando ela aconteceu, me darei o direito de avaliar apenas o filme, tudo bem? Achei as escolhas do roteirista Steven Rogers e do diretor Craig Gillespie muito interessantes.

Para começar, esse filme faz uma junção interessante dos aspectos de um documentário com um filme biográfico. Assim, temos os atores interpretando as pessoas retratadas inclusive na reprodução dos depoimentos que elas deram para equipes de filmagens diversos anos antes. Interessante o trabalho de Gillespie ao mesclar esses “depoimentos” dados pelos personagens com sequências em que ele buscou reproduzir fatos que aconteceram com eles – e o mais interessante, segundo as diferentes óticas dos retratados.

Assim, esse filme, apesar de ter uma narrativa linear, não tem uma interpretação única. Os personagens e as suas histórias são bastante controversos e também contraditórios. Especialmente as óticas de Tonya e de Jeff divergem um bocado. A maioria das vezes, sobre as agressões que ela sofreu e sobre a violência vivida no casamento. Também existe um bocado de divergência entre as visões de Tonya e da mãe, Lavona. Claramente a relação entre elas era de abuso da mãe contra filha, mas sob a ótica de Lavona, ela apenas fez o que era necessário para tornar a sua filha uma “estrela”.

A história, por si só, é cheia de controvérsia. Ponto esse muito bem explorado pelo roteiro de Rogers. Como fã das Olimpíadas, esse filme me fez refletir ainda mais sobre como aqueles grandes atletas despertam uma imensa admiração ao mesmo tempo em que as pessoas que os admiram não sabem, na verdade, nada sobre eles. Sim, sabemos que eles se sacrificaram, e muito, para chegarem até lá. Para serem considerados atletas de elite. Mas não temos uma verdadeira ideia de todos os sacrifícios e da realidade pela qual eles passaram até uma medalha, um quarto ou oitavo lugar – estas dois últimas foram as posições em que Tonya ficou nas Olimpíadas de Inverno nas quais ela competiu.

I, Tonya revela de forma muito interessante como a vida foi dura para a protagonista. No início, ela amava patinar. Depois, ela seguiu fazendo isso por pressão da mãe e porque a patinação acabou sendo a única coisa que ela sabia fazer – e claro, ela ainda gostava disso, apesar dos pesares. Depois da introdução inicial da história que eu comentei acima, o filme retorna 40 anos no tempo e mostra o início da trajetória de Tonya, então com quatro anos de idade, na patinação.

A partir daí, vemos a garota “crescendo” sob os nossos olhos. Mas o tempo passa rápido entre a fase da infância, pré-adolescência e adolescência. Os anos que realmente interessam para a história foram aqueles em que Tonya começou a se destacar nas competições nacionais e a época que antecedeu o seu grande feito, que foi realizar o dificílimo Triple Axel no Campeonato Nacional dos EUA em 1991. Ou seja, a parte da história protagonizada pela excelente Margot Robbie – para mim, esta é a sua melhor interpretação até agora – começa nos anos 1980 e avança até a década de 1990.

Nos anos 1990, além de se tornar um destaque nacional e mundial por ter feito um Triple Axel, Tonya Harding se tornou uma figura conhecida por estar envolvida em um gesto extremo e absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O então ex-marido/marido dela – a relação deles era de “ficar junto e separar” a cada estação, praticamente – e um amigo com toda a pinta de maluco, chamado Shawn (Paul Walter Hauser) estiveram por trás de um ataque contra outra competidora forte dos Estados Unidos, Nancy Kerrigan.

Após o ataque, claro que as suspeitas recaíram sobre Tonya. Afinal, o quanto ela sabia sobre o plano maluco do ataque à Nancy? Ela teria planejado aquilo junto com Jeff e Shawn? Qual foi o papel de cada um deles nessa trama desastrada e desastrosa? I, Tonya não responde a todas essas perguntas, apenas expõe as diferentes versões dos personagens sobre o mesmo fato. Verdade que isso nos deixa um pouco frustrados. Afinal, quem está falando a verdade e quem está apenas tentando salvar o próprio rabo?

Ao mesmo tempo que a falta de uma resposta conclusiva pode deixara o espectador um pouco frustrado, essa falta de resposta também mostra algo que é fato na vida: a verdade é feita de muitos pontos de vista. Fatos são fatos, mas a versão dos fatos são múltiplas. Quanto antes percebermos e aceitarmos isso, melhor para a nossa visão crítica e sanidade mental. 😉 Então esse filme tem a coragem de não nos dar respostas simples ou mesmo fechar a questão, mas apenas nos apresentar diversas óticas sobre o tal “incidente” que foi decisivo na vida de Tonya e dos demais – mas, principalmente, na vida dela.

Existem duas formas de encarar o que aconteceu: assumindo que Tonya era totalmente inocente e que realmente tudo o que ela topou fazer foi escrever ameaças para a rival das pistas de patinação; ou aceitar que ela estava de acordo com (ou mesmo ajudou a idealizar) o ataque. Não importa em qual “verdade” você acredite. Em qualquer uma destas versões Tonya concordou em usar uma estratégia equivocada e que extrapolou em muito o espírito esportivo de uma competição justa em condições similares para os competidores.

Fazer terrorismo psicológico ou promover um ataque físico contra a rival nas pistas de patinação só mostra em que nível Tonya levou a sua ânsia competitiva. E aí está a parte brilhante desse filme. Verdade que Tonya foi produto de uma realidade de abusos físicos e psicológicos praticados contra a mãe e o preconceito que ela sofreu dos juízes do esporte para o qual se dedicou a vida inteira, mas esses aspectos são, no fim das contas, fruto de que tipo de cultura? Esse é o ponto central dos questionamentos de I, Tonya.

Uma cultura em que é vendida a ideia de que o “o sol é para todos” desde que você se esforce ao máximo para isso mas que, na prática, não coloca essa filosofia na prática para todos – vide os negros, muitas mulheres e pessoas de classe média baixa dos Estados Unidos -, abre espaço para insatisfeitos e para extremistas que resolvem adotar práticas equivocadas para chegar aonde querem. Muitas pessoas vão seguir a linha do “fim justificam os meios”, e vão fazer de tudo para atingir o tal sucesso valorizado pela cultura da sua sociedade.

Isso é o que vemos em I, Tonya. Em certo momento, a protagonista comenta como ela está sendo amada – após o feito do Triple Axel. Depois, ela admite que com a mesma facilidade com que começou a ser amada, ela começou a ser odiada pelas pessoas. E é essa a sociedade daquele anos 1990 e, principalmente, destes anos 2017, 2018 e afins. As redes sociais potencializam essa “modernidade líquida” (vide Zygmunt Bauman) em que muitas pessoas flutuam, rapidamente, entre um extremo e outro.

Efeito das sociedades individualistas em que as pessoas pensam sempre em si mesmas antes de desenvolverem a capacidade de olhar para o outro de forma mais generosa e compreensiva. E é isso que vemos em I, Tonya. Além disso, observamos uma cultura de opressão e de violência doméstica. Tonya, que foi educada por uma mãe castradora e que abusava da filha através de violência física e emocional, acaba procurando no primeiro idiota que aparece pela frente a fuga daquela realidade.

E o que aconteceu? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O que acontece com muitas e muitas histórias reais nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países. Tonya procurou fugir dos abusos da mãe de forma tão desesperada que encontrou um abusador igual ou pior do que ela. Tonya seguiu apanhando e sendo mal tratada de todas as formas possíveis pelo marido do qual ela parecia ter uma grande dificuldade de se livrar. E por que ela tinha toda essa dificuldade? Em certo momento a própria Tonya afirma que tudo que ela queria era ser amada.

Certamente. Especialmente vindo de um lar desfeito e cheio de abusos por parte da mãe, tudo o que ela queria era ser amada. E qualquer migalha de amor lhe fazia justificar ficar perto de um espancador e abusador como Jeff. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder tudo que era importante para ela, ou seja, a carreira na patinação artística, Tonya finalmente conseguiu se livrar realmente do marido e partiu para reiniciar a própria vida de uma outra forma.

Existe um momento no filme, mais no início da produção, em que Tonya afirma que ela acredita que as pessoas vem nela uma pessoa normal. Vinda de uma realidade difícil, cheia de problemas e de controvérsias, como acontece com tantas e tantas pessoas. Esse filme encanta por isso. Por trazer a história de uma pessoa real que foi do Céu ao Inferno em pouco tempo e que ajuda a explicar um bocado da cultura dos Estados Unidos – e de outras latitudes mundo afora.

Um filme realmente interessante, e que só não ganha uma nota maior do que a que eu vou dar abaixo porque eu estou naquela onda de ser “mais exigente” com as minhas avaliações. Mas saibam que esse patamar de nota já coloca o filme na categoria de “muito, muito bom” e próximo de “excelente” – depois desses níveis ainda vem as categorias “excepcional” e “imperdível”. 😉

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olha, eu vou dizer para vocês. A minha expectativa de que eu veria interpretações excepcionais de Margot Robbie e de Allison Janney realmente se realizaram. Para mim, as duas atrizes estão excelentes. A exemplo do Globo de Ouro, eu vejo ambas sendo indicadas ao Oscar. Sei que elas terão pela frente o super badalado e “queridinho” dos críticos Lady Bird (comentado por aqui), com Saoirse Ronan e Laurie Metcalf liderando as respectivas bolsas de apostas. Mas, para o meu gosto, achei as interpretações de Robbie e de Janney mais potentes e dignas de prêmio do que os belos trabalhos de Ronan e Metcalf.

De fato, a disputa é difícil. Mas acho que mais até na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante do que na categoria de Melhor Atriz. Gosto de Saoirse Ronan, antes que alguém me questione que tenho alguma “bronca” pessoal contra ela. Mas comparando as interpretações de Ronan em Lady Bird e de Margot Robbie em I, Tonya, sem dúvida alguma o meu voto iria para Robbie. Agora, entre Allison Janney e Laurie Metcalf, acho que existe praticamente um empate técnico. Vejo como sendo uma escolha justa tanto uma quanto a outra ganhar a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

As duas atrizes se destacam por suas interpretações em I, Tonya. Para mim, elas roubam a cena toda vez em que aparecem. Mas, além delas, vale citar o bom trabalho dos seguintes atores: Sebastian Stan como o marido agressor da protagonista, Jeff Gillooly; Julianne Nicholson muito bem como Diane Rawlinson, primeira treinadora de Tonya; Paul Walter Hauser como Shawn, amigo de Jeff e que se considerava o “guarda-costas” de Tonya; Bobby Cannavale como Martin Maddox, jornalista que acompanhou a carreira de Tonya e as polêmicas envolvendo ela; Bojana Novakovic como Dody Teachman, treinadora de Tonya quando ela fez o primeiro Triple Axel; Caitlin Carver como Nancy Kerrigan; a encantadora Maizie Smith como Tonya aos quatro anos de idade; Mckenna Grace como Tonya entre os oito e os 12 anos de idade; Ricky Russert como Shane Stant, o agressor de Nancy; e Anthony Reynolds como Derrick Smith, o motorista do atentado contra Nancy.

Como acontece com muitos filmes que são baseados em histórias reais e/ou com períodos que realmente aconteceram na História, logo após assistir I, Tonya, fui atrás de mais informações sobre Tonya Harding. Foi aí que eu encontrei muuuuito material sobre ela na internet. Para os curiosos a respeito, há desde vídeos como esse, publicado no YouTube, que mostra quando ela fez o Triple Axel pela primeira vez, em 1991, no Campeonato Nacional dos EUA; até reportagens como esta da ABC que tratam sobre o que aconteceu com Tonya desde que ela fez o seu grande feito. Enfim, há um grande material sobre ela na internet. Basta pesquisar para você encontrar muuuita coisa e tirar as suas dúvidas.

Vendo aos dois links que eu mencionei, assim como outros materiais, percebi melhor que I, Tonya, apesar de mostrar diferentes depoimentos e pontos de vista, acaba tendo muito o tom da perspectiva de Tonya sobre os fatos. O que é uma escolha bacana também, porque assim o filme acaba defendendo a visão da mulher que passou por um bocado – e que, ainda que tenha sido corrompida pela ideia de sucesso, pagou todo os preços por suas escolhas. As boas e as ruins.

Para quem ficou curioso(a) para saber mais sobre o Triple Axel, encontrei esse artigo na Wikipédia (em inglês) que trata sobre este salto e suas características. Vale a leitura.

Uma curiosidade sobre esta produção. Em certo momento, no início do filme, Jeff Gillooly comenta que, aos 27 anos de idade, ele era a “pessoa mais odiada da América, talvez do mundo”. Interessante como I, Tonya revela esta outra faceta dos americanos. Como eles acreditam que realmente o que eles fazem se tornam algo marcante não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. Realmente eles tem uma perspectiva sobre a realidade muito particular – para dizer o mínimo.

O roteiro e os diálogos de I, Tonya são dois dos pontos altos do filme. O linguajar da maioria dos personagens não é polido, até porque eles vieram de realidades um tanto quanto agrestes. O filme vai direto ao ponto e faz pensar. Um exemplo do diálogo interessante dessa produção está no momento em que Tonya comenta sobre “os juízes frígidos” que buscam a versão antiquada de como uma mulher deveria ser. De fato, se existiu – ou ainda existe – preconceito sobre como deve se comportar uma mulher para ser valorizada em um esporte cheio de regras não ditas como a patinação artística, o problema está nas associações e nos juízes que julgam e não nas atletas que não se “encaixam” em um perfil distante do que se espera do esporte e da meritocracia tão promulgada e tão pouco praticada.

Uma das qualidades mais marcantes desse filme, além das interpretações de Margot Robbie e de Allison Janney, é a excelente trilha sonora de Peter Nashel. Uma verdadeira viagem no tempo, emocional e marcante ao mesmo tempo. Muito boa também a direção de Craig Gillespie, que dá uma aula de escolhas acertadas em cada sequência do filme; o roteiro bem escrito, com narrativa envolvente e cheia de recursos de Steven Rogers; e a expressiva e interessante direção de fotografia de Nicolas Karakatsanis – ele é fundamental para marcar os tempos desta produção.

Sério. Ouçam a trilha sonora. Ela é fantástica! Um verdadeiro deleite para quem viveu os anos 1980 e 1990. 😉

Além desses elementos técnicos, vale comentar o bom trabalho de Jennifer Johnson nos figurinos; de Tatiana S. Riegel na edição; de Jade Healy no design de produção; de Andi Crumbley na direção de arte; de Adam Willis na decoração de set; e dos 13 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

O diretor Craig Gillespie tem 10 títulos no currículo. A história dele na direção começou em 2007 com Mr. Woodcock. No mesmo ano, ele dirigiu a Lars and the Real Girl. Ele ganhou prêmios por comerciais que dirigiu e por filmes como Lars and the Real Girl, Millon Dollar Arm e The Finest Hours. Mas I, Tonya, que eu me lembrei, é o primeiro filme dele que eu assisto. Acho que ele pode apresentar coisas interessantes daqui para a frente. A conferir.

I, Tonya estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais em diferentes países. Em sua trajetória até o momento, I, Tonya ganhou 23 prêmios e foi indicado a outros 72. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Allison Janney; para 5 prêmios de Melhor Atriz para Margot Robbie; para 14 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney – sem contar o Globo de Ouro; para o prêmio de Melhor Elenco do Ano no Hollywood Film Awards; e para o prêmio de Melhor Narrativa no Key West Film Festival.

Agora, algumas curiosidades sobre esse filme. A atriz Margot Robbie fez parte de uma liga amadora de patinação quando era mais jovem, mas treinou mais seriamente para fazer o papel de Tonya com a coreógrafa Sarah Kawahara – que treinou, na vida real, Nancy Kerrigan. Ainda assim, claro, a sequência do Triple Axel não foi feita por ela. Para reproduzir esse difícil salto, o diretor utilizou cenas filmadas com Margot e complementada por computação gráfica.

A atriz Margot Robbie é apenas cinco centímetros mais alta que Tonya Harding.

O crítico de cinema, ator, diretor e escritor Caillou Pettis colocou I, Tonya como o terceiro filme, de uma lista de 20, que ele mais gostou de 2017.

Tonya Harding gostou da produção I, Tonya, mas disse que tem dois aspectos que o filme mostra e que ela disse que não são reais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, ela disse que não xinga a cada 10 segundos como a personagem que a retrata na produção. Depois, ela disse que não chegou a confrontar o júri de uma das competições, chegando a xingá-los, como I, Tonya mostra. No mais, ela achou o filme excelente.

De acordo com o site Box Office Mojo, I, Tonya faturou pouco mais de US$ 7,6 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria ainda pequena. Não encontrei informações sobre os custos da produção, mas me parece que falta arrecadação maior nas bilheterias para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,9. Especialmente o nível das notas dos dois sites está muito bom, acima do padrão das duas páginas.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso I, Tonya passa a figurar em uma lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme sem papas na língua e que procura revelar todos os aspectos da vida de uma atleta americana que se tornou famosa não apenas pelos seus feitos no esporte, mas também por aparecer nas páginas policiais. Misturando ficção com o tom de documentário, I, Tonya apresenta uma história interessante que revela muito sobre as limitações do tão conclamado “sonho americano”. Até hoje existem “esportes de elite” e distinção entre posições na sociedade que alguns insistem em preservar. Este filme também trata sobre os diferentes abusos que uma mulher pode passar durante a vida e como ela pode superá-los. O roteiro é bem escrito e direto, e o filme tem uma direção bem conduzida e ótimas interpretações dos atores principais. Mais uma produção que merece ser vista nesta safra do Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Sigo aqui no desafio de assistir ao máximo de filmes com chances de ganhar um Oscar nesse ano. Missão divertida essa, eu admito. 😉 I, Tonya pode ser indicado em mais de uma categoria. Mas ainda é difícil de acertar na mosca sobre as chances desse filme ou de qualquer outro. Mas vou falar sobre o que as bolsas de apostas e os especialistas nas premiações dos EUA nos apontam.

As maiores chances de I, Tonya no Oscar 2018 estão nas indicações nas categorias de Melhor Atriz para Margot Robbie e de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney. Seria uma surpresa se as duas atrizes não forem indicadas. O filme também pode emplacar indicações nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Mas em quais destas categorias I, Tonya realmente tem chances? Acredito que em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Maquiagem e Cabelo. Ainda preciso ver a alguns filmes que estão bem cotados no Oscar, mas entre Saoirse Ronan e Margot Robbie, acho que a segunda merece mais a estatueta. Para resumir, vejo esse filme sendo indicado em três ou quatro categorias e ganhando uma ou duas – mas podendo também sair de mãos abanando. Logo mais, nós saberemos. 😉

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August: Osage County – Álbum de Família

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Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.