First Man – O Primeiro Homem

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O ser humano é capaz de feitos incríveis. Quase inacreditáveis. Uma história marcante sobre o potencial da Humanidade em surpreender e superar todas as perspectivas é contada com esmero em First Man. Por que o filme é brilhante? Além da parte técnica, perfeita, First Man mergulha sem pudores na vida real de um herói dos Estados Unidos – e, por que não dizer, da humanidade? – sem que este mergulho seja carregado de maquiagem. Não, muito pelo contrário. Vemos como nunca, até então, o quanto foi dura a conquista do espaço e o preço alto que muitos pagaram por isso. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Um voo turbulento. Tudo sacode, tudo treme, o horizonte não parece seguro. Dentro da cabine da aeronave, o piloto Neil Armstrong (Ryan Gosling) procura manter a calma mesmo frente a um cenário complicado. A nave acaba subindo, até 140 mil pés, e depois começa a descer. O voo é angustiante, mas o avião sobe até “ricochetear” na atmosfera.

Lá em cima, Armstrong tem uma visão fantástica, algo restrito a poucos. Inicialmente, ele não parece ter controle da aeronave, mas depois ele consegue esse controle e começa a descer. Esta é a história de Neil e de um feito incrível da humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Man): Eu não vou mentir para vocês. Fiquei extasiada ao assistir a First Man. De verdade, o filme me tocou, me envolveu e me deixou um bocado de tempo impactada. Assisti ele há algumas semanas, no cinema, e após desovar a outra crítica, finalmente chego a First Man.

Certamente vocês, como eu, já assistiram a diversos filmes “baseados em uma história real”. Existem muitos exemplos por aí. Uns melhores que outros. Não é fácil fazer um filme do estilo, claro. Muitos caem na armadilha do “filme-homenagem”, ou seja, naquela produção que acaba elogiando mais os personagens reais do que realmente procurando contar a história com a complexidade que qualquer  história real apresenta.

Porque a gente pode até tentar fazer tudo da maneira simples e tentar simplificar a problemática da vida, mas muitas vezes o que acontece em diferentes etapas da nossa trajetória não é tão simples quanto a gente gostaria. A vida é complicada, algumas vezes. Então por que muitos filmes baseados em histórias reais procuram simplificar ao máximo essas histórias?

First Man não faz isso. E talvez essa seja a base de toda a qualidade que o filme apresenta. Porque, como digo e gosto de repetir, um filme para ser bom, realmente bom, deve ter um ótimo roteiro. Encontramos exatamente isso no trabalho de Josh Singer, baseado no livro de James R. Hansen. First Man não é apenas envolvente e bem construído em sua narrativa, mas ele mergulha em um personagem central para mostrar a sua complexidade e sutilezas.

Ao redor desse personagem principal, que é como se fosse o sol em uma constelação, temos a vários personagens “satélites” que ajudam a explicar o protagonista. O sistema todo se mantêm em equilíbrio e trabalha em conjunto de uma forma muito precisa e interessante. Mas não é apenas o roteiro que explica o impacto e a força de First Man. Outro elemento fundamental, e acredito que um verdadeiro diferencial deste filme, seja a direção do talentoso Damien Chazelle.

O jovem diretor de 33 anos – ele terá 34 quando o Oscar 2019 for anunciado -, que anteriormente já nos mostrou o seu talento em Whiplash (comentado por aqui) e La La Land (com crítica neste link), apresenta em seu terceiro longa como diretor um passo à mais em direção ao seu amadurecimento enquanto realizador. Para mim, First Man é o seu melhor filme até o momento.

Não é nada simples mostrar toda a angústia, o desafio e o risco que pilotos de aeronaves e, depois, astronautas como Neil Armstrong na muito longínqua década de 1960. A direção de Chazelle mergulha naquela época e em cada detalhe da vida de Armstrong e das demais pessoas envolvidas diretamente na corrida espacial norte-americana. O resultado disso é que o espectador se sente literalmente imerso naquele realidade para vivenciar um dos grandes momentos da humanidade.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma quedinha gigantesca – e aí está uma antítese irônica – pelo poder de superação da raça humana. Não apenas por termos nos adaptado por tanto tempo, como espécie, e seguirmos fazendo isso, mas para nos aventurarmos por searas que nem mesmo os homens de ficção poderiam imaginar há mais de um século.

Dentro da história do nosso universo e mesmo da Terra, somos a espécie com menos “importância” em termos de longevidade. Mas de tempos em tempos alguns homens e mulheres buscam superar a nossa condição humana e nos levar para novas fronteiras do conhecimento e do saber. First Man conta uma destas histórias, com uma franqueza de roteiro e uma potência de direção que não é muito comum de encontrarmos no cinema de Hollywood.

Esse meu “fraco” pelas histórias de superação e pela capacidade humana de chegar a lugares pouco antes considerados impossíveis me fez cair como um patinho nessa história. Levada pelas mãos por uma competente e envolvente direção de Chazelle, me emocionei e fiquei realmente impactada com a história de Armstrong, de sua família e de seus colegas. De todas aquelas pessoas que se sacrificaram tanto para que a humanidade chegasse aonde ela nunca tinha chegado até então.

Além dos elementos já comentados, algo incrível nesse filme é como ele resgata com perfeição os anos 1960. Em cada detalhe, desde as casas e ruas comuns da época até os bastidores da Nasa. Impressionante vislumbrar como os americanos estavam distantes do sonho de chegar à lua mas, apesar de todos os prognósticos contra, eles avançaram arriscando pessoas e recursos para ganhar a queda de braço com os russos. Uma história realmente impressionante e que merecia ser contada.

Agora, além de tudo isso, precisamos falar sobre a humanidade que está neste filme, além da narrativa científica fascinante. Como comentei antes, um dos grandes méritos de First Man é que ele não se preocupa em homenagear as pessoas, simplesmente. Armstrong é mostrado da forma mais crua possível. Ele era um sujeito sério, quieto, preocupado com o seu “dever” e, ao mesmo tempo, angustiado com a perda da filha Karen (Lucy Stafford).

Apesar de ter uma história fascinante e de ser muito talentoso, Armstrong era um sujeito que não conseguia, exatamente, lidar com tudo que estava acontecendo. Ele tinha muita pressão no trabalho e, em casa, se cobrava sozinho pela morte da filha – ou, se ele não se cobrava, tinha dificuldade de aceitar.

Então ele amava a esposa, Janet, magistralmente interpretada por Claire Foy, e conseguia dar atenção para os dois filhos, Rick (interpretado por Gavin Warren e por Luke Winters) e Mark (Connor Blodgett), mas ele nem sempre conseguia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Então ele era um profissional super competente e um sujeito esforçado em casa, mas não era perfeito. Como ninguém é, na verdade. First Man apresentar isso com tanta franqueza é algo realmente precioso.

Enfim, o que mais eu posso dizer para vocês? Apenas que esse filme me conquistou do início ao fim. Por sua técnica apurada; pela direção mais que competente de Chazelle; pelo roteiro sensível, envolvente e bastante humano de Singer; pelo ótimo trabalho de Gosling e Foy, em interpretações envolventes e muito convincentes; enfim, pelo conjunto da obra do filme.

Além de tudo isso, First Man passa, a meu ver, mensagens realmente poderosas e importantes. Primeiro, que a humanidade é sim capaz de feitos incríveis. Mas por mais que o homem chegue à lugares inacreditáveis e veja cenas estonteantes, como a que vemos nesse filme quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na Lua – como não ficar completamente extasiada(o) com aquelas cenas? -, e por mais que estas conquistas sejam importantes para o indivíduo e para o coletivo, o que importa, no final, é o que nos une e o que não termina. Sim, o amor.

Para mim, esta foi a mensagem mais forte de First Man. E o que fez eu realmente amar esse filme. A vida é feita de muitos sacrifícios. Alguns conseguem fazer feitos incríveis para a humanidade, como Armstrong e Aldrin. Outros, conseguem realizar pequenos grandes feitos sobre os quais ninguém nunca vai ouvir falar. Mas, no final das contas, o que importa é honrar e homenagear quem a gente ama. E voltar para casa, ah, como isso é incrível! Sentir que você tem um lugar para retornar. Estas são algumas de várias reflexões e sentimentos que esta pequena joia rara nos apresenta.

Se para você estes valores que eu citei antes são importantes, se você se interessa por grandes momentos da nossa história e por pessoas “simples” mas geniais que tornaram eles possíveis, simplesmente não perca esse filme. Ele vale pela técnica e pelo sentimento. Pelo cuidado que apresenta em cada detalhe. Para mim, um dos grandes filmes do ano – e, possivelmente, dos últimos anos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não tinha nascido quando o homem foi à lua. Vi as imagens depois, é claro, assim como soube das teorias da conspiração e da descrença de muitas pessoas sobre o que aconteceu. Algo que eu acho incrível em First Man é que o filme mostra toda a precariedade daqueles anos, assim como a coragem e a inovação que foram necessárias para que a Nasa saísse de uma corrida espacial em posição de desvantagem e conseguisse passar à frente dos russos.

A história é contada sempre pelos vitoriosos, é claro. Mas com o passar do tempo e através de trabalhos como First Man a gente consegue ter uma visão menos idealizada dos fatos. Vemos os “heróis” como eles são, feitos de carne e osso, de sonhos e de frustrações. Tão bom encontrar pela frente um filme que verdadeiramente procurou nos remeter aos anos 1960 e àquela aventura que nos levou para o espaço. Uma reconstituição perfeita e fascinante. Algo que só o cinema é capaz de fazer.

Apenas por mostrar o desafio da Nasa de explorar o espaço e chegar à lua, uma forma de ultrapassar os “inimigos” russos, First Man já vale o ingresso. Mas o filme não é só isso. Acima de tudo, First Man é um filme muito humano. Primeiro, ao mostrar o cotidiano de “heróis” como Neil Armstrong, assim como as suas famílias.

Depois, por demonstrar como pessoas geniais, mas suscetíveis como qualquer outra a morrer em um acidente aéreo ou no espaço, podem ser capazes de vislumbrar algo tão magnífico como o espaço e pousar na lua. Ainda que eu e você nunca vamos fazer isso, mas pensar que outros como nós já fizeram e ver as imagens de First Man já nos bastam. É a humanidade mostrando que pode liderar feitos incríveis, se assim o desejar.

A direção impecável de Damien Chazelle é um dos principais trunfos de First Man. Ele coloca o espectador sempre em primeiro plano, para que sintamos tudo que o protagonista sente. Algo impressionante, especialmente nas cenas das missões nas quais ele participa. Consequentemente, outros aspectos fundamentais desse filme são a direção de fotografia de Linus Sandgren e os efeitos especiais e os efeitos visuais realizados por dezenas de profissionais. Visualmente, o filme é inesquecível.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso são a Direção de Arte, feita por dezenas de profissionais; a Edição e a Mixagem de Som, também de responsabilidade de dezenas de profissionais; a edição brilhante de Tom Cross; o design de produção de Nathan Crowley; a direção de arte de Rory Bruen, Chris Giammalvo, Justin O’Neal Miller, Benjamin Nowicki, Erik Osusky, Eric Sundahl e Thomas Valentine; os figurinos de Mary Zophres; a decoração de set de Randi Hokett e Kathy Lucas; e a trilha sonora de Justin Hurwitz.

Do elenco, os principais elogios vão para Ryan Gosling, que faz um trabalho bastante sóbrio, coerente e com alguns toques emotivos ao interpretar Neil Armstrong; e para Claire Foy como a esposa de Armstrong, Janet. Eu não acompanhei muito a atriz até o momento, mas ouvi sempre falar muito bem dela. Percebi o porquê ao vê-la nesse filme. Ela realmente está ótima, assim como Gosling – um dos grandes atores da sua geração. Os dois estão perfeitos, sem tirar ou por.

Além de Gosling e de Foy, merecem ser mencionados, pelo trabalho competente que apresentam, Jason Clarke como Ed White; Kyle Chandler como Deke Slayton; Corey Stoll em quase uma ponta como Buzz Aldrin – ele aparece menos que White e Slayton; Patrick Fugit como Elliott See; Christopher Abbott como Dave Scott; e Ciarán Hinds como Bob Gilruth. Todos “homens da Nasa”.

Também está bem, em um papel secundário, Olivia Hamilton como Pat White, esposa de Ed White. Além deles, vale citar o trabalho dos atores mirins, que interpretam aos filhos do casal Neil e Janet Armstrong: Gavin Warren e Luke Winters, nas duas versões de Rick Armstrong; Connor Blodgett como Mark Armstrong e Lucy Stafford como Karen Armstrong.

First Man estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória, e até o momento, First Man recebeu três prêmios e foi indicado a outros dois.

Os prêmios que First Man recebeu foram: Melhor Diretor do Ano para Damien Chazelle, Melhor Compositor do Ano para Justin Hurwitz e Melhor Editor do Ano para Tom Cross, todos conferidos pelo Hollywood Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Algumas das vozes que ouvimos no filme são gravações reais do programa espacial norte-americano. Por exemplo, quando a Apollo 11 aterrissa na lua, a resposta de Houston é a original. Ouvimos, naquele momento, a voz do astronauta Charles Duke, que foi o responsável pela comunicação com a Apollo 11 durante o pouso.

Para esta produção, Chazelle fez questão de treinar os atores na Nasa e de enviar para eles vídeos que estão no YouTube com cada pessoa que eles iriam personificar. Com isso, ele esperava que cada ator reproduzisse o jeito de falar e os “tiques” de linguagem de seus personagens. Ele também indicou uma série de livros e de filmes que eles deveriam assistir.

A famosa frase de Armstrong ao pisar na lua é objeto de controvérsias. O que ouvimos no filme é o que foi possível ouvir na Terra no áudio da Nasa: “Esse é um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Mais tarde, Armstrong disse que queria ter dito “Esse é um pequeno passo para um homem”, e que ele achava que tinha dito isso, de fato, mas nunca foi possível extrair isso da gravação daquele momento. Então o filme reproduz o que foi documentado.

A intenção de Chazelle com First Man foi “abordar a história como um thriller, fazendo o público sentir os perigos enfrentados pela equipe de astronautas”. Ele, de fato, conseguiu esse intento. Com louvores.

Ryan Gosling sofreu uma lesão durante uma das várias cenas que ele filmou em uma nave espacial. Chegando em casa, e após reclamar de forma “bizarra” e exagerada sobre ladrões de donuts, a companheira do ator, Eva Mendes, sugeriu que ele procurasse um hospital. Foi aí que eles descobriram que ele tinha sofrido uma concussão. Um perigo.

Os filhos de Neil Armstrong, Mark e Eric, disseram que First Man faz o retrato mais preciso possível dos pais deles, Neil e Janet.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 305 textos positivos e 41 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 8,1. Para mim, chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – bastante alta para o padrão do site. O site Metacritic apresenta o “metascore” 84 para First Man, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O metascore para o filme é fruto de 54 críticas positivas e de duas críticas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, First Man teria custado US$ 59 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 45 milhões. Ou seja, no total, o filme faturou cerca de US$ 87 milhões. Ele mal está se pagando, portanto. Uma pena, porque eu acho que ele merecia mais.

Pensando já no Oscar 2019 – iniciei esta “corrida” pela premiação com a crítica de A Star Is Born, que vocês podem acessar por aqui, mas logo vou me “debruçar” nos candidatos da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, acredito que First Man pode emplacar diversas indicações.

Por baixo, penso que ele pode emplacar em até 10 categorias. Não em surpreenderia se ele fosse indicado a Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Filme. Sim, ele pode chegar a tudo isso, da mesma forma com que pode ser indicado a um número bem menor ou praticamente ser esnobado pela Academia. Veremos, logo mais.

Sobre as chances dele ganhar um ou mais destes prêmios, prefiro esperar para ver quem são os concorrentes dele para depois opinar.

First Man é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Para conseguir feitos incríveis, é preciso uma dose considerável de sacrifício. Mas o que se conquista não é pensando em uma pessoa, mas em todos que vieram antes e em todos que já se foram. First Man é um dos filmes focados em uma história real mais interessantes que eu já vi. Especialmente porque ele foge do estilo “homenagem” e apresenta os personagens de forma bastante franca e direta.

A humanidade chegou muito longe, e a cada ano vai conquistando novas fronteiras do saber e se superando. First Man nos mostra o caminho árduo e pouco narrado de uma destas trajetórias. Com ótimo roteiro, interpretações inspiradas e uma direção incrível, é uma destas produções que deveria ser vista por todos. Para mim, um dos melhores filmes do ano e forte candidato ao Oscar 2019.

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Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

Last Days in the Desert – Últimos Dias no Deserto

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Um filme para causar polêmica. Mas isso se você o levar muito à sério ou, melhor, ao pé da letra. Não faça isso. Não leve Last Days in the Desert muito à sério. E também não o leve na brincadeira. Esta produção não é para fundamentalistas e sim para quem está disposto a abrir o campo de visão e filtrar algumas ideias interessantes que o diretor nos apresenta. Claro que nem tudo passa pela peneira. Mas isso é natural. Afinal, estamos falando de Jesus Cristo. Impossível qualquer filme sobre ele agradar a gregos e troianos.

A HISTÓRIA: Começa com as seguintes frases: “Preparando-se para a sua missão, o homem santo foi ao deserto para jejuar e orar e procurar orientação”. Cenas do deserto em diferentes condições, incluindo sol, dia, nuvens e entardecer. Jesus está ajoelhado, com a cabeça baixa, até que levanta o olhar e pensa “Pai, onde está você?”. Ele tira o capaz. Depois, aparece dormindo em um local protegido. Ele toma um pouco de água e segue a caminhada. No trajeto, se encontra com uma mulher que, na verdade, é o diabo. Jesus se encontrará com ele várias vezes, mas é no encontro com uma família que ele encontra muitas respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Last Days in the Desert): A Bíblia fala sobre os 40 dias em que Jesus Cristo passou no deserto antes de encarar o seu derradeiro final nesta vida terrena em Jerusalém. O diretor colombiano Rodrigo García pegou este fato para imaginar o que poderia ter acontecido com o filho de Deus no deserto durante este período. Roteirista desta produção, ele dá voz à própria imaginação e nos apresenta um filme instigante, interessante, com algumas ideias curiosas.

Para ler bem a Bíblia e também para entender melhor este filme é preciso interpretação. Não basta ler a Palavra ou entender o que se passa na telona com belas imagens planejadas por García. É preciso ir além. Para entender bem a Bíblia, é necessário conhecer não apenas o contexto da época de Jesus e do Velho Testamento, mas também entender sobre os contextos de quem escreveu as Escrituras.

O mesmo vale para esta produção de Rodrigo García. Mais do que saber sobre o diretor, é importante observar o que os fatos que ele nos apresenta significam. Na Bíblia está escrito apenas que Jesus passou 40 dias no deserto para orar, refletir e buscar o encontro com Deus que ele esperava, a força necessária para enfrentar todo o caminho de ultraje, agressões e morte que ele encararia em Jerusalém. Está na Bíblia que o Diabo o tentou repetidas vezes. E isso é tudo.

Não há nada sobre Jesus ter se encontrado com uma família no deserto e convivido com ela alguns dias. Esse trecho, como vocês devem saber, faz parte da imaginação de Rodrigo García. Mas devemos embarcar na história dele porque ela nos apresenta algumas reflexões muito interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, aquela família que Jesus encontra e convive é, na verdade, uma alegoria da própria Humanidade. Pai, mãe e filho são a essência da família e, claro, da criação humana.

Pois bem, Jesus vai para o deserto para encontrar respostas. E como ele diz para o garoto, filho do casal, em certo ponto da produção, ele encontrou as respostas que ele desejava. Algumas delas justamente no convívio com a família. Neste momento ele percebe, por exemplo, a força do amor e da dedicação, da generosidade, e percebe que o maior gesto de amor é quando alguém se doa pelo outro. Ele próprio fará isso quando for encarar Jerusalém e a sua injusta morte na cruz. Ele será sacrificado por todos.

Aquela família marca o encontro de Jesus com todas as famílias do mundo, com a Humanidade. Sem Jesus, o próprio Diabo comenta sobre isso, o jovem pensaria em si em primeiro lugar e sacrificaria o pai para conseguir realizar o próprio desejo de ser livre. Isso pode ser entendido como algo específico, para aquela situação, ou projetado para qualquer época, como para hoje. Quem acredita em Jesus, quem tem fé, jamais teria uma atitude como essa porque ele amaria a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, jamais matando, por exemplo, mas defendendo a vida sob todas as circunstâncias.

O pai da história quer o melhor para a sua família. Ele cuida da esposa, que está doente, e quer que o filho siga a tradição, que cuide do que a família conquistou. É como o papel de liderança da sociedade patriarcal, em que o pai tem a sabedoria de determinar o futuro dos mais jovens e é a voz que deve ser seguida. Mas como o exemplo daquela família, existe conflito e ruptura quando o pai não consegue se comunicar com o filho. A distância entre eles parece insolúvel, mas com a proximidade de Jesus e seu olhar amoroso e compassivo, o pai tenta se aproximar do filho. Sem muito sucesso, é verdade, mas o gesto demonstra esperança.

A mãe, mesmo doente, tenta aproximar pai e filho e quer o melhor para o herdeiro da família. Ela também, a exemplo do pai, está disposta a se sacrificar pelo filho. Até este ponto, as ideias de García coincidem muito com o que parece ser a essência do que está na Bíblia. Mas há outras ideias que não são, digamos assim, muito óbvias. Pelo contrário. E aí que reside, na minha opinião, uma certa polêmica que este filme pode levantar. Por isso mesmo acho importante assisti-lo com tranquilidade, sem muitas paixões e levando em conta que esta é uma obra artística e não religiosa.

O primeiro ponto que chama a atenção, sem dúvida, é o fato do Diabo, a partir de sua segunda aparição, surgir como um “irmão gêmeo” e/ou uma cópia do próprio Jesus. Esta é a primeira ideia provocadora do filme e que pode ser entendida de duas formas diferentes – dependendo do gosto do espectador.

O Diabo ter a “imagem e semelhança” de Jesus pode ser encarado como uma forma de dizer que o Diabo não é nada mais do que uma outra parte de nós mesmos, o lado “mau” que devemos combater. Mas isso não faz muito sentido no caso de Jesus, já que ele era santo – se fez homem e sentiu o mesmo que qualquer homem, mas não cometeu pecado, consequentemente não teira o lado “mau”.

Outra forma de encarar o Diabo como “imagem e semelhança de Jesus” seria o de demonstrar como ele é ardiloso, tentando se passar por Jesus e procurando confundir o Filho de Deus. Também podia ser visto como uma forma do Diabo tentar se “igualar” ao filho de Deus, a quem se referia com clara admiração e perplexidade. Em mais de um momento o Diabo tenta Jesus com pecados muito terrenos – da água e do alimento até a mulher que está na tenda. Claro que nada realmente tenta Jesus, como está claro na Bíblia também.

Uma preocupação clara de Rodrigo García é humanizar a figura de Jesus Cristo. Para mim, mais do que o que ele sofre no primeiro trecho do filme, isso fica claro ao mostrar que Jesus sonhava e tinha pesadelos. Talvez esta seja uma das demonstrações mais claras do diretor em tentar “desmistificar” o Filho de Deus. Uma parte um tanto polêmica, também, porque dá pano para a manga imaginar que Jesus tinha pesadelos.

Um outro ponto que pode render polêmica, mas não acho que ela se justifique, é o fato de Jesus beijar o pai e a mãe na boca – esse tipo de saudação era comum para a época, especialmente quando alguém estava para morrer ou tinha morrido. Agora, admito que alguns pontos me incomodaram um pouco. Porque todos comentados até agora me parecem parte da imaginação do diretor e não fogem muito do que se poderia esperar de Jesus pelo que sabemos dele e que está na Bíblia.

Um ponto que me incomodou foi quando Jesus pede ajuda para o Diabo e o ordena que mostre o futuro do garoto. Sério mesmo? Achei uma forçada de barra desnecessária do diretor naquele ponto. Jamais Jesus pediria ajuda do Diabo para saber qualquer coisa. Muito menos para “matar a curiosidade” sobre a vida de alguém. Totalmente desnecessário. Também achei um tanto ridícula aquela “aparição” do Diabo quando Jesus estava próximo da morte, colocado na cruz, e aparece o Diabo como um beija-flor. Humm… ideia estranha.

O que reforça a minha teoria de que a família que Jesus encontra no deserto segundo a visão criativa de Rodrigo García seria a própria Humanidade é a sequência em que Jesus vai ajudar a mãe doente, perto do final. Não fica claro ali se ele iria curá-la ou apenas tirar a dor que ela estava sentindo, mas a mulher recusa a ajuda. O que acontecia muito naquela época e acontece até hoje: nem todos querem aceitar a Verdade da vinda de Jesus e também não querem ser ajudados. Cada pessoa daquela família simboliza uma vertente da conduta da própria Humanidade com a qual Jesus se encontra, observa e aprende a respeito.

Finalmente, García polemiza um pouco com aquele final. Em certo momento, o Diabo, tentando a Jesus, lhe questiona sobre o que ele vai fazer ao sair do deserto e se ele acredita que alguém lhe dará importância no futuro. A última sequência do filme mostra justamente o que parece ser um pai e um filho no desfiladeiro em que o pai da época de Jesus se sacrifica pelo filho. Na visão de García, nos tempos atuais, um pai e um filho vão ao local para fazer uma foto. Essa imagem provavelmente será compartilhada pelas redes sociais na sequência.

A questão que o diretor deixa no ar é: aquele pai e aquele filho estão lá por causa de Jesus ou apenas para ver a um belo cenário para uma foto? A resposta fica, como tantos outros pontos do filme, ao gosto do espectador. Da minha parte, acho sim que eles estão lá por causa de Jesus e que, diferente do que o Diabo sugeriu para o Filho de Deus, ele segue sendo importante e lembrado até hoje. A questão é que tipo de lembrança temos Dele? Apenas como uma desculpa para uma foto, para uma viagem de turismo com requintes de fé, ou será que vivenciamos o que ele tentou nos ensinar no dia a dia, de fato, tentando mudar a realidade ao nosso redor? Talvez esta seja uma pergunta importante que Last Days in the Desert nos deixe de presente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme indicado para pessoas que não se importam com narrativas lentas e contemplativas. Porque é exatamente isso que Last Days in the Desert é. Rodrigo García faz um trabalho detalhista, atento ao cenário e à relação entre Jesus e os demais personagens entre si e com o entorno. Há muita contemplação em cena. O que não é ruim, mas certamente não agrada a todos os estilos de público. É bom você saber isso antes de assistir a esta produção. Assim como é bom saber, claro, que se trata de uma ficção sobre um capítulo na vida de Jesus Cristo. É bom ter algum interesse sobre o tema ou então, inevitavelmente, acharás tudo isso muito chato. 😉

O colombiano Rodrigo García acertou em cheio ao valorizar o deserto como um personagem importante nesta história na mesma medida em que acertou ao escolher um pequeno punhado de atores para a produção. E todos muito bons, diga-se. Ewan McGregor é admirável e não é de hoje. Para o meu gosto ele faz um belo trabalho como Jesus (e como o Diabo também). Ele não força na interpretação, muito pelo contrário. Ele consegue convencer bem neste papel, que nunca é fácil de ser interpretado, dando legitimidade e trazendo humanidade para o papel de Jesus.

Os demais atores foram escolhidos à dedo. Destaque, em especial, para o sempre ótimo Ciarán Hinds. Depois, fazem um bom trabalho Tye Sheridan – um garoto que vale acompanhar – e a atriz Ayelet Zurer. Ela, mais bonita e enigmática do que com desempenho de destaque, até porque o seu papel é o menor entre os citados.

Um ponto fundamental nesta produção é a direção de fotografia do veterano Emmanuel Lubezki. Ele apresenta aqui mais um excelente trabalho. A trilha sonora do filme é bastante pontual. Nem sempre ela está preenchendo os espaços do filme – pelo contrário, Last Days in the Desert tem muitos momentos de silêncio e de som ambiente. Mas quando aparece, a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans ajuda a imprimir o sentimento que o diretor quer na história.

Antes citei trechos do filme que exigem interpretação – e, claro, comentei alguma interpretações que eu tive. Falei de pontos interessantes e de outros que me incomodaram. Pois bem, teve um outro ponto que me incomodou e que eu não citei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, Jesus diz para o garoto que vai para Jerusalém para que ele ame a Deus sobre todas as coisas e para que ame a vida. Humm… Algo que fica evidente no filme de Rodrigo García é que ele mostra um Jesus bastante humano. Tanto que, e isso é inevitável, por ser humano ele ama muito a vida. Gostaria de ficar mais tempo por aqui – e daí vem a sua dúvida sobre o fim inevitável, porque ele amava a vida. Mas percebe que precisa se sacrificar para o bem de toda a Humanidade. Certo. Só que na Bíblia fica claro que Jesus resume todos os mandamentos em dois: amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo. Por que então não repetir isso no filme e mudar a segunda parte para “ame a vida”? Me parece que se alguém ama a vida e não ao próximo a saída pode ser o egoísmo, não? Uma contradição no filme que me incomodou.

Além dos aspectos técnicos que eu já comentei, não existe muito o que destacar – o design de produção, a direção de arte e a decoração de set me pareceram ok, mas nada além do básico. Os figurinos, talvez, sejam um pouco mais interessantes – ainda que, volto a dizer, nada demais. Vale citar, contudo, o trabalho de Judianna Makovsky nos figurinos – realmente bem feito. Talvez eu destacaria apenas o bom trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o departamento de som. E também o bom trabalho do editor Matt Maddox. E só.

O visual é uma parte fundamental do filme. Sem dúvida alguma um de seus pontos fortes.

Last Days in the Desert estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme passaria por outros nove festivais antes de chegar comercialmente nos cinemas de alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele estreou de forma limitada apenas em maio deste ano. Depois ele estreou em Cingapura e, no dia 8 de setembro, no Brasil.

Esta produção foi totalmente rodada no Anza-Borrego Desert State Park, na Califórnia – ou seja, muito distante do verdadeiro deserto por onde Jesus caminhou.

O diretor Rodrigo García nasceu na cidade de Bogotá no dia 24 de agosto de 1959. Ele estreou na direção com Things You Can Tell Just by Looking at Her, no ano 2000, com um belo elenco de atrizes: Gleen Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman. Depois, ele trabalharia na direção de episódios de diversas séries, inclusive a elogiada Six Feet Under e a série Big Love. Provavelmente o filme dele mais conhecido seja Nive Lives, de 2005. Até hoje, contudo, o diretor não recebeu nenhum grande destaque por seus longas.

Last Days in the Desert foi indicado a apenas um prêmio: Assistant Location Manager of the Year – Feature no desconhecido California on Location Awards em 2014. Mas ele não levou o prêmio para casa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para esta produção. Uma avaliação abaixo da média, sem dúvida. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,7. Ou seja, os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral.

Algo que eu gostei no filme que talvez eu não tenha deixado claro antes vale citar aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se é verdade que este filme tem alguns pontos controversos e outros um tanto sem coerência, também é verdade que ele repassa algo fundamental de Jesus com muita propriedade. Neste filme, fica claro como Jesus se importa com as pessoas, com a dor humana, com as nossas dúvidas e atribulações. Ele se compadece, Ele quer ficar junto, mesmo quando não estamos exatamente dispostos a ouvi-lo ou a fazer o que deveríamos fazer. Mas ele está ali, está junto, nunca se separa e fica conosco até que o melhor aconteça. Isso é algo belo no filme, assim como a tentativa de mostrar um lado bem humano de Jesus – afinal, ele se fez carne e se tornou um de nós (exceto pelo pecado) para mostrar a todos que é possível trilhar um caminho de santidade.

Vale citar de que forma a experiência de Jesus no deserto é tratada na Bíblia. Em Mateus, após pedir para João Batista para ser batizado, “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”, e daí o Demônio se aproximou dele por três vezes e tentou Jesus de três formas diferentes, recebendo respostas sábias Dele todas as vezes. “Em seguida, o demônio o deixou e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo”. Depois disso, Jesus teria ido para a Galileia e começado a Sua vida pública.

No Evangelho segundo São Marcos, após o batismo no Rio Jordão, “logo o Espírito” impeliu Jesus “para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. Depois que João (Batista) foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia”.

No Evangelho de São Lucas, novamente, temos Jesus indo para o deserto após o batismo no Rio Jordão. No deserto, Ele “foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome”. Novamente aparecem as três tentações do Diabo e as respostas de Jesus, e Lucas afirma: “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Após esta experiência Jesus começa o seu ministério na Galileia. No Evangelho de São João não existe esta passagem sobre a ida de Jesus para o deserto.

Last Days in the Desert é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de pedidos aqui no blog – em uma votação passada a maioria dos leitores pediu filmes originados naquele país.

CONCLUSÃO: Este é um grande exercício de imaginação do diretor Rodrigo García. Esqueça a Bíblia e o que ela nos diz sobre a peregrinação de Jesus pelo deserto. García pega um fato narrado pela Bíblia para se debruçar sobre alguns conceitos e reflexões muito interessantes. Para mim, este filme é mais sobre a Humanidade do que sobre Jesus, ainda que haja muito da sabedoria Dele na telona. Como comentei lá no início, não é possível assistir a esta produção com um olhar histórico, de fé ou fundamentalista. Saia de todos estes tipos de visão e assista com o olhar de uma obra artística. Com belas imagens, ótimos atores e um roteiro interessante, este filme nos leva pela mão em várias reflexões. Por isso mesmo, é mais do que muitas outras produções disponíveis no mercado. Vale a experiência.