Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

Argo

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O fascínio provocado pelo cinema é capaz de libertar as pessoas. Argo mostra como isto é possível, literalmente. Uma história que impressiona, especialmente por ser baseada em fatos reais. Uma bela reconstituição de uma época que ficou para trás, apenas em parte. Sem dúvida alguma este filme já é uma das apostas para o próximo Globo de Ouro e Oscar, especialmente na categoria roteiro. Um belo trabalho de Ben Affleck na direção e como protagonista. Ele tem amadurecido, e promete trazer muitas outras histórias interessantes pra gente no futuro.

A HISTÓRIA: Animações ao estilo de storyboard contam a história do Irã, desde que o país fazia parte do Império Persa, administrado por uma série de reis, conhecidos como Xás, até que esta história entrou em uma nova fase em 1950. Naquele ano, o povo do Irã elegeu um democrata como Primeiro Ministro, que desagradou os Estados Unidos. Como ocorreu com tantos outros países, o Irã sofreu um golpe incentivado pelo governo dos EUA (e do Reino Unido, neste caso), que acabou colocando um Xá novamente no poder. Como ocorreu na América Latina e em outras partes, este ditador provocou terror e, na vida pessoal, esbanjou o que não podia. Quando ele foi derrubado do poder, em 1979, acabou exilado nos EUA. E o povo do Irã não aceitou este exílio. Daí que surge o mote do filme, quando um grupo grande de pessoas revoltadas invade a embaixada dos EUA e faz os funcionários do local como reféns, exigindo o retorno do Xá, para que ele pudesse ser julgado. Argo conta a história da operação criada para resgatar seis funcionários da embaixada que conseguiram escapar e se refugiarem na embaixada do Canadá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Argo): Eis um filme que cuida dos detalhes. Desde o primeiro minuto, ao contar a história de uma nação convulsionada e que pede por mudanças através de storyboards, até o final, com o clássico “retorno para casa”, Argo está atento a manter uma unidade narrativa que destaca espionagem, política e Hollywood.

O roteiro de Chris Terrio, baseado na reportagem Escape from Tehran, de Joshuah Bearman, é inteligente ao explorar os bastidores de duas fontes de fascínio mundo afora: CIA e Hollywood. E o mais interessante de tudo é que esta história foi baseada em fatos reais. O roteiro ganha pontos quando, logo no início, coloca frases sem papas na língua de figuras como Hamilton Jordan (interpretado por Kyle Chandler), o Chefe de Gabinete do Presidente Jimmy Carter.

Quando sabe que seis estadunidenses que estavam na embaixada invadida no Teerã conseguiram escapar e foram para a residência do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber), ele solta a pérola de que não pode ser chamada de “inteligência” a função dos agentes da CIA que não anteciparam a invasão da embaixada dos EUA. Em seguida, quando uma das pessoas de sua equipe sugere que o Xá seja despachado, ele diz que isso não vai acontecer, porque ele está quase morto, com câncer, e é um aliado dos EUA – que protegem os seus aliados.

Uma vantagem deste filme é que ele não tem meias palavras. Especialmente interessante a parte inicial de Argo, quando o governo dos EUA demora para agir, e quando, 69 dias depois da embaixada no Teerã ter sido invadida, especialistas da CIA e de outras áreas discutem soluções absurdas para o problema – como a de entregar bicicletas para os refugiados na casa do embaixador canadense para que eles consigam fugir, em uma época em que nevava pelo caminho.

Depois desta rápida e um tanto cínica imersão no ambiente “inteligente” da espionagem dos EUA, o filme acompanha o protagonista Tony Mendez (Ben Affleck) em seu esforço para concretizar uma ideia maluca que ele próprio sugeriu: montar um projeto de filme de ficção científica que justificaria uma equipe de norte-americanos “visitando” o Teerã em uma fase conturbada do país. Acompanhamos ele nos bastidores de Hollywood, onde ele vai pedir ajuda para John Chambers (John Goodman), um premiado maquiador que trabalhou por muito tempo no cinema e na televisão.

A ironia desta parte também é ótima. Quando Chambers afirma que um novato como Mendez pode chegar em Hollywood bancando o bom, mesmo sem ter feito nada, porque isso é normal, temos uma palhinha da ironia que vai acompanhar o filme até o final. Tão ou mais difícil que fazer o resgate dar certo, segundo Chambers, é encontrar um produtor respeitável que pudesse embarcar nesta ideia de graça. 🙂 E aí que Lester Siegel (interpretado por Alan Arkin) entra na história. Este sim, um personagem que não tem paralelo, exato, na vida real. Nesta entrevista, Arkin explica que o Siegel de Argo foi baseado na junção de umas três pessoas, mas que ele não seria o Siegel Lester que existiu e que teve certo envolvimento com espionagem na Segunda Guerra Mundial.

Fora a ironia dos dois mergulhos nos bastidores da CIA e de Hollywood, Argo consegue um bom ritmo para mostrar como foi o resgate daqueles seis refugiados da embaixada na casa do representante do governo canadense após 69 dias de letargia do governo dos EUA. A narrativa sempre faz o movimento de vai e volta entre o que acontece em Teerã e nos EUA. Até que as duas frentes se juntam com a chegada de Mendez no Irã. Todo o teatro ao redor de Argo, o interesse e repúdio incontidos dos iranianos com o cinema dos EUA e tudo que ele representava, e a resistência compreensível do grupo que espera ser resgatado a encenar a farsa.

Havia muito em risco. Não apenas a vida daquelas pessoas, mas a descoberta de um plano de resgate que poderia virar motivo de gozação mundial. Não por acaso demorou tanto tempo para que esta operação da CIA viesse à tona. Mas a história é fascinante. E bem contada, especialmente pelo roteiro. Affleck também se sai bem, especialmente na direção. Para o bem de seu filme, ele fez uma interpretação condizente, sem rompantes. Assim como os outros atores. Todos estão muito bem, mas ninguém se destaca, em especial.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O resgate de época é impressionante. Não apenas pela inserção precisa de imagens de TV e pela reconstituição de cenas, mas pelo figurino e pela escolha dos tons da direção de fotografia. Tudo ajuda o espectador a reviver aqueles dias no final de 1979 e no início dos anos 1980.

Merecem aplausos, por isto, o trabalho do diretor de fotografia Rodrigo Prieto, o design de produção de Sharon Seymour, os figurinos de Jacqueline West, a decoração de set de Jan Pascale e a direção de arte de Peter Borck e Deniz Göktürk. Muito importante, para esta produção, também a edição de William Goldenberg.

Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Bryan Cranston como Jack O’Donnell, chefe de Mendez na CIA. Adoro o Bryan Cranston por causa de Breaking Bad. Bom vê-lo mais vezes no cinema, como aqui. Entre os resgatados, estão os personagens vividos pelos atores Clea DuVall (que interpreta Cora Lijek), Scoot McNairy como Joe Stafford, Rory Cochrane como Lee Schatz, Christopher Denham como Mark Lijek, Kerry Bishé como Kathy Stafford e Tate Donovan como Bob Anders. Além deles, há ótimos atores que fazem pontas, como Chris Messina, Zelijko Ivanek e Titus Welliver, todos envolvidos com a operação de resgate nos bastidores.

De todos os atores citados, sem dúvida alguma os que ganham maior evidência pelo desempenho são Affleck, Alan Arkin e John Goodman. Especialmente os últimos dois, que roubam a cena quando aparecem e ganham evidência mesmo com tantos personagens aparecendo em cena.

Ben Affleck acreditou tanto neste projeto que ajudou a produzí-lo. Ao lado dele, na produção, o também ator e diretor George Clooney e o ator, diretor, produtor e roteirista Grant Heslov.

A trilha sonora neste filme tem menos impacto do que em outras produções porque o som ambiente e o de gravações (sejam elas históricas ou reproduzindo cenas da época) predominam. Mas nunca é demais citar o autor do trabalho, o excelente Alexandre Desplat.

Argo estrou no Festival de Telluride em agosto. Depois, o filme passou por outros 10 festivais. Em seu trajeto, até o momento, ele conquistou 12 prêmios e foi nomeado a outros 27, incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro. O que apenas nos indica que o filme será bem cotado no Oscar 2013.

Entre os prêmios que recebeu, o de melhor filme no AFI Awards e três premiações do National Board of Review. No Globo de Ouro ele está concorrendo como Melhor Diretor para Ben Affleck, Melhor Filme – Drama, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator Coadjuvante para Alan Arkin e Melhor Roteiro.

Argo teria custado aproximadamente US$ 44,5 milhões. E tem lucrado bem. Apenas nos Estados Unidos o filme já passou a fronteira do US$ 103,1 milhões até o dia 9 de dezembro.

Além de bem avaliado pelas premiações e pelo público, Argo está indo bem de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 231 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação importante de 95% e uma nota 8,4.

CONCLUSÃO: Argo é surpreendente. Nem tanto porque está cheio de reviravoltas no enredo. Mas porque ele revela uma história que era secreta, até não muito tempo atrás. E também porque nos faz refletir sobre política, conflitos, espionagem e o cinema. Elementos que tornam qualquer produção fascinante. Além de ter uma história que funciona bem, Argo tem uma reconstituição de época muito precisa, e um ritmo bem equilibrado entre o drama dos personagens principais e os bastidores da CIA e do cinema de Hollywood. O filme não se aprofunda em nada, deixando um “gostinho” de quero mais no espectador. Um trunfo do roteiro, assim como da direção de Ben Affleck. Vale a imersão. E pensar em como nunca sabemos, no final das contas, separar muito bem o que é ficção e o que é realidade. Talvez porque ambas estejam muito contaminadas uma com a outra.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Esta semana saiu a lista do Globo de Ouro. A crítica deste filme eu comecei a escrever antes dele ser indicado para o Globo de Ouro mas, pelo estilo da produção, já estava colocando ele na tag Oscar 2013. Porque me parece evidente que ele estará entre os indicados. Resta saber em que categorias e quais as chances dele ganhar, realmente, alguma das estatuetas douradas.

Ben Affleck é um cara que, a exemplo de George Clooney, é bem visto pela indústria hollywoodiana. Primeiro, pelo resultado que estes nomes trazem nas bilheterias. Depois, por suas visões múltiplas como artistas – eles não são apenas ótimos atores, mas também gostam de investir em diversificação e atuarem como diretores e produtores. Sendo assim, acho sim que Argo vai chegar bem no Oscar. Affleck tem moral.

Acredito que o filme deverá repetir no Oscar quase todas ou mesmo todas as indicações recebidas no Globo de Ouro. Talvez a trilha sonora de Desplat pode ficar de fora. Mas Argo deve figurar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e, possivelmente, Melhor Ator Coadjuvante. Se a Academia for muito querida com Affleck, até poderá indicá-lo como Melhor Ator. Agora, o filme pode ganhar o que? Ainda preciso assistir às outras produções que estão bem cotadas, mas acho difícil ele ganhar algo. Talvez Roteiro. Mas seria só isso.

Extremely Loud & Incredibly Close – Tão Forte e Tão Perto

Como ensinar o seu filho, que tem medo de tomar determinadas atitudes que você tomava na idade dele sem pestanejar, a aventurar-se? E como uma criança deve lidar com o pior dos acontecimentos? Quando eu soube que Extremely Loud & Incredibly Close resgatava alguns dos sentimentos que circundaram os ataques ao World Trade Center, e que um garotinho narraria a história por sua ótica, fiquei com o pé atrás. Seria este mais um dramalhão? Outra desculpa para Hollywood fazer chorar com o seu drama, muito legítimo, do 11 de Setembro? Para a minha surpresa, este filme é mais que um dramalhão. Ainda que ele seja pensado para fazer o espectador chorar, ele também guarda algumas boas ideias e reflexões. Mais do que eu esperava (sim, minha expectativa era bastante baixa).

A HISTÓRIA: Um homem parece voar. O menino Oskar Schell (Thomas Horn) olha fixo para a frente e reflete sobre como, atualmente, um número maior de pessoas vive mais tempo, enquanto aumenta também o número de mortos. Ele comenta que se aproxima o dia em que não haverá mais espaço para enterrar tanta gente, e que será necessário construir edifícios submersos, cidades inteiras sob a terra para colocar estas pessoas mortas. Da imagem dele no quarto, saltamos para vê-lo no carro com a avó (Zoe Caldwell). Oskar assiste dali um enterro, e pergunta para a avó se ninguém sabe que o caixão está vazio. Ele não vê sentido no que chama de “funeral falso”. O garoto sai do carro e senta em um banco. Olha para a cidade, Nova York, e lembra do melhor dos desafios lançado por seu pai, Thomas (Tom Hanks): o sexto bairro da cidade. A partir daí, acompanhamos a rotina da família de Oskar, e sua busca pelo legado do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Extremely Loud & Incredibly Close): A primeira qualidade que eu vi neste filme foi a busca do roteirista por destacar a missão de um pai em despertar a curiosidade e o encantamento de um filho. Algo muito bacana em Extremely Loud é que os “segredos” do filme vão sendo contados aos poucos. Para começar, não sabemos até que ponto aquele menino está ou não fora da curva. Ele é apenas muito inteligente ou tem alguma doença ou distúrbio? Também ficamos sabendo logo que o pai do menino morreu, mas demora um pouco para sabermos como foi esta morte.

Esta é uma ótima vantagem da história. O roteiro de Eric Roth, sem dúvida, é o ponto forte do filme. Ele destilou alguns diálogos simplesmente geniais – todos proferidos pelo protagonista. O garoto Thomas Horn também segura muito bem a responsabilidade e a complexidade de seu papel. Em alguns momentos, e falarei deles depois, ele chega a irritar. Mas isso, antes de mais nada, é uma responsabilidade do roteiro. Roth é o que o filme tem de melhor mas ele é, também, o responsável por suas derrapadas.

As dúvidas sobre a origem de toda aquela genialidade do menino duram exatos 30 minutos. Quando o filme chega neste ponto, Oskar conta sobre a origem de sua personalidade diferenciada para Abby Black (Viola Davis). Os minutos até ali guardam o tempo mágico do filme, quando ele funciona muito bem. Naquela meia hora, vemos a parceria entre Horn e Tom Hanks. O ator veterano e premiado incentiva a criatividade e a imaginação do filme. Pode parecer loucura, mas cheguei a ver, neste trecho, o mesmo incentivo ao encantamento e à imaginação feito por The Artist e Hugo, mas sem que o tema cinema fosse o foco desta vez.

Os jogos entre o pai e o filho foram mostrados de uma maneira encantadora. E se encaixam com perfeição para o novo desafio de Oskar, depois que o pai dele já tinha morrido. Com sua maneira peculiar de raciocinar, Oskar tenta reconstruir os minutos que separaram as mensagens deixadas pelo pai e o final de sua vida. O garoto demora um ano para entrar no quarto do pai e buscar “pistas” que ele pode ter deixado para ajudar o filho a entender o que aconteceu. Na tentativa de pegar uma máquina fotográfica, ele encontra uma chave, misteriosa. Referência bastante simbólica, pois. Decifrar o que aquela chave é capaz de abrir poderia ser o último jogo entre pai e filho, e essa possibilidade passa a mover Oskar.

Antes do minuto 30, o espectador dá risadas com a personalidade diferenciada de Oskar. Com os preparativos dele para sua nova e maior aventura. Mas pelas mesmas linhas do roteiro de Roth, o espectador também fica assustado com a lista de coisas simples que o menino acha complicado fazer, experiências que ele não consegue vivenciar – especialmente as listadas quando ele começa a buscar os Black pelas ruas de Nova York. Isso tudo seriam efeitos do trauma da perda do pai? Faria sentido… E daí surge um dos melhores momentos do filme, aquele em que Thomas estimula Oskar a experimentar a sensação de usar um balanço.

Este momento é a grande sacada de Extremely Loud. Afinal, ele nos faz refletir sobre esta geração pós-11 de Setembro. As crianças estão contaminadas com o medo que reinou no mundo logo após os ataques às Torres Gêmeas? Se estão, como incentivá-las a se arriscarem, a fazerem algo com a esperança de ter um futuro melhor? Como quebrar o medo da queda, de machucar-se, para que elas possam viver aventuras e sentir prazer em coisas simples? Até o minuto 30, estes parecem ser os questionamentos que começam a ser esboçados em Extremely Loud. A chave, os medos do garoto, tudo parece ser uma forma sugestiva de tratar de outros temas, mais profundos. Pena que isso mude pouco depois.

Porque quando Oskar conversa com a primeira pessoa Black que ele encontra, ele explica a origem de seus temores e de sua inteligência fora do comum: o garoto tem a Síndrome de Asperger. Essa informação é fundamental para entender o que se passa. Por isso mesmo, para o meu gosto, ela poderia ter sido dada muito depois – pela metade do filme, por exemplo, sem prejuízos para a história. Manteria o suspense e as leituras diferenciadas por mais tempo. Isso porque, ao saber que o menino tem Asperger, sabemos a origem de tudo.

Essa síndrome, mais comum entre garotos, é uma variação do autismo. Ela faz os portadores terem uma relação diferenciada com tudo. Uma das características da síndrome é que a criança desenvolve um interesse excessivo por determinados temas, concentrando toda a sua atenção e conversas nestes assuntos de interesse. Ela permite que a pessoa desenvolva um conhecimento profundo sobre aquilo que lhe chama a atenção mas, ao mesmo tempo,  dificuldade em lidar com outros temas que repudia. Reações ao extremo, pois. Isso explica totalmente Oskar, verdade?

Talvez uma boa parte dos espectadores não entenda isso logo de cara e pode ter ido buscar informações sobre a Síndrome de Asperger depois do filme terminar. Mas graças a Mary and Max, comentado aqui, a minha ficha logo caiu. E daí as outras leituras do roteiro evaporaram. Ainda assim, o texto de Roth e a ótima direção de Stephen Daldry seguram a atenção até o final.

Alguém pode ter se perguntado: “Mas caramba, não teria sido muito mais fácil Oskar perguntar para a mãe se ela sabia o que aquela chave poderia abrir?”. Claro, teria sido mais fácil. Mas no contexto do filme essa saída mais prática não faria sentido. Primeiro porque aquela busca era tudo que Oskar precisava para perdurar aquelas lembranças do pai, a sensação que ele passou a ter de que Thomas continuava lá, jogando com ele. Depois que para um portador da Síndrome de Asperger a lógica é sempre diferente do que a de uma pessoa comum. Para Oskar a mãe não teria a resposta, e seria uma bobagem perguntar isso para ela.

Claro que nós, adultos, duvidamos que aquilo poderá chegar a algum lugar. Torcemos, claro, porque o roteiro foi feito para isso, para que o espectador cruze os dedos para que aquele garoto consiga encontrar a resposta que ele tanto deseja. Mas daí lembramos daquelas frases famosas… “Um homem viaja o mundo à procura do que ele precisa e volta para casa para encontrar” (de George Moore), “Viajar é fazer uma jornada para dentro de si mesmo” (Dena Kaye) e, principalmente, aquele clássico de que o viajar é mais importante que chegar no destino.

Sim, porque Oskar vai colecionando histórias, alegrias e dores de pessoas com o sobrenome Black pelo caminho. Mesmo o foco dele estando na fechadura que seria aberta por aquela chave, ele aprende um bocado no caminho – especialmente quando a mãe dele, Linda (Sandra Bullock) repassa todas aquelas histórias com o menino, uma a uma. E daí surge a única reflexão que justifica o filme fazer referência ao 11 de Setembro – além daquela anterior, sobre a questão do medo das gerações mais jovens. A de que, apesar do que todos nós sabemos que cada uma das 2.606 pessoas mortas nos ataques às Torres Gêmeas farão falta, que cada uma de suas famílias entrou em luto e teve que batalhar para sair da dor, existem tantas outras histórias parecidas, de dor e de perdas, espalhadas por aí…

O filme não minimiza a tragédia do 11 de Setembro. Pelo contrário, mostra em detalhes o impacto que um fato como aquele pode ter na vida de uma família – e, em especial, no cotidiano de um menino como Oskar, com a Síndrome de Asperger. Mas também dimensiona o fato com um pouco de distanciamento, mostrando que tantas outras tragédias pessoas antecederam e continuam acontecendo em diferentes bairros de Nova York e, além daquele cenário, no mundo. Essa sim, parece uma reflexão com a marca do diretor, Stephen Daldry.

Pessoalmente, acho que o filme teria ganho mais pontos se contasse a história do menino, de sua perda e de sua busca pelo legado do pai sem colocar a tragédia do 11 de Setembro no meio. Compreendo a necessidade dos Estados Unidos de continuar retratando aquela dor e plasmando ela no cinema para a posteridade. Mas acho que o tema já está muito desgastado. Focar um garoto com a Síndrome de Asperger, tornando esta doença um pouco mais conhecida, é uma grande sacada. O restante… bem, ainda que aumente o drama e a tensão, achei um bocado desnecessário. E que aí sim, devo concordar, leva o filme ao patamar do melodrama. Não fazia falta.

Para finalizar, mais um detalhe sobre a busca do garoto. Interessante como ele tenta achar lógica no que aconteceu. Mas a mãe dele, lá pelas tantas, em uma das sequências que eu achei mais forçadas do filme, fala para o menino, aos berros, que é impossível chegar a uma explicação lógica para o que aconteceu. Para Oskar, esse é o maior drama. Porque o mundo precisa de lógica.

Difícil para qualquer mãe ou pai explicar para o filho ou filha que, muitas vezes, não há lógica, realmente. Explicações sempre existem. Mas, ainda assim, não há lógica. Como neste caso do 11 de Setembro. E em tantas outras perdas de familiares. De qualquer forma, e bastante sem querer, Oskar encontra a sua resposta final. E segue a vida. Eis a grande mensagem do filme, de que a vida continua, por mais absurdos que sejam alguns fatos.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes sobre os fatos um tanto irritantes da produção. Thomas Horn faz um grande trabalho, mas os momentos de descontrole de seu personagem, quando ele surta e atira coisas enquanto grita, acabam irritando. Eu sei, crianças agem assim em alguns momentos. Isso poderia ter acontecido uma vez no filme, sem maiores problemas de irritação. Mas repetir a cena, apenas para reforçar o drama e a empatia do espectador, foi forçado.

Gostei muito do trabalho do veteraníssimo Max von Sydow. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para alguns, foi irritante aquela infindável exposição de bilhetes do avô de Oskar. Eu não achei exagerados. Eles foram inteligentes, alguns inusitados. E Sydow consegue tornar o personagem interessante, conseguindo afastá-lo da provável caricatura. Não é difícil matar este mistério. Um espectador um pouco mais atento descobre a ligação entre o hóspede da avó de Oskar e o garoto muito antes do próprio menino verbalizar a sua conclusão. Isso não estraga o filme, como o restante das surpresas reveladas antes da hora. Mas por ser previsível, poderia ter sido desvelada antes, talvez.

Viola Davis é um monstro. O papel dela neste filme não é muito grande e, mesmo assim, ela arrebenta. Não adianta, esta atriz se diferencia da maioria de sua geração. Está na hora, realmente, dela ganhar um Oscar. Por tudo que apresentou até agora em uma carreira relativamente curta, que soma quase 16 anos – e feita, no início, principalmente por trabalhos em séries para a TV.

Algo que irrita um pouco também nesta produção tem a ver com a personagem de Linda Schell. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Convenhamos, alguém engoliu aquela versão de que a mãe de Oskar poderia ser tão ausente ao ponto de deixar o filho sair a qualquer momento, com a desculpa esfarrapada que fosse, e tudo bem? Aquilo não se encaixava e a explicação final apenas ajustou algo que parecia absurdo. Não, aquela mãe não era tão desnaturada e nem estava tão imersa na própria dor a ponto de abandonar o garoto. Aliás, Roth poderia ter deixado pelo menos essa dúvida um pouco mais séria. Se mostrasse a mulher deprimida, por exemplo, ou entregue a algum vício, talvez pudesse ter preservado o suspense até o final. Do jeito que ele explorou a história de Linda, ficou só estranha aquela ideia do “abandono” – pelo menos até o final, redentor. Por outro lado, a explicação sobre os atos de Linda só tornou ainda mais evidente qual era a função daquela chave: provocar uma busca que não distanciou Oskar de Linda, mas que os aproximou e fez ambos superarem melhor o luto.

Muito inteligente o personagem de Thomas Schell. Com os jogos e desafios que ele propunha para o filho, sabendo que Oskar gostava daquelas “pesquisas”, ele estimulava o garoto a explorar a cidade e a interagir com as pessoas. Tentando minimizar o risco do isolamento social do menino.

Stephen Daldry é um grande diretor. Aqui, mais uma vez, ele ganha pontos pelos detalhes. Primeiro, pelo ótimo trabalho desenvolvido com o garoto Thomas Horn. Ele consegue tirar o melhor do menino, que é um estreante. E esta não é a primeira vez que ele consegue fazer isso. No ano 2000, ele revelou para o mundo o talento de Jamie Bell no lindo Billy Elliot. O diretor ganha o espectador também nos detalhes. Na busca do melhor ângulo da câmera e na captura das nuances da cidade, como quando ele foca Oskar do alto, mostrando uma revoada de pássaros abaixo da câmera e sobre o garoto. Por estas e por outras que Daldry é um diretor diferenciado.

Além dos atores já citados, vale citar John Goodman em uma super ponta, como o porteiro Stan, um tanto cômico – mas com uma participação fundamental para a história. Jeffrey Wright também faz uma ponta na história, aparecendo quase no final do filme – pelo menos com alguma relevância porque, antes, ele nem dá “as caras” direito – como William Black, ex-marido de Abby.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho sempre acima da média de Alexandre Desplat na trilha sonora. Ele embala o drama e as aventuras de Oskar com precisão. Maximiza a mensagem da produção. A direção de fotografia de Chris Menges também valoriza o trabalho de Daldry, destacando Nova York com cores sérias e um tanto efêmeras. Finalmente, bom o trabalho de edição de Claire Simpson.

Extremely Loud & Incredibly Close se justifica de várias formas. Pelo sentimento do menino, cada vez que ele sai de casa e, com sua aventura, sente-se mais próximo do pai, enquanto parece tornar-se mais distante da mãe – e isso o deixa dividido – e, principalmente, pelo jogo de palavras que Oskar fazia com o pai, juntando expressões que parecem conflitantes. A tradução para o Brasil ficou horrível, claro, porque não dimensiona nem uma justificativa, nem outra.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Jonathan Safran Foer lançado em abril de 2005. Foer é o mesmo autor do genial Everything is Illuminated. Não li a nenhum dos dois livros, mas posso dizer que a versão para o cinema de Everything is Illuminated é – perdão o trocadilho que isso possa suscitar – brilhante.

Extremely Loud estreou nos Estados Unidos em circuito comercial no dia 1º de janeiro. De lá até o dia 12 de fevereiro, o filme acumulou pouco mais de US$ 29,4 milhões nas bilheterias. Não está mal, mas certamente está abaixo da expectativa do estúdio – especialmente por causa dos nomes estelares de Tom Hanks e Sandra Bullock no elenco.

A estreia do filme ocorreu em Toronto, no Canadá, e de forma restrita nos Estados Unidos no dia 25 de dezembro. Depois o filme começou a estrear mundo afora. Com uma carreira tão curta, até o momento, o filme participou apenas de um festival, o de Berlim.

Até o momento, Extremely Loud faturou seis prêmios e foi indicado a mais oito, incluindo dois Oscar. Três dos seis prêmios abocanhados pela produção foram para Thomas Horn. Mas nenhum, até agora, de grande relevância.

Entre os nove indicados como Melhor Filme no Oscar deste ano, Extremely Loud & Incredibly Close é o que registra a menor nota na avaliação dos usuários do site IMDb: 6,4. De fato, o filme não pode competir com outros que estão na lista. Mas como vocês sabem, analisando as outras críticas que publiquei por aqui, não considerei este o pior filme da disputa. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais rígidos: publicaram 82 críticas negativas e 70 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 46% e uma nota média de 5,6.

Agora, vou explicar a minha nota para Extremely Loud. De fato, o filme força a barra em alguns momentos e parece exagerar a dose no drama. Algumas de suas surpresas desaparecem muito rápido. Mas eu acho que as reflexões que ele suscita e, principalmente, o mérito dele em explorar a ótica de um menino com a Síndrome de Asperger torna as suas intenções superiores às falhas da produção. Eu gosto de boas intenções.

Stephen Daldry não é um diretor voraz. Depois de estrear no cinema em 1998, com o curta Eight, ele produziu apenas quatro longa-metragens. Os três que antecedem Extremely Loud são maravilhosos. Além do já citado Billy Elliot, estão The Hours e The Reader.

Para quem desconhece a Síndrome de Asperger, recomendo a animação citada anteriormente, Mary e Max. Muitos sites tratam da doença, mas achei este bastante direto e explicativo. Dá uma ideia geral e introdutória sobre a síndrome.

Ah sim, e uma explicação para uma das curiosidades do filme. Nova York tem cinco “boroughs” (bairros): Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. Segundo o Censo dos Estados Unidos de 2010, a população da cidade chega a 8,17 milhões de pessoas.

CONCLUSÃO: Depois de mostrar as perdas dos ataques às Torres Gêmeas por diferentes ângulos, com a produção de diversos dramas e documentários, Hollywood volta ao tema a partir da ótica de uma criança. Os elementos estavam dados para Extremely Loud & Incredibly Close ser um dramalhão. Mas soma-se a isso algumas relações familiares complicadas e um garoto que foge dos padrões comuns, e temos pela frente uma história mais ampla. Dramas humanos acontecem por todas as partes, em todas as direções que se possa olhar. Interessante como a busca de um garoto pelo legado do pai nos mostra isso. Coloca a tragédia daquele 11 de Setembro em seu lugar. Porque a vida continua, nos conta o protagonista. Mesmo que seja preciso percorrer um longo caminho até sentir-se preparado para isto. Extremely Loud trata disto, e de como as diferenças podem ser compreendidas com um pouco de interesse e esforço. No fim das contas, este é um dramalhão, que simplifica muitas histórias e cai na repetição em muitos momentos. Mas o roteiro inteligente de Eric Roth faz a história não se perder e manter o interesse do espectador. Não é um filme brilhante ou inovador na forma ou conteúdo. Mas faz pensar enquanto tenta provocar o choro. Só por isso, ele já se diferencia um pouco do balaio de produções comuns.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Para muita gente, e eu me incluo neste grupo, foi uma surpresa Extremely Loud & Incredibly Close ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme este ano. Quando o nome dele apareceu na lista divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, todos reclamaram. Alguns apontavam este ou aquele como injustiçado. Outros simplesmente chamaram a indicação de absurda. De fato, nos moldes antigos do Oscar, quando apenas cinco filmes eram indicados para a categoria principal, Extremely Loud não chegaria tão longe. Mas agora os tempos são outros.

Esta produção foi indicada também em outra categoria: melhor ator coadjuvante pelo trabalho de Max von Sydow. Na indicação principal, como melhor filme, Extremely Loud não tem chances. Ainda que o filme trate de um tema importante para os Estados Unidos e que ele comece muito bem, a verdade é que esta produção não tem força – e nem méritos, convenhamos – para vencer os favoritos The Artist, The Descendants ou Hugo. Mesmo Sydow, que faz um ótimo trabalho neste filme, não deve ganhar. Primeiro, porque o favoritíssimo da noite é Christopher Plummer. Depois porque outros nomes, como Jonah Hill, tiveram um peso mais decisivo em seus respectivos filmes do que Sydow. Para resumir, Extremely Loud deve contentar-se com as indicações. Porque ele não tem chance de vencer nas categorias nas quais compete neste Oscar.

The Artist – O Artista

Em que ano nós estamos? 2012… verdade. Mas então por que um filme mudo, inédito, ainda mexe tanto com a gente e causa tanto burburinho em Hollywood? Filme mudo não é coisa do passado? The Artist comprova, de forma surpreendente, que não. A graça e o charme de um cinema que não existe mais voltaram com força. Com um roteiro delicioso e com grandes sacadas, uma trilha sonora estonteante e uma dupla de atores protagonista de tirar o chapéu, The Artist se revela, de forma muito franca e simples, como um dos grandes filmes da temporada. E olha que eu já estava “contaminada” com a onda de elogios para ele. E ainda assim, a expectativa não foi forte o suficiente para torná-lo uma decepção. Pelo contrário. Eis, realmente, um grande filme.

A HISTÓRIA: 1927. O herói está sendo torturado por uns russos. A música extremamente dramática dá o tom para a platéia, com os olhos fixos na telona. Trancado em uma cela-cofre, o herói é despertado por seu simpático cãozinho. Saindo de lá, ele liberta a heroína. Atrás do telão, o astro George Valentin (Jean Dujardin) chega a tempo para assistir ao final do filme estrelado por ele. Quando a produção termina, ele faz graça para a platéia, que o ovaciona. Na saída, uma fã dele faz graça com o astro, é incentivada por um fotógrafo a dar um beijo nele e, desta forma, ela sai estampada no jornal. No dia seguinte, essa garota desconhecida leva um jornal consigo para o estúdio Kinograph, onde consegue um trabalho como figurante após mostrar seus dotes como dançarina. Neste momento, ela se apresenta: Peppy Miller (Bérénice Bejo). A estreia dela, ironicamente, é feita ao lado do ídolo, George. Mas com a chegada do cinema falado, ela passará a ser a estrela, que atrai multidões para os cinemas, enquanto George sai de cena.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Artist): Mesmo as melhores comédias românticas dos anos 2000 não chegam aos pés do encanto, da sutileza e da graça dos grandes filmes mudos da primeira fase do cinema. Que o diga Charles Chaplin, Mary Pickford, Rodolfo Valentino e Buster Keaton. The Artist resgata um pouco daquela magia, acertando o tom na homenagem ao cinema que, de quebra, fala sobre valores um tanto esquecidos também, como a gratidão, a generosidade e a capacidade de reinventar-se.

Quando os atores não tinham voz e predominava o sistema das estrelas criadas por Hollywood, o nome principal de um filme era o chamariz para o público. Não se falava de diretores ou roteiristas. Para o público, eles não tinham muita importância. Mas grandes atores faziam toda a diferença. Eles ganhavam as platéias com graça, muitas caras e bocas e uma presença marcante que substituía a fala.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de George Valentin é claramente inspirado em Rodolfo Valentino, um galã do cinema mudo que não chegou a passar pela transição deste tipo de cinema para o falado. Mas na verdade, Valentin não tem apenas uma fonte de inspiração. Ele lembra, muitas vezes, Clark Gable, ou mesmo Gene Kelly, astros que ficaram famosos com o cinema falado. Kelly, aliás, estrou o clássico Singin’in the Rain, uma produção que trata também da transição do cinema mudo para o falado – mas com uma levada bem diferente daquela escolhida por The Artist.

A comparação de The Artist, com roteiro e direção do parisiense Michel Hazanavicius, e o clássico Singin’in the Rain, que este ano completa 50 anos e que foi dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, é inevitável. Afinal, ambos tratam do mesmo tema, a transição do cinema mudo para o falado e a dificuldade de alguns astros em se adequarem para a nova realidade. Ambos estão recheados de metalinguagem e autorreferenciamento. Mas enquanto o clássico é um musical, recheado de coreografias fantásticas de Gene Kelly, The Artist é um drama que bebe de fontes diversas.

Difícil é classificar The Artist. Como uma homenagem ao cinema, ele caminha por todos os seus gêneros, dos básicos comédia, drama e romance, até algumas pitadas de musical, aventuras de “capa e espada”, ação na selva e nas quadras. Uma coleção de referências. Mas para o filme funcionar, como em Singin’in the Rain ou na época do cinema mudo, foi fundamental o trabalho dos atores principais e da trilha sonora.

O trabalho de Ludovic Bource na trilha sonora é essencial e de tirar o chapéu. Exceto por duas sequências, The Artist é um filme 100% mudo. Com esta característica – o que o diferencia de Singin’in the Rain e o torna mais difícil de ser “atraente” nos dias atuais, nos quais as pessoas estão acostumadas com verborragia e necessitam de diálogos bem escritos nos filmes -, a trilha sonora se torna ainda mais fundamental para a história, porque é ela que dita o ritmo e “fala” pelos atores. De arrepiar o trabalho de Bource do primeiro até o último minuto do filme. Ele merece o Oscar.

A trilha sonora foi o primeiro elemento de The Artist que me chamou a atenção. Ela resgata o melhor da época em que o cinema era mudo e ainda inova, acompanhando cada momento desta nova produção com esmero. O segundo elemento que me chamou a atenção foi a qualidade dos protagonistas. O francês Jean Dujardin resgata as melhores qualidades dos astros de antigamente. Cada vez que ele sorri, a tela se ilumina – e as mulheres se derretem. Esta era uma qualidade fundamental na era das estrelas da época de ouro de Hollywood. E a argentina Bérénice Bejo faz o dueto perfeito com Dujardin. Se ele lembra os astros comentados anteriormente, ela, sem dúvidas, é inspirada na grande estrela do cinema mudo Mary Pickford.

O filme tem classe, tem uma trilha sonora impecável e uma dupla de protagonistas que encanta, que fascina, que arranca risos e que convence nos momentos de lágrimas escorrendo pelo rosto – no caso de Bejo. Mas além destes elementos, algo fundamental para este filme funcionar é a direção e o roteiro de Michel Hazanavicius. A história, mesmo que com um desenrolar um bocado previsível, prende o interesse do início ao fim.

Especialmente pelas ótimas sacadas do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relembrando Charles Chaplin, em The Artist o protagonista ganha muitos pontos de simpatia por causa do cachorrinho que lhe acompanha – que faz um dueto perfeito com o herói em crise. A participação do cachorro e o charme de Dujardin, assim como o carisma de Bejo, são fundamentais para o filme fluir convencendo.

Somado a isso, o roteiro tem pelo menos duas grandes sacadas: justamente quando o som entra em cena. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Esta quebra na mudeza da história mostra os momentos em que o protagonista decide ceder, deixar o orgulho de lado e admitir que precisa recomeçar. Genial a sequência do pesadelo dele, e a simbologia de que há som em tudo, menos na garganta do personagem, que parece “incapaz” de falar. Evidente que ele não era mudo, mas de uma forma simbólica ele “não consegue falar” porque não admite a mudança na indústria que lhe rejeita como “ultrapassado”. Ele não luta contra isso. Prefere se desfazer de todos os bens e abraçar incontáveis garrafas de bebida do que pedir um favor para os “cartolas” do cinema ou aderir ao cinema falado. No final, outra vez, o som entra em cena, quando ele decide acreditar que é possível recomeçar.

Por estas e por outras, que The Artist não é apenas um grande filme sobre um momento decisivo do cinema. Ele não é apenas uma homenagem à Sétima Arte, seus artistas e bastidores, ou um roteiro cheio de metalinguagem. The Artist é também uma lição sobre recomeços, persistência e memória afetiva. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por um lado, temos Valentin e sua dificuldade de ceder à passagem do tempo, de entender que uma forma de trabalhar terminou e que ela deve dar espaço para uma maneira diferente de atuar. Se ele é apaixonado por aquilo, deve se adaptar aos novos tempos. E saber lidar com a perda de espaço para novos talentos. Por outro lado, temos a ascensão de Miller e sua forma romântica e respeituosa de admirar Valentin. É linda a forma com que ela acompanha o astro, a quem admira. Diferente do clássico All About Eve, imperdível, aliás, ela não quer puxar o tapete de ninguém, mas fascinar os públicos e ajudar, sem intrometer-se demasiado, ao ídolo pelo qual sempre foi apaixonada. A relação deles é uma grande lição.

A direção de Hazanavicius é fascinante. Ele resgata os princípios dos filmes clássicos, destacando a interpretação e as expressões dos atores nos momentos adequados e mais reflexivos, mas imprimindo também uma dinâmica envolvente nas cenas de ação. Para conseguir isso, Hazanavicius conta com a ajuda do diretor de fotografia Guillaume Schiffman, que faz um trabalho primoroso ao resgatar a aura dos filmes preto e branco. Há estilo, charme e romantismo nesta forma de contar uma história. E os diálogos contidos comprovam como as palavras muitas vezes sobram. Há outros elementos muito mais significativos no cinema. E é muito bom revê-los como protagonistas nesta grande homenagem ao cinema, esta arte da qual tanto gostamos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos protagonistas, já bastante elogiados, outros dois nomes se destacam nesta produção: John Goodman como o produtor e diretor de estúdio Al Zimmer; e James Cromwell como Clifton, motorista e braço direito do astro George Valentin. Os dois atores estão muito bem em seus papéis, ainda que o trabalho deles é claramente de coadjuvantes – as estrelas estão claras nesta produção. Duas atrizes também tem uma certa relevância como coadjuvantes: Penelope Ann Miller como Doris, mulher de Valentin; e Missi Pyle como Constance, estrela do cinema mudo e namorada de Zimmer. O grande Malcolm McDowell faz uma super ponta, de poucos segundos, e depois desaparece. Uma pena, porque ele é um grande ator – e que faz parte da ótima história do cinema.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale citar o ótimo trabalho da dupla de edição Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius; a ótima direção de arte de Gregory S. Hooper; os figurinos de Mark Bridges e a decoração de set de Austin Buchinsky e Robert Gould.

The Artist foi ganhando a crítica, a opinião de quem faz Hollywood e crescendo na bolsa de apostas para o Oscar pouco a pouco. No início, quando estreou no Festival de Cannes em maio de 2011, ele não criou tanto burburinho. Mas garantiu, no festival, o primeiro de muitos prêmios de melhor ator para Jean Dujardin. Depois, o filme passou em outros 15 festivais. Mas começou a ganhar força mesmo quando estreou, de forma limitada, nos Estados Unidos em novembro. Daí as pessoas começaram a ter contato com a produção e a comentar sobre ela.

Nesta trajetória de festivais e por participar de outras premiações, The Artist vem acumulando prêmios. Até o momento, ganhou 42 prêmios, incluindo três Globos de Ouro, e foi indicado ainda a outros 77. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme saiu vencedor nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Trilha Sonora (merecidíssimo) e Melhor Ator de Comédia ou Musical. Aliás, sendo justa, todos os prêmios muito merecidos. Entre os outros prêmios, destaco o de Melhor Filme no Festival de San Sebástian, na Espanha; e os de melhor filme e diretor pela avaliação dos críticos de Nova York.

Esta jóia do cinema teria custado aproximadamente US$ 12 milhões. Até o dia 15 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, o filme havia faturado pouco mais de US$ 9,2 milhões nas bilheterias. Na França, ele acumulou pouco mais de 9,5 milhões de euros até o dia 20 de novembro. Juntando as bilheterias mundo afora, certamente o filme se pagou e ainda dará lucro. E com a possibilidade de ganhar alguns Oscar’s, possivelmente ele ganhará ainda mais dinheiro. Um incentivo para a arte e para projetos ousados, sem dúvida.

Co-produzido pela França e pela Bélgica, The Artist foi todo filmado na Califórnia. Certamente para dar mais veracidade para a história.

Uma curiosidade sobre o cãozinho simpático que aparece no filme: na verdade, ele é “interpretado” por três cães da raça Jack Russell Terriers. São eles: Uggie, Dash e Dude. Mesmo que eles dividam o “personagem”, a maior parte das cenas foi “interpretada” por Uggie.

A casa de Peppy no filme foi, na verdade, a casa da atriz Mary Pickford. Para aumentar ainda mais a “aura” de fidelidade da história, durante o tempo de filmagens, o ator Jean Dujardin viveu de forma isolada em uma casa dos anos 1930 em Hollywood Hills.

Este é o primeiro filme com tantas cenas que lembram o cinema mudo que estreia nos cinemas desde que Silent Movie, de Mel Brooks, estreou em 1976.

The Artist conseguiu uma nota ótima entre os usuários do site IMDb: 8,5. Superior ao de um de seus grandes concorrentes este ano, The Descendants, que tem apenas um 7,9 (ainda assim, uma avaliação muito boa para os padrões do site). Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também se renderam à The Artist, dedicando 166 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,8 (nota esta excepcional, levando em conta as notas para outras produções).

Este é o primeiro filme do francês Michel Hazanavicius que eu assisto. Fiquei curiosa para ver outros trabalhos dele. Vi que ele estrou como diretor há 20 anos, com um curta-metragem. Depois, dirigiu dois filmes para a TV, duas séries para a telinha – uma delas, um documentário -, fez outro curta e estrou no longa com Mes Amis, de 1999. Depois, fez outros dois longas e, atualmente, trabalha na pós-produção de Les Infidèles, estrelado outra vez pelo genial Jean Dujardin, e ainda com Guillaume Canet, Mathilda May e Alexandra Lamy. Ele merece ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Não se fazem mais filmes como antigamente. Isso é verdade. Mas não quer dizer que seja algo ruim. The Artist ensina que o tempo passa. Que alguns valores e maneiras de encantar perduram. Mas que “o novo sempre vem” e que é preciso estar preparado para ele. A alta tecnologia, que permite criar realidades antes impossíveis de serem plasmadas na telona, e a imersão do público nas histórias são avanços que vieram para ficar. Ainda assim, a essência do cinema continua irretocada, e The Artist evidencia as qualidades primárias da Sétima Arte. Eis um filme delicioso, cheio de referências e homenagens, envolvente e simples. Como os grandes filmes do passado, mas lançado em 2011/2012. Para os amantes do cinema que já se aventuraram a assistir aos clássicos, será um deleite. Para os demais, quem sabe um convite bacana para olhar para o passado e aprender um pouco com ele? Independente da ótica com que se olhe para The Artist, ele merece os elogios que tem recebido. Ele lembra bastante Singin’in the Rain, é verdade. Mas se mostra mais ousado que o clássico do cinema por mostrar como a resistência ao novo pode mudar e limitar a realidade. Inteligente.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Difícil dizer, com certeza, o que será de The Artist no Oscar. Mas algo posso arriscar: este filme deve receber muitas indicações. Quantas delas ele ganhará? Isto sim, é um mistério. Vejo The Artist indicado como melhor filme, ator, roteiro original e trilha sonora. Com sorte, ele poderá ainda ser indicado nas categorias de melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor diretor, melhor figurino e melhor direção de arte.

Não assisti ainda aos outros concorrentes, principalmente a The Descendants, o outro grande vencedor do Globo de Ouro. Por isso, ainda fica difícil dizer se Clooney será o grande rei do próximo Oscar, levando os prêmios principais. O que eu já posso dizer é que se The Artist surpreender a todos e ganhar a maioria das estatuetas que disputar, não será nenhuma injustiça. O filme merece seus louros, e aplausos. Agora, o que falta é saber se Hollywood saberá ousar, mais uma vez, e render-se a um filme estrangeiro. Ou se continuará “bairrista”. Francamente, acho mais fácil ela seguir tradicional, apesar de todas as qualidades de The Artist.

ATUALIZAÇÃO (2/2): Bem, minha gente, agora já sabemos que The Artist foi indicado ao Oscar em 10 categorias. O segundo maior número de indicações do ano, apenas atrás das 11 chances de Hugo para sair vencedor da maior premiação do cinema de Hollywood no próximo dia 26.

Vale recaptular: The Artist foi indicado nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Jean Dujardin), melhor atriz coadjuvante (Bérénice Bejo), melhor roteiro original, melhor edição, melhor direção de fotografia, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor trilha sonora original.

De todas estas indicações, francamente, vejo que ele tem chances reais de ganhar nas categorias de melhor filme, melhor ator, melhor roteiro original, melhor diretor, melhor direção de arte, melhor trilha sonora e, quem sabe, melhor edição. Ainda que esteja fantástica, Bérénice Bejo tem um páreo duro para vencer: as intérpretes indicadas pelo filme The Help. Não seria injusto Bejo ganhar, mas acho difícil ela conseguir este feito. De qualquer forma, todo e qualquer prêmio que The Artist levar para casa será justo. E algum que ele perder, desde que não seja alguns dos principais, não será totalmente injusto também. Um exemplo: Dujardin merece ganhar como ator. Mas se Clooney levar a estatueta, não será nenhum crime. O galã de The Descendants está bem em seu filme.