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The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

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Una Mujer Fantástica – A Fantastic Woman – Uma Mulher Fantástica

Algumas vidas são muito mais difíceis do que o normal. E muito mais difíceis do que deveriam. E isso simplesmente pelo fato das pessoas não aceitarem o que é diferente a elas. Por que, afinal, tantas pessoas se importam com o que as outras fazem entre quatro paredes? Por que tantos querem dizer como os outros devem ser ou fazer? Una Mujer Fantastica é um filme muito contemporâneo e bastante contundente. Ele lembra o Pedro Almodòvar em sua melhor fase. Mas com mais suavidade, até. Um dos melhores filmes dessa temporada do Oscar 2018.

A HISTÓRIA: As cataratas, esplendorosas, aparecem em tela cheia. Diversos ângulos das quedas d’água que são uma das 7 Maravilhas do Mundo. Sobre umas almofadas, Orlando (Francisco Reyes) curte a sua sauna. Depois, ele recebe uma massagem relaxante. Em seguida, ele said a sauna Finlandia e caminha pelas ruas, até chegar ao escritório da empresa. Ele chama a secretária e pergunta se ela viu um envelope grande que ele tinha deixado sobre a mesa. Ela diz que não. Depois, ele procura em todas as partes do carro, e nada.

Mais tarde, em um hotel, ele pede um papel e um envelope. Em seguida, ele sobe até o andar em que Marina (Daniela Vega) está cantando. Ela vê quando Orlando chega e os dois se olham. Essa é uma noite especial. É o aniversário de Marina. Os dois jantam juntos, e aí ele dá de presente o envelope com a promessa de uma viagem às Cataratas – a viagem que ele tinha comprado ele perdeu. Eles são um casal, bastante feliz, mas logo essa alegria vai terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Una Mujer Fantastica): Fiquei surpresa positivamente com essa produção. Como é de praxe, não li nada sobre o filme antes de assisti-lo, por isso eu não sabia o que esperar do roteiro ou do desenvolvimento da história. Gostei muito do que eu vi. Especialmente por esse filme não ter nenhuma pirotecnia e nem por tratar de uma história “absurda” ou exagerada.

Na verdade, Una Mujer Fantástica é um filme no estilo “a vida como ela é”. Pois sim. E essa é uma das maiores qualidades dessa produção. Se formos olhar para o que vemos em cena, tudo que o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu esse roteiro junto com Gonzalo Maza – nos conta, é muito, muito plausível. Na verdade, assustadoramente plausível.

Nós partimos de um dia “comum” para o protagonista Orlando, um homem de meia idade que é senhor de si e responsável pelas suas ações, e terminamos nos desdobramentos do que pode acontecer com uma pessoa após ela passar por um problema de saúde bastante comum. (SPOILER – não leia a partir de aqui se você ainda não assistiu a esse filme). Então partimos desse “dia comum” do sujeito, que namora e vive com uma transsexual, para o momento de sua morte e toda a dor e luta de “su pareja”, Marina Vidal, para conseguir se despedir dele e ter o mínimo de respeito em sua fase de luto.

Una Mujer Fantástica é muito bem escrito e tem um desenvolvimento espetacular. Porque a câmera de Lelio, que permanentemente está próxima da protagonista desta história, aproxima também cada espectador de sua história, de todo o preconceito que ela sofre e, o que é mais tocante, de toda a sua dor. Como comentei antes, pela força narrativa dessa produção e pelo cuidado no desenvolvimento dos personagens centrais da história, essa produção me fez lembrar a melhor fase de Pedro Almodòvar. E isso não é pouco.

Ao assistir a essa produção, a verdade é que eu tive uma grande curiosidade para conhecer mais do trabalho de Sebastián Lelio. Acredito que o diretor, que em março completará 44 anos de idade, ganha uma outra projeção e respeito em Hollywood e no circuito mundial de cinema com esse Una Mujer Fantástica. Olhando para a trajetória do diretor, vi que ele dirigiu seis curtas antes de lançar o seu primeiro longa, La Sagrada Familia, em 2005.

Além desse filme, ele tem outros cinco longas no currículo. O único filme que eu assisti, dessa lista, foi Gloria (comentado aqui). Nesse ano, ele vai fazer a versão americana de Gloria, com Julianne Moore, Sean Astin, Michael Cera, Jeanne Tripplehorn, Holland Taylor, entre outros, no elenco. Gloria é um belo filme, mas acho que gostei mais de Una Mujer Fantástica. De qualquer forma, esse diretor tem um estilo interessante e marcante, e acho que vale seguirmos a sua trajetória.

Mas voltando para a história de Una Mujer Fantástica. O filme conta o que acontece na vida da transgênero Marina Vidal desde que o seu companheiro morre e até pouco depois do funeral e da cremação dele. Esse parece ser um período curto de tempo, mas tudo que a protagonista dessa história passa, nesse período, poderia resumir boa parte da sua vida desde que ela se descobriu Marina. Impressionante como temos todo o preconceito da sociedade destrinchado nessa produção.

Porque não é apenas a ex-mulher do falecido, Sonia (Aline Küppenheim) que tem uma postura de não “admitir” a existência de Marina e a sua relação com Orlando. A polícia age de forma estranha e preconceituosa com Marina, assim como o médico que atende Orlando, o filho do falecido, Bruno (Nicolás Saavedra) e, aparentemente, todas as pessoas que foram próximas de Orlando. Mas afinal de contas, por que é tão difícil para as pessoas aceitarem uma transgênero? Em essência, me parece, as pessoas tem uma grande dificuldade de aceitarem aquilo que é diferente a elas.

Mas, afinal de contas, quais as razões para isso? No fundo, todos somos diferentes e, ao mesmo tempo, mais similares do que pode parecer na superfície. Todos somos feitos de pele, carne, ossos, órgãos internos e sangue. Todos nascemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos vivemos grandes alegrias, sorrimos, choramos e vivenciamos grande tristeza, frustrações, decepções, temos que encarar desafios e vencer barreiras. Então por que, afinal de contas, não podemos ser um pouco mais solidários? Por que nem sempre conseguimos olhar para o outro como um ser humano com qualidades e defeitos como nós mesmos somos?

Acho que essa é a grande forma deste Una Mujer Fantástica. O filme coloca em evidência uma transgênero, uma pessoa tão marginalizada pela sociedade e que, provavelmente, não faz parte do convívio da maioria da audiência. E ao dar evidência para a sua vida, os seus gostos, o seu caráter e os seus sentimentos, Lelio desmistifica essa pessoa e a torna extremamente próxima do espectador. Que bom. Assim, ele nos faz um grande favor. Quem sabe, com esse filme, alguns preconceitos não caiam por terra? Quem sabe mais pessoas não consigam entender melhor o que é diferente a elas e aceitar essa diferença, abraçá-la sem medo, ter mais compaixão?

Outro ponto que me chamou muito a atenção nesse filme é como ele trata o preconceito das pessoas. Por que, afinal de contas, Sonia e Bruno tem tanta dificuldade de aceitar a “opção” que Orlando fez em sua vida? Ok, até entendo o “recalque” e a falta de aceitação de Sonia, que foi traída por Orlando. Mas se ela deveria ter “raiva” de alguém, deveria ser dele, não é mesmo? Porque foi ele que traiu a confiança dela. Marina não tinha nada a ver com isso. Pessoas adultas fazem as suas escolhas, e os demais deveriam ter a capacidade de respeitar essas decisões, não?

Bruno, por sua parte, me parece que reflete toda a cultura machista do Chile, do Brasil e de tantos outros países latinos. Para ele, só faz sentido um homem se interessar por uma mulher. Então ele não entende Marina, não consegue perceber que ela se vê como mulher – e é uma mulher. No fundo, ele é inseguro, um sujeito perdido e que não tem o mínimo respeito pelo que ele não entende. Faz o estilo “boçal” – como tantos que vemos cada vez mais proliferando-se por aí.

Mas o interessante é que ambos, tanto Sonia quanto Bruno, representam muito bem a maioria da sociedade. Sonia está muito preocupada com as aparências, com o que os “outros vão dizer”. Essa é a grande preocupação dela em relação aos “trâmites” finais envolvendo Orlando. Ela não mantinha uma boa relação com o ex, mas ela tinha que colocar uma bela nota de despedida no jornal e encenar um velório e uma despedida do ex-marido dentro “da normalidade” – e, para isso, seria “inconcebível” a presença de Marina.

O circo de Sonia e Bruno, assim, mostra o que as nossas sociedades tanto parecem prezar: as aparência. Não importa se eles, no fundo, não tinham uma relação próxima com Orlando. Não importa se a única pessoa que realmente deveria estar lá está proibida de ir. O que importa mesmo é que tudo seja feito dentro da política da “moralidade e dos bons costumes”. Mas do que adianta tanta mentira? No fim das contas, as pessoas estão mentindo para quem? Nessa busca desgastante pelas aparências, pessoas como Marina são sacrificadas e sofrem sem um pingo de remorso dos preconceituosos.

Por tudo isso, a história de Una Mujer Fantástica é marcante, envolvente e com um propósito muito bacana. Lelio evidencia a história de uma pessoa sobre a qual quase ninguém quer falar. Mas, como eu disse antes, uma pessoa como eu e você, com a sua luta, os seus desejos e sentimentos. Que deveria merecer, portanto, o mesmo respeito e consideração que qualquer outra pessoa. Lelio, aliás, explora muito bem as características de Marina, e faz doer em todos nós como ela tem um nível de dificuldade na vida que não deveria ter. Por esse aspecto, impossível não ficar mexida(o) com esse filme.

Todos os atores em cena estão muito bem, mas é de arrepiar o trabalho de Daniela Vega nessa produção. Ela tem um trabalho muito, muito marcante. Sem a entrega dela, esse filme não seria metade do que é. Se o Oscar fosse mais justo com as indicações de astros e estrelas, colocando o trabalho de todos no mesmo patamar, independente se eles trabalham ou não em Hollywood, certamente Daniela Vega teria conquistado uma indicação como Melhor Atriz. Ela merecia, sem dúvida – está muito melhor, a meu ver, para dar um exemplo, que Saoirse Ronan em Lady Bird (com crítica por aqui).

Mas, para não dizer que o filme é perfeito, teve dois pontos que me “incomodaram” um pouco nessa produção – porque eu acho que eles não fazem toooodo aquele sentido que deveriam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a verdadeira razão da policial Adriana (Amparo Noguera) insistir tanto para um exame de corpo de delito em Marina. Inicialmente, ela diz que é para ver se ela tinha sofrido algum abuso e/ou agressão. Mas o que isso realmente indicaria sobre Orlando ter morrido de causa natural ou de sua morte ter sido provocada?

Francamente, não me pareceu totalmente lógico aquele argumento. Então a real justificativa de Adriana seria de expor Marina, de matar a sua própria curiosidade sobre como seria o corpo da transsexual? Novamente, um tanto exagerado, não? A outra parte que me pareceu um tanto sem sentido e/ou lógica foi a forma com que Marina sai, perto do final, para correr com Diabla. Ela fez tanto para ter a cadela de volta e, do nada, após tantas recusas de Bruno, como Diabla acabou parando com Marina?

Uma explicação possível para isso é que Bruno manteve Diabla como “refém” como forma de pressionar Marina a não ir no velório de Orlando e que, passada aquela situação, ele resolveu devolver a cadela para a dona. Mas, então, se foi isso que aconteceu, não teria sido melhor Lelio apresentar essa cena? Apenas para essa parte não ficar um tanto sem sentido no filme? Esses são apenas pequenos detalhes que me pareceram um tanto falhos em um filme bem acima da média. Espero que Una Mujer Fantástica seja cada vez mais visto e que mais pessoas aprendam a ver ao outro, não importa o que ele faça entre quatro paredes e como ele enxergue a sua própria identidade, como um igual que merece respeito, consideração e empatia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu disse antes e volto a repetir: o grande nome desse filme é o de Daniela Vega. Que interpretação, meus amigos! Para mim, uma das melhores dessa temporada do Oscar. Pena que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não teve a coragem de indicá-la como Melhor Atriz. Ela merecia. Una Mujer Fantástica é o que é por causa dela. Trabalho impecável, e muito bem capturado por Sebastián Lelio que, aliás, revela-se também, mais uma vez, um belo diretor e roteirista. Ambos merecem ser acompanhados.

Algo que esse filme tem de qualidade – e todo grande filme precisa disso – é, aliás, o seu elenco. Todos que vemos em cena estão muito bem. Francisco Reyes está perfeito como Orlando – apesar dele “sumir” logo da trama, ele volta a aparecer depois em alguns momentos pontuais. Ele é muito bom sempre. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Luis Gnecco como Gabo, o único que se relaciona com Marina de uma forma um pouco mais humana; Aline Küppenheim como Sonia; Nicolás Saavedra como Bruno – figura que, não sei vocês, mas eu tive vontade de bater (e olha que eu sou anti-violência); Amparo Noguera como Adriana, policial que faz Marina passar por um grande constrangimento; Trinidad González como Wanda, irmã de Marina; Néstor Cantillana como Gastón, marido de Wanda; Alejandro Goic como o médico que atende Orlando no hospital; Antonia Zegers como Alessandra, chefe de Marina em um restaurante; e Sergio Hernández ótimo como o professor de canto da protagonista. Todos estão muito bem.

Muito interessante aquele detalhe da “chave misteriosa” de Orlando. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, ela alimentava os sonhos de Marina de encontrar algum “presente” de Orlando para ela. Um presente não planejado, é claro. Mas quem sabe algo dele que poderá compensar um pouco toda aquela ausência e dor provocada pela morte dele… Então, sem querer, ao atender a um cliente no restaurante, ela descobre que aquela chave é da sauna que ele frequentava. E quando ela finalmente chega no armário – após uma sequência interessante de “suspense” muito bem conduzida por Lelio -, o que ela encontra? Nada. E aquele vazio simboliza o que de fato Orlando deixou para ela. Nada além das lembranças.

Dos aspectos técnicos do filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora bastante pontual e interessante de Nani García e de Matthew Herbert; a direção de fotografia de Benjamín Echazarreta e os figurinos de Muriel Parra. Esses aspectos realmente “saltam aos olhos”. Além deles, vale citar o bom trabalho de Soledad Salfate na edição e de Estefania Larrain no design de produção.

Una Mujer Fantástica estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais em diferentes países mundo afora. Nessa trajetória, o filme recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 28 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Menção Especial no Prêmio do Júri Ecumênico do Festival Internacional de Berlim; para o Urso de Prata como Melhor Roteiro e para o Teddy de Melhor Filme, ambos dados também no festival de Berlim; para o Goya de Melhor Filme Iberoamericano; para o Prêmio Especial do Júri como Melhor Filme no Festival de Cinema de Havana; para o prêmio de Melhor Filme Latinoamericano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; para o Prêmio Fipresci de Melhor Atriz para Daniela Vega e a Menção Especial – Prêmio Cinema Latino para Sebastián Lelio no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, Una Mujer Fantástica fez US$ 111,3 mil nas bilheterias. Um resultado insignificante. Uma pena. Realmente os americanos não tem o costume e/ou interesse de ver ao cinema que é feito fora do seu país. Uma lástima, porque o cinema mundial tem ótimos realizadores, como este e tantos outros filmes nos demonstram a cada dia.

Em determinado momento, Sonia diz para Marina que ela tem dificuldade de “classificá-la”, mas que se ela fosse fazer, isso, talvez a chamaria de “quimera”. Para quem ficou curioso(a) para saber sobre uma quimera, sugiro esse texto do site Mitologia Grega BR que fala sobre esses seres conhecidos da mitologia grega.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 83 textos positivos e oito negativos para Una Mujer Fantástica, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média 8. Especialmente a nota do segundo site chama a atenção – está acima da média.

Una Mujer Fantástica é uma coprodução do Chile, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A vida é bela, mas pode ser também uma pedreira. O importante é que você não perca a perspectiva, mesmo quando lhe tirem o oxigênio. Mesmo quando lhe impeçam de falar, ou de ser. Porque tudo passa. O que é bom, e o que é ruim. Una Mujer Fantástica nos conta uma história bastante realista de uma forma muito competente e envolvente. Um grande trabalho de direção e de roteiro de Sebastián Lelio, e uma interpretação impecável de Daniela Vega.

Um filme que, como eu comentei antes, nos faz recordar do espanhol Almodòvar em sua melhor fase. Uma das grandes produções dessa safra do Oscar, e um filme que mereceu ser apontado como um dos favoritos da disputa de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apenas assista, e sem pré-conceitos. Espero que essa produção rompa algumas barreiras e faça as pessoas aceitarem mais as outras como elas são. Assim de simples (e quem dera que, realmente, na prática, fosse simples como realmente é).

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Antes das indicações ao Oscar saírem, havia um grande favorito para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira: In the Fade, do diretor Fatih Akin. Aí que, quando saíram as indicações ao Oscar 2018 e o filme de Akin ficou de fora, o favoritismo nessa categoria também foi perdido. Sim, há três filmes fortes no páreo, mas um favorito favorito, não existe.

Nas apostas relacionadas ao Oscar, Una Mujer Fantástica está liderando, e com uma bela vantagem sobre os demais. Em segundo lugar, segundo os apostadores, aparece The Square; e em terceiro, Loveless. Eu ainda não assisti a The Square – mas posso adiantar que ele será o próximo filme que eu vou comentar por aqui -, mas entre os outros filmes que concorrem nessa categoria em 2018, sem dúvida alguma eu prefiro o filme de Sebastián Lelio.

Com isso, não quero dizer que Loveless (com crítica nesse link) ou On Body and Soul (comentado por aqui) não sejam bons. Na verdade, os três filmes tem um belo “punch”, uma bela pegada. Todos são fortes e tratam de temas importantes. Todos são capazes de despertar um belo debate e de fazer pensar. Mas entre os três, prefiro Una Mujer Fantástica. Inicialmente, estarei na torcida por ele. Mas, para realmente bater o martelo nessa categoria, eu ainda preciso assistir a The Square e a The Insult.

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Atomic Blonde – Atômica

Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Yeelen – Brightness – A Luz

Existe uma diversidade impressionante de culturas, modos de agir e de ser no mundo. Pena que nem sempre as pessoas pensem sobre isso. Yeelen é um destes filmes que nos apresenta uma destas formas de ser e de agir diferentes das nossas. Nos apresenta uma cultura que é “estranha” mas que, não por causa disso, é menos valiosa que a nossa ou que qualquer outra. Ver a um filme como este nos faz lembrar de que existem muitas formas de pensar e de agir diferentes da nossa. E isso é o que faz a Humanidade ser tão interessante.

A HISTÓRIA: Começa com símbolos que explicam que o calor faz o fogo e os dois mundos (terra e céu) existem na luz. Em seguida, a introdução da história fala sobre o Komo, que para o povo bambara quer dizer a encarnação do saber divino. Os ensinamentos do Komo estão baseados no conhecimento dos “signos” (letras/sinais), dos tempos e dos mundos. Este conhecimento abrange os campos da vida e do saber.

O Koré é a sétima e a última sociedade de iniciação bambara, e ela é simbolizada pelo abutre sagrado “Mawla Duga”, ave de espaços abertos na casa, da guerra, do saber e da morte. Seu emblema é um cavalo de madeira, símbolo da diligência do espírito humano, e seu cetro é uma tábua lavrada chamada Koré “Kaman” ou a Asa do Koré. O “Kolonkalanni” ou martelo mágico serve para encontrar quem se perdeu, para descobrir e castigar os patifes, os ladrões, os criminosos, os traidores e os mentirosos. A Asa do Koré e o martelo mágico são usados em Mali há milhares de anos. O que vamos ver na sequência é o uso destes elementos da cultura bambara em uma história de perseguição e confronto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Yeelen): Este filme começa dando o recado logo na cena inaugural. Depois daquela explicação sobre a cultura e o modo de viver dos bambara, somos apresentados a um sol gigante, no alvorecer de um novo dia, e a um frango em chamas. Pois sim. O sacrifício é um elemento que aparece em diversos momentos desta produção.

Yeelen nos fala de luz – esse nome significa justamente isso, “a luz” -, mas o filme está carregado de sombras, de magia e de morte. Os sacrifícios são uma constante, assim como perpassa toda a história uma certa luta entre o bem e o mal. Para muitos também assistir a Yeelen pode ser um sacrifício – e eu não os culpo. Este é um dos filmes mais distantes de tudo o que a maioria está acostumada a assistir.

Não temos o ritmo ou a preocupação estética de Hollywood. Nem temos uma grande preocupação com a história ou com o desenvolvimento dos personagens como boa parte do cinema europeu. Nada disso. Vemos pela frente sim uma história, com começo, meio e fim. Mas essa história é contada bem ao gosto da cultura que ela foca. Ou seja, sem pressa, com uma dinâmica fragmentada e o máximo possível “legítima”, com pessoas interpretando personagens sem ter realmente estudado para isso.

Este tom um tanto documental da produção que tem direção e roteiro de Souleymane Cissé é um dos pontos fortes da produção. Afinal, quantas oportunidades você teve de assistir a um filme de Mali? Que não só fosse ambientado naquele país africano, mas que jogasse para o mundo um pouco da história e dos costumes de um dos povos que formou aquele continente tão esquecido pelo mundo? Este é o grande mérito deste filme.

Yeelen pode ser um tanto difícil de assistir. Pode cobrar de você mais de uma tentativa – como foi o meu caso… tive que assistir o filme em dois dias porque no primeiro estava cansada demais para acompanhar a narrativa um tanto “lenta” e “repetitiva” desta produção. Mas é bacana ver que um cineasta conseguiu apresentar para o mundo uma história legítima de um povo que nunca ganha voz ou vez no cinema. Apenas por causa disso este filme merece ser visto.

Agora, descontada esta parte de interesse um tanto antropológico e sociológico, algo que todas as pessoas deveriam buscar um pouco ao menos em algum momento da vida, vamos falar sobre a história apresentada pelo filme. Pode parecer loucura da minha parte, mas vi um bocado de Shakespeare nesta produção. Alguém poderia dizer que não existe nada mais distante do que a obra do bardo inglês e os costumes bambara, mas eu vi semelhanças.

Me explico. Para começar, vendo o sacrifício do galo, queimado vivo, e tantas outras cenas de pura magia nesta produção, me lembrei daquela frase de Shakespeare de que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Ou seja, por mais “toscas” que algumas cenas desta produção possam parecer – como quando Niankoro (Issiaka Kane) “congela” o ataque dos inimigos -, não devemos duvidar de quase nada. Afinal, sim, existe a magia. E existem pessoas que conseguem fazer coisas incríveis. Então não devemos duvidar apesar de parecer absurdo.

Além disso, também é clássica a disputa entre pai e filho. Isso me lembra Shakespeare na mesma medida que me lembra um pouco o Complexo de Édipo… ainda que a mãe de Niankoro não jogue um papel fundamental durante a produção inteira, ela está presente, sem dúvida, na disputa do pai, Soma (Niamanto Sanogo) contra o protagonista desta produção.

A justificativa de Soma para perseguir o filho é que ele “traiu” as tradições ao fugir – na verdade ele foi levado pela mãe – com parte dos objetos sagrados que permitiam que eles pudessem fazer a magia, ter poder e “proteger” o seu povo. Mah (Soumba Traore), por sua vez, justifica ter levado o filho para longe porque o pai dele seria um homem cruel e abusivo. Ela teria feito isso, em resumo, para proteger o filho. O garoto cresce longe do pai, mas chega um dia em que Soma resolve procurá-los.

Yeelen nos conta a história a partir daí. Da perseguição de Soma e da tentativa de Mah e de Niankoro a sobreviverem à vingança dele. Mah vai para um lado, buscando um rio sagrado para se purificar e para pedir pela vida do filho. Niankoro, por outra parte, anda sozinho por muito tempo até que encontra com a tribo de Rouma Boll, o rei Peul (o interessante e expressivo Balla Moussa Keita). Para se livrar de um ataque, Niankoro usa a magia. Vendo o poder do jovem prisioneiro, Rouma Boll resolve pedir a ajuda dele para enfrentar uma tribo inimiga.

A intervenção de Niankoro acaba sendo decisiva, e o rei Rouma Boll convida o forte aliado a permanecer por ali. Niankoro diz que precisa ir embora, mas resolve aceitar um último pedido do rei. Ele é convocado para ajudar a mais jovem esposa de Rouma Boll, Attou (Aoua Sangare) a engravidar. Aparentemente ela é estéril. Niankoro sai com Attou para tentar ajudar o rei, mas acaba se encantando pela garota. Os dois traem o rei, mas falam a verdade e, ao invés de serem mortos, são expulsos do local.

Desta forma, a história de Niankoro se encaminha para que a profecia do “homem-leopardo-com-cabeça-de-macaco” se cumpra. Realmente Niankoro terá uma vida feliz – ainda que curta – e vai terminar sua trajetória de forma iluminada. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Ele tem tempo de fugir com Attou por um período e engravida ela, mas não escapa – e nem deseja isso – do confronto com o pai. Diferente do que Mah previa, Niankoro consegue, com a ajuda do tio que era gêmeo de Soma, enfrentar o pai de igual para igual.

Os dois acabam morrendo, mas Niankoro deixa um filho como herdeiro. O garoto vai crescer sem ser perseguido, um futuro melhor do que o pai teve. E, desta forma, esta produção sobre uma cultura tão diferente nos mostra que disputas familiares sempre existiram e parecem se renovar com o tempo independente da latitude.

Sobre a história, achei interessante a forma com que Yeelen nos apresenta a trajetória de um homem que procura o seu próprio destino e que o aceita com bastante tranquilidade. Ele sabe o que precisa fazer e sabe que, mesmo que sem desejar o confronto, terá que enfrentar o próprio pai para terminar com aquela sequência de maldades e garantir a paz para o seu filho e mulher. Ele não vive muito tempo junto com a esposa e não chega a conhecer o filho, mas sabe o que virá após a sua partida e isso lhe traz paz antes da morte. Apesar do formato da história ser muito diferente do que estamos acostumados, a mensagem que o filme deixa é interessante.

A morte faz parte da vida, assim como as disputas e os confrontos, Mas é preciso aceitar o nosso destino e abraçá-lo quando ele faça sentido – que o diga Game os Thrones. 😉 O personagem central desta história nos mostra isso. E o filme, de quebra, revela que sempre após a morte surge uma nova vida. O sol sempre desaparece, no final de cada dia, dando lugar para a escuridão e para o “desalento”, mas no dia seguinte o sol surge novamente, trazendo ânimo para as pessoas e vida.

Achei os atores, ainda que inexperientes, muito bons. Cissé soube valorizar a beleza que ele tinha nas mãos, especialmente dos atores principais, na mesma medida em que soube valorizar em detalhes a forma de ser e agir daquelas tribos. Este é um filme diferente, que dá um tanto de sono, mas que merece ser visto por ser um raro exemplo de filme africano legítimo. A história pode ser um tanto fraca, mas a narrativa é bem construída – descontadas algumas repetições um tanto cansativas. Vale mais pelo interesse sociológico, sem dúvida.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não lembro quantos filmes africanos eu assisti na vida. Mas foram poucos, muito poucos, não tenho dúvidas. A África é, infelizmente, um continente um bocado esquecido pelo mundo. Digo isso em geral. Em relação ao cinema africano, então, muito mais. Por isso mesmo é bacana pensar que um filme como este tornou-se importante há 30 anos atrás, em 1987. Um importante documento, sem dúvidas, de uma cultura pouco conhecida e bastante ignorada.

Como eu descobri este filme? Ora, como tantas outras produções históricas e pouco comentadas e que volta e meia viram foco de críticas aqui no blog. A recomendação de Yeelen veio através do livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Como vocês que me acompanham há mais tempo sabem, este livro serve de base para a seção “Um Olhar Para Trás” que eu criei aqui no blog para falar de filmes que estão fazendo aniversário e que fazem parte da história do cinema mundial.

Como foi o livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” que me indicou este filme, vale citar a crítica de Jonathan Rosenbaum que faz parte da obra: “A Luz, uma bela e hipnótica fantasia do diretor Souleymane Cissé, transcorre na antiga cultura Bambara de Mali, muito antes que fosse invadido pelo Marrocos no século XVI. Um jovem chamado Niankoro (Issiaka Kane) parte com o objetivo de descobrir os mistérios da natureza – ou komo, a ciência dos deuses – com a ajuda de sua mãe (Soumba Traore) e do tio (Ismaila Sarr). Mas Soma (Niamanto Sanogo), o pai ciumento de Niankoro, prepara uma trama para impedi-lo de decifrar os elementos dos rituais sagrados dos Bambara e tenta matá-lo”.

E a crítica de Rosenbaum segue assim: “Além de criar um universo denso e excitante que deveria deixar George Lucas verde de inveja, Cissé filma suas imagens impressionantes em Fujicolor e acompanha a sua história com uma trilha esparsa, hipnótica e percussiva. Misturando habilmente coisas triviais com profundos mistérios, esta obra formidável ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 1987. Como um todo, A Luz é uma apresentação ideal a um diretor que, junto com Ousmane Sembène, é um dos melhores da África”.

A direção de Souleymane Cissé é, sem dúvida, o ponto alto desta produção. Os atores que têm destaque na história também estão muito bem. Eles são expressivos e apresentam um trabalho convincente. Além disso, como bem destacou Rosenbaum, a trilha sonora bastante pontual de Salif Keita e de Michel Portal também é um elemento importante da produção. Finalizando os destaques técnicos, vale citar a ótima direção de fotografia de Jean-Nöel Ferragut e de Jean-Michel Humeau.

Além desta equipe, vale comentar o trabalho de edição de Douanmba Coulibaly, Andrée Davanture, Jenny Frenck, Nathalie Goepfert, Seipati Keita, Marie-Catherine Miqueau e Seipati N’Xumalo; o design de produção e os figurinos de Kossa Mody Keita; os efeitos visuais de Philippe Tourret; e os efeitos especiais de Frédéric Duru e de Nikos Meletopoulos.

O diretor e roteirista Souleymane Cissé tem, hoje, 77 anos e um currículo com nove longas. Ele estreou na direção com Cinq Jours d’Une Vie em 1973. Os últimos dois filmes dele, O Sembene! e O Ka, de 2013 e 2015, respectivamente, foram os seus únicos documentários. Todos os outros foram longas de ficção.

Yeelen estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 1987. Depois, até 2016, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Em sua trajetória, esta produção conquistou cinco prêmios e foi indicada a outros dois. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Júri e para o Prêmio do Júri Ecumênico – Menção Especial no Festival de Cinema de Cannes; e para o Sutherland Trophy no Prêmio do Instituto de Cinema Britânico.

Esta produção foi totalmente rodada em Mali, país africano que não tem saída para o mar e que é vizinho da Argélia, da Nigéria, da Mauritânia e de Guiné, entre outros. Fica a noroeste do continente africano e tem, segundo Banco Mundial, cerca de 18 milhões de habitantes. A capital do país é Bamako, e a língua oficial, hoje em dia, é o francês. Yeelen foi rodado em cidades como Dilly, Dra, Drani, Falani, Hambori, Mopti, Moutoungouta e Sangha.

O destaque desta produção em termos de interpretação, para o meu gosto, são os atores Issiaka Kane, Balla Moussa Keita e Soumba Traore – que interpretam, respectivamente, Niankoro, o rei Peul e a mãe de Niankoro. Também se saem bem Niamanto Sanogo como Soma, pai de Niankoro, e que interpreta também o tio do protagonista, Djigui. Vale citar também o trabalho de Aoua Sangare como Attou, que vira mulher de Niankoro; Youssouf Tenin Cissé como o filho deles; Ismaila Sarr como o outro tio do protagonista, Bofing; e Koke Sangare como o chefe Komo. Há outros personagens com certa relevância na história mas que não têm os seus personagens identificados nos créditos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas positivas e apenas uma negativa para o filme, o que garante para Yeelen a aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Este filme é uma coprodução de Mali, Burkina Faso, França, Alemanha Ocidental e do Japão. Cinco países contribuíram para Yeelen existir. Há tempos eu não via recursos de tantos países contribuírem para uma produção sair do papel.

CONCLUSÃO: Um filme com narrativa lenta e protagonizado por pessoas que não são atores profissionais. Yeelen respeita, desta forma, a história que está contando. Não faria nenhum sentido se este filme seguisse o “mainstream” de Hollywood ou de outras escolas de cinema. Não. O que faz sentido é que ele realmente beba na fonte da cultura que está retratando. Desta forma, Yeelen se apresenta como uma grata surpresa entre os filmes que saíram das escolas tradicionais de cinema e que nos mostraram com competência culturas desprezadas pelo cinema. Vale tanto como uma obra de cinema diferenciada quanto por apresentar uma cultura ignorada e que não teria sobrevida no tempo se não fosse por este filme.

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Frantz

Os efeitos da guerra são devastadores. Individualmente e para o coletivo de pessoas que vivem nos países que entraram em conflito. Frantz nos mostra isso com muita propriedade, precisão e sensibilidade. Com uma fotografia belíssima, uma direção atenta aos detalhes e um par de atores muito bons, esta produção nos remete para uma época em que diversas pessoas tiveram que se reinventar para encontrar, em alguma parte, as razões para seguir vivendo após sofrerem perdas irreparáveis.

A HISTÓRIA: Em 1919, na cidade alemã de Quedlinburg, Anna (Paula Beer) caminha pelas ruas até comprar na feira local algumas flores brancas. As crianças correm e brincam enquanto os adultos cuidam de seus afazeres. No caminho para o cemitério, Anna para em frente a uma loja e vê um dos novos vestidos. Quando chega no túmulo de Frantz (Anton von Lucke), ela nota que ali foram deixadas algumas rosas brancas.

Ela pergunta para o administrador do cemitério sobre quem deixou aquelas flores, e ele diz que um “estrangeiro”. Ela pergunta quem, e ele mostra para ela uma moeda francesa. Quando retorna para a casa do noivo morto na guerra, a mãe dele, Magda (Marie Gruber), comenta que o francês que deixou as flores deve ser algum amigo de Frantz da época anterior à guerra. O estrangeiro em breve vai fazer contato com os Hoffmeister e mudar a rotina deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frantz): O primeiro destaque deste filme quando começamos a assisti-lo é a direção de fotografia de Pascal Marti. Muitas cenas que vemos em preto e branco são verdadeiras obras de arte. Frantz tem em seu visual realmente um grande diferencial. Mas todos nós sabemos que não basta uma bela direção de fotografia ou, em outro tipo de filme, impecáveis efeitos especiais ou visuais para termos um filme acima da média.

Verdade que a beleza de Frantz é o seu ponto forte. Mas o roteiro, apesar de um tanto “novelesco”, não deixa a desejar. Novamente percebemos um trabalho de grande sutileza e sensibilidade. O mérito é do diretor François Ozon, que escreveu o roteiro ao lado de Philippe Piazzo – os dois se inspiraram no roteiro do filme Broken Lullaby que, por sua vez, teve roteiro de Ernst Lubitsch, Reginald Berkeley, Samson Raphaelson e Ernest Vajda, e inspirado na peça de Maurice Rostand.

Não assisti ao filme original do diretor Ernst Lubitsch, que foi lançado em 1932, mas ao ver as fotos da produção, me parece que Frantz segue com bastante fidelidade a história daquela produção. A essência da história de Frantz é sobre as diferentes posturas dos homens – e podemos dizer que da humanidade – frente a um conflito que pode significar a morte de um semelhante.

Enquanto o protagonista desta história faz parte do grupo de homens que matam para se “defender” – ou simplesmente porque este ato faz “parte do jogo” de uma guerra e é o comportamento esperado em uma situação como aquela -, o personagem “ausente” (mas, na prática, bastante presente e, por isso, praticamente um protagonista também) faz parte do outro grupo, cada vez mais raro, de pacifistas que se recusam a matar, mesmo em uma guerra. Neste sentido, o Frantz que move os personagens desta produção me fez lembrar o Desmond Doss de Hacksaw Ridge (filme excelente comentado por aqui no blog).

Interessante pensar que o personagem ausente é o que move todos os demais “presentes” que vemos em cena. Frantz morreu, mas está em todas as partes. É o sentimento por ele que ocupa todos os pensamentos e os sentimentos de Anna e dos pais do jovem alemão morto em guerra, o doutor Hans (Ernst Stötzner) e a esposa Magda. Anna segue vivendo, apesar de esbanjar uma dor profunda pela perda, muito por causa do carinho que ela tem pelos pais de Frantz. E eles, por sua conta, seguem vivendo também penalizados pela ausência.

O outro personagem importante desta história, o francês Adrien Rivoire (Pierre Niney) também não consegue esquecer Frantz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, não sabemos exatamente qual é a história por trás deste sentimento um tanto obcecado de Adrien por Frantz. Pelas reações dele no início desta produção, a primeira ideia que me veio à cabeça é que ele teria tido um romance com Frantz quando o alemão foi estudar em Paris. Apesar de algumas sugestões neste sentido – as flores no túmulo, o choro franco e uma grande sensibilidade em relação à perda de Frantz -, aos poucos vamos nos questionando também se ele não poderia ter sido o algoz do jovem rapaz.

As duas possibilidades me passaram pela cabeça, até que Adrien resolve contar a verdade para Anna. Antes de fazer isso, ele conta uma série de mentiras para se aproximar da família do homem que ele matou. Corroído pela culpa, ele busca nos detalhes sobre a vida de Frantz algum consolo – uma ideia meio maluca, é verdade, por que quem em sã consciência se sentiria “consolado” ao saber detalhes da vida de alguém que ele matou? Mas talvez Adrien não buscasse realmente consolo, mas “humanizar” aquele soldado que ele atingiu mortalmente no campo de batalha.

Esta talvez seja uma das grandes mensagens deste filme. Teríamos menos guerras, conflitos, dor e perdas se pudéssemos ver “o outro” como alguém de carne e osso, sonhos e amores, tal como nós mesmos. A pessoa que é morta em um campo de batalha tem família, pai e mãe, pode ter irmãos e uma promessa para ir para o altar. E tudo isso termina e é interrompido com um tiro certeiro. Frantz, o filme, a exemplo do personagem título, é um filme claramente pacifista. Uma história importante de ser resgatada nos tempos atuais, quando pessoas seguem sendo mortas em conflitos de diferentes naturezas mundo afora.

Adrien vai para a cidade de Frantz para saber mais sobre o homem que ele matou e cuja memória “lhe atormenta” os pensamentos e os sentimentos. No fundo, ele não é um assassino, mas a guerra lhe dá este papel. Como qualquer pessoa que comete um ato que não gostaria, na essência, Adrien sofre terrivelmente com aquilo. O problema é que ele, na busca por respostas sobre Frantz, acaba com as suas mentiras entrando de uma forma inapropriada na vida dos pais e da noiva do jovem alemão que ele vitimou.

Esta é a parte cruel da produção. Os pais de Frantz encontram um certo conforto nas histórias fantasiosas de Frantz com o “amigo” Adrien por Paris ao mesmo tempo em que a inocente e bela Anna se deixa envolver pelas mesmas histórias e pela personalidade de Adrien. Os pais de Frantz e Anna estão tão envolvidos por Adrien que não existe solução fácil para aquela situação. No fim das contas, percebendo os efeitos do que está fazendo, Adrien resolve contar a verdade. E aí chegamos no que era o segundo objetivo dele ao viajar para a Alemanha.

Depois de saber mais sobre o homem que matou no campo de batalha, Adrien queria reduzir a própria dor recebendo o perdão das pessoas que ele feriu para sempre. Em um ato egoísta – na verdade ele tem este “defeito”, está pensando sempre nas suas próprias necessidades -, ele resolve contar a verdade para Anna e pede para ela o seu perdão. Ele deseja fazer o mesmo com os pais de Frantz, mas Anna se antecipa e conta ela própria uma mentira para Adrien. Ela diz que contou a verdade para os pais de Frantz, mas ela não faz nada disso.

Diferente de Adrien, Anna é uma pessoa generosa. Ela sabe que a verdade sobre Adrien vai ferir de morte, mais uma vez, os pais de Frantz. Como ela gosta demais deles, resolve preservá-los. Mas ela própria já está ferida de morte novamente. Logo depois que Adrien parte de volta para a França, Anna percebe que está apaixonada por ele. Ela pensa que é tarde demais para ela – afinal, ela está gostando justamente do homem que matou o seu grande amor, Frantz.

No desespero, ela tenta colocar fim na própria dor – o mesmo é feito por Adrien na França. Mas os dois são movidos por motivos muito diferentes. Enquanto Anna sofre por sentir o que não gostaria de sentir – amor por Adrien, o algoz de Frantz -, Adrien sofre por não ter conseguido o perdão de suas vítimas “secundárias”. Os dois acabam fracassando em suas tentativas de suicídio. E como a história não terminou, eles devem dar prosseguimento para as suas próprias vidas.

Os pais de Frantz, inocentes na história, acabam realmente vendo Adrien como um “segundo filho”, como alguém que traz para eles conforto e as melhores “lembranças” (fabricadas, mas eles não sabem disso) do filho único perdido para sempre. Por isso mesmo eles tem esperança de que Adrien possa “substituir” Frantz no coração de Anna e se casar com ela. Eles meio que “pressionam” a jovem a buscar Adrien quando a carta dela retorna sem achar o destinatário. E é assim que Anna vai para a França em busca dele cheia de esperanças de um recomeço.

E aí entra a segunda grande sacada e reviravolta da produção. Anna encontra Adrien e descobre que ele, a exemplo de Frantz, que estava com o casamento acertado com ela, está prometido para Fanny (Alice de Lencquesaing). Para mim, esta foi a parte mais dolorida do filme. É de cortar o coração ver a gentil, bondosa e inocente Anna descobrindo que Adrien tem tudo o que Frantz perdeu. Ele tem uma boa casa, a mãe protetora (Cyrielle Clair) perto dele e uma noiva com quem ele vai se casar. É de cortar o coração algumas situações pelas quais Anna passa, assim como a reação dos pais de Frantz quando reagem às mentiras que lhes fazem continuar vivendo.

Apesar da culpa que sente pela morte de Frantz, Adrien segue a sua vida com uma normalidade que choca Anna. Mas ela própria vai encontrar o seu caminho para também seguir a vida. E esta talvez seja a outra grande mensagem desta produção. Após grandes tragédias e grandes perdas as pessoas, mesmo as “sensíveis”, como gosta de repetir a mãe de Adrien, podem se reinventar e encontrar caminhos para recomeçar. E é isso que Anna e Adrien fazem, apesar da dor que nunca deixará de latejar em alguma parte de seus corações. Mas a vida segue.

A grandeza de Anna é que ela não pensa apenas nela – algo que Adrien diz que ele faz também, mas a sua maneira. Anna recomeça a vida em Paris, pensando em belezas que Frantz pode ter visto – e que ela sabe que Adrien viu, como a obra de Manet no Louvre – e embalada por possibilidades que a vida ainda pode lhe dar, ao mesmo tempo em que preserva a história “reconfortante” e mentirosa de Adrien para os pais de Frantz. Eles, por sua vez, seguem com boas lembranças e a imaginação do que pode acontecer de bom para Anna e Adrien. E o francês, por sua conta, segue vivendo não por ele, mas para não dar para a mãe dele e para Fanny a mesma dor que ele causou nas pessoas que perderam Frantz.

Além deste núcleo principal da produção, Frantz mostra um pouco do contexto social da época. Vemos claramente o ódio que seguiu alimentando corações e mentes tanto na parte da Alemanha quanto na França – esse ódio e o sentimento de “desforra” alemã seriam fervidos em fogo lento até a Segunda Guerra Mundial. Os sentimentos nacionalistas exagerados e a desumanização do oponente estão em cena e são elementos importantes nesta história – apesar de ficarem um pouco em segundo plano.

Como sempre que voltamos para a reflexão do passado, Frantz nos ensina como devemos aprender com os equívocos de épocas anteriores para tentar evitar novos ciclos de desgraça. Quem dera que todos pudessem assistir a este filme e entender as suas mensagens. Teríamos um outro tipo de sociedade, certamente. Bela produção, em todos os sentidos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da minha parte, achei brilhante as escolhas de François Ozon e do diretor de fotografia Pascal Marti. Grande parte do filme é em preto e branco. O que apenas valoriza as imagens e dão um contexto interessante para a produção – afinal, Frantz se passa em 1919, uma época em que os filmes eram todos em preto e branco. Além disso, a escolha do preto e branco em contraste com algumas sequências coloridas ajuda a contar uma história conceitual interessante. Eis a segunda camada de interpretação da história.

Grande parte do “presente” da história deste filme é contada em preto e branco. Essas sequências representam a vida sem Frantz, uma vida sem cor, sem sentido para os pais dele e para Anna. Essa mesma realidade após a morte de Frantz tem as mesmas matizes para Adrien. Mas em alguns momentos a cor toma conta da tela. Se notarmos quando isso acontece, é quando a vida começa a invadir aquele espaço sem cor. Percebemos o colorido nas sequências em que vemos Frantz em cena e naquelas em que Anna e os pais de Frantz conseguem sentir alegria além da dor da perda. Esse é um toque genial dos realizadores. Mais um ponto sensível e muito interessante desta produção. Observe as cores. Elas tem muito a dizer.

A origem do filme Broken Lullaby, produção que inspirou Frantz, é uma peça teatral de Maurice Rostand. Nascido em Paris em 1892, Rostand era um pacifista e um dos homossexuais mais conhecidos e respeitados no período entre guerras. Como a origem desta produção tem uma ligação com a peça teatral dele, dá para entender o tom um tanto “teatral” de Frantz. Nada que prejudique a história, é claro, mas é um estilo que nem todos estão habituados a assistir – especialmente quem não viu a filmes antigos, que tinham, muitos deles, exatamente este espírito.

Em termos de interpretação, o grande destaque para mim nesta produção é o trabalho magnífico e irretocável de Paula Beer. Ela está perfeita, atenta a cada detalhe e com uma interpretação realmente convincente. Grande atriz que merece ser acompanhada. Quem faz um “dueto” interessante com ela é o ator Pierre Niney. Ele também está muito bem. Além deles, os destaques nesta produção, mas em segundo plano, são os atores Ernst Stötzer e Marie Gruber – especialmente ela, com uma interpretação tocante -, que vivem os pais de Frantz; Johann von Bülow como Kreutz, um conhecido da família de Frantz que não perde tempo em pedir a mão de Anna e tentar se casar com ela; e Anton von Lucke em aparições “mudas” como o personagem-título morto. Estes são os destaques.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Cyrielle Clair como a esnobe e um tanto irritante mãe de Adrien; de Alice de Lencquesaing em quase uma ponta como Fanny, noiva de Adrien; Alex Wandtke como o recepcionista no hotel em que Adrien fica hospedado na pequena cidade alemã; Rainer Egger como o administrador do cemitério na Alemanha; Rainer Silberschneider como o vendedor da loja que vende para Anna um vestido para o baile; Lutz Blochberger como o homem que salva Anna no lago; e Jeanne Ferron como a tia de Adrien.

Entre os aspectos técnicos do filme, o grande destaque, sem dúvida, é a maravilhosa e inspiradora direção de fotografia de Pascal Marti. Além dele, merecem menção a trilha sonora extremamente pontual de Philippe Rombi; a excelente edição de Laure Gardette; o design de produção de Michel Barthélémy; a direção de arte de Susanne Abel; a decoração de set de Maresa Burmester e de Catherine Jarrier-Prieur; os belos e ajustados figurinos de Pascaline Chavanne; e o trabalho cuidadoso da equipe de 11 profissionais do departamento de maquiagem.

Frantz estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme participaria, ainda, de outros 21 festivais e mostras em diferentes países. Nesta trajetória o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros 19. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Fotografia no Prêmio César; o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Sedona; e o de Melhor Jovem Atriz para Paula Beer no Prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Cinema de Veneza. Belos prêmios. Todos merecidos.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção, mas vi que Frantz fez quase US$ 881 mil nos Estados Unidos, quase 661 mil euros na França e outros 413 mil euros na Itália. Bilheterias um tanto baixas. Tenho dúvidas se o filme conseguiu algum lucro.

Esta produção, como a história mesmo sugere, foi rodada em diferentes lugares da Alemanha e da França. Foram rodadas cenas nas ruas de Quedlinburg; no cemitério de Nikolaifriedhof, em Görlitz; em Wernigerode (casa dos Hoffmeisters); em Osterwieck; em Teufelsmauer (rio onde Anna e Adrien vão e onde ele se banha); e em Bad Suderode (estação de trem onde Adrien embarca), todos na Alemanha. Na França, foram rodadas cenas no Château du Saussay, em Ballacourt-sur-Essonne (castelo dos Rivoire); no Museu do Louvre e na Ópera Nacional de Paris Palais Garnier, em Paris; em Eymoutiers (estação de trem) e em Senlis.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e 11 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,4.

Frantz é uma coprodução da Alemanha com a França. Por causa disso o filme passa a figurar na lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme atemporal. Não apenas por sua beleza e lirismo, mas principalmente porque ele trata de assuntos que perduram no tempo. Ainda que a produção seja ambientada no final da Primeira Guerra Mundial, a essência do que vemos em cena continua se repetindo atualmente em qualquer conflito em que pais perdem os seus filhos e noivas vêem os seus sonhos de futuro serem abortados pela morte. Um belo filme, muito bem conduzido e muito bonito visualmente – apesar da história cheia de agruras. Frantz nos faz pensar sobre a capacidade humana de superação e também de reinvenção. Possivelmente essas sejam as nossas grandes qualidades.