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Doraibu Mai Kâ – Drive My Car


Um filme sobre como a arte faz parte das nossas vidas e como precisamos seguir em frente sempre, não importa o quanto isso nos custe. Doraibu Mai Kâ é um exemplo perfeito do novo cinema japonês, que respeita o legado desta cultura e desta filmografia trazendo elementos novos para os espectadores. Um filme longo, profundo, que talvez não agrade a todos – especialmente aqueles mais acostumados com o cinema comercial. Mas é uma produção delicada, inteligente e com o espírito japonês até o último segundo. Representa muito bem o país de origem, portanto.

A HISTÓRIA

Começa explicando que o filme é baseado em “Drive My Car”, conto de Haruki Murakmi publicado no livro “Onna No Inai Otoko Tachi (Men Without Women)”. Oto Kafuku (Reika Kirishima) se levanta da cama. Ela começa a contar uma história. Sobre uma garota que gosta de um rapaz do colégio e que vai até a casa dele sem ele saber. Conforme ela conta a história, Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) faz ela ir avançando na narrativa fazendo perguntas para a esposa. Eles conversam quando o dia ainda não amanheceu. Pela manhã, Yûsuke dá carona para a esposa até o trabalho e conta para ela sobre a história da noite.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Doraibu Mai Kâ): Nossa, demorei para escrever sobre este filme. Comecei esta crítica quando assisti a Doraibu Mai Kâ, há mais de uma semana, mas, depois disso, me enrolei muuuuito para terminar o texto.

Gostei do filme, mas admito que ele me “esgotou” um pouco. A ponto de eu demorar para falar sobre ele. Quando eu gosto de um filme, quando ele me impacta, sinto que devo falar logo a respeito dele. Mas quando eu gosto de algo, mas essa produção me cansa, acabo demorando para falar sobre o filme. Este foi o caso deste Doraibu Mai Kâ.

A primeira questão que eu quero chamar a atenção sobre este filme e o que considero a sua qualidade principal é como Doraibu Mai Kâ costura a vida com a arte. De forma muito clara, o diretor e roteirista Ryûsuke Hamaguchi demonstra todo o seu apreço e o seu respeito pela arte, especialmente pelo teatro, mas também pelo cinema. Isto fica evidente em cada momento do filme e na forma como ele trata a criação artística nesta produção.

Doraibu Mai Kâ é um filme diferenciado e inspirador pela forma como ele aborda o fazer artístico, a inspiração, a dedicação e o talento, especialmente do ambiente teatral, mas também na criação feita para a TV. Isso porque o protagonista do filme é um ator e diretor de teatro e vive aquele mundo a cada segundo da sua vida, enquanto que a esposa dele é uma autora com foco na produção artística feita para a televisão.

Neste aspecto, Doraibu Mai Kâ mostra todo o respeito e o apreço dos realizadores pelo fazer artístico, pela entrega para os personagens e para a arte e para a criatividade e a criação neste âmbito. Mas o filme não se restringe a isso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Doraibu Mai Kâ trata sobre casamento, fidelidade, traição, amor, cobiça, perdão, família, amor próprio e outros elementos que fazem parte deste contexto. Trata, ainda, sobre encontros e desencontros, e de como a vida pode continuar com descobertas fantásticas mesmo quando a gente acha que isso não vai mais acontecer.

O que eu achei mais bacana neste filme é justamente essa mistura entre a vida real, comum, “ordinária”, e a arte, o fazer artístico, a criação e a entrega para personagens e histórias que nos fazem entender o espírito humano mais do que o cotidiano e a rotina são capazes de nos propiciar.

Doraibu Mai Kâ não nos apresenta apenas uma obra teatral. Ele traz, pelo menos, duas obras fundamentais do teatro – e encenadas em todas as latitudes e no decorrer do tempo, com uma longevidade possível apenas para os clássicos e grandes textos. No início do filme, vemos o protagonista encenando Esperando Godot, peça clássica de Samuel Beckett, mas depois a história mergulha na encenação de Tio Vânia, outro clássico, mais antigo, de Anton Tchécov.

Claramente o filme tem dois atos – ainda que eles não sejam apresentados desta forma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O primeiro ato tem a ver com a vida do protagonista até que a esposa dele morre repentinamente. O segundo ato começa quando ele viaja para dirigir e ser o responsável pela encenação de Tio Vânia em um festival. Para isso, ele ficará longe de casa dois meses.

Na primeira parte do filme, o espectador é apresentado para o contexto familiar e criativo de Yûsuke e de Oto. Ela, como muitas outras pessoas, tem a veia criativa alimentada pelo sexo. É na catarse vivenciada neste momento que ela se sente criativa e que imagina suas histórias. O curioso é que, depois desta catarse, ela não se lembra exatamente do que contou para o parceiro – é assim que tudo que ela cria acaba tendo uma “participação” do marido (SPOILER – não leia…) – e, depois vamos descobrir, do amante.

O filme explora bem e exemplifica de forma interessante esse processo criativo. Oto se alimenta da vertigem e do êxtase do sexo para criar suas histórias. Yûsuke aproveita os momentos em que dirige para ensaiar as falas da peça que está encenando – muito antes do filme “revelar” isso, os espectadores mais atentos já percebem que a voz das gravações em fita é a da mulher dele, Oto. Assim, ele interage com ela e a mantém próxima mesmo depois que ela partiu.

Yûsuke não consegue mais encenar Tio Vânia. Ele não quer mais viver o personagem. Mas ele segue aquela rotina de “ensaiar” as falas do personagem “dialogando” com a esposa morta. Esse é um dos pontos centrais do filme. Quando a história aborda como as pessoas que perderam alguém fundamental nas suas vidas encaram a continuidade. Como elas seguem vivendo? Como elas seguem adiante?

Inicialmente, esta parece ser a grande questão do protagonista. Mas, pouco a pouco, vamos percebendo que esta é a grande questão da motorista escalada para dirigir o carro dele, Misaki Watari (Tôko Miura). Uma das questões interessantes deste filme é que ele nos demonstra, por A+B, como pessoas que inicialmente jamais se encontrariam se não fosse o acaso, como é o caso de Yûsuke e Misaki, podem compartilhar sentimentos e histórias muito parecidas.

Talvez a maioria das pessoas não pudesse entender a dor, a perda e a culpa sentida por Yûsuke em toda a sua profundidade. Mas Misaki pode fazer isso. Porque ela também perdeu uma referência na sua vida e tem uma certa culpa por isso. A exemplo de Yûsuke. Inicialmente, o protagonista e Misaki parece não terem nada em comum. O estilo de vida de ambos, suas origens, idades, jeito de ser… tudo é diferente. Mas eles acabam se encontrando no essencial.

Nada disso aconteceria se Yûsuke não seguisse em frente e não aceitasse ser o responsável por uma montagem de Tio Vânia em um festival e em uma cidade desconhecida por ele. Mesmo desanimado e um tanto “perdido”, Yûsuke não está fechado para o novo e o inesperado, ainda que o encantamento que ele tinha no “ato um” parece não existir mais. Apesar de faltar essa “nova descoberta”, ele troca com os atores e com as demais pessoas, mas abrindo-se realmente apenas no final – em um paralelo evidente entre esta história e a peça Tio Vânia.

O trabalho dos atores é um grande diferencial deste filme. Interessante, em especial, as cenas com a personagem da atriz muda Lee Yoon-a (Yoo-rim Park). Tocante a interpretação dela. Magnética, uma brisa em meio a diversos momentos áridos ou pouco expressivos do filme. Mas todos os atores fazem um bom trabalho nesta produção.

O roteiro é interessante por tudo que comentei antes. Mas, apesar de fazer uma homenagem interessante para a arte, o fazer artístico, especialmente o teatro, Doraibu Mai Kâ se revela um pouco longo demais para o meu gosto. Quase três horas de duração. Por um lado, o filme respeita os personagens, não acelera a ação e busca contar a história que se propõe de forma tranquila. Mas, por outro lado, ele poderia ser um pouco mais curto, talvez gastando um pouco menos de tempo com a reprodução das falas das peças de teatro que procuram ajudar os personagens e seus sentimentos. Mas, no geral, é uma bela produção.

Gostei da forma como ela homenageia o teatro, respeita a tradição do cinema japonês e mostra como a vida deve continuar apesar das perdas e das dores do caminho. Quando alguém se propõe a seguir adiante, pode ser surpreendido por encontros que não poderiam ser previstos.

Nestes encontros, o indivíduo pode conhecer outras pessoas que são, ao mesmo tempo, diferentes e parecidas com elas e que podem trazer novas visões sobre sentimentos e realidades que nem sempre tem explicações óbvias. Conhecer melhor o outro pode ser uma oportunidade também de autoconhecimento, como vemos bem neste filme. E para realmente seguir em frente, é preciso perdoar-se e querer se abrir para o novo.

NOTA

9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Essa produção foca bastante na história do protagonista, mas há personagens secundários com histórias interessantes e importância na narrativa. A motorista que acompanha o protagonista na segunda parte do filme é uma destas personagens. Outro que merece destaque é o personagem de Kôshi Takatsuki, interpretado por Masaki Okada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ele interpreta o jovem ator que acaba tendo um caso com Oto pouco antes dela morrer.

A relação deste ator com o veterano Yûsuke Kafuku é outro ponto de interesse no filme. Eles vivem uma relação um tanto estranha, de competição e de irmandade ao mesmo tempo. Eles tem a interpretação como um ponto em comum. Outro é Oto. Claramente Masaki tem interesse em saber mais sobre a mulher que partiu cedo demais. Para isso, se aproxima do viúvo dela. Por sua vez, Yûsuke também quer descobrir mais sobre o rapaz que roubou parte da relação que ele tinha com a mulher. O interesse é mútuo, ainda que eles sejam motivados por razões diferentes.

Outros personagens secundários importantes são Lee Yoon-a, interpretada por Yoo-rim Park; Janice Chang, interpretada por Sonia Yuan; ambas vivendo atrizes importantes do novo projeto do protagonista. Há também o dramaturgo, casado com a atriz muda, mas não consegui identificar o nome do intérprete ou do personagem.

Voltando para a relação entre o protagonista e o seu “rival”, essa é uma das relações interessantes da produção. No início, de fato, parece que eles estão competindo entre si – especialmente porque Yûsuke dá para Kôshi o papel que era dele. É como se ele desafiasse o ator mais jovem a superá-lo. Mas, depois, entendemos que um busca o outro para compreender melhor o que aconteceu e quem era, de fato, Oto, essa mulher que uniu os dois, que os atraiu, encantou e que parecia tão “indecifrável”, além de inspiradora. Interessante a dinâmica entre os dois personagens.

Pouco a pouco, por causa de Misaki, Yûsuke vai se abrindo ao novo, a conhecer lugares, a visão da garota sobre a vida. Ele começa a sair da própria bolha. Sempre que fazemos esse movimento, o que enxergamos e escutamos nos leva para outros lugares, amplia nossa visão e nos faz bem. Eis alguns outros ensinamentos de Doraibu Mai Kâ.

Essa produção conta com a direção e o roteiro de Ryûsuke Hamaguchi. Ele escreveu o roteiro, baseado no conto de Haruki Murakami, um dos principais e mais conhecidos escritores japoneses, ao lado de Takamasa Oe. Hamaguchi começou a carreira como diretor em 2003 com o curta Like Nothing Happened. Depois, em 2007, ele estreou nos longas com Solaris. Ele tem, no total, 16 filmes no currículo, sendo dois curtas, 10 longas (um deles em pós-produção) e quatro documentários.

Este é o primeiro filme que eu vejo do diretor. Hamaguchi já conta com 35 prêmios no currículo. O maior destaque na carreira do diretor até o momento é este Doraibu Mai Kâ. O filme recebeu, até o momento, 54 prêmios e foi indicado a outros 86, incluindo três indicações ao BAFTA (o “Oscar” do cinema britânico). O filme concorre nas seguintes categorias do BAFTA (que será entregue no dia 13 de março): Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, Melhor Diretor e Melhor Roteiro (Adaptado).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e Melhor Filme no Asia Pacific Screen Awards; Melhor Roteiro, Prêmio FIPRESCI e Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Cinema de Cannes; Melhor Filme em Língua Não-Inglesa no Globo de Ouro; Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Ator para Hidetoshi Nishijima dados pela National Society of Film Critics Awards; além de 23 prêmios de Melhor Filme Estrangeiro/Internacional dado por associações de críticos nos Estados Unidos. Impressionantes os números do filme até aqui.

Entre os atores desta produção, o destaque, sem dúvidas, vai para quem interpreta o protagonista. Hidetoshi Nishijima faz um trabalho impecável, bastante coerente com o personagem e sua trajetória, sem exagerar na interpretação em nenhum momento e mostrando muita firmeza em cada momento da caminhada de Yûsuke.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia de Hidetoshi Shinomiya, que valoriza muito bem cada cena e o trabalho dos atores, em belas sequências durante o dia e a noite; a trilha sonora que ajuda a contar essa história e que é assinada por Eiko Ishibashi; e o ótimo trabalho de edição de Azusa Yamazaki.

Vale citar, ainda, o design de produção de Hyeon-Seon Seo; a direção de arte de Kensaki Jo; a decoração de set de Mami Kagamoto; e os figurinos de Haruki Koketsu.

Interessante a metodologia de trabalho de Yûsuke Kafuku. Não apenas a forma como ele trabalha com os atores, mas o fato dele querer que cada ator fale no seu idioma de origem. Assim, quando alguém assiste a uma peça, algumas vezes vai precisar do apoio de uma tela com tradução, mas os atores estão falando no seu idioma, tornando a interpretação mais natural. Interessante.

Doraibu Mai Kâ estreou no Festival de Cinema de Cannes em julho de 2021. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 32 festivais e mostras em diversos países. O último deles foi o Festival de Cinema de Gotemburgo, uma das principais cidades da Suécia, em janeiro de 2022. Como comentei antes, nesta trajetória, o filme conquistou 54 prêmios.

Ainda que o filme seja inspirado no conto homônimo de Haruki Murakami, o diretor Ryûsuke Hamaguchi admitiu que se inspirou em outros dois contos do mesmo autor para escrever o roteiro desta produção: Scheherazade e Kino.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Doraibu Mai Kâ foi inicialmente planejado para ser ambientado em Busan, na Coreia do Sul, mas por causa da pandemia de Covid-19 eles acabaram mudando a história para Hiroshima.

Ryûsuke Hamaguchi e Takamasa Oe se tornaram os primeiros japoneses a ganhar o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Cannes.

Hamaguchi decidiu adaptar o texto de Murakami por duas razões: primeiro, porque os personagens passavam boa parte do tempo dentro de um carro; depois, porque a história explorava bastante a questão das atuações.

Para quem e interessou em saber um pouco mais sobre as duas obras que eu citei anteriormente, vale dar uma conferida nesta resenha sobre Esperando Godot do site Cooltural; e neste texto de Rodrigo Borborema sobre Tio Vânia no site Portal do Envelhecimento e Longeviver. Interessantes as reflexões de ambos.

Interessante, especialmente na leitura de Boroborema, sobre o paralelo que podemos fazer sobre o personagem principal do filme e o da peça de Tchékhov. Claro que nada é por acaso. Assim como não é por acaso Misaki ter a idade que a filha de Yûsuke teria se estivesse viva. Ele busca entender a garota, seu universo, os seus pontos de vista e os seus sentimentos como se ele também estivesse se aproximando da filha e/ou fazendo as pazes com o passado.

A exemplo de Tio Vânia, temos em Doraibu Mai Kâ um protagonista que vai sentindo o “peso da idade” e que parece desmotivado, até que, no final, ele ganha um novo ânimo e encontra o caminho para seguir em frente. Talvez um pouco mais em paz com o próprio passado. Que é a única maneira inteligente de viver o presente e de seguir.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 142 críticas positivas e apenas três negativas para esta produção, o que garante para Doraibu Mai Kâ o índice de aprovação de 98%.

O site Metacritic apresenta um “metascore” de 91 para esta produção, além do selo “Metacritic Must-see”. O nível de aprovação elevado do site é fruto de 39 críticas positivas para o filme. Um raro exemplo de unanimidade entre os críticos.

Segundo o site Box Office Mojo, Doraibu Mai Kâ fez pouco mais de US$ 3 milhões nas bilheterias mundo afora, sendo US$ 844 mil nos Estados Unidos e o restante em outros países – com destaque para a França, onde o filme fez US$ 1,4 milhão.

Algo temos que admitir. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Que Doraibu Mai Kâ termina bem, com um “final feliz” bem bacaninha. Primeiro, porque os personagens principais acabam, finalmente, entendendo o que precisavam entender, aceitando a si próprios, ao que aconteceu com eles e entendendo melhor quem eles viram partir. Depois porque eles fazem o que Yûsuke comenta com Misaki: eles continuam vivendo. Buscando seguir em frente, sem esquecer o passado ou os mortos. Fazendo as pazes consigo mesmos e com os demais. Bonito de se ver. E o final da peça… de arrepiar! Lindo, simplesmente lindo!

Doraibu Mai Kâ é uma produção 100% do Japão. E o filme escolhido pelo país para representá-lo no Oscar 2022, o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

CONCLUSÃO

Um filme muito interessante sobre o processo criativo de um ator e diretor de teatro, sua esposa e o ambiente que os cerca. Trata de arte, de casamento, de amor, de culpa, de perdão e de “otras cositas más”. Doraibu Mai Kâ é um filme interessante, muito delicado e profundo, que valoriza o trabalho dos atores e que tem um roteiro interessante. Ele respeita muito bem o legado do cinema japonês. Apenas achei a produção um pouco longa demais.

Ainda que essa duração maior tenha uma justificativa de ser, acho que o filme poderia ser um pouco mais “ligeiro” sem que, para isso, ele perdesse seus princípios. Além de tudo que comentei, Doraibu Mai Kâ trata de “seguir em frente”, de recomeços e de encontros interessantes para quem está disposto a se abrir às surpresas que a vida nos trás apesar das perdas e da dor. Uma bela produção desta temporada. Merece ser visto, especialmente se você quer se abrir a um tipo de cinema diferente do comercial e gosta ou deseja conhecer mais do cinema japonês.

PALPITES PARA O OSCAR 2022

Difícil ainda opinar sobre Doraibu Mai Kâ no prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda que eu ache que o filme tenha qualidades para avançar na disputa e que o cinema japonês tem maior tradição que outros países que fazem parte da “lista curta” (“short list” divulgada pela Academia), o que poderia levar o filme a ficar entre os cinco indicados como Melhor Filme Internacional neste ano, complicado ainda falar sobre este avanço sem ter “zerado” essa lista.

Dentre os filmes que eu assisti até agora, deixando a questão das “paixões” e preferências de lado, acho que os filmes com reais chances de avançar são o filme alemão Ich Bin Dein Mensch (comentado por aqui) e esta produção japonesa. Claro que eu gostaria de ver Lunana: A Yak in the Classroom (com crítica neste link) avançando, mas a falta de tradição do cinema feito no Butão certamente vai prejudicar o filme dirigido por Pawo Choyning Dorji.

Um filme que eu não acho tão incrível quanto outras pessoas acham pode surpreender e avançar. Falo do islandês Lamb (comentado por aqui). Mas, se fosse apostar em alguém neste momento, apostaria primeiro no filme alemão e, em segundo lugar, nesta produção japonesa. Correm por fora, portanto, Lunana, o belga Un Monde (com crítica neste link) e o italiano È Stata La Mano di Dio (comentado por aqui).

Olhando apenas pela premiação recebido por esta produção, podemos considerar esse filme como um concorrente certeiro no Oscar e como o favorito deste ano – até aqui, pelo menos. Claro que quem vota no Oscar não é o mesmo público que vota nas premiações de círculos e associações que reúnem os críticos de cinema nos diferentes Estados americanos. Ainda assim, certamente este é um forte concorrente neste ano. Mas eu preciso avançar ainda nos “pré-indicados” para poder dar palpites mais certeiros. Aguardem e confiem. 😉

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

5 respostas em “Doraibu Mai Kâ – Drive My Car”

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