First Man – O Primeiro Homem

first-man

O ser humano é capaz de feitos incríveis. Quase inacreditáveis. Uma história marcante sobre o potencial da Humanidade em surpreender e superar todas as perspectivas é contada com esmero em First Man. Por que o filme é brilhante? Além da parte técnica, perfeita, First Man mergulha sem pudores na vida real de um herói dos Estados Unidos – e, por que não dizer, da humanidade? – sem que este mergulho seja carregado de maquiagem. Não, muito pelo contrário. Vemos como nunca, até então, o quanto foi dura a conquista do espaço e o preço alto que muitos pagaram por isso. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Um voo turbulento. Tudo sacode, tudo treme, o horizonte não parece seguro. Dentro da cabine da aeronave, o piloto Neil Armstrong (Ryan Gosling) procura manter a calma mesmo frente a um cenário complicado. A nave acaba subindo, até 140 mil pés, e depois começa a descer. O voo é angustiante, mas o avião sobe até “ricochetear” na atmosfera.

Lá em cima, Armstrong tem uma visão fantástica, algo restrito a poucos. Inicialmente, ele não parece ter controle da aeronave, mas depois ele consegue esse controle e começa a descer. Esta é a história de Neil e de um feito incrível da humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Man): Eu não vou mentir para vocês. Fiquei extasiada ao assistir a First Man. De verdade, o filme me tocou, me envolveu e me deixou um bocado de tempo impactada. Assisti ele há algumas semanas, no cinema, e após desovar a outra crítica, finalmente chego a First Man.

Certamente vocês, como eu, já assistiram a diversos filmes “baseados em uma história real”. Existem muitos exemplos por aí. Uns melhores que outros. Não é fácil fazer um filme do estilo, claro. Muitos caem na armadilha do “filme-homenagem”, ou seja, naquela produção que acaba elogiando mais os personagens reais do que realmente procurando contar a história com a complexidade que qualquer  história real apresenta.

Porque a gente pode até tentar fazer tudo da maneira simples e tentar simplificar a problemática da vida, mas muitas vezes o que acontece em diferentes etapas da nossa trajetória não é tão simples quanto a gente gostaria. A vida é complicada, algumas vezes. Então por que muitos filmes baseados em histórias reais procuram simplificar ao máximo essas histórias?

First Man não faz isso. E talvez essa seja a base de toda a qualidade que o filme apresenta. Porque, como digo e gosto de repetir, um filme para ser bom, realmente bom, deve ter um ótimo roteiro. Encontramos exatamente isso no trabalho de Josh Singer, baseado no livro de James R. Hansen. First Man não é apenas envolvente e bem construído em sua narrativa, mas ele mergulha em um personagem central para mostrar a sua complexidade e sutilezas.

Ao redor desse personagem principal, que é como se fosse o sol em uma constelação, temos a vários personagens “satélites” que ajudam a explicar o protagonista. O sistema todo se mantêm em equilíbrio e trabalha em conjunto de uma forma muito precisa e interessante. Mas não é apenas o roteiro que explica o impacto e a força de First Man. Outro elemento fundamental, e acredito que um verdadeiro diferencial deste filme, seja a direção do talentoso Damien Chazelle.

O jovem diretor de 33 anos – ele terá 34 quando o Oscar 2019 for anunciado -, que anteriormente já nos mostrou o seu talento em Whiplash (comentado por aqui) e La La Land (com crítica neste link), apresenta em seu terceiro longa como diretor um passo à mais em direção ao seu amadurecimento enquanto realizador. Para mim, First Man é o seu melhor filme até o momento.

Não é nada simples mostrar toda a angústia, o desafio e o risco que pilotos de aeronaves e, depois, astronautas como Neil Armstrong na muito longínqua década de 1960. A direção de Chazelle mergulha naquela época e em cada detalhe da vida de Armstrong e das demais pessoas envolvidas diretamente na corrida espacial norte-americana. O resultado disso é que o espectador se sente literalmente imerso naquele realidade para vivenciar um dos grandes momentos da humanidade.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma quedinha gigantesca – e aí está uma antítese irônica – pelo poder de superação da raça humana. Não apenas por termos nos adaptado por tanto tempo, como espécie, e seguirmos fazendo isso, mas para nos aventurarmos por searas que nem mesmo os homens de ficção poderiam imaginar há mais de um século.

Dentro da história do nosso universo e mesmo da Terra, somos a espécie com menos “importância” em termos de longevidade. Mas de tempos em tempos alguns homens e mulheres buscam superar a nossa condição humana e nos levar para novas fronteiras do conhecimento e do saber. First Man conta uma destas histórias, com uma franqueza de roteiro e uma potência de direção que não é muito comum de encontrarmos no cinema de Hollywood.

Esse meu “fraco” pelas histórias de superação e pela capacidade humana de chegar a lugares pouco antes considerados impossíveis me fez cair como um patinho nessa história. Levada pelas mãos por uma competente e envolvente direção de Chazelle, me emocionei e fiquei realmente impactada com a história de Armstrong, de sua família e de seus colegas. De todas aquelas pessoas que se sacrificaram tanto para que a humanidade chegasse aonde ela nunca tinha chegado até então.

Além dos elementos já comentados, algo incrível nesse filme é como ele resgata com perfeição os anos 1960. Em cada detalhe, desde as casas e ruas comuns da época até os bastidores da Nasa. Impressionante vislumbrar como os americanos estavam distantes do sonho de chegar à lua mas, apesar de todos os prognósticos contra, eles avançaram arriscando pessoas e recursos para ganhar a queda de braço com os russos. Uma história realmente impressionante e que merecia ser contada.

Agora, além de tudo isso, precisamos falar sobre a humanidade que está neste filme, além da narrativa científica fascinante. Como comentei antes, um dos grandes méritos de First Man é que ele não se preocupa em homenagear as pessoas, simplesmente. Armstrong é mostrado da forma mais crua possível. Ele era um sujeito sério, quieto, preocupado com o seu “dever” e, ao mesmo tempo, angustiado com a perda da filha Karen (Lucy Stafford).

Apesar de ter uma história fascinante e de ser muito talentoso, Armstrong era um sujeito que não conseguia, exatamente, lidar com tudo que estava acontecendo. Ele tinha muita pressão no trabalho e, em casa, se cobrava sozinho pela morte da filha – ou, se ele não se cobrava, tinha dificuldade de aceitar.

Então ele amava a esposa, Janet, magistralmente interpretada por Claire Foy, e conseguia dar atenção para os dois filhos, Rick (interpretado por Gavin Warren e por Luke Winters) e Mark (Connor Blodgett), mas ele nem sempre conseguia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Então ele era um profissional super competente e um sujeito esforçado em casa, mas não era perfeito. Como ninguém é, na verdade. First Man apresentar isso com tanta franqueza é algo realmente precioso.

Enfim, o que mais eu posso dizer para vocês? Apenas que esse filme me conquistou do início ao fim. Por sua técnica apurada; pela direção mais que competente de Chazelle; pelo roteiro sensível, envolvente e bastante humano de Singer; pelo ótimo trabalho de Gosling e Foy, em interpretações envolventes e muito convincentes; enfim, pelo conjunto da obra do filme.

Além de tudo isso, First Man passa, a meu ver, mensagens realmente poderosas e importantes. Primeiro, que a humanidade é sim capaz de feitos incríveis. Mas por mais que o homem chegue à lugares inacreditáveis e veja cenas estonteantes, como a que vemos nesse filme quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na Lua – como não ficar completamente extasiada(o) com aquelas cenas? -, e por mais que estas conquistas sejam importantes para o indivíduo e para o coletivo, o que importa, no final, é o que nos une e o que não termina. Sim, o amor.

Para mim, esta foi a mensagem mais forte de First Man. E o que fez eu realmente amar esse filme. A vida é feita de muitos sacrifícios. Alguns conseguem fazer feitos incríveis para a humanidade, como Armstrong e Aldrin. Outros, conseguem realizar pequenos grandes feitos sobre os quais ninguém nunca vai ouvir falar. Mas, no final das contas, o que importa é honrar e homenagear quem a gente ama. E voltar para casa, ah, como isso é incrível! Sentir que você tem um lugar para retornar. Estas são algumas de várias reflexões e sentimentos que esta pequena joia rara nos apresenta.

Se para você estes valores que eu citei antes são importantes, se você se interessa por grandes momentos da nossa história e por pessoas “simples” mas geniais que tornaram eles possíveis, simplesmente não perca esse filme. Ele vale pela técnica e pelo sentimento. Pelo cuidado que apresenta em cada detalhe. Para mim, um dos grandes filmes do ano – e, possivelmente, dos últimos anos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não tinha nascido quando o homem foi à lua. Vi as imagens depois, é claro, assim como soube das teorias da conspiração e da descrença de muitas pessoas sobre o que aconteceu. Algo que eu acho incrível em First Man é que o filme mostra toda a precariedade daqueles anos, assim como a coragem e a inovação que foram necessárias para que a Nasa saísse de uma corrida espacial em posição de desvantagem e conseguisse passar à frente dos russos.

A história é contada sempre pelos vitoriosos, é claro. Mas com o passar do tempo e através de trabalhos como First Man a gente consegue ter uma visão menos idealizada dos fatos. Vemos os “heróis” como eles são, feitos de carne e osso, de sonhos e de frustrações. Tão bom encontrar pela frente um filme que verdadeiramente procurou nos remeter aos anos 1960 e àquela aventura que nos levou para o espaço. Uma reconstituição perfeita e fascinante. Algo que só o cinema é capaz de fazer.

Apenas por mostrar o desafio da Nasa de explorar o espaço e chegar à lua, uma forma de ultrapassar os “inimigos” russos, First Man já vale o ingresso. Mas o filme não é só isso. Acima de tudo, First Man é um filme muito humano. Primeiro, ao mostrar o cotidiano de “heróis” como Neil Armstrong, assim como as suas famílias.

Depois, por demonstrar como pessoas geniais, mas suscetíveis como qualquer outra a morrer em um acidente aéreo ou no espaço, podem ser capazes de vislumbrar algo tão magnífico como o espaço e pousar na lua. Ainda que eu e você nunca vamos fazer isso, mas pensar que outros como nós já fizeram e ver as imagens de First Man já nos bastam. É a humanidade mostrando que pode liderar feitos incríveis, se assim o desejar.

A direção impecável de Damien Chazelle é um dos principais trunfos de First Man. Ele coloca o espectador sempre em primeiro plano, para que sintamos tudo que o protagonista sente. Algo impressionante, especialmente nas cenas das missões nas quais ele participa. Consequentemente, outros aspectos fundamentais desse filme são a direção de fotografia de Linus Sandgren e os efeitos especiais e os efeitos visuais realizados por dezenas de profissionais. Visualmente, o filme é inesquecível.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso são a Direção de Arte, feita por dezenas de profissionais; a Edição e a Mixagem de Som, também de responsabilidade de dezenas de profissionais; a edição brilhante de Tom Cross; o design de produção de Nathan Crowley; a direção de arte de Rory Bruen, Chris Giammalvo, Justin O’Neal Miller, Benjamin Nowicki, Erik Osusky, Eric Sundahl e Thomas Valentine; os figurinos de Mary Zophres; a decoração de set de Randi Hokett e Kathy Lucas; e a trilha sonora de Justin Hurwitz.

Do elenco, os principais elogios vão para Ryan Gosling, que faz um trabalho bastante sóbrio, coerente e com alguns toques emotivos ao interpretar Neil Armstrong; e para Claire Foy como a esposa de Armstrong, Janet. Eu não acompanhei muito a atriz até o momento, mas ouvi sempre falar muito bem dela. Percebi o porquê ao vê-la nesse filme. Ela realmente está ótima, assim como Gosling – um dos grandes atores da sua geração. Os dois estão perfeitos, sem tirar ou por.

Além de Gosling e de Foy, merecem ser mencionados, pelo trabalho competente que apresentam, Jason Clarke como Ed White; Kyle Chandler como Deke Slayton; Corey Stoll em quase uma ponta como Buzz Aldrin – ele aparece menos que White e Slayton; Patrick Fugit como Elliott See; Christopher Abbott como Dave Scott; e Ciarán Hinds como Bob Gilruth. Todos “homens da Nasa”.

Também está bem, em um papel secundário, Olivia Hamilton como Pat White, esposa de Ed White. Além deles, vale citar o trabalho dos atores mirins, que interpretam aos filhos do casal Neil e Janet Armstrong: Gavin Warren e Luke Winters, nas duas versões de Rick Armstrong; Connor Blodgett como Mark Armstrong e Lucy Stafford como Karen Armstrong.

First Man estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória, e até o momento, First Man recebeu três prêmios e foi indicado a outros dois.

Os prêmios que First Man recebeu foram: Melhor Diretor do Ano para Damien Chazelle, Melhor Compositor do Ano para Justin Hurwitz e Melhor Editor do Ano para Tom Cross, todos conferidos pelo Hollywood Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Algumas das vozes que ouvimos no filme são gravações reais do programa espacial norte-americano. Por exemplo, quando a Apollo 11 aterrissa na lua, a resposta de Houston é a original. Ouvimos, naquele momento, a voz do astronauta Charles Duke, que foi o responsável pela comunicação com a Apollo 11 durante o pouso.

Para esta produção, Chazelle fez questão de treinar os atores na Nasa e de enviar para eles vídeos que estão no YouTube com cada pessoa que eles iriam personificar. Com isso, ele esperava que cada ator reproduzisse o jeito de falar e os “tiques” de linguagem de seus personagens. Ele também indicou uma série de livros e de filmes que eles deveriam assistir.

A famosa frase de Armstrong ao pisar na lua é objeto de controvérsias. O que ouvimos no filme é o que foi possível ouvir na Terra no áudio da Nasa: “Esse é um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Mais tarde, Armstrong disse que queria ter dito “Esse é um pequeno passo para um homem”, e que ele achava que tinha dito isso, de fato, mas nunca foi possível extrair isso da gravação daquele momento. Então o filme reproduz o que foi documentado.

A intenção de Chazelle com First Man foi “abordar a história como um thriller, fazendo o público sentir os perigos enfrentados pela equipe de astronautas”. Ele, de fato, conseguiu esse intento. Com louvores.

Ryan Gosling sofreu uma lesão durante uma das várias cenas que ele filmou em uma nave espacial. Chegando em casa, e após reclamar de forma “bizarra” e exagerada sobre ladrões de donuts, a companheira do ator, Eva Mendes, sugeriu que ele procurasse um hospital. Foi aí que eles descobriram que ele tinha sofrido uma concussão. Um perigo.

Os filhos de Neil Armstrong, Mark e Eric, disseram que First Man faz o retrato mais preciso possível dos pais deles, Neil e Janet.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 305 textos positivos e 41 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 8,1. Para mim, chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – bastante alta para o padrão do site. O site Metacritic apresenta o “metascore” 84 para First Man, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O metascore para o filme é fruto de 54 críticas positivas e de duas críticas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, First Man teria custado US$ 59 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 45 milhões. Ou seja, no total, o filme faturou cerca de US$ 87 milhões. Ele mal está se pagando, portanto. Uma pena, porque eu acho que ele merecia mais.

Pensando já no Oscar 2019 – iniciei esta “corrida” pela premiação com a crítica de A Star Is Born, que vocês podem acessar por aqui, mas logo vou me “debruçar” nos candidatos da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, acredito que First Man pode emplacar diversas indicações.

Por baixo, penso que ele pode emplacar em até 10 categorias. Não em surpreenderia se ele fosse indicado a Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Filme. Sim, ele pode chegar a tudo isso, da mesma forma com que pode ser indicado a um número bem menor ou praticamente ser esnobado pela Academia. Veremos, logo mais.

Sobre as chances dele ganhar um ou mais destes prêmios, prefiro esperar para ver quem são os concorrentes dele para depois opinar.

First Man é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Para conseguir feitos incríveis, é preciso uma dose considerável de sacrifício. Mas o que se conquista não é pensando em uma pessoa, mas em todos que vieram antes e em todos que já se foram. First Man é um dos filmes focados em uma história real mais interessantes que eu já vi. Especialmente porque ele foge do estilo “homenagem” e apresenta os personagens de forma bastante franca e direta.

A humanidade chegou muito longe, e a cada ano vai conquistando novas fronteiras do saber e se superando. First Man nos mostra o caminho árduo e pouco narrado de uma destas trajetórias. Com ótimo roteiro, interpretações inspiradas e uma direção incrível, é uma destas produções que deveria ser vista por todos. Para mim, um dos melhores filmes do ano e forte candidato ao Oscar 2019.

Anúncios

Manchester by the Sea – Manchester à Beira-Mar

manchesterbythesea1

Tem pessoas que apenas querem ser um “ninguém”. E elas tem uma boa razão para isso. Determinados fatos da vida podem fazer com que você apenas queira esquecer o máximo possível quem você é e de onde você veio. Mas uma hora ou outra a fatura é cobrada. Manchester by the Sea conta a história de pequenas e grandes tragédias particulares. Se a história não é 100% original, a forma com que ela é contada sim traz novidade. Temos aqui um raro exemplo de um filme sensível, duro e legítimo. Muito bem polido nas aparências, mas bastante áspero em seu interior.

A HISTÓRIA: Começa mostrando as águas e a cidade de Manchester, nos Estados Unidos. É neste cenário que surge o barco Claudia Marie, pilotado por Joe Chandler (Kyle Chandler) e com o irmão Lee (Casey Affleck) e o filho Patrick (Ben O’Brien) conversando na popa da embarcação. Lee conta para o sobrinho como ele tem uma visão diferente de mundo do irmão, e pergunta para ele quem ele levaria para uma ilha.

O garoto responde que o pai, e corre em direção a ele. Em outro ambiente, Lee tira a neve do caminho e ajuda a um dos moradores a resolver um problema de vedação da pia. Ele está longe de Manchester, mas logo terá que voltar para a cidade porque o irmão dele está no hospital.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Manchester by the Sea): Este ano temos uma safra interessante de filmes concorrendo ao Oscar. Ainda que o favoritíssimo deste ano seja um musical, por definição uma produção cheia de “fantasia” e de uma realidade um tanto “embelezada”, boa parte das histórias tem uma grande dose de reflexão sobre a dura realidade da vida.

Este é o caso de Manchester by the Sea, um filme que vai crescendo conforme a história avança e nós entendemos melhor ao protagonista e o seu contexto. O destaque da produção, sem dúvida, é o seu roteiro, ainda que o conjunto de elementos que compõem o filme também apresentem qualidade e uma boa alquimia entre si. Os atores estão bem, e a trilha sonora é um ponto fundamental, assim como a direção de fotografia.

Mas voltemos para a história, que é o mais interessante desta produção. De forma inteligente o roteiro do diretor Kenneth Lonergan mostra parte do contexto de proximidade entre Lee e o sobrinho Patrick quando este último ainda era apenas um menino. Após uma breve introdução sobre aquele contexto familiar construído na cidade de Manchester, vemos Lee em outra realidade completamente diferente.

O personagem se parece com tantos outros de classe média baixa dos Estados Unidos – e de vários outros países. Um sujeito que mora sozinho, que trabalha duro, ganha pouco, engole sapos e finaliza os dias bebendo uma cerveja para conseguir encarar melhor tudo isso.

Para muitos, este é o americano médio que foi ignorado por muito tempo pelo governo e por todos e que, nas últimas eleições nos EUA, foi o grande responsável por eleger Donald Trump como presidente. Então este filme ajuda a contar um pouco sobre o contexto destas pessoas que, não apenas nos EUA, mas em qualquer parte do mundo realmente são pouco “visíveis”. Como outros grupos que acabaram sendo tema de outros filmes desta temporada – como os “excluídos”, “desprezados” ou marginalizados de Fences (comentado aqui) ou de Moonlight (crítica neste link).

Sem perder tempo, Lonergan mostra um recorte da vida do protagonista e o retorno dele para a sua cidade-natal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele retorna por uma razão muito triste: a morte do irmão mais velho. Mas esta não é a parte mais dura da história, e o roteirista/diretor espera a hora certa de nos contar porque Lee saiu de Manchester e porque para ele é tão duro voltar para lá.

De forma muito honesta, esta produção nos mostra como há tragédias particulares que são impossíveis de serem superadas. As autoridades podem dizer que você está liberado, e a família mais próxima pode lhe dar todo o apoio do mundo, ainda assim não parece justo que os dias continuem correndo como se nada tivesse acontecido. É sobre isso e muito mais que Manchester by the Sea trata.

O filme tem a habilidade de nos contar de forma interessante e o mais natural/crível possível uma narrativa de perda, vidas retomadas e vidas aprisionadas. Outros filmes já fizeram isso, é verdade, mas não com o mesmo desafio narrativo e criativo desta produção. Então temos a perda de Joe logo no início da produção e o desafio de Lee encarar esta realidade e lidar com a burocracia decorrente de uma morte na família.

Lonergan escolhe o caminho já bastante explorado de narrativas paralelas. Enquanto Lee busca lidar com tudo que envolve a “destinação final” do corpo do irmão e com a nova e inesperada (ao menos para ele) responsabilidade de cuidar de Patrick, voltamos atrás na história para saber melhor sobre o contexto familiar de todas aquelas pessoas.

Desta forma, quando Lee é acompanhado pelo médico para ir reconhecer o irmão morto, voltamos para o momento em que Joe recebe o diagnóstico da doença que o mataria no futuro. Naquele momento já vemos uma certa tensão familiar, especialmente entre Lee e a cunhada, Elise (Gretchen Mol).

Esta relação conflituosa volta à tona após a morte de Joe, quando Patrick é procurado pela mãe e volta a se encontrar com ela após longo tempo separados – ela não apenas deixa o hospital quando o marido recebe o diagnóstico, mas depois acaba deixando ele e o filho definitivamente.

Algumas pessoas demonstram os seus sentimentos com facilidade, enquanto outros são mais restritos nestas manifestações. Mas isso não quer dizer que eles não estejam sentindo, e muito. Manchester by the Sea é um filme exemplar em explorar isso. Porque tanto Lee quanto Patrick parecem lidar “bem” com a perda um tanto “esperada” de Joe mas, no fim das contas, ninguém lida bem com perda alguma.

Cada um deles sofre à sua maneira. Patrick tenta manter a vida normalmente, em uma fase de descobertas, de muitas atividades, amigos e de indecisões entre duas namoradas. Lee está sendo o cara responsável por manter quase tudo em ordem – dentro do possível. Mas para ele é muito difícil ficar em uma cidade onde ele viveu uma história tão pesada.

Em nenhum momento ele quis voltar para Manchester, mas as circunstância fizeram ele retornar para a cidade. O ideal, para ele, era resolver o velório e o enterro do irmão e voltar para a vida que ele tinha até então, onde ninguém o conhecia e onde ele era “mais um” na cidade. Só que ao receber a responsabilidade por Patrick, ele chega a cogitar de ficar em Manchester.

Mas, pouco a pouco, ele se lembra porque deixou a cidade. Todos de lá olham para ele com alguma ideia pré-concebida e com sentimentos muito bem definidos. Enquanto alguns lançam olhar de pena, outros lançam olhares curiosos e muitos estão sempre o julgando ou condenando. A tragédia pessoal de Lee é como a de tantas outras pessoas. Fatos horríveis acontecem por desleixo ou por descuido. Por causa de um “momento de bobeira”.

A perda de Lee e de Randi (Michelle Wiliams) é incomensurável. Não dá para medir, não dá para entender em sua plenitude. Apenas quem vive uma situação daquela pode ter a dimensão exata do que ela significa. O casamento deles acabou depois da tragédia, e Lee teve que lidar com toda a culpa que todos jogaram sobre ele.

A cena mais forte do filme mostra como nem ele mesmo se perdoava. Talvez, com o tempo, ele tenha feito isso. Ou não. Pode apenas ter “tocado em frente” por inércia. Quando está tentando tocar a vida de volta em Manchester, por causa de Patrick, ele percebe que não conseguirá viver na cidade conforme não acha oportunidades de trabalho e, especialmente, quando reencontra Randi.

O tempo passou e, como sempre, o tempo é um grande professor e um grande remédio. O choque passou a ser algo do passado, assim como boa parte da dor e do julgamento, e Randi parece ter um certo arrependimento do que falou e do que fez com Lee. Outra cena marcante da produção é quando ela tenta conversar com ele, mas Lee não está preparado para ter qualquer contato com ela.

Há muita dor em jogo. E dá para entender tudo isso. Mesmo que você ou eu não tenhamos passado por algo assim, a competência de Kenneth Lonergan e dos atores principais desta produção fazem com que você consiga se lugar no lugar deles. Ou seja, esta é mais uma produção que nos faz não apenas pensar, mas sentir e também exercer a misericórdia e a empatia.

Com um pouco de boa vontade é possível sentir qualquer dor e sentimento do outro. Isso nos aproxima e nos torna mais humanos. Este é um dos filmes que nos ajuda neste processo. Apenas por isso, e por todas as qualidades da história e do trabalho dos atores, ele já vale ser visto.

Sem contar que eu acho bacana como o filme, mais do que tratar de perdas, trata de recomeços. Sempre é possível tocar a vida em frente, e cada um sabe a melhor maneira de fazer isso. Sem tantos julgamentos e fórmulas prontas, e essa reflexão sobre a nossa sociedade atual – cheia deles – também é muito importante. Um filme bem acabado e com algumas mensagens bacanas.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um elemento interessante neste filme é a trilha sonora de Lesley Barber. Bastante lírica, ela contraste com o tom árido da história. É como se o que vemos e o que ouvimos fosse complementar e mostrasse como a vida é feita de histórias duras e de beleza. De suavidade e de rispidez. Considero este “casamento” inusitado entre música e história um dos pontos acertados da produção.

Entre os diferenciais do filme, como comentei antes, está o grande roteiro do diretor Kenneth Lonergan. Se este é o ponto fraco de La La Land (comentado por aqui), é o ponto forte de Manchester by the Sea. De forma muito inteligente e milimetricamente calculada o roteirista e diretor constrói esta história de uma forma que faça ela ganhar em interesse e em força conforme ela se desenvolve. Utilizando dois tempos narrativos, Lonergan também se debruça sobre a história do protagonista e das pessoas que o cercam. Bem bacana.

Algo que eu acho interessante nesta produção é que ela foge de muitos lugares-comum. Se é verdade que este filme me lembra muito outro que assisti há tempos atrás – e do qual eu não consegui, nem por decreto, lembrar o nome -, ao mesmo tempo ele se mostra diferenciado pelas escolhas no desenvolvimento dos personagens.

Aliás, explicando um pouco a nota que eu dei para o filme, ainda que ele tenha um ótimo roteiro e atuações coerentes, achei ele muito parecido, ao menos na essência, com outros filmes que já assistimos sobre perdas e sobre o “julgamento social” de uma pequena comunidade. Então, apesar de bem acabado, este filme não é exatamente revolucionário ou mesmo muito inovador. Por isso da nota acima. Mas nada que desmereça a produção, claro. Ela tem muito mais méritos que falhas.

Para muitos, Lee pode parecer um cara frio, vazio, e isso não deixa de ser verdade. Mas não é toda a verdade. A forma com que ele lidar com os fatos e esse “vazio” dele tem boas explicações e, apesar disso tudo, ele se importa muito com o sobrinho e sente uma aflição tremenda quando tem que enfrentar o passado novamente. Não é fácil, em um filme, construir uma história que trate destas nuances e que convença. Por isso mesmo Lonergan e os atores desta produção estão de parabéns, especialmente por não forçar a barra ou exagerar na história ou nas interpretações.

Da parte técnica do filme, além do roteiro muito bem construído, vale destacar a excelente trilha sonora de Lesley Barber, que contrasta com perfeição com a história e a complementa; a edição de Jennifer Lame; e a direção de fotografia de Jody Lee Lipes.

Manchester by the Sea estreou em janeiro de 2016 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 19 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme colecionou 97 prêmios e foi indicado a outros 211 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar. Números impressionantes, sem dúvida.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Casey Affleck no Globo de Ouro 2017; Melhor Filme segundo a National Board of Review; e para nada menos que outros 40 prêmios para Casey Affleck como Melhor Ator; 21 prêmios como Melhor Roteiro; nove prêmios para Michelle Williams como Melhor Atriz Coadjuvante; cinco prêmios para Lucas Hedges como “jovem talento” e similares.

Manchester by the Sea teria custado US$ 8,5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Bacana ver um filme com orçamento tão pequeno se sair tão bem em diversas premiações. Eu sempre torço pelo cinema independente. 😉 O filme é um grande sucesso nos Estados Unidos, onde fez US$ 42,5 milhões até o dia 2 de fevereiro deste ano. Em outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 1 milhão. Ou seja, não apenas repôs os gastos dos produtores, mas está garantindo um belo lucro para eles.

Esta produção foi rodada em diversas cidades do Estado de Massachusetts, como Manchester, Beverly, Lynn, Essex, Gloucester, Manchester-by-the-Sea, Salem, Cape Ann, Quincy e Rockport.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção e o cenário em que o filme se passa. A cidade onde a história é ambientada se chamava Manchester até que, em 1989, o morador Edward Corley fez uma campanha para que o nome mudasse para Manchester-by-the-Sea. O curioso é que o Legislativo aprovou a mudança naquele mesmo ano.

Interessante que este filme demorou muito para ser feito por uma série de razões. A ideia original tinha sido esboçada por John Krasinski, que falou para Matt Damon sobre este roteiro em que um trabalhador braçal acaba com a custódia do filho adolescente de seu irmão morto. Damon tinha pensado em estrear na direção com esta produção, mas acabou cedendo a história para Kenneth Lonergan que sofreu um longo martírio por causa do filme Margaret, estrelado por Damon. Em 2011 Margaret estreou de forma limitada e o processo movido pelo produtor do filme terminaria apenas em 2014. Foi só aí que Lonergan pensou em voltar a dirigir, e como Damon estava envolvido em outros projetos, ele passou Manchester para o amigo e diretor.

Quando Damon pulou fora do projeto, deixando a direção para Lonergan, ele pediu para o seu amigo de infância, Casey Affleck, protagonizar a história. Lonergan aparece como o único roteirista do filme porque ele acabou usando a premissa inicial de Krasinski e de Damon para fazer uma história bem ao seu gosto.

Este é o primeiro filme codistribuído por um serviço de streaming – neste caso, da Amazon – que consegue uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Manchester by the Sea estreou nos cinemas também, claro, mas foi distribuído igualmente pelo serviço da Amazon. Vivemos novos tempos. O que é ótimo, porque assim o cinema sempre vai se renovar.

Manchester by the Sea é o terceiro filme escrito e dirigido por Lonergan – antes ele fez o mesmo com You Can Count on Me e com Margaret.

No melhor estilo Alfred Hitchcock, o diretor Kenneth Lonergan faz uma aparição também em Manchester by the Sea. Ele é o habitante anônimo da cidade que dá uma dura em Lee quando ele está discutindo com o sobrinho e ameaça ele de lhe dar uma porrada.

Falando no diretor de Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan tem no currículo apenas três filmes como diretor e nove como roteirista. Com as duas indicações por Manchester by the Sea – Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original – ele contabiliza quatro indicações ao Oscar. As anteriores foram por Melhor Roteiro Original por You Can Count on Me e por Gangs of New York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Manchester by the Sea, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes escreveram 221 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Os dois níveis de aprovação são muito bons se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites – especialmente a nota do Rotten Tomatoes é muito boa.

Esta produção está sempre focando os personagens Lee e Patrick, por isso mesmo é tão importante que os dois se saiam realmente bem. E eles fazem um trabalho muito bom, muito coerente e sem exageros. Realmente parecem pessoas “comuns” passando por aquelas situações. Além deles, alguns atores tem trabalho importante na história. A premiada Michelle Williams é uma das que menos aparece no filme, mas ela tem um bom desempenho quando é exigida.

Fazem um bom trabalho também em papéis secundários e/ou quase em pontas Kyle Chandler como Joe Chandler; Ruibo Qian como a Dra. Bethany, que faz o diagnóstico de Joe e o acompanha durante a doença; Gretchen Mol como Elise, mãe de Patrick; C.J. Wilson em um trabalho fundamental como George, amigo dos irmãos Joe e Lee; Tom Kemp como Stan Chandler, pai de Joe e Lee – ainda que a participação dele seja pequena; Tate Donovan como o técnico de hockey de Patrick; Kara Hayward como Silvie, uma das namoradas de Patrick; Anna Baryshnikov como Sandy, a outra namorada do adolescente; Heather Burns como Jill, mãe de Sandy; Jami Tennille como Janine, mulher de George; e Matthew Broderick em uma super ponta como Jeffrey, novo marido de Elise.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e na qual vocês pediram filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme que trata de maneira muito franca sobre como a vida continua de maneira diferente para as pessoas que compartilharam uma tragédia. Manchester by the Sea revela a complexidade da vida, das famílias e dos amores. Nem todo mundo consegue recomeçar e, mesmo assim, toca em frente da melhor maneira que pode. Um dos pontos fortes do filme é o roteiro, que sabe construir a história com criatividade e bebendo fundo na fonte do realismo. Amargo, mas muito humano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Manchester by the Sea é um dos quatro grandes concorrentes deste ano no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A produção conseguiu emplacar seis indicações ao Oscar, e os realizadores devem ficar felizes com isso.

Afinal, este é um filme não muito óbvio e sem uma grande produção ou lobby por trás. Então emplacar seis indicações, incluindo aí a de Melhor Filme, é algo muito bacana. Além da categoria principal, Manchester by the Sea concorre nas categorias Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Diretor (Kenneth Lonergan) e Melhor Roteiro Original.

Analisando todas estas categorias e os seus respectivos concorrentes, acredito que Manchester by the Sea tenha a sua melhor chance em Melhor Roteiro Original. O filme pode emplacar também em Melhor Ator – apesar da minha torcida ser para Denzel Washington, não dá para ignorar os 41 prêmios recebidos por Casey Affleck antes do Oscar.

Na categoria principal, Melhor Filme, o favoritíssimo é La La Land (com Moonlight correndo por fora e Manchester by the Sea um pouco atrás). A categoria Melhor Ator Coadjuvante tem Mahershala Ali como favorito; assim como Viola Davis é a favorita em Melhor Atriz Coadjuvante e Damien Chazelle corre na frente em Melhor Diretor. Assim sendo, Manchester by the Sea pode levar em roteiro e em ator, na melhor das hipóteses. Este é o prognóstico mais “óbvio” mas, claro, surpresas sempre podem acontecer.

Carol

carol1

Há pessoas pelas quais somos atraídos diretamente e há pessoas que parecem nos afastar. O interesse transparente pode ser correspondido e, quando isso acontece, há quem avance e há quem opte por recuar. Essas decisões dependem de muitos fatores, inclusive do histórico e da vivência de cada indivíduo. Carol nos conta a história de uma atração forte e correspondida que avança, apesar da época não ser nada propícia para romances como o das pessoas envolvidas. Um filme com um roteiro bem construído, belas imagens e duas atrizes afinadas.

A HISTÓRIA: Grades e o barulho de trem ao fundo. Muitas pessoas saem do metrô e acompanhamos a um homem com chapéu e sobretudo cruzando uma rua com carros classudos e antigos. Ele entra em um restaurante e após falar com o barman conhecido, reconhece uma amiga que está de costas. Therese (Rooney Mara) apresenta para Jack (Trent Rowland) a sua companhia na mesa, Carol (Cate Blanchett). Jack pergunta se Therese não quer uma carona até a festa para a qual eles foram convidados. No caminho para lá, Therese observa o que acontece do lado de fora do carro, pelas ruas, e começa a se lembrar de sua história com Carol até aquela noite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carol): Filme bem escrito, bem dirigido, com uma reconstituição de época impecável e com duas atrizes imersas em seus papéis. Carol se revela, ainda, uma produção charmosa, provocadora e sensual. Neste tipo de filme o que interessam são os detalhes e as trocas de olhares, muitas vezes. Aqui não há pirotecnia ou grandes reviravoltas, ainda que o roteiro guarde algumas boas surpresas no caminho.

Um dos pontos altos da produção, sem dúvida, é o roteiro de Phyllis Nagy escrito a partir do romance The Price of Salt de Patricia Highsmith – lançado no Brasil com o título de Carol. Verdade que o filme utiliza aquele velho e conhecido recurso de nos mostrar uma breve sequência próxima do fim da história no início da produção para, depois, regressar na trama como uma forma de contar como todos chegaram naquela situação e qual era a verdadeira relação entre aquelas duas mulheres sentadas na mesa de um restaurante.

Ainda que este recurso seja batido, ele continua funcionando muito bem. Especialmente porque ele insere o suspense indicado para uma história ser desenrolada na sequência. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Desde o início de Carol o espectador é levado pelas mãos de Nagy e do diretor Todd Haynes para descobrir detalhes da relação daquelas duas mulheres. E não há rodeios na sequência. Logo que Therese começa a pensar em sua história com Carol, fica claro o fascínio que ela desperta na jovem vendedora de uma loja de departamentos.

Na verdade a atração é mútua e imediata. A imagem de Carol na loja de departamentos se destaca para os olhos de Therese mesmo com a grande movimentação das compras de Natal. Quando Carol olha para Therese também há atração, mas de outro tipo. E conforme a história vai se desenvolvendo com a ótima, cuidadosa e detalhista direção de Haynes, essa diferença de olhares fica ainda mais clara.

A interpretação da sempre ótima e especialmente linda neste filme Cate Blanchett transmitiu, para mim, um olhar de interesse com experiência. Ela olha para Therese com desejo, mas uma forma de desejar experiente, um pouco cansado, mas não o suficiente para não tentar um romance mais uma vez. O olhar que Rooney Mara, igualmente maravilhosa e também linda, consegue imprimir em sua Therese é diferente. Ela transmite fascínio e curiosidade constante por tudo e por todos, especialmente pela inteligência e elegância de Carol.

Não li o romance de Patricia Highsmith para ter detalhes da história ou para saber o quanto o filme é fidedigno ou justo com o original, mas esta diferença de olhar e de ótica me pareceu importante e acho que a produção de Haynes consegue expressar bem. A aproximação e a relação de Carol com Therese me fez lembrar bem daquela frase da música Realejo, de O Teatro Mágico, que diz “os dispostos se atraem”.

As duas estavam prontas para uma relação apaixonada e interessante. Therese pensou rápido ao devolver a luva que Carol tinha esquecido (propositalmente?) e esta, por sua vez, não perdeu nenhuma oportunidade de chamar Therese para encontros na sequência. Ainda que a relação das duas seja o foco principal da trama, torna a história ainda mais interessante o contexto social da época.

O filme se passa, como o romance de Highsmith, nos anos 1950 – começando em Nova York e, depois, percorrendo parte do país em uma road trip. Na época, ainda mais pessoas do que hoje se escandalizavam com o romance entre duas mulheres. Ainda mais quando uma delas era casada e tinha uma filha (o caso de Carol) e a outra tinha um namorado apaixonado e louco para casar (situação de Therese).

Para muitas mentes até hoje é difícil entender porque homens e mulheres se interessam por pessoas do mesmo sexo mesmo tendo tido relações heterossexuais “de sucesso” antes. Enfim, não entrarei nesta seara. Só quero dizer que concordo com o Papa Francisco que todas as pessoas precisam ser amadas e aceitas, independente de suas escolhas ou estilos de vida.

Mas voltando para Carol. Além da relação entre as duas personagens centrais, é muito interessante o contexto social da época. Apaixonado pela mulher, Harge Aid (Kyle Chandler) não aceita que Carol queira se divorciar. Para tentar convencê-la a não fazer isso, ele usa a filha do casal, Rindy (interpretada por Kk Heim e por Sadie Heim). Através de um advogado ele alega a “cláusula de moralidade” para ameaçar Carol de que, se ela realmente quiser o divórcio, ele ficará com a guarda completa da filha e vai proibi-la de ver a Rindy.

No início Carol se afasta por recomendação do advogado para não tornar o problema maior. Mas Harge fica sabendo do “sumiço” da quase ex-mulher e procura se vingar. Sem estragar as surpresas do filme, mas a partir daí há duas mudanças de curso na história. Diferente dos livros lançados até então sobre romances entre duas mulheres, na obra de Highsmith, pela primeira vez, a história não teve um fim trágico segundo este texto. Pelo contrário.

Coragem da autora. Mas, infelizmente, até hoje histórias como a de Carol choca muitos públicos. Menos que em 1952, quando The Price of Salt foi lançado. O que sinaliza que seguimos evoluindo na aceitação das diferenças, no respeito e no amor em relação a quem não “cumpre” todos os requisitos admitidos pela maioria. Um belo filme, pela homenagem que faz para a história original e por nos apresentar de forma tão competente os Estados Unidos nos anos 1950 e esta história de amor. Por ser tão bem conduzido, ele faz o público se envolver e torcer pelos personagens. Cinema em estado puro.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sentimento de culpa e frieza. Estes parecem ser dois comportamentos bem identificáveis entre as duas personagens centrais deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de uma ocasião a inexperiente Therese se sente culpada pelo sofrimento de Carol, que não consegue engolir a ação de Harge afastá-la da filha. Ela está vivendo o primeiro grande amor e sofre horrores com a separação. Quem não passou por isso? Carol, por outro lado, tem outra vivência, carregada de olhares de censura e de repúdio. Ainda que, convenhamos, ela é uma mulher corajosa para o seu tempo, procurando sempre ter opiniões firmes e mantê-las apesar das pressões dos demais. Em duas situações ela “se desfaz” de Therese, parece, com certa facilidade. Depois vamos entender que o que parece nem sempre é a realidade.

Gosto muito quando filmes de época consegue, com maestria, reproduzir um tempo antigo nos detalhes. Este é o caso de Carol. Das roupas até as casas e os automóveis (parte mais fácil), passando pela decoração interna dos ambiente e os produtos vendidos, esta produção não esqueceu de nenhum detalhe dos anos 1950. Por isso mesmo merecem aplausos o design de produção de Judy Becker, a direção de arte de Jesse Rosenthal, a decoração de set de Heather Loeffler, os figurinos de Sandy Powell e o departamento de arte com 25 profissionais. Rosenthal e Powell colecionam estatuetas douradas do Oscar e não seria de admirar que elas ganhassem  mais duas este ano.

Ainda falando da parte técnica do filme, vale destacar a comovente, emotiva e eficaz trilha sonora de Carter Burwell e a direção de fotografia de Edward Lachman. Faz um bom trabalho também o editor brasileiro Affonso Gonçalves.

Este é um filme de Cate Blanchett, em especial, mas também de Rooney Mara. Nunca vi as duas tão bonitas – acho que uma das intenções de Haynes era justamente esta. Além delas, é justo dizer que o elenco de apoio está bem. Além do já citado Kyle Chandler, que convence como o marido indignado por estar sendo deixado por Carol, estão bem Sarah Paulson como Abby Gerhard, romance anterior de Carol; John Magaro como o jornalista e amigo de Therese Dannie McElroy; e, em menor medida, porque me pareceu um tanto “sem sal”, Jake Lacy como Richard Semco, namorado de Therese.

Há diversos momentos em que o roteiro de Carol se destaca. Gostei, em especial, de dois: quando Dannie conversa com Therese sobre como as pessoas se atraem ou se distanciam e quando Carol dá um show falando que não é nenhuma mártir, mas deixando claro o que ela acha certo para a vida dela e da filha. Momentos preciosos.

Para não dizer que este filme é perfeito, achei que algumas vezes os coadjuvantes que eu citei acima, apesar de não fazerem feio, poderiam estar melhores em seus papéis. E pode parecer uma bobagem, mas para um diretor tão detalhista quanto Todd Haynes, me incomodou o pouco tempo que ele deixou o bilhete de Carol para Therese em cena. Apenas uma pausa no firme pode permitir que o espectador leia ele na íntegra. Detalhe bobo, mas que poderia ter sido percebido na hora da finalização do filme.

Carol estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 24 festivais de cinema mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou 28 prêmios e foi indicado a outros 128 (um número impressionante, diga-se), incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro.

Os prêmios que o filme recebeu, até agora, foram pulverizados. Mas destaco os seguintes: três em que ele aparece como um dos melhores filmes do ano; três que recebeu como Melhor Filme; dois para Rooney Mara como Melhor Atriz (incluindo o prêmio de Cannes que ela dividiu com Emmanuelle Bercot) e dois que ela recebeu como Melhor Atriz Coadjuvante; um para Cate Blanchett como Melhor Atriz; três como Melhor Fotografia; três como Melhor Roteiro; e três como Melhor Diretor.

Não há informações sobre o quanto Carol teria custado, mas o site BoxOfficeMojo traz os resultados das bilheterias do filme até o dia 4 de janeiro. Até esta data Carol tinha arrecadado pouco mais de US$ 5 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 6,3 milhões nos outros países em que ele já estreou.

Para quem gosta de saber os locais em que as produções foram rodadas, Carol foi filmado principalmente em cidades de Ohio como Cincinnati, Cheviot e Hamilton – com franca vantagem para a primeira. Algumas cenas também foram rodadas em Alexandria, no Kentucky.

Agora, algumas curiosidades sobre Carol. Rooney Mara, como é possível ver acima, está sendo bem premiada e elogiada por sua interpretação por Therese. Mas por pouco ela não ficou com o papel. Isso porque ela foi convidada para fazer Therese depois de sua performance em The Girl with the Dragon Tattoo mas, por estar muito cansada, ela acabou desistindo do convite. Mia Wasikowska entrou no lugar dela, mas acabou desistindo do papel também por causa de Crimson Peak. Foi aí que Mara voltou para o papel, especialmente depois que Haynes assinou para dirigir o filme em 2013.

Carol é uma destas produções de Hollywood que demorou muuuuito tempo para sair da gaveta. Para se ter uma ideia, Phyllis Nagy escreveu o primeiro rascunho do filme em 1996. Interessante também saber que ela foi amiga de Patricia Highsmith.

Algo que eu li agora e que fez muito sentido ao pensar em Carol: a fotografia da produção foi inspirada no trabalho dos fotógrafos Vivian Maier e Saul Leiter.

Carol foi aplaudido de pé no Festival de Cinema de Cannes durante a exibição para a imprensa internacional e também na estreia da produção no evento.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Carol, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 10 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6.

Difícil escolher um pôster para abrir este post. Carol tem diversos cartazes muito, muito bonitos. Algo condizente com a bela direção de fotografia deste filme.

CONCLUSÃO: Um filme acertado na reconstrução de época e com um roteiro bem construído. Carol nos apresenta algumas das qualidades essenciais de um bom filme, além de duas atrizes convincentes em seus respectivos papéis. Cate Blanchett combina com filmes de época e está mais linda do que nunca. Ao lado dela, uma Rooney Mara atenta aos detalhes. Uma bela produção que nos faz pensar sobre o amor e a liberdade de escolha das pessoas contra as convenções das sociedades e suas crenças.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Nem sempre um filme que chega com diversas indicações no Globo de Ouro consegue preservar esta força nas indicações ao Oscar. Apesar disto, acredito que Carol tem boas chances de aparecer em mais de uma categoria da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – especialmente depois que a premiação passou a ter até 10 filmes indicados na categoria principal.

Alguns podem achar que Carol é um filme ordinário. Não vejo desta forma. Como eu disse no texto acima, acho que ele é muito bem construído e que tem mais qualidades do que defeitos. Por isso mesmo eu acho que ele pode ser indicado, se tiver sorte, em sete categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção.

Podem ficar de fora da lista de indicações Atriz Coadjuvante – se a Academia entender que Mara também teria que ser indicada a Melhor Atriz – e pode entrar na lista Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original.

Claro que esta lista de indicações depende de lobby dos produtores e das qualidades dos demais concorrentes – ainda faltam muitos filmes para assistir. Do que vi até agora, acho que Carol tem chances como Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (ainda que faz falta ter assistido às demais possíveis concorrentes), Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. A minha consideração sobre estes dois últimos ainda pode mudar dependendo dos demais filmes.

Não vejo chances de Carol ganhar como Melhor Filme. Neste sentido acho Spotlight com chances maiores. O mesmo em relação a Melhor Diretor. Ainda que Todd Haynes faça um excelente trabalho, Alejandro González Iñarritu tem grandes chances de levar mais uma estatueta dourada para casa nesta categoria.

Cate Blanchett sempre merece um Oscar, mas não sei se ela chegará a receber a estatueta desta vez. Me parece que a concorrência está forte com outras atrizes – como Alicia Vikander de The Danish Girl e Saoirse Ronan em Brooklyn. Caso Blanchett e Mara forem indicadas – algo muito, muito difícil -, vejo maiores chances para Blanchett. Ainda que não seria injusto Mara ganhar uma estatueta. É uma atriz em franca ascensão. Logo veremos.

The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

thewolfofwallstreet5

Todos os tipos de drogas, bebidas, sexo, orgias e exageros que o dinheiro pode comprar. Imagine tudo isso, potencialize por 10 e terás pela frente o inesquecível The Wolf of Wall Street. Martin Scorsese, um dos maiores gênios que o cinema ainda tem o prazer de ver trabalhar, fez o filme definitivo sobre os homens sem limites que um dia fizeram a fama da rua que simboliza a riqueza efêmera da bolsa de valores e do mercado financeiro dos Estados Unidos – e, por consequência, uma alegoria de tudo o que há de similar no mundo. Destes raros filmes em que três horas não passam devagar.

A HISTÓRIA: Um leão ruge na propaganda da Stratton Oakmont, Inc. Em seguida, a identificação da Wall Street, com um narrador argumentando que o mundo é um grande negócio e uma selva. Porque há perigo em toda a parte é que teria sido criada a Stratton Oakmont, composta por vendedores privados preparados para serem os melhores do mercado. Termina a propaganda, e aqueles homens respeitáveis estão jogando com um anão. O líder da trupe, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), oferece US$ 25 mil para quem jogar o anão e acertar o alvo. Ele próprio tenta a sorte. E começa a se apresentar. Jordan Belfort é um ex-integrante da classe média criado por dois contadores no Queens. Aos 26 anos, ele já era o chefe de sua própria empresa de investimentos. Neste filme, mergulhamos em sua trajetória até tornar-se um homem milionário e encrencado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wolf of Wall Street): Ouvi alguns dizendo que Scorsese tinha “enlouquecido” por entregar uma produção destas. Que ela era uma loucura, e por aí vai. E para quem conhece a filmografia de Scorsese, pensar em uma produção dele que pudesse ser considerada exagerada dentro deste histórico, exigia muita imaginação. Além disso, eu sabia que o filme tinha três horas… mas apesar destas informações, que não favoreciam o filme antes de assisti-lo, me joguei na experiência. E que experiência!

Scorsese entrega para o público um de seus filmes mais contundentes. Exagerado em quase todos os sentidos mas, por isso mesmo, bastante corajoso. Para contar a história de Jordan Belfort, não dava para fazer de outra maneira, com o risco de estragar o material original. Fazer um filme definitivo sobre um assunto não é algo nada simples. Mas Scorsese conseguiu, mais uma vez – como havia feito, antes, com os filmes sobre gângster.

Mesmo afirmado isto, não custa dar um conselho: esta produção não é indicada para quem não gosta de ver a decadência humana, corpos nus e exageros por todas as partes. Porque é deste material que é feito The Wolf of Wall Street. E então, qual é a moral da história? Que alguns dos homens mais admirados do coração financeiro dos EUA e que encarnavam, de maneira exagerada, o “sonho americano”, eram os piores escroques de que já tivemos notícia.

Agora, antes de falar da moral do filme, acho que vale voltar um pouco a fita. Lembro bem da polêmica que Jordan Belfort levantou quando lançou o livro de “memórias” e começou a dar entrevistas como esta para o The Telegraph em 2008. O que muitos desconfiavam sobre a rotina dos corretores de Wall Street se confirmou com a obra de Jordan. Eles viviam ganhando e gastando milhões de dólares, esbanjando dinheiro em carros, iates, mansões, ternos caros e, principalmente, com gastos diários (ou quase) com prostitutas e os mais diversos tipos de drogas – sendo a rainha de todas elas, a cocaína.

A máscara daquele estilo de vida cobiçado de Wall Street tinha começado a cair. Inclusive antes do livro de Jordan aparecer (falarei disto logo abaixo, após a crítica do filme). Ainda assim, ele conseguiu fazer barulho. Afinal, contava o que outros sabiam “por dentro”, como uma das figuras que fez tudo aquilo – e, possivelmente, muito mais. Então, meus caros leitores, como contar aquela história?

Outros filmes sobre Wall Street já tinham sido feitos. O próprio Jordan, que aparenta ter uma ironia sem limites, comenta na entrevista dada para o The Telegraph em 2008 que ele se “inspirou” no personagem de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, no clássico de 1987 dirigido por Oliver Stone Wall Street. Outra figura em quem Jordan teria se inspirado: o personagem de Edward Lewis, vivido por Richard Gere em outro clássico, Pretty Woman. Mas esta última referência, convenhamos, é muito “bonitinha” para os padrões de Jordan.

Quando foi escrever as próprias memórias, já preso, Jordan disse que se inspirou em uma cópia do livro que inspirou o filme The Bonfire of the Vanities – também, vocês devem lembrar, ambientado em Wall Street. Mas nenhum dos personagens destes e de outros filmes baseados na meca do dinheiro nos EUA pode superar os exageros de Jordan. E isso fica muito evidente naquela entrevista que ele deu quando estava lançando a própria história – porque agora, com o sucesso do filme, há quem questione o trabalho de Scorsese. Cá entre nós, o trabalho deste grande diretor poucas vezes foi tão realista.

E corajoso, como eu disse antes e vou repetir depois. Afinal, logo nos primeiros minutos de The Wolf of Wall Street, o roteiro de Terence Winter baseado no livro de Jordan nos lança nos ingredientes principais do personagem e do filme: dinheiro, muito dinheiro, drogas, belas mulheres, e tudo o mais que milhões de dólares podem proporcionar para um homem ganancioso, exibicionista e sem limites.

A lógica do trabalho de Winter é a de muitos outros filmes: o roteiro primeiro apresenta o personagem em seu “melhor” momento. No auge. Depois, volta no tempo para contar como ele chegou aí. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E no final, revela como ele caiu em “desgraça”. Ainda que para um sujeito como Jordan, cheio de malícia e com nenhuma ética, nunca existe o fundo do poço. Quando se vê encurralado e sem saída pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ele não pensa duas vezes em delatar os “amigos” e parceiros de golpe para conseguir uma importante redução de pena.

A história de Jordan é a clássica sobre a corrupção humana. Quase impossível acreditar que o mesmo sujeito que paga para uma funcionária raspar o cabelo na frente dos demais funcionário de sua empresa em troca de US$ 5 mil é o mesmo que chegou para trabalhar em Wall Street aos 22 anos, recém-casado, sem beber álcool no almoço ou mesmo “dar um tapa” em um pouco de cocaína.

A diferença de The Wolf of Wall Street para outras produções que seguem a linha de começar com o auge do personagem e depois retomar o passado para contar como ele chegou lá é o tipo de “herói” que o roteiro foca. Não estamos vendo a nenhum herói de guerra, ou cidadão que deixou a miséria para trás para erguer um grande império. Acompanhamos a evolução de um sujeito que “gasta os tubos” com orgias, drogas e tudo o mais que o dinheiro pode comprar e que, para conseguir este dinheiro, se diverte muito enganando “os trouxas”. Sabendo-se que estes trouxas são, muitas vezes, pessoas ricas, despreocupadas, e outras vezes sujeitos comuns que apenas acreditam que podem ganhar dinheiro com ações.

O que eu achei mais bacana neste filme é que o roteiro de Winter e a direção “avant-garde industrial” (inovadora, mas que também faz parte do mainstream) de Scorsese não aliviam e nem cedem em momento algum ao “politicamente correto”. É para fazer um filme sobre o descontrole do homem “pós-moderno” fascinado pelas promessas do dinheiro fácil de Wall Street? Então vamos fazer isso da maneira mais fiel e livre possível. Parece que esta foi a ordem no projeto comandado por Scorsese que, há tempos, devia para o seu público um filme “tresloucado” (no bom sentido) como este.

Daí que mergulhamos na história de Jordan em uma tresloucada narrativa em primeira pessoa – afinal, o material original no qual o filme se baseia é uma autobiografia. Nada melhor que explorar o ego do personagem principal também na forma com que ele conta a própria história. Desde o início, Scorsese apresenta uma direção ágil, que percorre os locais explorando os ícones da riqueza até se deparar com uma cena dantesca. E há várias delas. Seja no sexo com prostitutas ou no uso de drogas, o diretor parece desacelerar o tempo para formar quadros de decadência para o espectador.

O texto de Belfort é outro ponto forte da produção. Além dos comentários de Jordan sobre a própria vida, temos diálogos afiados, cheios de linguagem coloquial e de palavrões, em uma verborragia que lembra o melhor de Tarantino em algumas ocasiões. Ajuda muito na produção a excelente edição de Thelma Schoonmaker e a ótima e envolvente trilha sonora da equipe de Jennifer L. Dunnington.

Pensando de forma fria, Belfort acerta na mosca em optar pelo velho “chamariz” de mostrar o auge de Jordan antes de contar a história dele. Afinal, que homem não gostaria de ter aquela Ferrari branca, aquela mansão e a estonteante Naomi Lapaglia (a revelação Margot Robbie) como mulher, além dos outras “propriedades” que Jordan elenca no início da produção? Então você primeiro “fisga” o imaginário do público para, depois, revelar como tudo aconteceu. Sempre funciona, especialmente quando o “tudo” tem tanta ação e loucura.

Para funcionar da forma com que funciona, além de um diretor convicto de que deve explorar ao máximo aquele contexto sem fronteiras dos ricos de Wall Street, o filme precisa de um elenco afiado. E é isso que Scorsese consegue ao tirar o melhor de cada ator envolvido – com especial destaque para Leonardo DiCaprio que tem, neste filme, provavelmente o melhor desempenho de sua vida até o momento. Mas ele não está sozinho no bom trabalho.

Após o espectador ser fisgado por aquela figura sem moral chamada Jordan Belfort, voltamos no tempo e acompanhamos ele desde a chegada em Wall Street. Tentando conhecer de perto o trabalho de corretor para um dia tornar-se um deles, Jordan entra em uma empresa como tantas outras daquela rua e começa a ganhar dinheiro para fazer ligações para o corretor da mesa ao lado.

Logo no primeiro dia de trabalho ele é chamado para o almoço com Mark Hanna (o sempre ótimo Matthew McConaughey em um papel que dura apenas o primeiro trecho do filme). Rapidamente Hanna ensina o bê-à-bá daquela vida para Jordan. E assistimos, junto com o ainda inocente Jordan, o início de um comportamento de loucura que será visto depois em muitos dos personagens do filme.

Os acontecimentos vão se desenrolando no tempo certo e com agilidade. Rapidamente conhecemos os personagens secundários do filme e acompanhamos a lógica de Jordan em tirar o maior proveito possível das situações. Como explica este e outros textos sobre os homens de Wall Street, eles não se importam com o dinheiro de seus clientes. O importante, para eles, era retirar dinheiro de clientes ricos e embolsá-lo. Isso vale tanto para casas de investimento quanto para os grandes bancos.

Como informa o texto indicado no parágrafo anterior e publicado no The New York Times, muitos se escandalizaram com os bônus de até US$ 60 milhões que muitos executivos receberam naquele ano, final de 2006. Mas afinal, como Jordan e seus comparsas ganhavam tanto dinheiro. Como aquele texto do The Telegraph explica, Jordan e seu grupo – que, de fato, recebeu um texto com um passo-a-passo de como convencer as pessoas a investir em ações feito por Jordan para seguir – convenciam os investidores a desembolsar boas quantias em dinheiro.

Depois que eles tinham feito isso, os papéis se valorizavam e Jordan e seus sócios vendiam a grande quantidade de ações daquele papel que eles tinham. Com esta venda, Jordan e Cia. ganhavam grande quantidade de dinheiro, enquanto os clientes que eles tinham atendido perdiam os recursos na mesma proporção – já que, ao vender os papéis que tinham, Jordan e Cia. faziam com que aquela ação tivesse queda acentuada de valor.

Grande “vendedor”, Jordan chegou a ganhar US$ 50 milhões por ano. E como o filme mostra bem, ele teve a oportunidade de saltar do barco antes dele afundar, mas não quis fazer isso para continuar se sentindo importante na empresa que ele tinha criado. Fica evidente o gosto do protagonista não apenas pelo dinheiro e pelo poder que ele traz, mas principalmente pela admiração que as outras pessoas passaram a dedicar por ele.

Algo que me surpreendeu neste filme, além de um roteiro e de uma direção impecáveis, foi o humor que The Wolf of Wall Street acaba destilando. Em meio a tanto exagero, há cenas verdadeiramente dantescas. A que me fez rir sem parar, para a minha surpresa, foi aquela em que DiCaprio é abatido pela droga Lemmon-714, comprada por Donnie Azoff (Jonah Hill) em uma farmácia perto de casa e que estava esperando para ser vendida há 15 anos. A sequência faz lembrar a filmes menores, como Hangover, mas de forma muito mais exagerada e divertida. A melhor parte, para mim, vai do colapso de Jordan até a saída dele com o carro. Inacreditável!

Mas afinal, qual é a razão para o filme ser tão bom? Além do roteiro envolvente e da direção de Scorsese que consegue tirar o melhor de cada sequência e de cada ator, gostei muito do “espírito” da história de The Wolf of Wall Street. Sem “papas na língua”, os realizadores deste filme nos mostram o cotidiano de uma daquelas figuras “míticas” de Wall Street. Um dos “rapazes jovens de terno” ambiciosos que serviram de “inspiração” para mais de uma geração de norte-americanos.

Quantos não queriam ser um Jordan Belfort? Quantos não fora como ele ou ainda piores? Esse personagem, assim tão sem limites e ambicioso, acaba sendo o ídolo torto de um sistema cruel e interessado apenas nas cifras bancárias. O extremo do capitalismo, onde se vende e se compra apenas o valor estimado e muitas vezes equivocado de coisas reais, palpáveis.

The Wolf of Wall Street, desta forma, é uma importante crítica sobre a sociedade que criamos e ajudamos a manter. Onde a lógica do dinheiro fala mais alta e ignora todos os outros valores – especialmente os mais importantes, como a ética, a compaixão e a solidariedade. Na selva plasmada por este filme, sobrevive quem sabe enganar mais e melhor.

O herói é um escroque, um lixo – como lhe dizem no início da carreira -, mas também um símbolo de ascensão social que é vendido no “sonho americano”. Não por acaso, ele é tão aplaudido, paparicado e admirado no meio de Wall Street. E em todos os meios que derivam a partir dali. Contar a história de Jordan e das pessoas que o cercaram sem aliviar a dose é uma forma de bater no estômago deste sistema e de chacoalhar quem segue admirando aquela realidade. Ou deveria ser, pelo menos. Grande filme! Scorsese em sua melhor fase.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante, e por isso não me canso de citar, aquela matéria do The Telegraph. Especialmente porque o texto de Tom Leonard foi escrito quando Jordan estava lançando a própria autobiografia – antes de qualquer polêmica ou crítica negativa derivada do filme de Scorsese. O texto não apenas comprova que grande parte de The Wolf of Wall Street é legítima e fiel às memórias de Jordan como também traz informações sobre ele após a saída da prisão.

De acordo com o texto de Leonard, publicado em 2008, Jordan, na época com 45 anos, vivia em uma casa “modesta” de três quartos em Manhattan Beach e tinha que repassar metade do que ganhava por mês para pagar as dívidas que contraiu com os investidores que ele tinha fraudado. Em cinco anos, Jordan havia pago US$ 14 milhões dos US$ 110 milhões que ele devia. Uau!

Procurando mais sobre esta figura tresloucada que inspirou o filme de Scorsese, encontrei a página oficial de Jordan. Como o filme sugere, ele segue ganhando dinheiro ensinando as pessoas os seus “segredos de persuasão”. Até porque, segundo o site, através desta persuasão qualquer pessoa pode se tornar o “número 1 em vendas”, ganhando muito dinheiro. Certo, certo. Desta forma, Jordan oferece 10 módulos de seus “valiosos” segredos pelo valor de US$ 1.997.

Agora, talvez você esteja se perguntando o que o verdadeiro Jordan achou do filme que retrata parte da vida dele… Pois bem, este texto do Huffington Post ajuda a nos responder esta pergunta. Jordan considera Leonardo DiCaprio brilhante, assim como Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que ele afirma que o filme não o está ajudando – será que é porque ele não continuou pagando a dívida citada acima? Os advogados de Jordan dizem que a obrigação dele de repassar metade do que ganha terminou em 2010, quando ele saiu em liberdade condicional. Mas há quem questione o dinheiro que ele está ganhando com os livros e com o filme que narram de que forma ele cometeu diferentes crimes.

Da parte técnica do filme, tiro o meu chapéu para a direção impecável de Scorsese. Que bom ver a este gênio do cinema voltando a fazer um filme da maneira que ele acha mais legítima, sem pensar no sucesso que a produção possa ter. Afinal, com tantos exageros, The Wolf of Wall Street poderia ter se saído apenas razoável nas bilheterias. Mas Scorsese não se importou com isso e nos entregou um dos melhores filmes que levam a sua assinatura em muuuuuuito tempo.

Também é ótimo o texto de Terence Winter, um dos roteiristas de The Sopranos e criador da série Boardwalk Empire. Além dos outros aspectos técnicos já destacados na crítica, importante destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, que ajuda a manter a qualidade da imagem em cada tomada da produção; assim como o bom trabalho da direção de arte de Chris Shriver, do design de produção de Bob Shaw e da decoração de set de Ellen Christiansen.

Todos os atores envolvidos no projeto estão bem. Ninguém destoa do conjunto da obra. Mas o grande destaque, sem dúvida, é Leonardo DiCaprio. Além de estrelar esta produção e prender o interesse do público do início até o final, o astro de Hollywood é um dos produtores do filme – junto com Scorsese e outros nomes. Depois dele, me impressionou o trabalho de Margot Robbie, que se destaca como a mulher “perfeita” de Jordan. Para mim, ela é a revelação do filme.

Além deles, me impressionou a entrega de Matthew McConaughey, que está em grande fase, e a coerência do desempenho de Kyle Chandler. Jonah Hill que, me perdoem os fãs, sempre achei medíocre, está um pouco acima da média que ele costuma entregar. Ainda assim, agora posso dizer: foi um exagero da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter indicado Hill ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Ele supera a mediocridade que está acostumado a apresentar, mas ainda assim… não merecia concorrer ao Oscar.

Outras figuras importantes aparecem em papéis secundários nesta produção. Entre outros, destaque para o diretor Rob Reiner como Max Belfort, pai de Jordan; Jon Bernthal, que ficou conhecido pelo papel de Shane na série The Walkind Dead, como Brad, um dos “funcionários” de Jordan – e peça fundamental para o protagonista levar vários milhões de dólares para fora dos Estados Unidos; o ganhador do Oscar Jean Dujardin como Jean Jacques Saurel, o francês que aceita o dinheiro fraudulento de Jordan em Genebra; Joanna Lumley interpreta a tia de Naomi, Emma, peça interessante da trama; Cristin Milioti está bem como Teresa Petrillo, a primeira esposa de Jordan; P.J. Byrne encarna Nicky Koskoff, conhecido também pelo apelido de Rugrat, um dos “fundadores” da empresa de Jordan e que era um dos mais malucos do grupo.

Os outros “fundadores” da empresa do protagonista que começou em uma garagem de uma antiga oficina foram Sea Otter, interpretado por Henry Zebrowski; Chester Ming, que ganha vida no trabalho do ótimo Kenneth Choi; e Robbie Feinberg, conhecido pelo apelido de Pinhead, interpretado por Brian Sacca. Hilários, todos. Eles ajudam DiCaprio na missão de carregar o filme de forma convincente.

The Wolf of Wall Street estrou no dia 25 de dezembro nos cinemas dos Estados Unidos, do Canadá e da França. Depois, pouco a pouco, ele foi entrando nos outros mercados. Segundo o site Box Office Mojo, até agora o filme conseguiu pouco mais de US$ 92,4 milhões apenas nos EUA, e outros US$ 77,1 milhões nos outros mercados em que está em cartaz. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 100 milhões. Ou seja, deve ter algum lucro, mas ainda lhe falta um bom caminho para poder ser considerado um sucesso de bilheteria.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Wolf of Wall Street foi filmado, principalmente, em Nova York, mas teve cenas ainda em New Jersey e nas Bahamas.

Até o momento, The Wolf of Wall Street ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 49. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Leonardo DiCaprio; e para dois prêmios como Melhor Roteiro Adaptado para Terence Winter, incluindo o respeitado National Board of Review. Além deles, The Wolf of Wall Street foi indicado a cinco Oscar’s.

E para quem ficou interessado sobre o tema dos “desmandos” e exageros de Wall Street, encontrei alguns textos interessantes. Para começar, esta entrevista bacana com Jonathan Alpert, psicoterapeuta dos “malucos” de Wall Street e que foi publicada pela Alfa em 2011. Depois, este texto sobre o carioca Murilo dos Santos, um dos atores descobertos pelo filme Cidade de Deus e que acabou sendo engraxate dos executivos de Wall Street – no link com o texto publicado na IstoÉ Dinheiro em 2007 há informações sobre o que ele encontrou por lá e que contou em um livro. E para finalizar, este novo texto sobre o “real” Jordan Belfort, publicado em janeiro deste ano, após o lançamento de The Wolf of Wall Street, pela The Telegraph.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para o filme. Uma bela avaliação, levando em conta os concorrentes diretos do filme no Oscar e o próprio padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais “comedidos”: eles dedicaram 171 críticas positivas e 50 negativas para The Wolf of Wall Street, o que garante 77% de aprovação para o filme e uma nota média de 7,7.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na minha lista de críticas que satisfazem uma das três votações aqui no blog.

Ah sim, e agora vou adicionar alguns comentários que eu não pude fazer antes, pela correria de publicar este texto. Francamente, a interpretação de Matthew McConaughey merecia mais uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do que Jonah Hill. Mesmo McCounaughey tendo um papel bem menor que o do outro. Mas o importante é que ele arrasa em The Wolf of Wall Street – aliás, McConaughey está em grande fase. Ele faz por The Wolf of Wall Street o que Viola Davis fez por Doubt. Em poucos minutos, McConaughey é tão importante para o filme quanto os primeiros minutos de Jennifer Lawrence em American Hustle – ou seja, os dois roubam a cena.

CONCLUSÃO: Eu já tinha lido algo sobre os exageros de todas as espécies cometidos pelos homens engravatados que fizeram Wall Street ser a meca do dinheiro volátil no mundo. Mas por mais que eu tivesse lido algo a respeito, The Wolf of Wall Street me surpreendeu. E olha que eu vinha com certa expectativa para ver o filme. O que geralmente é ruim. Mas Scorsese conseguiu mais uma vez. Ele entrega, aqui, um filme ousado, exagerado, mas que precisava ser assim para respeitar o material original. The Wolf of Wall Street mergulha fundo na ambição e na falta de controle dos homens cheios de dinheiro e sem nenhuma moral de Wall Street.

Para a minha surpresa, as três horas passaram leves, porque o roteiro é envolvente e a condução de Scorsese, soberba. Leonardo DiCaprio tem a interpretação de sua vida, e é bem acompanhado pelo elenco de apoio. No final das contas, Scorsese mais uma vez debate a sociedade da qual ele faz parte, com o admirado Jordan Belfort sendo um símbolo da ambição que ajuda a explicar o “sonho americano”. Enquanto houver gente faminta por riqueza, existirão lobos para enganar os pastores e comer o rebanho. Mas um aviso: esta produção não é indicada para quem tem problemas em ouvir palavrões, ver gente sem moral e muitas, infindáveis cenas de sexo e drogas. Se você não tiver problema com isso, terás pela frente uma obra que faz pensar, além de um grande entretenimento. E para não deixar dúvidas: The Wolf of Wall Street deixa American Hustle no chinelo!

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Se há um filme com capacidade para surpreender na entrega das estatuetas douradas de Hollywood no próximo dia 2 de março, este filme se chama The Wolf of Wall Street. Porque apesar do favoritismo moral de 12 Years a Slave (comentado aqui no blog) e do favoritismo técnico de Gravity (com crítica aqui), The Wolf of Wall Street se revela um filme com muitas qualidades para deixar de ser o “azarão” da categoria de Melhor Filme e levar a estatueta.

Francamente, acho difícil a zebra ganhar. Mas se há uma zebra este ano, esta é o filme de Martin Scorsese. Indicado em cinco categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill, Melhor Roteiro Adaptado), The Wolf of Wall Street tem menos chances de estatuetas que seis de seus concorrentes principais.

As chances do filme são extremas. Ou ele surpreende e leva estatuetas que ninguém espera, ou sai de mãos vazias. Para mim, não seria surpreendente a segunda opção. Mas como o Oscar tem as suas surpresas… The Wolf of Wall Street tem menos chances que 12 Years a Slave e Gravity como Melhor Filme. Outros favoritos: Alfonso Cuarón como Melhor Diretor; Matthew McCounaughey (ou Chiwetel Ejiofor) como Melhor Ator; 12 Years a Slave ou Before a Midnight como Melhor Roteiro Adaptado; e Jared Leto como Melhor Ator Coadjuvante. Para ganhar alguma estatueta, The Wolf of Wall Street terá que derrotar estes nomes e produções. Difícil, mas não impossível.

Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

zerodarkthirty4

Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.