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Lincoln

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Os predicados de Lincoln são atraentes. Para começar, Steven Spielberg na direção. Depois, o gigante Daniel Day-Lewis como protagonista. Para completar, nesta semana, quando a lista de concorrentes ao Oscar foi divulgada, as 12 indicações do filme para a cerimônia deste ano. Todos estes elementos juntos fazem qualquer pessoa ter uma grande expectativa para esta produção, correto? Pois é, normalmente grandes expectativas são difíceis de serem supridas. E, infelizmente, neste caso, as expectativas são maiores do que o efeito que o filme consegue provocar no espectador. Especialmente no brasileiro. Porque o estadunidense deve ficar especialmente tocado. Afinal, Lincoln trata de um herói para os EUA. E o filme trata de alguns valores que fizeram a história daquela nação. Pra gente, contudo, falta algo. Ou muito.

A HISTÓRIA: Homens com uniformes azuis e cinzas se degladiam em um campo cheio de lama e água. Entre eles, passa uma bandeira dos Estados Unidos. Quando a câmera se aproxima, notamos que há negros apenas de um lado da batalha: entre os homens vestidos de azul, que lutam pela União. Do outro lado, pela Confederação, apenas homens brancos. Enquanto aqueles homens se matam, o soldado Harold Green (Colman Domingo) conta para Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) que ele e o cabo Ira Clark (David Oyelowo) faziam parte do batalhão de negros que lutou contra os “rebeldes” em Ferry Jenkins em abril de 1864. Green conta que, depois de todos os soldados negros terem sido mortos pelos inimigos em uma batalha anterior, em Ferry Jenkins eles decidiram não deixar prisioneiros. Lincoln escuta tudo com atenção e de forma amável, e fica especialmente impressionado com a opinião de Clark. Ele critica o fato dos negros receberem menos que os brancos, naquela guerra, até pouco tempos antes daquela conversa, e que perdurava a injustiça de nenhum negro ter o posto de oficial. Em seguida, dois jovens recrutas chegam perto de Lincoln e um deles cita o discurso do presidente sobre a igualdade entre os homens. Reeleito, Lincoln decide, em janeiro de 1865, aprovar com urgência, na Câmara dos Deputados, uma emenda à Constituição que termina com a escravidão. Mas o país ainda vive a Guerra da Secessão, e Lincoln vai precisar usar de alguns artifícios para levar a sua ideia adiante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme,  por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lincoln): Os Estados Unidos da América gosta de preservar a sua história e os seus mitos. Lincoln é um deles. Talvez o maior. Spielberg há tempos queria fazer um filme sobre ele, porque acredita que cada geração deveria resgatar o décimo sexto presidente para inspirar-se.

Com Lincoln, Spielberg tenta fazer o filme definitivo, pelo menos para esta geração, deste mito. Ele faz um bom trabalho, mas que não surpreende o espectador em momento algum. Parece que estamos assistindo a uma peça de teatro. Isso não é ruim, mas cinema não é teatro e nem vice-versa. Cada um tem a sua característica e mantemos uma expectativa ao assistir a um ou a outro. De Spielberg, sempre espero alguma ousadia. Em Lincoln, não há ousadia alguma.

O filme busca humanizar o mito. Nesta tentativa, foca a relação de Lincoln com sua mulher, Mary (Sally Field), e com os filhos Tad (Gulliver McGrath) e Robert (Joseph Gordon-Levitt). Dentro de casa, Lincoln parece manter a mesma postura que tem fora dela, na vida política: é atencioso, escuta as pessoas com atenção, mas é firme em suas palavras, postura e convicto no que acredita. Não importa se esta firmeza signifique deixar a mulher desolada, ou o filho mais velho sentindo-se à sombra do pai. Lincoln está preocupado em ser correto, nunca condescendente.

Mesmo dedicando uma parte do filme para a vida privada do mito, o roteiro de Tony Kushner, baseado no livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns Goodwin, dedica grande parte da história para os bastidores políticos da aprovação da décima terceira emenda, que tinha como objetivo pôr fim à escravidão. E aí, justamente nesta parte, é que a história fica interessante. Porque o mito também se rendeu a uma prática que hoje, mais do que nunca, é questionada: oferecer emprego para conseguir votos.

No caso do Brasil, o toma-lá-dá-cá costuma ser feito com o oferecimento de cargos dentro do governo, mas votos também já foram comprados, pura e simplesmente, com dinheiro – vide o mensalão. Pois bem, logo no início de Lincoln, quando o presidente dos EUA diz que seus aliados devem conseguir os votos para aprovar a emenda, ele deixa claro que devem ser oferecidos empregos, cargos, mas não dinheiro.

O seu braço direito, o chefe de governo William Seward (David Strathairn), dá a ideia de buscar “homens sem escrúpulos” que poderiam fazer o aliciamento de democratas indecisos e/ou “compráveis” para que eles apoiassem a emenda. Aí aparece a figura de W.N. Bilbo (James Spader), o mais divertido do filme. A ideia de Seward é preservar Lincoln, que não deve “se envolver” diretamente na negociata. Alguém lembrou do Brasil?

Sem dúvida este viés do filme é o que ele tem de mais interessante. Afinal, é possível a democracia sem estas artimanhas? Uma Câmara dos Deputados ou um Senado é capaz de representar, realmente, os interesses de um povo sem colocar, muitas vezes, os interesses próprios dos homens eleitos em primeiro lugar? Lincoln, como outros governantes, acredita que práticas imorais podem ser adotadas quando há uma boa causa a ser defendida. Ninguém duvida que a escravidão era algo absurdo e que precisava ser extinta. Mas que preço a violação da democracia poderia cobrar de uma nação a partir daí? Que preço estas convicções de causas de alguns governantes continuam cobrando um preço até hoje, a cada dia?

As negociações políticas são interessantes, mas há um excesso de discursos no filme. Bacana a escolha do roteirista em valorizar o Lincoln contador de histórias, um homem que gostava de conversar e trocar impressões com pessoas comuns. Mas o momento que ele escolhe para contar algumas histórias chega a ser cômico – como quando estavam tensos sobre o resultado e o desdobramento do bombardeio ao porto de Wilmington.

Apesar de fazer um esforço para mostrar a astúcia de Lincoln para a aprovação da décima terceira emenda, este filme falha ao não contextualizar a história como deveria. Para começar, explicando que a Guerra da Secessão, que já durava quatro anos, teve sua origem fortemente ligada à figura de Lincoln. O filme dá a entender que o presidente tinha que lidar com esse tema, e que escolheu terminar com a escravidão para, então, acabar com a guerra. Cuidando para que o conflito não terminasse antes – até porque, se isso ocorresse, ele sabia que não aprovaria a emenda.

Mas o problema está justamente aí. Porque basta ler um pouco mais sobre a história dos EUA e, especificamente, sobre a Guerra da Secessão para saber que os estados do Sul daquele país decidiram se “separar” da União e criar os Estados Confederados da América para resistir ao movimento republicano e dos estados do Norte de espalhar o fim da escravatura para todas as partes do país. Quando os republicanos escolheram Lincoln como o candidato do partido para as eleições de 1860, os sulistas estavam com medo de que as mudanças do norte se espalhassem. E começou a secessão.

Então Lincoln estava totalmente ligado àquela guerra civil que teria matado 970 mil pessoas. Depois de quatro anos, as pessoas queriam o fim da guerra, mais que nada. E Lincoln sabia que tinha pouco tempo para terminar com a escravidão através da lei. Mas o filme não deixa esta ligação direta da postura de Lincoln e de seus aliados com o conflito. Ele apenas reforça a ideia de um líder correto, libertário e solitário. Que, segundo o roteiro sugere, tem um forte apelo popular – informação esta pouco confirmada pela história que vemos na telona.

A morte do filho do casal Lincoln é um elemento importante nesta história. Mas em momento algum sabemos do que o filho deles morreu. Ele tinha idade para ir para a guerra e teria morrido lá? Não. Pesquisando mais sobre Lincoln é que eu descobri que William, terceiro filho do casal, morreu em fevereiro de 1862, quase três anos antes da história do filme começar, aos 11 anos de idade, provavelmente de febre. Mas ele não foi o único filho dos Lincoln que morreu jovem. Edward, segundo filho do casal, morreu aos quatro anos de idade, em 1850, de tuberculose.

Para resumir, achei Lincoln, o filme, uma obra bem acabada no resgate de elementos históricos, mas com algumas falhas de roteiro e com uma direção um tanto “preguiçosa”. Daniel Day-Lewis está estupendo, mas os demais atores apenas cumprem bem os seus papéis. Achei um exagero indicar Sally Field e Tommy Lee Jones como Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente, ao Oscar 2013. Só explicam a indicação deles dois fatores: 1) Hollywood realmente resolveu forçar a barrar e fazer este o filme mais premiado do ano, em uma competente campanha de marketing dos estúdios envolvidos; 2) a safra de filmes está tão ruim que interpretações apenas corretas merecem ser premiadas com um Oscar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do Tommy Lee Jones. Acho um dos grandes atores que seguem trabalhando com convicção em Hollywood. Ainda assim, não acho que a atuação dele mereça indicação ao Oscar. Se alguém fosse ser indicado como coadjuvante neste filme, eu acho que deveria ser o David Strathairn ou, até mesmo, mas correndo por fora, o James Spader.

Lincoln tem uma fila de atores ótimos fazendo quase pontas. Evidentemente o espaço principal da produção é dado para Daniel Day-Lewis que, realmente, está estupendo. Ele incorporou, de seu jeito perfeccionista que todos conhecemos desde The Unbearable Lightness of Being (1988) e My Left Foot: The Story of Chrsity Brown (1989), Lincoln com maestria. Modulou a voz do mito, assim como o seu jeito de olhar, caminhar, portar-se no trato com as pessoas. Impressionante.

Mas há muitos outros atores que ficam na sombra de Day-Lewis. Além dos já citados, vale comentar o trabalho de Hal Holbrook como Preston Blair; John Hawkes como Robert Latham, que apoia Lincoln; Jackie Earle Haley como Alexander Stephens, o vice-presidente dos Estados Confederados da América; Jared Harris como Ulysses S. Grant, general encarregado do Exército dos EUA; David Costabile como James Ashley, o republicano que apresentou a emenda na Câmara; Lee Pace como Fernando Wood, um dos democratas mais fervorosos contra a emenda; e Michael Stuhlbarg como George Yeaman, um dos democratas que “vira a casaca” e garante a aprovação da emenda.

A trilha sonora praticamente não existe neste filme. Por outro lado, há outros elementos técnicos que merecem ser citados, porque funcionam bem, como é necessário em qualquer filme de época. Vale elogiar o figurino de Joanna Johnston e o design de produção de Rick Carter e Jim Erickson, os três indicados ao Oscar. Gostei também da decoração de set de Jim Erickson e Peter T. Frank, assim como da maquiagem feita por uma equipe de 52 profissionais.

Honestamente, não entendi algumas indicações ao Oscar para este filme. Exemplo: a direção de fotografia de Janusz Kaminski. Adoro o trabalho dele, mas ele não faz nada de extraordinário nesta produção. Também não vi um trabalho surpreendente do editor Michael Kahn.

E uma curiosidade sobre esta produção: inicialmente, Lincoln seria protagonizado por Liam Neeson, que desistiu do projeto porque ele achava que estaria muito velho para interpretar o personagem quando o filme, após vários anos, finalmente saiu da gaveta.

Steven Spielberg gastou 12 anos pesquisando para fazer Lincoln. Ele reproduziu o escritório do ex-presidente com perfeição, resgatando o mesmo tipo de papel de parede e os mesmos livros que ele tinha, incluindo o mesmo tique-taque do relógio de Lincoln.

Esta produção teria custado US$ 65 milhões, aproximadamente. E conseguiu um bom resultado nas bilheterias de seu principal território para o sucesso, os EUA: alcançou pouco mais de US$ 144 milhões até o dia 6 de janeiro.

Lincoln estreou em outubro no Festival de Cinema de Nova York. Até o momento, o filme ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 60, além de ser indicado a 12 Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pelo Prêmio AFI e para cinco prêmios recebidos por Daniel Day-Lewis como Melhor Ator pelos críticos de Boston, Las Vegas, Nova York, San Diego e Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 textos positivos e 17 negativos para Lincoln, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1.

Para quem não assistiu a The Conspirator, filme dirigido por Robert Redford e que trata do julgamento que ocorre após o ato final mostrado em Lincoln, vale dar uma conferida. É outro estilo de filme, que tem suas falhas também, mas que complementa bem ao que vemos na produção de Spielberg. Comentei The Conspirator aqui.

Quem quiser saber mais sobre Lincoln e a Guerra de Secessão, vale dar uma conferida neste texto, neste, e neste outro em inglês. Sobre o projeto de Spielberg, este filme traz algumas informações interessantes.

CONCLUSÃO: Eis um filme para norte-americanos ver. Ou quase. Não serei tão cruel e afirmar que Lincoln só interessa ao público dos EUA. Porque qualquer retrato cinematográfico de uma figura histórica transcende o seu país de origem e ganha interesse mundial. Ainda mais quando esta figura é do porte de Abraham Lincoln. Mas convenhamos que este filme nos afeta de uma maneira muito diferente que a um estadunidense. Ainda que muitas das questões levantadas pelo filme nos sejam muito familiares, como o preço que um governante paga para conseguir aprovar o que acredita ser correto (vide mensalão e tantas outras situações questionáveis na política brasileira), não temos a mesma identificação com a história como os americanos.

Então, se não há toda essa identificação – ainda que exista aquela reflexão sobre o paralelo da história com o Brasil -, o que nos sobra? Este não é um filme que inova na linguagem cinematográfica. E nem na interpretação, apesar de Daniel Day-Lewis fazer um grande trabalho. Tecnicamente, é um filme bem acabado, mas sem nenhuma invenção. Bastante “papai e mamãe”, aliás. Spielberg faz um trabalho correto, e ponto. O roteiro tem como seu principal trunfo o respeito aos discursos de Lincoln. Mas qualquer pessoa que conhece um pouco da história sabe tudo o que virá, sem nenhuma surpresa ou arrebatamento.

Para mim, um grão no resgate histórico dos EUA, nada mais. Não emociona, faz a gente refletir apenas um pouco “fora da caixa”. Porque buscamos paralelos, encontramos eles e levamos a discussão para o fundamento da democracia. Lincoln faz refletir tanto quanto, ou talvez um centímetro a mais do que o recente The Conspirator. Ambos fazem um resgate importante da história dos EUA, mas acabam sendo mornos. E não acho que filmes históricos precisam ser assim. Faltou um pouco mais de ousadia. No fim das contas, este filme será facilmente esquecido. Há outros melhores nesta safra. Apesar do legado que Lincoln, o filme, pode deixar, e um e outro debate que suscinta, ele não marca nossa época e nem mesmo este ano.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Francamente, achei um exagero Lincoln receber 12 indicações para o Oscar deste ano. Mas bueno… também entendo Hollywood e suas políticas de lobby. Este é um filme histórico, que resgata um mito em uma época conturbada nos EUA – com democratas e republicanos tornando as votações importantes no país em objetos de uma disputa complicada. Além disso, é um filme que exigiu 12 anos de trabalho de Spielberg – até parece que ele recebeu, como prêmio, uma indicação para cada ano destes de trabalho.

Como eu disse antes, achei algumas indicações simplesmente forçadas. Como as de Direção de Fotografia, Edição e Trilha Sonora. Eu também não acho que o Roteiro Adaptado de Tony Kushner merecia ser indicado, ou mesmo Spielberg como Melhor Diretor. Para mim, ambos fazem um trabalho competente, mas nada excepcional.

Daniel Day-Lewis sim, mereceu a indicação. Assim como Sally Field – que, para mim, talvez merecesse a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante, e não Melhor Atriz. Agora, Tommy Lee Jones deve ter entrado na lista porque tivemos um ano fraco de coadjuvantes. Mixagem de Som, por outro lado, mereceu estar lá, assim como Melhor Figurino e Design de Produção.

Hollywood pode querer consagrar Lincoln. E se isso acontecer, o filme vai receber a maioria dos prêmios, mesmo sem merecê-los. Agora, se a premiação esquecer um pouco o ufanismo e a força de Spielberg e for justa, talvez Lincoln receba três estatuetas: Melhor Ator, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Agora, falta assistir aos outros concorrentes para poder afirmar, com convicção, se estes são prêmios justos.

http://www.imdb.com/name/nm0654648/

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Looper – Looper: Assassinos do Futuro

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Dizem que nada se cria, tudo se copia. Que tanto já foi feito e dito sobre amor, vingança, sentido de autopreservação e outros temas fundamentais que nada mais de original, verdadeiramente original, restou. Looper parece ser uma prova desta premissa. Ele lembra demais a “alma” de The Terminator para parecer original. Mas tem uma certa novidade, aqui e ali e, especialmente, apuro técnico que não fazem esta experiência ser ruim. Afinal, o que, de fato, é original?

A HISTÓRIA: O dia está prestes a amanhecer, e Joe (Joseph Gordon-Levitt) dá mais uma olhada em seu relógio de bolso, antes de seguir treinando palavras em francês. Ele olha fixo para a frente, onde repousa, no chão, uma lona extendida. Após dar mais uma olhada no relógio, ele se levanta, empunha a arma e atira no homem que surge a sua frente. Ele explica que a viagem no tempo ainda não foi inventada, em 2044, mas que 30 anos depois ela será proibida e utilizada por criminosos para que eles consigam se livrar das pessoas, já que despachar um corpo no futuro não será uma tarefa simples. Os assassinos especializados em se desfazerem destas pessoas do futuro são chamados de loopers. Joe é um deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Looper): Falar de viagem no futuro outra vez… e como ser original? Provavelmente, após a trilogia genial de Back to the Future e os filmes incríveis de The Terminator, isso seja impossível. Ainda assim, o diretor e roteirista Rian Johnson se lançou neste desafio, entregando o interessante Looper.

E o filme começa com uma ironia superinteressante: ao invés de termos “exterminadores do futuro” voltando para o passado para eliminar alguma ameaça, acompanhamos as histórias de “exterminadores do passado” que puxam o gatilho para tirar do futuro inimigos de organizações criminosas. Interessante. A tradução do título no Brasil, assim, pode ser vista como errada ou correta. Como tudo se passa no futuro – 2044 e 2074 -, o título não está errado, ainda que pareça estranho.

Looper deixa muitos elementos para o público pensar. Alguns menos importantes que outros para a história. Por exemplo, de como a viagem no tempo tornou-se proibida no “segundo” futuro – para não tornar a história uma bagunça, já que, como nos ensinou Back to the Future, cada mudança, por mínima que seja, do passado, altera o presente e o futuro. Outro exemplo é como o futuro de 2074, além de viagem no tempo, tem a rastreabilidade levada à escala máxima – tanto que fica quase impossível para uma pessoa desaparecer.

Looper faz lembrar um pouco também o espírito de Mad Max. Não porque temos uma sociedade desolada de recursos, mas pela falta de “humanidade” dos cenários. Não temos heróis em Looper. As duas versões de Joe são, na essência, de bandidos sem remorso. Que apenas pensam como irão sobreviver. Joe não se esforça muito para ajudar o seu melhor amigo Seth (Paul Dano), quando ele precisa. E segue a linha dos demais loopers, de esbanjar dinheiro, viver a vida adoidado e desprezando todos os marginalizados da sociedade futurista.

Mesmo sem se aprofundar muito no contexto que cerca aqueles personagens, Looper deixa claro que as sociedades futuristas deixam as pessoas com medo. Tanto que boa parte delas vive armada, pronta para puxar o gatilho e acertar qualquer pessoa que pareça um pouco ameaçadora. Também é um tempo em que a evolução de uma habilidade – a telecinética – é vista como piada. Esqueçam os heróis e os superheróis. Ninguém quer saber deles, aparentemente.

Looper, assim, é um bocado cínico. Na essência. E acerta nas apostas que faz. Depois de mostrar o cotidiano repetitivo e frio de Joe e os demais loopers, o filme ganha interesse ao apresentar o “encerramento de um loop”. Cada um daqueles assassinos sabe que, mais cedo ou mais tarde, isso irá acontecer com eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a premissão não é ruim: após matar a você mesmo, você ganha várias barras de ouro e 30 anos de vida com liberdade para ser vivida.

Todo “exterminador do passado” sabe que isso vai acontecer com ele. Mas acompanhamos uma fase em que isto está ocorrendo com muito mais frequência. Porque há um vilão novo no futuro. E para acabar com esse inimigo é que o Joe de 2074 (o ótimo Bruce Willis) engana a morte – como não lembrar de The Terminator? Apenas o alvo mudou, afinal, o “senhor da chuva” já é um garoto, e não adianta mais matar a mãe dele. 🙂

O ritmo de Looper vai bem até o velho Joe aparecer e começar o seu plano de busca do vilão do futuro. Nesta hora, o Joe jovem ajuda a desacelerar um pouco o filme. Claro que esta “esfriada” é necessária para explicar a origem do poder do “senhor da chuva”, e revelar o que há de verdade na lenda que o velho Joe trouxe a seu respeito. Mas querendo ou não, aquela parte é a menos interessante da produção – até porque o garoto Pierce Gagnon, que interpreta a Cid, irrita um pouco com aquela cara demoníaca e sua “superinteligência”.

De qualquer forma, o ambiente envolvendo Cid e Sara (Emily Blunt) abre aquela velha discussão sobre o que define o futuro das pessoas. Quanto este futuro é determinado por sua “essência”, por características inatas que lhe acompanham de antes mesmo de nascer, e o quanto é determinado por sua criação, amor familiar, amigos e o restante do “meio” que vai lhe cercando a vida afora? A questão está lançada e tem uma certa resposta no final. Digo isso porque há muito para acontecer após aquela cena final, e fica a gosto de cada um imaginar o futuro a partir dali.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um acerto de Looper é explicar o que irá acontecer antes de que aconteça. Vide o momento decisivo da conversa do Joe do futuro com a sua versão mais jovem. A explicação dele sobre as lendas envolvendo o vilão do futuro é o que torna a convivência de Joe, Sara e Cid interessante. E também, naquele momento, existe uma questão fundamental neste filme: afinal, o antigo é melhor que o novo ou vice-versa? Os “dois” Joe se sentem superior, de alguma forma. O mais jovem porque sabe que tudo que ele fizer vai determinar a sua versão mais velha. E o mais velho porque ele sabe todas as besteiras e visões equivocadas que o mais novo tem. Sem dúvida, aquele é o grande momento de Looper.

Impressiona como este filme é bem acabado nos efeitos especiais e, principalmente, como ele deixa tantos temas abertos para a discussão e a reflexão. O embate entre o velho e o novo aparece a todo momento. Assim como, e de forma muito natural, a velha questão de Back to the Future de como cada mudança no presente afeta o futuro. O Joe de Bruce Willis segue tendo a sua mulher (Qing Xu) na memória, ainda que tudo nos leve a crer que aquele futuro não irá acontecer. Isso porque, até que algo realmente se defina, ele ainda pode viver muitas das coisas que tinham ocorrido na primeira versão. Interessante.

O diretor Rian Johnson afirma que cuidou de cada detalhe do roteiro para que este filme não tivesse furos. Ainda assim, há pelo menos duas partes que eu não entendi muito bem (e, como sempre, agradeço quem puder ajudar a esclarecer). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro: a primeria sequência em que Joe não mata a sua versão no futuro representa a imaginação dele enquanto espera a figura da vítima aparecer, atrasada, na sua frente? Segundo: por que Joe fica mais sensível para matar o segundo garoto? Parece até que ele conhece a Suzie (Piper Perabo). Para mim, a resposta para a primeira pergunta é que sim, Joe primeiro imagina aquela sequência antes de atirar em seu “eu do futuro” e, para a segunda, é de que o Joe velho não conhecia Suzie, mas hesita apenas porque ficou mais difícil para ele seguir matando crianças.

Uma sacada muito bacana de Looper é como a versão de Joe do futuro acaba aprendendo com os novos fatos que vão acontecendo com o Joe do presente. Bem pensado pelo diretor.

Interessante como Looper está recheado de ótimos atores. Além dos já citados, vale comentar a participação de Jeff Daniels como Abe, o homem que tira Joe das ruas e garante “um futuro melhor” pra ele ao torná-lo um looper; Noah Segan como Kid Blue, o capanga que quer impressionar Abe e que acaba sendo a parte “engraçada” e trapalhona da trama; Frank Brennan como o Seth do futuro; além da super ponta de Piper Perabo.

Tecnicamente, tudo funciona muito bem em Looper. Da trilha sonora envolvente de Nathan Johnson até a excelente e precisa edição de Bob Ducsay – um dos pontos altos do filme; a direção de fotografia de Steve Yedlin; o ótimo design de produção de Ed Verreaux e a direção de arte de James A. Gelarden – que ajudam o filme a ser estiloso. Por outro lado, há um quesito na parte técnica que me irritou – ainda que eu entenda a razão dele ter sido feito como foi: a maquiagem da equipe liderada por Kimberly Amacker, Jack Lazzaro, Aimee Stuit e Emily Tatum. Me incomodou, do início até o final do filme, a maquiagem feita a golpes de facão para tornar Gordon-Levitt mais “parecido” com Bruce Willis. Sei lá, acho que podiam ter resolvido esta questão de outra forma – como o velho Joe ter feito, para fugir da polícia, uma plástica no futuro ou algo assim.

Além daqueles pontos do roteiro que parecem um pouco mal amarrados – citados acima -, e da maquiagem de Gordon-Levitt, me irritou um pouco o exagero da interpretação do garoto Pierce Gagnon. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme ia muito bem até o guri começar a surtar e parecer um personagem demoníaco de filmes de terror. Não tenho problemas com estes personagens, desde que eles estejam nos filmes do gênero. Um garoto diabólico em Looper me pareceu um pouco exagerado. Um pouco mais de sutileza para este personagem teria sido mais interessante.

Looper custou cerca de US$ 35,7 milhões e arrecadou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de novembro, quase US$ 65,6 milhões. Nada mal. Mas pela propaganda boca-a-boca, certamente, ele vai conseguir faturar muito mais que isso. E merece. Não é fácil fazer um ótimo filme de ficção científica, ainda mais tratando de questões futuristas e viagem no tempo hoje em dia.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro deste ano. De lá para cá, ele participou de apenas dois outros festivais, o de Zurique e o Night Visions. Apesar destas participações, ele não ganhou nenhum prêmio até o momento. Mas deve figurar no próximo Oscar em categorias técnicas, como a de efeitos visuais.

Algumas curiosidades sobre a produção: Joseph Gordon-Levitt gravou várias falas de Bruce Willis ditas em filmes anteriores em seu iPod para emular o melhor possível o jeito de falar do ator. Ele também assistiu a várias produções para tentar repetir os trejeitos de Willis. Outro detalhe: no dia em que foi gravada a cena em que ele cai da escada externa do prédio onde vive, ao tentar fugir dos bandidos, Gordon-Levitt comemorava o aniversário de 30 anos.

Vi uma entrevista em vídeo com o diretor que achei interessante citar aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ele explica a razão do filme ter tantos elementos do passado. Rian Johnson diz que os filmes futuristas que mostram tudo muito futurista lhe incomodam, porque não parecem realista. E dá exemplo do relógio e do sapato que ele estava usando na hora da entrevista… apesar de estarmos em 2012, utilizamos muitas coisas que lembram demais a metade do século passado. E ele acha que o futuro será assim… especialmente o futuro onde as coisas não funcionam bem. Porque quando as coisas não funcionam bem, as pessoas tendem a buscar referências no passado, quando a realidade parecia ter mais lógica. E o segundo ponto, que eu achei especialmente interessante, foi quando perguntaram para ele porque a violência é tão realista no filme. Ele diz que esta é a questão fundamental de Looper. Ele quer mostrar como a violência utilizada para resolver a violência acaba não solucionando nada – vide a busca pelo garoto. Pelo contrário, essa lógica acaba sendo o problema. Bacana.

Looper se saiu muito bem ao conquistar a opinião do público e da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, uma avaliação ótima para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 216 textos positivos e apenas 15 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% – e uma nota média de 8,1. Muito boa nota também.

Há uma outra entrevista do diretor que eu achei interessante. Nela, Johnson comenta a cena no café. De como cada versão de Joe se acha superior e de que, apesar da versão de Willis dizer que sabe o quanto jovem está equivocado, porque já viveu “aquela vida” e por se sentir em outro nível, ele não percebe que segue meio que “preso” aquela falta de maturidade – que nada mais é do que uma forma egoísta de levar a vida.

CONCLUSÃO: Quem tem The Terminator e suas sequencias como referência, vai assistir Looper com um certo incômodo. Possivelmente o mesmo incômodo que o próprio mecanismo do “looper” provoque. Afinal, o passado volta, e volta, e parece que permaneceremos naquele “eterno retorno”. Mas temos a possibilidade de alterar essas repetições. Assim, Looper também altera a lógica de The Terminator. Nesta produção há violência, drama, cenas incríveis que usam o melhor da tecnologia e um bando de gente sem muito escrúpulo além da autopreservação. E ainda que a história, lá pelas tantas, fique um bocado previsível, essa previsibilidade ajuda a alimentar a tensão. Para que todos estejam ansiosos para ver quem segurará as suas crenças até o final. Porque, por incrível que pareça, Looper planta a sua semente naquela velha discussão sobre o que forma o caráter de um indivíduo. O quanto nós trazemos de antes do berço e o quanto somos moldados a ser. Essa reflexão, junto com ótimos efeitos, bons atores e uma recriação de histórias que já vimos antes, fazem de Looper uma peça eficaz de entretenimento.

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Hesher – Juventude em Fúria

Um filme rock and roll. Não apenas na trilha sonora, mas no roteiro e na levada. Hesher parte da perda de uma família e da aproximação estranha de um sujeito hardcore na vida de um órfão para tratar sobre questões existencialistas. Vida, morte, família e comprometimento aparecem  na mira do diretor e roteirista Spencer Susser. Uma produção com algumas surpresas e um bocado de irreverência, como o rock mesmo. Interessante, ainda que não deverá agradar a todos os gostos porque não inventa ou surpreende como poderia fazer.

A HISTÓRIA: Um garoto com o braço esquerdo enfaixado anda de bicicleta acelerado. Ele persegue um reboque com um carro vermelho batido. No caminho, sofre um pequeno acidente, mas não desiste de perseguir o automóvel. No ferro-velho ele entra no carro rebocado, até que é retirado de lá. Para T.J. (Devin Brochu), aquele não é um simples carro que ocupava espaço na frente da casa da família. O veículo guarda as últimas lembranças dele da mãe. Mas pouco a pouco ele aprende que deve superar o luto e voltar à rotina. Mas tudo está diferente, e fica cada vez mais fora do comum quando Hesher (Joseph Gordon-Levitt) e Nicole (Natalie Portman) entram na vida do garoto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hesher): Cheio de altos e baixos, Hesher é uma produção alternativa. A essência do filme é o rock, o som pesado e toda a cultura que o cerca. Especialmente a vocação de romper com a tradição, com os lugares comuns. Isso tudo é verdade. Mas ainda que Hesher surpreenda, em alguns momentos, especialmente ao tratar com bastante frieza um garoto que perdeu a mãe há pouco tempo, ele também se mostra um bocado previsível.

As surpresas do filme duram a primeira hora. Depois, nos acostumamos com o jeito sempre no limite do personagem que dá nome à produção, e tudo que começa a acontecer se torna esperado. Claro que a produção vale pela curiosidade, por apostar em uma fórmula que escapa da maioria das produções de Hollywood, muito preocupadas com o politicamente correto. Hesher não é nada politicamente correto.

Primeiro, porque não maquia os efeitos da perda de uma pessoa fundamental na vida de uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando a mãe de T.J. morre, isso não abala apenas a vida do garoto. Termina com o ânimo do pai dele, Paul Forney (Rainn Wilson), que cai em depressão. O clima fica cada vez mais tenso na família, e a doente avó do garoto, Madeleine (Piper Laurie) se esforça para tentar manter a unidade familiar, sem muito sucesso.

De forma bastante peculiar, o roteiro do diretor Spencer Susser, escrito juntamente com David Michôd, baseado em uma história de Brian Charles Frank, questiona as saídas mais usuais para o luto. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, o tempo sozinho não ajuda o desolado viúvo Paul. Nem mesmo a responsabilidade dele com a mãe idosa ou o filho que ficou órfão. Depois, quando ele busca um grupo de apoio, as conversas de apoio também parecem sem efeito. A apatia do chefe de família chega a tal ponto que ele aceita um completo desconhecido em casa. Não reage a seus abusos.

Hesher, por sua vez, encontra naquele ambiente desolado o local ideal para passar um tempo seguro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nômade sem família, capaz de jogar uma bomba em um carro de uma patrulha de segurança e de intimidar quem desafiar as suas vontades, Hesher mexe com o cotidiano daquela família destroçada. Torna alguns dias de T.J. desafiantes, ensina para o garoto os piores exemplos – como de que é legítimo queimar o carro de um desafeto – e se mostra o único capaz de enxergar e ouvir a cansada avó Madeleine. O grande problema do filme, contudo, é que fora o politicamente incorreto no linguajar – fazia tempo que eu não via uma produção com tantos palavrões e linguagem chula – e nas atitudes do protagonista, sobra pouca surpresa na história. Aliás, surpresa alguma. Um espectador um pouco mais “rodado” (ou seja, que já tenha assistido há um bocado de filmes antes) vai saber o que esperar da história até o final. Sem contar que os personagens são bastante rasos, com atitudes lineares, quase esquemáticos.

Claro que é importante diretores como Spencer Susser destilarem o seu estilo por aí. Para mostrar que ainda existe espaço para uma certa ousadia no estilo de fazer cinema. Só que falta a Hesher um pouco mais de inovação no conteúdo, especialmente na construção dos personagens. De qualquer forma, a produção dá espaço para Joseph Gordon-Levitt se destacar. Enquanto o restante dos autores faz apenas um trabalho mediano. Natalie Portman mesmo… a personagem dela é morna e a atuação, consequentemente, sem destaque algum. Dispensável. Mas como a atriz é produtora do filme, explica-se o seu envolvimento no projeto – certamente ela não foi atraída pela personagem, que é ruim.

No mais, Hesher dá uma lição – ainda que de forma bastante torta – para o pai e o filho que protagonizam esta história, sobre a importância de quebrar algumas regras e de viver o amor e a gratidão pelas pessoas que mais prezamos, que fazem a nossa vida ter sentido. De preferência, devemos fazer isso enquanto elas estão com o coração pulsando. Mas mesmo quando esta fase já passou, nunca é demais prestar a homenagem devida. O final é uma tacada certa do diretor. Pena que o recheio nem sempre acompanhe essa “boa sacada”.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é o primeiro longa dirigido por Spencer Susser. De 1999 até agora, fora Hesher, ele havia dirigido apenas curtas e alguns vídeos – como o videoclipe de Want You Bad, do The Offspring.

Em termos de bilheteria, Hesher foi um pequeno desastre. Mesmo não tendo custado nenhuma fortuna, para os padrões de Hollywood – aproximadamente US$ 7 milhões -, Hesher faturou pouco mais de US$ 382,9 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho ridículo – apesar de nomes conhecidos no elenco.

Mesmo tendo algumas falhas graves no roteiro, como personagens fracos e diálogos engraçados de tão nonsenses, assim como saídas bem melodramáticas perto do final, é preciso dizer que Hesher tem algumas sequências muito bem filmadas. A melhor delas é a inicial, com a perseguição de bicicleta que T.J. faz ao carro da família.

Antes que alguém me pergunte como eu fui capaz de dar uma nota 7 para um filme tão fraquinho, devo dizer que a principal motivação desta nota são as palmas que eu bato para a ousadia de Hesher. Mesmo sendo um filme fraco e que pode ser classificado como “ruinzinho” sem nenhum medo de injustiça, devo dizer que temos aqui uma produção corajosa. Pelo menos ao tratar sem pudor algumas relações familiares e problemas caseiros pouco mostrados por outros filmes. Não apenas a depressão que não termina de um pai de família engessado pelo luto e pela culpa, mas também as relações de poder entre os diferentes membros desta família, a forma underground de algumas figuras encararem a vida e a sociedade e, claro, a dureza que pode acompanhar um garoto que só parece se ferrar. Em vários momentos eu pensei se a vida de T.J. não iria melhorar nunca. E, aparentemente, pouco vai melhorar na história do garoto, que continuará órfão e tudo o mais. A diferença, do início do filme para o final, é que T.J. aprendeu algumas lições valiosas – e terá, novamente, um pai desperto ao seu lado. De qualquer forma, gostei da veia rockeira desta produção. Há pouco espaço para filmes como esse no mercado.

Hesher estreou no Festival de Sundance, o reduto para filmes alternativos, em janeiro de 2010. Depois, o filme passou por outros dois festivais: os da Philadelphia e da Flórida. Nenhum relevante – fora o de Sundance, é claro. Neste caminho, ele foi indicado apenas ao grande prêmio do júri em Sundance, onde perdeu a disputa para Winter’s Bone. Não há nenhuma dúvida que o filme dirigido por Debra Granik mereceu mais o prêmio que Hesher.

Da parte técnica do filme, vale citar a ótima trilha sonora de Frank Tetaz, a direção de fotografia bem balanceada de Morgan Susser e a edição competente que o diretor Spencer Susser faz ao lado de Michael McCusker.

Os usuários do site IMDb deram uma nota muito boa para Hesher: 7,2. Eis uma avaliação muito positiva, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Publicaram 38 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 55% – e uma nota média de 5,7.

CONCLUSÃO: Protagonizado por um sujeito totalmente fora dos padrões, Hesher é um filme com boas sacadas, alguma diversão e um bocado de tempo gasto com redundância. O esforço de ser politicamente incorreto é interessante, ainda que chegue a ser previsível e cansativo em alguns momentos. Com uma grande atuação de Joseph Gordon-Levitt e uma trilha sonora bem interessante, Hesher mostra como, algumas vezes, o melhor tratamento para um luto é mesmo o choque elétrico. Que mais cedo ou mais tarde temos que aprender a lidar com a perda e, através dela, saber valorizar ainda mais o que temos de precioso ao nosso redor, que é o amor e a gratidão pelas pessoas que nos ajudaram e nos ajudam a sermos quem somos. De uma forma nada usual, Hesher trata, desta maneira, sobre a importância da família, do amor e de encontrarmos o nosso próprio caminho. No início e no final, esta produção acerta a mão. Mas na maior parte do tempo, perde força com personagens superficiais, perseguições e represálias bobas. A essência do rock está ali, em cada minuto. Mas ela algumas vezes é desperdiçada. Um passatempo curioso, mas que pode desagradar aos que buscam “algo mais” no meio de tanto som pesado e palavrões. Porque Hesher não quer explicar muita coisa, apenas mostrar que a vida pode ser vivida intensamente, dentro ou fora dos padrões.

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Inception – A Origem

Todo filme que vira “sensação” muito rápido me deixa com um pé atrás. Especialmente aqueles que são acompanhados por muitos comentários de espectadores boquiabertos dizendo que tal produção é “revolucionária”. Convenhamos que, depois de mais de 110 anos de história do cinema, dificilmente é possível encontrar uma única produção “revolucionária”. Antes de assistir a Inception, eu havia escutado opiniões conflitantes. Uns haviam amado a produção, considerando-a uma das melhores do ano – ou dos últimos anos. Outros, comentavam que havia “muito barulho por nada”. Me recuso a ir para um ou outro extremo. Inception é um bom filme, mas nada além disso. Christopher Nolan comprova mais uma vez que é um diretor e roteirista diferenciado mas, ainda assim, não considero este o seu melhor trabalho. Memento, sem dúvidas, é superior – e mais original. Inception me fez lembrar demais os conceitos de Abre los Ojos, com a adição da lógica de filmes como Ocean’s Eleven e um “tiquinho” de Matrix. Por isso mesmo, por mesclar ideias que antes foram melhor desenvolvidas, ele me pareceu longo demais, um tanto repetitivo e, assim, cansativo.

A HISTÓRIA: Um homem acorda exausto na praia enquanto cenas de duas crianças surgem em sua mente. Pouco depois, ele é arrastado até uma sala dourada, na qual um homem idoso assiste pacientemente o primeiro homem se recompor. Só então o idoso pergunta se ele apareceu para matá-lo. Corta. O mesmo homem que acorda na praia aparece, na mesma sala, em outro tempo. Cobb (Leonardo DiCaprio) tenta convencer o poderoso Saito (Ken Watanabe) que ele deve investir em ferramentas para proteger a sua mente de ladrões de ideias que atuam por meio dos sonhos, roubando-as enquanto a pessoa está dormindo. Pouco depois, Saito consegue se livrar de um golpe do próprio Cobb e seu parceiro, Arthur (Joseph Gordon-Levitt). E lança um desafio para o primeiro: se ele conseguir implantar uma ideia na mente de seu principal concorrente, Robert Fischer (Cillian Murphy), Saito conseguirá uma maneira de levar Cobb novamente para os Estados Unidos, para que ele possa a viver com seus filhos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Inception): Algumas verdades sobre este filme são indiscutíveis: ele é bem dirigido, tem um ritmo bem planejado e é muito bem feito. Tem efeitos especiais e conceitos de imagens que aproveitam os melhores recursos que o cinema atualmente propicia. E isso é praticamente tudo. Ok, o elenco trabalha afinado. E só. O roteiro de Christopher Nolan faz um apanhado de várias ideias desenvolvidas por outros diretores e roteiristas anteriormente, coloca tudo no liquidificador e apresenta uma batida que pode cair no gosto da maioria. E inclusive me agradou, por um tempo. Mas depois esta mistura me pareceu um bocado óbvia, repetitiva e cansativa.

Sei que provavelmente nove em cada 10 leitores deste post discordarão da minha crítica. Mas paciência. Como sempre, não escrevo para agradar ou polemizar, para cair na simpatia ou na ira das pessoas. Escrevo o que eu penso e sinto, mesmo que a maioria discorde. Comento isso porque muitas pessoas próximas, no meu ambiente de trabalho, simplesmente ficaram “horririzadas” ou muito surpreendidas com meus primeiros comentários no Twitter falando que não tinha achado o filme nada demais. Como outras produções que viraram “cult” (cultuadas) por um grande número de pessoas, Inception parece ter virado quase uma religião – e ai de quem discorde da “grande obra”.

Bem, como eu disse, não escrevo para agradar ou desagradar. E não vou dizer que achei Inception brilhante quando, para mim, ele não passa de um produto bem pensado e sem inovação. Feito para justamente cair no gosto do grande público, mas sem ousadia de ideias, conceitos ou mesmo forma de conduzir a história. Ainda que recheado de efeitos especiais e de cenas muito bem construídas, este novo filme de Nolan segue uma lógica bastante linear – mesmo com as “quebras” de sonhos dentro de sonhos. Sobra pouco espaço para a surpresa, porque o espectador sabe, desde o início, sobre o plano de “ataque” da quadrilha de Cobb à mente de Fischer. Neste aspecto, Inception me lembrou muito Ocean’s Eleven. Primeiro, porque sabemos bastante do plano do grupo antes dele ser concretizado. Depois, porque cada um dos integrantes e seus “pontos fortes” nos são apresentados logo de cara.

Ao lado de Cobb e Arthur, forma o time de “especialistas” na construção de mundos imaginários – e oníricos – Ariadne (Ellen Page), Eames (Tom Hardy) e Yusuf (Dileep Rao). Cada um deles, como manda a regras de filmes sobre “equipes” que trabalham juntas para um golpe, é praticamente insubstituível. Um ponto importante para acrescentar “tensão” à trama. O protagonista, para seguir mais alguns lugares-comuns, é ao mesmo tempo motivado e atormentado por questões familiares. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo quando o “grande segredo” de Cobb envolvendo a esposa morta/presente Mal (Marion Cotillard) é revelado, o espectador não se surpreende tanto assim. DiCaprio cuida de deixar evidente, muito antes, que uma certa culpa/responsabilidade sobre o suicídio da esposa lhe acompanha.

Quando um filme, mesmo na “grande revelação” de sua história não surpreende, o que esperar do restante? Muita ação, perseguições, tiroteios, imagens extraordinárias de mundos criados pela imaginação e algumas pontas de luxo. Como Michael Caine interpretando a Miles, antigo mentor e avô dos filhos de Cobb. Ou Pete Postlethwaite como o moribundo Maurice Fischer, pai de Robert. Aliás, mais uma ideia antiga explorada em filmes como Star Wars e tantos outros que entrou no liquidificador do diretor e roteirista: a da atração/repudio de um filho em relação a seu pai, desta vez configurada na relação conflituosa entre Robert e Maurice.

Talvez a grande surpresa deste filme tenha sido, ao menos para mim, a interpretação de Tom Berenger para Peter Browning, o “conselheiro” dos Fischer. Fiquei surpresa mesmo é de como o ator mudou com o passar dos anos – talvez podendo ser comparado apenas com a mudança ocorrida com Mickey Rourke? Mas voltando para a história de Inception… se o filme tem a lógica de produções como Ocean’s Eleven (e tantas outras) na medida em que um grupo de “especialistas” é reunido por um “líder” para uma missão “quase impossível”, ele busca sua alma e filosofia em poços inspirados como os de Abre los Ojos (que, refilmado em Hollywood, renderia Vanilla Sky) e Matrix.

Do filme espanhol dirigido por Alejandro Amenábar, Inception empresta a ideia da capacidade do indivíduo em escolher a sua própria realidade, podendo viver em um permanente “sonho”, ou seja, realidade criada, para preservar determinadas relações ou sentimentos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Toda a relação de Cobb e Mal, me desculpem os sensíveis, me pareceu uma cópia “falcatrua” da relação vivida por César e Sofía. Seja pela falta de originalidade da ideia e de seu desenvolvimento, no filme de Nolan, seja porque Eduardo Noriega e Penélope Cruz apresentaram mais química que DiCaprio e Cotillard. Depois, a ideia de ações “impossíveis” em um mundo irreal no qual algumas pessoas têm consciência e outras não desta irrealidade, assim como o poder das pessoas “se defenderem” ou “escolherem” a fantasia em lugar da verdadeira realidade bebe totalmente do conceito dos irmãos Andy e Lana Wachowski explorados na série Matrix. Até algumas cenas de Inception lembram os filmes dos Wachowski – sem contar alguma referência estilística e até de escolha de ambientes e desenvolvimento de filmes do Kubrick, especialmente 2001.

Antes que alguém comente sobre isso, sei que o cinema hoje é feito muito de “recriações” ou, e outras palavras, “chupinhadas” de ideias alheias desenvolvidas anteriormente. Mas como assisto a muitas escolas e produções de cinema que incluem, mas não se limitam a Hollywood, ouso dizer que esta ideia de “nada se cria, tudo se copia” algumas vezes se aplica, outras não. Porque existem sim – para a sorte do cinema e de quem gosta dele – ideias inovadoras ou, pelo menos, formas diferenciadas de falar de antigos temas no cinema mundo afora. Então, me desculpem, mas me cansa um pouco quando um cara talentoso como o Nolan prefere o caminho mais fácil, que é o de juntar uma série de conceitos explorados anteriormente para fazer um filme divertido (por um bom tempo, mas não durante todo o tempo), bem feito, e só isso.

Mas uma qualidade de Inception, devo admitir, é que esta é uma produção com final aberto. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Produções deste gênero, que deixam dúvidas no espectador, parecem ter retomado fôlego nos últimos tempos – vide The Book of Eli. Uma bela – e antiga – ferramenta utilizada por criadores para provocar uma discussão além do filme – o que, normalmente, só alimenta a curiosidade sobre ele – e a ida das pessoas aos cinemas mais de uma vez. De qualquer forma, em Inception esta “cilada” funciona bem. Basicamente, o espectador tem duas escolhas de final para fazer: 1) a de que Cobb efetivamente conseguiu explicar a Saito o que eles deveriam fazer para voltar para a realidade e que, ao voltar, ele conseguiu rever os seus filhos; 2) a de que Cobb não conseguiu o dito anteriormente e que, por isso, “recriou” em seu mundo de sonhos (limbo) dito reencontro.

(SPOILER – segue a parte que você não deveria ler caso não assistiu ao filme). O que poderia responder a isto seria o bendito peão de metal que aparece rodopiando sobre a mesa na sequência final de Inception. Se ele caísse, o reencontro seria realidade. Do contrário, seria sonho. Sabiamente Nolan não mostrou Cobb e Saito voltando em cada camada do sonho. Apenas na “volta” para a realidade – que poderia ser algo sonhado, já que sempre que alguém chega a um lugar sem saber exatamente como, sem conhecer todo o caminho que lhe levou até ali, esta pessoa pode estar, na verdade, sonhando. O final, assim sendo, fica ao gosto do cliente. Pessoalmente, acho que Cobb estava sonhando, mergulhado no limbo, e que nunca, na verdade, conseguiu sair dali – digo isso não apenas por não termos visto o “caminho” de volta dele, mas especialmente pelas reações um tanto “forçadas” de todas as pessoas ao seu redor.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais uma vez eu gostei do desempenho do ator Cillian Murphy. Para mim, ele rouba a cena todas as vezes em que contracena com DiCaprio. Gordon-Levitt também está bem, ainda que apareça pouco. Os demais se saem bem, mas sem nenhum grande destaque.

Inception tem 148 minutos de duração… eu cortaria, facilmente, pelo menos uns 20 minutos do filme. Achei muitas ideias repetidas e sobram explicações sobre o que o grupo irá fazer em seguida. Sem contar as cenas de perseguições na neve, que poderiam durar metade do tempo.

Com todos os efeitos especiais e o elenco estelar envolvido na produção, Inception custou a pequena fortuna de US$ 160 milhões. Mas conseguiu, até o dia 12 de setembro, mostrar o seu êxito ao faturar, apenas nos Estados Unidos, US$ 282,2 milhões. Sem dúvida é uma das grandes bilheterias do ano e uma das produções que caíram, definitivamente, no gosto popular.

Dois nomes haviam sido sondados pelo diretor para fazer parte deste filme: James Franco para o papel de Arthur e Evan Rachel Wood para Ariadne. A atriz não quis o papel, que passou a ser cogitado para Emily Blunt, Rachel McAdams e Emma Roberts. Gosto muito do James Franco mas, sem dúvida, Ellen Page foi uma escolha muito melhor do que Wood.

Este é o primeiro filme criado de forma original totalmente por Nolan desde Following, de 1998 – todos os outros que vieram depois foram baseados, de alguma forma, em outros materiais, como livros, histórias curtas ou quadrinhos. Para marcar a referência a Following, o personagem de DiCaprio recebeu o mesmo nome que o protagonista do filme de 1998.

O conceito de Inception surgiu na época de Insomnia, de 2002, quando Nolan começou a negociar a produção com a Warner Bros. Mas o diretor levaria ainda oito anos para concluir o projeto e conseguir lançá-lo.

Uma curiosidade: o “paradoxo da escada” que Arthur explica para Ariadne é uma referência à litografia do artista M.C. Escher de 1960 chamada de “Ascending and Descending” ou “The Infinite Staircase”. Escher é conhecido por trabalhar com conceitos como ilusão ótica, matemática e filosofia para criar imagens fantásticas.

Segundo o diretor de fotografia Wally Pfister – que faz um belo trabalho, diga-se -, o estúdio tentou convencer Nolan a fazer um filme 3D, mas o diretor recusou a ideia afirmando que uma produção deste tipo tiraria a atenção das pessoas para a história do filme. Honestamente? Acho que ele perdeu uma boa oportunidade, com essa escolha, de fazer um filme mais interessante – pelo menos eu teria ficado mais envolvida.

Nolan fez uma série de homenagens para alguns de seus ídolos quando pensou o nome dos Fischer. Robert Fischer teria sido inspirado no campeão de xadrez Bobby Fischer, enquanto que seu pai, Maurice Fischer, faria referência ao artista M.C. Escher (que se chamava Maurits Cornelis Escher) e que, segundo o diretor, teria inspirado o estilo visual e muitos dos efeitos de Inception.

O nome de Ariadne é inspirado na personagem da mitologia grega que encontrou uma forma de sair do labirinto do Minotauro. Eames, por sua vez, é inspirado no sobrenome do casal Charles e Ray Eames, conhecidos pelo pioneirismo no design arquitetônico e produção de documentários. E o nome de Cobb, segundo o IMDb, significa “sonho” em sânscrito, hindu, urdu e punjabi – Nolan cheio de “referências”, pois.

Da parte técnica, vale destacar a trilha sonora envolvente e precisa do veterano Hans Zimmer e a ótima edição de Lee Smith. Impressiona a lista gigantesca de profissionais envolvidos com os efeitos especiais. Aliás, este filme, desde já, é um forte concorrente ao próximo Oscar em categorias técnicas como esta – assim como edição de som, efeitos especiais e similares.

A crítica e os espectadores em geral gostaram muito do filme. Tanto que os usuários do site IMDb deram a impressionante nota 9,1 para a produção. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, publicaram 227 críticas positivas e apenas 34 negativas, o que garante uma aprovação de 87% para Inception. Um verdadeiro êxito.

Entre os críticos que gostaram do filme, destaco este texto de Lisa Kennedy, do Denver Post. Para ela, Nolan assume a postura de arquiteto e sonhador (líder) da produção, apresentando um filme “maravilhoso construído com coragem e inspirado na arquitetura paradoxal”. Na opinião de Kennedy, Inception se revela um “ensaio emocionante sobre a atração, o poder e a sedução do cinema”, esta conhecida “fábrica de sonhos”. Sem dúvida ela ficou fascinada pela produção. 🙂 Na opinião da crítica, o início de Inception é “desorientador”, e as “emoções simples que nos prendem mais – como a tristeza, o arrependimento, a vontade de estar em casa – são o combustível da ação e imprimem o ritmo” do filme. Kennedy vai ainda mais longe, afirmando que a produção é uma “façanha filosófica”, porque mergulha em uma pós-graduação de efeitos especiais sobre questões como a “dúvida, a segurança, a paranóia e a confiança” e, além de tudo isso, a própria questão “do cinema”. Ela destaca ainda o uso dos efeitos especiais como metáfora, e a forma com que o filme faz o espectador refletir “sobre coisas cartesianas, de Jung e Freud”. Ah, então tá.

E entre os que não gostaram tanto assim, cito este de David Denby, do The New Yorker. O crítico afirma que Inception é um “espanto, um feito de engenharia e, finalmente, uma loucura”. Para Denby, Inception foi criado para dobrar e redobrar sequências de ação que, utilizando o que há demais moderno em tecnologia, acabou fazendo a história de Inception “passar do ponto”. No texto, Denby critica os exageros da produção – da música até os sonhos dentro dos sonhos e ações de diferentes níveis que acabam fazendo de Inception um filme “deslumbrante que se perde em meandros fabulosos, um filme dedicado a seu próprio funcionamento e pouco mais”.

Denby cita ainda parte da obra de Buñuel, que pode trabalhar com a ideia de sonhos sem ter que lidar com um orçamento de US$ 160 milhões. Sem dúvida existe um universo de distância entre a criatividade do primeiro e a “eficácia” comercial de Nolan. Até porque o grande público, cá entre nós, nunca conheceu e nem gostaria de Buñuel. Melhor mesmo ficarem com Nolan e seu Inception – muito mais fáceis e “divertidos”.

Ah, e quase ia me esquecendo… achei dispensável aquela “construção” do limbo de Cobb e Mal ser tão evidentemente “inspirada” (o que é inspiração, o que é cópia?) de uma das cenas mais emblemáticas do cinema, aquela que mostra o mundo apocalíptico visto pelo Coronel George Taylor no Planet of the Apes de 1968.

Bem, devo dizer que tenho um pouco de preguiça de buscar mais críticas para indicar. E agora, me desculpem, mas vou voltar a buscar um filme que não seja tão “comercial”, porque depois de Salt e Inception, preciso de algo, preferencialmente, um pouco menos “mais-do-mesmo”.

CONCLUSÃO: Um filme que explora as possibilidades do sonho e do controle da mente para a criação de realidades e a prática de “crimes”. Mesclando uma série de ideias e conceitos explorados em produções anteriores, Inception se mostra um bom entretenimento. Bem dirigido, com ritmo que tenta equilibrar a ação com uma certa “profundidade” de personagens, o filme de Christopher Nolan apresenta o que há de mais atual em efeitos especiais e “invenção” de realidades. Ainda assim, se revela longo demais, um bocado previsível e repetitivo. Para o meu gosto, poderia não apenas ser mais curto, mas também “explicar-se” menos. De qualquer forma, ganha pontos por deixar o final aberto, com a conclusão a escolha do cliente. Recomendado para quem gosta de ficção científica, da carreira do diretor e/ou de filmes de ação recheados de efeitos especiais. Agora, se você está esperando um pouquinho além do “óbvio-ululante” e tem um pouco de preguiça com ideias requentadas, talvez seja bom pensar duas vezes – ou, pelo menos, estar preparado para um filme competente, mas longe de ser excepcional.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Com este filme, começo a dar palpite para a próxima premiação-mor de Hollywood. Para mim, Inception sai na frente para disputar – e talvez ganhar – algumas das principais categorias técnicas da premiação. Entre outras, destaco Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Edição.

SUGESTÕES DE LEITORES: Inception estava na minha mira para ser assistido mas, francamente, com tanto “burburinho”, tinha deixado ele para depois na fila… só coloquei ele novamente na frente porque recebi alguns pedidos para assistí-lo. Destaco dois pedidos aqui  no blog feitos pelo Enzo – finalmente comentei o filme, meu bom!  – e, pelo Twitter, recebi uma recomendação do Reinaldo de Oliveira. Agora está na vez de vocês – e outros – comentarem o comentário. 😉 Ah, e um adendo importante: nesta história de demorar meses para responder a todos os recados, não tinha visto que a Pat, no dia 10 de setembro, tinha também recomendado A Origem. Falha minha, Pat! Pois que conste aqui, mesmo que atrasado, que a Pat sugeriu este filme, afirmando que tinha achado ele “chato, comprido e careta”. Pois, sou obrigada a concordar contigo. hehehehehe. Obrigada!

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(500) Days of Summer – 500 Dias com Ela

500days

A fórmula das comédias românticas estava, há algum tempo, bastante desgastada. As produções do gênero sempre giravam em torno de uma história na qual um garoto se apaixonava por uma menina (ou vice-versa) e, depois de vários percalços, eles conseguiam ficar juntos. Ou então um casal que estava junto no início e que acabava se separando, passando por diversas provações até que, por fim, se unia novamente. Como ocorre com qualquer fórmula desgastada, de tempos em tempos, alguns roteiristas e diretores se unem para trazer novos ventos para um gênero. (500) Days of Summer aparece como mais um projeto bem-sucedido neste sentido. O filme apresenta um roteiro inteligente, que faz referência a uma série de “ícones” da cultura pop moderna, e um casal encantador e talentoso. Uma produção perfeita para agradar ao público feminino, espectador cativo das comédias românticas e, porque não, até mesmo ao público masculino por inverter alguns papéis tradicionais e resgatar o rock inglês dos anos 1980.

A HISTÓRIA: Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel) estão sentados lado a lado no banco de um barque parque. No calendário do relacionamento deles, este é o dia 488. Voltamos então para o primeiro dia desta história, quando o arquiteto Tom, que trabalha em uma empresa que cria e lança cartões para diferentes datas, conhece a Summer, a nova secretária de seu chefe, Vance (Clark Gregg). O narrador conta como Tom cresceu acreditando que jamais seria feliz, até que conhecesse “a” garota – tudo culpa do pop britânico e do filme The Graduate. Summer, por outro lado, nunca superou totalmente a separação dos pais e não acreditava na felicidade em um relacionamento duradouro. Mas Tom acredita que Summer é a “a” garota de sua vida e, por 500 dias, ele segue alimentando a crença de que existe apenas um grande amor em sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a (500) Days of Summer): Adoro roteiros inteligentes e com ótimas sacadas. E o trabalho de Scott Neustadter e Michael H. Weber neste filme é repleto destas qualidades. Para começar, com o jogo feito com o título. Como na maioria das músicas do pop rock inglês dos anos 1980 – algo fundamental para esta história -, o título original tem parte da informação entre parênteses e joga com o duplo sentido. (500) Days of Summer pode ser entendido como o período em que Tom ficou obcecado pela garota, Summer, ou pelo conceito de “dias de Verão” – que, para muitos, é o auge da adolescência e da descoberta amorosa. Bem sacado! E este é apenas um de inúmeros detalhes desta produção.

Não sei vocês, mas eu vinha de uma tendência a estar cansada de comédias românticas. A razão, é muito simples (e comentei sobre ela antes): ultimamente, as produções do gênero pareciam sempre “mais do mesmo”. Mas para a sorte de quem gosta de um bom filme, nos últimos tempos produções como He’s Just Not That Into You (comentada antes aqui no blog) e esta (500) Days of Summer têm aparecido para dar um novo ânimo às comédias românticas ao jogar com seus conceitos mais fundamentais – e tirando sarro deles, em muitas ocasiões. E isso, pelo menos para o meu gosto, é ótimo.

Os roteiristas e o diretor Marc Webb brincam com o conceito espaço e, principalmente, tempo neste filme com o super afinado e carismático casal vivido por Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel. Utilizando técnicas diversas, que vão desde a inserção de “vídeos” ao estilo caseiro até depoimentos que parecem fazer parte de um documentário e o recurso da tela dividida em narrativas diferentes e que correm paralelas, Webb se lança na procura de diferentes plataformas para prender a atenção do espectador. E o melhor é que cada mudança destas funciona por se justificar perfeitamente na história – elas estão, literalmente, colocadas na hora e no local adequado.

Mas para o grande público, que não se interessa tanto pelas características técnicas de cada produção, um dos detalhes que deve cair direto no seu gosto é a trilha sonora de (500) Days of Summer. Para o deleite de quem viveu os anos 1980 – ou quem, pelo menos, se interessa por esta época -, há uma profusão de música oitentista. A trilha começa por The Smiths, The Clash, e segue por Black Lips, Regina Spektor e, até uma aparentemente deslocada Carla Bruni. Tudo, absolutamente, funciona bem na levada musical desta produção. The Smiths, aliás, ganha um apelo todo especial nesta história porque, afinal, graças a banda de Morrissey é que Tom e Summer se aproximam.

O roteiro envolvente, cheio de referências e sacadas, também segura a onda em seu constante vai-e-vem temporal. Sempre com a ajuda de um estilizado contador de tempo, acompanhamos o fim do relacionamento de Tom e Summer e, depois, basicamente, o processo de conquista da garota e a dor de cotovelo do rapaz. (500) Days of Summer deve cair no gosto das meninas porque ele traz uma série de momentos “bonitinhos” – o sempre maravilhoso auge do amor – e, especialmente, um casal encantador.

Mas o curioso deste filme é que ele pode, também, cair no gosto dos meninos – que, normalmente, curtem este tipo de filme mais para acompanhar as suas namoradas e mulheres do que por uma escolha própria. Digo isso no geral, claro, sabendo que existe uma infinidade de exceções. Mas voltando ao que eu dizia… até o público masculino deve gostar deste filme porque, afinal, quem nunca se decepcionou no amor? (500) Days of Summer inverte os papéis tradicionais da “garota-que-acredita-no-amor-eterno” e do “rapaz-que-não-quer-compromisso”, inversão essa que talvez seja mais comum nos nossos tempos do que gostaríamos de admitir e, também por isso, deve agradar aos meninos.

A tentativa de Tom e seus melhores amigos, McKenzie (Geoffrey Arend) e Paul (Matthew Gray Gubler) em entender Summer e, de quebra, as mulheres, também deve agradar aos rapazes. Esse recurso é bem batido, é verdade, mas mesmo isso não atrapalha ao filme. Outro recurso muito conhecido é o de utilizar uma menina bem mais nova, no caso, uma pré-adolescente, para dar conselhos para o “marmanjo” do protagonista. Quem assume esta posição em (500) Days of Summer é a atriz Chloe Moretz, que interpreta a Rachel Hansen, que dá um baile de ironia e maturidade no seu irmão, Tom.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma curiosidade da história escrita por Neustadter e Weber é que ela toca em uma situação até que bastante comum na vida real: garotas (e também garotos) que tem uma certa resistência em se comprometer seriamente e que, depois de namorar por bastante tempo com uma pessoa, terminam esse relacionamento e, não muito tempo depois, conhecem outra pessoa com quem, finalmente, aceitam se casar. Isso é algo curioso e que realmente acontece. A questão é que, como Tom aprenderá com a experiência com Summer, cada um tem o seu tempo e a sua própria experiência em um relacionamento. Algumas vezes, simplesmente, a segurança necessária para se lançar em algo mais sério não aparece da mesma forma para um casal.

Além de todas as qualidades comentadas anteriormente, é importante dizer que (500) Days of Summer ganha o espectador pelos detalhes. Por exemplo, na inserção de esquemas e desenhos para explicar parte do que acontece com Tom ou Summer. A ligação destes traços visuais com a história tem a ver com a vocação de Tom, que se formou arquiteto. Gostei muito também das referências que o filme faz a outras produções. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mais do que citar/mostrar The Graduate, (500) Days of Summer brinca com o cinema “mais sensível e de arte” das escolas francesa e sueca, por exemplo – com homenagens escancaradas a Persona e Det Sjunde Inseglet, assim como para Star Wars (em uma genial inserção de uma cena de Han Solo) e Song of the South, quando da aparição do pássaro azul da sequência à la musical. Simplesmente genial e delicioso!

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mesmo tendo uma coleção de momentos deliciosos, (500) Days of Summer poderia ter evitado alguns recursos que, para mim, estão batidos demais. Por exemplo, as linhas iniciais de “apresentação” do filme, que reforçam a idéia de “dor-de-cotovelo” dos realizadores. Convenhamos: tudo isso é forjado. Apenas um recurso a mais para ganhar a simpatia do público masculino. Se essa fosse a primeira vez que alguém utilizasse esse recurso em um filme, tudo bem. Mas desde os geniais do Monty Python o uso subversivo de mensagens em créditos iniciais ou finais não é mais novidade.

Apesar destes créditos iniciais “capengas” (por serem manjados), o filme logo convence com uma ótima edição e um texto do narrador que serve como introdução para o ótimo roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber. Mas o filme “me ganhou” realmente nos créditos iniciais, com a tela dividida meio a meio apresentando supostos “vídeos caseiros” que mostravam a evolução dos protagonistas da infância até a adolescência. Perfeito – e totalmente pop! Aliás, merece destaque a ótima edição de Alan Edward Bell. Ele acerta na mosca, também, quando narra, novamente em uma tela dividida ao meio, a realidade e a expectativa de Tom sobre uma noite em que Summer lhe convida para uma festa.

Todos os atores estão muito bem neste filme. Mas admito que fiquei encantada com os protagonistas, excelentes, e com a menina Rachel, interpretada pela ótima Chloe Moretz. Ela, como as jovens atrizes que protagonizaram Little Miss Sunshine e outros filmes recentes com uma personagem do tipo, tem algumas da melhores linhas do roteiro para si. Sarcasmo e maturidade prematura no tom exato.

Marc Webb destila algumas das sequências de comédia romântica mais bacanas feitas recentemente – com especial destaque para o momento “compras” na loja da Ikea e para a sequência em que eles estão indo de carro para o cinema.

Uma observação consumista: adorei a parte em que Tom e a irmã estão jogando uma partida de tênis em uma Wii. Me deu saudades da minha… 😉 E isto prova como este filme, mais do que a média dos últimos tempos, abriga alguns dos conceitos e dos produtos mais representativos do nosso tempo.

Totalmente recomendável aos que não assistiram a The Graduate, um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos, que o assistam. Sem dúvida, ele deixará mais claro alguns conceitos da relação de Tom e Summer – eu, inclusive, fiquei com vontade de assistir novamente a The Graduate.

Merece menção o trabalho de Mychael Danna e Rob Simonsen com a trilha sonora e o de Eric Steelberg na direção de fotografia.

(500) Days of Summer teria custado US$ 7,5 milhões e arrecadado, até o dia 1 de novembro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 32,2 milhões. Um pequeno fenômeno de bilheteria que, certamente, chegou a esta multiplicação de lucros graças a boa e velha propaganda boca-a-boca. Merecido.

Como os bons filmes independentes fazem, (500) Days of Summer estreou no Festival de Sundance deste ano, em janeiro. Depois disto, ele participou de 21 festivais. Uma marca impressionante. Ainda assim, ele não ganhou prêmio algum até o momento.

Este filme conseguiu uma boa cotação entre público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para (500) Days of Summer, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 159 críticas positivas e 24 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 87%. A revista Empire, por exemplo, considerou o filme como um dos mais originais de seu gênero este ano.

E uma curiosidade: o filme favorito do roteirista Scott Neustadter é… adivinhem? The Graduate, é claro. 😉

CONCLUSÃO: Uma comédia romântica saborosa e inventiva. (500) Days of Summer brinca com o gênero ao qual pertence e destila uma série de referências da cultura pop, do rock inglês dos anos 1980 até várias produções do cinema. Bem escrito, com uma direção cuidadosa e uma dupla de protagonistas encantadora, este é, sem dúvida, uma das boas surpresas do gênero este ano. Por inverter alguns papéis tradicionais no jogo da conquista – algo que, novamente, reflete a nossa época -, este filme deve agradar tanto ao público feminino quanto ao masculino.