Dance Flick – Ela Dança com meu Ganso


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Tem filmes que, muito antes de assistí-los, sabemos que será um desperdício de tempo. Mas somos levados a conferir estas produções por diferentes razões. Eu sabia que Dance Flick era a nova investida dos irmãos Wayans, os criadores da “onda besteirol” lançada com os dois primeiros Scary Movie. Então fui preparada para assistir a esta paródia dos musicais. Francamente, como muitos dos filmes da “nova geração” de musicais é mais do mesmo e apresenta uma história fraquinha, eu até achava que eles mereciam uma tiração de sarro. Mas, desta vez, os Wayans ficaram muito abaixo do que se esperava e conseguiram apenas fazer uma salada de frutas de referências de musicais com pouca carga prática de humor. O filme se mostra um bocado arrastado, com cenas de “dança” um pouco longa demais e, como qualidade, apenas algumas boas tiradas espalhadas pela produção aqui ou ali.

A HISTÓRIA: Em um ringue de dança, dois grupos se enfrentam. De um lado, a turma de Thomas (Damon Wayans Jr.) e A-Con (Affion Crockett), de outro, o grupo 409, liderado por Truck (Craig Wayans). Um acidente acaba dando a vitória para o 409. Com a derrota, Thomas e A-Con devem prestar contas para o mafioso viciado em comida Sugar Bear (David Alan Grier). Enquanto não aparece a oportunidade da dupla tentar uma revanche na dança, Thomas conhece a Megan (Shoshana Bush), uma garota do interior que vai morar com o pai alcóolatra depois que a mãe morre em um acidente de carro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dance Flick): Como eu disse em repetidas vezes anteriormente, aqui mesmo no blog, as expectativas são fundamentais na nossa vida e na impressão que acabamos tendo da arte – e dos filmes, em particular. Grandes expectativas, normalmente, são ruins – exceto no caso de obras-primas. Dance Flick, claro, não me despertava nenhuma expectativa. Melhor dizendo, eu esperava ver a uma bomba. Talvez por isso, até eu não tenha considerado este filme um lixo assim tão monumental.

A verdade é que ele começa chato. Não sei vocês, mas achei aquela sequência inicial – e que, infelizmente, praticamente se repete no final, com pouca variação – muito chata e longa. Ok, eles querem exagerar nas coreografias para mostrar o absurdo que são estas sequências de “duelo” artísticos nos musicais… entendi a piada, mas ela podia ser mais curta e ligeira. Depois deste começo “descerebrado”, o roteiro escrito por cinco Wayans (comento sobre cada um deles mais abaixo, na seção “obs de pé de página”) parte para a apresentação da “heróina” da trama, a encantadora, ambiciosa e desajeitada Megan. Neste ponto o filme começa a melhorar.

A primeira grande sequencia do filme, para mim, foi o acidente com a mãe de Megan. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muito boa a sacada do acidente de trânsito sugerir a participação de pessoas como Lindsay (Lohan, atriz), Brandy (cantora) ou Halle (Berry, atriz, que aparece como Mulher-Gato), celebridades envolvidas em casos recentes de violência no trânsito. Sim, o humor deles, algumas vezes, é pesado. Algo visto antes na filmografia dos irmãos Shawn e Marlon Wayans, criadores do Scary Movie.

Os irmãos, aliás, foram muito inteligentes. Eles começaram esta década tirando sarro dos filmes de terror, que voltaram no final dos anos 1990 e nestes últimos anos com força total, e fecharam os anos 2000 fazendo paródia de outro fenômeno deste período: os musicais. Na verdade, a tentativa deles era a de repetir o sucesso de Scary Movie – mas eles ficaram muito distantes disto. Primeiro, porque os nove anos que separam estes dois filmes (Dance Flick e Scary Movie) foram forrados de filmes do gênero “comédia-escrachada-e-autorreferenciada-no-cinema”. Depois, porque eles simplesmente não conseguiram manter a qualidade de seu roteiro.

Mas voltando a Dance Flick. O filme faz paródia de exatamente 23 cenas de dança e/ou personagens de diferentes filmes (não apenas musicais). O problema desta grande quantidade de referências é que há personagens colocados no meio da história sem qualquer lógica, como no caso de Ray (George Gore II), uma claríssima referência à premiada interpretação de Jamie Foxx no filme homônimo sobre Ray Charles. Em Dance Flick, ele aparece em cenas desastradas e que não tem nenhuma serventia para a história central. Por outro lado, a personagem de Tracy Transfat (Chelsea Makela), claramente inspirada na Tracy Turnblad interpretada por Nikki Blonsky no filme Hairspray é pouco explorada pela história dos Wayans.

O casal de protagonistas vive o clássico papel de “estudantes-de-origens-muito-diferentes-que-acabam-ficando-juntos-apesar-dos-pesares” e, claro, como em 99% dos musicais estrelados por jovens, por causa da dança. Shoshana Bush e Damon Wayans Jr. são bons atores, mas não tem a química adequada para convencer como o casal principal de Dance Flick. Apesar disto, individualmente, eles se saem bem. Mas o problema desta produção, além dos fatos já comentados, é que suas piadas são previsíveis e bobas demais, na maior parte das situações, e também por seus personagens, na maioria, caricatos demais. Um dos mais irritantes, para mim, é o do “mafioso” Sugar Bear que faz piadas, essencialmente, com seu peso e sua tara por qualquer tipo de comida. Um bocado patético.

Como passatempo, o filme talvez agrade aos que procuram mais argumentos para fazer piada dos musicais. Afinal, há piadas que fazem referência a clássicos como West Side Story, de 1961, ou Fame, de 1980, até filmes bem mais recentes, como a conhecidíssima cena da protagonista de Little Miss Sunshine, de 2006. Os Wayans atiram para todos os lados. E não deixa de ser um passatempo curioso encontrar, além das homenagens escancaradas, as outras 17 referências a filmes e séries de TV feitas no roteiro – e que vão de Edward Scissorhands até Brokeback Mountain. Dance Flick, aliás, resgata todas as categorias de piadas “infames” do mercado, apontando a metralhadora dos roteiristas para negros e brancos (e suas diferenças), alcóolatras, obesos, homossexuais e o estereótipo do adolescente norte-americano. Mas claro, ninguém esperava nada diferente de um filme como este.

NOTA: 4,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dance Flick ficou léguas distante do megasucesso inesperado de Scary Movie. O filme do ano 2000 que tornou os irmãos Wayans conhecidos custou, na época, US$ 19 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 157 milhões. Um fenômeno. Dance Flick, por sua vez, teria custado aproximadamente US$ 25 milhões e faturado, entre os norte-americanos, pouco mais de US$ 25,6 milhões. Ou seja, ele mal se pagou.

Um acerto do filme, na minha opinião, é que ele segue um bocado a linha dos musicais – e de muitos filmes pornôs. Ou seja: o que menos interessa é a história central. Tudo que vemos em tela é uma desculpa para coreografias de dança (no caso do pornô, para cenas de sexo, evidente). E, claro, no caso de Dance Flick, a história do filme também serve como “desculpa” para as sequências de humor – ainda que boa parte das piadas tenha pouca graça.

Além dos atores já citados, ganha destaque neste filme o trabalho de Essence Atkins como Charity, irmã de Thomas e amiga de Megan; Christina Murphy como Nora, a “super-rival” da protagonista; e Brennan Hillard como Jack, um estudante gay que é o sonho de consumo de Tracy.

Como prometi anteriormente, vou comentar sobre os cinco roteiristas deste filme. Os irmãos Shawn e Marlon Wayans foram os responsáveis por Scary Movie. Junto com eles, assina o roteiro de Dance Flick: Keenen Ivory Wayans, irmão de Shawn e Marlon; Craig Wayans, primo do trio citado; e o diretor Damien Dante Wayans, sobrinho de Shawn, Marlon e Keenen.

Para completar o “filme em família”, fazem parte da produção Damon Wayans Jr., que interpreta o protagonista, sobrinho de Keenen, Shawn e Marlon; Kim Wayans, que interpreta a Ms. Dontwannabebothered, irmã do trio citado; Cara Mia Wayans, irmã de Damon W. Jr., que faz uma ponta como uma garota no clube; sem contar que Shawn, Marlon e Keenen ainda aparecem no filme em papéis secundários. Uma produção familiar, sem dúvida.

Dance Flick registra avaliações péssimas de público e crítica. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 3,2 para a produção. O Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 66 críticas negativas e 15 positivas – o que lhe garante uma aprovação de 19% ou, o que é o mesmo, uma reprovação de 81%.

CONCLUSÃO: O subgênero de filmes que tiram sarro de outras produções parece, realmente, não ter fim. Desde Scary Movie, a cada ano, é lançado um novo produto nesta linha. Mas Dance Flick, para mim, mostra um pouco o cansaço da fórmula. Isso fica evidente não apenas pela bilheteria minguada – se comparada com a produção que tornou os Wayans famosos no ano 2000 – assim como pela pequena quantidade de grandes sacadas dos roteiristas. Parece que a fonte está secando. Mesmo sofrendo com cenas de dança longa demais e com o excesso de personagens secundários, Dance Flick apresenta algumas grandes e raras tiradas geniais. Recomendado para os que não tem absolutamente outra opção melhor para assistir – e, preferencialmente, espere para que o filme chegue à TV. Não vale a pena desembolsar dinheiro para assistí-lo.

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