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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Julieta

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Depois que a gente piscar, será Natal. Pois sim. Entramos na reta final de 2016 e, por isso, decidi começar a olhar para o Oscar 2017. Se vocês acham que eu estou me adiantando, saibam que logo é Natal e, na sequência, faltará pouco tempo para assistir a todos os filmes indicados à maior premiação de cinema do mundo. Então vamos começar os trabalhos. Decidi iniciar com Julieta, o mais novo filme do espanhol Pedro Almodóvar. Ele vai representar a Espanha na busca por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Julieta não é o melhor e nem o pior filme de Almodóvar. O diretor perdeu um pouco do esmero visto anteriormente e parece um pouco cansado.

A HISTÓRIA: Roupa vermelha que parece uma cortina. Respiração. Julieta (Emma Suárez) coloca a escultura sobre a mesa e a embrulha. Ela está preparando a mudança. Em uma gaveta, procura um envelope. Em seguida ela o joga fora. Toca o interfone. Ela deixa Lorenzo (Darío Grandinetti) subir. Ele pergunta como ela está, e Julieta diz que está confusa porque não sabe que livros ela vai levar. Ele diz que eles estão indo para Portugal e que ela pode retornar para Madri quando quiser.

Julieta responde que não gostaria de voltar para a cidade se ela puder evitar. Em uma esquina da cidade, ela se encontra com Bea (Michelle Jenner), uma grande amiga de sua filha, Antía (Blanca Parés). Bea fala de um encontro que teve com Antía no Lago Colmo. Na conversa, Julieta diz que segue em Madri e que continuará ali. Os seus planos acabam de mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julieta): Sempre gostei do Almodóvar. Primeiro, porque gosto de admirar e acompanhar diretores que passam a carreira destilando uma certa assinatura, forjando um estilo próprio. Almodóvar, a exemplo de outros diretores, é um exemplo destes. Além disso, gosto do estilo latino do diretor. Ele levou parte do espírito, dos valores e do estilo da Espanha para o mundo. Como neta de espanhóis, impossível não me interessar pelo cinema daquele país.

Dito isso, reafirmo o que eu comentei antes: Julieta não é o melhor e nem é o pior filme de Almodóvar. Esta produção não está à altura de Hable con Ella (principalmente) e Todo Sobre Mi Madre, mas também ela se revela muito, mas muito melhor que o horripilante Los Amantes Pasajeros (comentado aqui) ou do que o estranho La Piel Que Habito (com crítica neste link). Algo que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi o exagero de diversos elementos.

Para começar, a trilha sonora. Admito que o trabalho do veterano Alberto Iglesias me irritou um pouco desta vez. Ok que Almodóvar quis reforçar a todo momento que este filme tinha elementos de suspense, mas achei a dose exagerada demais. O que acaba jogando contra a história.

Além disso, achei o roteiro escrito por Pedro Almodóvar e inspirado em histórias curtas de Alice Munro também um bocado “over” em diversos momentos. Sim, o diretor espanhol gosta de explorar os exageros e o “drama” dos espanhóis, mas acho que desta vez ele apostou em saídas um bocado simplificadas e exageradas. O roteiro, em si, segue aquela narrativa já tradicional no cinema: começa com a história em um momento de ruptura para, depois, a protagonista, através de um diário que está escrevendo para a sua filha, nos contar o que a levou até aquela situação.

Então partimos do presente para uma longa narrativa de “volta ao passado” que conta parte da história de Julieta e de sua filha única, Antía. O melodrama mostra as suas cartas cedo, logo no início do longo flashback com o suicídio do estranho senhor que se sentou na mesma cabine que Julieta no trem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). História um tanto forçada, um tanto estranha, como diversos outros momentos da produção – destaco, neste sentido, a primeira noite de Julieta e de Xoan (Daniel Grao), também no trem; a “hora da verdade” entre o casal antes do acidente fatal do pescador; e a reação de Antía em diversos momentos.

O filme acaba sendo bem dividido entre o momento presente de Julieta e a sua busca relativa pela “filha ausente” e o longo flashback. O ir e vir do tempo narrativo é constante, o que demonstra uma aposta confortável de Almodóvar por prender a atenção do espectador. Como é característico do diretor espanhol, ele sabe valorizar muito bem o trabalho dos atores. Para começar, Almodóvar escolhe com perfeição os seus talentos.

Desta forma é que vemos grandes trabalhos de Adriana Ugarte (Julieta na fase jovem), Emma Suárez, Inma Cuesta (que interpreta Ava, melhor amiga de Xoan e que acaba sendo uma boa amiga de Julieta no “pueblo”), Daniel Grao e Darío Grandinetti. A sempre ótima Michelle Jenner aparece pouco no filme, mas sempre que ela surge, demonstra talento e a estrela que ela tem.

Vale uma menção especial o bom trabalho de Rossy de Palma, uma antiga colaboradora do diretor. Ela é a “megera” da história mas interpreta, como ninguém, a típica mulher de “pueblo” da Espanha. Com ela, Almodóvar consegue, mais uma vez, repercutir o que a cultura de seu país tem de mais diferenciado. Além dela, possivelmente apenas Julieta e Ava, quando jovens, tem este mesmo mérito na produção. São os papéis mais legítimos, sem dúvida. Os demais tem uma certa simplificação para o gosto do grande público – não estamos nem perto da “Espanha profunda” de filmes como ¿Qué He Hecho Yo para Merecer Esto?

A verdade é que através deste filme Almodóvar parece demonstrar um pouco de “cansaço”. Ele não consegue ser tão original quanto na fase inicial da carreira e nem consegue ser tão preciso e universal como nos seus grandes filmes. Ele não está forjando cada cena e cada diálogo com esmero. Essa fase, parece, ter passado. Agora ele segue mostrando interesse pela cultura espanhola e pelos sentimentos e desejos mais profundos do ser humano, mas apresentando tudo isso de uma forma mais displicente e um tanto preguiçosa. Sinto que para ele é fundamental continuar fazendo filmes, mas que ele já não tem tanta paciência ou interesse de produzir obras-primas.

Então sim, Almodóvar segue sendo interessante. Ele cuida do visual e nos apresenta sempre uma câmera bem focada em ótimos atores, mas não temos mais o mesmo apelo visual e narrativa precisa e interessante de outrora. Em Julieta, temos uma história um tanto estranha de uma mãe que sente a ausência da filha e que a “busca” sem, na verdade, nunca ter a buscado realmente. Afinal, a história não mostra, em momento algum, Julieta indo pessoalmente atrás de Antía. Verdade que ela diz, em certo momento, que prestou queixa na polícia e contratou um investigador. Mas de fato uma mãe se contentaria com isso?

Pode até ser que sim. Mas aí quando ela sabe algo da filha, naquele encontro casual com Bea, não seria mais lógico ao invés dela ter dispensado o namorado e ter voltado para o mesmo prédio em que vivia com a filha ela ter ido no tal lago em que a amiga da filha a encontrou? Ela poderia ter se mudado para perto do lago e ir, pouco a pouco, buscado informações sobre a filha. Mas não… ela entra em um estranho processo de mergulho nas próprias lembranças e em uma crença um bocado irreal de que, depois de 12 anos sem contato com a filha, Antía entraria em contato com ela.

Também não custa voltarmos um pouco na história. Julieta diz que prestou queixa do “desaparecimento” da filha para a polícia e que contratou um detetive particular. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agora, convenhamos. É difícil de acreditar que Antía tenha desaparecido do mapa sem nunca mais voltar para pegar as suas coisas, não? Ok que ela queria romper com a mãe, mas ela realmente teria desaparecido sem ter planejado isso antes (levando parte do que ela tinha junto) ou, caso não fizesse de forma planejada, não teria retornado para pegar as suas coisas em Madri? Difícil acreditar. Além disso, mesmo que ela tivesse saído sem nada e nem voltado, certamente ela usou algum cartão de banco ou “libreta” para tirar dinheiro. Neste caso, ela poderia ter sido rastreada.

Então é difícil de engolir a “fuga perfeita” de Antía como o filme de Almodóvar quer fazer o espectador crer. As reações de Julieta após o desaparecimento da filha e os de Antía após a morte do pai também me pareceram um tanto deslocados e propositalmente exagerados pelo diretor/roteirista. Descontados estes pontos, Julieta tem alguns pontos bem interessantes de “ironia” da vida. Vejamos.

Mas importante dizer que não deixa de ser irônico dois pontos importantes da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a dificuldade de Julieta aceitar e perdoar o pai que traia a mãe dela – aparentemente com Alzheimer – antes dela morrer. Oras, a própria Julieta não ficou com Xoan antes da mulher dele, que estaria em coma há cinco anos, morrer? Desta forma Almodóvar quer expressar a sua reflexão sobre a hipocrisia das pessoas – e, consequentemente, da sociedade. Julieta age no melhor estilo “façam o que eu digo e não façam o que eu faço”.

Outra ironia importante da produção é que Antía rompe o silêncio e envia uma carta para Julieta depois que ela própria perde um filho – e quase da mesma forma com que ela perdeu Xoan, ou seja, em uma morte na água. Ao sentir na própria pele a dor da perda de um filho, ela resolve procurar a mãe. Muitas vezes alguém só se dá conta de um erro ou de um sentimento quando passa pela mesma situação. Infelizmente nós temos menos empatia do que nós deveríamos no nosso dia a dia – e especialmente quando as relações em jogo são um tanto conturbadas.

Além destes pontos fundamentais de Julieta, há outros três “secundários” e que acabam sendo interessantes também. Primeiro, a figura de Marian, a típica mulher de “pueblo” (interior) que sabe de tudo e que não se contenta em apenas saber das coisas, mas também em falar “verdades” cruéis para as pessoas quando tem uma oportunidade – sem, exatamente, medir as consequências. Depois, o filme claramente trata de paixão/amor e de culpa, dois elementos tão importantes na cultura espanhola.

A culpa é considerada uma herança da cultura com forte presença católica, mas a verdade é que ela tem pouca justificativa na religião e bastante em uma cultura que leva tempo para se libertar de seus “pecados” e da interpretação que fez deles. Mas este elemento, a culpa, é algo importante nesta história. Julieta acaba nos mostrando, como outras produções já fizeram, os efeitos daninhos que a culpa pode ter para uma pessoa e para quem está em volta. Finalmente, o terceiro elemento pincelado por Almodóvar é a homossexualidade, desta vez apresentada nas entrelinhas da relação entre Bea e Antía – e apenas semi-revelada para Julieta perto do final.

Como outros filmes de Almodóvar, Julieta tem bastante tempero e diversos elementos que fazem pensar. Pena que o diretor já não se esmere tanto nos detalhes, especialmente no visual, na história e no ritmo cadenciado do filme. Julieta tem ótimos atores, tem algumas cenas muito interessantes e alguns elementos que lembram a boa fase do diretor, mas ele carece de uma história um pouco mais verossímil e de uma carga menos melodramática e exagerada.

Talvez se não tivesse forçado a barra na trilha sonora e em alguns elementos da história, teria funcionado melhor. De qualquer forma, Julieta segue sendo Almodóvar. E o diretor, geralmente, está acima da média. Além disso, não deixa de ser interessante a escolha dele para o final. Muita gente vai ficar frustrada por não ver o reencontro. Mas acho que esta foi a forma de Almodóvar nos dizer que o importante não é a resolução de um problema, mas o caminho que fazemos até que tudo esteja resolvido. Esse final não me frustrou, ainda que eu entenda quem tenha ficado “chateado”. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor faz algumas escolhas estranhas. Por exemplo, substituir Adriana Ugarte por Emma Suárez quando Antía ainda era uma adolescente. Para mim, teria feito muito mais sentido fazer esta substituição quando Antía tinha 18 anos e resolveu fazer o seu retiro espiritual. Verdade que o corte do cabelo e outros detalhes fazem o “esforço” de apresentar uma Julieta com Emma Suárez mais “jovem” quando a filha dela tem 18 anos mas, mesmo assim, achei a escolha estranha e equivocada.

Falando em desenvolvimento de personagens, verdade que Julieta é bem desenvolvida. Dentro do que a história permite. Mas acho que faltou mostrar um pouco mais de Antía, especialmente na fase pouco anterior ao retiro espiritual. Das duas fases de Julieta, sem dúvida alguma também preferi a fase dela jovem. Acho que Adriana Ugarte nos apresenta uma personagem melhor acabada e estruturada do que na fase de Emma Suárez.

Pedro Almodóvar faz um bom trabalho na direção, ainda que ele não esteja no mesmo nível de trabalhos anteriores como Hable con Ella e Todo Sobre Mi Madre. Mas, como eu comentei antes, ele segue valorizando o trabalho dos atores, colocando a câmera sempre próxima deles mas sem se esquecer também dos cenários e das paisagens que, para ele, são tão importantes para a história quanto os diálogos e as interpretações. Neste sentido, vale destacar também o trabalho do diretor de fotografia Jean-Claude Larrieu e do editor José Salcedo.

Como é característico dos filmes de Almodóvar, vale destacar ainda os figurinos, sempre muito bem escolhidos e parte fundamental da narrativa. Em Julieta quem faz este trabalho é Sonia Grande. Belo trabalho, muito coerente com a história e cada um dos personagens. Sem dúvida alguma ajuda a construir cada um deles e a história.

O filme é bastante centrado em Julieta, como o nome da produção mesmo sugere. Além dela, tem o pequeno grupo de atores que eu já destaquei anteriormente. Eles é que tem o maior destaque na história. Mas há outros atores com papéis secundários que vale citar porque eles tem um trabalho competente, apesar de pequeno. Vale citar Pilar Castro como Claudia, a mãe de Bea; Sara Jiménez está bem como Bea na adolescência; Susi Sánchez como Sara, mãe de Julieta; Mariam Bachir como Sanáa, empregada e amante do pai de Julieta; Joaquín Notario como Samuel, pai da protagonista; Ramón Aguirre como Inocencio, o porteiro do prédio em que Julieta vai morar em duas ocasiões; Priscilla Delgado e Jimena Solano como Antía quando ela era uma adolescente e uma criança de dois anos de idade, respectivamente.

Julieta estreou em abril deste ano na Espanha. No mês seguinte o filme participou do Festival de Cinema de Cannes e, depois, de outros 16 festivais em diferentes lugares do mundo – os últimos três a partir de 7, 8 e 9 de outubro, nestes dias, são os de Nova York, Busan e Hamptons. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Diretor entregue pelo International Cinephile Society Awards.

Não sei, mas achei algumas escolhas de Almodóvar um tanto toscar. Vou citar apenas uma delas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Muito estranha e mal feita aquela sequência do atropelamento de Julieta. Realmente não me convenceu. Há outros momentos em que Emma Suárez também está bem inconstante. Mas aquela sequência para mim foi a mais tosca. O que apenas reforça o que eu comentei sobre Almodávar estar um pouco displicente. Paciência.

Adriana Ugarte, Michelle Jenner e Inma Cuesta. Isso que eu chamo de uma bela seleção de beldades e de aposta em jovens talentos que ajudam a rejuvenescer o cinema espanhol. Almodóvar, mais uma vez, acerta nas escolhas.

Para quem gosta de saber os locais em que um filme foi rodado, vale citar as locações de Julieta: Redes, em La Coruña (casa de Xoan); Madri; Ares e Mugardos, em La Coruña; Mairena del Alcor, em Sevilla (casa dos pais de Julieta); Panticosa, em Huesca (sequência em que Julieta dirige para o retiro da filha); Algodor, em Toledo (estação do trem); Fanlo, na Comarca de Sobrarbe, em Huesca (local “remoto” no final do filme que mostra os Pirineus). Em Madri, vale citar alguns endereços: Calle del Marqués del Riscal e Calle Monte Esquinza (encontro de Bea com Julieta), Eva Duarte Park, na Calle Dr. Gómez Ulla (quadra de basquete), Calle Fernando VI (apartamento de Julieta) e Colegio Estudio, na Calle Jimena Menéndez Pidal (escola em que Julieta dá aula quando jovem).

Interessante que Julieta, na Espanha, recebeu o nome de Silencio. De fato, este é um elemento importante nesta produção. Muitos não se comunicam e esta falta de comunicação é fundamental para a história. Tanto que, e percebemos isso aos poucos, Julieta realmente não conhece a própria filha. Sem dúvida isso foi algo importante para explicar tudo o que aconteceu. O silêncio é bom, mas nas relações ele não ajuda muito.

Este é o 20º filme de Almodóvar. Grande diretor. Apesar dos deslizes, merece totalmente o nosso respeito e admiração.

O roteiro de Julieta foi escrito por Almodóvar tendo como material original que o inspirou as histórias Destino, Pronto e Silencio da escritora Alice Munro e que fizeram parte de uma coleção que ela lançou em 2004.

Todas as esculturas que no filme aparecem como sendo de Ava são, na verdade, do artista Miquel Navarro.

Uma curiosidade que vai além do filme – ainda que tenha relação com a divulgação dele: Pedro Almodóvar cancelou todas as entrevistas e a estreia oficial desta produção em Madri por causa da divulgação do Panama Papers. O nome do diretor e do seu irmão, Pedro Almodóvar, apareceram neste material sobre paraísos fiscais e empresas offshore.

O roteiro original do filme foi escrito em inglês e a ideia era rodar a história no Canadá. Mas Almodóvar não se sentiu cômodo, no final, em gravar uma produção em um idioma que ele realmente não dominava e em país em que ele não estava familiarizado. Por isso ele resolveu fazer o filme em espanhol e em seu país de origem. Acho que foi uma boa escolha, porque apesar dos probleminhas do roteiro, o filme convence por se passar na Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Julieta, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 55 críticas positivas e 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,6. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Elas são muito boas se levarmos em conta o padrão de ambos.

Esta é uma produção 100% da Espanha.

 

CONCLUSÃO: Pedro Almodóvar é um destes diretores com assinatura. Sobre isso, não há dúvida alguma. Mas já vimos filmes melhores dele. Com Julieta o diretor espanhol mostra que perdeu um pouco do rigor no estilo narrativo e também na força do roteiro. Ele cai algumas vezes no exagero e em saídas cômodas para os problemas da história, mas segue valorizando o trabalho dos atores e a reflexão sobre questões importantes para os indivíduos. Mais uma vez é um prazer ver Madri e um pouco da cultura espanhola, ainda que a apresentação não seja tão interessante como já foi um dia. De qualquer forma, é um bom filme, apesar de seus exageros e pontos difíceis de acreditar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu comentei lá no início, Julieta foi escolhido pela Espanha para representar o país no Oscar 2017. Com ele eu começo a ver filmes que estão cotados para diferentes categorias da maior premiação de Hollywood. Ainda que eu respeito Almodóvar e a sua filmografia, francamente eu não vejo Julieta com qualquer chance de chegar na lista dos cinco indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ele não tem qualidade para tanto. Só chegaria lá se estivéssemos em um ano com uma safra fraquíssima, o que eu acho difícil de ser o caso. Então, honestamente, eu não apostaria nele para chegar até perto de uma estatueta.

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Los Amantes Pasajeros – I’m So Excited! – Os Amantes Passageiros

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O mundo é gay. E as pessoas aguardam apenas um momento de incerteza para transar, e muito. Essas são duas premissas do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, Los Amantes Pasajeros. Entendo o desejo do diretor de perder um pouco o controle vez ou outra, mas este filme, que começa até engraçado, lá pelas tantas perde a direção de maneira impressionante. Esqueça a fase mais filosófica e interessante do diretor. Em Los Amantes Pasajeros Almodóvar volta a trilhar o caminho iniciado no anterior La Piel Que Habito, no qual o principal interesse do realizador é assumir o exagero como ideia fundamental de seu trabalho.

A HISTÓRIA: Equipamentos são retirados após o embarque dos passageiros em um avião da companhia aérea Península. Uma das últimas etapas é a retirada das proteções dos pneus dos trens de pouso, feita por León (Antonio Banderas). Ao ver a Jessica (Penélope Cruz), León se entusiasma. E é correspondido. Distraída, Jessica atropela a um operário (Coté Soler). Este incidente interrompe as tarefas de León, o que vai prejudicar o voo pilotado por Benito Morón (Hugo Silva) e Álex Acero (Antonio de la Torre), e exigir jogo de cintura da equipe formada por Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Rául Arévalo) para controlar os poucos passageiros que acabam não sendo sedados no avião.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Amantes Pasajeros): Gosto muito do estilo Almodóvar de fazer cinema. Especialmente porque ele deu um novo vigor para um cinema que tinha pouca relevância há algumas década, que era o cinema espanhol.

Depois de alguns experimentos nos anos 1970, Almodóvar chegou na década seguinte com filmes como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, Entre Tinieblas e o divertidíssimo Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! O cinema dele era exagerado, mas carregado de sentido, de significados, da cultura espanhola e de uma carregada crítica ao puritanismo, a hipocrisia e aos valores antigos que pareciam não fazer mais sentido em uma sociedade que tentava ser mais moderna e libertária.

No final dos anos 1990, com Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella, Almodóvar deixa para trás o desejo de chocar com sexo e comédia carregada de costumes para fazer um cinema mais denso, psicológico, quase filosófico. Com estes filmes, ele chega ao auge da carreira, ganhando fãs internacionalmente que ele nunca tinha imaginado um dia conseguir. Paralelo a isso, ele também melhorou com a técnica da direção e da narrativa. Tornou-se um diretor e um roteirista melhor.

Muito bem, isso até este Los Amantes Pasajeros. Certo que suas produções anteriores, Los Abrazos Rotos (comentada aqui no blog) e La Piel que Habito (o qual comentei neste texto) não falavam tanto dos dilemas humanos quanto os brilhantes Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella mas, cada um deles, tinha peso dramático e envolvia o espectador a sua maneira. Além de roçar com exageros interessantes, que revisitavam partes “perdidas” da filmografia do diretor.

Los Amantes Pasajeros retoma a parte mais sexual de Almodóvar, mas sem muito sentido. Na verdade, o filme inicia como uma grande brincadeira. Os espanhóis tem um pouco essa filosofia de “cachorros de rua”. Até recentemente, antes da conquista da última Copa do Mundo, a Seleção espanhola era sempre vista como aquela que lutava, brigava, mas sempre morria na praia. E em muitas outras esferas, que não apenas a do futebol, eles são vistos como incapazes de grandes feitos – e essa leitura eu faço por ter morado na Espanha por alguns anos e ter visto esta estranha e constante divisão dos espanhóis entre serem arrogantes e terem este complexo de inferioridade mal resolvido.

Então imaginar uma situação como a vivida em Los Amantes Pasajeros com a filosofia do “cachorro de rua” espanhola é divertido. Um avião com risco de não conseguir pousar é um problema para qualquer tripulação e passageiros, mas nem todos lidariam com esta situação de forma tão displicente e típica quanto os espanhóis. Certo, a ideia até que não é ruim. Mas o desenvolvimento dela que acaba sendo o problema.

Quem já assistiu a muitos filmes, certamente viu a alguns clássicos que tem o ambiente claustrofóbico de um avião como cenário principal. A referência máxima de comédia sobre uma situação complicada é o filme Airplane!, simplesmente genial. Então quando Los Amantes Pasajeros começa a ganhar corpo e percebemos que aquele avião com três comissários de bordo gays tem problemas, é inevitável não relembrar do descontrole de Airplane! O que é ruim para a nova produção do diretor espanhol.

O roteirista Pedro Almodóvar faz comédia nos mínimos detalhes. A companhia aérea da produção chamar-se Península, por exemplo, faz alusão à empresa Iberia – que, inclusive, faz “presença” no filme com um avião que decola antes da aeronave onde a maior parte da história se passa. Os primeiros minutos da produção, com Antonio Banderas e Penélope Cruz fazendo pontas com acentuados sotaques andaluzes, também é uma cereja no bolo – os dois, como vocês sabem, foram descobertos e lançados no cinema por Almodóvar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em seguida, somos apresentados a figuras muito típicas do imaginário espanhol – a mulher “vidente”, Bruna (Lola Dueñas); o “matador de aluguel” Infante (José María Yazpik); o “don juan de meia idade” Ricardo Galán (Guillermo Toledo); o “executivo ladrão” Sr. Más (José Luis Torrijo) e a “celebridade” que conhece os homens mais poderosos do país, Norma Boss (Cecilia Roth). Almodóvar junta todos eles na classe executiva de um avião que tem o risco de não conseguir pousar por causa da trapalhada que acontece no início da produção.

Para enfrentar o problema, estes passageiros e mais os tripulantes, incluindo o trio de comissários gays e os pilotos “de cabeça aberta”, entram em uma sequência de “buscas pelo essencial” de suas vidas. Daí surgem as ligações telefônicas em que todos escutam tudo, e que passam pela escolha de Almodóvar em mostrar as mulheres da vida de Galán, assim como a tentativa de Norma em ameaçar um ministro para defender a própria vida e a retomada de um contato importante na vida de Sr. Más.

Para mim, o filme começa a perder a graça quando sai do avião e segue Alba (Paz Vega, irreconhecível) e Ruth (Blanca Suárez). Uma história paralela que não agrega praticamente nada para a trama e que faz o filme perder o ritmo. Dispensável, pois. A única justificativa para aquelas sequências foi o diretor colocar duas belas mulheres – especialmente Blanca – em cena.

Além de fazerem contato com as últimas pessoas com quem gostariam de falar na vida – afinal, existe a dúvida se aquele voo pode ser o último de suas existências -, os personagens principais da trama enchem a cara de álcool e sexo. No melhor estilo “o que você faria se este fosse o seu último voo”, cada um revela a sua personalidade sem filtros e sem censura. E isso é tudo.

O filme é cheio de baboseira mas, se visto com um pouco de distanciamento, se revela uma sátira à Espanha contemporânea. Algo que marca o cinema de Almodóvar – aqui, pelo menos, ele não se perdeu. O problema apresentado no filme é provocado pelos próprios espanhóis – com aquela trapalhada inicial protagonizada pelos personagens de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Fazendo um paralelo, é o mesmo que dizer que a bolha imobiliária, a grande causadora da crise atual na Espanha, foi causada pela ambição e pela falta de critério dos próprios espanhóis – se não de todos, pelo menos do sistema financeiro, que no filme é criticado pelo exemplo do Sr. Más. Aliás, no jornal que o personagem lê, é possível ver vários escândalos envolvendo “cajas” e bancos do país – o que de fato aconteceu.

Como as pessoas agiram para enfrentar a crise atual, e que segue persistente, no país de Almodóvar? Houve o 15M, é claro – que envolveu passeatas e “acampadas” para protestar contra as políticas de cortes do governo e contra a crise. Mas, no dia a dia das pessoas, houve também muita gente enfrentando os problemas com álcool, drogas, sexo e musicais. Alguns quiseram manter as aparências, como Norma Boss, enquanto tantos outros, talvez a maioria, permaneceu “anestesiado” – como a maior parte dos passageiros do voo comanda por Almodóvar.

Fazendo esse exercício de paralelo dramático/artístico com a realidade espanhola, até que o filme não parece tão idiota assim. Mas enquanto eu estava assistindo à produção, o pensamento predominante era: “Almodóvar, meu caro, aonde você vai com esta história burlesca?”. Não achei que ele fosse chegar a parte alguma, mas torcia para o filme não ter mais de duas horas. E, uma das poucas qualidades desta produção, além de uma ou outra parte realmente engraçada, é que ela dura menos de uma hora e meia. Gracias! Agora, nos resta esperar a um Almodóvar um pouco mais inspirado e menos tresloucado da próxima vez.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que assisto a uma comédia, fica evidente para mim que o humor é algo muito, muito pessoal. Até mais do que outras escolhas que fazemos na vida – como o time de futebol para o qual torcemos, nossa religião ou forma de amar. Muitas vezes o meu senso de humor não coincide com o de vários leitores deste blog. Sabendo disso, sou obrigada a comentar que o “ponto alto” desta produção, que é a encenação da música I’m So Excited, de The Pointer Sisters, não me fez gostar mais do filme. Pelo contrário. Achei muito sem graça.

Adoro assistir a Madrid como personagem de filmes – especialmente dos de Almodóvar. Mas achei bem forçada a entrada da cidade na história junto com as personagens Alba e Ruth. Ok que o diretor quisesse dar mais “profundidade” para os seus personagens. Mas, de fato, a entrada das duas mulheres no roteiro torna o filme mais interessante? Não achei.

Agora, nem tudo são problemas em Los Amantes Pasajeros. Javier Cámara está maravilhoso no papel de Joserra, o comissário que ganha protagonismo na história. Também foi muito bom rever Raúl Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva e Antonio de la Torre em cena. Eles são alguns dos atores mais importantes do cenário do cinema espanhol atual. Sem contar, claro, a sempre diva Cecilia Roth e a respeitada e competente Lola Dueñas.

Algo bacana nesta produção é o espaço que ela dá para os bonitões made in Espanha. Hugo Silva, claro. E, além dele, Miguel Ángel Silvestre como o Noivo que é um colírio para os comissários do avião – e para os espectadores.

Tecnicamente, mais uma vez, Almodóvar nos entrega um filme limpo e bem construído visualmente. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia José Luis Alcaine. A trilha sonora, um dos pontos fortes da produção, achei apenas “ok”, nada demais. E ela é assinada por Alberto Iglesias, antigo parceiro do diretor.

Inicialmente eu estava dando até uma nota menor para este filme. Um 5. Mas aí o paralelo com a atual situação da Espanha me fez melhorar um pouquinho a nota. Ainda assim, claro, ela está muito abaixo da média para os filmes do Almodóvar.

Falando em notas, vale citar os dois sites que eu normalmente comento por aqui. Os usuários do IMDb deram a nota 5,7 para esta produção. Para vocês terem uma ideia, esta é a menor nota para um filme de Almodóvar no site, exceto por Folle… Folle… Fólleme Tim!, primeiro e desconhecido longa do diretor lançado em 1978. Todas as outras produções lançadas por ele depois tem uma nota melhor que Los Amantes Pasajeros. Achei justo porque, afinal, este filme está beeeem abaixo do padrão do diretor ao qual estamos acostumados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 56 textos negativos e 52 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% e uma nota média de 5,7. Quase empatei na avaliação com eles – e só porque gosto muito do Almodóvar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: Los Amantes Pasajeros marcou a sétima parceria entre Banderas e Almodóvar e a quinta entre Penélope Cruz e o diretor. Mesmo com tantas presenças em filmes do diretor espanhol, esta foi a primeira vez que os dois contracenaram juntos em uma produção de Almodóvar.

Como normalmente faz em suas produções, Pedro Almodóvar dá uma pequena ponta para o irmão e produtor Agustín Almodóvar. Ele “interpreta”, neste filme, ao controlador da torre do aeroporto onde a produção acaba.

Los Amantes Pasajeros estreou no circuito comercial dos cinemas espanhóis em março deste ano. Depois, o filme passaria por cinco festivais, nenhum de ponta. O mais conhecido é o de Los Angeles. Nesta trajetória, a produção não foi indicada para nenhum prêmio – seria uma surpresa se tivesse acontecido diferente.

Para quem gosta de saber os locais em que o filme foi rodado, Los Amantes Pasajeros teve cenas gravadas em Madrid e em Ciudad Real.

De acordo com o site Box Office Mojo, este último filme de Almodóvar conseguiu, até o último dia 22 de agosto, quase US$ 1,3 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 10,3 milhões nas bilheterias dos demais mercados onde já estreou. Pouco, como se pode ver.

CONCLUSÃO: Gostei do começo despretensioso e irônico de Los Amantes Pasajeros. As pontas dos astros Antonio Banderas e Penélope Cruz foram muito bem planejadas e tem o tempo adequado para o filme. Depois, achei brilhante o desempenho de Javier Cámara e Lola Dueñas. Mas quando Los Amantes Pasajeros resolve colocar histórias paralelas para “aprofundar” a ação, em um filme nada profundo, e descamba para a orgia, me cansei.

Aparentemente Almodóvar se cansou de fazer filmes mais “existenciais”, naquela fase em que ele se tornou um cineasta premiado e reconhecido internacionalmente. Não acho que ele seja obrigado a seguir uma filmografia séria, até porque o passado dele é muito mais satírico, exagerado e polêmico e abandonar esta verve seria negar o próprio passado do diretor. Mas este novo filme dele, para mim, apenas tirou uma hora e meia do meu tempo, que poderia ter sido utilizado para assistir a um filme melhor, com um diretor e roteirista mais inspirado. Esta produção tem alguns momentos engraçados mas, no saldo geral, achei ela beeeeem dispensável – apesar da produção fazer uma sátira contemporânea da Espanha. Veja se gostar muito do diretor e se não tiver nada melhor para assistir.

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La Piel Que Habito – A Pele Que Habito

Pedro Almodóvar é um sujeito raro. Ele tem um gosto estético e apreço pelas estranhezas da alma humana diferenciados no cinema mundial. Quem mais, além dele, poderia fazer um filme como La Piel Que Habito? David Lynch, talvez. Mas certamente Lynch faria isso com menos dramaticidade, cores, lógica histérica e sóbria, dependendo do momento, como Almodóvar. O diretor espanhol sabe como fascinar, provocar risos, tesão e chocar como poucos. Mais uma vez, ele faz tudo isso. Ainda que com menos maestria que em produções anteriores. Ou, talvez, um pouco menos de classe.

A HISTÓRIA: Toledo, 2012. Na propriedade El Cigarral, uma mulher faz exercícios. Depois ela medita, enquanto lhe preparam um café da manhã com um remédio dissolvido no suco de laranja. Com um livro de Louise Bourgeois ao lado, ela corta um pedaço de tecido fino com uma lixa de unha para moldar mais um personagem. Marilia (Marisa Paredes), empregada da casa, envia por um elevador interno o café da manhã de Vera (Elena Anaya). Depois de fazer um pedido e tê-lo recusado, Vera escolhe um vestido, o coloca e corta um pedaço do pano. Corta. Ouvimos, em um auditório, o médico Robert Ledgard (Antonio Banderas) fala sobre a importância da reconstrução estética para a recuperação de sobreviventes de queimaduras. Logo mais, vamos descobrir o que une Vera e Ledgard.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Piel Que Habito): O apuro estético e a força da trilha sonora de La Piel Que Habito foram os dois elementos que me chamaram a atenção no filme, logo no início. E eles seguiram se destacando até o final. Almodóvar tem um gosto plástico e estético fundamental. Ele avançou nesta qualidade com o tempo e, mesmo que a história deste novo filme relembre produções mais antigas, este apuro estético revela a evolução do diretor. Relembra sua fase mais atual. E a trilha sonora…

Logo no início, fiquei imaginando o filme sem a música que o cadencia. Ele perderia, sem dúvida, muito de sua graça. O que só comprova que La Piel Que Habito é uma produção dramática, que exige uma trilha sonora potente para intensificar as “emoções” exploradas pelas linhas do roteiro. De fato, o ótimo e experiente Alberto Iglesias faz neste filme mais um grande trabalho. A trilha é tão protagonista desta produção quanto Antonio Banderas e Elena Anaya.

Além da música e do critério estético apurado de Almodóvar, La Piel Que Habito se destaca por retomar um tom dramático exarcebado do diretor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele nunca tenha deixado de ser “visceral”, em seus últimos filmes a violência ligada ao sexo perdeu força. Os gostos mais duvidosos e as taras mais estranhas perderam força em outras produções – algo que era mais comum no início da carreira de Almodóvar. Mas aqui, elas voltam a mexer com a libido e a imaginação do espectador.

Sem medo de errar, o diretor e roteirista investe em uma história densa, que trata de loucura, paixão, desejos reprimidos, busca da perfeição e de vingança e, claro, desejo de fugir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elementos que Almodóvar conhece bem, por eles estarem tão entranhados na cultura espanhola. Não deixa de ser especialmente significativo este filme desenrolar-se em Toledo, uma cidade pequena, muito turística, tradicional e que é “vendida” como local do encontro de três culturas: a cristã, a judia e a islâmica.

Interessante que, desde o princípio, La Piel Que Habito deixa claro que Vera era uma prisioneira. Sabemos disso, mas não entendemos bem o porquê daquela prisão, no início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A semelhança dela com Gal, a mulher morta de Robert, abre uma série de conjecturas. Por exemplo: seria possível ele ter feito um clone da mulher? Mas aí a questão da idade não bateria – ele teria que estar muito mais velho. Por isso mesmo, quando descobrimos o que realmente aconteceu, a surpresa não é completa. O que surpreende, claro, é a narrativa das mudanças pelas quais passa Vicente (o ótimo Jan Cornet) feita com esmero e requintes de sadismo por Almodóvar.

Este desejo de mostrar o absurdo em detalhes, quase com uma lupa, é o que faz Almodóvar sem quem é. E que torna La Piel Que Habito um retorno curioso para o lado mais sádico do diretor. Há humor e absurdo na história, claro, como é típico de Almodóvar. Mas o dramalhão está ali, assim como o esforço do diretor em mostrar que muitos dos problemas psicológicos e ações desmedidas/violentas tem origem em desejos sexuais mal administrados.

A respeito dos protagonistas, algo me chamou a atenção: o quanto eles estão presos a desejos opostos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desde o princípio, Vicente/Vera alimenta um desejo angustiante de fuga. Ele quer sair de Toledo, daquela forma de vida provinciana. Mas apegado à mãe (Susi Sánchez), ele adia a saída do “pueblo”. Depois, quando acontece o que acontece e ele passa a ser prisioneiro, ele segue querendo fugir. Mesmo quando parece que não, que ele está conformado. É apenas a forma dissimulada que ele adota para sobreviver.

(SPOILER). Por outro lado, Robert está apegado àquela “finca”, à sua propriedade e sentimentos. Mesmo quando o amor que ele sente é por pessoas que já morreram e por realidades que não podem mais ser resgatadas. Ele é a permanência, o tradicional, o sujeito que aparenta uma coisa para a sociedade mas que, em casa, revela-se algo totalmente diferente – e repugnante, detestável. Vicente é o rebelde, aquele que toma drogas para aguentar uma realidade que não suporta. Ele é o novo que não consegue lidar com o antigo e com as aparências enganosas.

Não acho que foi um acaso a escolha do título deste filme ou mesmo do que este nome significa dentro da trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, todo aquele cuidado de Robert com a pele de Vera simboliza o seu apreço pelas aparências. Mas a pele e, consequentemente, estas aparências não resistem muito tempo. Não resistem ao desejo da mudança de Vera/Vicente. Roupas, tecidos, peles se rasgam e se cortam facilmente. Robert, que simboliza a sociedade tradicional espanhola – e de vários outros países – pode até costurar, remendar, consertar. Alterar as aparências para atingir determinados padrões de beleza. Mas o que Almodóvar parece nos dizer, implícita ou explicitadamente, é que este jogo de aparências terá fim. Uma hora ou outra, e talvez de maneira trágica. Porque, afinal de contas, “o novo sempre vem”. E ele, normalmente, quebra os padrões até então vigentes. Rasga peles. Algumas vezes sem remendos.

Esta, para mim, é a leitura principal de La Piel Que Habito. É a mensagem de fundo de um filme que pode ser visto apenas como uma sequência de bizarrices. Ok, essa compreensão também não estaria equivocada. Mas como qualquer outro filme de Almodóvar, o diretor quer dizer mais do que o óbvio. Pelo que eu comentei antes, achei o filme interessante. Os atores, mais uma vez, são um ítem a parte. Muito bem escolhidos pelo diretor, eles dão um show. Convencem. Emocionam. Conduzem os espectadores pela mão.

Antonio Banderas, que há tempos não me convencia como ator, está bem. Para a minha surpresa, devo admitir. Ele não está exagerado – em um papel onde não seria difícil um ator se perder. Está sóbrio, preciso, charmoso e viril, como o personagem exige. Elena Anaya também está perfeita, mostrando fragilidade nos gestos e firmeza no olhar que definem a personagem. Marisa Paredes… bem, ela está engraçada como sempre. Uma veterana que merece respeito. Mas quem rouba a cena, para mim, foi o ator Jan Cornet. Fantástico. Ele vai ganhando pontos conforme a história vai ficando mais densa. Mas toda a sua interpretação é bem cadenciada, equilibrada para cada momento.

Até aqui, só falei dos acertos de La Piel Que Habito. Mas o filme tem algumas falhas também, a meu ver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, e acho que só nós, brasileiros, vamos entender esta crítica com a devida prudência, achei muito “fake” a forma com que o diretor, que conhece bem o Brasil, simplificou a história de Zeca (Roberto Álamo). Meio boba a mistura do português com o espanhol – ok, muitos brasileiros que moram na Espanha falam o “portunhol”, mas não vi muito sentido em introduzir isso na história. Também bastante óbvia a ideia de “meu filho não foi criado por mim, e sim em uma favela, virando ‘aviãozinho’ logo cedo” para justificar o desvio de Zeca. A velha e batida história de que qualquer criança que cresce na favela está fadada a ser bandido. Achei bobo, simplista. Dispensável.

Além deste ponto e, francamente, o que mais me incomodou, foi o final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ok, sabemos que Almodóvar é dramático. Quem conhece um pouco mais de perto a cultura espanhola, sabe que eles gostam de um drama. Mas aquele “tiroteio” realmente era a forma mais interessante de terminar a história? Para o meu gosto, pareceu demais com o final de qualquer novela. Muito previsível e simplista… até parecia que o diretor estava com pressa de terminar o trabalho. Almodóvar me deu a impressão, com este final, que ele achou muito mais interessante contar a história do que terminá-la. Além disso, há a cena do vestido… eu acho que foi uma forma bacana de terminar o filme. Afinal, como o personagem convenceria quem ele queria com a sua história? Elementos simbólicos sempre ajudam neste sentido. Mas não deixei de me perguntar, mesmo assim, da onde ele tirou aquele vestido? A peça estaria na casa da mãe dele e ele passou lá antes de ir para a loja, já vestido? Certo, nem todo filme precisa ser lógico e convencer em todos os seus pontos. Ainda assim, estas sequências finais me incomodaram e tiraram parte do êxito do filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que é hora de fazer uma confissão, por aqui. Afinal, eis o último dia de 2011. E eis que publico mais um texto atrasado. E a minha confissão para vocês, queridos leitores deste blog, é que eu também sou um pouco rara. Não com o talento do Almodóvar para rareza – e outras coisitas más – mas sou meio estranha para outras coisas. Como na decisão sobre o filme seguinte que eu vou assistir.

La Piel Que Habito estava na minha lista de filmes a serem assistidos há vários e vários meses. Claro, o novo filme do Almodóvar, só poderia fazer parte da minha lista. Mas daí ele foi lançado, chegou aos cinemas brasileiros, e eu não consegui assistí-lo naquele momento. Daí eu pensei: “Ah, agora passou do tempo”. Porque eu sou estranha assim… por mais que eu goste de um diretor ou por mais que eu queira ver a um determinado filme, se eu acho que passou do tempo de assistí-lo, eu deixo pra lá. E vou assistir a outra produção qualquer que está na minha lista.

Só voltei atrás e assisti a La Piel Que Habito no início desta semana porque eu vi que ele está concorrendo ao próximo Globo de Ouro. Daí eu pensei: “Taí a minha desculpa para ressuscitá-lo”. E eis que ele acabou sendo o último filme que eu assisti em 2011. Queria ver outro filme, esta semana, mas não deu tempo. Gostei que, no fim das contas, mesmo que meio que por acidente, acabou sendo este o último a aparecer por aqui em 2011. Faz sentido. Quem sabe esta não é uma homenagem indireta à Espanha, país que eu adoro e que voltei a visitar este ano? Pois…

Até o momento La Piel Que Habito não obteve êxito nos cinemas. Há estimativas de que o filme tenha custado cerca de US$ 13 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia  18 de dezembro, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 2,94 milhões. E olha que Almodóvar é bem conhecido e respeitado na terra do Tio Sam. Na Espanha, o filme chegou perto de conseguir uma bilheteria de US$ 5,8 milhões. No fim das contas, juntando todo o resultado nos cinemas, talvez o filme se pague. Mas não conseguirá quase lucro algum. Algo ruim, claro. Mas nada que impedirá o diretor a seguir trabalhando.

Esta produção estreou no Festival de Cannes, em maio de 2011. Depois, ele participou de outros 12 festivais e duas semanas de cinema. Entre os festivais, esteve no Karlovy Vary, no de Toronto, no do Rio de Janeiro e em Estocolmo. Mesmo com esta trajetória, ele não saiu vencedor em nenhum evento no qual participou.

O único prêmio recebido por La Piel Que Habito, até o momento, foi o de melhor filme em língua estrangeira entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Washington DC. Além deste, ele foi indicado a outros sete prêmios.

Francamente, não acho que este novo trabalho de Almodóvar vai ganhar o próximo Globo de Ouro. Não porque o diretor não mereça. Não porque o filme seja ruim. Mas eu acho que há concorrentes mais fortes. Não assisti a nenhum dos outros quatro indicados, mas acho que seria mais fácil a crítica premiar o iraniano Jodaeiye Nader az Simin (que tem a nota 8,6 no IMDb) ou o belga Le Gamin Au Vélo (com nota 7,6) do que este La Piel Que Habito. Se fosse outro filme do Almodóvar, acho que ele até poderia ganhar. Mas este novo é muito “underground” para levar um prêmio comercial como o Globo de Ouro. Sempre posso errar, claro, mas esta é a minha aposta.

Para quem ficou curioso de saber onde o filme foi rodado, além de Toledo, que aparece identificada no início da história, La Piel Que Habito tem cenas rodadas em Pontevedra, na Galícia; em Puente Ulla e Santiago de Compostela, em La Coruña; e em Madrid.

Todos os atores que aparecem no elenco deste filme fazem um belo trabalho. Mesmo o personagem tosco do Zeca é bem interpretado por Roberto Álamo. Sempre é um prazer assistir a Marisa Paredes. E foi surpreendente ver Banderas bem, assim como o trabalho competente de Elena Anaya. Volto a comentar que achei o grande destaque do filme o ator Jan Cornet. E faltou citar, antes, o bom trabalho de Blanca Suárez como Norma (ou Norminha), filha de Robert Ledgard;  Bárbara Lennie como Cristina, em uma ponta que se destaca na produção; o conhecido ator (pelo menos na Espanha) Eduard Fernández como Fulgencio, amigo do protagonista e que ajuda ele a manter uma clínica ilegal; e de Fernando Cayo em uma ponta como médico.

Como acabou sendo costume na segunda parte da filmografia de Almodóvar, aqui, outra vez, ele dedica momentos relevantes da história para a interpretação de algumas músicas. A artista da vez, na ótica do diretor, é Buika, uma cantora de 39 anos nascida na cidade de Palma, nas Ilhas Baleares. No filme, são interpretadas duas canções dela: El Último Trago e Pelo Amor.

A trilha sonora é fundamental para este filme dar certo. Mas além dela, outros aspectos técnicos merecem ser destacados. O diretor de fotografia José Luis Alcaine faz um belo trabalho, assim como José Salcedo na edição, Antxón Gómez no design de produção e Carlos Bodelón na direção de arte. O figurino, assim como a trilha e a fotografia, também ganha relevância especial. Um bom trabalho de Paco Delgado.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para La Piel Que Habito: 7,7. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes quase acompanharam esta nota. Eles publicaram 112 textos positivos e 30 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% (e uma nota média de 7,3). Especialmente a nota me chamou a atenção, já que os críticos do Rotten Tomatoes geralmente são bem exigentes.

Lembrei de outro detalhe do filme que talvez incomode a algumas pessoas mais detalhistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns de vocês podem pensar, como eu: “Ok, até posso engolir que Vera foi totalmente ‘moldada’ ao gosto de Robert, cortando aqui, emendando ali, enchendo com silicone acolá. Mas como diabos ela foi ter aquela voz, tão diferente?”. Pois então, eis algo muito mais difícil de mudar. Não apenas as mãos e pés são complicadas de serem alteradas. Assim como a estrutura física – um ser mais alto que outro. Mas principalmente, e eis o ponto, a questão da voz. Só que no início do filme vemos Marilia colocando um remédio na bebida de Vera. Poderia ser um tipo de hormônio – ainda que eu ache que deveria ser tranquilizante. E até o “ópio” poderia ser outra substância. Ou enfim, Vera poderia ser tratada com hormônios em outro momento, o que “afinaria” a voz. E no fim, é preciso “tapar um olho” para embarcar na história, não é mesmo? 🙂

Ah sim, e antes que eu me esqueça, La Piel Que Habito não foi o indicado da Espanha para o próximo Oscar. Sendo assim, ele concorreria na premiação apenas em alguma categoria principal – melhor filme, diretor, atores ou roteiro. Acho difícil.

Não comentei antes, mas La Piel Que Habito foi escrito por Pedro Almodóvar com a colaboração de Agustín Almodóvar, seu irmão. Os dois se basearam no livro Tarantula, de Thierry Jonquet.

CONCLUSÃO: Este não é o melhor filme de Almodóvar. Mas com esta produção ele retoma uma fase de estranheza deixada para trás há bastante tempo. Almodóvar dá um tempo na profundidade dramática plasmada em suas últimas produções para contar uma história que flerta entre o terror psicológico, o terror ligeiro e o drama. Claro que há loucura e sexo no meio da história. Dois dos temas de fundo preferidos do diretor. E ainda que ele não emocione, como em outras ocasiões, ele provoca outros sentimentos. E se o cinema existe para isso, para provocar, Almodóvar segue em forma. Há momentos em que a história flerta perigosamente com o mau gosto, com o tosco, mas o diretor acerta o momento exato que faz ele desviar-se do abismo. Como eu disse antes, não é o seu melhor filme. Mas La Piel Que Habito mostra um frescor importante do diretor. Quem sabe o próximo não vem ainda melhor calibrado?

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Los Abrazos Rotos – Broken Embraces – Abraços Partidos

Um filme exageradamente Almodóvar. No que isso significa de acertado, divertido e previsível. Em sua declarada homenagem ao cinema – eu diria, mais especificamente a sua gente -, Pedro Almodóvar capricha nas autoreferências e em alguma “brincadeira” com os lugares-comum dos bastidores da indústria da qual ele faz parte. O resultado disso é uma produção com cores fortes e um roteiro que destaca o trabalho de seus atores, ao mesmo tempo em que explora uma forte carga de emoção e alguma picardia. Como eu disse antes, Los Abrazos Rotos é exageradamente Almodóvar – o que, para fãs do diretor, como eu, resulta em algo bom.

A HISTÓRIA: Assistimos ao ensaio de gravação de um filme. Aparece em cena, junto com Lena (Penélope Cruz), o roteirista e diretor da produção Mateo Blanco (Lluís Homar). Corta. Vemos o mesmo homem, mas que agora se identifica como Harry Caine, através dos olhos de uma desconhecida (Kira Miró) que chegou até o apartamento de Caine depois de ajudá-lo a atravessar a rua.

A bela mulher lê o jornal para Caine que, desta forma, fica sabendo da morte de Ernesto Martel (José Luis Gómez). Pouco depois, o nome de Martel voltará à cena, trazendo à tona uma série de segredos da vida de Caine e de sua amiga e diretora de produção Judit García (Blanca Portillo).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Abrazos Rotos): Quando um grande diretor de cinema resolve falar sobre o seu próprio trabalho, é praticamente inevitável que ele não faça um recorrido sobre alguns de seus principais temas e/ou dilemas.

Mas mais que falar sobre si mesmo e sobre a indústria da qual ele faz parte, Pedro Almodóvar destila em Los Abrazos Rotos uma curiosa reflexão sobre a paternidade e a importância que o fazer artístico têm sobre o próprio resultado deste processo.

Em outras palavras, Almodóvar parece dizer, em letras garrafais: “Pouco importa o que dizem sobre o filme, seu resultado nas bilheterias ou no mercado criado em volta dele.

O importante mesmo é fazer cinema, independente do que pode acontecer com o produto final desta ação”. A velha história da arte pela arte. Mas às vezes as aparências enganam e, ao falar de suas expectativas sobre o filme, fica claro que a Almodóvar lhe interessa, sim, o desempenho do filme no mercado.

Não deixa de ser bonita esta declaração de amor do cineasta ao labor de se fazer um filme. Lars von Trier, do recentemente comentado aqui Antichrist, deve concordar em gênero, número e grau com o espanhol, já que este seu último filme foi mais importante, para ele, pelo processo de filmar do que pelo resultado propriamente dito. Mas o melhor de Los Abrazos Rotos não está em sua vã filosofia.

Como em muitos filmes de Almodóvar, é o texto ousado, irônico e com forte carga emotiva o que faz Los Abrazos Rotos ser uma produção gostosa de assistir. Agora, claro, este não é o melhor filme do diretor. Está entre os que podem ser colocados no meio da sua régua de qualidade – o que, convenhamos, já é muito se comparado a outros cineastas.

Los Abrazos Rotos tem uma diva. E que diva! Mesmo não sendo fã de Penélope Cruz, algo tenho que admitir: ela brilha sob as lentes de Almodóvar. Os dois, definitivamente, foram feitos um para o outro – e Almodóvar, assim, se coloca ao lado de tantos outros diretores que escolheram suas divas, de Chaplin, passando por Hitchcock e até Woody Allen.

Não lembro de ver Penélope Cruz tão bonita em uma produção quanto em Los Abrazos Rotos. Um prato cheio para seus fãs. Mas além de belíssima, a atriz destila talento na pele da protagonista. Mas o filme tem ainda uma outra grande atriz: a genial Blanca Portillo. Uma sorte para os atores Lluís Homar e Tamar Novas (que interpreta Diego, filho de Judit) ter estas duas atrizes para contracenar.

Mas voltando ao trabalho de Almodóvar. Seu roteiro se mostra acertado e envolvente, em grande parte do tempo, mas nem sempre ele segura a atenção do espectador como poderia. A direção de Almodóvar apresenta a mesma inconstância, ainda que ele destile, para nosso deleite, algumas cenas magistrais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Destaco duas destas cenas: a primeira, que faz a fusão de um rolo de filme com a arquitetura de uma escadaria em espiral e, sem dúvida, as sequências em que o controlador Ernesto Martel utiliza o filho e uma especialista na leitura de lábios (Lola Dueñas) para monitorar os passos de Lena. Arrepiante, em especial, o momento em que a protagonista reproduz, ao vivo, a mensagem que havia dito para as câmeras de Ray X/Ernesto Jr. (Rubén Ochandiano) e que era destinada para o marido.

Por momentos como este é que Almodóvar se consagra como um diretor diferenciado. Ele sabe, como poucos, extrair emoção, suspense e humor de relações entre amantes, pais e filhos. Neste sentido, Los Abrazos Rotos segue algumas das linhas conhecidas do cinema autoral do espanhol.

Novamente o tema da ausência da figura paterna se torna importante para a história, seja através da repressão do empresário Ernesto Martel em relação ao seu filho, que é homossexual, ou seja pela ausência pura e simples de um pai na vida de Diego. Os efeitos desta falta de apoio e afeto podem ser vistos nas ações dos filhos, ora manipulados, ora buscando libertar-se do controle familiar.

Mas ainda que o tema familiar seja uma peça importante na história, o grande mote de Los Abrazos Rotos é mesmo os bastidores do cinema. Almodóvar aproveita a oportunidade para destilar algumas ironias muito boas, como a que revela a “simplicidade” em se criar um blockbuster para os adolescentes (vide o esboço de roteiro pensado por Diego depois de ver a um cartaz de uma campanha para doações de sangue) ou a que “alfineta” os produtores estrangeiros eternamente fascinados por Barcelona em detrimento de outras cidades espanholas (um dos últimos desta lista foi o também autoral Woody Allen).

Por um lado, Almodóvar desmistifica o fazer artístico, ao mostrar que a idéia para um roteiro pode partir de uma reportagem no jornal (como é o caso da história de Arthur Miller comentada por Harry Caine) ou em um passeio pelas ruas.

E por outro, ridiculariza a escolha da indústria em repetir fórmulas, variando pouco os temas e, dependendo do país, praticamente nada o cenário. A ironia com a equipe de produção “de americanos” (leia-se estadunidenses) também se justifica pela preferencia do diretor, nascido na Ciudad Real, por Madrid como cenário para seus filmes.

Mas se Almodóvar acerta em muitos momentos, em outros ele faz escolhas questionáveis. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei exagerados – até para os padrões de Almodóvar – os dois momentos mais “dramáticos” do filme. O exagero, muitas vezes, pode levar a um efeito contrário ao desejado. No caso da cena da escada, em que Lena é empurrada, por exemplo, aquele desenlace nos lembra mais uma cena de novela do que uma ação plausível – mesmo para um homem contrariado e enciumado.

Depois, a sequência do acidente de carro… apenas um ato deliberado, com o uso de um veículo com os faróis apagados, por exemplo, justificaria um acontecimento como aquele. Ok, eu sei que nem sempre é possível pedir lógica nos roteiros de cinema, mas achei que nos dois casos Almodóvar cedeu ao recurso mais rápido e simples para desencadear as reviravoltas em suas história. Ele poderia ter caprichado mais.

Ainda que seja uma interessante homenagem ao cinema e que tenha um conjunto de cenas muito bonitas, Los Abrazos Rotos apresenta, no fim das contas, um enredo bastante superficial. Os grandes “mistérios” do filme, no fundo, são totalmente previsíveis. Talvez isso tenha sido planejado pelo diretor. Talvez Almodóvar quis mostrar, com Los Abrazos Rotos, como a fronteira entre realidade e ficção está cada vez mais difícil de encontrar.

Como um trabalho artístico e a vida mesma, as histórias de Los Abrazos Rotos deixam mais fios soltos do que histórias acabadas. No fundo, talvez Mateo Blanco e Harry Caine sejam os alter-egos de Almodóvar que, como eles, se vê dividido entre a importância/necessidade de sua identidade artística suplantando a dele como indivíduo. Um trabalho delicioso (mas não excepcional) de Almodóvar, que presenteia seus fãs e admiradores ao fazer um filme com tantas autoreferências.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Los Abrazos Rotos é uma forma de Almodóvar homenagear as pessoas que fazem parte deste fazer artístico. Mais importante que os filmes em si, para Mateo Blanco (e acredito que, no fundo, para Almodóvar), são os indivíduos que se dedicam à Sétima Arte.

A vida acontece nos bastidores de filmagens, através dos romances, desejos, diferenças de opinião, disputas pelo poder e demais relações estabelecidas por seus contadores de história, técnicos, atores e atrizes.

Sempre me delicio quando Almodóvar coloca em cena algumas de suas atrizes favoritas. Para não perder o hábito, em Los Abrazos Rotos fazem pontas atrizes como as fantásticas Rossy de Palma, Chus Lampreave e Kiti Manver. Todas elas colaboram com o diretor há décadas.

Rossy de Palma, conhecida por La Ley del Deseo, Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios, ¡Átame!, Kika, entre outros, aparece em uma ponta como Julieta. A divertidíssima Chus Lampreave, de Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios, La Flor de Mi Secreto, Volver, entre outros, aparece como uma porteira; enquanto Kiti Manver, de Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, entre outros filmes de Almodóvar, interpreta a Madame Mylene.

Como muitos cineastas que fizeram sua homenagem ao cinema, Almodóvar grava trechos em que cita outros filmes – em Los Abrazos Rotos isso ocorre quando Harry Caine pede a Diego que escolha algo em sua coleção particular. Entre os filmes citados e/ou mostrados em Los Abrazos Rotos estão Magnificent Obsession (do alemão Douglas Sirk), Ascenseur pour l’échafaud (do francês Louis Malle) e Viaggio in Italia (do italiano Roberto Rossellini).

A verdade é que poucos diretores, atualmente, teriam a coragem de Almodóvar em escrever uma história carregada de tantas autoreferências. Digo isso porque “Chicas e Maletas”, o filme dentro do filme, não deixa de ser uma brincadeira do diretor com seu próprio cinema. O humor de Chicas e Maletas lembra, sem dúvida, algumas das primeiras comédias de Almodóvar.

Interessante o questionamento do diretor, nesta história, sobre o momento trágico em que o pseudônimo artístico do protagonista preenche toda a sua vida. Talvez esta seja uma reflexão sobre o próprio papel da entidade Pedro Almodóvar, de quem se espera tanto e, ao mesmo tempo, basicamente sempre o mesmo.

Por essas e outras reflexões e ironias, este filme se mostra diferente dos demais. Único e interessante. Mas esqueçam a forte carga dramática e a reflexão sobre os costumes espanhóis de outros filmes. Los Abrazos Rotos é o mais teatral, por um lado, ou “artificial”, enquanto peça de arte, por outro, que o diretor produziu em sua história.

E, para arrebatar o filme, nada melhor que a frase irônica “Las películas hay que terminarlas, aunque sea a ciegas”. Genial! Este é mais um dos golpes ousados do diretor, que acaba tirando o doce da boca do espectador, depois de mostrar uma parte daquela divertida “produção dentro da produção”.

Mas que ninguém fique triste por não saber como termina Chicas y Maletas… basta escolher a um dos tantos filmes de comédia com picardia de Almodóvar. Reza a lenda, aliás, que “Chicas y Maletas” seria uma variação de Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho da ótima atriz Ángela Molina, antiga colabora de Almodóvar, que aqui aparece interpretando a mãe de Lena.

Como em qualquer filme de um diretor que sabe utilizar bem os recursos disponíveis no cinema, Los Abrazos Rotos prima por uma direção de fotografia, uma trilha sonora, uma direção de arte e um figurino impecáveis.

A direção de fotografia é assinada pelo mexicano Rodrigo Prieto – que tem, no currículo, trabalhos inspirados como Amores Perros, Frida, 21 Grams, Babel e State of Play, só para citar alguns.

A trilha sonora é assinada pelo vasco experiente Alberto Iglesias, colaborador antigo de Almodóvar que trabalhou ainda em alguns dos últimos filmes de Julio Medem, Oliver Stone e Steven Soderbergh. A direção de arte ficou a cargo de Víctor Molero, e o figurino, de Sonia Grande.

Los Abrazos Rotos teria custado US$ 18 milhões e, infelizmente, até agora, não há informações sobre seu desempenho nas bilheterias dos países aonde estreou.

Para os interessados em saber sobre as locações desta produção, ela foi filmada em diferentes lugares de Madrid e em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma curiosidade sinistra: segundo consta no site IMDb, o cruzamento aonde ocorre o acidente com os personagens de Mateo e Lena é o mesmo em que, anos antes, morreu em um acidente o artista César Manrique. Ele teria levado Pedro Almodóvar pela primeira vez a Lanzarote – aonde esta e outras cenas de Los Abrazos Rotos foram filmadas. Segundo esse mesmo texto do site, Almodóvar teria dito que não sabia que o acidente de Manrique teria ocorrido ali – e que ficou sabendo disso através dos jornais.

A fotografia de dois amantes envolvidos em um abraço inesperado na praia registrada por Harry Caine no filme tem suas origens ligadas a uma fotografia real registrada por Almodóvar na praia de Lanzarote no ano 2000.

Na ocasião, ele ficou surpreso, após a imagem ter sido revelada, com aquela cena. Almodóvar comentou, então, que o casal parecia guardar um segredo, assim como aquela ilha, e que ele deveria desvelar este segredo.

Mesmo tendo participado e sido exibido, até o momento, em oito festivais de cinema de diferentes países, Los Abrazos Rotos foi indicado apenas a um prêmio: a Palma de Ouro em Cannes. O filme perdeu o prêmio na disputa para Das Weisse Band.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 85%.

Destaco este texto de Kirk Honeycutt, do Hollywood Reporter, que afirma, entre outras coisas, que esta é uma obra “muito menor” de Almodóvar e que ela deveria ser vista mais como um exercício sobre fazer cinema, sobre a nostalgia do cinema, do que como uma história sobre pessoas reais.

Neste texto curto, o crítico Anthony Quinn, do The Independent, afirma que Almodóvar joga com o público e sabe que os espectadores se dão conta disso. Quinn afirma, ainda, que é um prazer para o espectador se perder no laberinto de identidades duplas e informações duplicadas, ainda que o filme nunca chegue a ser excitante ou emocionante o suficiente – como outras produções do diretor.

Além do site oficial do filme, com um texto de Almodóvar que explica, em detalhes, todas as referências, sentidos e inspirações utilizadas na feitura de Los Abrazos Rotos, indico este site especial do jornal El País, o mais importante da Espanha, sobre o diretor. Nele, é possível ver vídeos de entrevistas com Almodóvar, Penélope Cruz e os outros atores centrais do filme.

Em sua entrevista, Almodóvar comenta que o cinema para ele é uma “coisa muito séria” e que seus dois piores pesadelos são os de deixar um filme sem ser concluído e o de que, depois de ter terminado de filmar uma produção, alguém se meta entre ele e esse material, ou seja, que tome as decisões sobre a montagem do filme em lugar do diretor. Em outras palavras, Los Abrazos Rotos trata dos dois maiores temores do realizador a respeito de seu trabalho.

A expectativa de Almodóvar a respeito de Los Abrazos Rotos é que o filme, basicamente, seja um entretenimento para o público, que ele “não resulte longo demais” para o espectador e que seja compreendido.

Quer pouco ele, não? Em seguida, Almodóvar comenta que Los Abrazos Rotos é fácil de entender, e que o que mais lhe interessa é que o público esqueça do relógio enquanto assiste ao filme.

Para ele, Los Abrazos Rotos é uma espécie de “celebração da ficção ela mesma”, porque o roteiro abriga muitas histórias e foi planejado para que, lá pelas tantas, o espectador simplesmente aproveite o que acontece, já que o que está por vir se torna um tanto previsível.

Quando fala de Penélope Cruz, Almodóvar comenta que ela é basicamente uma amiga, porque eles se conhecem há bastante tempo e estão em contato permanente, trocando e-mails ou conversando pelo menos três vezes por semana.

Gostei muito da entrevista da Penélope Cruz. Ela primeiramente fala de sua personagem, dizendo que Lena aparece à princípio como uma lutadora, uma valente, que faz de tudo para sua família e para dar conforto para o pai, e que depois, quando tem a possibilidade de conseguir realizar um sonho, acaba tendo que ser mais atriz na vida real do que no trabalho – também por sobrevivência, segundo a leitura de Penélope Cruz.

Um dos pontos fortes do filme, para a intérprete, é a capacidade de Almodóvar em mudar tantas vezes de gênero dentro da mesma produção. Sobre o diretor, ela comenta ainda que ele é a rede na qual ela se joga todas as vezes em que interpreta um dos papéis de seus filmes.

Segundo Penélope, existe uma honestidade total entre eles. “Me lanço porque ele está lá. São muitos anos de amizade e de relação profissional. Confio totalmente nele”, afirmou a atriz, que se disse segura porque ambos tem um diálogo muito franco sobre os acertos e erros no trabalho.

CONCLUSÃO: Pedro Almodóvar trata de alguns de seus principais medos como realizador de filmes em uma história cheia de autoreferências e com um objetivo muito claro: o de envolver o público em uma história de amor ficcional ao mesmo tempo em que ele faz uma homenagem declarada ao fazer cinema.

Plataforma ideal para Penélope Cruz brilhar, Los Abrazos Rotos brinca com as linhas que dividem a ficção da realidade e mexe com várias referências da obra de Almodóvar e de outros cineastas.

Divertido mais que emocionante – aliás, de emoção o filme tem pouco -, este filme não entra para a seleta lista das melhores obras de Almodóvar, mas ainda assim, entretene (como gostaria o seu realizador). Vale a pena apreciar pelo desempenho de Penélope Cruz e Blanca Portillo, em especial, pela aparição de várias atrizes importantes para o diretor, assim como por sua direção de fotografia e trilha sonora.

SUGESTÕES DE LEITORES: Los Abrazos Rotos estava na minha lista para ser assistido desde que Pedro Almodóvar divulgou informações sobre seu novo trabalho. Sou suspeita para falar, porque tenho este diretor como um dos que devemos estar atentos sempre.

Com uma forma de pensar e de filmar únicas, ele merece nossa atenção a cada novo trabalho. Mas independente da minha expectativa a respeito deste filme, ele foi citado aqui no blog pelo José Carlos Dias no dia 29 de março.

Na época, o José Carlos comentava que era fã do Almodóvar e que queria ver uma crítica sobre seu novo filme aqui no blog, já que muitos lugares haviam publicado comentários muito diferentes a respeito do filme. Pois bem, José Carlos, demorei para escrever, mas aqui está o texto. Espero que tenhas tido (ou tenhas ainda) a oportunidade de assistir a este filme e que passes por aqui para falar a respeito. Um grande abraço!