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Money Monster – Jogo do Dinheiro

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A televisão mundo afora tem programas para todos os estilos e públicos. Há muitos programas bons, que descobrem histórias interessantes, contextualizam informações e ajudam a interpretar o mundo ao nosso redor. Mas há também muito lixo. Assim como muitos programas “perdidos”, que parecem não saber, exatamente, a quem eles estão servindo. Money Monster trata de um destes programas que parece um pouco perdido, mas este não é um filme apenas sobre isso.

Ele trata também sobre o mercado de capitais, sobre dinheiro, ganância e manipulação de informações. É um filme ágil, ainda que ele tenha uma premissa um tanto limitada em um determinado espaço por boa parte do tempo. Mas é inteligente, tem um roteiro interessante e bons atores. Surpreendente, até um certo sentido, ainda que siga uma linha recente de filmes bem determinada.

A HISTÓRIA: Começa com o apresentador Lee Gates (George Clooney) comentando que o espectador não faz ideia de onde o seu dinheiro está. Ele explica como o dinheiro atualmente, diferente da época em que ele estava atrelado a lastros físicos e palpáveis como barras de ouro, hoje não passa de fótons de energia que trafegam cada vez mais rapidamente por cabos de fibra ótica. Ele explica que quanto mais rápido anda o dinheiro, melhor. Lee Gates é o apresentador do programa Money Monster, focado no mercado de ações e em economia.

Uma série de matérias mostra como a empresa IBIS Clear Capital teve uma derrocada forte na bolsa depois que um algoritmo que operava as suas transações “ficou louco”. Para Gates, esta é uma grande oportunidade para que as pessoas comprem ações, já que este é apenas o primeiro round da batalha da empresa. O programa estava esperando entrevistar o CEO da empresa, Walt Camby (Dominic West), mas ele não vai aparecer. Quando Gates entra no ar, contudo, ele é surpreendido por um acionista da IBIS que se deu muito mal e que quer respostas reais para as suas dúvidas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Money Monster): Quem tem acompanhado ao Oscar nos últimos anos sabe que produções que fazem um esforço em interpretar e criticar o mercado de capitais e o sistema financeiro têm ganho evidência. Primeiro foi The Wolf of Wall Street (comentado aqui), um filme corajoso de Martin Scorsese e que levou Leonardo DiCaprio a um outro nível de interpretação. Uma das grandes produções de dois anos atrás, sem dúvidas, especialmente porque ela mostrava um bocado dos bastidores de Wall Street e dos sujeitos que dedicam a sua vida a ganhar muito dinheiro naquele ambiente.

Depois, no Oscar deste ano, o filme da vez foi The Big Short (com crítica neste link), outro filme inteligente e com ótimas sacadas e que tentava, mais uma vez, mostrar como o sistema anda muito equivocada quando ele perde o contato com a realidade. The Big Short mostra a origem do colapso do sistema financeiro e da crise subsequente de 2008 de uma forma interessante e tentando, a todo momento, traduzir os pontos mais difíceis para o grande público.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Money Monster segue esta linha de filmes ao mostrar como uma empresa enganou seus investidores ao forjar uma falha no sistema para que o CEO da empresa conseguisse desviar muito dinheiro para tentar comprar um rebelde na África e, desta forma, conseguir sucesso em seus empreendimentos. O que este filme tem em comum com os outros dois que eu cite é justamente a crítica sobre o sistema financeiro e econômico atual, em que a tecnologia ajuda pessoas mal intencionadas a burlarem as regras e prejudicarem muitas pessoas para conseguirem o que elas querem.

O início do filme com roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, baseado na história criada por DiFiore e Kouf, acerta na mosca ao questionar a lógica deste sistema que tem pouco lastro com a realidade. Ainda que a crítica não seja nova, ela foi bem feita. O personagem de Kyle Budwell (Jack O’Connell) também é convincente. Afinal, bem sabemos, nos Estados Unidos não é muito complicado conseguir uma arma. E não são poucos os casos de pessoas insatisfeitas que utilizam estas armas para atacar locais ou pessoas que eles consideram como fonte de seus problemas.

Juntamos um sujeito insatisfeito com um mercado financeiro suspeito e uma empresa pouco confiável e temos o estopim para a tensão da história de Money Monster. Mas aí temos um elemento diferenciado da produção: o local em que esta história se passa. O sujeito insatisfeito não invade a empresa que fez ele perder US$ 60 mil e sim o programa Money Monster apresentado por Lee Gates. Foi quando assistiu ao programa de Gates que Budwell teve a ideia de investir na empresa que o faria perder todo o dinheiro economizado.

Daí entra a outra camada de leitura deste filme. Como eu comentei lá no início, esta produção trata também sobre a qualidade e a responsabilidade da TV. Gates faz um programa sobre um assunto sério, que é o mercado financeiro e os investimentos em ações, mas ao estilo “palhaço”. Ele utiliza os mais diferentes recursos de comédia para entreter a plateia e a audiência. Ao melhor estilo “a televisão está aí para entreter e não para informar”, Gates está mais interessado no espetáculo do que na informação.

Por isso mesmo é inevitável que, ao ser confrontado por Budwell, o apresentador perceba como ele perdeu a noção do razoável e passou a comprometer o próprio trabalho ao tentar sempre “provar o seu próprio ponto”. O maior exemplo foi quando ele disse que investir na empresa de Walt Camby era mais seguro do que investir na Poupança. Budwell e tantos outros investidores foram influenciados por esta informação e se deram mal.

Claro que nunca um programa de televisão pode ser totalmente responsabilizado por algo assim, mas a verdade é que aquela informação do Money Monster tinha a sua parcela de responsabilidade sim. Este filme dirigido com precisão e muito talento por Jodie Foster joga os holofotes justamente sobre a responsabilidade da mídia e de seus profissionais. Sempre é importante fazer isso. Mas, até agora, ressaltei apenas as qualidades do filme. Pena que não é só delas que devemos falar.

O filme tem pelo menos três pontos bem questionáveis. O primeiro mais evidente é quando Gates “apela” para a “bondade” dos telespectadores para fazer com que as ações da IBIS Clear Capital aumentem. Honestamente, achei uma grande forçada de barra. Talvez o que os roteiristas quiseram dizer com essa “forçação” é que as pessoas realmente são individualistas.

Elas poderiam “resolver” o problema de Budwell e de tantos outros investidores contribuindo apenas um pouquinho, mas a verdade é que as pessoas não veem desta forma. Elas pensam que estariam favorecendo uma corporação duvidosa e várias outras pessoas que elas não conheciam. E não deixam de estar certas. Mas a leitura que fica no filme é que todos são insensíveis. Como eu disse, uma forçada de barra desnecessária e um tanto infantil.

O segundo ponto questionável é quando encontram a namorada de Budwell, Molly (Emily Meade), e a “usam” para tentar convencê-lo a largar aquela ameaça. É bem difícil de acreditar que a polícia colocaria ela para falar daquela forma descontrolada com Budwell sem treiná-la e prepará-la bem antes, não é mesmo? Outro ponto do filme um bocado exagerado. Parece que foi planejado apenas para aumentar o nível de tensão da história. Mas sempre que uma aposta dos roteiristas como esta parece exagerada ou difícil de acreditar, o filme só perde pontos com o espectador.

Para finalizar, por que escolheram aquela saída para o colete que Budwell coloca em Gates? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mostrar que o sequestrador era “inofensivo” e que, no final das contas, ele não era nenhum vilão? Ora, claro que ele estava desesperado e que procurava ter alguma atenção. Faria mais sentido ele realmente ter feito um colete de bombas eficaz e não uma piada como aquela – tudo bem que a polícia sempre sai do pressuposto que pode ser uma bomba, mas realmente iriam cair naquela armação sem ao menos desconfiar? Novamente pontos difíceis de acreditar e um tanto descolados da realidade.

Descontados estes pontos controversos, eu achei a narrativa e o ritmo do filme muito interessantes. Basicamente seguem em paralelo duas linhas narrativas: aquela que envolve Gates, Budwell e todo o circo armado ao redor da TV, e aquela outra encabeçada por Diane Lester (Caitriona Balfe) e a sua própria investigação para descobrir o que realmente está acontecendo na empresa em que ela trabalha. Graças a este segundo ponto o filme não fica apenas restrito ao estúdio de TV, o que ajuda a diretora Jodie Foster a manter um ritmo interessante na história.

Finalmente na reta decisiva da história Gates e Budwell saem do estúdio e ganham as ruas, o que aumenta, novamente, a tensão da história. Muito bem equilibrada a narrativa, com a tensão aumentando de nível pouco a pouco até o desfecho que é um tanto óbvio e “clássico”. Os atores estão muito bem, e os roteiristas acertam ao explorar a confiança que Gates tem em Patty Fenn (Julia Roberts), a diretora de Money Monster.

Por uma parte considerável da história os roteiristas tentam humanizar Gates e Budwell, explorando as suas histórias e fragilidades. Esse elemento humano também funciona para prender a atenção do espectador, ainda que não nos aprofundemos realmente em nenhuma das histórias. São apenas pinceladas aqui e ali.

Então o filme tem ótimos atores, um bom ritmo e direção, uma boa dose de tensão e alguns pontos de reflexão interessante. O problema é que ele exagera na dose em diversos momentos e isso tira um bocado da capacidade da produção de convencer a quem está assistindo. Descontados estes problemas, é um filme interessante, que ao mesmo tempo que prende a atenção do espectador, apresenta alguns problemas interessantes da nossa sociedade atual, em que a cultura do espetáculo ocupa boa parte do tempo das pessoas e na qual o dinheiro é volátil além do desejado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti este filme há umas duas semanas, mas só agora eu consegui escrever sobre ele. Possivelmente perdi, no caminho, parte das impressões que ele me despertou, mas acho que a essência do que eu pensei está acima. Assisti a este filme não apenas por causa da diretora, Jodie Foster, a quem admiro como realizadora e como atriz, mas também por causa do elenco. Ainda que estes sejam bons motivos, a razão fundamental é que Money Monster foi apontado por vários críticos como um possível filme indicado ao Oscar 2017.

Como comentei antes, só vou abrir a seção “Palpites para o Oscar 2017” abaixo quando o filme realmente estiver indicado a alguma coisa. Por enquanto, nesta fase pré-Oscar, posso dizer que Money Monster até pode chegar lá, mas acho difícil ele levar alguma estatueta. Se a Academia quiser seguir a linha de indicações dos últimos anos, Money Monster até pode ser um dos 10 filmes indicados a Melhor Filme.

O ator George Clooney pode chegar a ser indicado como Melhor Ator – até porque Hollywood gosta muito dele – e, com sorte, o roteiro também pode ser indicado. Mas isso tudo se o filme tiver um ótimo lobby e vários fãs entre os votantes. Ainda que a direção de Jodie Foster seja ótima, não vejo muitas chances dela ser indicada ao Oscar. Não seria surpresa também se Money Monster não fosse indicado a nada. Afinal, entre os críticos ele não se saiu muito bem.

Da parte técnica do filme, o destaque, sem dúvida alguma, é para a ótima direção de Jodie Foster. Acho que a atriz se saiu muito, mas muito bem em um filme que poderia ser feito de forma mais “tradicional”, mas para o qual ela soube utilizar muito bem todas as tecnologias atualmente disponíveis para fazer takes com diferentes recursos e tornar a história bem dinâmica. O roteiro eu achei apenas mediano, mas vale destacar ainda a direção de fotografia de Matthew Libatique e a edição de Matt Chesse.

O elenco não é pequeno, mas alguns nomes se destacam na produção. A estrela, sem dúvida alguma, é George Clooney. O ator está muito bem como o apresentador Lee Gates. Outros nomes que estão bem, mas nenhum digno, a meu ver, a uma indicação ao Oscar, são o de Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West e Caitriona Balfe. Todos fazem um bom trabalho, mas não achei nenhum além da média. Outros coadjuvantes que merecem ser citados são Giancarlo Esposito como o Capitão Powell, comandante da operação que tenta libertar Gates; Christopher Denham como Ron Sprecher, parte da equipe de Gates; Lenny Venito como o cameraman Lenny; Condola Rashad como Bree, assistente de Diane; e Aaron Yoo como Won Joon, o programador que ajuda a matar a charada da empresa.

Money Monster estreou no Festival de Cannes em maio deste ano, no mesmo dia em que a produção estreou em cinemas de cinco países. No Brasil o filme estreou no mesmo mês, só que duas semanas depois. Até o momento a produção não ganhou nenhum prêmio. Mais uma razão para ela não ter muitas chances no Oscar 2017.

Este filme teria custado cerca de US$ 27 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 41 milhões e, nos demais mercados em que estreou, outros US$ 51,7 milhões. Ou seja, o filme conseguiu um belo resultado nas bilheterias e deu um certo lucro para os seus realizadores.

Para quem gosta de saber onde os filmes são rodados, Money Monster foi totalmente realizado em Nova York, tanto nas cenas exteriores, feitas em Manhattan, como as de interior que foram rodadas no Kaufman Astoria Studios.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: por uma questão de agenda, os atores George Clooney e Julia Roberts tiveram dificuldades de contracenarem juntos em Money Monster. A atriz interpretou quase todas as suas cenas com um monitor verde em que depois foram inseridas as imagens de Clooney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Não é uma nota ruim, se levarmos em conta o padrão do site, mas também não é uma nota acima da média. Os críticos que comentaram o filme, por outro lado, ficaram bem mais incomodados com a produção. Apenas 55% das críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes, o equivalente a 133 críticas, foram positivas ao filme. Outras 98 críticas foram negativas. A nota média dada para a produção no site foi de 5,9.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – por isso ele aparecerá na lista de votações aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com roteiro ágil e ótimos atores. A história é densa, mas consegue ter uma dinâmica muito interessante apesar de ficar boa parte do tempo com a narrativa limitada a um estúdio de TV. Money Monster segue a linha de filmes recentes que se debruçam sobre o mercado de ações e as entranhas de empresas que não são conhecidas por sua transparência. Mais que isso, ele se diferencia por também mostrar os bastidores de um programa de TV. Com estes dois focos da narrativa o filme ganha pontos porque ele se mostra bastante realista. O problema da história reside em alguns exageros na parte da tensão do “terrorista”, com algumas forçadas de barra desnecessárias. Mas, no geral, é um filme muito bem feito e que nos faz refletir sobre pontos importantes da nossa realidade muitas vezes insensível à história das pessoas comuns que são prejudicadas por grandes corporações. Ainda assim, fica bem atrás das histórias recentes sobre sistema financeiro e mercado de capitais.

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Argo

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O fascínio provocado pelo cinema é capaz de libertar as pessoas. Argo mostra como isto é possível, literalmente. Uma história que impressiona, especialmente por ser baseada em fatos reais. Uma bela reconstituição de uma época que ficou para trás, apenas em parte. Sem dúvida alguma este filme já é uma das apostas para o próximo Globo de Ouro e Oscar, especialmente na categoria roteiro. Um belo trabalho de Ben Affleck na direção e como protagonista. Ele tem amadurecido, e promete trazer muitas outras histórias interessantes pra gente no futuro.

A HISTÓRIA: Animações ao estilo de storyboard contam a história do Irã, desde que o país fazia parte do Império Persa, administrado por uma série de reis, conhecidos como Xás, até que esta história entrou em uma nova fase em 1950. Naquele ano, o povo do Irã elegeu um democrata como Primeiro Ministro, que desagradou os Estados Unidos. Como ocorreu com tantos outros países, o Irã sofreu um golpe incentivado pelo governo dos EUA (e do Reino Unido, neste caso), que acabou colocando um Xá novamente no poder. Como ocorreu na América Latina e em outras partes, este ditador provocou terror e, na vida pessoal, esbanjou o que não podia. Quando ele foi derrubado do poder, em 1979, acabou exilado nos EUA. E o povo do Irã não aceitou este exílio. Daí que surge o mote do filme, quando um grupo grande de pessoas revoltadas invade a embaixada dos EUA e faz os funcionários do local como reféns, exigindo o retorno do Xá, para que ele pudesse ser julgado. Argo conta a história da operação criada para resgatar seis funcionários da embaixada que conseguiram escapar e se refugiarem na embaixada do Canadá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Argo): Eis um filme que cuida dos detalhes. Desde o primeiro minuto, ao contar a história de uma nação convulsionada e que pede por mudanças através de storyboards, até o final, com o clássico “retorno para casa”, Argo está atento a manter uma unidade narrativa que destaca espionagem, política e Hollywood.

O roteiro de Chris Terrio, baseado na reportagem Escape from Tehran, de Joshuah Bearman, é inteligente ao explorar os bastidores de duas fontes de fascínio mundo afora: CIA e Hollywood. E o mais interessante de tudo é que esta história foi baseada em fatos reais. O roteiro ganha pontos quando, logo no início, coloca frases sem papas na língua de figuras como Hamilton Jordan (interpretado por Kyle Chandler), o Chefe de Gabinete do Presidente Jimmy Carter.

Quando sabe que seis estadunidenses que estavam na embaixada invadida no Teerã conseguiram escapar e foram para a residência do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber), ele solta a pérola de que não pode ser chamada de “inteligência” a função dos agentes da CIA que não anteciparam a invasão da embaixada dos EUA. Em seguida, quando uma das pessoas de sua equipe sugere que o Xá seja despachado, ele diz que isso não vai acontecer, porque ele está quase morto, com câncer, e é um aliado dos EUA – que protegem os seus aliados.

Uma vantagem deste filme é que ele não tem meias palavras. Especialmente interessante a parte inicial de Argo, quando o governo dos EUA demora para agir, e quando, 69 dias depois da embaixada no Teerã ter sido invadida, especialistas da CIA e de outras áreas discutem soluções absurdas para o problema – como a de entregar bicicletas para os refugiados na casa do embaixador canadense para que eles consigam fugir, em uma época em que nevava pelo caminho.

Depois desta rápida e um tanto cínica imersão no ambiente “inteligente” da espionagem dos EUA, o filme acompanha o protagonista Tony Mendez (Ben Affleck) em seu esforço para concretizar uma ideia maluca que ele próprio sugeriu: montar um projeto de filme de ficção científica que justificaria uma equipe de norte-americanos “visitando” o Teerã em uma fase conturbada do país. Acompanhamos ele nos bastidores de Hollywood, onde ele vai pedir ajuda para John Chambers (John Goodman), um premiado maquiador que trabalhou por muito tempo no cinema e na televisão.

A ironia desta parte também é ótima. Quando Chambers afirma que um novato como Mendez pode chegar em Hollywood bancando o bom, mesmo sem ter feito nada, porque isso é normal, temos uma palhinha da ironia que vai acompanhar o filme até o final. Tão ou mais difícil que fazer o resgate dar certo, segundo Chambers, é encontrar um produtor respeitável que pudesse embarcar nesta ideia de graça. 🙂 E aí que Lester Siegel (interpretado por Alan Arkin) entra na história. Este sim, um personagem que não tem paralelo, exato, na vida real. Nesta entrevista, Arkin explica que o Siegel de Argo foi baseado na junção de umas três pessoas, mas que ele não seria o Siegel Lester que existiu e que teve certo envolvimento com espionagem na Segunda Guerra Mundial.

Fora a ironia dos dois mergulhos nos bastidores da CIA e de Hollywood, Argo consegue um bom ritmo para mostrar como foi o resgate daqueles seis refugiados da embaixada na casa do representante do governo canadense após 69 dias de letargia do governo dos EUA. A narrativa sempre faz o movimento de vai e volta entre o que acontece em Teerã e nos EUA. Até que as duas frentes se juntam com a chegada de Mendez no Irã. Todo o teatro ao redor de Argo, o interesse e repúdio incontidos dos iranianos com o cinema dos EUA e tudo que ele representava, e a resistência compreensível do grupo que espera ser resgatado a encenar a farsa.

Havia muito em risco. Não apenas a vida daquelas pessoas, mas a descoberta de um plano de resgate que poderia virar motivo de gozação mundial. Não por acaso demorou tanto tempo para que esta operação da CIA viesse à tona. Mas a história é fascinante. E bem contada, especialmente pelo roteiro. Affleck também se sai bem, especialmente na direção. Para o bem de seu filme, ele fez uma interpretação condizente, sem rompantes. Assim como os outros atores. Todos estão muito bem, mas ninguém se destaca, em especial.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O resgate de época é impressionante. Não apenas pela inserção precisa de imagens de TV e pela reconstituição de cenas, mas pelo figurino e pela escolha dos tons da direção de fotografia. Tudo ajuda o espectador a reviver aqueles dias no final de 1979 e no início dos anos 1980.

Merecem aplausos, por isto, o trabalho do diretor de fotografia Rodrigo Prieto, o design de produção de Sharon Seymour, os figurinos de Jacqueline West, a decoração de set de Jan Pascale e a direção de arte de Peter Borck e Deniz Göktürk. Muito importante, para esta produção, também a edição de William Goldenberg.

Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Bryan Cranston como Jack O’Donnell, chefe de Mendez na CIA. Adoro o Bryan Cranston por causa de Breaking Bad. Bom vê-lo mais vezes no cinema, como aqui. Entre os resgatados, estão os personagens vividos pelos atores Clea DuVall (que interpreta Cora Lijek), Scoot McNairy como Joe Stafford, Rory Cochrane como Lee Schatz, Christopher Denham como Mark Lijek, Kerry Bishé como Kathy Stafford e Tate Donovan como Bob Anders. Além deles, há ótimos atores que fazem pontas, como Chris Messina, Zelijko Ivanek e Titus Welliver, todos envolvidos com a operação de resgate nos bastidores.

De todos os atores citados, sem dúvida alguma os que ganham maior evidência pelo desempenho são Affleck, Alan Arkin e John Goodman. Especialmente os últimos dois, que roubam a cena quando aparecem e ganham evidência mesmo com tantos personagens aparecendo em cena.

Ben Affleck acreditou tanto neste projeto que ajudou a produzí-lo. Ao lado dele, na produção, o também ator e diretor George Clooney e o ator, diretor, produtor e roteirista Grant Heslov.

A trilha sonora neste filme tem menos impacto do que em outras produções porque o som ambiente e o de gravações (sejam elas históricas ou reproduzindo cenas da época) predominam. Mas nunca é demais citar o autor do trabalho, o excelente Alexandre Desplat.

Argo estrou no Festival de Telluride em agosto. Depois, o filme passou por outros 10 festivais. Em seu trajeto, até o momento, ele conquistou 12 prêmios e foi nomeado a outros 27, incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro. O que apenas nos indica que o filme será bem cotado no Oscar 2013.

Entre os prêmios que recebeu, o de melhor filme no AFI Awards e três premiações do National Board of Review. No Globo de Ouro ele está concorrendo como Melhor Diretor para Ben Affleck, Melhor Filme – Drama, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator Coadjuvante para Alan Arkin e Melhor Roteiro.

Argo teria custado aproximadamente US$ 44,5 milhões. E tem lucrado bem. Apenas nos Estados Unidos o filme já passou a fronteira do US$ 103,1 milhões até o dia 9 de dezembro.

Além de bem avaliado pelas premiações e pelo público, Argo está indo bem de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 231 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação importante de 95% e uma nota 8,4.

CONCLUSÃO: Argo é surpreendente. Nem tanto porque está cheio de reviravoltas no enredo. Mas porque ele revela uma história que era secreta, até não muito tempo atrás. E também porque nos faz refletir sobre política, conflitos, espionagem e o cinema. Elementos que tornam qualquer produção fascinante. Além de ter uma história que funciona bem, Argo tem uma reconstituição de época muito precisa, e um ritmo bem equilibrado entre o drama dos personagens principais e os bastidores da CIA e do cinema de Hollywood. O filme não se aprofunda em nada, deixando um “gostinho” de quero mais no espectador. Um trunfo do roteiro, assim como da direção de Ben Affleck. Vale a imersão. E pensar em como nunca sabemos, no final das contas, separar muito bem o que é ficção e o que é realidade. Talvez porque ambas estejam muito contaminadas uma com a outra.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Esta semana saiu a lista do Globo de Ouro. A crítica deste filme eu comecei a escrever antes dele ser indicado para o Globo de Ouro mas, pelo estilo da produção, já estava colocando ele na tag Oscar 2013. Porque me parece evidente que ele estará entre os indicados. Resta saber em que categorias e quais as chances dele ganhar, realmente, alguma das estatuetas douradas.

Ben Affleck é um cara que, a exemplo de George Clooney, é bem visto pela indústria hollywoodiana. Primeiro, pelo resultado que estes nomes trazem nas bilheterias. Depois, por suas visões múltiplas como artistas – eles não são apenas ótimos atores, mas também gostam de investir em diversificação e atuarem como diretores e produtores. Sendo assim, acho sim que Argo vai chegar bem no Oscar. Affleck tem moral.

Acredito que o filme deverá repetir no Oscar quase todas ou mesmo todas as indicações recebidas no Globo de Ouro. Talvez a trilha sonora de Desplat pode ficar de fora. Mas Argo deve figurar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e, possivelmente, Melhor Ator Coadjuvante. Se a Academia for muito querida com Affleck, até poderá indicá-lo como Melhor Ator. Agora, o filme pode ganhar o que? Ainda preciso assistir às outras produções que estão bem cotadas, mas acho difícil ele ganhar algo. Talvez Roteiro. Mas seria só isso.