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Last Days in the Desert – Últimos Dias no Deserto

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Um filme para causar polêmica. Mas isso se você o levar muito à sério ou, melhor, ao pé da letra. Não faça isso. Não leve Last Days in the Desert muito à sério. E também não o leve na brincadeira. Esta produção não é para fundamentalistas e sim para quem está disposto a abrir o campo de visão e filtrar algumas ideias interessantes que o diretor nos apresenta. Claro que nem tudo passa pela peneira. Mas isso é natural. Afinal, estamos falando de Jesus Cristo. Impossível qualquer filme sobre ele agradar a gregos e troianos.

A HISTÓRIA: Começa com as seguintes frases: “Preparando-se para a sua missão, o homem santo foi ao deserto para jejuar e orar e procurar orientação”. Cenas do deserto em diferentes condições, incluindo sol, dia, nuvens e entardecer. Jesus está ajoelhado, com a cabeça baixa, até que levanta o olhar e pensa “Pai, onde está você?”. Ele tira o capaz. Depois, aparece dormindo em um local protegido. Ele toma um pouco de água e segue a caminhada. No trajeto, se encontra com uma mulher que, na verdade, é o diabo. Jesus se encontrará com ele várias vezes, mas é no encontro com uma família que ele encontra muitas respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Last Days in the Desert): A Bíblia fala sobre os 40 dias em que Jesus Cristo passou no deserto antes de encarar o seu derradeiro final nesta vida terrena em Jerusalém. O diretor colombiano Rodrigo García pegou este fato para imaginar o que poderia ter acontecido com o filho de Deus no deserto durante este período. Roteirista desta produção, ele dá voz à própria imaginação e nos apresenta um filme instigante, interessante, com algumas ideias curiosas.

Para ler bem a Bíblia e também para entender melhor este filme é preciso interpretação. Não basta ler a Palavra ou entender o que se passa na telona com belas imagens planejadas por García. É preciso ir além. Para entender bem a Bíblia, é necessário conhecer não apenas o contexto da época de Jesus e do Velho Testamento, mas também entender sobre os contextos de quem escreveu as Escrituras.

O mesmo vale para esta produção de Rodrigo García. Mais do que saber sobre o diretor, é importante observar o que os fatos que ele nos apresenta significam. Na Bíblia está escrito apenas que Jesus passou 40 dias no deserto para orar, refletir e buscar o encontro com Deus que ele esperava, a força necessária para enfrentar todo o caminho de ultraje, agressões e morte que ele encararia em Jerusalém. Está na Bíblia que o Diabo o tentou repetidas vezes. E isso é tudo.

Não há nada sobre Jesus ter se encontrado com uma família no deserto e convivido com ela alguns dias. Esse trecho, como vocês devem saber, faz parte da imaginação de Rodrigo García. Mas devemos embarcar na história dele porque ela nos apresenta algumas reflexões muito interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, aquela família que Jesus encontra e convive é, na verdade, uma alegoria da própria Humanidade. Pai, mãe e filho são a essência da família e, claro, da criação humana.

Pois bem, Jesus vai para o deserto para encontrar respostas. E como ele diz para o garoto, filho do casal, em certo ponto da produção, ele encontrou as respostas que ele desejava. Algumas delas justamente no convívio com a família. Neste momento ele percebe, por exemplo, a força do amor e da dedicação, da generosidade, e percebe que o maior gesto de amor é quando alguém se doa pelo outro. Ele próprio fará isso quando for encarar Jerusalém e a sua injusta morte na cruz. Ele será sacrificado por todos.

Aquela família marca o encontro de Jesus com todas as famílias do mundo, com a Humanidade. Sem Jesus, o próprio Diabo comenta sobre isso, o jovem pensaria em si em primeiro lugar e sacrificaria o pai para conseguir realizar o próprio desejo de ser livre. Isso pode ser entendido como algo específico, para aquela situação, ou projetado para qualquer época, como para hoje. Quem acredita em Jesus, quem tem fé, jamais teria uma atitude como essa porque ele amaria a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, jamais matando, por exemplo, mas defendendo a vida sob todas as circunstâncias.

O pai da história quer o melhor para a sua família. Ele cuida da esposa, que está doente, e quer que o filho siga a tradição, que cuide do que a família conquistou. É como o papel de liderança da sociedade patriarcal, em que o pai tem a sabedoria de determinar o futuro dos mais jovens e é a voz que deve ser seguida. Mas como o exemplo daquela família, existe conflito e ruptura quando o pai não consegue se comunicar com o filho. A distância entre eles parece insolúvel, mas com a proximidade de Jesus e seu olhar amoroso e compassivo, o pai tenta se aproximar do filho. Sem muito sucesso, é verdade, mas o gesto demonstra esperança.

A mãe, mesmo doente, tenta aproximar pai e filho e quer o melhor para o herdeiro da família. Ela também, a exemplo do pai, está disposta a se sacrificar pelo filho. Até este ponto, as ideias de García coincidem muito com o que parece ser a essência do que está na Bíblia. Mas há outras ideias que não são, digamos assim, muito óbvias. Pelo contrário. E aí que reside, na minha opinião, uma certa polêmica que este filme pode levantar. Por isso mesmo acho importante assisti-lo com tranquilidade, sem muitas paixões e levando em conta que esta é uma obra artística e não religiosa.

O primeiro ponto que chama a atenção, sem dúvida, é o fato do Diabo, a partir de sua segunda aparição, surgir como um “irmão gêmeo” e/ou uma cópia do próprio Jesus. Esta é a primeira ideia provocadora do filme e que pode ser entendida de duas formas diferentes – dependendo do gosto do espectador.

O Diabo ter a “imagem e semelhança” de Jesus pode ser encarado como uma forma de dizer que o Diabo não é nada mais do que uma outra parte de nós mesmos, o lado “mau” que devemos combater. Mas isso não faz muito sentido no caso de Jesus, já que ele era santo – se fez homem e sentiu o mesmo que qualquer homem, mas não cometeu pecado, consequentemente não teira o lado “mau”.

Outra forma de encarar o Diabo como “imagem e semelhança de Jesus” seria o de demonstrar como ele é ardiloso, tentando se passar por Jesus e procurando confundir o Filho de Deus. Também podia ser visto como uma forma do Diabo tentar se “igualar” ao filho de Deus, a quem se referia com clara admiração e perplexidade. Em mais de um momento o Diabo tenta Jesus com pecados muito terrenos – da água e do alimento até a mulher que está na tenda. Claro que nada realmente tenta Jesus, como está claro na Bíblia também.

Uma preocupação clara de Rodrigo García é humanizar a figura de Jesus Cristo. Para mim, mais do que o que ele sofre no primeiro trecho do filme, isso fica claro ao mostrar que Jesus sonhava e tinha pesadelos. Talvez esta seja uma das demonstrações mais claras do diretor em tentar “desmistificar” o Filho de Deus. Uma parte um tanto polêmica, também, porque dá pano para a manga imaginar que Jesus tinha pesadelos.

Um outro ponto que pode render polêmica, mas não acho que ela se justifique, é o fato de Jesus beijar o pai e a mãe na boca – esse tipo de saudação era comum para a época, especialmente quando alguém estava para morrer ou tinha morrido. Agora, admito que alguns pontos me incomodaram um pouco. Porque todos comentados até agora me parecem parte da imaginação do diretor e não fogem muito do que se poderia esperar de Jesus pelo que sabemos dele e que está na Bíblia.

Um ponto que me incomodou foi quando Jesus pede ajuda para o Diabo e o ordena que mostre o futuro do garoto. Sério mesmo? Achei uma forçada de barra desnecessária do diretor naquele ponto. Jamais Jesus pediria ajuda do Diabo para saber qualquer coisa. Muito menos para “matar a curiosidade” sobre a vida de alguém. Totalmente desnecessário. Também achei um tanto ridícula aquela “aparição” do Diabo quando Jesus estava próximo da morte, colocado na cruz, e aparece o Diabo como um beija-flor. Humm… ideia estranha.

O que reforça a minha teoria de que a família que Jesus encontra no deserto segundo a visão criativa de Rodrigo García seria a própria Humanidade é a sequência em que Jesus vai ajudar a mãe doente, perto do final. Não fica claro ali se ele iria curá-la ou apenas tirar a dor que ela estava sentindo, mas a mulher recusa a ajuda. O que acontecia muito naquela época e acontece até hoje: nem todos querem aceitar a Verdade da vinda de Jesus e também não querem ser ajudados. Cada pessoa daquela família simboliza uma vertente da conduta da própria Humanidade com a qual Jesus se encontra, observa e aprende a respeito.

Finalmente, García polemiza um pouco com aquele final. Em certo momento, o Diabo, tentando a Jesus, lhe questiona sobre o que ele vai fazer ao sair do deserto e se ele acredita que alguém lhe dará importância no futuro. A última sequência do filme mostra justamente o que parece ser um pai e um filho no desfiladeiro em que o pai da época de Jesus se sacrifica pelo filho. Na visão de García, nos tempos atuais, um pai e um filho vão ao local para fazer uma foto. Essa imagem provavelmente será compartilhada pelas redes sociais na sequência.

A questão que o diretor deixa no ar é: aquele pai e aquele filho estão lá por causa de Jesus ou apenas para ver a um belo cenário para uma foto? A resposta fica, como tantos outros pontos do filme, ao gosto do espectador. Da minha parte, acho sim que eles estão lá por causa de Jesus e que, diferente do que o Diabo sugeriu para o Filho de Deus, ele segue sendo importante e lembrado até hoje. A questão é que tipo de lembrança temos Dele? Apenas como uma desculpa para uma foto, para uma viagem de turismo com requintes de fé, ou será que vivenciamos o que ele tentou nos ensinar no dia a dia, de fato, tentando mudar a realidade ao nosso redor? Talvez esta seja uma pergunta importante que Last Days in the Desert nos deixe de presente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme indicado para pessoas que não se importam com narrativas lentas e contemplativas. Porque é exatamente isso que Last Days in the Desert é. Rodrigo García faz um trabalho detalhista, atento ao cenário e à relação entre Jesus e os demais personagens entre si e com o entorno. Há muita contemplação em cena. O que não é ruim, mas certamente não agrada a todos os estilos de público. É bom você saber isso antes de assistir a esta produção. Assim como é bom saber, claro, que se trata de uma ficção sobre um capítulo na vida de Jesus Cristo. É bom ter algum interesse sobre o tema ou então, inevitavelmente, acharás tudo isso muito chato. 😉

O colombiano Rodrigo García acertou em cheio ao valorizar o deserto como um personagem importante nesta história na mesma medida em que acertou ao escolher um pequeno punhado de atores para a produção. E todos muito bons, diga-se. Ewan McGregor é admirável e não é de hoje. Para o meu gosto ele faz um belo trabalho como Jesus (e como o Diabo também). Ele não força na interpretação, muito pelo contrário. Ele consegue convencer bem neste papel, que nunca é fácil de ser interpretado, dando legitimidade e trazendo humanidade para o papel de Jesus.

Os demais atores foram escolhidos à dedo. Destaque, em especial, para o sempre ótimo Ciarán Hinds. Depois, fazem um bom trabalho Tye Sheridan – um garoto que vale acompanhar – e a atriz Ayelet Zurer. Ela, mais bonita e enigmática do que com desempenho de destaque, até porque o seu papel é o menor entre os citados.

Um ponto fundamental nesta produção é a direção de fotografia do veterano Emmanuel Lubezki. Ele apresenta aqui mais um excelente trabalho. A trilha sonora do filme é bastante pontual. Nem sempre ela está preenchendo os espaços do filme – pelo contrário, Last Days in the Desert tem muitos momentos de silêncio e de som ambiente. Mas quando aparece, a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans ajuda a imprimir o sentimento que o diretor quer na história.

Antes citei trechos do filme que exigem interpretação – e, claro, comentei alguma interpretações que eu tive. Falei de pontos interessantes e de outros que me incomodaram. Pois bem, teve um outro ponto que me incomodou e que eu não citei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, Jesus diz para o garoto que vai para Jerusalém para que ele ame a Deus sobre todas as coisas e para que ame a vida. Humm… Algo que fica evidente no filme de Rodrigo García é que ele mostra um Jesus bastante humano. Tanto que, e isso é inevitável, por ser humano ele ama muito a vida. Gostaria de ficar mais tempo por aqui – e daí vem a sua dúvida sobre o fim inevitável, porque ele amava a vida. Mas percebe que precisa se sacrificar para o bem de toda a Humanidade. Certo. Só que na Bíblia fica claro que Jesus resume todos os mandamentos em dois: amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo. Por que então não repetir isso no filme e mudar a segunda parte para “ame a vida”? Me parece que se alguém ama a vida e não ao próximo a saída pode ser o egoísmo, não? Uma contradição no filme que me incomodou.

Além dos aspectos técnicos que eu já comentei, não existe muito o que destacar – o design de produção, a direção de arte e a decoração de set me pareceram ok, mas nada além do básico. Os figurinos, talvez, sejam um pouco mais interessantes – ainda que, volto a dizer, nada demais. Vale citar, contudo, o trabalho de Judianna Makovsky nos figurinos – realmente bem feito. Talvez eu destacaria apenas o bom trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o departamento de som. E também o bom trabalho do editor Matt Maddox. E só.

O visual é uma parte fundamental do filme. Sem dúvida alguma um de seus pontos fortes.

Last Days in the Desert estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme passaria por outros nove festivais antes de chegar comercialmente nos cinemas de alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele estreou de forma limitada apenas em maio deste ano. Depois ele estreou em Cingapura e, no dia 8 de setembro, no Brasil.

Esta produção foi totalmente rodada no Anza-Borrego Desert State Park, na Califórnia – ou seja, muito distante do verdadeiro deserto por onde Jesus caminhou.

O diretor Rodrigo García nasceu na cidade de Bogotá no dia 24 de agosto de 1959. Ele estreou na direção com Things You Can Tell Just by Looking at Her, no ano 2000, com um belo elenco de atrizes: Gleen Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman. Depois, ele trabalharia na direção de episódios de diversas séries, inclusive a elogiada Six Feet Under e a série Big Love. Provavelmente o filme dele mais conhecido seja Nive Lives, de 2005. Até hoje, contudo, o diretor não recebeu nenhum grande destaque por seus longas.

Last Days in the Desert foi indicado a apenas um prêmio: Assistant Location Manager of the Year – Feature no desconhecido California on Location Awards em 2014. Mas ele não levou o prêmio para casa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para esta produção. Uma avaliação abaixo da média, sem dúvida. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,7. Ou seja, os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral.

Algo que eu gostei no filme que talvez eu não tenha deixado claro antes vale citar aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se é verdade que este filme tem alguns pontos controversos e outros um tanto sem coerência, também é verdade que ele repassa algo fundamental de Jesus com muita propriedade. Neste filme, fica claro como Jesus se importa com as pessoas, com a dor humana, com as nossas dúvidas e atribulações. Ele se compadece, Ele quer ficar junto, mesmo quando não estamos exatamente dispostos a ouvi-lo ou a fazer o que deveríamos fazer. Mas ele está ali, está junto, nunca se separa e fica conosco até que o melhor aconteça. Isso é algo belo no filme, assim como a tentativa de mostrar um lado bem humano de Jesus – afinal, ele se fez carne e se tornou um de nós (exceto pelo pecado) para mostrar a todos que é possível trilhar um caminho de santidade.

Vale citar de que forma a experiência de Jesus no deserto é tratada na Bíblia. Em Mateus, após pedir para João Batista para ser batizado, “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”, e daí o Demônio se aproximou dele por três vezes e tentou Jesus de três formas diferentes, recebendo respostas sábias Dele todas as vezes. “Em seguida, o demônio o deixou e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo”. Depois disso, Jesus teria ido para a Galileia e começado a Sua vida pública.

No Evangelho segundo São Marcos, após o batismo no Rio Jordão, “logo o Espírito” impeliu Jesus “para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. Depois que João (Batista) foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia”.

No Evangelho de São Lucas, novamente, temos Jesus indo para o deserto após o batismo no Rio Jordão. No deserto, Ele “foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome”. Novamente aparecem as três tentações do Diabo e as respostas de Jesus, e Lucas afirma: “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Após esta experiência Jesus começa o seu ministério na Galileia. No Evangelho de São João não existe esta passagem sobre a ida de Jesus para o deserto.

Last Days in the Desert é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de pedidos aqui no blog – em uma votação passada a maioria dos leitores pediu filmes originados naquele país.

CONCLUSÃO: Este é um grande exercício de imaginação do diretor Rodrigo García. Esqueça a Bíblia e o que ela nos diz sobre a peregrinação de Jesus pelo deserto. García pega um fato narrado pela Bíblia para se debruçar sobre alguns conceitos e reflexões muito interessantes. Para mim, este filme é mais sobre a Humanidade do que sobre Jesus, ainda que haja muito da sabedoria Dele na telona. Como comentei lá no início, não é possível assistir a esta produção com um olhar histórico, de fé ou fundamentalista. Saia de todos estes tipos de visão e assista com o olhar de uma obra artística. Com belas imagens, ótimos atores e um roteiro interessante, este filme nos leva pela mão em várias reflexões. Por isso mesmo, é mais do que muitas outras produções disponíveis no mercado. Vale a experiência.

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Mud – Amor Bandido

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Gosto de filmes com garotos. Porque estas produções, normalmente, resgatam aquele desejo de aventura e de descobrir o que ainda não se sabe antes da fase adulta, quando o cinismo costuma entrar em cena. Mud segue a tradição de filmes do gênero e nos apresenta uma obra singela, mas muito interessante. Destas que fazem a gente pensar sobre as nossas apostas, nos conceitos e sentimentos que queremos seguir acreditando, e na necessidade de saber quando dar o passo adiante.

A HISTÓRIA: Brinquedos e lembranças marcadas pelo tempo decoram o quarto de Ellis (Tye Sheridan). O garoto está sentado no escuro, à espera de um sinal. Quando o walkie-talkie que ele tem na mão toca, Ellis age. Saindo de casa, ele escuta a mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), falando que está cansada de morar ali. O marido (Ray McKinnon) escuta sem tirar os olhos do jornal. Ellis parte para uma aventura com o amigo Neckbone (Jacob Lofland). Eles vão conferir a história de que existe um barco abandonado sobre uma árvore em uma ilha próxima. Lá, Ellis e Neckbone conhecem a Mud (Matthew McConaughey), um sujeito com uma história atribulada e que vai alterar a rotina dos garotos a partir do encontro com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mud): Como comentei lá no início, sempre gostei de filmes que tem na aventura de dois ou mais garotos o seu mote principal. Não por acaso dois dos meus filmes preferidos de todos os tempos são Stand By Me, do diretor Rob Reiner, baseado em um livro de Stephen King, e The Goonies, dirigido por Richard Donner, com roteiro de Chris Columbus sobre uma história de Steven Spielberg.

Claro, vocês podem falar, que Stand By Me, The Goonies e Mud são muito diferentes entre si. Verdade. Mas este trio de filmes guarda alguns elementos em comum. Para começar, todos são narrados sob a ótica de um par de garotos. Assim, a essência das histórias parte do desejo pelo conhecimento e por aventura que é típico desta fase da vida. Por isso, cada uma destas histórias, a sua maneira, está cheia de encantamento, de curiosidade e do vigor da juventude. Os três filmes também tratam de amizade, um tema que sempre esteve entre os meus preferidos.

Mas as semelhanças terminam aí. Mud é um filme mais adulto que os citados neste texto e que marcaram a década de 1980. Mas este viés do roteiro não se esforça para isso, o que é fundamental para o filme funcionar. Ou, em outras palavras, o roteiro do diretor Jeff Nichols prima pela fluência, pela busca pela legitimidade da história, e não força a barra procurando frases clássicas ou surpresas inusitadas na ação. O que é um alívio para quem já viu muito roteiro com esse tipo de “artimanha”.

Ainda que o espectador aguarde que algo de ruim aconteça a qualquer momento, o desfecho do filme dificilmente será previsto. Então há surpresa, o que também é um grande trunfo para qualquer filme. Mas o que realmente me encantou nesta produção é a essência da história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei uma grande sacada de Nichols colocar como protagonista desta história o garoto Ellis. Ainda que o filme leve o nome de Mud, ele não é o personagem central. Ellis é o narrador, e a figura central da história porque ele carrega a ação. As principais decisões são dele, e a história só acontece da forma com que acontece por causa do garoto. E a sacada acertada de Nichols é ter um garoto em fase de desenvolvimento confrontado com uma das grandes indagações da vida: afinal, vale a pena acreditar no amor? Sacrificar-se por ele?

Indagação fantástica para um filme, não é mesmo? Quase todas as produções românticas abordam esta questão, de uma forma ou de outra. Mas poucas conseguem fazer isso com a inteligência deste filme de Nichols. Ellis vive um momento difícil, de ruptura, algo que é apresentado a ele e para a gente, por tabela, logo nos primeiros minutos do filme. Mas vamos entender isso em profundidade apenas depois. Este é outro acerto do texto do diretor: a compreensão dos fatos vai se desdobrando para o espectador na mesma medida em que o entendimento bate para o protagonista.

Mesmo sendo adulta e tendo vivido mais que Ellis, eu demoro mais neste jogo porque não tenho as informações que o personagem tem. Essa técnica de Nichols mostra a inteligência do roteiro. Mas as qualidades não terminam aí. Ellis fica encantado com Mud por mais de uma razão. Primeiro, e isso fica evidente mais tarde, com um comentário de Juniper (Reese Witherspoon) porque o personagem de Matthew McConaughey sabe como fascinar uma pessoa, fisgá-la com as suas histórias. Depois, porque com a separação iminente dos pais, Ellis vê na história de Mud e Juniper uma alternativa para continuar acreditando no amor.

O próprio Ellis, como pede qualquer filme que tem a passagem da inocência da infância para a maturidade da vida adulta como pano de fundo, está vivendo a descoberta do amor. Ele está encantado por May Pearl (Bonnie Sturdivant), uma garota de 16 anos – ele tem 14 – que, não por acaso, tem o nome composto como a mãe de Ellis. Aliás, nada neste roteiro sobra ou existe por acidente. Cada fala, cada imagem da cidade ou do entorno do rio, cada personagem tem uma razão de ser nesta produção.

Mud e Juniper destoam das pessoas da cidade nos Estados Unidos onde se passa esta história. Ao redor de Ellis e do amigo Neckbone, que comandam as “aventuras” desta produção, o cenário é de poucas oportunidades e de sacrifícios. Os homens costumam falar pouco, a exemplo do pai de Ellis. E as mulheres… bem, elas tem dificuldade de diálogo com os homens e, aparentemente, estão no comando da situação – vide May Pearl e Mary Lee. O que resta, neste cenário, para garotos como Ellis e Neckbone?

Eles se divertem com a realidade que tem. Mas quando Ellis fica fascinado com Mud e encara os desafios que ele vai colocando na sua frente como uma verdadeira missão, aquele entorno difícil do rio ou do centro urbano da cidade fica em segundo plano. Mais uma explicação para o fascínio de Ellis, que tem naquela aventura uma válvula de escape para a separação dos pais e para a consequente mudança no estilo de vida que ele terá ao deixar a casa ribeirinha.

Interessante como, no início, Ellis é movido apenas pelo sentido de “ajuda ao próximo”. Quando Neckbone pergunta para o amigo porque ele está ajudando ao desconhecido Mud, o protagonista responde de forma direta que é porque aquilo “é o certo a fazer”. Depois, quando os garotos conhecem Juniper, eles ficam fascinados por aquela bela mulher, e a motivação de Ellis tem a ver com a defesa de sua própria crença do amor.

Que história maravilhosa, não é mesmo? Fiquei encantada com este filme. E apenas não dou um 10 para ele porque acho que Reese Witherspoon destoa do conjunto da obra. Tanto a personagem dela não é bem explorada pelo roteiro – talvez o único pecado de Nichols -, quanto a interpretação da atriz me pareceu um pouco displicente. Não percebi o mesmo envolvimento dela do que dos outros atores. Mas esse deslize não tira o brilho dos méritos citados desta produção.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neste filme não faz falta e nem sobram personagens. Até os atores coadjuvantes tem o seu tempo e o espaço adequado – a exceção fica apenas com a personagem de Juniper. Talvez a mãe de Ellis poderia aparecer um pouco mais, alguém pode dizer. Talvez. Mas acho que também há lógica na escolha de Nichols de fazer com que Mary Lee tenha o poder de decidir o futuro do protagonista e de sua família, ao mesmo tempo em que sobra para o pai dele, alguém com pouca criatividade para contra-argumentar, mais espaço para lamentar-se.

A postura do pai de Ellis, aliás, me faz refletir sobre como as pessoas que se colocam sempre na posição de vítimas são cansativas e, normalmente, não conseguem resolver os seus próprios problemas. Isso porque elas são muito “boas” contaminando o ambiente e jogando umas pessoas contra as outras, mas não conseguem assumir uma posição de resolução dos problemas ao encontrar saída para as suas próprias fraquezas e equívocos.

Mesmo com a reflexão anterior, devo dizer que uma outra sacada desta produção me impressionou pela sua eficácia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A forma muito natural com que Nichols “humaniza” estereótipos que estamos acostumados a ver nas reportagens dos jornais ou nas conversas de psicólogos. Isso vale tanto para a “vítima constante” e que não consegue sair de seu papel vivida pelo pai de Ellis, quanto pelo “bandido charmoso” Mud. Quem pode julgá-los? Quem pode defendê-los ou atacá-los? Cada personagem tem as suas razões e consegue, a seu próprio modo, causar empatia, pena ou apenas reflexão.

Gostei muito do final de Mud. Não apenas por ele terminar com aquele espírito “esperançoso”, mas principalmente pelo gesto de Ellis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O protagonista desta produção nos dá mais uma lição, além daquela de ajudar ao próximo que ninguém ousaria auxiliar, que é a de aprender com o que viveu com a aparição de Mud. Se ele ficou frustrado com Juniper, esta decepção não foi suficiente para ele descartar o amor como um plano viável. May Pearl foi igualmente uma decepção? Pois com a mudança de casa e de vida, Ellis fica atento às novas possibilidades. E segue em frente. Palmas pra ele!

O pai de Ellis me parece o típico “machão”. Capaz de ter uma conversa franca com o filho, de falar o que pensa para ele, mas incapaz de dialogar com a própria mulher e de pensar diferente do que pensa atualmente. Em outras palavras, ele não tem condições de “pensar fora da caixa”, de se recriar quando é preciso e quando acha que é necessário. Uma pena. E o pior de tudo é que existem tantas pessoas assim – tanto homens quanto mulheres. Ô dó!

Fiquei encantada com os garotos que interpretam os protagonistas deste filme. Tye Sheridan e Jacob Lofland estão perfeitos, de tirar o chapéu. Especialmente o primeiro, que merece ser indicado para alguns prêmios. Além deles, gostei do desempenho de Matthew McConaughey. Acho que é a melhor interpretação dele, exatamente no tom necessário, em muito tempo. Quando ele assume a postura de “herói”, mostra como tem perfil para este papel. Um verdadeiro deleite. 🙂

Além deles, vale citar mais um belo trabalho de Sam Shepard, que interpreta a Tom Blankenship, o homem que criou Mud. Ray McKinnon e Sarah Paulson, que interpretam aos pais de Ellis, estão precisos – sem displicência e sem exageros – em seus papeis. E o ótimo Michael Shannon faz um papel bem secundário, quase uma ponta como Galen, tio de Neckbone e responsável pelo garoto.

Os vilões desta produção tem um desempenho menor. São praticamente coadjuvantes. Mas vale citar os atores que interpretam as ameaças principais: Paul Sparks vive Carver, o primeiro perseguidor de Mud que aparece em cena; e Joe Don Baker, bastante irreconhecível, interpreta a King, pai de Carver.

Da parte técnica do filme, destaco a excelente trilha sonora de David Wingo, parte fundamental para ajudar o filme a ter ritmo; a direção de fotografia equilibrada de Adam Stone, e a edição detalhista de Julie Monroe.

Além de um roteiro que beira a perfeição, Jeff Nichols tem uma direção segura, que equilibra o foco das lentes da produção nos atores e seus personagens tanto quanto no entorno que ajuda a explicá-los. Gosto dos silêncios desta produção, assim como das interações entre os atores. Os garotos roubam a cena, e é encantadora a franqueza deles – algo que muitas vezes falta para os adultos, habituados a jogos de poder e de dissimulação.

O tom principal deste filme é o de aventura, mas há drama, tensão e, porque não, comédia e humor no meio. Uma obra completa e que tem ritmo e estilo.

Este é o terceiro longa-metragem do jovem roteirista e diretor Jeff Nichols. Nascido no Arkansas, ele tem 34 anos – fará 35 em dezembro – e é irmão de Ben Nichols, vocalista da banda Lucero. Antes de Mud, ele filmou Shotgun Stories e Take Skelter, ambos bem cotados no site IMDb. Algo em comum entre os três filmes dirigidos por Nichols é a participação do ator Michael Shannon.

Mud estrou em maio do ano passado no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles.

O terceiro filme de Nichols arrecadou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 21,57 milhões até o último dia 18. Um bom desempenho.

Mud foi rodado em diversas cidades do Arkansas, terra natal do diretor. As principais locações foram feitas em Eudora, Dumas e Stuttgart.

Agora, uma curiosidade da produção: pouco mais de 2 mil garotos participaram das audições para a escolha de quem faria o papel de Neckbone. E outra: Mud foi filmado em oito semanas, com a maior parte do elenco secundário formada por habitantes do Arkansas, incluindo cerca de 400 pessoas contratadas como figurantes.

Eu entendo que as distribuidoras brasileiras sempre se preocupam em tornar os nomes dos filmes mais “acessíveis” e compreensíveis, mas Amor Bandido entrou na lista das escolhas lamentáveis. Era melhor ter deixado Mud. Pelo menos, seria mais coerente com o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Mud. Uma avaliação muito boa, levando em conta o histórico do site. Mais animados que os internautas estão os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles escreveram 154 textos positivos e apenas três negativos, o que garante para o filme uma aprovação impressionante de 98% e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Quem não gostaria de manter a inocência e o vigor da infância para sempre? Mas a vida “ensina”, como nos dizem desde sempre, e com o tempo algumas crenças ficam mais difíceis. Mud trata da diferença da visão de mundo das pessoas, principalmente o que diferencia a postura de adultos e crianças. A motivação do nosso protagonista é a mais simples possível – e, ao mesmo tempo, complexa. Ele quer comprovar que é possível a vitória do amor. Existe algo mais belo e motivador?

O roteiro e a direção de Mud são perfeitos, porque não exageram em nenhuma dose. A impressão que o espectador tem é que está diante de uma história curiosa e que vai crescendo com o tempo. Existe a expectativa de algo ruim pode acontecer a qualquer momento, e este suspense, mas sem exagerar no peso dele, dá ritmo para a produção até o desfecho final. Há covardia e heroísmo nesta história. Clareza nos propósitos, obstinação e fuga. Quase todas as interpretações estão irretocáveis. Mas alguns detalhes não deixam o filme chegar à perfeição. Mas quem se importa? Eis um belo exemplar de cinema, e é isso o que interessa. Vale ser visto com a cabeça fresca, aberta e conectada nas tuas próprias experiências de vida.

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The Tree of Life – A Árvore da Vida

Alguns filmes exigem do espectador uma dose extra de paciência. Pedem boa vontade. Tudo bem quando o resultado final para isso é um projeto inovador, comovente ou que, pelo menos, convença. The Tree of Life exige uma dose super extra de paciência. O problema é que ele não nos leva muito além. Seu principal mérito é a direção de fotografia. Imagens belíssimas. Mas fora toda aquela beleza, descontada a forma, sobra pouco. Quase nada. Em outras palavras, o filme exige muito do espectador, e entrega pouco como prêmio.

A HISTÓRIA: Começa com uma citação da Bíblia: “Onde estavas tu, quando Eu lançava os fundamentos da terra?… Quando as estrelas cantavam juntas pela manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?”. Em seguida, o breu dá lugar a uma luz alaranjada. Alguém pergunta pelo irmão, chama pela mãe, e diz que foram eles que o guiaram até uma determinada porta. Corta. Aparece uma menina na janela. Uma voz feminina diz que o coração de um homem tem duas formas de encarar a vida. A forma da Natureza, e a forma da Graça. A mesma voz diz que nós devemos escolher a qual delas seguir. A partir daí, o filme mergulha em um redemoinho de reflexões sobre estes dois caminhos, o que eles significam e que retorno eles nos trazem. Trata de família, de perdas e de escolhas e, todo o momento, sobre a Criação e o entendimento do homem sobre Deus.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Tree of Life): Tenho certeza que muitos de vocês vão discordar de mim. Paciência. Opiniões existem para isso mesmo, para alguns concordarem, para muitos discordarem. Mas The Tree of Life foi, para mim, uma das grandes decepções dos últimos tempos. Ele entrou naquela minha lista de “muito barulho por nada”. Achei pretensioso, maçante, enrolado.

O visual é maravilhoso. Não há espaço para discutir isso. A direção de fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki é o que o filme tem de melhor. O diretor Terrence Malick também acerta em muitas escolhas, em ângulos de câmera diferenciados e em várias sequências de puro lirismo. Ok, tudo isso é verdadeiro e torna este filme diferenciado. O problema dele é que Malick não se contém e exagera na dose. Parece que ele primeiro fez algumas cenas focando a Natureza espetaculares e, depois, construiu um filme para tentar justificar aquelas imagens.

Porque a história, o roteiro, é sofrível demais. The Tree of Life começa tão, mas tão bem! Adorei aquela reflexão inicial da mãe, Sra. O’Brien (a fantástica Jessica Chastain). Ela resume o filme e sua “filosofia”. As cenas iniciais também são primorosas. Depois, entra em cena o personagem vivido por Sean Penn, Jack, já adulto. Ele olha para aquele mundo cheio de aço e vidro, arranha-céus e dinheiro, e não se reconhece. Parece estar preso em um lugar que ele odeia. Que valia à pena por um tempo, mas que esse tempo já passou.

Esse começo não é fenomenal? Certamente. Uma discussão filosófica profunda – entre formas conflitantes e primárias de enxergar o mundo e a vida – que valia para quando Jack era criança, no Texas dos anos 1950, e que continua valendo agora, nos tempos “pós-modernos”. O problema é que esta boa premissa inicial se perde completamente no caminho. Passados aqueles 20 minutos iniciais, quando são lançadas aquelas ideias iniciais, mais uma boa introdução para a dor, a perda e o quase óbvio questionamento de Deus, o filme mergulha em um transe difícil de engolir.

Primeiro, me desculpe quem adorou aquela parte, mas eu achei irritante tantas cenas sobre o cosmos, o universo e diferentes ângulos da Natureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Meu queixo caiu quando The Tree of Life retornou para a origem da vida e avançou até o surgimento dos dinossauros. Não, demorei pra acreditar. Achei que estava alucinando quando vi o primeiro dinossauro na praia. Sério? Pra quê, meus amigos? Para mostrar como as dores e questionamentos humanos são pequenos, irrelevantes? Tá, disso tudo nós já sabemos. Que por maior e mais magnifíco que seja um cenário, ele um dia teve um início e, um dia, terá um fim? Tá, tá… nesta hora, devo confessar, eu entendi porque alguns cinemas “VIP” servem champanhe para os espectadores. Eu gostaria tanto de ter assistido a esse filme, especialmente a partir do minuto 20, bebendo várias taças de champanhe… teria sido menos difícil de engolí-lo.

Depois de cerca de 15 minutos desta sequência que eu achei uma verdadeira “viagem”, e sem isso ser positivo, mergulhamos novamente na rotina da infância de Jack. Na verdade, acompanhamos a vida do casal O’Brien (Brad Pitt e a já citada Jessica Chastain) desde antes, quando ela fica grávida de Jack e, depois, dos outros filhos. A partir daí, é aquela velha história das relações humanas. O primogênito que tem que lidar com o ciúme da “concorrência” do outro irmão, até que ele cresce um pouco mais e vive a clássica hostilidade/rivalidade com o pai, vendo na mãe o carinho e o afago que não encontra em outra parte. Freud já tratou muito disto, não falarei mais que o óbvio.

Lá pelas tantas, Jack começa a revoltar-se contra o pai. Até chegar naquele momento em que percebe que tudo o que ele deseja é o reconhecimento do progenitor. Enquanto isso, ele admira a mãe, mas a vê muito frágil. Indeciso sobre que caminho daqueles dois seguir, o garoto fica dividido. No futuro, essa mesma divisão vai tomar corpo novamente. É a velha ciranda da vida, com momentos de formação da personalidade, outros de confrontar as origens, depois consolidar-se na sociedade e, lá pelas tantas, questionar tudo isso novamente. Histórias cíclicas. The Tree of Life trata disso, mas de uma maneira muito arrastada e sem linhas de roteiro interessantes. As imagens sim, fazem a diferença, mas não é o suficiente para tornar o filme atrativo ou mesmo fora da curva.

Ah sim, há outros temas imersos nesta história. Todos clássicos, também – não há inovação por aqui, pelo menos não no conteúdo, apenas na forma. Por exemplo: o pai frustrado, que não conseguiu ser o músico brilhante que gostaria e que imaginava ter potencial para tornar-se, e que pega pesado com os filhos. Ele é cruel, duro, exigente. Deixa os garotos com medo. Em alguns momentos, achei que o filme sugeriu que o abuso dele pudesse ter ido além… mas nada comprovou isso, então acho que não aconteceu. De qualquer forma, o pai durão provoca dor, medo, repúdio e fascínio nos filhos. A mulher, que acredita em outra forma de atuar, que tenta ressaltar sempre a importância do amor e da amizade para os filhos, não levanta a voz ou combate o marido. Submissa, outro clássico.

E nestas bases o filme se desenvolve. A história de Jack, o narrador deste filme, mostra como um garoto vai perdendo a sua inocência. Mostra aquele momento em que ele vê os pais sem filtros. Que os julga, tira conclusões e resiste ao que vê. No futuro, ele revê aquele momento com outros olhos, e pede desculpas para o pai. Percebe que acertou em algumas ações, mas que foi infantil em outras. O que acontece com todos nós, em um ou outro momento da vida. E este é o filme. Nada novo, apenas um olhar “poético” sobre estas obviedades.

Bem, The Tree of Life também trata daquela velha discussão sobre a importância ou desimportância do ser humano para Deus. Discussão perdida, devo dizer. Porque ou as pessoas acreditam em Deus, e tem a resposta para isto, ou não acreditam e jamais vão entender a outra versão. Quer dizer, jamais talvez seja um pouco pesado. Mas dificilmente entenderiam.

Achei cansativo e desnecessário todo aquele questionamento de Deus que o filme suscinta. De qualquer forma, há um momento em que este tema chega a um argumento razoável: quando o padre comenta que as pessoas boas também sofrem perdas, e que elas não devem lembrar de Deus apenas nestes momentos, mas quando recebem algo bom também. Ainda que o filme fale muito de Deus, meus amigos, não tratarei deste tema por aqui. Especialmente por causa de outras produções que levantaram discussões similares. E este não é um espaço para isto. Aqui tratamos de cinema. E este filme, como obra cinematográfica, achei longo demais, chato, arrastado e pretensioso. Outros filmes trataram de temas similares e de forma muito mais interessante.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande parte desta produção é narrada pelo jovem Jack. Por isso, Sean Penn aparece pouco. No lugar dele, vivendo o seu personagem quando criança/pré-adolescente, está o ator Hunter McCracken. Ele faz um bom trabalho, mas algumas vezes ele parece ser incapaz de mudar a fisionomia. O que irrita um pouco.

Brad Pitt, que também é produtor de The Tree of Life, faz um pai durão. Ele fala com a boca sempre meio fechada, caminha com segurança, mesmo quando é derrotado. Está bem, mas nada fora do comum. Jessica Chastain sim, dá um show. Parte frágil da história, ela se rende tão bem aos momentos de tristeza quanto aos de alegria e suavidade. Está linda, solta, entregue à personagem. Junto com a direção de fotografia, é um ponto forte da produção.

Ao lado de Jack, brilham na produção como os irmãos do personagem os atores mirins Laramie Eppler como R.L. e Tye Sheridan como Steve.

Na parte técnica, além da direção de fotografia primorosa, vale a pena citar a trilha sonora de Alexandre Desplat e a edição feita por cinco profissionais: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber e Mark Yoshikawa.

The Tree of Life estreou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, ele participou de outros oito festivais, incluindo o Karlovy Vary e o Donostia, de San Sebastián. Em sua trajetória, o filme conquistou 58 prêmios e foi indicado a outros 40. O principal deles foi a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado. A vitória era considerada anunciada, porque o festival teria esperado dois ou três anos para que o filme ficasse pronto, segundo esta matéria. Ainda assim, metade do público vaiou o resultado.

Esta produção, com direção e roteiro de Terrence Malick, teria custado aproximadamente US$ 32 milhões. E foi mal nas bilheterias – o que não me surpreende. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de outubro do ano passado, quando ele saiu de cartaz, The Tree of Life tinha arrecadado pouco mais de US$ 13,3 milhões nas bilheterias. Mas no resto do mundo ele foi bem melhor: arrecadou pouco mais de US$ 54,3 milhões até o dia 27 de outubro. Somados, os resultados mostram que ele faturou pouco mais que o dobro do custo original. Não está mal, mas também está longe de ser um sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 201 críticas positivas e apenas 37 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 8,1. Bastante boas, pois. Eu teria me somado ao grupo minoritário. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme com alta carga simbólica e que tenta mergulhar fundo em questões filosóficas e religiosas. The Tree of Life está carregado de pretensões. Chega a fazer um retrocesso na história de todos os tempos, mas fica a maior parte do tempo centrado nas relações de uma família. As linhas iniciais, que tratam sobre a simplificação do caminho que o Homem pode escolher, poderiam resumir toda a história. Podemos, segundo o filme, escolher entre o caminho da Natureza e o da Graça. Depois de alguns momentos de imersão nos devaneios do diretor, Terrence Malick, nos debruçamos nas relações de uma família, dividida entre estas duas visões de mundo. A história é contada por um dos filhos, que cansa. Se o protagonista cansa, e se Malick devaneia demais, a experiência de The Tree of Life é arrastada, difícil de aguentar. E não porque filmes cheios de simbologia e filosofia não sejam interessantes. Não. Mas no fima destas histórias, buscamos algo além do óbvio. Não é isso o que acontece aqui. A frase “só o amor é o que importa” resumiria tudo. E, para chegar a ela, não precisaríamos de tanta firula. Não gostei.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Tree of Life está concorrendo em três categorias do Oscar deste ano. Como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Diretor. Destas, sem dúvidas, ele merece a indicação e ganhar na categoria de Melhor Fotografia. Se o filme não é um verdadeiro desperdício, muito disto se deve à fotografia. E àqueles 20 minutos iniciais – se o filme tivesse terminado ali ou se o restante tivesse sido editado em 40 minutos, talvez o resultado tivesse sido muito melhor.

Não vejo nenhuma possibilidade de The Tree of Life ganhar como Melhor Filme. Para o meu gosto, ele está anos-luz distante de The Artist e, em segundo lugar, de Midnight in Paris. Mesmo The Descendants e Hugo mereciam ganhar a estatueta mais do que ele. E cá entre nós, se o Oscar não tivesse 10 candidatos, duvido muito que The Tree of Life chegasse a ser finalista entre os cinco que antes eram indicados.

O mesmo em relação a Melhor Diretor. Seria uma grande injustiça premiar Malick e deixar para trás Michel Hazanavicius (The Artist), Martin Scorsese (Hugo) ou Woody Allen (Midnight in Paris). Mesmo Alexander Payne (The Descendants) ganharia o meu voto antes de Malick.

Em melhor Direção de Fotografia The Tree of Life tem chances. Ainda que concorrem com ele, de igual para igual, The Artist e Hugo. Não assisti aos outros concorrentes, mas imagino que a fotografia do veterano Janusz Kaminski em War Horse seja de tirar o chapéu também. Ele pode ganhar nesta categoria, mas terá que, para isso, vencer a grandes concorrentes. Logo mais saberemos se ele será capaz.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu sabia! Nesta correria de muito trabalho e de concentração reforçada para o Oscar deste ano, esqueci de fazer uma menção fundamental: que The Tree of Life foi indicado aqui no blog há muito tempo pelo Lorenzo Lavati. Querido leitor, o Lorenzo pediu um comentário do filme no já distante dia 25 de setembro do ano passado. Eis aqui a crítica, Lorenzo. E aí, o que você achou do filme e do comentário acima? Abraços e obrigada por esta recomendação. Ah sim, e agora eu vi que o Mangabeira, fiel leitor do blog, também recomendou The Tree of Life, mas no início deste ano, no dia 2 de janeiro, para ser mais precisa. Mangabeira, como acabo de comentar na resposta para a tua recomendação, notei que você não gostou desta minha crítica… mas paciência. Inevitavelmente um dia isso acontecer. Afinal, impossível as pessoas concordarem sempre. Abraços e obrigada pela dica também.