Five Minutes of Heaven


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O desvio de jovens para causas assassinas é o mote principal de Five Minutes of Heaven, novo filme o diretor alemão Oliver Hirschbiegel – responsável anteriormente por The Invasion e pelo premiado Der Untergang, entre outros. Estrelado por Liam Neeson e pelo surpreendente James Nesbitt, este drama resgata o ambiente vivido por católicos e protestantes na Irlanda do Norte em meados da década de 70. Escrito de uma maneira bastante interessante, Five Minutes of Heaven conta uma história ficcional que poderia muito bem ser aplicada a Irlanda do Norte e em outros tantos conflitos – inclusive para os morros do Rio de Janeiro. Bem dirigido, com atuações de tirar o fôlego e um roteiro inteligente, é um destes filmes-libelo contra a violência como forma de resolver problemas de convivência. Uma lição sobre o perigo que atos pouco pensados, na adolescência, podem causar na vida de famílias e comunidades inteiras.

A HISTÓRIA: Na cidade de Lurgan, na Irlanda do Norte de outubro de 1975, o jovem Alistair Little (Mark David) prepara-se para dar o mais importante passo da sua vida e, com ele, “tornar-se um homem”. Em busca de respeito entre os “sujeitos importantes” da comunidade protestante local, ele toma fôlego para sair de casa e, na companhia de três amigos, ser o responsável do crime “da vez”. Integrante do UVF (Força de Voluntários de Ulster) aos 15 anos de idade, Alistair Little vai atacar um comerciante católico que, aparentemente, rivaliza com um membro da comunidade protestante da qual ele faz parte. Desta forma Alistair atira no irmão de Joe Griffen (Kevin O’Neill), que assiste a tudo atônito. Vinte e cinco anos depois deste crime, Alistair Little (Liam Neeson) e Joe Griffen (James Nesbitt) participam de um programa de reconciliação que procura colocá-los cara-a-cara pela primeira vez desde aquela fatídica noite de 1975.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Five Minutes of Heaven): Esta produção com cara de independente dirigida por Oliver Hirschbiegel não faz concessões. Ela não tenta simplificar o papel de vítima e de vilão e nem busca uma solução rápida para os dilemas e para as cicatrizes provenientes de um crime como é aquele mostrado pela história. O grande mérito por tornar este filme interessante e angustiante do início ao fim é, sem dúvida, do texto do roteirista Guy Hibbert e, para sustentá-lo, as interpretações de seus protagonistas.

A direção de Oliver Hirschbiegel é competente e consegue retratar bastante bem o ritmo, as épocas e a angústia dos personagens desta história. Mas a inovação nesta produção passa pelo texto de Hibbert. O roteirista não apresenta um vilão que pode ser confundido com alguém que foi apenas manipulado – ainda que ele tenha sido, um pouco. Alistair Little é um assassino que sabia bem (aparentemente) o que estava fazendo e que tinha suas motivações egoístas. O que, no futuro, não impediu que ele chegasse a conclusão de que foi vítima de um período, de um grupo, o que fez ele entender a dimensão exata de seu ato criminoso.

O caminho fácil, para qualquer outro filme, seria o de Little se transformar em “mocinho”, em um sujeito arrependido e que merece perdão – mas não é exatamente isso que acontece em Five Minutes of Heaven. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele desperte uma certa piedade porque, afinal, Little também se mostra uma pessoa presa ao passado na mesma medida – ou quase – que sua vítima indireta, Joe Griffen, sua culpa não desaparece como mágica quando ele passa a ser o alvo da vez. Até porque a “troca de papéis” entre os dois, ou seja, quando Griffen decide matar Little, não coloca os dois no mesmo patamar. Desequilibrado, Griffen provoca piedade mesmo nas sequências de maior descontrole. Isso porque ele é produto de uma vida de ressentimento. Mas aí reside o texto bem escrito de Hibbert que, mesmo deixando claro que Griffen é uma vítima, não tira dele a responsabilidade por cada um de seus atos – e deixa clara uma violência patente em seu comportamento que nos deixa incômodos e temerosos pelo que pode acontecer. Afinal, a decisão dele sobre o que fazer com Little é o que vai definir o futuro deles e de muitas outras pessoas.

Talvez esta seja uma das grandes lições de Five Minutes of Heaven. A de que é um grande engano pensar que o assassinato de uma pessoa significa apenas um crime, contabiliza somente uma vítima. Não. O texto Hibbert deixa claro que toda a estrutura familiar e, em alguma medida, a estrutura de uma comunidade ficam abaladas por um ato criminoso. E uma outra mensagem, fundamental, é dita pelo personagem de Liam Neeson: todos devem ser responsáveis por evitar que um jovem se “aliste” a um movimento criminoso – seja ele o IRA, o UVF, o ETA ou o grupo de traficantes que domina a comunidade local. Achei bacana e importante esta mensagem, porque o centro da questão é este, dar oportunidades e ensinar conceitos morais básicos que impeçam os jovens de cair no tentador caminho do crime – onde eles podem se sentir como verdadeiros rockstars, muitas vezes, como foi o caso de Little.

O curioso deste filme é que ele, por sua dinâmica tradicional – narrativa linear, com pequenos cortes que dão espaço para flashbacks – não surpreende na forma, mas no conteúdo. Não é muito frequente encontrar produções que mexam tão claramente em algumas feridas. Também gostei do fato de Five Minutes of Heaven, desta vez, não mostrar os “assassinos” do ETA. Ele conta a história do “outro lado” daquela mesma moeda, ou seja, de um grupo de protestantes que queria continuar vendo a Irlanda do Norte atrelada à Inglaterra e que, para isso, praticava atentados terroristas e assassinatos quase na mesma medida de seus opositores. Um bom filme, com mensagens importantes, ainda que parece que lhe falta um pouco mais de “humanidade” – ou, visto de outro ângulo, um pouco menos de frieza.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para o alívio de muita gente – especialmente de quem vive naquele país ao norte da Irlanda -, o IRA declarou o fim da luta armada em 2005. Mas, mais que isso, a Irlanda do Norte deu uma lição ao mundo inteiro ao promover, nos últimos anos, um governo de coalização entre católicos e protestantes – ou entre os que procuravam a independência ou a permanência do país em relação à Inglaterra. Para quem quiser saber mais sobre este tema, recomendo a leitura deste texto da Veja, que traça, em linhas gerais, o que aconteceu naquele país desde o século XII; e deste texto assinado pelo major John Clark, do Exército Britânico (que, por isto mesmo, deve ser lido com o devido olhar crítico), que explica de forma mais detalhada a questão da anistia, da reconciliação e da reintegração promovida na Irlanda. Muito interessante o exemplo daquele país – e que deveria servir de farol para outros conflitos que envolvem invasões e religião, como o caso de palestinos e israelenses (guardadas as devidas proporções, é claro) ou mesmo dos bascos do ETA.

Ainda que se trate de uma ficção, Five Minutes of Heaven deixa claro, logo nas informações que disponibiliza em seu início, que aquela história trata de questões de um conflito real. Conflito este que, segundo o filme, teria matado aproximadamente 3.720 pessoas.

No texto do Major John Clark que eu sugeri há pouco, é possível encontrar alguma informação sobre o grupo paramilitar UVF. Mas não encontramos nada a respeito da citada Tartan Gangs, onde o personagem de Alistair Little teria dado os “primeiros passos” em suas intenções criminosas aos 14 anos. Neste texto (em inglês) é possível saber um pouco mais sobre a Tartan Gangs – procure na seção de Ulsters Young Militants.

Outra curiosidade deste filme é que ele não tenta “glorificar” um criminoso que, atualmente, é respeitado, mas que anteriormente cumpriu 12 anos de sua pena. Ou seja: ele pagou pelo seu crime. Ainda assim, e diferente do que Joe Griffen imagina, o vilão desta história vive uma vida bastante miserável. Ainda que seja um consultor internacional que tem suas opiniões escutadas por líderes mundiais e figuras proeminentes da sociedade, Alistair Little parece viver nas sombras. Na lembrança – e culpa – de um ato que praticou há 25 anos. Ele não busca – e nem deseja – o perdão. Quer apenas que Griffen viva a sua vida, caminhe para a frente e, desta forma, permita que ele mesmo possa se despedir do passado. Nada será esquecido ou perdoado. Apenas o peso de ter uma outra pessoa vivendo em dor por algo que você fez será amortizado. Five Minutes of Heaven, por este ponto e todos os outros comentados anteriormente, se revela um filme interessante e diferente da média.

Um ponto que não comentei antes, mas que é importante para o filme, é o que trata do programa de reconciliação dos quais acabam fazendo parte Little e Griffen. Achei curioso todo o aparato e a “espetacularização” montada para tal acontecimento, sem a devida preocupação com a segurança de um evento desta natureza. Neste ponto, o filme questiona o papel da mída, mais especificamente o de alguns canais de televisão, em promover eventos importantes sem o devido cuidado ou, em outras palavras, de maneira pouco responsável. Algo interessante para pensar – o papel da televisão e da mídia em geral em conseguir audiência a qualquer custo, sem preocupar-se, muitas vezes, com os efeitos de seus atos e/ou programas.

Além dos atores já citados, merece um comentário à parte a aparição da ótima atriz Anamaria Marinca como Vika, a garota “pau-para-toda-obra” que acaba se aproximando de Griffen e Little durante a fase de pré-produção do programa de reconciliação do qual eles decidiram participar. Seus comentários, especialmente com Griffen, foram decisivos para o desfecho daquele programa. Ainda que seu papel seja pequeno para o contexto do filme, a atriz se saiu muito bem. Outras pessoas que merecem ser citadas: Juliet Crawford como Cathy, a esposa de Joe Griffen e mãe de suas duas filhas; Gerard Jordan como Jim, a vítima direta de Little; Matthew McElhinney como Stuart, o amigo de Little que providenciou as máscaras e a roupa utilizada durante o crime; Diarmuid Noyes como Andy, o amigo que dirige o carro no dia do assassinato; Conor MacNeill como Dave, o outro comparsa de Little; e Paula McFetridge como a mãe de Joe.

Na parte técnica do filme, destaque para o trabalho correto do diretor de fotografia Ruairi O’Brien. Ele conseguiu, na medida certa, utilizar um jogo de lentes adequado para diferenciar muito bem a Irlanda do Norte da década de 1970 daquela que pode ser vista atualmente.

Five Minutes of Heaven estreou no Festival de Sundance no dia 19 de janeiro deste ano. Até o momento, o filme concorreu a três prêmios – e ganhou dois deles: os de melhor diretor na categoria “World Cinema – Drama” e o de melhor roteiro na categoria “World Cinema”, ambos no Festival de Sundance. Five Minutes of Heaven concorria também como melhor filme, mas perdeu o prêmio para a produção chilena/mexicana La Nana.

Esta produção inglesa praticamente não teve nenhuma divulgação ou mesmo a confirmação de estréia nos diferentes mercados internacionais. Ainda assim, ela conseguiu uma boa nota no site IMDb: 7,2. O Rotten Tomatoes, outro termômetro de críticas para um filme, abriga links para apenas três textos sobre Five Minutes of Heaven – todos positivos.

Entre os textos linkados pelo Rotten Tomatoes, está este (em inglês) do crítico Dennis Harvey, da revista Variety. Harvey destaca a mudança de rumo do diretor Oliver Hirschbiegel, que desta vez dirigiu um filme intimista centrado em dois personagens. Harvey destacou a interpretação potente dos protagonistas e o “excelente roteiro” de Guy Hibbert, lapidado após três anos de entrevistas com os que seriam os “personagens reais” desta história, ou seja, os homens que inspiraram a criação de Little e Griffen.

Os tais “cinco minutos no Paraíso” não estavam totalmente claros para mim. Inclusive busquei alguma fonte “religiosa” para esta idéia. Mas a verdade é que o homem que inspirou o personagem de Griffen acreditou, por muito tempo, que conseguiria pelo menos cinco minutos no Paraíso se conseguisse vingar a morte de seu irmão. Se alguém souber de alguma fonte que teria inspirado esta idéia para aquele homem, eu agradeço.

Para os interessados nos conflitos que ocorreram na Irlanda do Norte, recomendo outros dois filmes: o excelente In The Name of the Father, dirido por Jim Sheridan e estrelado por Daniel Day-Lewis; e o “politizado” e interessante Bloody Sunday, curiosamente estrelado por James Nesbitt, e com direção de Paul Greengrass.

CONCLUSÃO: Um filme limpo, sem efeitos especiais ou grandes mudanças narrativas, que discute os conflitos de uma sociedade enfocando os efeitos que eles podem ter na vida de dois homens. O destaque desta produção acaba ficando – de maneira proposital – para o trabalho dos atores e para o texto do roteiro. Diferente de outras produções ambientadas na Irlanda do Norte em conflito, Five Minutes of Heaven evita contar a história de algum integrante do IRA e destaca, praticamente de maneira inédita, ações de um de seus grupos oposicionistas. Mas o interessante do filme é que ele não pretende validar nenhuma ação terrorista. Pelo contrário. Ele deixa muito claro que qualquer crime, seja de um lado ou de outro, seja motivado por questões políticas, religiosas ou econômicas, não leva a nada. Apenas a mais crimes. E que os jovens, iludidos por falsos sentimentos de “reconhecimento” ou de pertencer a determinados grupos, servem apenas como “bala de canhão” – igualmente desejáveis e descartáveis. Uma bela história, com atuações impressionantes – especialmente de James Nesbitt e Liam Neeson – e uma direção bastante técnica (e nada fora do comum). Indicado para quem gosta de refletir sobre origens e efeitos da violência e de alguns conflitos conhecidos.

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4 thoughts on “Five Minutes of Heaven

  1. Acabo de ver dois filmes sobre a conflitos na irlanda. O primeiro foi 50 Dead Man Walking – O Espião, baseado na vida de Martin McGartland, e agora vi Five Minutes of Heaven.

    Legal que ambos lembram momentos fundamentais da história e retratam os terríveis danos de uma guerra que matou tanta gente.

    O primeiro eu acho que é elétrico demais e acaba contrastando negativamente com a tentativa de mostrar aspectos mais emocionais. Parece não haver tempo para as duas coisas no filme.

    Já em Five MInutes, apesar de não concordar com sua nota, he he..a história é interessantíssima e prende bastante a atenção para o conflito final entre os dois personagens, coisa que desde o início sabemos que é inevitável.
    Acho também que pelo menos nessa película, quanto a interpretação, Lian Nesson perdeu feio para James Nesbitt, como vc já destaca no início de sua crítica.

    He he..sem dúvida, a frase do filme é intrigante..dá impressão de já ter visto termo parecido em outros filmes sobre conflitos, só que no oriente médio.

    Abração Ale, acompanho sempre seu blog!

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  2. Oi Mangabeira!!!

    Nossa, mas nós dois estamos em uma sintonia incrível, já viu? Ou isso ou tu assistes a uns 30 filmes por semana. hehehehehehehe

    Anotei por aqui o título de 50 Dead para logo mais…

    Agora, não falaste se discordas da minha nota para mais ou para menos. Afinal, tu darias uma nota melhor ou pior? Fiquei curiosa… 🙂

    Tens razão sobre a frase que dá título para o filme… ela lembra a crença muçulmana de morrer em nome de Alá, não é mesmo? Curioso, muito curioso… especialmente porque em Five Minutes of Heaven quem acredita nesta idéia é um católico (nada mais distante de um muçulmano, não é mesmo?).

    O que eu achei mais bacana deste filme é que ele abre mão de fazer uma crítica histórica ou mesmo em narrar eventos importantes do conflito para refletir sobre ele em uma perspectiva de drama pessoal. Não é muito comum, pelo menos em assuntos como o da Irlanda do Norte, preferir a ótica do “micro” em lugar do “macro”.

    Um abração, Mangabeira!! Sabes que é sempre um prazer ler comentários teus por aqui. Inté!

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  3. ah…eu daria uma nota 7,0, mas tudo por culpa do Lian Nesson que ao meu ver não estava tão bem assim…he he e claro, culpa também da demonstração de super poderes dos dois…kkkkk
    sair andando depois de cair de uma altura daquelas….putz…

    Sim..são micro-guerras e micro-conflitos dentro de uma macro-guerra

    bjão

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  4. Oi Mangabeira!!

    Pois então, talvez eu tenha sido um pouco generosa com a nota do filme. Mas é que eu gostei da direção e da maneira um tanto “diferenciada” de contar uma história de vingança. Liam Neeson está daquele jeito que ele fica sempre que tem o papel de um “durão” para interpretar. Meio Clint Eastwood na época dos faroestes, não? Se bem que não sei, até acho que o Eastwood tinha mais “interpretação” do que o Neeson algumas vezes. 😉

    Sobre os superpoderes dos dois… olha, eles caem de um primeiro andar. Uma altura de quanto? Uns três metros e meio? Acho que até você pode cair de uma altura dessas sem morrer – mas ficar todo quebrado, como, em teoria, eles ficaram. Agora, o que eu achei pior mesmo é que se você revê a cena, dá para ver direitinho a cara do dublê do Liam Neeson. hehehehehehehe. Um bocado diferente ele, em relação ao ator – mais cabelo, mais jovem, etcétera. Também achei que a forma com que eles são “lançados” para fora da janela não tem nada a ver com a maneira com que acabam aparecendo depois, no chão. Admito que não sou nenhum especialista em dinâmica de corpos e afins, mas não acho que a sequencia lógica teria sido aquela.

    Mas bacana teu comentário e tuas opiniões. Gostei da nota que você deu. hehehehehe

    Beijões e até breve! (vou colocar os recados mega atrasados em dia, e sei que tem outros seus por aí…)

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