Tomb Raider – Tomb Raider: A Origem

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Alguns filmes não conseguem fugir do óbvio. E pela proposta que eles têm, isso é meio que previsto. Esse é o caso de Tomb Raider, o novo filme sobre a personagem conhecida dos games e que retoma a origem de Lara Croft. Como um filme com esse perfil não terá exageros e “cenas impossíveis”? Como alguém que conhece a história da personagem não sentirá que está vendo, muitas vezes, trechos dos games na sua frente? Sim, Tom Raider é óbvio. Mas nem por isso ele deixa de ser um bom entretenimento.

A HISTÓRIA: Dia 17 de maio de 2009. Lord Richard Croft (Dominic West) conta a história de Himiko, uma “divindade” do Japão que ficou conhecida por usar magia negra e por matar exércitos com apenas um toque. Ela provocou muita desgraça, até que o seu próprio Exército a levou para uma ilha no Mar do Diabo para que ela fosse aprisionada lá. Mas Croft está obcecado em encontrá-la, e apenas lamenta ter que deixar a sua Lara para trás. Fim da animação que introduziu a lenda.

Em um ringue, Lara (Alicia Vikander) está dando o melhor de sim em um treinamento feroz. No fim, ela acaba sendo vencida. Falando com uma amiga, que diz que ela foi derrotada – ou massacrada -, Lara responde que não foi nada disso. O treinador lembra ela que ela está devendo, e que ninguém treina se não pagar. Saindo dali, Lara vai trabalhar como entregadora. Em uma entrega, fica sabendo de uma corrida de bikes. Como “lebre”, se ela escapar da perseguição, vai ganhar um dinheiro que lhe faz falta. Depois de se acidentar, ela é levada pela polícia, onde Ana Miller (Kristin Scott Thomas) lhe encontra. Em breve, a discussão sobre o pai de Lara a levará para locais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tomb Raider): Inicialmente, esse filme não teria muitos atrativos para me chamar a atenção. Mas, entre os filmes que estavam em cartaz na semana passada, esse me pareceu o segundo mais atrativo – o primeiro foi o recentemente comentado por aqui Aus Dem Nichts. Depois, veio Tomb Raider.

Eu conheço e já joguei alguma das aventuras da senhorita Lara Croft. Então sim, conheço a personagem na sua versão original, dos games. Depois, assisti ao primeiro – e possivelmente ao segundo, mas não tenho certeza – filme da personagem estrelado por Angelina Jolie. Então sim, a história de Croft não é uma novidade para mim.

Esse filme, acredito, pode ser analisado sob duas óticas distintas: de pessoas com eu, que já conhecem a história da personagem tanto nos games quanto nos filmes anteriores; e a de pessoas que não tem esse conhecimento. Para o primeiro grupo, o filme é de uma obviedade gritante. Sim, não há nada realmente novo em cena.

O que temos, então, para destacar da produção? A competência nos efeitos especiais, o começo da história realmente bem feito e os ótimos atores em cena – com destaque especial para Alicia Vikander, uma Lara Croft bem mais interessante que Angelina Jolie. Gostei da pegada inicial da produção, em especial. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons e a direção de Roar Uthaug rejuvenesceram a personagem.

Assim, especialmente a Lara Croft que vemos em cena no início da história, parece conversar muito bem com os jovens da atualidade. Ela procura fazer o seu “caminho por sua própria conta”, trabalha como entregadora, participa de um “racha” de bikes, treina em uma academia e tem todos os predicados para ser uma jovem mulher com opinião forte e a clareza do que deseja ou não para si. Ou seja, o perfil de garota tão em alta nos nossos dias.

Por isso, aquele começo de Tomb Raider me pareceu bastante interessante. Especialmente a direção ágil e atenta aos detalhes de Uthaug. Depois, o filme mergulha um pouco demais no estilo Indiana Jones. Em vários momentos eu me senti assistindo a um filme estrelado por Harrison Ford no papel do arqueologista mais famoso do cinema. Além disso, claro, há cenas de ação “absurdas”, mas que são bastante típicas da personagem nos games.

Agora, o filme também pode ser assistido sob aquela segunda ótica, de quem não está familiarizado com a personagem. Para esse grupo, Tomb Raider é um filme atraente, movimentado, que apresenta algumas ideias já conhecidas de “aventura com requintes de arqueologia” e, principalmente, a velha busca da autoafirmação e das “pazes” com os pais – nesse caso, com o pai, porque nunca ouvimos falar da mãe de Lara Croft.

Então sim, assistimos a uma velha fórmula da menina que busca a admiração do pai – que, não por acaso, é uma figura ausente mas que vive no imaginário da “eterna criança” como alguém sempre marcante. Essa busca de Lara pela figura paterna, é um dos motes principais da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim, ela encontra algumas respostas para as perguntas que tem, conhece um pouco mais de suas origens para, em seguida, e de forma muito rápida, ela logo romper o cordão umbilical.

Existe uma razão para isso acontecer. A personagem precisa ter aquela ausência do pai como uma motivação para os passos seguintes, assim como o compromisso de manter e preservar o legado do pai ausente. Tomb Raider foca na origem da personagem ao mesmo tempo que deixa claro que esta é apenas a primeira das muitas aventuras de Lara Croft.

O filme também apresenta uma “organização secreta” e que está espalhada por diversas partes do mundo. Ou seja, o típico elemento de “teoria da conspiração” que será importante para essa história despertar certo interesse no futuro. Tomb Raider, assim, cumpre bem o seu papel, seja por apresentar bem a personagem e as suas motivações originais como “aventureira”, seja por preservar boa parte da essência dos games.

Pena que Robertson-Dworet, Siddons e Uthaug tenham optado apenas por caminhos seguros e por referências que já conhecemos bem. Desta forma, eles tornaram Tomb Raider um filme seguro mas, ao mesmo tempo, nada ousado. Eles poderiam ter inovado mais, seja na forma, seja no conteúdo, para nos surpreender. Mas não.

Nada do que vemos em cena nos surpreende de fato. Apenas, talvez, a confirmação de algo que já suspeitávamos: que Alicia Vikander tem muito mais a ver com o papel do que outras atrizes que poderiam ter encarnado Lara Croft. Esse, ao menos, foi um belo acerto. Agora, é esperar os próximos filmes da grife para saber se alguém nos apresentará ao menos algo além do óbvio ou se seguiremos tendo “mais do mesmo” pela frente.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características desta produção, um elemento que Tomb Raider deveria ter de destaque são os efeitos especiais e visuais. E, de fato, o filme atende bem as expectativas nesses quesitos. Como em praticamente todos os outros quesitos desta produção, os profissionais envolvidos nesses aspectos fazem um bom trabalho, mas nada além do esperado – e nada próximo de algo excepcional. Assisti ao filme na versão 3D e, como tantas outras produções recentes nesse formato, Tomb Raider não aproveita ao máximo esse recurso. Ou seja, você não perderá grande coisa se assistir ao filme em 2D mesmo.

Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale então destacar os efeitos especiais que envolveram nove profissionais; a lista gigantesca que – chuto – deve ter contado com mais de 300 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais de Tomb Raider. Sem esses efeitos, certamente não teríamos um filme frente aos nossos olhos – grande parte da produção depende dos efeitos visuais e especiais.

Além desses elementos, vale destacar a direção de fotografia de George Richmond; a edição de Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick; a trilha sonora de Junkie XL; o design de produção de Gary Freeman; a direção de arte de Tom Brown, Anthony Caron-Delion, Claire Fleming, Simon Lamont, Tamara Marini, Tom Still e Alessandro TRoso; e os figurinos de Colleen Atwood e Timothy A. Wonsik; e a decoração de set de Raffaella Giovannetti e Maria Labuschagne.

Do elenco, o nome a destacar é realmente da atriz Alicia Vikander. Ela cai como uma luva para a personagem. Ela tem o estilo, o físico e a atitude perfeita para viver Lara Croft. Está muito bem em cena. Além dela, os destaques, pela importância dos personagens na história, são Dominic West como Lord Richard Croft, pai de Lara; Walton Goggins como Mathias Vogel, o chefe da missão escalada para encontrar a tumba de Himiko; Daniel Wu como Lu Ren, o piloto da embarcação que leva Lara para o seu desejado destino – e que acaba virando também o braço direito dela nessa missão; e Kristin Scott Thomas como uma esquisita Ana Miller, tipo de “gerentona” dos negócios do pai Croft.

Além deles, o veterano Derek Jacobi faz uma ponta como Mr. Yaffe, advogado da família Croft. Também vale citar a participação de Maisy De Freitas como a Lara Croft aos 7 anos de idade e de Emily Carey como a Lara aos 14 anos.

Tomb Raider estreou em première no dia 2 de março de 2018 em Berlim. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, o filme estreou no dia 15 de março.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Tomb Raider é baseado na “reinicialização” da saga de Lara Croft feita nos jogos e lançada em 2013.

A atriz Alicia Vikander fez um grande esforço físico nessa produção porque ela queria que a sua interpretação fosse a mais realista possível da personagem. Entre outros detalhes, ela realmente estrela todas as cenas de ação e que exigem esforço físico. A atriz também era fã da história de Lara Croft nos games.

Especialmente a crítica não gostou muito de Tomb Raider. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. O que, para os padrões do site, não está ruim. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 110 críticas positivas e 110 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 50% e uma nota média de 5,4. Os dois critérios são bastante baixos.

O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” de 48 para Tomb Raider, utilizando 53 críticas para chegar nessa média. O “user score” do site está um pouco melhor, registrando 6,7 de média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Tomb Raider teria custado cerca de US$ 94 milhões e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 41,7 milhões até o dia 16 de março. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele teria feito outros US$ 170 milhões. Ou seja, até o momento, teria faturado cerca de US$ 211,7 milhões. Está conseguindo pagar as contas, tanto de produção quanto de distribuição, mas não está conseguindo aquele resultado maravilhoso que os realizadores idealizaram, certamente.

Tomb Raider é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A história do surgimento da aventureira Lara Croft contada com alguns requintes de “modernidade”. Nesse filme, você não vai encontrar nada de original. Encontrará a essência da personagem, a sua origem, e lembrará, se tiver “bagagem” para isso, bastante dos filmes de Indiana Jones.

Se você conhece os games da personagem, também se sentirá em um deles, algumas vezes. No mais, tudo aquilo que já esperamos de um filme do gênero, mas com uma atriz que combina muito mais com o papel do que a anterior que encarnou o personagem. Um bom entretenimento, que só poderia ter aproveitado melhor o 3D para ficar um pouco melhor.

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The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

Finding Dory – Procurando Dory

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Alguns personagens marcaram determinados filmes sem que eles fossem os protagonistas da produção. Em Finding Nemo isso aconteceu com a personagem Dory, que roubou a cena. Pois bem, os realizadores resolveram fazer um filme em que ela, finalmente, virou a protagonista. Finding Dory é tecnicamente muito bem feito, além de ser bonito e divertidinho, mas não achei tudo aquilo para fazer deste filme a maior bilheteria dos Estados Unidos em 2016.

A HISTÓRIA: Começa com Dory (voz de Ellen DeGeneres quando adulta e de Sloane Murray na infância) se apresentando. Ela fala o nome e, em seguida, explica que sofre de perda de memória recente. Os pais de Dory, Jenny (voz de Diane Keaton) e Charlie (voz de Eugene Levy), aplaudem a filha e explicam para ela sobre os perigos da correnteza.

Para ajudá-la a lembrar do que eles estão ensinando, eles utilizam a música para ajudar, mas sem muito sucesso. Esta é a infância de Dory antes dela se perder dos pais e acabar encontrando Marlin (voz de Albert Brooks) e Nemo (voz de Hayden Rolence), seus grandes amigos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Finding Dory): Este filme é especialmente interessante para os fãs de Finding Nemo. Afinal, é interessante descobrir mais sobre Dory e perceber, por exemplo, que ela realmente aprendeu a falar “baleiês” na infância.

Como outros filmes que tratam sobre personagens que tem alguma disfunção, Finding Dory ganha um interesse especial por mostrar que a “esquisitona” e engraçada Dory tem uma boa razão para ser “atrapalhada” daquele jeito. Como a personagem aprrece comentando logo nos primeiros minutos deste filme, ela tem uma disfunção na memória que faz com que ela não lembre do que aconteceu no curto prazo.

Os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse, que contaram com o apoio de Bob Peterson e Angus MacLane, acertam ao apostar em uma história linear que começa com a introdução sobre a infância da protagonista, a sua saga por diversos anos tentando encontrar o caminho para casa e, nesta tentativa, o seu encontro com Marlin. Após eles “esbarrarem” na água e Dory ajudar o peixe na saga por resgatar Nemo, aventura vista no filme anterior da grife, logo pulamos um ano no tempo.

Em uma bela manhã, ao ser levada por uma correnteza durante uma aula do Mr. Ray (Bob Peterson), Dory lembra da família e do nome do local onde eles podem estar: Joia do Morro Bay, na Califórnia. Inicialmente Marlin resiste à cruzar novamente o oceano para ajudar Dory, mas ele acaba cedendo por dever de retribuir o favor que foi feito por ela antes.

E assim começa a nova aventura dos personagens. As cenas da equipe envolvida no filme dirigido por Andrew Stanton e Angus MacLane são um verdadeiro deleite e muito bem planejadas para o 3D. As cenas são um esplendor e devem agradar em cheio as crianças, especialmente as mais jovens.

Afinal, tantas cores, texturas e detalhes são mesmo de encher os olhos. Até consigo imaginar os mais jovens com a boca aberta e fascinados por tudo que eles vem. Os personagens, um tanto “infantis”, também ajuda neste processo de identificação das crianças.

Agora, pensando no público adulto, Finding Dory não é tão interessante quanto outros exemplares do gênero. Claro, existe ao menos um personagem mais “complexo” e interessante na produção, que é o polvo Hank (voz de Ed O’Neill).

Ele é o personagem mais complexo, capaz de várias artimanhas para conseguir sair do centro de reabilitação do Instituto de Vida Marinha e ir para um local em que ele não correrá riscos, o aquário de Cleveland. Diferente do mar, onde ele acredita que terá trabalho para sobreviver – no aquário ele terá “vida mansa”.

Bailey acaba sendo um dos grandes parceiros de Dory para achar os seus pais. O filme se resume à procura da personagem, agora alçada à posição de protagonista. Os momentos mais engraçados da produção envolvem o personagem de Bailey, além da sacada da “Sigourney Weaver” com voz gravada logo no início do filme e que a “inocente” Dory acredita que poderá ajudá-la.

Finding Dory tem menos “mensagens” e “moral da história” que Zootopia. O filme é focado, basicamente, na aventura de Dory e de seus amigos para que todos fiquem juntos. As mensagens bacaninhas da história residem na valorização da família que temos quando nascemos, especialmente nossos pais, e da família que “conquistamos” na vida, que são os nossos amigos. Dory ensina que nem uma e nem outra é mais importante, porque ambas ajudam a nos definir e nos enchem de alegria.

A outra mensagem do filme tem a ver com a valorização de cada vida e indivíduo. Em determinado momento Nemo ensina para o pai que Dory lhes inspira, e em um dos melhores diálogos do filme Marlin explica para Dory como a coragem dela, assim como a sua generosidade e desprendimento por ajudar sempre um amigo ou alguém que precisa, faz diferença para a vida deles.

Essa mensagem é bem bacana porque alguns se apressam em classificar as pessoas como “bobas”, “tolas” ou com nomes piores, como poderia acontecer com Dory que, ao ter falta de memória de fatos recentes, podia ser considerada mais frágil mas que, apesar disso, tinha muitas qualidades.

Desta forma muito singela Finding Dory nos mostra que todos tem o seu valor e as suas qualidades, mesmo que elas não sejam padrão ou perceptíveis para todo mundo. São mensagens bacanas para difundir, especialmente para as crianças – quem sabe, assim, teremos menos bullyng e mais aceitação nas escolas e na vida adulta?

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este novo filme com Dory, Marlin e Nemo acerta ao não apostar em muitos personagens. Além dos três personagens já conhecidos pelo filme Finding Nemo, temos os pais de Dory, quase o tempo todo ressurgindo nas memórias de Dory que vão voltando aos poucos, e uma meia dúzia de personagens mais importantes do Instituto de Vida Marinha.

Entre os personagens principais, sem dúvida alguma os destaques são os atores que “dão vida” para Dory e para Marlin, respectivamente Ellen DeGeneres e Albert Brooks. Entre os personagens secundários, o destaque principal é Ed O’Neill como Hank. Merecem aplausos também Kaitlin Olson como a baleia Destiny, amiga de infância de Dory, e Ty Burrell como o tubarão Bailey, que ajuda Dory a se localizar.

Em papéis menores e mais “maduros”, que merecem ser mencionados, estão Idris Elba e Dominic West como as focas-marinhas Fluke e Rudder, respectivamente, que ajudam Marlin e Nemo a procurar Dory e, depois, perto do final, também dão uma forcinha para a missão libertadora da protagonista. Grandes nomes envolvidos na produção e que, certamente, ajudaram a atrair atenção do público para o filme.

Da parte técnica do filme, destaque para a trilha sonora de Thomas Newman, para a edição de Alex Geddes e, claro, para o ótimo trabalho da equipe de 54 profissionais envolvidos no departamento de animação. Foi fundamental para o resultado final da produção também o trabalho de Steve Pilcher no design de produção; de Bert Berry e Don Shank na direção de arte; de Jeremy Lasky na direção de fotografia; dos seis profissionais envolvidos com o departamento de arte e dos 59 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Finding Dory foi lançado 13 anos depois de Finding Nemo, produção de 2003 dirigida por Andrew Stanton e Lee Unkrich que ganhou 47 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Animação em 2004. Faz tempo que eu assisti ao filme, mas a impressão que eu tenho é que o original foi melhor que a sequência focada em Dory.

A première de Finding Dory foi feita em Los Angeles em junho de 2016. Na trajetória do filme até o final do ano estiveram três festivais de cinema. Até o momento, Finding Dory ganhou dois prêmios e foi indicado a outros 26. A produção foi reconhecida como Choice Summer Movie e Choice Summer Movie Star Female para Ellen DeGeneres no Teen Choice Awards. Por outro lado, a produção foi esquecida pelo Globo de Ouro. Sinal de que ela pode chegar um tanto enfraquecida no Oscar 2017.

Finding Dory teria custado cerca de US$ 200 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 486,3 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele faturou praticamente outros US$ 541,5 milhões. No total, pouco mais de US$ 1 bilhão. Ou seja, mesmo custando caro, ele conseguiu ter um bom lucro, além de surpreender por ter terminado 2016 como o filme com a maior bilheteria dos Estados Unidos.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o personagem de Hank tem apenas sete tentáculos porque os animadores perceberam que eles não conseguiam fazer o personagem com oito membros. Desta forma, a solução foi justificar a ausência de um tentáculo no roteiro.

Esta é para os aficionados pelos filmes da Pixar: a placa do caminhão, CALA113, faz referência à sala de Cal Arts onde muitos dos profissionais do estúdio trabalharam, de sigla A113, e que aparece em todos os filmes da Pixar.

Alguns personagens de outros filmes da Pixar podem ser vistos entre os visitantes do Instituto de Biologia Marinha, como as crianças das creches de Toy Story 3, alguns adultos e adolescentes vistos em Inside Out, e alguns dos pacientes do dentista de Finding Nemo.

Além de ser a maior bilheteria de 2016 nos Estados Unidos, Finding Dory também se consagrou como o filme de animação com a maior bilheteria da história do país, desbancando desta posição Shrek 2, de 2004.

Interessante uma ponderação dos realizadores de Finding Dory. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta produção conta a história de Dory procurando os seus pais mas, em última análise, ela está procurando a si mesma, à sua própria identidade – por isso o título de “Finding Dory” seria justificado. Não deixa de ser verdade. Sempre que procuramos as nossas origens estamos procurando mais sobre nós mesmos.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso Finding Dory passa a fazer parte da lista de produções que atende a um votação feita aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 250 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,6. Apesar das notas e do nível de aprovação dos dois sites estarem acima da média para as duas fontes de informação, eles estão abaixo das avaliações de Zootopia.

CONCLUSÃO: Um filme bacaninha, mas nada além disso. Sem dúvida fez diferença eu ter assistido a Zootopia um dia antes de Finding Dory. Como os dois são concorrentes diretos no Oscar 2017, impossível não compará-los. E aí posso dizer sem medo: Zootopia é melhor. Finding Dory vale para um público mais infantil e, sem dúvida, para os super fãs de Finding Nemo. Como eu não faço parte de nenhum destes públicos, achei o filme bacaninha, mas apenas mediano. De qualquer forma, ele é divertido, ainda que fique muito atrás também neste quesito de Zootopia.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Será bem difícil a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ignorar no Oscar 2017 a maior bilheteria de 2016. Provavelmente Finding Dory será indicado – algo que não aconteceu no Globo de Ouro. Até porque os jornalistas responsáveis pelas indicações e pelos premiados tem uma preocupação muito menor com o “mainstream” do que os votantes da Academia.

Assim, pela força das bilheterias de Finding Dory, ele deve chegar à lista dos cinco finalistas na categoria Melhor Animação. Mas sejamos francos: ele não tem as qualidades e a força de Zootopia para levar o prêmio. Seria uma injustiça se ocorresse o contrário. A única maneira de Finding Dory vencer nesta disputa direta com Zootopia seria o lobby e a força do dinheiro contarem mais alto. Espero que isso não aconteça.

Ainda é cedo para dizer que Zootopia é o favorito, porque falta assistir aos outros concorrentes, mas após conferir Finding Dory eu posso dizer com tranquilidade que Zootopia leva vantagem neste confronto direto. E com sobras, ao menos para o meu gosto.

Money Monster – Jogo do Dinheiro

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A televisão mundo afora tem programas para todos os estilos e públicos. Há muitos programas bons, que descobrem histórias interessantes, contextualizam informações e ajudam a interpretar o mundo ao nosso redor. Mas há também muito lixo. Assim como muitos programas “perdidos”, que parecem não saber, exatamente, a quem eles estão servindo. Money Monster trata de um destes programas que parece um pouco perdido, mas este não é um filme apenas sobre isso.

Ele trata também sobre o mercado de capitais, sobre dinheiro, ganância e manipulação de informações. É um filme ágil, ainda que ele tenha uma premissa um tanto limitada em um determinado espaço por boa parte do tempo. Mas é inteligente, tem um roteiro interessante e bons atores. Surpreendente, até um certo sentido, ainda que siga uma linha recente de filmes bem determinada.

A HISTÓRIA: Começa com o apresentador Lee Gates (George Clooney) comentando que o espectador não faz ideia de onde o seu dinheiro está. Ele explica como o dinheiro atualmente, diferente da época em que ele estava atrelado a lastros físicos e palpáveis como barras de ouro, hoje não passa de fótons de energia que trafegam cada vez mais rapidamente por cabos de fibra ótica. Ele explica que quanto mais rápido anda o dinheiro, melhor. Lee Gates é o apresentador do programa Money Monster, focado no mercado de ações e em economia.

Uma série de matérias mostra como a empresa IBIS Clear Capital teve uma derrocada forte na bolsa depois que um algoritmo que operava as suas transações “ficou louco”. Para Gates, esta é uma grande oportunidade para que as pessoas comprem ações, já que este é apenas o primeiro round da batalha da empresa. O programa estava esperando entrevistar o CEO da empresa, Walt Camby (Dominic West), mas ele não vai aparecer. Quando Gates entra no ar, contudo, ele é surpreendido por um acionista da IBIS que se deu muito mal e que quer respostas reais para as suas dúvidas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Money Monster): Quem tem acompanhado ao Oscar nos últimos anos sabe que produções que fazem um esforço em interpretar e criticar o mercado de capitais e o sistema financeiro têm ganho evidência. Primeiro foi The Wolf of Wall Street (comentado aqui), um filme corajoso de Martin Scorsese e que levou Leonardo DiCaprio a um outro nível de interpretação. Uma das grandes produções de dois anos atrás, sem dúvidas, especialmente porque ela mostrava um bocado dos bastidores de Wall Street e dos sujeitos que dedicam a sua vida a ganhar muito dinheiro naquele ambiente.

Depois, no Oscar deste ano, o filme da vez foi The Big Short (com crítica neste link), outro filme inteligente e com ótimas sacadas e que tentava, mais uma vez, mostrar como o sistema anda muito equivocada quando ele perde o contato com a realidade. The Big Short mostra a origem do colapso do sistema financeiro e da crise subsequente de 2008 de uma forma interessante e tentando, a todo momento, traduzir os pontos mais difíceis para o grande público.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Money Monster segue esta linha de filmes ao mostrar como uma empresa enganou seus investidores ao forjar uma falha no sistema para que o CEO da empresa conseguisse desviar muito dinheiro para tentar comprar um rebelde na África e, desta forma, conseguir sucesso em seus empreendimentos. O que este filme tem em comum com os outros dois que eu cite é justamente a crítica sobre o sistema financeiro e econômico atual, em que a tecnologia ajuda pessoas mal intencionadas a burlarem as regras e prejudicarem muitas pessoas para conseguirem o que elas querem.

O início do filme com roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, baseado na história criada por DiFiore e Kouf, acerta na mosca ao questionar a lógica deste sistema que tem pouco lastro com a realidade. Ainda que a crítica não seja nova, ela foi bem feita. O personagem de Kyle Budwell (Jack O’Connell) também é convincente. Afinal, bem sabemos, nos Estados Unidos não é muito complicado conseguir uma arma. E não são poucos os casos de pessoas insatisfeitas que utilizam estas armas para atacar locais ou pessoas que eles consideram como fonte de seus problemas.

Juntamos um sujeito insatisfeito com um mercado financeiro suspeito e uma empresa pouco confiável e temos o estopim para a tensão da história de Money Monster. Mas aí temos um elemento diferenciado da produção: o local em que esta história se passa. O sujeito insatisfeito não invade a empresa que fez ele perder US$ 60 mil e sim o programa Money Monster apresentado por Lee Gates. Foi quando assistiu ao programa de Gates que Budwell teve a ideia de investir na empresa que o faria perder todo o dinheiro economizado.

Daí entra a outra camada de leitura deste filme. Como eu comentei lá no início, esta produção trata também sobre a qualidade e a responsabilidade da TV. Gates faz um programa sobre um assunto sério, que é o mercado financeiro e os investimentos em ações, mas ao estilo “palhaço”. Ele utiliza os mais diferentes recursos de comédia para entreter a plateia e a audiência. Ao melhor estilo “a televisão está aí para entreter e não para informar”, Gates está mais interessado no espetáculo do que na informação.

Por isso mesmo é inevitável que, ao ser confrontado por Budwell, o apresentador perceba como ele perdeu a noção do razoável e passou a comprometer o próprio trabalho ao tentar sempre “provar o seu próprio ponto”. O maior exemplo foi quando ele disse que investir na empresa de Walt Camby era mais seguro do que investir na Poupança. Budwell e tantos outros investidores foram influenciados por esta informação e se deram mal.

Claro que nunca um programa de televisão pode ser totalmente responsabilizado por algo assim, mas a verdade é que aquela informação do Money Monster tinha a sua parcela de responsabilidade sim. Este filme dirigido com precisão e muito talento por Jodie Foster joga os holofotes justamente sobre a responsabilidade da mídia e de seus profissionais. Sempre é importante fazer isso. Mas, até agora, ressaltei apenas as qualidades do filme. Pena que não é só delas que devemos falar.

O filme tem pelo menos três pontos bem questionáveis. O primeiro mais evidente é quando Gates “apela” para a “bondade” dos telespectadores para fazer com que as ações da IBIS Clear Capital aumentem. Honestamente, achei uma grande forçada de barra. Talvez o que os roteiristas quiseram dizer com essa “forçação” é que as pessoas realmente são individualistas.

Elas poderiam “resolver” o problema de Budwell e de tantos outros investidores contribuindo apenas um pouquinho, mas a verdade é que as pessoas não veem desta forma. Elas pensam que estariam favorecendo uma corporação duvidosa e várias outras pessoas que elas não conheciam. E não deixam de estar certas. Mas a leitura que fica no filme é que todos são insensíveis. Como eu disse, uma forçada de barra desnecessária e um tanto infantil.

O segundo ponto questionável é quando encontram a namorada de Budwell, Molly (Emily Meade), e a “usam” para tentar convencê-lo a largar aquela ameaça. É bem difícil de acreditar que a polícia colocaria ela para falar daquela forma descontrolada com Budwell sem treiná-la e prepará-la bem antes, não é mesmo? Outro ponto do filme um bocado exagerado. Parece que foi planejado apenas para aumentar o nível de tensão da história. Mas sempre que uma aposta dos roteiristas como esta parece exagerada ou difícil de acreditar, o filme só perde pontos com o espectador.

Para finalizar, por que escolheram aquela saída para o colete que Budwell coloca em Gates? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mostrar que o sequestrador era “inofensivo” e que, no final das contas, ele não era nenhum vilão? Ora, claro que ele estava desesperado e que procurava ter alguma atenção. Faria mais sentido ele realmente ter feito um colete de bombas eficaz e não uma piada como aquela – tudo bem que a polícia sempre sai do pressuposto que pode ser uma bomba, mas realmente iriam cair naquela armação sem ao menos desconfiar? Novamente pontos difíceis de acreditar e um tanto descolados da realidade.

Descontados estes pontos controversos, eu achei a narrativa e o ritmo do filme muito interessantes. Basicamente seguem em paralelo duas linhas narrativas: aquela que envolve Gates, Budwell e todo o circo armado ao redor da TV, e aquela outra encabeçada por Diane Lester (Caitriona Balfe) e a sua própria investigação para descobrir o que realmente está acontecendo na empresa em que ela trabalha. Graças a este segundo ponto o filme não fica apenas restrito ao estúdio de TV, o que ajuda a diretora Jodie Foster a manter um ritmo interessante na história.

Finalmente na reta decisiva da história Gates e Budwell saem do estúdio e ganham as ruas, o que aumenta, novamente, a tensão da história. Muito bem equilibrada a narrativa, com a tensão aumentando de nível pouco a pouco até o desfecho que é um tanto óbvio e “clássico”. Os atores estão muito bem, e os roteiristas acertam ao explorar a confiança que Gates tem em Patty Fenn (Julia Roberts), a diretora de Money Monster.

Por uma parte considerável da história os roteiristas tentam humanizar Gates e Budwell, explorando as suas histórias e fragilidades. Esse elemento humano também funciona para prender a atenção do espectador, ainda que não nos aprofundemos realmente em nenhuma das histórias. São apenas pinceladas aqui e ali.

Então o filme tem ótimos atores, um bom ritmo e direção, uma boa dose de tensão e alguns pontos de reflexão interessante. O problema é que ele exagera na dose em diversos momentos e isso tira um bocado da capacidade da produção de convencer a quem está assistindo. Descontados estes problemas, é um filme interessante, que ao mesmo tempo que prende a atenção do espectador, apresenta alguns problemas interessantes da nossa sociedade atual, em que a cultura do espetáculo ocupa boa parte do tempo das pessoas e na qual o dinheiro é volátil além do desejado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti este filme há umas duas semanas, mas só agora eu consegui escrever sobre ele. Possivelmente perdi, no caminho, parte das impressões que ele me despertou, mas acho que a essência do que eu pensei está acima. Assisti a este filme não apenas por causa da diretora, Jodie Foster, a quem admiro como realizadora e como atriz, mas também por causa do elenco. Ainda que estes sejam bons motivos, a razão fundamental é que Money Monster foi apontado por vários críticos como um possível filme indicado ao Oscar 2017.

Como comentei antes, só vou abrir a seção “Palpites para o Oscar 2017” abaixo quando o filme realmente estiver indicado a alguma coisa. Por enquanto, nesta fase pré-Oscar, posso dizer que Money Monster até pode chegar lá, mas acho difícil ele levar alguma estatueta. Se a Academia quiser seguir a linha de indicações dos últimos anos, Money Monster até pode ser um dos 10 filmes indicados a Melhor Filme.

O ator George Clooney pode chegar a ser indicado como Melhor Ator – até porque Hollywood gosta muito dele – e, com sorte, o roteiro também pode ser indicado. Mas isso tudo se o filme tiver um ótimo lobby e vários fãs entre os votantes. Ainda que a direção de Jodie Foster seja ótima, não vejo muitas chances dela ser indicada ao Oscar. Não seria surpresa também se Money Monster não fosse indicado a nada. Afinal, entre os críticos ele não se saiu muito bem.

Da parte técnica do filme, o destaque, sem dúvida alguma, é para a ótima direção de Jodie Foster. Acho que a atriz se saiu muito, mas muito bem em um filme que poderia ser feito de forma mais “tradicional”, mas para o qual ela soube utilizar muito bem todas as tecnologias atualmente disponíveis para fazer takes com diferentes recursos e tornar a história bem dinâmica. O roteiro eu achei apenas mediano, mas vale destacar ainda a direção de fotografia de Matthew Libatique e a edição de Matt Chesse.

O elenco não é pequeno, mas alguns nomes se destacam na produção. A estrela, sem dúvida alguma, é George Clooney. O ator está muito bem como o apresentador Lee Gates. Outros nomes que estão bem, mas nenhum digno, a meu ver, a uma indicação ao Oscar, são o de Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West e Caitriona Balfe. Todos fazem um bom trabalho, mas não achei nenhum além da média. Outros coadjuvantes que merecem ser citados são Giancarlo Esposito como o Capitão Powell, comandante da operação que tenta libertar Gates; Christopher Denham como Ron Sprecher, parte da equipe de Gates; Lenny Venito como o cameraman Lenny; Condola Rashad como Bree, assistente de Diane; e Aaron Yoo como Won Joon, o programador que ajuda a matar a charada da empresa.

Money Monster estreou no Festival de Cannes em maio deste ano, no mesmo dia em que a produção estreou em cinemas de cinco países. No Brasil o filme estreou no mesmo mês, só que duas semanas depois. Até o momento a produção não ganhou nenhum prêmio. Mais uma razão para ela não ter muitas chances no Oscar 2017.

Este filme teria custado cerca de US$ 27 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 41 milhões e, nos demais mercados em que estreou, outros US$ 51,7 milhões. Ou seja, o filme conseguiu um belo resultado nas bilheterias e deu um certo lucro para os seus realizadores.

Para quem gosta de saber onde os filmes são rodados, Money Monster foi totalmente realizado em Nova York, tanto nas cenas exteriores, feitas em Manhattan, como as de interior que foram rodadas no Kaufman Astoria Studios.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: por uma questão de agenda, os atores George Clooney e Julia Roberts tiveram dificuldades de contracenarem juntos em Money Monster. A atriz interpretou quase todas as suas cenas com um monitor verde em que depois foram inseridas as imagens de Clooney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Não é uma nota ruim, se levarmos em conta o padrão do site, mas também não é uma nota acima da média. Os críticos que comentaram o filme, por outro lado, ficaram bem mais incomodados com a produção. Apenas 55% das críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes, o equivalente a 133 críticas, foram positivas ao filme. Outras 98 críticas foram negativas. A nota média dada para a produção no site foi de 5,9.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – por isso ele aparecerá na lista de votações aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com roteiro ágil e ótimos atores. A história é densa, mas consegue ter uma dinâmica muito interessante apesar de ficar boa parte do tempo com a narrativa limitada a um estúdio de TV. Money Monster segue a linha de filmes recentes que se debruçam sobre o mercado de ações e as entranhas de empresas que não são conhecidas por sua transparência. Mais que isso, ele se diferencia por também mostrar os bastidores de um programa de TV. Com estes dois focos da narrativa o filme ganha pontos porque ele se mostra bastante realista. O problema da história reside em alguns exageros na parte da tensão do “terrorista”, com algumas forçadas de barra desnecessárias. Mas, no geral, é um filme muito bem feito e que nos faz refletir sobre pontos importantes da nossa realidade muitas vezes insensível à história das pessoas comuns que são prejudicadas por grandes corporações. Ainda assim, fica bem atrás das histórias recentes sobre sistema financeiro e mercado de capitais.