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All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

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Casse-tête Chinois – Chinese Puzzle – O Enigma Chinês

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A vida é complicada ou é a gente que complica a vida? A pergunta que vale um milhão é um dos pontos centrais do filme Casse-tête Chinois. Uma produção que surpreende pela excelente trilha sonora, por uma edição de primeira grandeza e por várias boas sacadas, mas que não consegue manter o bom ritmo e a criatividade todo o tempo. E nem precisa. Afinal, o que seria do cinema se não tivéssemos vários filmes esforçados mas que deixam um gostinho de “poderia ter sido melhor”? A tentativa é o que importa. E dar a oportunidade para esta história vale a pena.

A HISTÓRIA: Xavier Rousseau (Romain Duris) olha para a tela do monitor. O cursor está piscando, mas não há nenhuma letra na tela. Corta. Xavier aparece correndo com uma mala por uma calçada. Atrás dele, os dois filhos do escritor, Tom (Pablo Mugnier-Jacob) e Mia (Margaux Mansart). Aos poucos ele começa a escrever sobre a própria vida e a filosofar. Comenta, por exemplo, como a vida para a maioria das pessoas consiste em ir do ponto A para o ponto B. Mas com ele isso não acontece porque Xavier, conforme sua própria leitura, tem problemas para ir para o ponto B. Ele troca de roupa no banheiro, e orienta os filhos a fazer o mesmo. Em seguida, casa. E confidencia que adoraria conseguir traçar uma linha reta até o plano B. Pouco a pouco, conhecemos a confusa história de Xavier e as mudanças pelas quais ele passou em pouco tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Casse-tête Chinois): O primeiro elemento arrebatador de Casse-tête Chinois é, sem dúvida alguma, a ótima trilha sonora do filme. Há tempos eu não via uma seleção tão bem feita, com cada canção sendo pensada como uma peça que cabe milimetricamente em determinado minuto da história. Mérito de Christophe Minck. Junto com a trilha sonora, fica evidente a “sacada” da edição cheia de estilo de Anne-Sophie Bion.

A exemplo de outras produções que brincam com recortes e ângulos diferenciados – vide os filmes de Steven Soderbergh, apenas para citar um diretor acostumado a este recurso -, Casse-tête Chinois ganha pontos com estas “sacadas” narrativas. Afinal, especialmente quando a história permite, as audiências agradecem um pouco de invenção no lugar da forma tradicional de contar uma história. Esta produção acerta quando investe nestes recursos.

O problema deste filme não está nestes recursos, mas no recheio da história. O diretor Cédric Klapisch não consegue segurar o interesse das primeiras cenas e das primeiras linhas de seu roteiro por muito tempo. Antes mesmo da primeira meia hora do filme o espectador já começa a mergulhar na parte “chata” da vida do protagonista. Antes, quando ele está explicando como a vida dele virou de pernas para o ar, a história se revela dinâmica e interessante. Mas depois…

Não é que durante todo o tempo o roteiro de Klapisch caia na mesmice. Mas há muito de “vida comum” em uma história que prometia ser diferenciada e mais criativa. O filme perde o ritmo e, por mais que os atores sejam ótimos e tenham carisma, a vida comum ocupa tempo demais da produção.

Certo, alguém pode argumentar que Casse-tête Chinois tem essa proposta mesmo. Mostrar como preenchemos grande parte da nossa vida com a resolução de problemas e, consequentemente, com pouco planejamento da própria vida. Por esse lado, o roteiro de Klapisch é bastante convincente. De fato boa parte da história de Xavier Rousseau mostra “nosso herói” correndo atrás de colocar ordem na própria vida.

Mas será mesmo que passamos grande parte da nossa vida apenas resolvendo problemas e sem decidir para que caminho estamos direcionando os nossos passos? E será que é isso mesmo o que acontece com Xavier? E eis o ponto interessante desta história. Segundo o protagonista de Casse-tête Chinois ele tem dificuldades em traçar uma linha entre o ponto A e o ponto B, sendo o primeiro o início de uma caminhada e, o último, uma linha de chegada que signifique sucesso em uma determinada trajetória.

Seguindo a linha de raciocínio de Xavier, ele é do tipo que “deixa a vida o levar”. Ou seja, não tem muito “jeito” de determinar os próprios passos porque está apenas respondendo às circunstâncias e ao que vai sendo decidido por outras pessoas e que lhe afetam. Verdade que algumas pessoas acreditam que são assim. Mas de fato este é o caso de Xavier? Não vejo desta forma.

Vejamos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Xavier vive um casamento feliz de 10 anos junto com Wendy (Kelly Reilly). Com ela o escritor teve dois filhos, os simpáticos Tom e Mia. Aparentemente o casal era feliz, até que Xavier resolve aceitar a proposta de uma de suas melhores amigas, a lésbica Isabelle (Cécile De France), para que ele seja o doador do esperma que possa permitir que ela tenha um filho. E daí a vida de Xavier começa a mudar radicalmente já que Wendy encara a decisão como o pretexto para a separação e para ela se mudar para Nova York.

Agora, meu caro leitor/a, me responda algo importante: Xavier decidiu aceitar o convite de Isabelle ou foi obrigado a tomar  aquela atitude? Acredito que você vai concordar comigo que ele teve o poder da escolha nesta situação. Como toda ação provoca reações e tem as suas consequências, aconteceu com o casamento dele o que era meio que inevitável. Afinal, Xavier tornar-se pai de uma criança fora do casamento não é algo tão simples de encarar – ainda mais se ele e Wendy tinham outros assuntos pendentes como o filme sugere.

Depois, Xavier não é apenas “levado pela vida”, mas toma as rédeas de seu presente e futuro com algumas decisões importantes. Para começar, mudando-se para Nova York para conseguir ter uma convivência maior com os filhos. Aqui ele revê o próprio passado, evitando de seguir os passos que o pai dele (interpretado por Benoît Jacquot) tomou. Vale um parênteses aqui. Notaram como muitas vezes tomamos atitudes sem na verdade percebermos as “razões de fundo”?

Xavier não precisa pensar muito para resolver abandonar o bom momento que vivia em Paris para mudar-se para Nova York. Isso porque, no fundo, foi marcante para ele a ausência do pai, algo que ele não quer repetir para os filhos. Com a decisão de mudar-se, mais uma vez, o protagonista da história gira a roda da própria vida em outra direção. Mas ele não foi levado pela vida, ficou inerte, e sim agiu para alcançar o que gostaria.

A diferença em relação a uma linha reta entre dois pontos é que, nem sempre, e isso acontece na vida real, chegamos ao ponto B da forma que tínhamos imaginado. O que Xavier queria, afinal de contas? Além de ter sucesso como escritor, aparentemente ele queria ser feliz, ter uma família bacana, amor e os filhos por perto. Pois bem, se esse era o ponto B do jovem escritor, ele conseguiu o que queria, ainda que não fosse com a mulher que ele tinha imaginado inicialmente – Wendy – e sim com um velho amor do passado. Amor esse que ele achou que o fogo já tinha apagado, mas que, na verdade, estava apenas adormecendo.

O que acontece muitas vezes, e isso é verdade na vida fora da tela do cinema, é que as pessoas só conseguem tomar decisões aparentemente equivocadas. Destas como a de Xavier em doar o esperma para Isabelle. Ele fez errado? Dá para entender a atitude dele, generosa, em prol de uma amiga a quem ele ama, mas ao fazer essa doação ele abriu mão da felicidade que ele tinha no “casamento perfeito”. Alguns podem argumentar que Wendy não merecia ficar com ele por não aceitar a doação, mas a vida não é assim tão simples, afinal.

Então o que parece, muitas vezes, é que as pessoas sabem tomar as rédeas da própria vida, mas parece que sempre levando a trajetória do cavalo-vida para o lugar errado, para a lama. Xavier teria agido muito pior se tivesse ficado em Paris. Acertou em querer ficar perto dos filhos, mas daí foi perceber, logo que chegou em Nova York, que não conseguiria ter Wendy de volta – ela já estava em outra, com John (o interessantíssimo Peter Hermann).

A alternativa imaginada por Xavier, mesmo que não verbalizada, tinha ido ladeira abaixo. Mas ele segue escrevendo, trabalhando, e no final do filme terá conseguido o que mais queria: sucesso na carreira e no amor. E como ele conseguiu o segundo elemento, muitas vezes o mais difícil porque significa dar certo com outra pessoa com suas próprias particularidades? Sozinho o protagonista provavelmente não teria conseguido enxergar a felicidade. Precisou de um empurrão do filho.

E aí está um dos pontos interessantes da reflexão de Casse-tête Chinois. Depende da gente ampliar a nossa capacidade de decidir. Não basta fazer a roda girar em momentos de crise e tomar atitudes que fazem a vida ficar mais complicada – como no caso da doação que Xavier fez para Isabelle. Mas também está nas nossas mãos a capacidade de escolher o caminho para sermos felizes, abrindo mão de outros traços entre os pontos A e B para conseguir construir uma história feliz com alguém.

Para resumir, nosso poder de escolha não está apenas nas decisões aparentemente equivocadas, mas também e especialmente nas acertadas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No fim das contas, um otimista pode olhar para Xavier e achar que ele foi do plano A para o B fazendo algumas voltas, mas acertando em todas as escolhas – da doação para Isabelle até a mudança para Nova York, o casamento arranjado com Nancy (a simpática e carismática Li Jun Li) e o acerto de contas com Martine (Audrey Tautou). Um pessimista pode afirmar que ele conseguiu se dar bem apesar das escolhas erradas.

Da minha parte, acho que a vida é meio complicada sim, mas que a tendência é de tornarmos ela ainda mais difícil do que ela precisa ser em muitos momentos. Klapisch acerta ao nos contar a história de um sujeito que pode nos inspirar pela maneira leve com que ele encara cada desafio. Dá para enxergar nos olhos de Xavier a esperança constante de ter tudo resolvido da melhor forma. Essa postura é fundamental. Assim como alguma organização sentimental e mental da própria vida para enxergar qual é o ponto B para cada um de nós. Xavier acaba acertando nisso também. E com leveza. Uma boa lição pra gente.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante como alguns realizadores gostam de certos intérpretes. Como Pedro Almodóvar teve o seu Antonio Banderas, investiu em Victoria Abril e Penélope Cruz, o diretor de Casse-tête Chinois estabeleceu uma parceria duradoura com Romain Duris. Klapisch trabalha com Duris desde 1994, quando o ator protagonizou a comédia Le Péril Jeune. Foi a estreia do ator no cinema e o segundo longa-metragem dirigido por Klapisch. O diretor seria responsável por aqueles que são, provavelmente, os dois maiores sucessos de Duris: L’auberge Espagnole e Les Poupées Russes. Dois filmes interessantes e recomendados.

Por falar nestas duas produções da dupla Klapisch/Duris, puxando pela memória me lembrei que neles já fica evidente esta característica do diretor/roteirista por histórias “fragmentadas” – se não na narrativa, no estilo da direção e/ou edição. Mesmo sem ter assistido a todos os filmes de Klapisch, posso dizer que esta parece ser o estilo do realizador.

Interessante, para quem assistiu a esses filmes anteriores da dupla Klapisch/Duris, ver como o ator amadureceu. Ele não é mais aquele jovem bonitão e apaixonante de L’auberge Espagnole. Amadurecido, contudo, ele continua interessante. Convence no papel de Xavier ao mesmo tempo em que mostra carisma – especialmente quando sorri.

Interessante a escolha do elenco deste filme. Ann Goulder, Gayle Keller e Jeanne Millet fizeram um bom trabalho com o casting ao escolher os nomes envolvidos na produção. Só vi acertos. A surpresa é que nomes conhecidos como Audrey Tautou e Kelly Reilly acabam um pouco eclipsados por surpresas como Sandrine Holt (que interpreta a Ju, esposa de Isabelle) e Li Jun Li. Além de talentosas, elas estão lindas e roubam a cena cada vez que aparecem convencendo o espectador de seus papéis. Mas no quesito beleza, ainda acho que Reilly se destaca – há cenas de uma certa despedida onírica da ex-mulher por parte de Xavier, o que ajuda a tornar a atriz um destaque neste quesito.

Há alguns momentos bem interessantes no filme. Um dos que destaco é aquele em que Xavier encontra a esquina que eterniza o amor entre os pais dele. De fato, infelizmente muitas vezes não acompanhamos os momentos mais importantes de nossos pais. Xavier encontrou o registro de algo que ele desconheceu: a paixão e os momentos alegres de seus velhos. É marcante quando percebemos que algo importante pra gente pode estar totalmente fora do nosso alcance. Como um sentimento ou fato antigo de nossos pais quando ainda não fazíamos parte da vida deles. Mas é assim mesmo… destas descobertas que a vida é feita.

Além das atrizes citadas, vale bater palma para o trabalho do garoto Pablo Mugnier-Jacob como Tom, o filho mais velho de Xavier. O garoto tem uma interpretação contida, quase intimista, e por isso mesmo muito sensível e convincente. Afinal, que criança lida bem com a separação dos pais e com uma mudança de cidade na sequência? Mas Tom lida com tudo isso de uma forma bacana, realista, e com uma postura que vai ajudar muito ao pai – que é quase uma criança também.

Os atores principais de Casse-tête Chinois já foram citados. Mas há alguns outros importantes para a história que ainda não foram comentados. Vale citar o bom trabalho de Flore Bonaventura como Isabelle, a babá que acaba encantando a Isabelle amiga de Xavier; Jochen Hägele como Hegel e Schopenhauer (aliás, muito boa a sacada de Klapisch em citar filósofos alemães no filme!); Peter McRobbie como o agente de imigração que fica no pé de Xavier; Jason Kravits como o advogado enrolão de Xavier; Dominique Besnehard como o editor de Xavier – e que acaba sendo um pouco a “consciência” do protagonista ao mesmo tempo que é uma ironia sobre histórias do tipo; e Phil Nee como o taxista chinês que acaba ajudando Xavier em um assunto importante.

Da parte técnica do filme, além das deslumbrantes e impecáveis trilha sonora e edição já comentadas, vale citar a direção segura e bem focada de Klapisch (que, este sim, sabe bem como sair do ponto A e chegar no ponto B) e a competente e muito bonita direção de fotografia de Natasha Braier. Essa dupla consegue destilar ótimas cenas em Paris e, principalmente, em Nova York, colocando as cidades como cenários importantes da história.

Casse-tête Chinois estreou em agosto de 2013 no Festival de Cinema Francês d’Angoulême. Depois, em outubro, o filme participaria do Festival de Cinema de Londres. A produção passaria ainda por outros nove festivais ou semanas de cinema, sendo o último deles o Festival de Cinema Montclair, agendado para começar no próximo dia 3 de maio nos Estados Unidos. Nesta trajetória, a produção foi indicada a apenas um prêmio, o de Melhor Trilha Sonora no Prêmio César. Mas o filme perdeu nesta categoria para a produção Michael Kohlhaas.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Casse-tête Chinois foi rodado em diversas locações de Nova York e teve cenas gravadas ainda na China e em Paris.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Casse-tête Chinois. Uma boa avaliação para o filme levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram sete críticas positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média 7,2. Resultados impressionantes para o padrão do Rotten Tomatoes.

Não há informações sobre o custo de Casse-tête Chinois. Mas de acordo com o site Box Office Mojo, esta produção conseguiu pouco mais de US$ 7,14 milhões de bilheteria nos mercados em que estreou até agora – exceto os Estados Unidos, onde o filme deve estrear no dia 16 de maio.

Casse-tetê Chinois é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Um filme que trata sobre qual é a forma ideal de levar a vida não pode ser só entretenimento. E Casse-tête Chinois não é apenas isso mesmo. Mas ele também não se apresenta como uma produção profunda ou verdadeiramente existencial. O roteiro deste filme é leve na maior parte do tempo e aposta nas pequenas surpresas cotidianas para embalar o espectador em uma história sobre amores, apostas em diferentes direções e comprometimento. Com bons atores e uma trilha sonora ainda melhor, Casse-tête Chinois é destes entretenimentos com toque filosófico que satisfaz quem busca qualidade sem querer um peso muito grande na história. Vai te divertir, mas provavelmente não vai mudar a sua vida. Exceto se estás justamente pensando em como traçar uma linha reta até o ponto B. 🙂