I, Tonya – Eu, Tonya

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O sonho americano não é permitido para todos. Sim, os Estados Unidos são terra de grandes oportunidades, de empreendedorismo, de trabalho e para alguém desenvolver os seus talentos. Mas I, Tonya demonstra que isso não é igualmente válido para todas as pessoas e os seus sonhos. Da minha parte, como uma aficionada por Olimpíadas, esse filme me tocou especialmente. Estamos acostumados a ver aos atletas de elite dando o seu melhor para conquistar uma medalha e um pódio, mas nem sonhamos pelo que eles passaram antes de chegar ali. Um filme interessante sob vários pontos de vista e com pelo menos duas interpretações dignas de uma indicação no Oscar.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado “em entrevistas livres de ironia, extremamente contraditórias e totalmente verídicas com Tonya Harding e Jeff Gillooly”. A primeira a aparecer em cena é Tonya (Margot Robbie), ex-patinadora olímpica que aparece fumando em sua cozinha. Depois, vemos a Jeff (Sebastian Stan), ex-marido de Tonya, em outro ambiente e se queixando que o microfone estava muito próximo.

A terceira figura importante em cena é Lavona Harding (Allison Janney), mãe de Tonya, que fala com um pássaro em seu ombro na sala de casa e comum tubo de oxigênio ao lado. Ela brinca que o pássaro é o seu sexto marido – e o melhor de todos. Esses e outros personagens vão contar a história de Tonya Harding, a primeira atleta americana a fazer o Triple Axel em uma pista de patinação no gelo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a I, Tonya): Todos os anos, desde que eu era criança, eu tenho a tradição de assistir à premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, ao Oscar. Em alguns anos eu também assisti ao Globo de Ouro, mas sem tanta frequência. Esse ano, assisti a premiação dada pela associação dos jornalistas estrangeiros de Hollywood. E entre os filmes que eu vi serem apresentados, o que eu tive mais interesse de assistir logo foi esse I, Tonya.

Eu gostei da “pegada” da produção. Me pareceu um filme bastante direto e cheio de nuances, e foi exatamente isso que eu encontrei ao assistir a essa produção. Que filme interessante! Guardada as devidas proporções, ele me fez lembrar de Blue Velvet e de American Beauty, outros filmes que trataram com um bocado de ironia e um certo tom cínico o tão conclamado e “vendável” conceito de “sonho americano” ou de sociedade com “oportunidades para todos.

Voltar a falar sobre isso não é algo simples, especialmente na segunda década dos anos 2000, quando, aparentemente, cada vez mais pessoas se preocupam com as suas próprias vidas ou com dizer como os outros deveriam ser e menos com garantir que todos possam ser o que realmente desejam. I, Tonya é um filme muito interessante porque ele vai fundo na loucura dessa filosofia dos Estados Unidos. A busca constante por ser “a melhor”, a alta competitividade, a falta de justiça nas avaliações em algumas esferas da sociedade dependendo da sua classe social e uma série de abusos que uma mulher passava – e continua passando – na sociedade estão nessa produção.

Ou seja, antes de mais nada, I, Tonya é um filme corajoso. Ele trata de uma série de questões muito atuais e que merecem ser debatidas. Como fã extrema dos Jogos Olímpicos, esse filme me atraiu simplesmente pelo fato de contar a história de uma patinadora artística que chegou a competir duas vezes nas Olimpíadas de Inverno.

Como eu acompanho mais as Olimpíadas tradicionais e não as de Inverno, sou sincera em dizer que o nome de Tonya Harding não me trouxe lembranças imediatas. Mas quando, no final do filme, mostram algumas cenas da Tonya Harding original patinando quando ainda era jovem, tive uma leve lembrança sobre assistir, possivelmente nos anos 1990, algumas imagens da atleta quando saíram as notícias do envolvimento (ou não) dela no ataque à colega e rival de competições Nancy Kerrigan (interpretada por Caitlin Carver no filme).

Dito isso, imagino como esse filme significará algo diferente do que para mim para quem realmente conheceu a história de Tonya Harding e acompanhou a sua carreira nos anos 1980 e 1990. Como eu não era uma profunda conhecedora desta história quando ela aconteceu, me darei o direito de avaliar apenas o filme, tudo bem? Achei as escolhas do roteirista Steven Rogers e do diretor Craig Gillespie muito interessantes.

Para começar, esse filme faz uma junção interessante dos aspectos de um documentário com um filme biográfico. Assim, temos os atores interpretando as pessoas retratadas inclusive na reprodução dos depoimentos que elas deram para equipes de filmagens diversos anos antes. Interessante o trabalho de Gillespie ao mesclar esses “depoimentos” dados pelos personagens com sequências em que ele buscou reproduzir fatos que aconteceram com eles – e o mais interessante, segundo as diferentes óticas dos retratados.

Assim, esse filme, apesar de ter uma narrativa linear, não tem uma interpretação única. Os personagens e as suas histórias são bastante controversos e também contraditórios. Especialmente as óticas de Tonya e de Jeff divergem um bocado. A maioria das vezes, sobre as agressões que ela sofreu e sobre a violência vivida no casamento. Também existe um bocado de divergência entre as visões de Tonya e da mãe, Lavona. Claramente a relação entre elas era de abuso da mãe contra filha, mas sob a ótica de Lavona, ela apenas fez o que era necessário para tornar a sua filha uma “estrela”.

A história, por si só, é cheia de controvérsia. Ponto esse muito bem explorado pelo roteiro de Rogers. Como fã das Olimpíadas, esse filme me fez refletir ainda mais sobre como aqueles grandes atletas despertam uma imensa admiração ao mesmo tempo em que as pessoas que os admiram não sabem, na verdade, nada sobre eles. Sim, sabemos que eles se sacrificaram, e muito, para chegarem até lá. Para serem considerados atletas de elite. Mas não temos uma verdadeira ideia de todos os sacrifícios e da realidade pela qual eles passaram até uma medalha, um quarto ou oitavo lugar – estas dois últimas foram as posições em que Tonya ficou nas Olimpíadas de Inverno nas quais ela competiu.

I, Tonya revela de forma muito interessante como a vida foi dura para a protagonista. No início, ela amava patinar. Depois, ela seguiu fazendo isso por pressão da mãe e porque a patinação acabou sendo a única coisa que ela sabia fazer – e claro, ela ainda gostava disso, apesar dos pesares. Depois da introdução inicial da história que eu comentei acima, o filme retorna 40 anos no tempo e mostra o início da trajetória de Tonya, então com quatro anos de idade, na patinação.

A partir daí, vemos a garota “crescendo” sob os nossos olhos. Mas o tempo passa rápido entre a fase da infância, pré-adolescência e adolescência. Os anos que realmente interessam para a história foram aqueles em que Tonya começou a se destacar nas competições nacionais e a época que antecedeu o seu grande feito, que foi realizar o dificílimo Triple Axel no Campeonato Nacional dos EUA em 1991. Ou seja, a parte da história protagonizada pela excelente Margot Robbie – para mim, esta é a sua melhor interpretação até agora – começa nos anos 1980 e avança até a década de 1990.

Nos anos 1990, além de se tornar um destaque nacional e mundial por ter feito um Triple Axel, Tonya Harding se tornou uma figura conhecida por estar envolvida em um gesto extremo e absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O então ex-marido/marido dela – a relação deles era de “ficar junto e separar” a cada estação, praticamente – e um amigo com toda a pinta de maluco, chamado Shawn (Paul Walter Hauser) estiveram por trás de um ataque contra outra competidora forte dos Estados Unidos, Nancy Kerrigan.

Após o ataque, claro que as suspeitas recaíram sobre Tonya. Afinal, o quanto ela sabia sobre o plano maluco do ataque à Nancy? Ela teria planejado aquilo junto com Jeff e Shawn? Qual foi o papel de cada um deles nessa trama desastrada e desastrosa? I, Tonya não responde a todas essas perguntas, apenas expõe as diferentes versões dos personagens sobre o mesmo fato. Verdade que isso nos deixa um pouco frustrados. Afinal, quem está falando a verdade e quem está apenas tentando salvar o próprio rabo?

Ao mesmo tempo que a falta de uma resposta conclusiva pode deixara o espectador um pouco frustrado, essa falta de resposta também mostra algo que é fato na vida: a verdade é feita de muitos pontos de vista. Fatos são fatos, mas a versão dos fatos são múltiplas. Quanto antes percebermos e aceitarmos isso, melhor para a nossa visão crítica e sanidade mental. 😉 Então esse filme tem a coragem de não nos dar respostas simples ou mesmo fechar a questão, mas apenas nos apresentar diversas óticas sobre o tal “incidente” que foi decisivo na vida de Tonya e dos demais – mas, principalmente, na vida dela.

Existem duas formas de encarar o que aconteceu: assumindo que Tonya era totalmente inocente e que realmente tudo o que ela topou fazer foi escrever ameaças para a rival das pistas de patinação; ou aceitar que ela estava de acordo com (ou mesmo ajudou a idealizar) o ataque. Não importa em qual “verdade” você acredite. Em qualquer uma destas versões Tonya concordou em usar uma estratégia equivocada e que extrapolou em muito o espírito esportivo de uma competição justa em condições similares para os competidores.

Fazer terrorismo psicológico ou promover um ataque físico contra a rival nas pistas de patinação só mostra em que nível Tonya levou a sua ânsia competitiva. E aí está a parte brilhante desse filme. Verdade que Tonya foi produto de uma realidade de abusos físicos e psicológicos praticados contra a mãe e o preconceito que ela sofreu dos juízes do esporte para o qual se dedicou a vida inteira, mas esses aspectos são, no fim das contas, fruto de que tipo de cultura? Esse é o ponto central dos questionamentos de I, Tonya.

Uma cultura em que é vendida a ideia de que o “o sol é para todos” desde que você se esforce ao máximo para isso mas que, na prática, não coloca essa filosofia na prática para todos – vide os negros, muitas mulheres e pessoas de classe média baixa dos Estados Unidos -, abre espaço para insatisfeitos e para extremistas que resolvem adotar práticas equivocadas para chegar aonde querem. Muitas pessoas vão seguir a linha do “fim justificam os meios”, e vão fazer de tudo para atingir o tal sucesso valorizado pela cultura da sua sociedade.

Isso é o que vemos em I, Tonya. Em certo momento, a protagonista comenta como ela está sendo amada – após o feito do Triple Axel. Depois, ela admite que com a mesma facilidade com que começou a ser amada, ela começou a ser odiada pelas pessoas. E é essa a sociedade daquele anos 1990 e, principalmente, destes anos 2017, 2018 e afins. As redes sociais potencializam essa “modernidade líquida” (vide Zygmunt Bauman) em que muitas pessoas flutuam, rapidamente, entre um extremo e outro.

Efeito das sociedades individualistas em que as pessoas pensam sempre em si mesmas antes de desenvolverem a capacidade de olhar para o outro de forma mais generosa e compreensiva. E é isso que vemos em I, Tonya. Além disso, observamos uma cultura de opressão e de violência doméstica. Tonya, que foi educada por uma mãe castradora e que abusava da filha através de violência física e emocional, acaba procurando no primeiro idiota que aparece pela frente a fuga daquela realidade.

E o que aconteceu? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O que acontece com muitas e muitas histórias reais nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países. Tonya procurou fugir dos abusos da mãe de forma tão desesperada que encontrou um abusador igual ou pior do que ela. Tonya seguiu apanhando e sendo mal tratada de todas as formas possíveis pelo marido do qual ela parecia ter uma grande dificuldade de se livrar. E por que ela tinha toda essa dificuldade? Em certo momento a própria Tonya afirma que tudo que ela queria era ser amada.

Certamente. Especialmente vindo de um lar desfeito e cheio de abusos por parte da mãe, tudo o que ela queria era ser amada. E qualquer migalha de amor lhe fazia justificar ficar perto de um espancador e abusador como Jeff. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder tudo que era importante para ela, ou seja, a carreira na patinação artística, Tonya finalmente conseguiu se livrar realmente do marido e partiu para reiniciar a própria vida de uma outra forma.

Existe um momento no filme, mais no início da produção, em que Tonya afirma que ela acredita que as pessoas vem nela uma pessoa normal. Vinda de uma realidade difícil, cheia de problemas e de controvérsias, como acontece com tantas e tantas pessoas. Esse filme encanta por isso. Por trazer a história de uma pessoa real que foi do Céu ao Inferno em pouco tempo e que ajuda a explicar um bocado da cultura dos Estados Unidos – e de outras latitudes mundo afora.

Um filme realmente interessante, e que só não ganha uma nota maior do que a que eu vou dar abaixo porque eu estou naquela onda de ser “mais exigente” com as minhas avaliações. Mas saibam que esse patamar de nota já coloca o filme na categoria de “muito, muito bom” e próximo de “excelente” – depois desses níveis ainda vem as categorias “excepcional” e “imperdível”. 😉

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olha, eu vou dizer para vocês. A minha expectativa de que eu veria interpretações excepcionais de Margot Robbie e de Allison Janney realmente se realizaram. Para mim, as duas atrizes estão excelentes. A exemplo do Globo de Ouro, eu vejo ambas sendo indicadas ao Oscar. Sei que elas terão pela frente o super badalado e “queridinho” dos críticos Lady Bird (comentado por aqui), com Saoirse Ronan e Laurie Metcalf liderando as respectivas bolsas de apostas. Mas, para o meu gosto, achei as interpretações de Robbie e de Janney mais potentes e dignas de prêmio do que os belos trabalhos de Ronan e Metcalf.

De fato, a disputa é difícil. Mas acho que mais até na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante do que na categoria de Melhor Atriz. Gosto de Saoirse Ronan, antes que alguém me questione que tenho alguma “bronca” pessoal contra ela. Mas comparando as interpretações de Ronan em Lady Bird e de Margot Robbie em I, Tonya, sem dúvida alguma o meu voto iria para Robbie. Agora, entre Allison Janney e Laurie Metcalf, acho que existe praticamente um empate técnico. Vejo como sendo uma escolha justa tanto uma quanto a outra ganhar a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

As duas atrizes se destacam por suas interpretações em I, Tonya. Para mim, elas roubam a cena toda vez em que aparecem. Mas, além delas, vale citar o bom trabalho dos seguintes atores: Sebastian Stan como o marido agressor da protagonista, Jeff Gillooly; Julianne Nicholson muito bem como Diane Rawlinson, primeira treinadora de Tonya; Paul Walter Hauser como Shawn, amigo de Jeff e que se considerava o “guarda-costas” de Tonya; Bobby Cannavale como Martin Maddox, jornalista que acompanhou a carreira de Tonya e as polêmicas envolvendo ela; Bojana Novakovic como Dody Teachman, treinadora de Tonya quando ela fez o primeiro Triple Axel; Caitlin Carver como Nancy Kerrigan; a encantadora Maizie Smith como Tonya aos quatro anos de idade; Mckenna Grace como Tonya entre os oito e os 12 anos de idade; Ricky Russert como Shane Stant, o agressor de Nancy; e Anthony Reynolds como Derrick Smith, o motorista do atentado contra Nancy.

Como acontece com muitos filmes que são baseados em histórias reais e/ou com períodos que realmente aconteceram na História, logo após assistir I, Tonya, fui atrás de mais informações sobre Tonya Harding. Foi aí que eu encontrei muuuuito material sobre ela na internet. Para os curiosos a respeito, há desde vídeos como esse, publicado no YouTube, que mostra quando ela fez o Triple Axel pela primeira vez, em 1991, no Campeonato Nacional dos EUA; até reportagens como esta da ABC que tratam sobre o que aconteceu com Tonya desde que ela fez o seu grande feito. Enfim, há um grande material sobre ela na internet. Basta pesquisar para você encontrar muuuita coisa e tirar as suas dúvidas.

Vendo aos dois links que eu mencionei, assim como outros materiais, percebi melhor que I, Tonya, apesar de mostrar diferentes depoimentos e pontos de vista, acaba tendo muito o tom da perspectiva de Tonya sobre os fatos. O que é uma escolha bacana também, porque assim o filme acaba defendendo a visão da mulher que passou por um bocado – e que, ainda que tenha sido corrompida pela ideia de sucesso, pagou todo os preços por suas escolhas. As boas e as ruins.

Para quem ficou curioso(a) para saber mais sobre o Triple Axel, encontrei esse artigo na Wikipédia (em inglês) que trata sobre este salto e suas características. Vale a leitura.

Uma curiosidade sobre esta produção. Em certo momento, no início do filme, Jeff Gillooly comenta que, aos 27 anos de idade, ele era a “pessoa mais odiada da América, talvez do mundo”. Interessante como I, Tonya revela esta outra faceta dos americanos. Como eles acreditam que realmente o que eles fazem se tornam algo marcante não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. Realmente eles tem uma perspectiva sobre a realidade muito particular – para dizer o mínimo.

O roteiro e os diálogos de I, Tonya são dois dos pontos altos do filme. O linguajar da maioria dos personagens não é polido, até porque eles vieram de realidades um tanto quanto agrestes. O filme vai direto ao ponto e faz pensar. Um exemplo do diálogo interessante dessa produção está no momento em que Tonya comenta sobre “os juízes frígidos” que buscam a versão antiquada de como uma mulher deveria ser. De fato, se existiu – ou ainda existe – preconceito sobre como deve se comportar uma mulher para ser valorizada em um esporte cheio de regras não ditas como a patinação artística, o problema está nas associações e nos juízes que julgam e não nas atletas que não se “encaixam” em um perfil distante do que se espera do esporte e da meritocracia tão promulgada e tão pouco praticada.

Uma das qualidades mais marcantes desse filme, além das interpretações de Margot Robbie e de Allison Janney, é a excelente trilha sonora de Peter Nashel. Uma verdadeira viagem no tempo, emocional e marcante ao mesmo tempo. Muito boa também a direção de Craig Gillespie, que dá uma aula de escolhas acertadas em cada sequência do filme; o roteiro bem escrito, com narrativa envolvente e cheia de recursos de Steven Rogers; e a expressiva e interessante direção de fotografia de Nicolas Karakatsanis – ele é fundamental para marcar os tempos desta produção.

Sério. Ouçam a trilha sonora. Ela é fantástica! Um verdadeiro deleite para quem viveu os anos 1980 e 1990. 😉

Além desses elementos técnicos, vale comentar o bom trabalho de Jennifer Johnson nos figurinos; de Tatiana S. Riegel na edição; de Jade Healy no design de produção; de Andi Crumbley na direção de arte; de Adam Willis na decoração de set; e dos 13 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

O diretor Craig Gillespie tem 10 títulos no currículo. A história dele na direção começou em 2007 com Mr. Woodcock. No mesmo ano, ele dirigiu a Lars and the Real Girl. Ele ganhou prêmios por comerciais que dirigiu e por filmes como Lars and the Real Girl, Millon Dollar Arm e The Finest Hours. Mas I, Tonya, que eu me lembrei, é o primeiro filme dele que eu assisto. Acho que ele pode apresentar coisas interessantes daqui para a frente. A conferir.

I, Tonya estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais em diferentes países. Em sua trajetória até o momento, I, Tonya ganhou 23 prêmios e foi indicado a outros 72. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Allison Janney; para 5 prêmios de Melhor Atriz para Margot Robbie; para 14 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney – sem contar o Globo de Ouro; para o prêmio de Melhor Elenco do Ano no Hollywood Film Awards; e para o prêmio de Melhor Narrativa no Key West Film Festival.

Agora, algumas curiosidades sobre esse filme. A atriz Margot Robbie fez parte de uma liga amadora de patinação quando era mais jovem, mas treinou mais seriamente para fazer o papel de Tonya com a coreógrafa Sarah Kawahara – que treinou, na vida real, Nancy Kerrigan. Ainda assim, claro, a sequência do Triple Axel não foi feita por ela. Para reproduzir esse difícil salto, o diretor utilizou cenas filmadas com Margot e complementada por computação gráfica.

A atriz Margot Robbie é apenas cinco centímetros mais alta que Tonya Harding.

O crítico de cinema, ator, diretor e escritor Caillou Pettis colocou I, Tonya como o terceiro filme, de uma lista de 20, que ele mais gostou de 2017.

Tonya Harding gostou da produção I, Tonya, mas disse que tem dois aspectos que o filme mostra e que ela disse que não são reais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, ela disse que não xinga a cada 10 segundos como a personagem que a retrata na produção. Depois, ela disse que não chegou a confrontar o júri de uma das competições, chegando a xingá-los, como I, Tonya mostra. No mais, ela achou o filme excelente.

De acordo com o site Box Office Mojo, I, Tonya faturou pouco mais de US$ 7,6 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria ainda pequena. Não encontrei informações sobre os custos da produção, mas me parece que falta arrecadação maior nas bilheterias para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,9. Especialmente o nível das notas dos dois sites está muito bom, acima do padrão das duas páginas.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso I, Tonya passa a figurar em uma lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme sem papas na língua e que procura revelar todos os aspectos da vida de uma atleta americana que se tornou famosa não apenas pelos seus feitos no esporte, mas também por aparecer nas páginas policiais. Misturando ficção com o tom de documentário, I, Tonya apresenta uma história interessante que revela muito sobre as limitações do tão conclamado “sonho americano”. Até hoje existem “esportes de elite” e distinção entre posições na sociedade que alguns insistem em preservar. Este filme também trata sobre os diferentes abusos que uma mulher pode passar durante a vida e como ela pode superá-los. O roteiro é bem escrito e direto, e o filme tem uma direção bem conduzida e ótimas interpretações dos atores principais. Mais uma produção que merece ser vista nesta safra do Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Sigo aqui no desafio de assistir ao máximo de filmes com chances de ganhar um Oscar nesse ano. Missão divertida essa, eu admito. 😉 I, Tonya pode ser indicado em mais de uma categoria. Mas ainda é difícil de acertar na mosca sobre as chances desse filme ou de qualquer outro. Mas vou falar sobre o que as bolsas de apostas e os especialistas nas premiações dos EUA nos apontam.

As maiores chances de I, Tonya no Oscar 2018 estão nas indicações nas categorias de Melhor Atriz para Margot Robbie e de Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney. Seria uma surpresa se as duas atrizes não forem indicadas. O filme também pode emplacar indicações nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Figurino, Melhor Edição e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Mas em quais destas categorias I, Tonya realmente tem chances? Acredito que em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Maquiagem e Cabelo. Ainda preciso ver a alguns filmes que estão bem cotados no Oscar, mas entre Saoirse Ronan e Margot Robbie, acho que a segunda merece mais a estatueta. Para resumir, vejo esse filme sendo indicado em três ou quatro categorias e ganhando uma ou duas – mas podendo também sair de mãos abanando. Logo mais, nós saberemos. 😉

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The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

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Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! 🙂

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.