Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

To the Wonder – Amor Pleno

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Dois temas fundamentais para qualquer pessoa, o amor e a fé, estão no centro da história de To the Wonder. O diretor e roteirista Terrence Malick mais uma vez trata de questões essenciais e existenciais em seu novo filme. As cenas, para não variar, são belíssimas, e o visual dita a narrativa muito mais do que as falas dos personagens algumas vezes desconexas. Esta é a forma de Malick em fazer o seu cinema, um estilo que enche os olhos e busca fazer o espectador pensar sobre questões fundamentais.

A HISTÓRIA: Uma mulher, Marina (Olga Kurylenko) fala de seu renascimento, da descoberta do amor junto de Neil (Ben Affleck). Acompanhamos os dias de paixão e encantamento entre os dois na maravilhosa Paris, a cidade dos enamorados. O olhar, as imagens são dele, de um norte-americano fascinado por uma francesa que ama a liberdade. Acompanhamos as desventuras deste casal e, em paralelo, as inquietações do padre Quintana (Javier Bardem).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a To the Wonder): Sou franca em admitir que eu não era uma fã da filmografia de Terrence Mallick em sua “primeira fase”, forjada nos anos 1970. Sendo assim, não tenho uma carteirinha do diretor em casa. Mas como qualquer mortal que assistia a um monte de filmes nos anos 1980 em diante, acompanhei o alvoroço sobre a volta do diretor ao batente com o lançamento de The Thin Red Line em 1998.

Gostei daquele filme. Ele me parecia uma volta à melhor fase do cinema de guerra, como quando lançaram Apocalipse Now. Havia poesia em cena, e não apenas tiroteios, mortes e gente jovem passando o tempo ao flertar com a morte. Mas diferente de outros apreciadores do cinema, eu não vi o mesmo potencial nos outros filmes de Mallick lançados desde então. The Tree of Life, em especial, para mim foi uma experiência muito entediante – como vocês puderam ler nesta crítica.

Então cheguei para assistir a To the Wonder com certa curiosidade, mas sem grandes expectativas. Como eu gosto de antropologia, queria mais era conferir para que caminho o diretor estava trilhando agora. E ele segue a mesma linha do filme anterior, falando menos de morte, família e da evolução do planeta que a produção anterior, mas igualmente em uma busca pseudo-filosófica.

Sabendo melhor sobre o estilo de Mallick e após a decepção com The Tree of Life, admito que até gostou de To the Wonder. Primeiro que boa parte do filme gira naquele delicioso flerte amoroso. Cenas belíssimas de encantamento desfilam na frente do espectador, e isso nunca é demais de ser assistido. Mas ao mesmo tempo que eu via aquelas cenas maravilhosas, eu pensava quando tudo aquilo iria acabar. Porque sim, Mallick não sabe ser feliz.

Então uma hora a decepção generalizada começou a tomar força. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Seja na frustração de Marina com a falta de “comprometimento” de Neil, seja no automatismo do padre Quintana, que a todo momento nos diz que está desencantado com Deus ao não receber respostas para a sua própria falta de fé. E daí o filme gira nestas frustrações por um bom tempo, enquanto eu me perguntava: “Ok, entendi. Mas e agora, para onde vamos?”.

Como gostam os diretores de estilo “artista” como Mallick, o importante mesmo não é responder, mas lançar perguntas. O que eu acho bacana. Como tantas outras expressões de arte, quem deve ter respostas é o público. Cada um de nós. E apenas uma resposta não vale. O ideal são as múltiplas conclusões. Agora, isso funciona bem no cinema? Em algumas situações, sim. Em outras, como neste filme de Mallick, eu fico com a impressão de ter visto “mais do mesmo” em uma produção um tanto pretensiosa demais.

De fato, me agrada mais outros estilos de cinema. Muitas vezes, filme tão ou mais “poéticos” quanto este, mas que conseguem nos provocar em um nível muito diferente. Produções que nos tiram da zona de conforto. To the Wonder faz isso? Para mim, não fez. Talvez para você, caro leitor, ele tenha tido este efeito. Da minha parte, achei apenas um filme muito bem dirigido, no qual o diretor parece estar a todo instante buscando a cena mais bonita possível. E só.

Há questões que não ficam muito claras para mim. Por que, apesar de grande parte da história se passar nos Estados Unidos, os protagonistas – Marina e o padre Quintana – narram as suas histórias em línguas estrangeiras? A saber: francês e espanhol. É uma forma de ressaltar o estranhamento deles com o local em que eles estão? Uma forma de dizer que os amores, as dúvidas e as dores são universais? Pode ser. Mas para mim essa intenção não fica clara. E no cinema, toda escolha do diretor ou do roteirista que não comunica, que não deixa claro o que se propõe, não ajuda.

Depois, por mais que esta produção esteja bem focada no amor, ela me pareceu cheia de desesperança. Demais para o meu gosto. Marina conhece Neil, se apaixona por ele, decide segui-lo com a filha Tatiana (Tatiana Chiline) até os Estados Unidos e, depois, vê a expectativa de se casar com ele frustrada. Final do Primeiro Ato. Por sua parte, o padre Quintana faz um importante trabalho de formiguinha ajudando pessoas que precisam enquanto, internamente, sofre com a falta de Deus, de fé, de respostas. Mais desesperança.

No Segundo Ato, Marina finalmente consegue o que quer. Mas no fim das contas, o que ela queria não era suficiente. A busca pelo amor dela parece sem fim, e incapaz de estar satisfeito em um casamento. Enquanto isso, o padre Quintana segue orando, cansado, e prega que o “amor é um dever”. Mas afinal, o que é o amor? É livre e vale por si mesmo, como sugere Marina, ou é um dever, como afirma Quintana?

O filme não responde, é claro. Mas nos mostra estes painéis tão diferentes da realidade para refletirmos a respeito. Acho louvável Mallick abraçar o debate, ainda que eu tenha achado bem desconexa a junção das histórias de Marina e do padre. Ok, em certo momento eles se encontram. Mas o pobre Javier Bardem fica em segundo plano na história, quase eclipsado pelas andanças de Olga Kurylenko.

A impressão que eu tenho é que Mallick ficou tão fascinado com o desempenho da atriz ucraniana, com sua leveza e beleza, que não houve outra escolha possível que não deixar o filme para ela. Bacana. Tenho certeza que os homens vão adorar. Até porque ela ajuda a tornar o filme tão bonito. Mas eu lamentei pelos demais atores, especialmente Bardem, que pouco aparece.

Resumo da ópera: para mim, o melhor do filme está na beleza das imagens e no encantamento do amor. A desesperança, especialmente das expectativas humanas frustradas, me cansou. Isso porque eu acho que as expectativas devem ser conhecidas, e todos deveriam lidar com as suas frustrações. Elas fazem parte da vida. Há dias mais difíceis que outros, e dias mais fáceis. Ter essa consciência, buscar a calma e esperar pela melhora do cenário, é fundamental. Do contrário, a solução seria acreditar que devemos viver e amar apenas por obrigação, que é uma das versões deste filme? Prefiro não acreditar nisto. Mas cada um, como sempre, chegará a suas próprias conclusões.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A nota acima tem menos a ver com o efeito do filme sobre o espectador e está mais relacionada pelo excelente trabalho do diretor Terrence Mallick. To the Wonder é um filme belíssimo e menos chato que The Tree of Life. Também achei ele um pouco menos ambicioso. Apenas por estas razões, acho justo este novo filme de Mallick ganhar uma avaliação melhor.

O problema central de To the Wonder, para o meu gosto, é o roteiro pouco costurado de Malick. Certo que ele tenta fazer poesia com os filmes. Acho bacana, ousado. E nesta produção, em especial, gostei da forma com que os pensamentos dos personagens principais direcionam a narrativa. Ainda assim, nem sempre a técnica dá certo. Em muitos momentos, por exemplo, achei a técnica cansativa e repetitiva. Sem contar que o espectador perde muito ao não acompanhar o que os personagens dizem uns para os outros, em muitos momentos. Afinal, as palavras tem muito peso, quando proferidas – e não apenas quando ressoam na nossa consciência.

A narrativa desta produção, como eu comentei antes, ficam por conta dos personagens de Olga Kurylenko e de Javier Bardem. Além deles, ganha destaque nesta produção, ainda que muito mais pela presença física do que pela narrativa, o ator Ben Affleck. Em segundo plano aparecem a já citada Tatiana Chiline e Rachel McAdams. Esta última, como Jane, aparece como um raio de sol na tela. Pena que por pouco tempo.

Além da direção de Mallick, impossível não tirar o chapéu para a excepcional direção de fotografia de Emmanuel Lubezki, mexicano que trabalhou nos dois filmes anteriores de Mallick e que se destacou, entre outros, pelos trabalhos em Y Tu Mamá También, Ali, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events (com crítica aqui) e Children of Men. Lubezki foi indicado a cinco Oscar, mas não ganhou nenhuma estatueta até o momento. Além dele, tem um peso fundamental nesta produção a trilha sonora de Hanan Townshend.

Falando em prêmios, To the Wonder recebeu um até agora: o Signis Award no Festival de Veneza em 2012. Este prêmio é entregue pela Associação Mundial Católica para a Comunicação. Na ocasião da escolha do filme para o Signis Award, a associação destacou a “narrativa tecnicamente rica e poética” desta produção independente que “celebra os mistérios da beleza, da verdade e do amor”. Eles também destacaram que a “rica composição do filme, a direção texturizada e o uso da luz reúnem elementos de divindade e de humanidade que, finalmente, criam uma experiência sacramental que revela o dom do amor incondicional de Deus”. No mesmo ano, o filme foi indicado ao Leão de Ouro, mas perdeu a disputa para Pieta, dirigido por Ki-duk Kim.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para To the Wonder. Nada mal, para os padrões da página. Para comparar, The Tree of Life tem a nota 6,8. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, para a minha surpresa, foram menos efusivos. Eles dedicaram 61 críticas positivas e 83 negativas, o que rendeu uma aprovação de 42% para o filme e uma nota média de 5,6.

Falando ainda da direção de Mallick, para mim o ponto forte desta produção, eu gostei da escolha do diretor, junto com Emmanuel Lubezki, dos recursos para a captação das imagens. Por exemplo, na parte inicial do filme, assistimos a cenas de “menor qualidade” porque elas nos apresentam Marina sob a ótica de Neil. Em certo momento, ele aparece com uma filmadora na mão. Depois, as cenas em alta definição dominam a produção, nos entregando sequências maravilhosas.

Sobre os atores, de fato Olga Kurylenko é uma ótima intérprete. Ela se entrega ao papel, à personagem, e sabe encantar a câmera. Mas a loucura da personagem dela, tão insatisfeita e inconstante, me cansou um pouco. Ben Affleck… ah, Ben Affleck. Está um deleite só. 🙂 Este deve ter sido o filme em que ele se preocupou menos com decorar as falas, afinal, ele é quase mudo. hehehehehe. Seu papel é embelezar a telona, ao lado de Olga. Nossos olhos agradecem.

Agora, para fechar, umas poucas linhas para vocês, meus fiéis leitores: sei que deixei vocês “na mão” por algum tempo. Um exemplo disto é que o texto anterior a este foi publicado há quase dois meses. Minha produção por aqui caiu muito – especialmente na quantidade de textos publicados. Peço desculpas por isso. Sinceras desculpas. É que algumas escolhas que eu fiz, especialmente em 2012, me tiraram grande tempo de vida. Não tive quase oportunidade alguma de atualizar o blog. Mas agora esta situação mudou. Tomei uma atitude para fazer com que eu tenha mais tempo livre e isso, entre outras coisas, trará mais textos para este blog. Podem me cobrar a respeito. 🙂 E muito, muito obrigada para quem seguiu me acompanhando até aqui. Este blog só tem razão de ser por causa de vocês. Abraços!

CONCLUSÃO: Para algumas pessoas, ficar horas observando uma obra de arte ou uma paisagem é mais significativo e provocante do que horas de conversa com amigos em uma mesa de bar. Diferentes pessoas chegam ao prazer extremo de formas distintas. Para alguns, falar e ouvir é fundamental. Para outros, a contemplação e o silêncio são muito mais significativos. To the Wonder é um deleite para aqueles que tem na linguagem visual e na contemplação a sua melhor característica.

O filme, como é típico do diretor e roteirista Terrence Mallick, tenta abordar temas existencialistas fundamentais. Amor e fé, a relação humana com seus semelhantes e com o “amor” supremo. Ambicioso, mais uma vez. E o resultado? Como eu normalmente concluo após assistir aos filmes de Mallick, pelo menos desde o retorno dele aos cinemas com The Thin Red Line, é muito mais de provocação visual do que filosófica. Ou, em outras palavras, vejo To the Wonder como um deleite para os olhos, cheio de riqueza na forma, mas fraco no conteúdo. O bom de conhecer um realizador como ele, contudo, é que esse conteúdo pseudo-filosófico que se resume mais na forma não decepciona. Era previsível. Então sim, é um belo filme. E nada mais. Não emociona, não incomoda, não faz você se mexer na poltrona do cinema ou no sofá de casa. Apenas mais um Mallick para agradar a crítica, tornar quase duas horas do nosso tempo um deleite visual e nada mais.

The Tree of Life – A Árvore da Vida

Alguns filmes exigem do espectador uma dose extra de paciência. Pedem boa vontade. Tudo bem quando o resultado final para isso é um projeto inovador, comovente ou que, pelo menos, convença. The Tree of Life exige uma dose super extra de paciência. O problema é que ele não nos leva muito além. Seu principal mérito é a direção de fotografia. Imagens belíssimas. Mas fora toda aquela beleza, descontada a forma, sobra pouco. Quase nada. Em outras palavras, o filme exige muito do espectador, e entrega pouco como prêmio.

A HISTÓRIA: Começa com uma citação da Bíblia: “Onde estavas tu, quando Eu lançava os fundamentos da terra?… Quando as estrelas cantavam juntas pela manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?”. Em seguida, o breu dá lugar a uma luz alaranjada. Alguém pergunta pelo irmão, chama pela mãe, e diz que foram eles que o guiaram até uma determinada porta. Corta. Aparece uma menina na janela. Uma voz feminina diz que o coração de um homem tem duas formas de encarar a vida. A forma da Natureza, e a forma da Graça. A mesma voz diz que nós devemos escolher a qual delas seguir. A partir daí, o filme mergulha em um redemoinho de reflexões sobre estes dois caminhos, o que eles significam e que retorno eles nos trazem. Trata de família, de perdas e de escolhas e, todo o momento, sobre a Criação e o entendimento do homem sobre Deus.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Tree of Life): Tenho certeza que muitos de vocês vão discordar de mim. Paciência. Opiniões existem para isso mesmo, para alguns concordarem, para muitos discordarem. Mas The Tree of Life foi, para mim, uma das grandes decepções dos últimos tempos. Ele entrou naquela minha lista de “muito barulho por nada”. Achei pretensioso, maçante, enrolado.

O visual é maravilhoso. Não há espaço para discutir isso. A direção de fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki é o que o filme tem de melhor. O diretor Terrence Malick também acerta em muitas escolhas, em ângulos de câmera diferenciados e em várias sequências de puro lirismo. Ok, tudo isso é verdadeiro e torna este filme diferenciado. O problema dele é que Malick não se contém e exagera na dose. Parece que ele primeiro fez algumas cenas focando a Natureza espetaculares e, depois, construiu um filme para tentar justificar aquelas imagens.

Porque a história, o roteiro, é sofrível demais. The Tree of Life começa tão, mas tão bem! Adorei aquela reflexão inicial da mãe, Sra. O’Brien (a fantástica Jessica Chastain). Ela resume o filme e sua “filosofia”. As cenas iniciais também são primorosas. Depois, entra em cena o personagem vivido por Sean Penn, Jack, já adulto. Ele olha para aquele mundo cheio de aço e vidro, arranha-céus e dinheiro, e não se reconhece. Parece estar preso em um lugar que ele odeia. Que valia à pena por um tempo, mas que esse tempo já passou.

Esse começo não é fenomenal? Certamente. Uma discussão filosófica profunda – entre formas conflitantes e primárias de enxergar o mundo e a vida – que valia para quando Jack era criança, no Texas dos anos 1950, e que continua valendo agora, nos tempos “pós-modernos”. O problema é que esta boa premissa inicial se perde completamente no caminho. Passados aqueles 20 minutos iniciais, quando são lançadas aquelas ideias iniciais, mais uma boa introdução para a dor, a perda e o quase óbvio questionamento de Deus, o filme mergulha em um transe difícil de engolir.

Primeiro, me desculpe quem adorou aquela parte, mas eu achei irritante tantas cenas sobre o cosmos, o universo e diferentes ângulos da Natureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Meu queixo caiu quando The Tree of Life retornou para a origem da vida e avançou até o surgimento dos dinossauros. Não, demorei pra acreditar. Achei que estava alucinando quando vi o primeiro dinossauro na praia. Sério? Pra quê, meus amigos? Para mostrar como as dores e questionamentos humanos são pequenos, irrelevantes? Tá, disso tudo nós já sabemos. Que por maior e mais magnifíco que seja um cenário, ele um dia teve um início e, um dia, terá um fim? Tá, tá… nesta hora, devo confessar, eu entendi porque alguns cinemas “VIP” servem champanhe para os espectadores. Eu gostaria tanto de ter assistido a esse filme, especialmente a partir do minuto 20, bebendo várias taças de champanhe… teria sido menos difícil de engolí-lo.

Depois de cerca de 15 minutos desta sequência que eu achei uma verdadeira “viagem”, e sem isso ser positivo, mergulhamos novamente na rotina da infância de Jack. Na verdade, acompanhamos a vida do casal O’Brien (Brad Pitt e a já citada Jessica Chastain) desde antes, quando ela fica grávida de Jack e, depois, dos outros filhos. A partir daí, é aquela velha história das relações humanas. O primogênito que tem que lidar com o ciúme da “concorrência” do outro irmão, até que ele cresce um pouco mais e vive a clássica hostilidade/rivalidade com o pai, vendo na mãe o carinho e o afago que não encontra em outra parte. Freud já tratou muito disto, não falarei mais que o óbvio.

Lá pelas tantas, Jack começa a revoltar-se contra o pai. Até chegar naquele momento em que percebe que tudo o que ele deseja é o reconhecimento do progenitor. Enquanto isso, ele admira a mãe, mas a vê muito frágil. Indeciso sobre que caminho daqueles dois seguir, o garoto fica dividido. No futuro, essa mesma divisão vai tomar corpo novamente. É a velha ciranda da vida, com momentos de formação da personalidade, outros de confrontar as origens, depois consolidar-se na sociedade e, lá pelas tantas, questionar tudo isso novamente. Histórias cíclicas. The Tree of Life trata disso, mas de uma maneira muito arrastada e sem linhas de roteiro interessantes. As imagens sim, fazem a diferença, mas não é o suficiente para tornar o filme atrativo ou mesmo fora da curva.

Ah sim, há outros temas imersos nesta história. Todos clássicos, também – não há inovação por aqui, pelo menos não no conteúdo, apenas na forma. Por exemplo: o pai frustrado, que não conseguiu ser o músico brilhante que gostaria e que imaginava ter potencial para tornar-se, e que pega pesado com os filhos. Ele é cruel, duro, exigente. Deixa os garotos com medo. Em alguns momentos, achei que o filme sugeriu que o abuso dele pudesse ter ido além… mas nada comprovou isso, então acho que não aconteceu. De qualquer forma, o pai durão provoca dor, medo, repúdio e fascínio nos filhos. A mulher, que acredita em outra forma de atuar, que tenta ressaltar sempre a importância do amor e da amizade para os filhos, não levanta a voz ou combate o marido. Submissa, outro clássico.

E nestas bases o filme se desenvolve. A história de Jack, o narrador deste filme, mostra como um garoto vai perdendo a sua inocência. Mostra aquele momento em que ele vê os pais sem filtros. Que os julga, tira conclusões e resiste ao que vê. No futuro, ele revê aquele momento com outros olhos, e pede desculpas para o pai. Percebe que acertou em algumas ações, mas que foi infantil em outras. O que acontece com todos nós, em um ou outro momento da vida. E este é o filme. Nada novo, apenas um olhar “poético” sobre estas obviedades.

Bem, The Tree of Life também trata daquela velha discussão sobre a importância ou desimportância do ser humano para Deus. Discussão perdida, devo dizer. Porque ou as pessoas acreditam em Deus, e tem a resposta para isto, ou não acreditam e jamais vão entender a outra versão. Quer dizer, jamais talvez seja um pouco pesado. Mas dificilmente entenderiam.

Achei cansativo e desnecessário todo aquele questionamento de Deus que o filme suscinta. De qualquer forma, há um momento em que este tema chega a um argumento razoável: quando o padre comenta que as pessoas boas também sofrem perdas, e que elas não devem lembrar de Deus apenas nestes momentos, mas quando recebem algo bom também. Ainda que o filme fale muito de Deus, meus amigos, não tratarei deste tema por aqui. Especialmente por causa de outras produções que levantaram discussões similares. E este não é um espaço para isto. Aqui tratamos de cinema. E este filme, como obra cinematográfica, achei longo demais, chato, arrastado e pretensioso. Outros filmes trataram de temas similares e de forma muito mais interessante.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande parte desta produção é narrada pelo jovem Jack. Por isso, Sean Penn aparece pouco. No lugar dele, vivendo o seu personagem quando criança/pré-adolescente, está o ator Hunter McCracken. Ele faz um bom trabalho, mas algumas vezes ele parece ser incapaz de mudar a fisionomia. O que irrita um pouco.

Brad Pitt, que também é produtor de The Tree of Life, faz um pai durão. Ele fala com a boca sempre meio fechada, caminha com segurança, mesmo quando é derrotado. Está bem, mas nada fora do comum. Jessica Chastain sim, dá um show. Parte frágil da história, ela se rende tão bem aos momentos de tristeza quanto aos de alegria e suavidade. Está linda, solta, entregue à personagem. Junto com a direção de fotografia, é um ponto forte da produção.

Ao lado de Jack, brilham na produção como os irmãos do personagem os atores mirins Laramie Eppler como R.L. e Tye Sheridan como Steve.

Na parte técnica, além da direção de fotografia primorosa, vale a pena citar a trilha sonora de Alexandre Desplat e a edição feita por cinco profissionais: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber e Mark Yoshikawa.

The Tree of Life estreou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, ele participou de outros oito festivais, incluindo o Karlovy Vary e o Donostia, de San Sebastián. Em sua trajetória, o filme conquistou 58 prêmios e foi indicado a outros 40. O principal deles foi a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado. A vitória era considerada anunciada, porque o festival teria esperado dois ou três anos para que o filme ficasse pronto, segundo esta matéria. Ainda assim, metade do público vaiou o resultado.

Esta produção, com direção e roteiro de Terrence Malick, teria custado aproximadamente US$ 32 milhões. E foi mal nas bilheterias – o que não me surpreende. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de outubro do ano passado, quando ele saiu de cartaz, The Tree of Life tinha arrecadado pouco mais de US$ 13,3 milhões nas bilheterias. Mas no resto do mundo ele foi bem melhor: arrecadou pouco mais de US$ 54,3 milhões até o dia 27 de outubro. Somados, os resultados mostram que ele faturou pouco mais que o dobro do custo original. Não está mal, mas também está longe de ser um sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 201 críticas positivas e apenas 37 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 8,1. Bastante boas, pois. Eu teria me somado ao grupo minoritário. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme com alta carga simbólica e que tenta mergulhar fundo em questões filosóficas e religiosas. The Tree of Life está carregado de pretensões. Chega a fazer um retrocesso na história de todos os tempos, mas fica a maior parte do tempo centrado nas relações de uma família. As linhas iniciais, que tratam sobre a simplificação do caminho que o Homem pode escolher, poderiam resumir toda a história. Podemos, segundo o filme, escolher entre o caminho da Natureza e o da Graça. Depois de alguns momentos de imersão nos devaneios do diretor, Terrence Malick, nos debruçamos nas relações de uma família, dividida entre estas duas visões de mundo. A história é contada por um dos filhos, que cansa. Se o protagonista cansa, e se Malick devaneia demais, a experiência de The Tree of Life é arrastada, difícil de aguentar. E não porque filmes cheios de simbologia e filosofia não sejam interessantes. Não. Mas no fima destas histórias, buscamos algo além do óbvio. Não é isso o que acontece aqui. A frase “só o amor é o que importa” resumiria tudo. E, para chegar a ela, não precisaríamos de tanta firula. Não gostei.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Tree of Life está concorrendo em três categorias do Oscar deste ano. Como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Diretor. Destas, sem dúvidas, ele merece a indicação e ganhar na categoria de Melhor Fotografia. Se o filme não é um verdadeiro desperdício, muito disto se deve à fotografia. E àqueles 20 minutos iniciais – se o filme tivesse terminado ali ou se o restante tivesse sido editado em 40 minutos, talvez o resultado tivesse sido muito melhor.

Não vejo nenhuma possibilidade de The Tree of Life ganhar como Melhor Filme. Para o meu gosto, ele está anos-luz distante de The Artist e, em segundo lugar, de Midnight in Paris. Mesmo The Descendants e Hugo mereciam ganhar a estatueta mais do que ele. E cá entre nós, se o Oscar não tivesse 10 candidatos, duvido muito que The Tree of Life chegasse a ser finalista entre os cinco que antes eram indicados.

O mesmo em relação a Melhor Diretor. Seria uma grande injustiça premiar Malick e deixar para trás Michel Hazanavicius (The Artist), Martin Scorsese (Hugo) ou Woody Allen (Midnight in Paris). Mesmo Alexander Payne (The Descendants) ganharia o meu voto antes de Malick.

Em melhor Direção de Fotografia The Tree of Life tem chances. Ainda que concorrem com ele, de igual para igual, The Artist e Hugo. Não assisti aos outros concorrentes, mas imagino que a fotografia do veterano Janusz Kaminski em War Horse seja de tirar o chapéu também. Ele pode ganhar nesta categoria, mas terá que, para isso, vencer a grandes concorrentes. Logo mais saberemos se ele será capaz.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu sabia! Nesta correria de muito trabalho e de concentração reforçada para o Oscar deste ano, esqueci de fazer uma menção fundamental: que The Tree of Life foi indicado aqui no blog há muito tempo pelo Lorenzo Lavati. Querido leitor, o Lorenzo pediu um comentário do filme no já distante dia 25 de setembro do ano passado. Eis aqui a crítica, Lorenzo. E aí, o que você achou do filme e do comentário acima? Abraços e obrigada por esta recomendação. Ah sim, e agora eu vi que o Mangabeira, fiel leitor do blog, também recomendou The Tree of Life, mas no início deste ano, no dia 2 de janeiro, para ser mais precisa. Mangabeira, como acabo de comentar na resposta para a tua recomendação, notei que você não gostou desta minha crítica… mas paciência. Inevitavelmente um dia isso acontecer. Afinal, impossível as pessoas concordarem sempre. Abraços e obrigada pela dica também.