Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Votações no blog

Booksmart – Fora de Série

Se tem uma época da vida que os americanos amam retratar no cinema é o ensino médio. Para eles, essa fase é muito mais estressante do que para a média dos brasileiros – isso se explica pela forma do ensino de cada país. Booksmart se soma a outras produções que retratam esta época da vida dos americanos. Um filme “bobinho”, até um certo ponto, mas que traz um panorama interessante e rejuvenescido sobre essa galera jovem que está pensando em começar uma faculdade. O filme se passa, basicamente, em dois dias – e com uma longa noite no meio. Tem alguns momentos engraçados e uma boa dose de mergulho “antropológico” no meio. 😉

A HISTÓRIA: Começa com um áudio motivacional que diz “Bom dia, vencedor. Você está pronto para dominar o dia”. Sentada no chão, Molly (Beanie Feldstein) escuta as palavras motivadoras que seguem dizendo: “Você se esforçou mais que todos, por isso você é um campeão”. Grandeza requer sacrifício, a voz diz. No quarto, um troféu divide a estante junto com fotos de mulheres poderosas, inclusive Michelle Obama. Em um cabide, o uniforme que ela usará na sua formatura, que se aproxima. No final, o áudio diz “Foda-se esses perdedores”. Do lado de fora da casa, Amy (Kaitlyn Dever) aguarda a amiga para lhe dar uma carona. Elas estão na reta final do ensino médio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Booksmart): Assisti a esse filme há mais de um mês. Achei ele divertidinho e, principalmente, feito sob medida para interessar a galera jovem que consome muitos, muitos vídeos editados e no estilo dos “antigos” videoclipes.

Além de ter uma construção de imagens muito interessante, Booksmart renova um gênero de maneira eficaz. Claro que tem muita “baboseira” no meio, mas isso faz parte do estilo da produção também. Mas além de repetir os modelos de “galera desmiolada” versus “nerds que vivem sendo zoados” que já vimos várias vezes, Booksmart traz alguns elementos da nossa sociedade para a frente das câmeras.

Para começar, o roteiro cheio de sacadas de Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel e Katie Silberman tira um sarro dos áudios motivacionais e divisão entre estudantes comprometidos e os que “não estão nem aí”. Depois de ouvir uma conversa cheia de baboseira no banheiro, Molly descobre que os colegas que ela desprezava até então também vão para lugares de destaque – apesar de não terem estudado o tanto quanto ela.

Molly, uma garota inteligente e que acredita no empoderamento feminino, divide o protagonismo da história com a melhor amiga que é lésbica. As duas garotas nunca “pegaram ninguém” e, quando Molly descobre que colegas “menos inteligentes” também vão para Yale, Stanford e trabalhar no Google, ela intima Amy para que elas tenham uma última noite de diversão antes da formatura no dia seguinte.

Vamos combinar que esta narrativa é um “clássico” do cinema norte-americano que foca no ensino médio. Nerds que descobrem que não viveram tudo que poderiam e que resolvem ter uma última noite de diversão antes de concluir esse período. O que esperar desta noite? Evidente, meu Caro Watson, que a tal noite terá muitas confusões e sairá muito diferente do que as protagonistas inicialmente imaginaram.

Essa é a essência de Booksmart. Um filme que diverte por tirar de cena os garotos como protagonistas para dar espaço para duas garotas que estão buscando diversão sem terem muita “habilidade” para isso. Uma das lições desta produção é que todos podem conseguir o que desejam, mesmo que não seja exatamente como eles tinham pensado inicialmente. E, afinal, esse é um dos pontos fundamentais da vida, não é mesmo?

Que podemos chegar longe, nos divertirmos no caminho mas, para isso, precisamos aprender a lidar com as surpresas que aparecem no caminho. Isso que as protagonistas Amy e Molly acabam fazendo. No final, elas conseguem chegar na própria formatura depois de terem aprendido um pouco mais sobre elas mesmas e sobre os outros.

Entre os ensinamentos deste filme, está o de que as pessoas normalmente são mais do que uma leitura superficial pode nos dizer. Booksmart tenta nos convencer que é possível conseguir os nossos objetivos com sacrifício sim, com dedicação, mas não abrindo mão de toda a diversão no processo. Claro que isso é mais bonito no papel e em um filme de Hollywood do que na vida real.

Os atletas de ponta estão aí para nos mostrar, assim como as pessoas excepcionais em qualquer área, que para ser bem acima da média é preciso sim sacrificar a diversão, o contato com a família, com os amigos e tudo o mais. Agora, se você não quer ser excepcional e nem referência em uma área, deseja apenas ter ótimas oportunidades na vida, é possível sim equilibrar dedicação, esforço com um pouco de diversão.

Outra boa lição desta produção é a importância da amizade. Para o nosso desenvolvimento e para a nossa saúde mental, é fundamental contarmos com bons e poucos amigos. Eles nos ajudam a encarar tudo. O ensino médio – e o ensino fundamental, antes – é um tempo promissor para esta fase de “tribo” e de boas amizades. Seguir com elas pela vida pode nos ajudar bastante – mas não é algo simples quando a vida nos leva, cada um, para um lado.

Mas uma mensagem bacana de Booksmart é que a amizade perdura apesar disso. Mesmo que for apenas no coração das pessoas – e não mais tanto na convivência diária. Amy e Molly tem uma amizade gigante, verdadeira e que vai perdurar. Mas isso não impede Amy de querer vivenciar outras experiências sozinha, por sua conta. Isso, invariavelmente, vai acontecer com todos nós.

Molly deve lidar com essa separação da melhor forma possível – assim como os pais devem lidar com a síndrome do “ninho vazio” em algum momento. Tudo isso faz parte da vida, do aprendizado individual e das experiências que cada um deve vivenciar por sua conta. Booksmart trata de tudo isso com muitos diálogos, algumas sacadas inteligentes e com um grupo de atores muito bom – especialmente as protagonistas. Vale como passatempo e como um filme para ser visto de forma despretensiosa.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de finalizar esse texto, devo pedir desculpas para quem acompanha este blog há algum tempo. Estive, neste ano e, especialmente, nos últimos dois meses, bastante enrolada com a vida fora do blog. Assim, me desculpem, mas estou atualizando pouco este espaço, eu sei. Bem menos do que eu gostaria, tenham certeza. Mas quero, aos poucos, voltar a ativar esse espaço e, principalmente, começar a ver novamente a filmes diferentes e diferenciados. Obrigada pela paciência de vocês e até breve!

Sinto falta de ver filmes incríveis. Talvez esse tenha sido um fator para eu ter dado uma “desmotivada” em atualizar o blog. Outra razão é que andei mudando o design do blog e, nesse processo, estou tendo bastante trabalho em atualizar os textos antigos. Com isso, o blog caiu o nível de acesso bastante e, como um fator leva a outro, também fiquei um pouco “desmotivada”. Mas vamos virar isso e retomar esse espaço como antes. Prometo. 😉

Bem, falemos um pouco mais sobre Booksmart. Essa produção tem uma forte carga de protagonismo feminino. Não apenas pela história ser centrada em duas adolescentes mas, também, pelas pessoas envolvidas nos “bastidores” do filme. Para começar, vale destacar a direção da atriz Olivia Wilde que, com esta produção, faz a sua estreia em longas – antes ela dirigiu a três curtas, estreando com Free Hugs em 2011 e, depois, lançando Edward Sharpe and the Magnetic Zeros: No Love Like Yours e Red Hot Chili Peppers: Dark Necessities em 2016.

Parte do ritmo de videoclipes, com os quais Olivia Wilde têm experiência, inclusive, é o que ela imprime nesta produção focada em duas meninas e nas suas relações com os seus colegas e “matchs”. Olivia faz uma direção segura, com algumas sequências típicas de videoclipe e feitas para agradar o público jovem, mas que também sabe explorar muito bem o trabalho dos atores envolvidos no projeto.

O roteiro também é escrito apenas por mulheres. Citei elas antes, mas vale comentar novamente o trabalho competente – e verborrágico – de Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel e Katie Silberman no roteiro. Elas fazem um trabalho interessante valorizando o diálogo e a inteligência dos jovens que eles trazem à cena.

Ainda que a premissa central do filme seja um tanto previsível e já vista, colocar em cena duas garotas como protagonistas e todo o background inteligente, irônico e que privilegia os diálogos desse filme o tornam acima da média do besteirol. Por isso, acho que a nota acima se justifica. 😉

Do elenco, sem dúvida alguma o destaque vai para as protagonistas, vividas pelas carismáticas atrizes Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever. Cada uma delas interpreta muito bem as suas personagens, com características bem diferenciadas entre si – mas que, ainda assim, fazem uma bela dupla. Alem delas, vale comentar o trabalho de alguns veteranos em papéis secundários, como Jason Sudeikis como o Diretor Brown; Will Forte como Doug e Lisa Kudrow como Charmaine, pais de Amy. Entre os atores mais velhos, vale citar também Jessica Williams como Miss Fine.

Entre os jovens que aparecem em cena, destaque para Skyler Gisondo como Jared, o garoto que gosta de Molly e que usa o dinheiro para tentar conquistar as pessoas, mas que praticamente não tem amigos; Billie Lourd como Gigi, uma figura que parece “muitcho lôca” a maior parte do tempo, mas que é o mais próxima de uma amiga de Jared; Victoria Ruesga como Ryan, a garota que desperta o interesse de Amy; Mason Gooding como Nick, que desperta o interesse de Molly; Diana Silvers como Hope, uma garota que não faz questão de agradar ninguém e que acaba surpreendendo Amy e sendo surpreendida por ela; Molly Gordon como Triple A, uma garota inteligente mas que também sabe viver a vida; Nico Hiraga como Tanner e Eduardo Franco como Theo, dois amigos bem próximos e que fazem um “trio” com Nick.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Dan Nakamura; a direção de fotografia de Jason McCormick; a edição de Jamie Gross; o design de produção de Katie Byron; a direção de arte de Erika Toth; a decoração de set de Rachael Ferrara; e os figurinos de April Napier.

Booksmart estrou em abril no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. Depois, no dia 24 de maio, o filme estreou em circuito comercial nos Estados Unidos, no Canadá, na França e na Romênia. No Brasil o filme estreou no dia 13 de junho. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Os prêmios que recebeu foram o de Diretora para Ficar de Olho para Olivia Wilde no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e o Melhor Filme pela escolha do público no Festival Internacional de Cinema de San Francisco.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre este filme. Inicialmente, a atriz Beanie Feldstein leu o roteiro para um outro papel na produção. Mas quando Olivia Wilde assumiu a direção do filme, a diretora sugeriu que Beanie assumisse o papel de Molly. Foi uma bela decisão, sem dúvidas.

A roteirista Katie Silberman disse que a atriz Billie Lourd, que interpreta Gigi, fez uma performance tão impressionante que algumas cenas extras foram escritas especialmente para ela. De fato, ela se destaca entre as coadjuvantes.

A primeira versão deste roteiro foi escrita em 2009. Certamente ele foi atualizado depois, até pelas referências femininas que são “citadas” na produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Booksmart, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 285 críticas positivas e 10 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,26. O site Metacritic registara um “metascore” 84 para esta produção, fruto de 48 críticas positivas e de três medianas – além de apresentar o selo “Metacritic Must-see”. Ou seja, o filme se saiu muito bem segundo a avaliação do público e da crítica.

Segundo o site Box Office Mojo, Booksmart arrecadou US$ 22,2 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Um resultado interessante para um filme sem um(a) grande diretor(a) ou um grande nome do elenco.

Booksmart é um filme 100% dos Estados Unidos. Assim, esta produção atende a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: A franqueza do roteiro e da direção de Booksmart, assim como o perfil das protagonistas e a amizade desenvolvida por elas é o ponto forte desta produção. Não há filtros em cena. Temos uma fauna juvenil interessante pela frente, com duas “nerds” procurando curtir na última noite antes de deixarem o ensino médio. Assim, o filme agrada tanto aos nerds, que se sentem representados, quanto aos demais “populares” e afins desta época da vida. Com roteiro ágil e verborrágico e duas protagonistas carismáticas, esse filme é um belo passatempo – com um leve mergulho “antropológico” no meio. Bom para quem está fora do ensino médio há algum tempo se “atualizar” – levando em conta, claro, que estamos tratando de outro universo, o americano.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2019 Movie Oscar 2019 Votações no blog

Werk Ohne Autor – Never Look Away – Nunca Deixe de Lembrar

Um filme que começa de forma muito interessante, nos trazendo à memória como parte do povo alemão sofreu na pele a ideologia nazista. Mas Werk Ohne Autor não é uma produção comum sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que trate de temas fortes daquela época, Werk Ohne Autor trata, sobretudo, sobre o poder da arte. Não apenas para inspirar, mas também para mover e salvar vidas. A essência do autor deve estar na sua obra, isso essa produção deixa muito claro. Mas quem nos inspira, no final? Alguns que puderam ser considerados loucos. Um filme muito bem conduzido e interessante, ainda que seja preciso trabalhar com dois ritmos muito diferentes ao longo da produção – o que não necessariamente funciona com perfeição.

A HISTÓRIA: Começa em Dresden, em 1937. E uma galeria, em uma visita guiada, um alemão fala sobre a Arte Moderna. Ele comenta que ela existia antes da Alemanha Nazista, mas que, agora, eles querem novamente uma arte alemã. Essa arte, segundo ele, estamparia os valores alemães. No grupo de pessoas que visitam o museu, estão Elisabeth May (Saskia Rosendahl) e o seu sobrinho, Kurt Barnert (Cai Cohrs). Durante a visita, quem os guia no museu diz que os artistas que fazem Arte Moderna tem falhas na visão, que podem decorrer de acidente ou de herança. Sugere que, se for o segundo caso, os nazistas podem atuar para que esse problema não se perpetue. Em breve a família de Elisabeth e de Kurt vivenciarão uma situação como a sugerida por ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Werk Ohne Autor): Esse era o único filme que faltava para que eu conseguisse completar a lista das cinco produções que concorreram ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Cinema alemão, do qual eu gosto tanto – só não mais que o cinema francês. E obra de um diretor do qual eu aprecio também o trabalho, Florian Henckel von Donnersmarck – que fez, antes, o interessantíssimo Das Leben der Anderen (comentado aqui no blog).

Para falar a verdade, eu não tinha acompanhado mais a von Donnersmarck. Tanto que eu não sabia, por exemplo, que após Das Leben der Anderen ele havia lançado apenas um outro filme, The Tourist, com Johnny Depp e Angelina Jolie e que, em seguida, ele ficou oito anos longe dos lançamentos nos cinemas. Depois de impressionar a muitos com Das Leben der Anderen, parece que ele foi “contaminado” por Hollywood com o comercial The Tourist e voltou para as suas origens vários anos depois com esse Werk Ohne Autor.

O filme tem dois momentos muito diferentes. E isso chega a ser impactante. A diferença entre a primeira parte do filme e o que vemos depois é marcante. Funciona bem? Acho que o diretor começa forte, de maneira impactante, e que depois ele perde um pouco da força abraçando uma trajetória mais “plana” do protagonista, digamos assim. Por outro lado, isso também é interessante, não apenas para mostrar que a arte não precisa ser visceral como que não precisamos ter os nossos “desejos” de plateia por sangue, vingança ou afins atendido.

Werk Ohne Autor foca na história de um artista. Não por acaso a narrativa acompanha esse artista, vivido, na etapa adulta, pelo ator Tom Schilling e, quando criança, por Cai Cohrs, desde a sua infância. Quando era muito jovem, ele foi marcado e inspirado pela tia Elisabeth May (a ótima Saskia Rosendahl). Ela é uma pessoa à frente do seu tempo, muito sensível e com forte apreço pelas artes, mas acaba sendo diagnosticada como esquizofrênica.

O problema é que eles viviam, quando ela era jovem, justamente durante o regime nazista. Naquele momento, não importa se você fosse alemão ou estrangeiro. Se você tinha algum problema de saúde ou alguma doença mental, você era considerado “inferior” e não “merecia” dividir os recursos públicos com pessoas “saudáveis”. Francamente, especialmente pelas atitudes de Elisabeth quando ela estava internada, apresentando uma visão tão crítica e sensível, tenho sérias dúvidas se ela realmente sofria de esquizofrenia.

Será que ela não poderia ter sofrido apenas com uma crise nervosa? Relativamente limitada no interior da Alemanha e bastante pressionada na adolescência, quem nos garante que ela não tinha sofrido apenas com uma carga grande de estresse? E ainda que não fosse isso, que ela realmente tivesse esquizofrenia, hoje sabemos que essa doença mental tem tratamento e pode ser controlada.

A parte inicial do filme, especialmente quando é mostrada uma reunião de oficiais do Reich, é de arrepiar. Sob o comando do Dr. Burghart Kroll (Rainer Bock), o professor Carl Seeband (Sebastian Koch) e outros médicos responsáveis por clínicas e hospitais espalhados pela Alemanha, ganham o poder de determinar quem viveria e morreria sob as ordens do regime nazista. A ideia de Kroll era eliminar todas as pessoas que tinham doenças mentais e que eram consideradas, por isso, inferiores. Na cabeça doentia daquelas pessoas, eles estariam fazendo um “favor” para as gerações futuras.

Apenas ao assinalar uma cruz vermelha – ou um sinal de mais – na ficha dos pacientes, Seeband e seus colegas estavam decretando o envio das pessoas para campos de extermínio na parte “oriental” do país. O cinema alemão não tem problema em lembrar que o extermínio de milhões de pessoas não focou apenas em judeus, mas em outras pessoas que eram consideradas “inferiores” ou “non gratas” pelo regime nazista e criminoso do Reich.

Depois daquela introdução marcante e impactante, Werk Ohne Autor desacelera bastante. Mas isso não faz com que a produção deixe de ser interessante ou fique enfadonha. Muito bem conduzida por von Donnersmarck, Werk Ohne Autor acompanha o sobrinho de Elisabeth, Kurt, em sua jovem vida adulta. Ele também parece ter uma visão diferenciada do mundo, como a tia. Mas vivendo uma época pós-guerra e com a família tendo aprendido com a história de Elisabeth, Kurt não segue o mesmo caminho da tia.

A partir daí, vemos como ele evoluiu em sua busca pela arte. Inicialmente, ele se desenvolve na parte comunista da Alemanha, onde consegue sucesso seguindo a ideologia que faz parte daquela realidade. Mas ele não está satisfeito. Buscando por liberdade artística e por reconhecimento da vanguarda desta área na época, Kurt migra com a namorada, Elisabeth Seeband – que ele prefere chamar de Ellie (Paula Beer), para a parte ocidental da Alemanha.

Nessa parte da produção, mergulhamos na lógica da arte moderna e da busca dos artistas por sua própria identidade e expressão desta identidade para os demais. Se a tia do protagonista o influenciou a começar a sua trajetória, é o professor Antonius van Verten (Oliver Masucci) que o incita a amadurecer na sua linguagem artística. Ainda que ele parece ter se “decepcionado” com o pupilo inicialmente, a sua crítica e a sua própria história ajudam Kurt a encontrar a linguagem e o foco que ele precisa para expressar o que ele acreditar ser a sua identidade.

Interessante a forma com que a produção explora as diferentes escolas artísticas, o quanto a política e a vida influenciam a arte. A busca do artista por sua própria voz é sempre algo admirável e que rende boas histórias. O foco principal de Werk Ohne Autor é esse, assim como contar, é claro, parte do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra a partir da ótica de alguns alemães.

O período da guerra e do pós-guerra visto pela ótica dos alemães que não aderiram ao regime – mas que foram um tanto “forçados” a aceitá-lo para sobreviver – é um dos pontos de interesse do filme. Assim como aquela busca da essência artística do protagonista. Para embalar a história – e torná-la mais “comercial”, talvez? – o diretor e roteirista também nos apresentam uma história de amor inicialmente “impossível”.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, alguém quer algo mais improvável e “mundo pequeno” do que o sobrinho da garota que é morta por Seeband e que tinha o mesmo nome que a filha dele se apaixonar justamente pela filha do carrasco de sua tia? Elas terem o mesmo nome é algo marcante também, especialmente porque a tia do protagonista implorou para o médico como se fosse a sua filha.

Claro que, conforme a história se desenrola, parece que em algum momento virá a tona a verdade sobre a tia de Kurt e seu carrasco. Esse risco existe, mas a revelação acaba não acontecendo. Seeband, claro, mata a charada ao ver as obras de Kurt, mas o genro “desafeto” dele acaba sem entender a reação do sogro e não tem revelado o mistério da tia. Com isso, parece, von Donnersmarck está nos mostrando que a vida é cheia de encontros e de coincidências, mas que nem todas as histórias tem as revelações e as resoluções que gostaríamos ou que veríamos em novelas.

Apesar de ter feito um juramento como médico, de salvar vidas, Seeband era, acima de tudo, um nazista convicto. Ele é tão carniceiro e preconceituoso que não se importou de praticamente tirar a possibilidade da própria filha engravidar apenas para “impedir” que um sujeito que ele considerava inferior – afinal, Kurt era um artista e vinha de uma família que não era tradicional ou poderosa – tivesse um filho com ela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda que o filme não nos entregue a “vingança” ou ao menos a queda de máscara de Seeband, mas ele avança com um final feliz dos sobreviventes do Holocausto. Kurt e Ellie conseguem ficar juntos e ela consegue engravidar, que é muito mais e o contrário do que o pai da garota desejaria. Kurt também consegue desenvolver o seu próprio estilo artístico, ainda que a crítica considere a sua arte “sem autor”.

O título original do filme, em alemão, faz alusão a isso, a uma arte “sem autor”. O título para o mercado internacional explora a frase que a tia do protagonista falava para ele – de nunca desviar o olhar. Para o Brasil, o título foi levemente modificado e faz alusão às memórias do artista sobre o próprio passado. Por incrível que pareça, os três títulos fazem sentido – apesar de, claro, quererem explorar aspectos diferentes da história.

Vamos falar do primeiro. Para os críticos que avaliam o trabalho de Kurt Barnert, ele é um dos maiores expoentes da arte do seu tempo, da sua geração. Eles elogiam o trabalho que ele faz, mas consideram que o que ele responde não é satisfatório. Por não conseguirem as respostas que desejam, os críticos consideram que a arte dele é “sem autor”. Isso fala muito sobre os nossos dias, inclusive. Os críticos e o público em geral desejam determinadas respostas e que seus desejos sejam satisfeitos, independente do que o autor deseja comunicar.

Me desculpem os críticos e o público que “funciona” com esta lógica, mas eu funciono com uma lógica diferente. Respeito o que os artistas comunicam e o que eles querem expressar. Não quero que tudo satisfaça o meu gosto ou as minhas expectativas. Para mim, o importante é que a arte faça sentido e/ou que me emocione.

Uma prova desta falta de abertura para o que o autor deseja comunicar é o que vimos recentemente com o final de Game of Thrones. As pessoas levam para tudo a cultura do “futebol”. Ou seja, havia um “team Daenerys” e um “team Jon”. Para estes times, só existia um final possível: a vitória de seus personagens no final. Qualquer outra possibilidade seria um “lixo”. Não é isso que vemos em Werk Ohne Autor também quando os jornalistas e críticos entrevistam Kurt e não conseguem dele as respostas que desejam?

Não importa a frustração ou as expectativas de quem assiste ou aprecia a algo. O ego deveria ser deixado de lado para entender a ótica do outro, do artista, suas motivações, sua história, seus sentimentos e todo o contexto que circunda aquela obra. O mesmo vale para o cinema. Devemos entender o que cada cineasta deseja nos passar antes de saber se aquilo fez ou não sentido para cada um de nós. A partir daí pode surgir a nossa crítica, embasada não apenas em gostos pessoais e em “torcidas” estilo futebol.

A frase dita por Elisabeth e que sempre inspirou Kurt tem a ver com o ensinamento de nunca ter medo de nada, de enfrentar a vida de frente e de não ter vergonha de ser o que se é. Uma frase potente, simples e que acaba moldando um bocado a percepção que o protagonista tem do mundo. Finalmente, a frase que acabou sendo usada no título do filme no mercado brasileiro tem a ver com a busca do próprio cineasta, do cinema alemão e do país em não esquecer o seu passado, até para evitar que ele se repita. Tudo isso é importante, e tudo isso ajuda a explicar esta produção.

Gostei de Werk Ohne Autor. Apesar de longo, por ser muito bem construído e por atores carismáticos como protagonistas, o filme não cansa. Passa até meio que rápido. No final das contas, essa produção tem uma narrativa clássica, linear e um pouco previsível. Nos surpreende mais apenas no início, mas depois segue uma vertente confortável.

Essa não é uma produção inesquecível, mas é um filme bem feito e bem realizado. Mais uma obra interessante sobre o regime nazista e o pós-guerra, explorando algo que não é comum de ser mostrado no cinema sobre esta época, que é justamente como os artistas se comportavam e trabalhavam nas “duas Alemanhas” que restaram após a derrota de Hitler e seus cães de guerra. Por ter esse toque diferenciado, assim como pela maneira com que a produção encara o fazer artístico e a crítica da arte, Werk Ohne Autor merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Último filme da lista dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, Werk Ohne Autor mostra a força do cinema alemão. Mas não achei o melhor filme da temporada. Particularmente, prefiro Shoplifters (com crítica neste link), Capernaum (comentado por aqui) e até mesmo produções que não chegaram entre as finalistas, especialmente Den Skyldige (comentado neste link) e Beoning (com crítica por aqui). Gostei mais desses filmes todos do que da produção que levou o Oscar para casa, Roma (com crítica neste link). Mas o filme vencedor é melhor que este Werk Ohne Autor? Acho que eles empatam, ao menos nos quesitos direção e fotografia. Em termos de roteiro, me parece que até o filme alemão apresenta elementos mais interessantes e que fazem pensar do que o filme de Cuarón.

Um dos pontos altos de Werk Ohne Autor é a sua direção de fotografia. Assim como outra produção indicada a Melhor Filme em Língua Estrangeira nesse ano, Cold War (com crítica neste link). Em Werk Ohne Autor esse trabalho leva a assinatura de Caleb Deschanel. Também vale destacar a ótima trilha sonora de Max Richter e a edição de Patricia Rommel e Patrick Sanchez Smith. Todos fazem um belo trabalho. O diretor Florian Henckel von Donnersmarck também consegue equilibrar bem todos os elementos em cena, exprimir ótimas interpretações dos atores e valorizar a parte artística da produção. Apenas o seu roteiro achei um tanto previsível e “clássico demais” na segunda parte – após aquele começo potente e impactante. Mas o trabalho dele não é ruim.

Falando nos grandes méritos do filme, além da direção segura de von Donnersmarck, da direção de fotografia de Deschanel e da trilha sonora de Richter, vale destacar o carisma dos protagonistas, especialmente de Tom Schilling e de Paula Beer. A atriz Saskia Rosendahl aparece menos do que gostaríamos, mas também esbanja carisma e beleza. Os três são o ponto alto da produção, sem dúvida. Não exageram nas interpretações e passam a veracidade necessária para nos convencer de seus personagens. O ator Sebastian Koch, veterano, também faz um belo trabalho.

Além deles, vale comentar o bom trabalho de outro veterano, Oliver Masucci, bem como o professor de arte Antonius van Verten; Hanno Koffler bem como Günther Preusser, que se torna amigo de Kurt na escola de arte; Evgeniy Sidikhin como o major russo Murawjow, que acaba protegendo Seeband depois que o médico ajuda no parto de seu primeiro filho; o talentoso Jörg Schüttauf como Johnann Barnert, pai de Kurt e mais uma vítima do regime nazista – mesmo sem apoiar o regime, ele teve que se filiar ao partido e acabou pagando caro por isso; Jeanette Hain como Waltraut Barnert, mãe de Kurt e irmã de Elisabeth; Ina Weisse como Martha Seeband, mãe de Ellie; o veterano Rainer Bock quase em uma ponta como o Dr. Burghart Kroll, comandante do extermínio; David Schütter como o artista Adrian Schimmel/Finck, que acaba “empresariando” o colega Kurt; e os atores jovens que interpretaram os protagonistas quando crianças/adolescentes, a saber: Cai Cohrs interpreta Kurt aos 6 anos de idade e Oskar Müller o interpreta quando ele teria 13 anos; e Mina Herfurth interpreta Ellie aos 6 anos.

Além do elenco e dos aspectos técnicos já comentados, vale citar o bom trabalho de Silke Buhr no design de produção; de Theresia Anna Ficus, Markus Nordemann, Robert Reblin, Marek Warszewski e de Jiri Zavadil na direção de arte; de Julia Roeske e de Yvonne von Krockow na decoração de set; e de Gabriele Binder nos figurinos.

Werk Ohne Autor estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo mês o filme estreou nos festivais de cinema de Toronto e de Zurique. Depois, a produção passaria, ainda, por outros oito festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13, incluindo as indicações para os Oscar’s de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Direção de Fotografia no Oscar 2019. A produção também foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os prêmios que o filme recebeu foram o de Melhor Ator – Nacional para Sebastian Koch no Bambi Awards; o de Melhor Produção no Bavarian Film Awards; o de Melhor Filme em Competição na mostra Arca CinemaGiovani Award e o Leoncino d’Oro Agiscuola Award para Florian Henckel von Donnersmarck, ambos entregues no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Durante o filme, fiquei me perguntando o quanto da história poderia ter relação com alguma história real. Segundo os produtores de Werk Ohne Autor, o filme é “vagamente baseado” na história do artista alemão Gerhard Richter. Parece que foi “levemente” inspirado mesmo, porque Richter reagiu à produção dizendo que ela apresentava “abuso e distorção gritante” da sua biografia.

Procurando mais sobre Richter, vi que ele já rendeu alguns documentários interessantes. Nascido em 1932 na cidade de Dresden, na Saxônia, o artista começou a ser retratado pelo cinema em 1994 com o curta para a TV Gerhard Richter. Em 1999, ele apareceu no documentário Speaking of Abstraction: A Universal Language. Depois, em 2005, foi foco do documentário Gerhard Richter: 4 Decades. Outro documentário focado nele foi lançado em 2011, Gerhard Richter Painting. Segundo a Wikipédia, o pintor alemão viveu mais de 16 anos “debaixo do comunismo” na Alemanha Oriental antes de se mudar para a Alemanha Ocidental em 1961.

Segundo este artigo de 2005 da Deutsche Welle sobre Richter, o “superstar alemão” produzia obras que valiam até US$ 9 milhões e foi considerado, pela Art Newspaper em março de 2002, o “artista vivo mais caro” do mundo – ao menos no início dos anos 2000. Segundo o artigo, em 40 anos de carreira, o estilo de Richter mudou continuamente, passando por pop art, fotorrealismo, arte conceitual e minimalista, chegando até a pintura abstrata. Também criou objetos, fotocolagens e instalações.

Para quem deseja ver mais sobre a obra diversificada do artista que inspirou o filme, vale dar uma conferida na página dedicada para ele do site Artsy.

O professor de arte de Kurt é inspirado no artista Joseph Beuys, que foi chefe do departamento de escultura na Kunstakadamie em Dusseldorf no início dos anos 1960. Foi nessa época, também, que o artista Gerhard Richter se matriculou na escola de arte pela primeira vez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 74 críticas positivas e 23 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,31. O site Metacritic apresenta um “metascore” 69 para Werk Ohne Autor, fruto de 17 críticas positivas, sete medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Werk Ohne Autor faturou cerca de US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos. Pouco, se comparado com um filme americano, mas um resultado razoável para uma produção estrangeira com três horas de duração. Até porque o filme estreou em apenas 122 cinemas do país.

Werk Ohne Autor é uma coprodução da Alemanha com a Itália. Há algum tempo, aqui no blog, vocês votaram pedindo por mais críticas de filmes alemães. Por isso, essa crítica passa a figurar na lista de textos que atendem à votações feitas aqui no blog. 😉

Me desculpem as poucas atualizações aqui no blog nos últimos meses, mas estou em uma correria boa no meu trabalho. Mas prometo, logo que possível, voltar a publicar mais textos por aqui. Com maior frequência, ao menos. Logo voltarei a alguns clássicos do cinema também – até para “reavivar” a seção aqui no blog destinada a isso e que anda meio abandonada.

CONCLUSÃO: Werk Ohne Autor começa de forma impactante. Um drama familiar que acabou sendo o drama de diversas outras famílias é contado de forma vigorosa na parte inicial deste filme. Depois, temos uma quebra de ritmo marcante em Werk Ohne Autor, o que não é difícil de trabalhar. A produção então suaviza bastante, mas acaba transmitindo a sua mensagem de amor à arte e de que o amor vence mesmo a brutalidade. Sempre bacana ver como os alemães olham e refletem sobre o próprio passado. Sem dúvida, uma cultura admirável, apesar de todos os seus equívocos históricos. Um filme longo, de três horas, que não é difícil de assistir. O tempo passa mais rápido do que o previsto. O que é um bom sinal. Vale ser visto, sem dúvidas.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Heróis de HQ Movie Votações no blog

Avengers: Endgame – Vingadores: Ultimato

A saga foi longa e os fãs da grife Marvel nos cinemas estavam sedentos. Avengers: Endgame veio para fechar um ciclo e colocar um pingo final em uma trajetória que pedia por isso. Mas o filme é excepcional? Destes que serão citados por você quando fores indicar um filme para alguém? Bem, eu diria que Avengers: Endgame cumpre o seu papel, mas não vai além disso. A história é um bocado previsível, mas o filme entrega o que promete. Há sequências incríveis, há momentos engraçados e um pouco emocionantes e, claro, efeitos especiais e visuais excelentes. Mas é isso. Nada fora do normal ou do que você já estava esperando.

A HISTÓRIA: Lila Barton (Ava Russo) está aprendendo com o pai, Clint Barton (Jeremy Renner), mais conhecido como Gavião Arqueiro, como aperfeiçoar os seus disparos de arco e flecha. O local em que eles estão é tranquilo e paradisíaco. A família Barton está vivenciando um dia tranquilo, com a esposa de Clint, Laura (Linda Cardellini) preocupada em saber quem vai querer maionese, mostarda ou ketchup no hot dog. Tudo parece perfeito, até que Lila e os demais, menos Clint, desaparecem.

Em uma nave sem condições de retornar para a Terra, Tony Stark (Robert Downey Jr.), mais conhecido como Homem de Ferro, grava mais uma mensagem para a sua amada Pepper Potts (Gwyneth Paltrow). Ele sobreviveu aos fatos ocorridos com Thanos (Josh Brolin) com ajuda de uma das “filhas” do vilão, Nebulosa (Karen Gillan). Como ele conta, se passaram 22 dias desde que Thanos ganhou a batalha e destruiu metade da vida na Terra. Agora, Stark espera o oxigênio da nave acabar e a vida dele terminar, consequentemente. Mas aí aparece em cena Carol Danvers (Brie Larson), mais conhecida como Capitã Marvel, que resgata o Homem de Ferro. A partir daí, vamos acompanhar a busca dos Vingadores por reparar o mal que foi feito por Thanos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avengers: Endgame): Quando eu vi que esse filme tinha três horas de duração, eu pensei: “Puxa, eles terão fatos para contar!”. Claro que mais que uma história rica e cheia de detalhes interessantes o que temos em cena é um roteiro planejado com esmero para agradar aos fãs do Universo Marvel. Assim, temos sim o reencontro de diversos personagens queridos pelo público com os seus passados e, porque não dizer, com um vislumbre do que seriam os seus futuros.

O tempo é algo interessante nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não apenas porque contamos com uma viagem no tempo durante a história, com personagens como Tony Stark e Steve Rogers (Chris Evans) revendo os seus próprios passados e tendo reencontros emocionantes com pessoas que eles tiveram que deixar para trás, mas também porque algumas histórias nos fazem refletir sobre como construímos o nosso futuro.

A parte boa do filme é quando o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, baseados nos HQs criados por Stan Lee, Jack Kirby e Jim Starlin, exploram os aspectos mais pessoais dos personagens. Seja pela sequência inicial, que é visualmente muito bem construída e emocionalmente marcante, do Gavião Arqueiro vendo tudo que ele ama desaparecer na frente dos seus olhos, seja depois, no “futuro”, quando Tony Stark está com uma família constituída, esses momentos de proximidade com os atores são o ponto forte da produção, a meu ver.

Gosto sempre que um filme se aproxima dos personagens, de suas escolhas e sentimentos. Acho que as histórias de HQ transportadas para a telona funcionam muito bem quando buscam essa profundidade maior dos personagens – vide Logan (comentado aqui) e Black Panther (com crítica neste link). Quando Avengers: Endgame investe nesta proximidade com os personagens, o filme ganha em sentimento. Mas claro não é apenas isso que o público espera e nem é só disso que o filme é feito.

As grandes cenas de batalha precisam existir, e elas são feitas com esmero. Ainda assim, há pouca surpresa quando a batalha acontece. Mas antes de falar deste ponto do filme, vamos voltar um pouco para o desenvolvimento da história dirigida por Anthony Russo e Joe Russo.

As escolhas sobre a narrativa até que foram interessantes. Afinal, quem poderia esperar que logo aniquilariam Thanos? Quando Thor (Chris Hemsworth) acaba com o vilão, após ele ter destruídos as Joias do Infinito (apresentadas no filme anterior, comentado aqui), que poderiam, em tese, retornar com as vidas perdidas, o que poderia seguir na produção?

Bem, como o filme estava no início, certamente teríamos uma reviravolta na história. Quem assistiu a Ant-Man and the Wasp (com crítica neste link), logo relacionou A com B e sabia que a solução para o problema viria através da descoberta de Scott Lang (Paul Rudd), conhecido como Homem-Formiga. Ou seja, não demora muito para você matar praticamente toda a charada de Avengers: Endgame. Isso é bom para o filme? Definitivamente não.

Mas beleza, o que nos resta quando não somos surpreendidos pela história? Nos resta curtir os encontros e reencontros dos personagens, ver aquela constelação de estrelar surgir na nossa frente e, claro, nos divertirmos com as piadinhas, com algumas tiradas boas, sequências emocionantes e com os efeitos visuais e especiais sem fim que aparecem em cena. Por tudo isso, Avengers: Endgame é exatamente o que se esperava dele: um grande entretenimento.

Os fãs, acredito, em geral, vão amar. Afinal, o filme apresenta todos os elementos que já esperamos, naturalmente, de filmes da Marvel. Mas para mim, que sou fã das HQs, dos personagens e dos filmes da Marvel – especialmente dos melhores -, mas, especialmente, sou fã do bom cinema, Avengers: Endgame deixou um pouco a desejar. Especialmente pelo roteiro, que me pareceu estrategicamente medido para agradar aos fãs da Marvel e não necessariamente feito para agradar aos fãs do cinema.

O fato do roteiro ser bastante previsível tira um pouco da graça do filme para mim. Mas no demais, claro, Avengers: Endgame é maravilhoso. Sempre bacana ver tantos atores bons juntos, assim como nos aproximarmos destes heróis depois que eles foram “derrotados”.

O grupo, então, se divide essencialmente em duas partes: em figuras como o Capitão América e Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), conhecida como Viúva Negra, que, apesar de não negarem o luto, tentam seguir a vida buscando ajudar uns aos outros; e, de outro lado, em figuras como Thor e Gavião Arqueiro, que se enchem de desesperança, de bebida ou de ânsia assassina, respectivamente, e que não conseguem ver um horizonte pela frente.

Nesse aspecto o filme é interessante. Ao nos lembrar que mesmo os heróis são diferentes e agem de maneira diversa quando perdem tudo. Avengers: Endgame os humaniza de uma forma mais ampla, apesar de não ter tempo de se aprofundar muito na história e nos sentimentos de ninguém – afinal, é um grupo grande para retratar. No geral, contudo, Avengers: Endgame se apresenta um filme com tempo adequado, bom desenvolvimento de personagens, ótimas cenas de ação e de batalha e alguns acontecimentos feitos sob medida para emocionar os fãs.

Tenho certeza que a despedida de alguns personagens que, aparentemente, partiram para sempre, e alguma passagem de “bastão” entre personagens mexeu com os espectadores. É fato que em certos momentos, como aconteceu antes com Logan, alguns personagens precisam se despedir do público. Faz parte.

Quem sabe eles não ensinem, desta forma, os jovens a entenderem um pouco mais sobre a finitude da vida? Porque por mais que os super-heróis estejam aí para nos inspirar e nos fazer pensar, a maioria deles é mortal. Que graça teria se eles não fossem assim?

O único problema de Avengers: Endgame, a meu ver, e infelizmente esse não é um problema pequeno, é que sua narrativa é bastante previsível. Dá para você matar a maioria das charadas bem cedo na história. Ainda que ser surpreendido não é algo fundamental, e sim é mais importante ser coerente, agradecemos quando ao menos um pouco de surpresa acontece em cena. Mas Avengers: Endgame não tem espaço para isso. Uma pena. Ele poderia ser melhor se tivesse procurado ousar um pouco mais.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não vou mentir para vocês. Eu não assisti a toooodos os filmes da Marvel lançados até agora. Perdi um aqui, outro acolá, mas, me parece, assistindo a esse filme de “arremate” de todas as produções lançadas até agora e que faz um divisor de águas entre o que passou e o que virá no Universo Marvel, acho que não perdi nada de importante ou realmente fundamental. Menos mal. 😉

Em outros textos sobre filmes da Marvel eu já comentei sobre o meu apreço pelas HQs. Quando era criança e adolescente, eu lia muuuitos HQs – 90% das vezes, da Marvel. Da DC Comics, basicamente, me interessava as histórias do Batman – mas algumas, não todas. Assim, gosto sim de ver os filmes com essa galera em cena, ainda que nem sempre eles me pareçam tão fascinantes quanto as HQs eram para mim no passado – hoje, só continuo lendo mais The Walking Dead em HQ. Claro que, na fase adulta, li a outros quadrinhos, geralmente obras mais densas do que os filmes da Marvel. 😉

Impossível falar do elenco inteiro de Avengers: Endgame que tem algum destaque na produção. Ainda assim, inevitável falar do excelente trabalho do elenco principal, formado por figuras que já se conhecem e trabalham há muitos anos juntas, como Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Scarlett Johansson e Paul Rudd. Eles são os personagens que tem mais relevância nessa história.

Além deles, como “segundo time” que aparece bem no filme, estão Don Cheadle, Brie Larson, Karen Gillan, Elizabeth Olsen, Zoe Saldana, Rocket (com voz de Bradley Cooper), Gwyneth Paltrow, Josh Brolin e Chadwick Boseman. Aparecem menos, mas com relevância na história, Benedict Cumberbatch, Tom Holland, Evangeline Lilly, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Tom Hiddleston, Danai Gurira, Benedict Wong, Letitia Wright, John Slattery, Tilda Swinton, Jon Favreau, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, Sean Gunn, Hiroyuki Sanada, Robert Redford, Chris Pratt, Lexi Rabe (como Morgan Stark). Além desse povo todo, temos ainda Stan Lee em sua última aparição como motorista de um carro. Esse é o verdadeiro herói desta história toda. 😉

Avengers: Endgame estreou no dia 22 de abril em uma première em Los Angeles. No dia 24 de abril o filme estreou em 30 países em diversos continentes. No Brasil, ele estreou no dia 25 de abril. Como esperado, o filme é um arrasa-quarteirão. A produção, que teria custado cerca de US$ 356 milhões, faturou, até o dia 5 de maio, cerca de US$ 619,7 milhões apenas nos Estados Unidos – e outros US$ 1,57 bilhão nos outros países em que o filme já estreou.

Ou seja, teria faturado algo em torno de US$ 2,2 bilhões até o dia 5 de maio. Isso já coloca o filme como a segunda maior bilheteria do cinema da história – atrás apenas de Avatar, segundo o site Box Office Mojo. Mas, pelo que tudo indica, será fácil do filme que fecha a saga da Marvel dos Vingadores passar para o primeiro lugar. Devastador.

Os usuários do site IMDb amaram o filme. Hahahaha. Prova disso é que Avengers: Endgame ostenta a impressionante nota de 8,9 no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 412 críticas positivas e 22 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,29. Nota bastante alta para o padrão do site também. O site Metacritic apresenta um “metascore” 78 para o filme, fruto de 52 críticas positivas, de três medianas e de uma negativa.

Até o momento Avengers: Endgame não recebeu nenhum prêmio. Mas não vou ficar admirada se ele ganhar alguns no futuro – talvez até alguns técnicos no Oscar? Aliás, entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar o excelente trabalho das equipes envolvidas nos Efeitos Visuais, nos Efeitos Especiais e na Maquiagem e Cabelo; assim como a dupla responsável pela edição, Jeffrey Ford e Matthew Schmidt; e o diretor de fotografia Trent Opaloch. A exemplo do roteiro e da direção, que achei um bocado previsíveis, achei o mesmo da trilha sonora de Alan Silvestri. Além deles, vale citar o bom trabalho de John Plas e de Charles Wood no Design de Produção; de Leslie Pope na Decoração de Set; e de Judianna Makovsky nos Figurinos.

Avengers: Endgame é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, essa crítica acaba entrando na lista de textos que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Meio que a conclusão sobre esse filme eu já apresentei na introdução, não é mesmo? 😉 Mas é exatamente aquilo o que eu penso. Avengers: Endgame é um belo entretenimento. O filme é bem conduzido, envolvente, tem ótimos atores em cena. Mas a história, em si, não é nada surpreendente. Ok, a questão Thanos ter sido “resolvida” logo no início da produção surpreendeu um pouquinho. Mas o que vemos depois, não foi tão surpreendente assim. Basta lembrar bem do filme anterior e de outras produções próximas para saber em que toada o filme deveria seguir. Ainda assim, vale o ingresso. Especialmente para quem acompanhou a saga até aqui.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie Votações no blog

The Mule – A Mula

Ficar “velho” não é mole não. Todos acham bacana quem chega aos 90 ou aos 100 anos de idade, mas quem chega lá não tem apenas motivos para sorrir. Ainda assim, sempre é bacana viver bastante. Afinal, se ganha mais tempo para amar, perdoar, ser amado e ser perdoado. Sobre tudo isso é que esse The Mule trata. Um filme bastante honesto e que nos presenteia com mais um filme dirigido e estrelado pelo grande, pelo mestre Clint Eastwood. A história em si não apresenta grandes achados, mas a interpretação de Eastwood é quase um testamento que ele nos deixam. Um presente, para falar a verdade.

A HISTÓRIA: Uma linda plantação de amarílis. Vemos a diferentes tipos de flores em uma propriedade em Peoria, no Estado de Illinois, em 2005. Dentro de uma estufa, Earl Stone (Clint Eastwood) colhe uma flor. Ele escuta um funcionário chegando, José (Cesar De León), e brinca com ele que, do jeito que ele dirige, ele parece querer ser deportado. Em seguida, Earl chega na convenção anual de produtores de amarílis. Ele presenteia Helen (Jackie Prucha) com uma flor e cumprimenta as pessoas do evento.

Earl será premiado naquela noite, quando prefere passar tempo com os amigos do que ir no casamento da filha, Iris (Alison Eastwood). Depois de 12 anos, Earl tem que deixar a casa, por causa de uma ação de despejo, porque viu o negócio de venda de flores ser derrotado pela internet. Ao comparecer na festa de noivado da neta, Ginny (Taissa Farmiga), Earl conhece um amigo dela, Rico (Victor Rasuk) que lhe convida para continuar dirigindo pelas estradas do país e ganhar uma grana com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Mule): Eu não vou mentir para vocês. Eu tenho uma grande, expressiva “quedinha” por Clint Eastwood. Admiro tanto esse diretor e ator que eu não consigo não gostar de algo que ele faça. Assim, claro, eu já tenho uma visão contaminada e otimista sobre The Mule apenas pelo fato dele dirigir e protagonizar este filme.

>> Livros de cinema, arte e fotografia

Claro que a nota abaixo tem muito a ver com essa minha admiração por ele. Inicialmente, eu daria uma nota um pouco mais baixa, mas aquele final do filme… A forma com que The Mule acaba parecendo um testamento de Clint Eastwood, me fez aumentar a avaliação da produção. Eastwood merece toda a nossa admiração por seguir produzindo, dirigindo e atuando mesmo após tantas décadas de dedicação e de trabalho no cinema.

Para vocês terem uma ideia, o primeiro trabalho de Eastwood como ator foi em 1955. Ou seja, ele tem 64 anos de trabalho nessa área. Como diretor, ele estreou em 1971, ou seja, tem 48 anos de carreira e segue na labuta. Um sujeito admirável e impressionante, sem dúvidas. Mas vamos falar deste último filme dele, The Mule.

A produção em si não é muito surpreendente ou marcante. Grande parte do filme acompanha as “desventuras” do protagonista viajando do Texas para Illinois. O roteiro de Nick Schenk, baseado no artigo The Sinaloa Cartel’s 90-Year Old Drug Mule de Sam Dolnick publicado na New York Times Magazine, procura equilibrar um pouco de drama com uma trama policial e pitadas de comédia aqui e ali.

Como era de se esperar, Clint Eastwood faz um ótimo trabalho na direção e como intérprete. Acreditamos perfeitamente naquele personagem que ele nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um senhor de 90 anos de idade que por ter viajado pela maior parte do país vendendo suas mudas de amarílis sem nunca ter recebido uma multa acaba sendo alvo de um dos cartéis de drogas mexicanos. Ele “simplesmente” faz o transporte de mercadorias que lhe pedem e, em troca, ganha uma boa quantidade de dinheiro por cada viagem.

A história nos faz pensar sobre como a vida é complicada e injusta com a maioria – acredito que seja a maioria – dos idosos mundo afora. Geralmente eles não tem uma boa aposentadoria e não tem mais oportunidades de trabalho ou de colocação no mercado. Muitos, a exemplo de Earl, acabaram vendo o seu próprio negócio definhar com o surgimento da internet – e eles não se adaptaram a essa nova era.

Assim, “do nada”, surge uma oportunidade dele seguir fazendo o que ele gostava – viajar pelas estradas do país – e ainda ganhar uma quantidade de dinheiro que ele nunca tinha visto na vida. Ao menos não em tão pouco tempo. No final da vida, despejado de casa e cobrado pela família por nunca ter estado presente, podemos realmente julgar Earl? Veterano da guerra da Coreia, ele percebe que a sociedade atual não dá bola para caras como ele. Então por que não se sentir útil e fazendo o que deseja pela última vez?

Algo que achei interessante nesse filme é a forma com que o roteiro de Schenk humaniza o personagem. Earl é um sujeito “velha guarda” que se adapta muito bem aos novos tempos. Claro que ele nunca se entende muito bem com o celular – e isso é normal e bastante comum entre quem não nasceu com essa tecnologia ao lado -, mas no restante das situações ele se adapta muito bem. Earl não tem problemas com os imigrantes, muito pelo contrário.

Enquanto vemos alguns moradores do interior dos Estados Unidos olhando com desconfiança para mexicanos, Earl se dá muito bem com eles – antes, quando era um produtor de amarílis e empregava mexicanos como funcionários e, depois, quando trabalha com eles no tráfico de drogas. Depois, o protagonista de The Mule lida muito bem com grupos de “sapatas” motoqueiras, quando as encontra no caminho, e com uma família de negros quando para para ajudar-lhes na estrada.

Claro que ele erra no politicamente correto e usa palavras que não são bacanas para se referir a todas essas pessoas. Mas isso não faz dele um sujeito preconceituoso. Esse ponto é interessante porque mais do que prestar atenção no que alguém fala e nas palavras que usa é importante observarmos como ela age. Isso sempre vai se sobrepor.

Mas voltando para The Mule. O filme, no fundo, é um ir e vir nas viagens de Earl e, em paralelo, o movimento que a polícia faz para melhorar os seus índices de combate às drogas. O detetive Colin Bates (Bradley Cooper) lidera, junto com o detetive Treviño (Michael Peña), uma operação para desmantelar os cartéis de drogas mexicanos. Enquanto vemos Earl avançando nas graças do chefe do tráfico mexicano Laton (Andy Garcia), vemos o trabalho de Colin e Treviño, sob a supervisão e comando do agente especial interpretado por Laurence Fishburne, avançar.

A história, contada de forma linear, tem muito espaço para destrinchar a rotina de Earl e a sua relação conflituosa com a família formada pela ex-mulher Mary (Dianne Wiest), pela filha Iris e pela neta Ginny. Earl se sente culpado por não ter dado toda a atenção para a família que ela merecia ao mesmo tempo que sabe que a sua natureza era a de “curtir a vida” e fazer as coisas “à sua maneira”.

Com o dinheiro que ganha como “mula”, Earl prova isso ao ajudar a família ao mesmo tempo que compra uma caminhonete nova, recupera a propriedade perdida por dívidas e curte a vida comendo bem a cada viagem e curtindo com algumas mulheres jovens e bonitas. A parte do filme centrada em Earl e na sua família funciona muito bem, enquanto que a narrativa centrada no México e no cartel parece um tanto “deslocada”.

O personagem de Julio (Ignacio Serricchio) é um exemplo disso. Ele parece bastante “forçado” na narrativa. Se o propósito dele era o de mostrar que o cartel não é mole ao mesmo tempo em que também tem o seu caráter humano, acho que esse propósito ficou um tanto forçado. A narrativa de perseguição “gato e rato” do filme é previsível e tem um desfecho nada surpreendente. A parte mais interessante da produção é justamente o foco no protagonista, mostrando que alguém com 90 anos de idade ainda pode fazer muito – não apenas trabalhar, mas também curtir a vida e fazer as pazes com a própria família.

Da minha parte, como comentei antes, fiquei especialmente comovida com o final. Quando o personagem de Clint Eastwood ressalta a mensagem de que o que importa mesmo é a família e não o trabalho ou a carreira e que alguém pode comprar tudo, menos o bem mais precioso que existe, que é o tempo, não parece que seja Earl que esteja dizendo tudo isso, e sim o próprio Clint. Não tem como não se emocionar com isso.

Por outro lado, algo perto do final do filme me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Em sua última viagem para o cartel, quando ganhou um ultimato para não atrasar e não sair da sua rota, Earl acaba fazendo tudo isso ao optar acompanhar os últimos momentos de Mary. Até aí, tudo bem. Ele desviar da rota e quebrar as regras não é problema. Agora alguém quer me convencer que realmente o cartel entregaria tanta droga para alguém sem colocar um rastreador no carro ou não ter investigado antes onde moravam os familiares dele? Entendo a forçada de barra para os propósitos do roteirista, mas achei isso difícil de acreditar.

Toda vez que um filme ignora o óbvio para justificar a sua narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Honestamente, esse filme não mereceria mais do que uma nota 8 – e isso porque temos Clint Eastwood em cena. Mas aquele final estilo “testamento” do diretor/ator me fez aumentar um pouco a nota da produção. The Mule é um filme mediano, mas para os fãs de Eastwood, sempre valera a pena vê-lo em cena.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Claro que envelhecer e ter a chance de chegar aos 90 ou aos 100 anos de idade é algo muito bacana. Uma benção. Mas nem todos chegam nessa idade bem como Clint Eastwood. Muitos tem vários problemas de saúde e precisam de cuidados permanentes. E mesmo os que envelhecem bem, geralmente, não tem as condições de Eastwood de continuar fazendo o que amam e de continuar trabalhando. Está na hora das nossas sociedades começarem a ver a velhice como um processo positivo e natural e a integrar mais os idosos em todas as atividades da sociedade, sem desprezar as pessoas depois de uma certa altura da vida.

Como não amar Clint Eastwood? Adorei as cenas em que ele se diverte dirigindo, cantando e “sassaricando”. Muito bacana também os momentos em que ele contracena com mexicanos e com a veterana Dianne Wiest. Ainda que ela pareça bastante “apagada” na história se comparamos a sua atuação com a de Clint.

Falando em atuações, achei o trabalho de Clint excelente. Ele está perfeito naquele personagem, vivendo um sujeito um pouco mais velho do que ele atualmente. Os outros atores fazem um bom trabalho, mas ninguém tem um grande destaque nesta produção. Todos parecem, me desculpem o termo, mas um pouco “anestesiados”. Eu não destacaria ninguém, em especial. Mas vou citar alguns nomes que fizeram parte desta produção.

Interessante como além de Clint, temos alguns atores de destaque nesta produção. Pessoas que estão em alta, como Bradley Cooper, ou outros que são reconhecidos por suas carreiras e por terem apresentado ótimos trabalhos em outras produções. Vale comentar o bom trabalho de Alison Eastwood como Iris; de Kinsley Isla Dillon como a jovem Ginny; de Dianne Wiest como Mary; de Taissa Farmiga como Ginny adulta; de Robert LaSardo como Emilio, líder do grupo que entrega as drogas para Earl; Laurence Fishburne como o líder do grupo de combate ao tráfico; Bradley Cooper como Colin; Michael Peña como Treviño; Eugene Cordero como Luis Rocha, o informante do cartel que acaba sendo fundamental para as ações de Colin e Treviño; Andy Garcia como Laton, chefe do cartel no México; Clifton Collins Jr. como Gustavo, funcionário de Laton que acaba lhe dando um golpe; e Ignacio Serricchio como Julio, um dos homens de confiança de Laton.

Além deles, vale citar outros nomes que fazem o trabalho de coadjuvante – quase em pontas no filme: Richard Herd como Tim Kennedy, colega de Earl no cultivo de amarílis; Victor Rasuk como Rico, amigo de Ginny que coloca Earl no negócio do tráfico; Alan Heckner como o policial do Texas que para Earl; Paul Lincoln Alayo como Sal, um dos traficantes que trabalham com Earl; Dylan Kussman como o Sheriff que interpela Earl e os mexicanos que estão com ele; Manny Montana como Axl, um dos homens de Gustavo; Lobo Sebastian como Lobo, outro capanga de Gustavo; e Derek Russo como o grandão que bate na máquina de gelo e que é detido no lugar de Earl no motel que está sendo vigiado por Colin e Treviño.

Da parte técnica do filme, o único item maior de destaque é a direção segura e eficiente de Clint Eastwood – um diretor que entende muito bem da “ciência” por trás das câmeras. O roteiro de Nick Schenk é apenas mediano. Além destes aspectos, vale citar o bom trabalho de Yves Bélanger na direção de fotografia; a trilha sonora bastante pontual e “sentimental” de Arturo Sandoval; a competente edição de Joel Cox; o design de produção de Kevin Ishioka; a direção de arte de Rory Bruen e Julien Pougnier; a decoração de set de Ronald R. Reiss; e os figurinos de Deborah Hopper.

The Mule é dedicado a Pierre Rissient e a Richard Schickel. Fui procurar um pouco mais sobre eles e vi que Pierre Rissient era francês, nascido em Paris em 1936. Ele trabalhou como diretor assistente e morreu em maio de 2018 aos 81 anos. Entre outros trabalhos, ele foi diretor assistente de Jean-Luc Godard no clássico À Bout de Souffle (Acossado, no Brasil). Richard Schickel, natural do Wisconsin, nos Estados Unidos, atuou como produtor, diretor e roteirista. Ele nasceu em 1933 e faleceu em fevereiro de 2017. Ele produziu, dirigiu e escreveu o roteiro de diversos filmes sobre nomes do cinema, inclusive focando no trabalho de Eastwood.

The Mule estreou em dezembro de 2018 em uma première em Los Angeles. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival de cinema e não ganhou nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. The Mule é inspirado na história de Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que e tornou a “mula” de drogas mais antiga e prolífica do mundo para o Cartel de Sinaloa, um dos mais conhecidos do México.

Para o personagem de Earl, o figurinista queria que diversas roupas tivessem o aspecto de desgastadas. Por isso foram resgatados trajes utilizados por Clint Eastwood em outros filmes, como Gran Torino (comentado aqui no blog), True Crime e In the Line of Fire.

Fiquei curiosa para saber sobre a vida “sentimental” de Clint Eastwood. Afinal, o seu personagem fala tanto de família, não é mesmo? 😉 Clint foi casado pela primeira vez com Margaret Neville Johnson, com quem ele esteve junto entre 1953 e 1984. Com ela, Clint teve dois filhos. Em 1996 ele se casou com Dina Eastwood, com quem ele teve uma filha e com quem ele ficou casado até 2014. Eles se divorciaram naquele ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 122 críticas positivas e 52 negativas para esta produção – o que garante para The Mule uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,11. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 58 para esta produção, fruto de 19 críticas positivas, 15 medianas e três negativas.

Clint Eastwood ainda chama muita atenção nos cinemas. Isso é o que demonstra o site Box Office Mojo. The Mule, produção que teria custado cerca de US$ 50 milhões, teria faturado pouco mais de US$ 103,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e mais US$ 65,1 milhões nos cinemas de outros mercados. No total, o filme faturou cerca de US$ 168,9 milhões. Um belo resultado para um filme interessante, mas que não é excepcional.

The Mule é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: The Mule, em si, não nos apresenta uma história realmente impressionante. Mas o filme nos emociona porque parece que Clint Eastwood está nos deixando o seu testamento. E as maiores mensagens que ele quer nos passar é que a família é o que realmente interessa (ou o amor, em outras palavras) e que você até pode comprar tudo, menos o tempo. Sabendo que no dia 31 de maio o diretor vai completar 89 anos, parece que a fala de seu personagem é a dele próprio. Como não se emocionar com isso? O filme vale por Clint, como tudo que ele faz. Não é uma produção brilhante, mas ela é sensível e tem a sua mensagem. Se você é fã dele, não pode perder.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Votações no blog

Ben Is Back – O Retorno de Ben

As mães, aquelas com M maiúsculo (que, acredito, são a maioria), são capazes do que há de melhor na humanidade. O amor delas não tem limite, não tem fim. Elas não desistem, não esmorecem, não deixam nunca de esperar que os seus filhos fiquem bem, sejam felizes. Ben Is Back fala de uma dessas mães. E fala de um tema que é fundamental, ainda mais nos dias de hoje: como as pessoas e as famílias lidam com os seus vícios? Quem cai nessa sempre vai sair queimado ou chamuscado, como mínimo. Nada é simples, nesse universo, e Ben Is Back trata disso com muita sabedoria e de forma interessante.

A HISTÓRIA: Em uma cidade tranquila, em um cenário com neve, dentro de uma Igreja, um coral ensaia. Na plateia, uma mãe orgulhosa, Holly Burns (Julia Roberts). Entre os cantores, Ivy (Kathryn Newton), não se contêm ao ver a mãe e sorri. Holly pede ela se manter firme, com postura. Crianças entram pela lateral. Correm de perto do grupo Lacey (Mia Fowler) e Liam (Jakari Fraser), filhos de Holly e integrantes do grupo que vai encenar a apresentação de Natal. Enquanto eles estão lá, um rapaz chega na casa trancada e com vigilância. Em breve, ao voltar para casa, Holly terá uma grande surpresa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ben Is Back): O primeiro atrativo para mim nesse filme foram os atores envolvidos na produção. Admito que eu sou fã da Julia Roberts. Adoro o trabalho dela, como ela se entrega em cada papel. E como outras mulheres/atrizes que eu admiro, como Julianne Moore, eu acho que ela fica melhor a cada ano que passa.

Além dela, outro atrativo de Ben Is Back era ver Julia Roberts em cena com Lucas Hedges. Um ator que merece ser visto e acompanhado. Um jovem talento que vem acertando nas suas escolhas. Mas o que mais me surpreendeu nesse filme foi a honestidade do roteiro e do trabalho do diretor Peter Hedges. Ben Is Back surpreende por seu tom realista e honesto. A franqueza é um de seus elementos principais.

O tema do filme é pesado. Mas eu não sabia nada sobre a história antes de começar a assistir a Ben Is Back – o  que, como vocês bem sabem, é o que eu sempre indico e é como eu faço em relação aos filmes. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme ainda). Esta produção mergulha à fundo na questão do vício nas drogas. E tudo sob a perspectiva de uma mãe e de uma família que precisa lidar com esse problema. Também temos uma visão privilegiada da ótica do garoto que sofre com o vício e que não consegue se livrar realmente dele.

Acho incrível como o roteiro de Peter Hedges mostra todo o caldeirão de elementos e de emoções que cercam uma situação como essa. Sem filtros e com muita franqueza, o que sempre tem um excelente efeito no cinema. Hedges não enfeita ou embeleza a pílula. Devemos agradecer por isso. Ben Is Back tem a qualidade que tem justamente por essa franqueza e pelo diretor explorar muito bem o efeito abrangente que o vício pode trazer para uma família e uma comunidade inteira.

Para passar toda a verdade do roteiro de Hedges, o diretor conta com excelentes atores. Nesse sentido, claro, destaque para os protagonistas. Julia Roberts e Lucas Hedges estão ótimos em seus papéis. Em ótimos desempenhos – acredito que dos melhores que eles apresentaram nos últimos tempos. Mas os atores coadjuvantes também estão muito bem. O ritmo do filme é intenso e emocional desde o início e até o final. Não há momentos de “barriga” ou de tédio. Algo importante para Ben Is Back também.

O roteiro tem uma forte carga dramática mas, como acontece com toda família, também tem os seus momentos de leveza e engraçados. Em resumo, um dos maiores destaques da produção é o texto de Hedges. O filme acerta também nos momentos de tensão e de suspense. Não tem como você esperar que a história termine bem, em muitos momentos, mas mesmo quando ela parece terminar como você temia, isso não deixa de surpreender.

Envolvente, Ben Is Back nos faz refletir e nos colocar no lugar dos personagens. Isso é fundamental em uma produção que trata da dependência das drogas. Afinal, ainda estamos muito cercados de julgamentos e de preconceitos sobre esse assunto. Mas esse filme estimula as pessoas a terem empatia, a ver que todos sofrem com uma situação como essa. Não apenas a família de Ben, neste caso, mas ele próprio.

O que eu mais gostei no filme é como ficamos centrados em duas visões muito diferentes nessa história. Por um lado, o lado amoroso e generoso da mãe. De fato, apenas as mães com M maiúsculo podem entender toda a generosidade e a doação que é tão típico das mães. É algo impressionante, maravilhoso e exemplar. Outras pessoas, que não são mães, podem se colocar no lugar delas e aprender com elas. Admirá-las.

A outra ótica muito bem explorada nesse filme é a de Ben. Outro lado fascinante da história. O garoto, como descobrimos no decorrer do filme, começou a ficar viciado após se machucar esquiando e receber “painkillers” (analgésicos fortes) de um médico. Segundo Holly, mãe de Ben, quando o médico Dr. Crane (Jack Davidson) começou a aumentar a dosagem de painkillers, foi aí que o filho dela começou a ficar viciado.

Isso é algo interessante em Ben Is Back. O alerta de que, às vezes, pessoas “confiáveis” e que deveriam ter cuidado com os jovens, como médicos e professores, podem ajudá-los a se afundar. Isso é visto não apenas na falta de compromisso e de ética do médico que receita painkillers viciantes para Ben, quando ele era jovem, mas também o professor Mr. Richman (Henry Stram), que Ben vai visitar, ao procurar o cachorro da família, e que era fornecedor de drogas/medicamentos para o garoto.

A verdade é que a tentação e a queda estão próximas de crianças e de jovens a todo o momento. Os pais podem orientar bem os seus filhos para as tentações e para os problemas que podem acontecer caso eles optarem por alguns caminhos tortos, mas nenhuma mãe ou pai pode realmente evitar que o pior aconteça. Eles podem torcer, orientar e até rezar. Mas, no final das contas, as escolhas sempre serão de seus filhos – que, além de tudo, são indivíduos independentes e que pensam e sentem por sua própria conta.

Ben Is Back explora muito bem esse sentimento de preocupação e de comprometimento que os pais tem com os seus filhos. Holly está preocupada e deseja cuidar de cada um de seus filhos, mas sabe que deve lutar e não desistir de Ben, em especial. O marido dela, Neal Beeby (Courtney B. Vance), está mais preocupado com os seus próprios filhos, Lacey e Liam. Claramente ele está preocupado com a “influência negativa” e com o risco que a proximidade de Ben pode ter em relação a eles.

O quanto ele está errado? Natural que os pais procurem proteger e defender os seus filhos. Assim, natural que Neal se preocupe com a presença de Ben. Mas realmente é justo e ajuda o jovem que está buscando se recuperar toda a desconfiança e “pé atrás” que Neal e até Holly têm em relação ao jovem? Talvez não ajude ele, mas faz parte do processo. Afinal, como Ben mesmo diz para a mãe, em certa parte do filme, ele é especialista em mentir, em enganar e em dissimular para conseguir o que deseja. E, muitas vezes, o que fala mais alto é o vício.

Outro elemento importante que vemos em cena é a questão da culpa e a dificuldade que o protagonista tem de se perdoar. Esses talvez sejam os principais desafios e empecilhos para que alguém que é viciado consiga se livrar do vício. Ben não se perdoa por todo o sofrimento, dor e problemas que ele causou para a sua família, especialmente para a sua mãe. Ele também se sente culpado pela morte da filha de Beth Conyers (Rachel Bay Jones). Mais que um viciado, Ben se tornou traficante e levou várias pessoas para o vício também.

Quando alguém entra nessa, pode ter a sorte de superar e sobreviver. Mas quantos ficam pelo caminho? Quantos morrem por causa de seu vício? Apesar de aparecer pouco no filme, Beth tem uma das cenas mais importantes da história quando Holly vai procurá-la pedindo ajuda.

Beth diz claramente uma grande verdade: Holly não poderá salvar Ben, por mais que ela tente. Talvez ele consiga sair do fundo do poço, se tiver muita força de vontade, se conseguir se perdoar – e aos demais – e se tiver um pouco de sorte. Mas ninguém salva ninguém, e é importante que isso esteja colocado de forma tão clara e franca nesta produção. Ainda assim, como Beth diz, Holly precisa tentar até o final. Isso é algo muito de mãezona.

Sorte de todos aqueles que tem uma excelente mãe. Elas fazem toda a diferença na vida das pessoas e, consequentemente, da sociedade. Ben Is Back faz uma bela homenagem para uma destas mães e se debruça com muita propriedade em um grande drama que temos na sociedade atualmente.

A vida é feita de vários problemas, frustrações e tentações. Alguns tem sorte de passar por tudo isso e ter uma vida longa. Outros, infelizmente, ficam pelo caminho. Ninguém deve se sentir culpado por isso, mas sermos solidários e termos compaixão pelas pessoas que tem mais dificuldade de passar por estas questões. Ben Is Back é um belo exemplo sobre isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes, mas a personagem de Ivy Burns (Kathryn Newton) também é bastante interessante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz a “irmã clássica” de um garoto que tem problema com os vícios. Ela é toda “certinha”, quase perfeita. Por isso, tem dificuldades de lidar com o irmão “encrenqueiro”. Inicialmente, ela não gosta e resiste à presença de Ben no Natal. Afinal, ele já “estragou” outros Natais e ela está “cheia” disso. Mas, depois, Ben “quebra” a resistência da irmã e ela resgata o amor que sente por ele. Da raiva/resistência inicial, a personagem passa para a acolhida e para a compaixão, até que a casa é invadida por um funcionário de um traficante para quem Ben trabalhava e Ivy passa ter medo do que pode acontecer. Ainda assim, claramente ela se importa com o irmão, e isso é muito “a vida como ela é”.

Praticamente todos os personagens de Ben Is Back são um pouco egoístas e um pouco generosos. Como a gente mesmo. Isso que eu achei mais bacana no roteiro de Peter Hedges. Cada um de nós, assim como os personagens do filme, não somos apenas “bons” ou “maus”. Até podemos nos esforçar em acertarmos mais do que errarmos, mas ninguém consegue acertar sempre. Quanto antes nos tocarmos disso, melhor seremos capaz de olharmos para os outros com a mesma compreensão. Sermos mais empáticos e generosos, portanto.

Falei bastante sobre isso já, mas sem dúvida alguma dois destaques de Ben Is Back são o roteiro e a direção de Peter Hedges. Ele faz um belo trabalho na construção da história, construindo diálogos e sequências que convencem e que prendem a nossa atenção. Tudo nesse filme faz sentido. Não há sobras ou exageros. Isso não é tão fácil de achar, por isso agradecemos pelo roteiro desta produção. Ele também faz um trabalho, na direção, que foca nos atores, no talento deles e na forma com que eles abraçam os personagens. Ainda assim, ele não esquece o entorno da cidade em que eles vivem. Isso dá propriedade e profundidade para a produção.

Entre os atores, o destaque fica para o excelente trabalho de Julia Roberts e de Lucas Hedges. Os dois se entregam para os seus personagens de forma exemplar. Convencem em cada linha de diálogo e em cada cena. Também estão muito bem os coadjuvantes Kathryn Newton, como Ivy, irmã de Ben; Courtney B. Vance como Neal, segundo marido de Holly; Rachel Bay Jones como Beth, mãe de uma amiga de Ben que morreu por causa do vício das drogas; David Zaldivar como Spencer “Spider” Webbs, amigo de infância de Ben e viciado em drogas também; Mia Fowler como Lacey Burns-Beeby e Jakari Fraser como Liam Burns-Beeby.

Esses são os coadjuvantes que tem uma relevância maior na história, mas vale citar também o trabalho de Alexandra Park como Cara K., uma garota que Ben e Holly encontram em um encontro de adictos e que era cliente de Ben quando ele era traficante; Michael Esper como Clayton, traficante que “sequestra” o cachorro da família de Ben; Tim Guinee como Phil, outro participante do grupo que está tentando ficar longe das drogas; Kristin Griffith como Mrs. Crane, esposa do médico que é confrontado por Holly no shopping; Jeff Auer como o pai de Maggie, a garota que morre após ter sido viciada por intermédio de Ben; e Henry Stram como o antigo professor de História de Ben, Mr. Richman.

Da parte técnica do filme, vale destacar o trabalho de Stuart Dryburgh na direção de fotografia e de Ian Blume na edição. Além deles, cito o bom trabalho de Dickon Hinchliffe na trilha sonora; de Ford Wheeler no design de produção; de Andy Eklund na direção de arte; de Chryss Hionis na decoração de set; e de Melissa Toth nos figurinos.

Ben Is Back estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros nove festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros oito. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Performance de um Ator com 23 anos ou Menos, concedido para Lucas Hedges pelo Los Angeles Online Film Critics Society Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Quando estava desenvolvendo o filme, o diretor e roteirista Peter Hedges não estava pensando em escalar o filho, Lucas Hedges, para o papel principal. O diretor tinha feito uma lista de atores que ele estava considerando para o papel, mas foi Julia Roberts que insistiu para que Lucas Hedges fizesse o papel após assisti-lo em Manchester by the Sea (comentado aqui no blog).

Antes de começarem a filmar Ben Is Back, os atores Lucas Hedges e Kathryn Newton passaram o feriado de Ação de Graças como convidados na casa da atriz Julia Roberts. Eles fizeram parte da mesa de convidados da atriz, que reuniu 22 pessoas. Uma maneira interessante deles se integrarem antes do início das filmagens.

A escolha do Natal para ambientar a história de Ben Is Back foi para tornar o filme mais emocional, é claro. Mas isso fez com que a equipe tivesse alguns desafios. Todos enfrentaram condições climáticas bem complicada em um dos piores invernos que Nova York e Yonkers, cidades em que o filme foi rodado, já viveram. Julia Roberts, que mora há 18 anos em Nova York, disse que nunca experimentou um inverno tão complicado quanto aquele de quando eles fizeram Ben Is Back.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 críticas positivas e 36 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 6,85. O site Metacritic apresenta um “metascore” 66 para Ben Is Back, fruto de 28 críticas positivas e de 11 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Ben Is Back faturou pouco mais de US$ 3,7 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, especialmente se pensamos que o filme é estrelado pelos atores Julia Roberts e Lucas Hedges, bem conhecidos do público. Acho que o filme deixou a desejar nas bilheterias.

Ben Is Back é uma produção 100% dos Estados Unidos. Como esse país foi o mais votado em uma enquete aqui no blog, esse filme passa a fazer parte da lista de produções que atenderam a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que não é simples. E que bom que Ben Is Back é assim. Por ser duro mas humano, demasiado humano (como diria Nietzsche), Ben Is Back é necessário. Nos mostra uma realidade complicada, que é vivida por muitas famílias. Mais que nada, é preciso compaixão. E admirar mães como a protagonista desta história, que não desisti nunca de resgatar e ajudar o seu próprio filho. Em outras palavras, não desiste nunca de amar. Quem cai no vício deveria achar uma saída, mas isso nem sempre acontece. A culpa e a dificuldade em se perdoar são dois dos principais impedimentos. Ben Is Back trata do tema com profundidade e compaixão. Uma bela produção, que merece ser vista, comentada e compartilhada.