Nocturnal Animals – Animais Noturnos


A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

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