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The Imitation Game – O Jogo da Imitação

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Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a História com H maiúsculo que aprendemos na escola está distante da verdade. Evidente que não é possível aprender, no período de 11 anos que incluem o primeiro e o segundo grau, grande parte da história humana com certa profundidade. Ainda assim, eventos inevitáveis de qualquer estudo da História, como a Segunda Guerra Mundial, nos foram ensinados de maneira tradicional, muitas vezes chata. Até que filmes como The Imitation Game nos apresentam a verdade de maneira mais que interessante. Excepcional. Esta produção tem um fundo histórico fortíssimo, mas também histórias de gente inspiradoras.

A HISTÓRIA: Primeiro, o filme deixa claro que o que veremos é baseado em uma história real. 1951, em Manchester, Inglaterra. Alan Turing (Benedict Cumbertbatch) está sentado quieto em uma sala da delegacia local quando chega o detetive Robert Nock (Rory Kinnear). Turing pergunta se ele está prestando atenção, porque o que ele vai contar precisa de atenção total. Voltamos no tempo, e vemos cenas do Serviço de Inteligência (MI6) britânico, que recebe a mensagem de que Turing foi assaltado. Mas o que um professor universitário teria a ver com o Serviço de Inteligência? E quais as razões para ele dizer que, apesar de ter tido a casa invadida, nada foi levada? Pouco a pouco vamos adentrando na história do protagonista e de seus feitos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imitation Game): Esta é uma produção muito, mas muito diferente de Boyhood. E, ao mesmo tempo, guarda semelhanças com aquele que, até agora, eu tinha achado o melhor filme na disputa pelo Oscar 2015. Enquanto Boyhood (com comentário aqui) acompanha o amadurecimento de um garoto da infância até a ida dele para a universidade com o diferencial de vermos o processo acontecendo na nossa frente, The Imitation Game nos revela o amadurecimento de uma sociedade.

As duas produções também valorizam qualidades como a amizade, o companheirismo e a forma surpreendente com que algumas pessoas podem se revelar melhor do que os outros acreditavam inicialmente. As semelhanças terminam aí. The Imitation Game é um filme de época e que trata de um período chave para a sociedade atual: a Segunda Guerra Mundial e o seu desfecho.

O impressionante da obra, contudo, é que ela não trata apenas deste período histórico, jogando luz no trabalho de descoberta do código de criptografia nazista, fato escondido por cinco décadas e fundamental para a época, mas também, e especialmente, nos apresenta uma história muito humana.

O roteiro de Graham Moore é digno de ser estudo. Ele consegue o equilíbrio perfeito entre o drama histórico e a cinebiografia, adentrando na vida e nas aspirações de Turing ao mesmo tempo em que narra os bastidores da quebra da lógica da Enigma, máquina dos nazistas que todos os dias tinha os códigos alterados para o envio de mensagens fundamentais (ou não) para a guerra.

Verdade que ele não inventa a roda. Moore faz uso daquela técnica já bem conhecida de intercalar diversos tempos narrativos. Então a história começa com Alan Turing na delegacia, prestes a responder por um crime absurdo – e que por não ser considerado mais crime demonstra que, mesmo que lentamente, a Humanidade avança -, depois migra para a fase da Segunda Guerra Mundial para, finalmente, retroceder ainda mais na infância do protagonista. Todas estas “viagens temporais” fazem sentido para a história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, como entender a angústia de Turing ao ser preso e depois condenado por “práticas homossexuais” sem saber a importância histórica do personagem – daí a volta para a época da Segunda Guerra -, e como compreender o apreço dele por seu invento e pelo nome de Christopher sem conhecer a amizade e o companheirismo do primeiro amor dele?

A forma com que a história flui nos três tempos narrativos e a condução que o diretor Morten Tyldum faz de cada detalhe da narrativa são dois pontos fortes do filme. Não adianta. Sem um ótimo roteiro e uma direção competente, não há filme que se destaque no cinema atualmente. The Imitation Game tem estes dois elementos e mais um elenco muito afiado, com nomes bem conhecidos do cinema ou da TV dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O ótimo Benedict Cumberbatch faz uma interpretação memorável de Alan Turing, este homem brilhante que tinha uma grande dificuldade de se relacionar e dialogar com as pessoas – como muitos dos grandes gênios que a Humanidade já teve, aliás. Em alguns momentos, ele até parece ter um pouco de autismo. Mas conforme a história vai nos mostrando o que Turing passou na escola, entendemos um pouco mais das razões que fizeram ele ser um cientista centrado no próprio trabalho e pouco afeito a atuar em grupo.

Por falar em grupo, que bela escolha de elenco para esta produção! Parabéns para Nina Gold pelo excelente trabalho com esse time de craques. A estrela, claro, é Benedict, mas ele deixa brilharem também Keira Knightley como Joan Clarke, a única mulher no grupo que trabalhou para decifrar a máquina Enigma; Matthew Goode, recente revelação da série The Good Wife, que interpreta a Hugh Alexander; Allen Leech, mais conhecido pelo trabalho em Downtown Abbey, que faz as vezes no filme de John Cairncross; e Matthew Beard, um pouco atrás dos outros na interpretação, que dá vida no filme para Peter Hilton. Esses cinco foram fundamentais para a reviravolta que os Aliados tiveram na última grande guerra de proporções mundiais.

O elenco afiado é um elemento a mais para o filme dar certo junto com o roteiro e a direção. Mas para completar o quadro, os elementos técnicos de The Imitation Game também cumprem o seu papel. Tudo funciona bem. Falarei deles mais detalhadamente abaixo. Voltemos agora um pouco para a história. Por que ela é tão fascinante?

Primeiro porque a narrativa é envolvente e foca em uma história pouco contada no cinema. Nem poderia ser diferente. Apenas no final dos anos 1990 veio a tona o trabalho de Turing e equipe. Sem contar que filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que trazem elementos novos para o entendimento daquela época sempre são fascinantes. O mais comum, contudo, é vermos infindáveis cenas de batalha e de heroísmo. The Imitation Game nos revela o trabalho de bastidor de muita gente que atuava em outra frente, a da inteligência, e não da força bruta.

Este novo ângulo por si só é interessante. Agora, adicione a isso um olhar detalhado sobre a trajetória de um cientista menos conhecido mas que, no fim das contas, foi fundamental para que eu estivesse agora escrevendo este texto em um notebook e para que você estivesse lendo estas letras em seu computador ou dispositivo móvel. Este homem, considerado estranho, isolado, pouco afeito a conversas, foi quem idealizou e defendeu em artigos científicos que as máquinas também pudessem pensar.

Em uma das cenas mais bacanas do filme, Turing provoca o policial que o está interrogando a testá-lo para saber se ele é uma máquina ou um humano. A lógica proferida por ele naquele momento é maravilhosa, digna de guardar na memória ou escrever em um quadro. E claro que serve não apenas para refletir sobre as máquinas, mas sobre nós mesmos. Afinal, todos temos formas diferentes de raciocinar, mas todos nós pensamos. Sejamos executivos, empregados, santos ou bandidos.

Como se não bastasse essa reflexão brilhante de Turing e a contribuição que ele deu para o fim do conflito mundial, ainda existe o caráter pessoal da história dele e que faz eco até hoje. Aquela mente brilhante, isolada da sociedade por suas características, foi exposta na sociedade como pervertida, indecente, e condenada por ele não ser tudo isso, e sim por ser homossexual.

Como o filme deixa claro nos créditos finais, entre 1885 e 1967 cerca de 49 mil homens foram condenados por serem homossexuais no Reino Unido – essa orientação sexual era vista como crime. Turing, é verdade, acabou tendo o passado resgatado. Mas nunca saberemos tudo que ele poderia ter feito pela ciência se não tivesse passado por aquela situação.

Para finalizar, um dos pensamentos mais interessantes desta produção, e que é repetido pelo menos três vezes – na infância de Turing, quando ele tenta convencer Joan Clarke a seguir na missão e, depois, quando ele está isolado, solitário e deprimido em casa, quando Joan tenta consolá-lo, é também um resumo do que penso sobre as pessoas. “São as pessoas que ninguém espera nada que fazem as coisas que ninguém consegue imaginar”.

Em outras palavras, todos merecem uma oportunidade de desenvolver-se e mostrar o que a pessoa tem de melhor. Assim como todos merecem respeito. Afinal, muitas vezes, a solução e a salvação virá justamente de quem menos se esperava. Fascinante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi um surpresa ver tanta qualidade em The Imitation Game. E digo isso por uma razão muito simples: ele é um dos filmes menos badalados da fase pré-Oscar e, mesmo agora, quando estamos na reta final para a maior premiação de Hollywood. Muitos rasgam seda para Birdman, outros se derretem por Boyhood ou por The Theory of Everything, mas quase ninguém fala muito sobre esta produção. Por isso mesmo foi uma grata e boa surpresa ver tanta qualidade na obra comandada por Morten Tyldum.

Antes falei dos atores, mas vale comentar os aspectos técnicos impecáveis desta produção. Para começar, grande o trabalho de Alexandre Desplat com a trilha sonora. Não por acaso ele foi indicado ao Oscar. Depois, muito boa a direção e fotografia de Oscar Faura; a edição de William Goldenberg; os figurinos de Sammy Sheldon; a direção de arte de Nick Dent, Rebecca Milton e Marco Anton Restivo; e a decoração de set de Tatiana Macdonald.

Toda esta equipe e todas as outras pessoas envolvidas em efeitos especiais, maquiagem e etc. garantem que vejamos cenas de reconstituição bastante fidedigna do final dos 1920 até o início dos anos 1950, incluindo reconstituições de cenas marcantes da época e o uso de imagens históricas por parte do diretor.

Citei alguns dos atores que fazem o filme fluir com precisão e graça, destacando especialmente a equipe envolvida no trabalho de decifrar o código nazista, mas há outros atores no elenco que merecem ser citados pelo ótimo trabalho realizado. Mark Strong está perfeito como Stewart Menzies, o homem por trás do Serviço Secreto britânico durante a Segunda Guerra e que acaba sendo peça fundamental no jogo de contraespionagem jogado naquela época; e Charles Dance, bem conhecido pela série Game of Thrones, também se sai muito bem como o comandante Denniston.

Também vale citar o trabalho de Alex Lawther como o jovem Alan Turing, e Jack Bannon como o amigo dele na infância, Christopher Morcom. Fazem papéis menores mas um pouco relevantes Ilan Goodman como Keith Furman e Jack Tarlton como Charles Richards, os dois participantes da equipe contratada pelos ingleses para decifrar Enigma e que são demitidos assim que Turing consegue comandar o projeto.

O roteiro de Graham Moore é brilhante, como eu comentei antes. Mas é preciso também comentar que boa parte do mérito dele deve estar no livro Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges.

The Imitation Game estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou por outros 47 festivais – um número impressionante. Nesta trajetória, a produção ganhou 39 prêmios e foi indicada a outros 101, incluindo oito indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Compositor do Ano para Alexander Desplat, Diretor do Ano para Morten Tyldum, Ator do Ano para Benedict Cumberbatch e para Atriz do Ano para Keira Knightley no Festival de Cinema de Hollywood; para o prêmio para o elenco no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e pela escolha do público por Morten Tyldum como “Mestre” do ano. Esta produção também aparece no Top Ten Film 2014 da National Board of Review.

Esta é uma produção 100% rodada no Reino Unido, em locais como o Parque Bletchley, na cidade de Bletchley; na Sherborne School, a escola onde Turing realmente estudou, em Dorset; e outras diversas cenas em Londres.

No dia 27 de novembro de 2014, antes do filme estrear nos cinemas dos Estados Unidos, o The New York Times reproduziu as palavras-cruzadas publicada originalmente em 1942 no The Daily Telegraph e criada para recrutar decifradores de códigos para trabalhar em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial. As pessoas que conseguiram decifrar as palavras-cruzadas no ano passado concorreram a uma viagem para Londres que incluía visitar as instalações de Bletchley Park.

Agora, outras curiosidades sobre o filme: Em uma das cenas finais do filme o ator Benedict Cumberbatch não conseguiu parar de chorar e passou por um colapso. Ele realmente ficou envolvido com a história de Turing e com o que ele sofreu na reta final da vida.

Em diversos momentos do filme Turing aparece correndo. Na vida real ele era um corredor de longa distância de classe mundial, com um tempo de maratona de 2:46:03 conquistada em 1946.

O personagem Stewart Menzies inspirou Ian Fleming, que trabalhou no departamento de espionagem britânico durante a Segunda Guerra Mundial, a criar o personagem M, chefe do personagem James Bond.

Desplat compôs a trilha do filme em duas semanas e meia. Ela foi gravada com a Orquestra Sinfônica de Londres no Abbey Road Studios.

Este é o primeiro roteiro de Graham Moore. Ele queria escrever um roteiro sobre Alan Turing desde que tinha 14 anos de idade.

O terno risca de giz que Mark Strong utiliza durante o filme é um terno autêntico dos anos 1940. Ele foi escolhido para caracterizar o personagem que liderava a operação em Bletchley Park porque lhe dá um ar de “chefe da máfia”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Durante o filme, o diretor faz referência a como Turing se matou. Quando os policiais vão na casa dele, após a denúncia de assalto, ele está recolhendo pó de cianureto. Em outro momento, ele dá maçãs para os colegas de trabalho. Foi com uma maçã envenenada com cianureto que o cientista se matou.

Este é um destes filmes que nos faz pensar como qualquer conversa pode ser mega importante. E pensar que sem o comentário de Helen (Tuppence Middleton) despretensioso naquele bar, brincando que acreditava que o inimigo que ela acompanhava diariamente tinha uma namorada porque todas as mensagens dele começavam com a palavra Cilly, aquele grupo de cientistas jamais conseguiria decifrar o código do Enigma a tempo, no prazo que o comandante havia dado. Fantástico. Nunca se sabe, realmente, quando uma conversa despretensiosa pode mudar tudo.

Os usuários do site IMDb eram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito boa, considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 200 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,7. Achei baixa a nota, em especial, ainda que gostei do nível de aprovação.

The Imitation Game teria custado cerca de US$ 14 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 52,9 milhões até o dia 21 de janeiro. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele soma outros US$ 50,2 milhões. Fico feliz que ele esteja se saindo bem. De fato, ele merece.

Esta é uma coprodução entre Reino Unido e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Pessoas indesejadas em determinadas sociedades conseguem feitos fantásticos quando elas tem não apenas a oportunidade de se desenvolver, mas também a chance de empregar bem o seu talento. The Imitation Game é um filme que vai muito além da biografia de Alan Turing e de um feito incrível dos bastidores da Segunda Guerra Mundial. Esta produção nos faz refletir sobre os diversos absurdos de que a Humanidade é capaz ao mesmo tempo que nos mostra o valor da solidariedade, do talento e da amizade. Um filme bem conduzido, perfeitamente escrito e com atores que cumprem bem os seus papéis. Irretocável e envolvente. Um dos grandes de 2014.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman, indicados nove vezes no Oscar, The Imitation Game é o filme mais indicado deste ano. Ele está concorrendo em oito categorias. Poderia vencer em várias, ou pode também sair de mãos vazias.

Birdman está sendo muito badalado. Mas acho que Boyhood deve ganhar como Melhor Filme. Depois de Boyhood, para mim, The Imitation Game é o melhor filme de 2014 – pelo menos até agora, ainda falta assistir a três concorrentes da categoria. O filme concorre ainda em Melhor Ator – Benedict Cumberbatch; Melhor Diretor – Morten Tyldum; Melhor Trilha Sonora; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante – Keira Knightley; Melhor Design de Produção e Melhor Edição.

A parada do filme é dura em todas as categorias. Ele tem qualidade para ganhar, mas também tem fortes concorrentes tão merecedores quanto. Em Melhor Ator, acredito que o favorito é Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Depois, viriam pau a pau Cumberbatch e Michael Keaton. Melhor Diretor, me parece, tem Richard Linklater como favorito pelo trabalho excepcional em Boyhood. Mas não seria uma surpresa se Alejandro González Iñarritu ou Wes Anderson levassem a estatueta para casa.

Melhor Trilha Sonora também é parada dura. The Theory of Everything e The Grand Budapest Hotel são grandes concorrentes, mas The Imitation Game também poderia ganhar. Dos filmes que vi até agora, The Imitation Game poderia ganhar em Melhor Roteiro Adaptado. Prefiro ele que The Theory of Everything. Mas desconfio que este segundo talvez tenha mais lobby que o primeiro para vencer.

Em Melhor Atriz Coadjuvante, me parece, Patricia Arquette é a favorita. Em Melhor Design de Produção, os grandes concorrentes de The Imitation Game são The Grand Budapest Hotel e Interstellar. E para finalizar, em Melhor Edição todos são bons, mas acho que The Grand Budapest Hotel ou Boyhood levam vantagem. Para resumir, a vida de The Imitation Game será difícil no Oscar. Mas vou achar ótimo se ele levar qualquer estatueta. Merece.

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Last Night – Apenas Uma Noite

Resista. O início de Last Night parece uma discussão de relacionamento (a famosa DR) interminável. Mas passados aqueles 20 minutos iniciais, o filme começa a esquentar. E se você tem algum interesse pela velha discussão do que, afinal, é a fidelidade ou a infidelidade, eis um filme interessante a este respeito. Há algumas sequências deliciosas, e os atores estão bem sintonizados no texto e em suas interpretações. Vale uma conferida – mas com uma boa dose de paciência.

A HISTÓRIA: Joanna (Keira Knightley) e Michael Reed (Sam Worthington) voltam para casa, de táxi, olhando, cada um, para um lado. Eles não se falam. Desta cena, do final da noite, voltamos para o início de tudo, quando o casal preparava-se para sair de casa. Atrasados, eles se falam como um casal que vive a rotina. Mas chegando a uma festa, Joanna fica incomodada com a relação entre o marido e sua nova colega, Laura (Eva Mendes). Em uma crise de ciúmes, ela pressiona o marido, até que ele confessa estar atraído pela colega. Joanna dorme na sala mas, na madrugada, Michael se aproxima, faz comida para eles e a paz parece voltar a vigorar. No dia seguinte, Michael viaja à trabalho, e Joanna encontra, de forma inesperada, uma antiga paixão, Alex Mann (Guillaume Canet). A partir daí, o casal vai viver muitas provações.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Last Night): O que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi a sua dinâmica diferenciada. O tempo é fundamental, para entender a dinâmica da história, mas só vamos entendê-lo aos poucos. Não é difícil perceber que a cena inicial, do casal de protagonistas olhando para lugares opostos no táxi, marca o final daquela noite, e que depois voltamos para o seu início. Mas não é desse tempo a que me refiro.

O tempo importante para Last Night está naquele que marca as diferentes relações. Há quanto tempo Joanna e Michael estão casados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há quanto tempo Joanna não encontra a Alex, e quando eles tiveram uma relação? Há quanto tempo Laura trabalha com Michael? Quando Joanna começou a ter bloqueio criativo? Quando Michael começou a achar o próprio cotidiano como algo sem muitos atrativos?

Porque quando alguém está tentado a pular a cerca, a trair, isso não acontece assim, sem mais. Com isso não quero dizer que toda traição é justificada. Não é isso. Sempre podemos escolher, entre fazer ou não. Last Night explora muito isso. Porque tentações sempre existem. Mas ceder a elas é uma questão de escolha. Este filme mostra bem os perigos do flerte, de dar corda, de “deixar rolar”. Quanto mais se deixa a corda solta, mais fácil é para alguém ser enforcado com a própria brincadeira.

Mas o que eu falava antes é que isso não acontece do dia para a noite. Seja a rotina, sejam os desentendimentos, ou a leitura equivocada da pessoa com quem estamos junto, há vários elementos que podem levar alguém a jogar com outra pessoa. Flertar é algo maravilhoso, não há dúvida. Mas casar é uma escolha. E quando se decide por algo, se abre mão de outras possibilidades. Como quando alguém escolhe um emprego, e não outro. Vai ter que abraçar a essa decisão e crescer profissionalmente antes de pensar em pular de galho. Do contrário, a chance é grande de ser visto como um(a) inconstante.

E ninguém gosta de pessoas que vivem pulando de galho. Seja na profissão, seja na vida pessoal. Alguma constância é preciso ter. O problema reside que tudo flui, inclusive as pessoas. E quem você era há algum tempo atrás, já não é mesma pessoa que você é agora. E como lidar com isso? Daí entra outra questão interessante levantada por Last Night: é possível realmente conhecer a uma pessoa? Inclusive nós mesmos?

Acho que estamos permanentemente tentando nos conhecer, entender. Ou deveríamos, pelo menos. Esse exercício é fundamental. Até para saber o que escolher, quando uma nova escolha tiver que ser feita. E a vida é feita delas. De portas abertas, de janelas fechadas, e vice-versa. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então achei de suprema ironia e elegância o momento em que “lemos” o bilhete de Joanna. Ela diz que conhece o marido. Mesmo? Não, claro que não. Assim como Michael não conhece a Joanna. Na verdade, ninguém conhece a ninguém.

O máximo que podemos querer, nesta vida, é roçar a parte do conhecimento da personalidade das pessoas que amamos, e das quais somos mais próximas. Fora isso, conhecermos o máximo possível a nós mesmos – mas, dificilmente, na totalidade. Por essas e tantas outras que, mais do que nós sabemos, é importante termos em mente tudo o que desconhecemos. Até para que a pressão por respostas e resultados não seja tão pesada, e injusta.

Last Night, devido ao ótimo roteiro e direção de Massy Tadjedin, acaba sendo isso. Muito mais do que as aventuras de um dia e noite de “folga” de um casal. Não importa tanto o que Joanna e Michael resolveram fazer naquela bendita noite de liberdade. Importa muito mais o que virá depois daquilo. O que cada um decidirá aceitar ou negar sobre o outro e, especialmente, sobre os próprios sentimentos. Quem disse que filmes sobre relacionamentos, flertes e traições precisa ser raso? Last Night está aí para provar que é possível fazer algo além do óbvio.

Os únicos problemas do filme são aquele início, que é ruim, porque nunca é fácil começar a assistir a um filme com uma grande DR e uma crise de ciúme de uma mulher insegura; e a falta de química entre os protagonistas. Keira Knightley e Sam Worthington são lindos, estão bem em seus papéis, mas não tem sintonia – talvez até isso seja proposital. Para a satisfação de todos nós, isso muda completamente, em relação à Keira, quando aparece em cena o encantador Guillaume Canet. Ele salva o filme, muitas e muitas vezes.

O mesmo – ainda que sem tanta química ou carisma – pode se dizer de Eva Mendes. Analisando apenas pelo corpo, não há dúvidas que Michael tem razões para estar tentado. Há um abismo separando a silhueta de Eva e de Keira – com vantagem para a primeira, é claro. Os quatro atores estão muito bem em seus papéis, com um destaque gritante para o desempenho de Keira e Guillaume, a partir do momento que eles começam a dividir a cena.

Agora, sobre a polêmica que talvez se crie sobre quem traiu ou deixou de trair, neste filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pela visão dos homens, tanto Joanna quanto Michael traíram – ainda que de forma diferente. Para as mulheres, que acreditam que existe diferença entre “consumação carnal” ou não, talvez apenas Michael tenha traído a Joanna. Francamente, acho que estar em uma relação gostando daquela pessoa e, ao mesmo tempo, de outra, é uma forma de traição. Que é o que acontece. Mas será possível, um dia, gostar de apenas uma pessoa? Exclusivamente, e pra sempre? Se isso é impossível, também é impossível ser fiel. Cada um tem a sua própria história pessoal para servir como exemplo – e não, não existe uma única e certeira resposta.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Last Night marca a estreia na direção da iraniana Massy Tadjedin. Antes de escrever e dirigir a esta história, ela havia escrito o roteiro e produzido ao filme Leo, de 2002, e escrito o roteiro de The Jacket, de 2005. Eis um nome que talvez seja interessante acompanhar.

Além dos atores principais, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Griffin Dunne, como Truman, amigo de Alex e curioso de plantão; e Daniel Eric Gold como Andy, que trabalha com Michael.

Ótima a direção de Tadjedin. Atenta aos detalhes das cenas, focando objetos e as expressões dos atores quando elas poderiam ser o diferencial de cada momento. Um olhar cuidadoso, típico de uma mulher, para os detalhes. Para que o resultado seja bom, contribuiu muito para ele o trabalho do diretor de fotografia Peter Deming.

Bastante pontual e “classuda” a trilha sonora de Clint Mansell, bastante baseada no uso do piano.

Last Night estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de outros sete festivais, entre eles o de São Paulo, em outubro de 2011. Nesta trajetória, ele foi indicado a um prêmio, mas não levou nada para casa.

Não há informações sobre o quanto Last Night teria custado. Mas o filme, que estreou em apenas seis salas de cinema dos Estados Unidos no dia 15 de maio de 2011, conseguiu quase US$ 100 mil nas bilheterias daquele país até junho do mesmo ano – sim, mil e não milhões. No restante do mercado internacional, contudo, Last Night teria conseguido pouco mais de US$ 7,6 milhões. Pouco.

Uma curiosidade: como a história sugere, Last Night foi totalmente rodada na cidade de Nova York.

Antes falei da importância do tempo para esta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, vamos conhecendo a história de Joanna, Michael e Alex. Ela e Michael namoram desde o tempo da faculdade. Se casaram três anos antes da noite em que acompanhamos. Joanna e Alex conheceram-se há quatro anos, e encontraram-se, pela última vez, dois anos antes. Joanna decidiu apostar na história com Michael, e tudo indica que teve um relacionamento com Alex quando ela tinha se desentendido com Michael. Mesmo mais “mexida” por Alex, ela preferiu apostar na segurança do relacionamento com Michael, voltando para ele e casando com o namorado de tempo de faculdade. Então, na prática, ela não traiu o marido desde que resolveu ficar com ele. Só a dúvida se fez a escolha certa é que perdurou. Isso acontece. Mais do que gostaríamos.

Ah sim, e aquela DR inicial, com a Keira Knightley em mais uma atuação irritante – ainda bem que, depois, para a nossa sorte a personagem dela embarca em uma versão mais “leve” -, só reforçou uma teoria que existe e na qual eu acredito cada vez mais: que toda pessoa ciumenta tem os seus “pitis” porque, no fundo, está traindo, já traiu ou está pensando em trair. Normalmente estas pessoas não tem elementos concretos para desconfiar. Mas projetam na outra pessoa do casal a culpa que ela mesma está sentindo – o famoso espelhismo. Em The Night, mais um caso destes.

E a Keira Knightley parece se dar muito melhor em papéis leves. Porque neste filme e no anterior que eu vi dela, A Dangerous Method, ela chega a irritar com o exagero da interpretação dos “momentos difíceis” de suas personagens. Agora, neste filme, quando entra em ação Alex, ela se solta, explora a própria beleza, charme e carisma e daí tudo muda de figura. Aliás, ela e Guillaume Canet passam a ser os nomes do filme a partir do encontro dos dois em cena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Last Night. Não é uma nota ruim, levando em conta o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com esta produção, dedicando 30 críticas negativas e 29 positivas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 49% e uma nota média de 5,3.

CONCLUSÃO: Provocante e cheio de insinuações, Last Night tem gente bonita e cheia de tentações na mira. Os flertes e as conquistas permeiam toda a história. Mas Last Night é um filme verbal, diferente de Shame, que explora a alta sexualidade visualmente. O início chega a cansar, dar sono, mas vencida aquela primeira parte, a mais chata, a história vai ganhando outros contornos mais interessantes. No final, o que é trair, ou ser fiel? Aparentemente a mentira ou, pelo menos, a dissimulação parece fazer parte de qualquer casamento. Esse filme explora bem isso. Assim como esta incapacidade nossa de realmente conhecer a alguém – afinal, conhecer a nós mesmos, em plenitude, já é uma tarefa complicada, quanto mais acreditar que conhecemos a outra pessoa. E esse conhecimento é fundamental. Ou a aceitação da ignorância. Por incrível que pareça, Last Night roça nestas questões. E de forma eficaz, sem discursos – exceto aquele inicial -, mas com muito flerte.

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A Dangerous Method – Um Método Perigoso

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios. Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. A Dangerous Method surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dangerous Method): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que A Dangerous Method nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. A Dangerous Method tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

A Dangerous Method humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam.

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas A Dangerous Method torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein. Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar. Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de A Dangerous Method manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada. Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, A Dangerous Method foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em A Dangerous Method. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

A Dangerous Method estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em A Dangerous Method, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: First Class e Shame.

A Dangerous Method teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para A Dangerous Method. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme. Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. A Dangerous Method não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho. A Dangerous Method acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.

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The Duchess – A Duquesa

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Filmes de época, normalmente, são bacanas. Porque sinalizam um grande investimento – de recurso e de talentos – em reconstruir um tempo que ficou no passado e porque, claro, revelam uma parte da história que nos trouxe até aqui. Sempre acho curioso ver como “vivíamos” tempos atrás – sejam séculos ou décadas. Então, em teoria, filmes assim me agradam – ainda que, admito, eu não sofra de nenhuma fixação que me faça correr atrás de cada título do gênero. Mas acho bacana, no geral. Só que talvez por ter assistido a tantos filmes considerados “de época” até hoje eu, atualmente, exija algo mais. Um pouco mais de qualidade ou de criatividade, pelo menos. E sei lá, acho que ainda tenho na lembrança o comentado por aqui The Other Boleyn Girl… Só sei que assisti a este The Duchess e gostei, certo… mas não cai de amores pelo filme de jeito maneira.

A HISTÓRIA: O Duque de Devonshire (Ralph Fiennes) está buscando uma jovem mulher para lhe dar um herdeiro. Visitando Lady Spencer (Charlotte Rampling) ele se decide pela filha da aristocrata, Georgiana (Keira Knightley). A garota fica empolgada, ainda que, pouco antes, estivesse em um de seus jogos com conotação um tanto amorosa com Charles Grey (Dominic Cooper) e demais integrantes da aristocracia inglesa. Transformada em Duquesa, Georgiana percebe que o marido é rude e nada interessado nela ou nas filhas que o casa vai tendo. Afinal, o “contrato matrimonial” deles previa um garoto, um herdeiro. Para complicar a situação, a Duquesa convida para sua casa Bess Foster (Hayley Atwell), uma aristocrata que foi abandonada pelo marido e que acaba se tornando amiga de Georgiana em uma festa. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Duchess): Toda vez que um filme começa com “baseado em uma história real” eu fico com o pezinho atrás. Sei lá… para mim isso é uma senha dos produtores para tentar emocionar as pessoas mais do que o necessário logo de cara. Afinal, cada acontecimento “terrível” que aconteça acaba se tornando muito mais forte porque “realmente aconteceu”. Isso é bem relativo, porque sabemos que a maioria dos filmes “baseados em histórias reais” mudam um pouco essa tal de história real. Então prefiro as produções que não falam isso logo no início, mas no final, por exemplo, como é o caso de Into the Wild.

Então The Duchess começa com essa informação, de que é um filme “baseado em uma história real”. Certo. A partir daí, mergulhamos em parte dos bastidores da vida da aristocracia inglesa do século XVIII, incluindo políticos que circulam ao redor do Duque de Devonshire (neste link existe uma história desta rama familiar). A história é meio óbvia (pelo menos para quem já assistiu a alguns filmes do gênero): existe os interesses dos monarcas e a subjugação das mulheres – ou, em outras palavras, uma diferença brutal entre os direitos de uns e outros; a necessidade proeminente da realeza em continuar com o nome de sua família ou, para resumir, a obrigação da mulher em gerar um filho homem; disputas pelo poder, frieza no trato humano, e demais efeitos que são gerados por estes elementos. Ah, claro que existem traições do monarca e um amor impossível e verdadeiro em jogo. Enfim, aquelas história que estamos tão acostumados a ver.

Para ser franca, o único “acerto”, por assim, dizer, do roteiro de Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e do diretor Saul Dibb foi mostrar um pouco da vida fora da côrte. Acabamos por assistir, ainda que como pano-de-fundo da história, a idolatria do povo daquele época para com os monarcas – seria uma prévia da atual fascinação das pessoas por estrelas de Hollywood, “heróis” dos esportes e celebridades em geral? – e, o que foi mais interessante, parte da criação teatral e dos bastidores políticos da época. Pena que estes três elementos, fascínio do povão pela monarquia, esforço criativo dos autores teatrais e os laços que uniam políticos e monarcas seja tratado de forma tão ligeira pelo filme. Para mim, estes pontos poderiam ter feito da produção algo melhor. Mas enfim…

Vale citar que os três roteiristas se basearam na obra “Georgina, Duchess of Devonshire”, escrita por Amanda Foreman. Aliás, achei curiosa a polêmica que esta autora causou na Inglaterra. Segundo este texto no blog Recanto das Palavras, ela teria posado nua, tampando suas partes “íntimas” com exemplares do livro de Georgina, como uma forma de autopromoção que foi condenada por colegas biógrafos. Vendo a foto, eu diria que o gesto dela foi, no mínimo, ridículo – e despropositado, vamos! Afinal, não seria mais fácil ela posar diretamente para a Playboy? Não precisaria, para isto, ter feito um doutorado ou ter pesquisado para escrever um livro. 🙂

Ainda que eu tenha achado o filme fraquinho, ele é muito bem feito, claro. Tem uma direção de fotografia, figurinos e direção de arte impecáveis. Como 99,9% dos filmes de época, convenhamos. 😉 Ainda assim, vale citar o trabalho do húngaro Gyula Pados na fotografia, de Michael O’Connor nos figurinos e de Karen Wakefield na direção de arte. O’Connor, aliás, ganhou merecidamente o Oscar deste ano por seu trabalho. Ainda assim, de todos os elementos técnicos, o que eu acho que verdadeiramente se  vê em evidência por sua qualidade (além dos figurinos) é a trilha sonora, assinada por Rachel Portman. Achei ela belíssima, além de um elemento importantíssimo para a história – como deve ser uma trilha sonora. Grande trabalho de Portman.

No mais, os atores estão bem. Keira Knightley é (e está) belíssima. E dá conta do recado, com bastante coerência. Ralph Fiennes, Charlotte Rampling e Dominic Cooper também fazem seus papéis de forma ajustada. Para mim, se destacou mais que eles – em um empate com Keira Knightley – a atriz Hayley Atwell. As duas chegam um passo à frente de seus colegas de cena, ainda que ninguém faça nada excepcional. Ouvi em alguma parte burburinhos de pessoas que acreditavam que Ralph Fiennes merecia uma indicação ao Oscar pelo seu desempenho como o Duque deste filme. Não acho. Ele está bem, mas não para receber um prêmio – e nem ser indicado ao Oscar.

Sobre a história, convenhamos que era mais que previsível que Georgina se casasse com um duque nada amoroso, mais chegado em ser bacana com as amantes do que ela – afinal, ela era sua mulher, feita para procriar e não para ter ou dar prazer – e mais afetuoso com os cães do que com pessoas. Neste cenário, até que ela soube se fazer bastante presente, em uma época em que a mulher não tinha voz e nem voto. Em tempos modernos, ela seria o que muitos chamam de uma “mulher à frente do seu tempo”. Quer dizer, até certa medida. Porque ela leva para casa uma mulher que certamente viraria amante do marido – e, por mais que o filme sugira o contrário, tenho minhas dúvidas se ela não fez isso propositalmente para ser menos “procurada” na cama pelo duque. Então, honestamente, não sei até que ponto ela realmente gostava do amante e queria viver uma vida alternativa com ele. Talvez a Duquesa soubesse de seu poder e gostasse dos seus seguidores mais do que de uma liberdade idealizada. 

E antes que me esqueça de falar sobre isso (mais uma vez, porque esta é a segunda atualização do texto): achei especialmente emblemática a cena em que o Duque olha para os filhos, brincando no jardim do palácio da família, e comenta de como seria bom ter aquela liberdade. Para mim, essa cena quer dizer muita coisa. Imagino que ele pensou o mesmo de Georgina, quando a viu pela janela “brincando” com damas e cavalheiros da nobreza, e sentiu um bocado de inveja daquilo. Na impossibilidade de viver algo assim, ele quis ter parte daquilo para ele – uma juventude que ele não tinha mais. E, de quebra, ele cuidou de terminar com a liberdade e aquele prazer de jogar que a esposa tinha até então. Egoísta e ridículo, ainda que igualmente vítima de um sistema de castas e de poder absurdo e que não deveria existir em tempos modernos – mas que ainda é preservado em locais como Espanha e Inglaterra, onde perdura a monarquia.

NOTA: 6,5. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como acontece com muitos filmes de época, especialmente sobre a nobreza, os personagens em tela aparecem um bocado “suavizados”. Afinal, aparentemente, “vende mais” ou dá melhor ibope as boas e velhas histórias de amor do que uma produção que tente tocar um pouco mais fundo nos bastidores da nobreza. No caso de Georgina, por exemplo, existe uma teoria de que ela seria bem mais “liberal” do que a imagem que aparece no filme. Envolvida com artistas e políticos – influente por isso e por seu estilo, que verdadeiramente inspirava as mulheres na época -, ela foi tema de muitos pintores e desenhistas da época. Um deles, Thomas Rowlandson, segundo este artigo da Wikipedia, teria desenhado uma sátira da Duquesa em que ela trocava beijos por votos nas eleições de 1784, com a finalidade de eleger Charles James Fox – que viria a se seu amante. Possivelmente ela fosse mais classuda e, ao mesmo tempo, mais “libertina” do que a imagem que o diretor Saul Dibb nos apresenta em The Duchess.

O diretor, aliás, é um bocado “novato”. The Duchess é o seu segundo filme nos cinemas. Ele dirigiu em 2004 a Bullet Boy, um drama inglês sobre a bandidagem na Londres moderna. Além de Bullet Boy, ele se envolveu, até agora, em dois projetos para a TV. Nada mais. 

Até agora, a produção ganhou quatro prêmios – incluindo o Oscar mencionado para o figurino – e recebeu outras 14 indicações. Todos os prêmios que recebeu, sem exceção, foram para o trabalho de Michael O’Connor. 

Os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos do que eu com o filme… lhe dedicaram a nota 7. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, publicaram 92 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garantiu 60% de aprovação. Totalmente sem querer, mas acabei ficando no meio termo entre público e crítica. hehehehehehehehe. Pior que, logo que terminei de ver o filme, veio a nota 7 ou 6,5 na minha cabeça, mas preferi a segunda ao relembrar a avaliação que eu tinha feito de The Other Boleyn Girl. Não tenho dúvidas que gostei mais daquele filme do que deste – assim como apreciei mais o trabalho de Natalie Portman do que de Keira Knightley, ainda que a segunda tenha uma presença muito maior em termos de “realeza” e, quem sabe, de beleza mesmo. Mas o que me interessa é o talento.

The Duchess é uma co-produção entre Inglaterra, Itália e França.

Mas para não dizer que o filme é completamente previsível, admito que me surpreendi um pouco com a reação do Duque lá pelas tantas. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, não era todo nobre da época que admitia uma traição. Acredito que o mais previsível seria esperar que ele matasse o oponente ou a mulher, para ficar com a amante, mas não… William Cavendish até aceita que Georgiana tenha uma filha bastarda do amante. Incrível, eu diria. Mais um sinal de que a mulher deveria ser muito porreta naquela época – para ter tanta moral de se manter viva mesmo com essa “pisada na bola”. No fundo, acho que ela deveria merecer uma interpretação menos calcada na beleza e mais na perspicácia – quem sabe uma Cate Blanchett ou outra atriz desta envergadura?

E não sei se toda a mulher teria a resposta certeira que teve Georgiana. Não sou mãe ainda, admito que isso possa afetar meu julgamento… mas será mesmo que eu preferiria abrir mão do amor da minha vida para ficar em uma história infeliz por causa de meus três filhos? Provavelmente sim, mas não sei… é um preço bem alto para se pagar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também achei a “química” entre Knightley e Atwell forte desde a primeira vez que elas se encontram. Até aquela cena no quarto. Daí pensei: “Uau, vamos partir para algo novo! Uma relação bissexual durante a inglaterra de três séculos atrás…”. Mas que nada! Foi apenas uma sugestão besta no meio do filme. Que pena. 😉

Agora, fiquei especialmente indignada ao pesquisar um trailer do filme para colocar aqui no blog quando encontrei uma versão de trailer que foi veiculada na Inglaterra para promover o filme. Neste trailer – que me recusei a linkar por aqui, é claro -, os produtores comparam a “heroína” de The Duchess com a Lady Di… ah, me poupem, vai!!! A que ponto chegamos…

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre a aristocracia inglesa do século XVIII. Como praticamente todos os filmes do gênero, ele apresenta uma fotografia, um figurino, uma direção de arte e uma trilha sonora perfeitos e primorosos, mas sofre com pouca inventividade. Deixa de ousar, como muitos filmes sobre aquele cenário, apresentando a mesma história de subjugação feminina, abusos de poder, traições e jogos de interesses. Poderia ter se aprofundado mais em outros aspectos da história da duquesa, como seu envolvimento com a jogatina, os artistas e os políticos da época. Resumindo, é bem feito, tem atuações convincentes, mas deixa a desejar no roteiro e em uma exploração mais aprofundada dos personagens. Deve cair bem no gosto dos fãs dos atores e atrizes.