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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Los Amantes Pasajeros – I’m So Excited! – Os Amantes Passageiros

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O mundo é gay. E as pessoas aguardam apenas um momento de incerteza para transar, e muito. Essas são duas premissas do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, Los Amantes Pasajeros. Entendo o desejo do diretor de perder um pouco o controle vez ou outra, mas este filme, que começa até engraçado, lá pelas tantas perde a direção de maneira impressionante. Esqueça a fase mais filosófica e interessante do diretor. Em Los Amantes Pasajeros Almodóvar volta a trilhar o caminho iniciado no anterior La Piel Que Habito, no qual o principal interesse do realizador é assumir o exagero como ideia fundamental de seu trabalho.

A HISTÓRIA: Equipamentos são retirados após o embarque dos passageiros em um avião da companhia aérea Península. Uma das últimas etapas é a retirada das proteções dos pneus dos trens de pouso, feita por León (Antonio Banderas). Ao ver a Jessica (Penélope Cruz), León se entusiasma. E é correspondido. Distraída, Jessica atropela a um operário (Coté Soler). Este incidente interrompe as tarefas de León, o que vai prejudicar o voo pilotado por Benito Morón (Hugo Silva) e Álex Acero (Antonio de la Torre), e exigir jogo de cintura da equipe formada por Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Rául Arévalo) para controlar os poucos passageiros que acabam não sendo sedados no avião.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Amantes Pasajeros): Gosto muito do estilo Almodóvar de fazer cinema. Especialmente porque ele deu um novo vigor para um cinema que tinha pouca relevância há algumas década, que era o cinema espanhol.

Depois de alguns experimentos nos anos 1970, Almodóvar chegou na década seguinte com filmes como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, Entre Tinieblas e o divertidíssimo Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! O cinema dele era exagerado, mas carregado de sentido, de significados, da cultura espanhola e de uma carregada crítica ao puritanismo, a hipocrisia e aos valores antigos que pareciam não fazer mais sentido em uma sociedade que tentava ser mais moderna e libertária.

No final dos anos 1990, com Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella, Almodóvar deixa para trás o desejo de chocar com sexo e comédia carregada de costumes para fazer um cinema mais denso, psicológico, quase filosófico. Com estes filmes, ele chega ao auge da carreira, ganhando fãs internacionalmente que ele nunca tinha imaginado um dia conseguir. Paralelo a isso, ele também melhorou com a técnica da direção e da narrativa. Tornou-se um diretor e um roteirista melhor.

Muito bem, isso até este Los Amantes Pasajeros. Certo que suas produções anteriores, Los Abrazos Rotos (comentada aqui no blog) e La Piel que Habito (o qual comentei neste texto) não falavam tanto dos dilemas humanos quanto os brilhantes Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella mas, cada um deles, tinha peso dramático e envolvia o espectador a sua maneira. Além de roçar com exageros interessantes, que revisitavam partes “perdidas” da filmografia do diretor.

Los Amantes Pasajeros retoma a parte mais sexual de Almodóvar, mas sem muito sentido. Na verdade, o filme inicia como uma grande brincadeira. Os espanhóis tem um pouco essa filosofia de “cachorros de rua”. Até recentemente, antes da conquista da última Copa do Mundo, a Seleção espanhola era sempre vista como aquela que lutava, brigava, mas sempre morria na praia. E em muitas outras esferas, que não apenas a do futebol, eles são vistos como incapazes de grandes feitos – e essa leitura eu faço por ter morado na Espanha por alguns anos e ter visto esta estranha e constante divisão dos espanhóis entre serem arrogantes e terem este complexo de inferioridade mal resolvido.

Então imaginar uma situação como a vivida em Los Amantes Pasajeros com a filosofia do “cachorro de rua” espanhola é divertido. Um avião com risco de não conseguir pousar é um problema para qualquer tripulação e passageiros, mas nem todos lidariam com esta situação de forma tão displicente e típica quanto os espanhóis. Certo, a ideia até que não é ruim. Mas o desenvolvimento dela que acaba sendo o problema.

Quem já assistiu a muitos filmes, certamente viu a alguns clássicos que tem o ambiente claustrofóbico de um avião como cenário principal. A referência máxima de comédia sobre uma situação complicada é o filme Airplane!, simplesmente genial. Então quando Los Amantes Pasajeros começa a ganhar corpo e percebemos que aquele avião com três comissários de bordo gays tem problemas, é inevitável não relembrar do descontrole de Airplane! O que é ruim para a nova produção do diretor espanhol.

O roteirista Pedro Almodóvar faz comédia nos mínimos detalhes. A companhia aérea da produção chamar-se Península, por exemplo, faz alusão à empresa Iberia – que, inclusive, faz “presença” no filme com um avião que decola antes da aeronave onde a maior parte da história se passa. Os primeiros minutos da produção, com Antonio Banderas e Penélope Cruz fazendo pontas com acentuados sotaques andaluzes, também é uma cereja no bolo – os dois, como vocês sabem, foram descobertos e lançados no cinema por Almodóvar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em seguida, somos apresentados a figuras muito típicas do imaginário espanhol – a mulher “vidente”, Bruna (Lola Dueñas); o “matador de aluguel” Infante (José María Yazpik); o “don juan de meia idade” Ricardo Galán (Guillermo Toledo); o “executivo ladrão” Sr. Más (José Luis Torrijo) e a “celebridade” que conhece os homens mais poderosos do país, Norma Boss (Cecilia Roth). Almodóvar junta todos eles na classe executiva de um avião que tem o risco de não conseguir pousar por causa da trapalhada que acontece no início da produção.

Para enfrentar o problema, estes passageiros e mais os tripulantes, incluindo o trio de comissários gays e os pilotos “de cabeça aberta”, entram em uma sequência de “buscas pelo essencial” de suas vidas. Daí surgem as ligações telefônicas em que todos escutam tudo, e que passam pela escolha de Almodóvar em mostrar as mulheres da vida de Galán, assim como a tentativa de Norma em ameaçar um ministro para defender a própria vida e a retomada de um contato importante na vida de Sr. Más.

Para mim, o filme começa a perder a graça quando sai do avião e segue Alba (Paz Vega, irreconhecível) e Ruth (Blanca Suárez). Uma história paralela que não agrega praticamente nada para a trama e que faz o filme perder o ritmo. Dispensável, pois. A única justificativa para aquelas sequências foi o diretor colocar duas belas mulheres – especialmente Blanca – em cena.

Além de fazerem contato com as últimas pessoas com quem gostariam de falar na vida – afinal, existe a dúvida se aquele voo pode ser o último de suas existências -, os personagens principais da trama enchem a cara de álcool e sexo. No melhor estilo “o que você faria se este fosse o seu último voo”, cada um revela a sua personalidade sem filtros e sem censura. E isso é tudo.

O filme é cheio de baboseira mas, se visto com um pouco de distanciamento, se revela uma sátira à Espanha contemporânea. Algo que marca o cinema de Almodóvar – aqui, pelo menos, ele não se perdeu. O problema apresentado no filme é provocado pelos próprios espanhóis – com aquela trapalhada inicial protagonizada pelos personagens de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Fazendo um paralelo, é o mesmo que dizer que a bolha imobiliária, a grande causadora da crise atual na Espanha, foi causada pela ambição e pela falta de critério dos próprios espanhóis – se não de todos, pelo menos do sistema financeiro, que no filme é criticado pelo exemplo do Sr. Más. Aliás, no jornal que o personagem lê, é possível ver vários escândalos envolvendo “cajas” e bancos do país – o que de fato aconteceu.

Como as pessoas agiram para enfrentar a crise atual, e que segue persistente, no país de Almodóvar? Houve o 15M, é claro – que envolveu passeatas e “acampadas” para protestar contra as políticas de cortes do governo e contra a crise. Mas, no dia a dia das pessoas, houve também muita gente enfrentando os problemas com álcool, drogas, sexo e musicais. Alguns quiseram manter as aparências, como Norma Boss, enquanto tantos outros, talvez a maioria, permaneceu “anestesiado” – como a maior parte dos passageiros do voo comanda por Almodóvar.

Fazendo esse exercício de paralelo dramático/artístico com a realidade espanhola, até que o filme não parece tão idiota assim. Mas enquanto eu estava assistindo à produção, o pensamento predominante era: “Almodóvar, meu caro, aonde você vai com esta história burlesca?”. Não achei que ele fosse chegar a parte alguma, mas torcia para o filme não ter mais de duas horas. E, uma das poucas qualidades desta produção, além de uma ou outra parte realmente engraçada, é que ela dura menos de uma hora e meia. Gracias! Agora, nos resta esperar a um Almodóvar um pouco mais inspirado e menos tresloucado da próxima vez.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que assisto a uma comédia, fica evidente para mim que o humor é algo muito, muito pessoal. Até mais do que outras escolhas que fazemos na vida – como o time de futebol para o qual torcemos, nossa religião ou forma de amar. Muitas vezes o meu senso de humor não coincide com o de vários leitores deste blog. Sabendo disso, sou obrigada a comentar que o “ponto alto” desta produção, que é a encenação da música I’m So Excited, de The Pointer Sisters, não me fez gostar mais do filme. Pelo contrário. Achei muito sem graça.

Adoro assistir a Madrid como personagem de filmes – especialmente dos de Almodóvar. Mas achei bem forçada a entrada da cidade na história junto com as personagens Alba e Ruth. Ok que o diretor quisesse dar mais “profundidade” para os seus personagens. Mas, de fato, a entrada das duas mulheres no roteiro torna o filme mais interessante? Não achei.

Agora, nem tudo são problemas em Los Amantes Pasajeros. Javier Cámara está maravilhoso no papel de Joserra, o comissário que ganha protagonismo na história. Também foi muito bom rever Raúl Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva e Antonio de la Torre em cena. Eles são alguns dos atores mais importantes do cenário do cinema espanhol atual. Sem contar, claro, a sempre diva Cecilia Roth e a respeitada e competente Lola Dueñas.

Algo bacana nesta produção é o espaço que ela dá para os bonitões made in Espanha. Hugo Silva, claro. E, além dele, Miguel Ángel Silvestre como o Noivo que é um colírio para os comissários do avião – e para os espectadores.

Tecnicamente, mais uma vez, Almodóvar nos entrega um filme limpo e bem construído visualmente. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia José Luis Alcaine. A trilha sonora, um dos pontos fortes da produção, achei apenas “ok”, nada demais. E ela é assinada por Alberto Iglesias, antigo parceiro do diretor.

Inicialmente eu estava dando até uma nota menor para este filme. Um 5. Mas aí o paralelo com a atual situação da Espanha me fez melhorar um pouquinho a nota. Ainda assim, claro, ela está muito abaixo da média para os filmes do Almodóvar.

Falando em notas, vale citar os dois sites que eu normalmente comento por aqui. Os usuários do IMDb deram a nota 5,7 para esta produção. Para vocês terem uma ideia, esta é a menor nota para um filme de Almodóvar no site, exceto por Folle… Folle… Fólleme Tim!, primeiro e desconhecido longa do diretor lançado em 1978. Todas as outras produções lançadas por ele depois tem uma nota melhor que Los Amantes Pasajeros. Achei justo porque, afinal, este filme está beeeem abaixo do padrão do diretor ao qual estamos acostumados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 56 textos negativos e 52 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% e uma nota média de 5,7. Quase empatei na avaliação com eles – e só porque gosto muito do Almodóvar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: Los Amantes Pasajeros marcou a sétima parceria entre Banderas e Almodóvar e a quinta entre Penélope Cruz e o diretor. Mesmo com tantas presenças em filmes do diretor espanhol, esta foi a primeira vez que os dois contracenaram juntos em uma produção de Almodóvar.

Como normalmente faz em suas produções, Pedro Almodóvar dá uma pequena ponta para o irmão e produtor Agustín Almodóvar. Ele “interpreta”, neste filme, ao controlador da torre do aeroporto onde a produção acaba.

Los Amantes Pasajeros estreou no circuito comercial dos cinemas espanhóis em março deste ano. Depois, o filme passaria por cinco festivais, nenhum de ponta. O mais conhecido é o de Los Angeles. Nesta trajetória, a produção não foi indicada para nenhum prêmio – seria uma surpresa se tivesse acontecido diferente.

Para quem gosta de saber os locais em que o filme foi rodado, Los Amantes Pasajeros teve cenas gravadas em Madrid e em Ciudad Real.

De acordo com o site Box Office Mojo, este último filme de Almodóvar conseguiu, até o último dia 22 de agosto, quase US$ 1,3 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 10,3 milhões nas bilheterias dos demais mercados onde já estreou. Pouco, como se pode ver.

CONCLUSÃO: Gostei do começo despretensioso e irônico de Los Amantes Pasajeros. As pontas dos astros Antonio Banderas e Penélope Cruz foram muito bem planejadas e tem o tempo adequado para o filme. Depois, achei brilhante o desempenho de Javier Cámara e Lola Dueñas. Mas quando Los Amantes Pasajeros resolve colocar histórias paralelas para “aprofundar” a ação, em um filme nada profundo, e descamba para a orgia, me cansei.

Aparentemente Almodóvar se cansou de fazer filmes mais “existenciais”, naquela fase em que ele se tornou um cineasta premiado e reconhecido internacionalmente. Não acho que ele seja obrigado a seguir uma filmografia séria, até porque o passado dele é muito mais satírico, exagerado e polêmico e abandonar esta verve seria negar o próprio passado do diretor. Mas este novo filme dele, para mim, apenas tirou uma hora e meia do meu tempo, que poderia ter sido utilizado para assistir a um filme melhor, com um diretor e roteirista mais inspirado. Esta produção tem alguns momentos engraçados mas, no saldo geral, achei ela beeeeem dispensável – apesar da produção fazer uma sátira contemporânea da Espanha. Veja se gostar muito do diretor e se não tiver nada melhor para assistir.

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Los Abrazos Rotos – Broken Embraces – Abraços Partidos

Um filme exageradamente Almodóvar. No que isso significa de acertado, divertido e previsível. Em sua declarada homenagem ao cinema – eu diria, mais especificamente a sua gente -, Pedro Almodóvar capricha nas autoreferências e em alguma “brincadeira” com os lugares-comum dos bastidores da indústria da qual ele faz parte. O resultado disso é uma produção com cores fortes e um roteiro que destaca o trabalho de seus atores, ao mesmo tempo em que explora uma forte carga de emoção e alguma picardia. Como eu disse antes, Los Abrazos Rotos é exageradamente Almodóvar – o que, para fãs do diretor, como eu, resulta em algo bom.

A HISTÓRIA: Assistimos ao ensaio de gravação de um filme. Aparece em cena, junto com Lena (Penélope Cruz), o roteirista e diretor da produção Mateo Blanco (Lluís Homar). Corta. Vemos o mesmo homem, mas que agora se identifica como Harry Caine, através dos olhos de uma desconhecida (Kira Miró) que chegou até o apartamento de Caine depois de ajudá-lo a atravessar a rua.

A bela mulher lê o jornal para Caine que, desta forma, fica sabendo da morte de Ernesto Martel (José Luis Gómez). Pouco depois, o nome de Martel voltará à cena, trazendo à tona uma série de segredos da vida de Caine e de sua amiga e diretora de produção Judit García (Blanca Portillo).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Abrazos Rotos): Quando um grande diretor de cinema resolve falar sobre o seu próprio trabalho, é praticamente inevitável que ele não faça um recorrido sobre alguns de seus principais temas e/ou dilemas.

Mas mais que falar sobre si mesmo e sobre a indústria da qual ele faz parte, Pedro Almodóvar destila em Los Abrazos Rotos uma curiosa reflexão sobre a paternidade e a importância que o fazer artístico têm sobre o próprio resultado deste processo.

Em outras palavras, Almodóvar parece dizer, em letras garrafais: “Pouco importa o que dizem sobre o filme, seu resultado nas bilheterias ou no mercado criado em volta dele.

O importante mesmo é fazer cinema, independente do que pode acontecer com o produto final desta ação”. A velha história da arte pela arte. Mas às vezes as aparências enganam e, ao falar de suas expectativas sobre o filme, fica claro que a Almodóvar lhe interessa, sim, o desempenho do filme no mercado.

Não deixa de ser bonita esta declaração de amor do cineasta ao labor de se fazer um filme. Lars von Trier, do recentemente comentado aqui Antichrist, deve concordar em gênero, número e grau com o espanhol, já que este seu último filme foi mais importante, para ele, pelo processo de filmar do que pelo resultado propriamente dito. Mas o melhor de Los Abrazos Rotos não está em sua vã filosofia.

Como em muitos filmes de Almodóvar, é o texto ousado, irônico e com forte carga emotiva o que faz Los Abrazos Rotos ser uma produção gostosa de assistir. Agora, claro, este não é o melhor filme do diretor. Está entre os que podem ser colocados no meio da sua régua de qualidade – o que, convenhamos, já é muito se comparado a outros cineastas.

Los Abrazos Rotos tem uma diva. E que diva! Mesmo não sendo fã de Penélope Cruz, algo tenho que admitir: ela brilha sob as lentes de Almodóvar. Os dois, definitivamente, foram feitos um para o outro – e Almodóvar, assim, se coloca ao lado de tantos outros diretores que escolheram suas divas, de Chaplin, passando por Hitchcock e até Woody Allen.

Não lembro de ver Penélope Cruz tão bonita em uma produção quanto em Los Abrazos Rotos. Um prato cheio para seus fãs. Mas além de belíssima, a atriz destila talento na pele da protagonista. Mas o filme tem ainda uma outra grande atriz: a genial Blanca Portillo. Uma sorte para os atores Lluís Homar e Tamar Novas (que interpreta Diego, filho de Judit) ter estas duas atrizes para contracenar.

Mas voltando ao trabalho de Almodóvar. Seu roteiro se mostra acertado e envolvente, em grande parte do tempo, mas nem sempre ele segura a atenção do espectador como poderia. A direção de Almodóvar apresenta a mesma inconstância, ainda que ele destile, para nosso deleite, algumas cenas magistrais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Destaco duas destas cenas: a primeira, que faz a fusão de um rolo de filme com a arquitetura de uma escadaria em espiral e, sem dúvida, as sequências em que o controlador Ernesto Martel utiliza o filho e uma especialista na leitura de lábios (Lola Dueñas) para monitorar os passos de Lena. Arrepiante, em especial, o momento em que a protagonista reproduz, ao vivo, a mensagem que havia dito para as câmeras de Ray X/Ernesto Jr. (Rubén Ochandiano) e que era destinada para o marido.

Por momentos como este é que Almodóvar se consagra como um diretor diferenciado. Ele sabe, como poucos, extrair emoção, suspense e humor de relações entre amantes, pais e filhos. Neste sentido, Los Abrazos Rotos segue algumas das linhas conhecidas do cinema autoral do espanhol.

Novamente o tema da ausência da figura paterna se torna importante para a história, seja através da repressão do empresário Ernesto Martel em relação ao seu filho, que é homossexual, ou seja pela ausência pura e simples de um pai na vida de Diego. Os efeitos desta falta de apoio e afeto podem ser vistos nas ações dos filhos, ora manipulados, ora buscando libertar-se do controle familiar.

Mas ainda que o tema familiar seja uma peça importante na história, o grande mote de Los Abrazos Rotos é mesmo os bastidores do cinema. Almodóvar aproveita a oportunidade para destilar algumas ironias muito boas, como a que revela a “simplicidade” em se criar um blockbuster para os adolescentes (vide o esboço de roteiro pensado por Diego depois de ver a um cartaz de uma campanha para doações de sangue) ou a que “alfineta” os produtores estrangeiros eternamente fascinados por Barcelona em detrimento de outras cidades espanholas (um dos últimos desta lista foi o também autoral Woody Allen).

Por um lado, Almodóvar desmistifica o fazer artístico, ao mostrar que a idéia para um roteiro pode partir de uma reportagem no jornal (como é o caso da história de Arthur Miller comentada por Harry Caine) ou em um passeio pelas ruas.

E por outro, ridiculariza a escolha da indústria em repetir fórmulas, variando pouco os temas e, dependendo do país, praticamente nada o cenário. A ironia com a equipe de produção “de americanos” (leia-se estadunidenses) também se justifica pela preferencia do diretor, nascido na Ciudad Real, por Madrid como cenário para seus filmes.

Mas se Almodóvar acerta em muitos momentos, em outros ele faz escolhas questionáveis. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei exagerados – até para os padrões de Almodóvar – os dois momentos mais “dramáticos” do filme. O exagero, muitas vezes, pode levar a um efeito contrário ao desejado. No caso da cena da escada, em que Lena é empurrada, por exemplo, aquele desenlace nos lembra mais uma cena de novela do que uma ação plausível – mesmo para um homem contrariado e enciumado.

Depois, a sequência do acidente de carro… apenas um ato deliberado, com o uso de um veículo com os faróis apagados, por exemplo, justificaria um acontecimento como aquele. Ok, eu sei que nem sempre é possível pedir lógica nos roteiros de cinema, mas achei que nos dois casos Almodóvar cedeu ao recurso mais rápido e simples para desencadear as reviravoltas em suas história. Ele poderia ter caprichado mais.

Ainda que seja uma interessante homenagem ao cinema e que tenha um conjunto de cenas muito bonitas, Los Abrazos Rotos apresenta, no fim das contas, um enredo bastante superficial. Os grandes “mistérios” do filme, no fundo, são totalmente previsíveis. Talvez isso tenha sido planejado pelo diretor. Talvez Almodóvar quis mostrar, com Los Abrazos Rotos, como a fronteira entre realidade e ficção está cada vez mais difícil de encontrar.

Como um trabalho artístico e a vida mesma, as histórias de Los Abrazos Rotos deixam mais fios soltos do que histórias acabadas. No fundo, talvez Mateo Blanco e Harry Caine sejam os alter-egos de Almodóvar que, como eles, se vê dividido entre a importância/necessidade de sua identidade artística suplantando a dele como indivíduo. Um trabalho delicioso (mas não excepcional) de Almodóvar, que presenteia seus fãs e admiradores ao fazer um filme com tantas autoreferências.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Los Abrazos Rotos é uma forma de Almodóvar homenagear as pessoas que fazem parte deste fazer artístico. Mais importante que os filmes em si, para Mateo Blanco (e acredito que, no fundo, para Almodóvar), são os indivíduos que se dedicam à Sétima Arte.

A vida acontece nos bastidores de filmagens, através dos romances, desejos, diferenças de opinião, disputas pelo poder e demais relações estabelecidas por seus contadores de história, técnicos, atores e atrizes.

Sempre me delicio quando Almodóvar coloca em cena algumas de suas atrizes favoritas. Para não perder o hábito, em Los Abrazos Rotos fazem pontas atrizes como as fantásticas Rossy de Palma, Chus Lampreave e Kiti Manver. Todas elas colaboram com o diretor há décadas.

Rossy de Palma, conhecida por La Ley del Deseo, Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios, ¡Átame!, Kika, entre outros, aparece em uma ponta como Julieta. A divertidíssima Chus Lampreave, de Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios, La Flor de Mi Secreto, Volver, entre outros, aparece como uma porteira; enquanto Kiti Manver, de Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, entre outros filmes de Almodóvar, interpreta a Madame Mylene.

Como muitos cineastas que fizeram sua homenagem ao cinema, Almodóvar grava trechos em que cita outros filmes – em Los Abrazos Rotos isso ocorre quando Harry Caine pede a Diego que escolha algo em sua coleção particular. Entre os filmes citados e/ou mostrados em Los Abrazos Rotos estão Magnificent Obsession (do alemão Douglas Sirk), Ascenseur pour l’échafaud (do francês Louis Malle) e Viaggio in Italia (do italiano Roberto Rossellini).

A verdade é que poucos diretores, atualmente, teriam a coragem de Almodóvar em escrever uma história carregada de tantas autoreferências. Digo isso porque “Chicas e Maletas”, o filme dentro do filme, não deixa de ser uma brincadeira do diretor com seu próprio cinema. O humor de Chicas e Maletas lembra, sem dúvida, algumas das primeiras comédias de Almodóvar.

Interessante o questionamento do diretor, nesta história, sobre o momento trágico em que o pseudônimo artístico do protagonista preenche toda a sua vida. Talvez esta seja uma reflexão sobre o próprio papel da entidade Pedro Almodóvar, de quem se espera tanto e, ao mesmo tempo, basicamente sempre o mesmo.

Por essas e outras reflexões e ironias, este filme se mostra diferente dos demais. Único e interessante. Mas esqueçam a forte carga dramática e a reflexão sobre os costumes espanhóis de outros filmes. Los Abrazos Rotos é o mais teatral, por um lado, ou “artificial”, enquanto peça de arte, por outro, que o diretor produziu em sua história.

E, para arrebatar o filme, nada melhor que a frase irônica “Las películas hay que terminarlas, aunque sea a ciegas”. Genial! Este é mais um dos golpes ousados do diretor, que acaba tirando o doce da boca do espectador, depois de mostrar uma parte daquela divertida “produção dentro da produção”.

Mas que ninguém fique triste por não saber como termina Chicas y Maletas… basta escolher a um dos tantos filmes de comédia com picardia de Almodóvar. Reza a lenda, aliás, que “Chicas y Maletas” seria uma variação de Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho da ótima atriz Ángela Molina, antiga colabora de Almodóvar, que aqui aparece interpretando a mãe de Lena.

Como em qualquer filme de um diretor que sabe utilizar bem os recursos disponíveis no cinema, Los Abrazos Rotos prima por uma direção de fotografia, uma trilha sonora, uma direção de arte e um figurino impecáveis.

A direção de fotografia é assinada pelo mexicano Rodrigo Prieto – que tem, no currículo, trabalhos inspirados como Amores Perros, Frida, 21 Grams, Babel e State of Play, só para citar alguns.

A trilha sonora é assinada pelo vasco experiente Alberto Iglesias, colaborador antigo de Almodóvar que trabalhou ainda em alguns dos últimos filmes de Julio Medem, Oliver Stone e Steven Soderbergh. A direção de arte ficou a cargo de Víctor Molero, e o figurino, de Sonia Grande.

Los Abrazos Rotos teria custado US$ 18 milhões e, infelizmente, até agora, não há informações sobre seu desempenho nas bilheterias dos países aonde estreou.

Para os interessados em saber sobre as locações desta produção, ela foi filmada em diferentes lugares de Madrid e em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma curiosidade sinistra: segundo consta no site IMDb, o cruzamento aonde ocorre o acidente com os personagens de Mateo e Lena é o mesmo em que, anos antes, morreu em um acidente o artista César Manrique. Ele teria levado Pedro Almodóvar pela primeira vez a Lanzarote – aonde esta e outras cenas de Los Abrazos Rotos foram filmadas. Segundo esse mesmo texto do site, Almodóvar teria dito que não sabia que o acidente de Manrique teria ocorrido ali – e que ficou sabendo disso através dos jornais.

A fotografia de dois amantes envolvidos em um abraço inesperado na praia registrada por Harry Caine no filme tem suas origens ligadas a uma fotografia real registrada por Almodóvar na praia de Lanzarote no ano 2000.

Na ocasião, ele ficou surpreso, após a imagem ter sido revelada, com aquela cena. Almodóvar comentou, então, que o casal parecia guardar um segredo, assim como aquela ilha, e que ele deveria desvelar este segredo.

Mesmo tendo participado e sido exibido, até o momento, em oito festivais de cinema de diferentes países, Los Abrazos Rotos foi indicado apenas a um prêmio: a Palma de Ouro em Cannes. O filme perdeu o prêmio na disputa para Das Weisse Band.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 85%.

Destaco este texto de Kirk Honeycutt, do Hollywood Reporter, que afirma, entre outras coisas, que esta é uma obra “muito menor” de Almodóvar e que ela deveria ser vista mais como um exercício sobre fazer cinema, sobre a nostalgia do cinema, do que como uma história sobre pessoas reais.

Neste texto curto, o crítico Anthony Quinn, do The Independent, afirma que Almodóvar joga com o público e sabe que os espectadores se dão conta disso. Quinn afirma, ainda, que é um prazer para o espectador se perder no laberinto de identidades duplas e informações duplicadas, ainda que o filme nunca chegue a ser excitante ou emocionante o suficiente – como outras produções do diretor.

Além do site oficial do filme, com um texto de Almodóvar que explica, em detalhes, todas as referências, sentidos e inspirações utilizadas na feitura de Los Abrazos Rotos, indico este site especial do jornal El País, o mais importante da Espanha, sobre o diretor. Nele, é possível ver vídeos de entrevistas com Almodóvar, Penélope Cruz e os outros atores centrais do filme.

Em sua entrevista, Almodóvar comenta que o cinema para ele é uma “coisa muito séria” e que seus dois piores pesadelos são os de deixar um filme sem ser concluído e o de que, depois de ter terminado de filmar uma produção, alguém se meta entre ele e esse material, ou seja, que tome as decisões sobre a montagem do filme em lugar do diretor. Em outras palavras, Los Abrazos Rotos trata dos dois maiores temores do realizador a respeito de seu trabalho.

A expectativa de Almodóvar a respeito de Los Abrazos Rotos é que o filme, basicamente, seja um entretenimento para o público, que ele “não resulte longo demais” para o espectador e que seja compreendido.

Quer pouco ele, não? Em seguida, Almodóvar comenta que Los Abrazos Rotos é fácil de entender, e que o que mais lhe interessa é que o público esqueça do relógio enquanto assiste ao filme.

Para ele, Los Abrazos Rotos é uma espécie de “celebração da ficção ela mesma”, porque o roteiro abriga muitas histórias e foi planejado para que, lá pelas tantas, o espectador simplesmente aproveite o que acontece, já que o que está por vir se torna um tanto previsível.

Quando fala de Penélope Cruz, Almodóvar comenta que ela é basicamente uma amiga, porque eles se conhecem há bastante tempo e estão em contato permanente, trocando e-mails ou conversando pelo menos três vezes por semana.

Gostei muito da entrevista da Penélope Cruz. Ela primeiramente fala de sua personagem, dizendo que Lena aparece à princípio como uma lutadora, uma valente, que faz de tudo para sua família e para dar conforto para o pai, e que depois, quando tem a possibilidade de conseguir realizar um sonho, acaba tendo que ser mais atriz na vida real do que no trabalho – também por sobrevivência, segundo a leitura de Penélope Cruz.

Um dos pontos fortes do filme, para a intérprete, é a capacidade de Almodóvar em mudar tantas vezes de gênero dentro da mesma produção. Sobre o diretor, ela comenta ainda que ele é a rede na qual ela se joga todas as vezes em que interpreta um dos papéis de seus filmes.

Segundo Penélope, existe uma honestidade total entre eles. “Me lanço porque ele está lá. São muitos anos de amizade e de relação profissional. Confio totalmente nele”, afirmou a atriz, que se disse segura porque ambos tem um diálogo muito franco sobre os acertos e erros no trabalho.

CONCLUSÃO: Pedro Almodóvar trata de alguns de seus principais medos como realizador de filmes em uma história cheia de autoreferências e com um objetivo muito claro: o de envolver o público em uma história de amor ficcional ao mesmo tempo em que ele faz uma homenagem declarada ao fazer cinema.

Plataforma ideal para Penélope Cruz brilhar, Los Abrazos Rotos brinca com as linhas que dividem a ficção da realidade e mexe com várias referências da obra de Almodóvar e de outros cineastas.

Divertido mais que emocionante – aliás, de emoção o filme tem pouco -, este filme não entra para a seleta lista das melhores obras de Almodóvar, mas ainda assim, entretene (como gostaria o seu realizador). Vale a pena apreciar pelo desempenho de Penélope Cruz e Blanca Portillo, em especial, pela aparição de várias atrizes importantes para o diretor, assim como por sua direção de fotografia e trilha sonora.

SUGESTÕES DE LEITORES: Los Abrazos Rotos estava na minha lista para ser assistido desde que Pedro Almodóvar divulgou informações sobre seu novo trabalho. Sou suspeita para falar, porque tenho este diretor como um dos que devemos estar atentos sempre.

Com uma forma de pensar e de filmar únicas, ele merece nossa atenção a cada novo trabalho. Mas independente da minha expectativa a respeito deste filme, ele foi citado aqui no blog pelo José Carlos Dias no dia 29 de março.

Na época, o José Carlos comentava que era fã do Almodóvar e que queria ver uma crítica sobre seu novo filme aqui no blog, já que muitos lugares haviam publicado comentários muito diferentes a respeito do filme. Pois bem, José Carlos, demorei para escrever, mas aqui está o texto. Espero que tenhas tido (ou tenhas ainda) a oportunidade de assistir a este filme e que passes por aqui para falar a respeito. Um grande abraço!