W. – Bush


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A pessoa mais controvertida deste século 21 é a razão deste filme. Ele foi uma das figuras mais odiadas, achincalhadas, objeto de ataques verbais, escritos, filmados… assim como de manifestações públicas de repúdio e, até, de sapatadas. Do outro lado da balança – mas pesando ligeramente menos -, este mesmo homem foi motivo de orações, de defesas ferozes, foi amado e votado de forma massiva, o que lhe garantiu dois mandatos como presidente dos Estados Unidos. George W. Bush, essa figura que entrou para a história por tirar o posto do presidente dos Estados Unidos mais polêmico de todos os tempos, é o personagem central da “cinebiografia” W., dirigida por Oliver Stone. Eu estava sedenta para assistir a este filme, e finalmente o consegui. Josh Brolin é o nome da produção. E o grande responsável por seu êxito – suprindo parte das falhas de um roteiro que deixa personagens importantes isolados demais em um “canto da sala”, assim como ignora partes da história de seu protagonista.

A HISTÓRIA: W. narra a vida e a trajetória de George Walker Bush (Josh Brolin) desde o ano de 1966, quando se tornou popular em uma confraternização estudantil por lembrar o nome de muitos de seus participantes em uma sabatina etílica com os novatos, até o ano de 2003. A data em que o filme termina não fica totalmente clara, mas sabemos que a narrativa finaliza pouco depois da morte do embaixador Sérgio Vieira de Mello no Iraque e do governo dos Estados Unidos ter admitido que havia errado em algumas de suas acusações contra Saddam Hussein – fatos que ocorreram em 2003. Assumindo como verdades boa parte dos discursos oficiais da Casa Branca, o filme busca se aprofundar em partes menos conhecidas da vida do ex-presidente. Entre outros aspectos, o roteiro explora a idéia de que George W. Bush tinha uma relação bastante conflituosa com o pai, de quem sempre esperaria um reconhecimento nunca alcançado. A história ainda mostraria o carisma de Bush e suas ligações com diferentes colaboradores que lhe garantiam uma certa “blindagem” no poder.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a W.): O filme de Oliver Stone acabou sendo uma grande surpresa para mim. Especialmente porque eu esperava que ele fosse muito mais duro e implacável com o seu “retratado”. Mas não. Stone dirigiu uma cinebiografia escrita por Stanley Weiser bastante “suave” e irônica. Sutil talvez seja a definição mais ajustada. Algo surpreendente para o diretor responsável pelo polêmico JFK e pelo interessante Nixon. Eu esperava mais crítica ou ironia. Em seu lugar, encontrei um esboço até um bocado condescendente com esta figura tão odiada (e por alguns amada) no mundo todo.

Um dos problemas do filme, para mim, é que ele assume a versão oficial da Casa Branca em todo o momento. Ou seja, ele não questiona, nem por um segundo, que George W. Bush e seu governo apenas “reagiram” a um ataque terrorista contra sua nação empreendido por terroristas. Assistindo a um documentário de Dylan Avery intitulado Loose Change, ficou ainda mais claro, para mim, que muitas questões importantes daquele 11 de setembro de 2001 não foram respondidas satisfatoriamente até agora – e talvez nunca sejam. Então, em um cenário de dúvidas, o roteirista e o diretor de W. preferiram fazer um caminho diferente daquele adotado por Stone e Zachary Sklar em JFK. Eles aceitaram a versão oficial do governo dos Estados Unidos e esqueceram as “teorias da conspiração” e as muitas lacunas da versão oficial. Talvez Stone quis evitar a repetição. Preferiu fazer um filme que não seguisse os passos de JFK. Foi a melhor escolha? Impossível falar sobre uma hipótese jamais realizada. Pessoalmente, acho que teria gostado mais de um filme que primasse pela ousadia em lugar da sutileza.

Ainda assim, gostei de W. Especialmente porque Josh Brolin nos apresenta o que talvez seja a melhor interpretação de sua carreira até então. Ele convence tanto como aquele caubói que busca abrigo na Igreja como forma de se defender de uma incurável carência do amor paterno que ganha o espectador. Carismático e, em vários momentos, “iluminado” em tela, Josh Brolin por alguns momentos nos faz esquecer que estamos acompanhando a trajetória de um dos homens mais equivocados da História moderna. Apenas por esta “mágica”, o filme merece ser visto. Brolin, para mim, merecia alguns prêmios por esta proeza – ele chegou a concorrer a três prêmios por sua interpretação, mas não ganhou nenhum deles.

Mas se W. tem um grande ator na linha de frente e um bocado de nomes importantes ao seu lado – com destaque para Richard Dreyfuss como o vice-presidente Dick Cheney -, por outro lado o filme ignora uma série de detalhes importantes da história. Como explicar, no final de contas, a primeira vitória de George W. Bush? O filme não mostra nada da campanha do político à presidência dos Estados Unidos. Passa de largo. Mostra o “antes”, em uma (de várias) discussões do “Bush filho” com o “Bush pai”, e logo mostra o depois, sem muitos detalhes do “durante”. Também não explica, por exemplo, a verdadeira razão de George W. Bush ter sido preso, na época da universidade. O personagem ironiza ao afirmar para o pai, por telefone, que provavelmente isso ocorreu porque ele era o “chefe da torcida” de Yale no território do adversário quando eles ganharam um campeonato. Mas nada fica exatamente esclarecido. Ainda mais porque outras versões, como esta, afirmam que sua prisão foi causada pelo porte de cocaína.

Certo que W. mostra um George W. Bush preguiçoso, um bocado “tonto” e manipulável. Aliás, bastante manipulável. Na versão de Stone da história recente dos Estados Unidos, Bush foi um verdadeiro fantoche, utilizado como um títere pelo mímico Dick Cheney – especialmente. Outro que teria manipulado bastante o nosso “herói” foi Karl Rove (Toby Jones), na época o vice-chefe da Casa Civil. Certo que o Bush retratado nessa cinebiografia estava muito longe de ser um bom estudante ou um cara trabalhador. Mas daí a colocá-lo como um verdadeiro tonto, um cara extremamente ignorante e manipulável… não sei. Para mim é o mesmo que dizer que o Lula não sabia de nada que acontecia embaixo do seu nariz durante o Mensalão e demais falcatruas que ocorreram no governo. É tirar a responsabilidade destas pessoas. Acho que ninguém chega a uma posição como o de presidente da República sendo tão “tonto” ou manipulável. E apenas “apelo público” entre as mulheres e os texanos, como sugere o filme de Stone, não convence. Bush tinha que ser mais “raposa” do que aparece no filme.

Além destes problemas conceituais, não gostei do fato do roteiro de Stanley Weiser dar tão pouca importância para pessoas que, sabemos, tiveram um papel fundamental na administração Bush. Especialmente Condoleezza Rice (Thandie Newton), que aparece de forma extremamente secundária – praticamente para decorar algumas cenas. Coitada! A sensação que o filme nos dá é que o governo de Bush era administrado por um grupinho de machões. A verdade é que poucas vezes antes um presidente dos Estados Unidos deu tantos poderes para uma mulher quanto Bush para Rice. Certo que ela se tornaria praticamente “toda-poderosa” apenas em janeiro de 2005, quando foi promovida a secretária de Estado – e quando saiu na lista da revista Forbes como a mulher mais poderosa do mundo – mas, ainda assim, todos sabemos que antes disto ela já era uma das principais “conselheiras” de Bush. Não é isso que o filme de Stone e Weiser mostra.

Também não gostei muito do tratamento do roteiro com a figura de Colin Powell (Jeffrey Wright), então secretário de Estado do governo Bush. Todos sabem que ele era um dos homens fortes daquele governo, mas no filme ele aparece como um homem permanentemente ignorado por Bush e, principalmente, por Cheney. Curioso. Não é isso que esta reportagem do Le Monde Diplomatique e outros textos apontam sobre aquela época. O perigo de filmes que tentam narrar momentos históricos é o de que eles recriem de tal maneira a história a ponto de modificá-la perigosamente. W. é um filme bem dirigido, com um grande ator liderando o elenco, mas ele corre o risco de estar sendo extremamente equivocado em sua narrativa, retirando o protagonismo de alguns para transformar outros personagens secundários nos verdadeiros “vilões” da história.

Talvez esta seja a idéia de Stone e Weiser… mudar as posições de maneira tão radical que, praticamente, eles nos dizem: “A História é algo que nunca poderá ser comprovado”. Ou, em outras palavras, que não importa quem seja apontado, sempre algum coadjuvante pode ter tido uma importância maior. Pode até ser. Mas este relativismo não nos leva a parte alguma. Pelo contrário. Ele é um bocado perigoso e irresponsável. As pessoas tem e tiveram determinada importância na história, e descubrir a dimensão de cada um deveria ser o trabalho de jornalistas, historiadores e, porque não, de alguns cineastas que brincam de fazer cinebiografias.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quero esclarecer que a nota acima é uma verdadeira reverência ao excepcional trabalho do ator Josh Brolin e, claro, a alguns acertos do roteiro e da direção de Weiser e Stone, respectivamente. Nem tudo é ruim no filme. Com certeza não. Ainda que eu tenha muitas reticências à história – acho que todas apontadas anteriormente -, devo admitir que o caminho escolhido pelos realizadores, de tentar entrar na “intimidade” do ex-presidente e mostrá-lo mais humano do que muitos poderiam esperar, foi um grande acerto. Gostei de ter visto um filme que foge do recurso fácil de “demonizar” o personagem de George W. Bush. Esse é, sem dúvida, um grande acerto de W. O problema é que ele sofre de vários erros quase  na mesma medida…

Acho necessário citar o trabalho de outros atores que fazem parte deste filme – e que acabam tendo um papel importante na história: James Cromwell faz as vezes de George H. W. Bush, pai do protagonista; a sempre ótima Ellen Burstyn interpreta Barbara Bush, mãe de George W. Bush; Elizabeth Banks veste a pele de Laura Bush (que milagrosamente não envelhece no filme), esposa do protagonista; Scott Glenn interpreta o polêmico Donald Rumsfeld, Secretário da Defesa que traçou uma nova estratégia militar estadunidense para este século (e que no filme ganha um papel bastante secundário); Bruce McGill interpreta a George Tenet, então diretor da CIA, que demorou apenas quatro dias para apresentar um plano antiterrorista para 80 países após o 11 de Setembro; Colin Hanks interpreta o escritor principal dos discursos do presidente; e Noah Wyle interpreta Don Evans, antigo amigo de Bush que acabou sendo nomeado como secretário de Comércio de sua administração.

Outra falha no roteiro, para mim, é a praticamente ausência do irmão de George, Jeb (interpretado por Jason Ritter), em cena. Ele tem uma rápida aparição no filme, na casa da família Bush, quando o futuro presidente dos Estados Unidos discute, mais uma vez, com o pai. Fora este momento, ele não aparece mais – e fica evidente, seja pela proclamada carência do protagonista ou seja pelos fatos históricos, que Jeb Bush teve mais importância do que esta cena na história da família. Mas ok, desisti de pedir lógica para a história contada por Stone e Weiser.

W. foi indicado a quatro prêmios em sua trajetória, mas não ganhou nenhum deles. Destas quatro indicações, três foram para a interpretação de Josh Brolin. A última, para Toby Jones, indicado como melhor ator coadjuvante por seu papel como Karl Rove na premiação do Círculo de Críticos de Cinema de Londres.

O filme não conseguiu agradar tanto os fãs ou os críticos quanto alguns executivos gostariam. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,7 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 textos positivos e 79 negativos para W. – o que lhe garante uma aprovação de 60%.

Para completar o quadro que representa um resultado morno para o filme, ele conseguiu, até dezembro de 2008, pouco mais de US$ 25,5 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Pouco, muito pouco para um filme que tinha tudo para ser “polêmico” e para levar muitos curiosos para o cinema. W. teria custado aproximadamente US$ 25,1 milhões. Ou seja, mal se pagou.

Um esclarecimento: resolvi colocar como título deste post os dois nomes que o filme recebeu nos Estados Unidos e no mercado internacional. Originalmente, acredito que todos saibam, o filme foi intitulado apenas como W., com esse ponto e tudo. Mas na terra do Sr. Bush ele também recebeu o outro nome.

Interessante que W. contou com a ajuda de uma série de países. Ele foi co-produzido, segundo divulgam seus produtores, pelos Estados Unidos, por Hong Kong, pela Alemanha, pelo Reino Unido e pela Austrália. Quase uma ONU. 😉

Gostei da série de cartazes produzidos para divulgar e promover o filme. Na minha página do Flickr coloquei disponível para quem quiser todos eles – tem uns muito bons.

Uma curiosidade divulgada pelo site IMDb: antes de Josh Brolin, o papel do protagonista tinha sido dado para Christian Bale. Sinceramente? Não consigo imaginar Bale interpretando a Bush.

Para os interessados na parte técnica do filme: a direção de fotografia é assinada pelo grego Phedon Papamichael; a trilha sonora por Paul Cantelon e a edição por Joe Hutshing e Julie Monroe.

Alguns textos que acho interessante sobre o Sr. George W. Bush e sua administração: texto 1, texto 2, texto 3 e, principalmente, texto 4, texto 5 e texto 6.

CONCLUSÃO: A tão aguardada cinebiografia de George W. Bush capitaneada por Oliver Stone é muito mais sutil do que se podia imaginar. O que acaba sendo uma qualidade. O problema reside na perigosa brincadeira de dar maior ou menor importância para personagens que acompanharam o ex-presidente, transformando o roteiro em um alvo certo para muito debate e críticas. Sendo assim, o melhor mesmo é assistir a este filme como um divertido passatempo, deixando as questões políticas e históricas de lado para se lançar a contemplação de uma grande interpretação do ator Josh Brolin. Ele é o grande nome desta produção, carregando seu personagem de uma maneira carismática e divertida. Algumas vezes, até esquecemos em quem a sua interpretação está sendo baseada. Apenas por este prisma de fantasia este filme pode ser visto. Não leve ele a sério e, talvez, você não fique irritado. Eu fiz isso e me diverti. Afinal, as trabalhadas de George W. Bush acabam rendendo albumas boas risadas. Também sei separar muito bem a ficção da realidade – e continuo achando que Oliver Stone perdeu uma boa oportunidade de marcar época, como fez anteriormente com JFK.

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