Tomb Raider – Tomb Raider: A Origem

tomb-raider

Alguns filmes não conseguem fugir do óbvio. E pela proposta que eles têm, isso é meio que previsto. Esse é o caso de Tomb Raider, o novo filme sobre a personagem conhecida dos games e que retoma a origem de Lara Croft. Como um filme com esse perfil não terá exageros e “cenas impossíveis”? Como alguém que conhece a história da personagem não sentirá que está vendo, muitas vezes, trechos dos games na sua frente? Sim, Tom Raider é óbvio. Mas nem por isso ele deixa de ser um bom entretenimento.

A HISTÓRIA: Dia 17 de maio de 2009. Lord Richard Croft (Dominic West) conta a história de Himiko, uma “divindade” do Japão que ficou conhecida por usar magia negra e por matar exércitos com apenas um toque. Ela provocou muita desgraça, até que o seu próprio Exército a levou para uma ilha no Mar do Diabo para que ela fosse aprisionada lá. Mas Croft está obcecado em encontrá-la, e apenas lamenta ter que deixar a sua Lara para trás. Fim da animação que introduziu a lenda.

Em um ringue, Lara (Alicia Vikander) está dando o melhor de sim em um treinamento feroz. No fim, ela acaba sendo vencida. Falando com uma amiga, que diz que ela foi derrotada – ou massacrada -, Lara responde que não foi nada disso. O treinador lembra ela que ela está devendo, e que ninguém treina se não pagar. Saindo dali, Lara vai trabalhar como entregadora. Em uma entrega, fica sabendo de uma corrida de bikes. Como “lebre”, se ela escapar da perseguição, vai ganhar um dinheiro que lhe faz falta. Depois de se acidentar, ela é levada pela polícia, onde Ana Miller (Kristin Scott Thomas) lhe encontra. Em breve, a discussão sobre o pai de Lara a levará para locais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tomb Raider): Inicialmente, esse filme não teria muitos atrativos para me chamar a atenção. Mas, entre os filmes que estavam em cartaz na semana passada, esse me pareceu o segundo mais atrativo – o primeiro foi o recentemente comentado por aqui Aus Dem Nichts. Depois, veio Tomb Raider.

Eu conheço e já joguei alguma das aventuras da senhorita Lara Croft. Então sim, conheço a personagem na sua versão original, dos games. Depois, assisti ao primeiro – e possivelmente ao segundo, mas não tenho certeza – filme da personagem estrelado por Angelina Jolie. Então sim, a história de Croft não é uma novidade para mim.

Esse filme, acredito, pode ser analisado sob duas óticas distintas: de pessoas com eu, que já conhecem a história da personagem tanto nos games quanto nos filmes anteriores; e a de pessoas que não tem esse conhecimento. Para o primeiro grupo, o filme é de uma obviedade gritante. Sim, não há nada realmente novo em cena.

O que temos, então, para destacar da produção? A competência nos efeitos especiais, o começo da história realmente bem feito e os ótimos atores em cena – com destaque especial para Alicia Vikander, uma Lara Croft bem mais interessante que Angelina Jolie. Gostei da pegada inicial da produção, em especial. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons e a direção de Roar Uthaug rejuvenesceram a personagem.

Assim, especialmente a Lara Croft que vemos em cena no início da história, parece conversar muito bem com os jovens da atualidade. Ela procura fazer o seu “caminho por sua própria conta”, trabalha como entregadora, participa de um “racha” de bikes, treina em uma academia e tem todos os predicados para ser uma jovem mulher com opinião forte e a clareza do que deseja ou não para si. Ou seja, o perfil de garota tão em alta nos nossos dias.

Por isso, aquele começo de Tomb Raider me pareceu bastante interessante. Especialmente a direção ágil e atenta aos detalhes de Uthaug. Depois, o filme mergulha um pouco demais no estilo Indiana Jones. Em vários momentos eu me senti assistindo a um filme estrelado por Harrison Ford no papel do arqueologista mais famoso do cinema. Além disso, claro, há cenas de ação “absurdas”, mas que são bastante típicas da personagem nos games.

Agora, o filme também pode ser assistido sob aquela segunda ótica, de quem não está familiarizado com a personagem. Para esse grupo, Tomb Raider é um filme atraente, movimentado, que apresenta algumas ideias já conhecidas de “aventura com requintes de arqueologia” e, principalmente, a velha busca da autoafirmação e das “pazes” com os pais – nesse caso, com o pai, porque nunca ouvimos falar da mãe de Lara Croft.

Então sim, assistimos a uma velha fórmula da menina que busca a admiração do pai – que, não por acaso, é uma figura ausente mas que vive no imaginário da “eterna criança” como alguém sempre marcante. Essa busca de Lara pela figura paterna, é um dos motes principais da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim, ela encontra algumas respostas para as perguntas que tem, conhece um pouco mais de suas origens para, em seguida, e de forma muito rápida, ela logo romper o cordão umbilical.

Existe uma razão para isso acontecer. A personagem precisa ter aquela ausência do pai como uma motivação para os passos seguintes, assim como o compromisso de manter e preservar o legado do pai ausente. Tomb Raider foca na origem da personagem ao mesmo tempo que deixa claro que esta é apenas a primeira das muitas aventuras de Lara Croft.

O filme também apresenta uma “organização secreta” e que está espalhada por diversas partes do mundo. Ou seja, o típico elemento de “teoria da conspiração” que será importante para essa história despertar certo interesse no futuro. Tomb Raider, assim, cumpre bem o seu papel, seja por apresentar bem a personagem e as suas motivações originais como “aventureira”, seja por preservar boa parte da essência dos games.

Pena que Robertson-Dworet, Siddons e Uthaug tenham optado apenas por caminhos seguros e por referências que já conhecemos bem. Desta forma, eles tornaram Tomb Raider um filme seguro mas, ao mesmo tempo, nada ousado. Eles poderiam ter inovado mais, seja na forma, seja no conteúdo, para nos surpreender. Mas não.

Nada do que vemos em cena nos surpreende de fato. Apenas, talvez, a confirmação de algo que já suspeitávamos: que Alicia Vikander tem muito mais a ver com o papel do que outras atrizes que poderiam ter encarnado Lara Croft. Esse, ao menos, foi um belo acerto. Agora, é esperar os próximos filmes da grife para saber se alguém nos apresentará ao menos algo além do óbvio ou se seguiremos tendo “mais do mesmo” pela frente.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características desta produção, um elemento que Tomb Raider deveria ter de destaque são os efeitos especiais e visuais. E, de fato, o filme atende bem as expectativas nesses quesitos. Como em praticamente todos os outros quesitos desta produção, os profissionais envolvidos nesses aspectos fazem um bom trabalho, mas nada além do esperado – e nada próximo de algo excepcional. Assisti ao filme na versão 3D e, como tantas outras produções recentes nesse formato, Tomb Raider não aproveita ao máximo esse recurso. Ou seja, você não perderá grande coisa se assistir ao filme em 2D mesmo.

Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale então destacar os efeitos especiais que envolveram nove profissionais; a lista gigantesca que – chuto – deve ter contado com mais de 300 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais de Tomb Raider. Sem esses efeitos, certamente não teríamos um filme frente aos nossos olhos – grande parte da produção depende dos efeitos visuais e especiais.

Além desses elementos, vale destacar a direção de fotografia de George Richmond; a edição de Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick; a trilha sonora de Junkie XL; o design de produção de Gary Freeman; a direção de arte de Tom Brown, Anthony Caron-Delion, Claire Fleming, Simon Lamont, Tamara Marini, Tom Still e Alessandro TRoso; e os figurinos de Colleen Atwood e Timothy A. Wonsik; e a decoração de set de Raffaella Giovannetti e Maria Labuschagne.

Do elenco, o nome a destacar é realmente da atriz Alicia Vikander. Ela cai como uma luva para a personagem. Ela tem o estilo, o físico e a atitude perfeita para viver Lara Croft. Está muito bem em cena. Além dela, os destaques, pela importância dos personagens na história, são Dominic West como Lord Richard Croft, pai de Lara; Walton Goggins como Mathias Vogel, o chefe da missão escalada para encontrar a tumba de Himiko; Daniel Wu como Lu Ren, o piloto da embarcação que leva Lara para o seu desejado destino – e que acaba virando também o braço direito dela nessa missão; e Kristin Scott Thomas como uma esquisita Ana Miller, tipo de “gerentona” dos negócios do pai Croft.

Além deles, o veterano Derek Jacobi faz uma ponta como Mr. Yaffe, advogado da família Croft. Também vale citar a participação de Maisy De Freitas como a Lara Croft aos 7 anos de idade e de Emily Carey como a Lara aos 14 anos.

Tomb Raider estreou em première no dia 2 de março de 2018 em Berlim. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, o filme estreou no dia 15 de março.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Tomb Raider é baseado na “reinicialização” da saga de Lara Croft feita nos jogos e lançada em 2013.

A atriz Alicia Vikander fez um grande esforço físico nessa produção porque ela queria que a sua interpretação fosse a mais realista possível da personagem. Entre outros detalhes, ela realmente estrela todas as cenas de ação e que exigem esforço físico. A atriz também era fã da história de Lara Croft nos games.

Especialmente a crítica não gostou muito de Tomb Raider. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. O que, para os padrões do site, não está ruim. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 110 críticas positivas e 110 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 50% e uma nota média de 5,4. Os dois critérios são bastante baixos.

O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” de 48 para Tomb Raider, utilizando 53 críticas para chegar nessa média. O “user score” do site está um pouco melhor, registrando 6,7 de média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Tomb Raider teria custado cerca de US$ 94 milhões e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 41,7 milhões até o dia 16 de março. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele teria feito outros US$ 170 milhões. Ou seja, até o momento, teria faturado cerca de US$ 211,7 milhões. Está conseguindo pagar as contas, tanto de produção quanto de distribuição, mas não está conseguindo aquele resultado maravilhoso que os realizadores idealizaram, certamente.

Tomb Raider é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A história do surgimento da aventureira Lara Croft contada com alguns requintes de “modernidade”. Nesse filme, você não vai encontrar nada de original. Encontrará a essência da personagem, a sua origem, e lembrará, se tiver “bagagem” para isso, bastante dos filmes de Indiana Jones.

Se você conhece os games da personagem, também se sentirá em um deles, algumas vezes. No mais, tudo aquilo que já esperamos de um filme do gênero, mas com uma atriz que combina muito mais com o papel do que a anterior que encarnou o personagem. Um bom entretenimento, que só poderia ter aproveitado melhor o 3D para ficar um pouco melhor.

Anúncios

E o Oscar 2016 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

Preparations continue Wednesday February 24, 2016 for the 88th Oscars® for outstanding film achievements of 2015 which will be presented on Sunday, February 28, 2016 at the Dolby® Theatre and televised live by the ABC Television Network.

 

Chegou a hora, minha gente!

Depois de ter o Oscar no horizonte nos últimos meses – quem acompanha o blog sabe que desde o final de 2015 este é o tema predominante no Crítica (non)Sense da 7Arte -, hoje finalmente vamos ter as nossas dúvidas respondidas.

Afinal, The Revenant vai mesmo levar o prêmio principal? Depois de ficar chupando dedo em cinco premiações do Oscar, desta vez Leonardo DiCaprio vai conseguir uma estatueta para a sua estante? As principais previsões serão confirmadas ou teremos alguma zebra pelo caminho?

O Oscar é fascinante antes da premiação e no dia da entrega das estatuetas. A diversão anterior é garantida pela lista de indicados. E neste sentido o Oscar 2016 é especial. Há muitos filmes bons que vão ganhar poucos prêmios e outros que vão sair de mãos vazias mas que merecem ser vistos. Nesta matéria que produzi para o jornal Notícias do Dia comento sobre isso, além de trazer a lista completa dos favoritos segundo as bolsas de apostas e a lista de filmes que eu acho que mereciam ganhar nas principais categorias.

Como eu comentei no texto para o jornal, o Oscar 2016 tem uma lista boa de indicados. Claro que sempre tem algum filme supervalorizado – neste sentido vejo Bridge of Spies e Steve Jobs, por exemplo. Mas a maioria dos filmes merece ser visto. Recomendo, em especial, os filmes indicados em Melhor Documentário e Melhor Filme em Língua Estrangeira, além de outras produções indicadas nas categorias principais. A seleção está boa este ano.

88th Oscars®, Nominees Luncheon,Mantendo a tradição dos últimos anos, vou começar a cobertura algum tempo antes da premiação começar. A ideia é acompanhar as melhores entrevistas no tapete vermelho. Vejamos quem aparece. Antes de falar de quem está desfilando em Hollywood, contudo, vale fazer um pequeno comentário: será que estes dois aí da foto vão conseguir a sua primeira estatueta esta noite?

Se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood manter a ordem de apresentação dos prêmios do ano passado, Sylvester Stallone será o primeiro dos dois a conquistar a desejada estatueta dourada. Leonardo DiCaprio, por outro lado, terá que esperar quase até o final da cerimônia – normalmente a categoria Melhor Ator é a penúltima a ser entregue. Até lá, certamente, ele terá que ouvir um monte de piadas sobre estar na fila para o Oscar. Logo saberemos. 😉

Este é o nono Oscar que eu acompanho aqui pelo blog – no ano passado, na verdade, além do texto aqui no site eu acompanhei a premiação pelo site do Notícias do Dia. Este ano vou fazer o mesmo. Agora, faltando praticamente uma hora e meia para a cerimônia apresentada pelo ator Chris Rock começar, o tapete vermelho no Dolby Theatre at Hollywood & Highland Center em Hollywood começa a ficar mais agitado. O canal E! está desde o meio da tarde fazendo a contagem regressiva para a premiação, mas o tapete vermelho começou a ficar interessante há pouco tempo.

A atriz Alicia Vikander, favoritíssima ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por The Danish Girl comentou sobre o teste para o papel. Ela disse que foi uma das melhores experiências que já teve como atriz porque eles ficaram conversando por muito tempo e testando a química com Eddie Redmayne. Alicia disse que está super nervosa e que acha a situação de estar no Oscar muito surreal.

Muito simpática, honesta e humilde. Sem dúvida alguma estou torcendo muito por ela. Será merecido levar o Oscar pelo ótimo trabalho em The Danish Girl. E para completar ela está usando um lindo vestido amarelo da marca Louis Vuitton. Já concorre à lista de uma das mais bonitas da noite.

room1Agora em cena no tapete vermelho o talentosíssimo Jacob Tremblay, astro de Room junto com Brie Larson. Os dois estão ótimos no filme que, aliás, é um dos melhores do Oscar 2016.

Na entrevista para o E! o garoto deu um show. Brincou que estava vendo muitas pernas por ali. Comentou que vai torcer pela colega de cena, Brie Larson, e que deu um soco de brincadeira no Sylvester Stallone porque ele tirou o lugar dele na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Figuraça! E ele tem razão. Sem dúvida alguma merecia ter sido indicado ao Oscar este ano.

A exemplo de Black Swan no Oscar 2011, neste ano a minha torcida é toda para Room. Para mim, os dois filmes foram os mais surpreendentes em seus respectivos anos. Mesmo concorrendo a Melhor Filme, é claro que Room não tem chances neste ano. Mas ganhando em Melhor Atriz e em qualquer outra categoria já será uma alegria.

Vale lembrar que The Revenant é o filme mais indicado da noite, concorrendo em 12 categorias. Em seguida aparece o filme Mad Max: Fury Road, com 10 indicações; The Martian, com sete; Spotlight empatado com Carol e Bridge of Spies com seis; e The Big Short e Star Wars: The Force Awakens com cinco indicações cada.

Em número de estatuetas os destaques devem ser The Revenant e Mad Max: Fury Road – o primeiro ganhando várias das categorias principais e, o segundo, boa parte das categorias técnicas. Se algo acontecer além disso, será surpreendente.

Importante destacar também o filme O Menino e o Mundo. A produção brasileira dirigida por Alê Abreu marca a primeira indicação do Brasil para a categoria Melhor Animação. Vale torcer por ele, ainda que o favoritíssimo Inside Out deve levar a estatueta para casa.

A atriz Olivia Wilde aparece no tapete vermelho e comenta o curta Body Team 12 que ela produz e que está concorrendo na categoria Melhor Curta Documentário. Infelizmente nenhum dos concorrentes está disponível na internet, mas pelo trailer do filme, que trata de um grupo de pessoas que trabalhou recolhendo corpos vitimados pelo ebola, o curta parece ser uma baita produção. É considera a favorita na sua categoria na noite – ainda que a disputa está boa em Melhor Curta Documentário.

Faltando quase uma hora para a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood começar, fechei a votação aqui no blog sobre o filme que será consagrado esta noite. Obrigada por cada um dos votos, meus bons leitores e leitoras. 😉

therevenant1O favorito dos leitores aqui do blog é o filme The Revenant, com 34,23% dos votos. Em seguida aparecem Mad Max: Fury Road, com 19,82%; Room, com 17,12%; e Spotlight com 16,22%. Bacana. Muito bons os palpites.

No tapete vermelho, a atriz Saoirse Ronan fala sobre Brooklyn. Ela está linda e parece muito mais adulta do que ela tem aparecido no cinema – inclusive neste filme que lhe rendeu a sua segunda indicação ao Oscar. Para o Oscar ela vestiu um vestido Calvin Klein Collection.

Em cena o grande Eddie Redmayne, que está mais uma vez ótimo em The Danish Girl. Super elegante, como sempre, ele comenta sobre a preparação para o filme. “As pessoas foram muito generosas”, comenta Redmayne sobre a busca por mais informações e o laboratório que ele fez com transgêneros e com mulheres de diversos perfis. Ele sim é generoso. Inclusive porque elogiou muito Alicia Vikander, sua parceira de cena. Redmayne veste Alexander McQueen.

As atrizes Brie Larson e Rooney Mara estão lindíssimas. Certamente estarão também na lista das mais bonitas da noite. Não por acaso a cerimônia do Oscar interessa a tanta gente. De fato os astros e estrelas  de Hollywood capricham no visual – e movimentam as principais marcas de alta costura do mercado.

Agora no tapete vermelho do Oscar a ótima Brie Larson. Ela comenta que ser indicada ao Oscar é o ponto máximo da carreira de qualquer atriz e que desde criança ela sonhava com isso. Ela brinca que em premiações como o Oscar e o Golden Globes o pessoal passa fome antes, mas que ela viu as fotos dos quitutes deste ano e está louca para atacar os sanduíches e os Oscar’s de chocolate. Brie está usando um vestido Gucci azul belíssimo.

A transmissão do tapete vermelho do E! terminou e agora a bola passa para o canal TNT. Em cena agora Matt Damon, indicado a Melhor Ator por The Martian. Ele comenta que é fabuloso como o filme atinge a espectadores de várias idades. “Foi uma das experiências mais prazerosas que eu já tive”, comenta Matt Damon sobre trabalhar com Ridley Scott, diretor de The Martian. Um pouco irônico, ele brinca que não foi como fazer The Revenant – o filme de Alejandro González Iñarritu foi muito complicado de ser realizado, inclusive nos bastidores.

A atriz Julianne Moore, vencedora como Melhor Atriz no ano passado, aparece linda no tapete vermelho e comenta sobre a emoção do público com Sylvester Stallone. Julianne comenta que ele foi muito generoso com ela quando ela começou a carreira. Entre os filmes que a emocionaram neste ano ela cita Room.

Pessoal, a partir de agora começo a fazer a cobertura pelo Twitter do jornal Notícias do Dia. Acompanhem a hashtag #NDnoOscar. Também dá para acompanhar todas as atualizações pelo site do jornal.

 

88th Oscars®, Academy Awards, TelecastFinalizada a cobertura do Oscar pelo Notícias do Dia, volto aqui para o blog. Gostei da premiação deste ano. Tivemos quase todas as surpresas nos lugares certos, muitos discursos políticos adequados e uma velocidade um pouco maior na apresentação das diferentes categorias. No geral, eu gostei. Também por Spotlight levar o prêmio principal da noite, por Room ter consagrado Brie Larson e por ver DiCaprio finalmente ganhando uma estatueta. Um dos pontos altos da noite e fato que já entra para a história foi a consagração mais que merecida de Ennio Morricone.

Agradeço a quem acompanhou a cobertura da noite inicialmente por aqui e, depois, pelo Twitter do ND. Aproveito para reproduzir por aqui o texto de resumo da premiação que eu fiz para o jornal. Buenas noches y hasta la vista!

 

Em uma noite carregada de discursos políticos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood promoveu a entrega do Oscar em Hollywood. Como esperado, Mad Max: Estrada da Fúria conquistou quase todos os prêmios técnicos, somando seis estatuetas no total, enquanto Spotlight: Segredos Revelados foi consagrado como o Melhor Filme. O Regresso, apontado por muitos como o favorito para Melhor Filme, venceu em Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Fotografia.

Durante quase toda a noite o Oscar apresentado por Chris Rock debateu o racismo e a falta de indicados negros na premiação. O vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden fez uma aparição diferenciada para chamar a atenção para o problema da violência contra as mulheres e chamou ao palco Lady Gaga. Apesar de ser a favorita na categoria Melhor Canção Original, a artista perdeu o Oscar para a canção de Sam Smith. Ele, ao subir para fazer o discurso de agradecimento, levantou o terceiro tema relevante da noite: o respeito a gays e lésbicas.

Fechando a lista de discursos políticos, o diretor Alejandro González Inãrritu pediu para as pessoas encararem a cor da pele como algo irrelevante, já que todos são iguais, e o ator Leonardo DiCaprio pediu para que as pessoas tenham mais cuidado com o mundo e com a Natureza. “Não vamos ignorar o planeta e não vamos ignorar esta noite”, finalizou DiCaprio. O brasileiro Alê Abreu, indicado com O Menino e o Mundo na categoria Melhor Animação, perdeu a estatueta para o favorito Divertida Mente.

 

Confira, a seguir, a lista de todos os premiados no Oscar 2016:

– Melhor Filme: Spotlight

– Melhor Diretor: Alejandro González Iñarritu, por The Revenant

– Melhor Ator: Leonardo DiCaprio, por The Revenant

– Melhor Atriz: Brie Larson, por Room

– Melhor Ator Coadjuvante: Mark Rylance, por Bridge of Spies

– Melhor Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, por The Danish Girl

– Melhor Documentário: Amy

– Melhor Filme em Língua Estrangeira: Son of Saul

– Melhor Animação: Inside Out

– Melhor Roteiro Adaptado: The Big Short

– Melhor Roteiro Original: Spotlight

– Melhor Edição: Mad Max: Fury Road

– Melhores Efeitos Visuais: Ex Machina

– Melhor Fotografia: The Revenant

– Melhor Edição de Som: Mad Max: Fury Road

– Melhor Mixagem de Som: Mad Max: Fury Road

– Melhor Trilha Sonora: The Eight Hateful

– Melhor Maquiagem e Cabelo: Mad Max: Fury Road

– Melhor Design de Produção: Mad Max: Fury Road

– Melhor Figurino: Mad Max: Fury Road

– Melhor Canção Original: “Writing’s On the Wall”, do filme Spectre

– Melhor Curta: Stutterer

– Melhor Curta Documentário: A Girl in the River: The Price of Forgiveness

– Melhor Curta de Animação: Bear Story

 

E vale dar a foto história de Spotlight vencendo como Melhor Filme:

88th Oscars®, Academy Awards, Telecast

Ex Machina – Ex_Machina: Instinto Artificial

exmachina1

Desde que o homem se imagina sendo Deus pensamos como será quando as máquinas pensarem por si mesmas. Quando elas tiverem o controle. Antes veio 2001: A Space Odyssey e Blade Runner, divisores de água neste sentido. E agora vem se juntar a eles este Ex Machina. Provocador em outro sentido, menos sombrio mas com uma boas surpresas no caminho, este filme é mais uma produção acertada que o Oscar selecionou para estar entre os seus indicados neste ano.

A HISTÓRIA: Em uma empresa em que todos estão conectados, Caleb (Domhnall Gleeson) recebe a mensagem de que ele foi sorteado com o primeior prêmio. Na sequência ele manda uma mensagem para Andy T avisando que ele ganhou o prêmio. O amigo pede para ir junto com ele e, na sequência, várias pessoas cumprimentam Caleb pela conquista. Corta.

Um helicóptero rasga uma área de montanhas geladas. Caleb pergunta quando eles vão chegar na propriedade de seu chefe, Nathan (Oscar Isaac). O piloto ri e diz que eles já estão sobrevoando a propriedade há duas horas. Caleb desce e tem que andar até a casa de Nathan, com alta segurança. Lá ele vai conhecer Ava (Alicia Vikander), o mais recente experimento de Nathan e a consolidação de uma AI (Inteligência Artificial da sigla em inglês) humanoide pra valer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ex Machina): Não é uma tarefa exatamente simples fazer um filme de AI (Inteligência Artificial). Especialmente porque já temos ótimos filmes do gênero, inclusive os super clássicos 2001 e Blade Runner já citados. Apesar disso, Ex Machina assumiu este desafio e consegue um bom resultado com o que ele se propôs a fazer.

Ex Machina tem alguns diferenciais importantes em relação aos filmes anteriores. Ele acerta em apostar em um viés mais psicológico e conceitual, além de acrescentar algumas colheradas de apelo sexual na história. O caráter psicológico marcou 2001 e uma pitada de provocação sexual podemos encontrar em Blade Runner, mas sem dúvida alguma Ex Machina explora mais estes dois pontos – nos outros filmes há outras questões importantes em cena.

Mesmo não sendo muito inovador, Ex Machina introduz o tema dos “riscos” que a AI pode trazer para quem se arriscar a ser Deus para uma nova geração. Entendo porque muitos espectadores sem as referências anteriores devem ter ficado maravilhados com esse filme. Mas quem já assistiu aos clássicos, certamente, terá outra impressão. Menos eufórica e mais embasada. Ainda assim, preciso admitir, esse filme tem mais acertos que erros.

Para começar, gostei da atmosfera criada pelo diretor e roteirista Alex Garland. O clima de suspense começa a ser criado logo no início, especialmente na chegada do protagonista na “terra prometida” do seu chefe e ídolo. Todo aquele excesso de segurança, claro, esconde algo sinistro. Inicialmente Garland vende, acertadamente para o desenrolar da história, a ideia que aquele aparato todo é porque o empresário Nathan é um grande desconfiado.

Rico, famoso, ele está se preservando de problemas – como sequestros – e, principalmente, de ter os seus avanços tecnológicos “vazados”. Como pede a regra do bom cinema, o roteiro de Ex Machina vai crescendo com o tempo. Nos primeiros dias do teste que Caleb aplica em Ava o “gelo” vai sendo quebrado e a interação mais íntima entre os dois começa a ganhar corpo. Em paralelo, temos a perda de energia estranha do local – não demora muito para o espectador desconfiar sobre a fonte daqueles acontecimentos.

A conversa entre Caleb e Ava segue o roteiro esperado, até que ela larga algumas frases bem estranhas quando mais um blecaute acontece – neste momento as gravações e o monitoramento feito por Nathan acabam sendo interrompidos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A quebra da previsibilidade na conversa de Caleb e Ava é muito bem feita mas, cá entre nós, é difícil de acreditar que um cara tão controlador e metódico quanto Nathan aceitaria ficar tanto tempo sem ouvir tudo que os dois falavam, ou não?

Neurótico pela segurança e pelo próprio experimento, sem dúvida alguma Nathan não aceitaria facilmente ficar no “blecaute” tantas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, na última pequena reviravolta do roteiro, Nathan comenta que instalou um sistema para registrar tudo independente dos blecautes. Só não fez muito sentido ele demorar tanto para fazer isso. Claro, para o roteiro de Garland foi importante isso acontecer apenas no final, mas é difícil acreditar que Nathan realmente daria tanta bobeira durante vários dias.

Depois das dicas de Ava, Caleb começa a observar tudo com uma dupla atenção. Em certo momento ele percebe que Nathan realmente tem um comportamento estranho. Na verdade, para o espectador um pouco mais atento, essa desconfiança está presente desde o início. Afinal, quem está sempre mergulhado em bebida tem que estar enfrentando algum problema sério, ou não? O problema pode ser transitório ou mais grave. A resposta para esta dúvida o espectador terá com o tempo – ao lado de Caleb.

Pouco a pouco o tom sinistro vai ganhando espaço e Caleb nos guia pela mente de Nathan. Afinal, tudo gira em torno do anfitrião do programador e criador de Ava. Mas a pessoa que dá um baile em todo mundo é a ciborgue – como manda o figurino do gênero, aliás. Até aí, nenhuma inovação. Os maiores acertos do filme estão mesmo no jogo psicológico entre os personagens – Nathan, Caleb e Ava – e na atuação provocativa de Alicia Vikander.

A atratividade da personagem, cuidadosamente planejada por Nathan, é um elemento provocador importante para a história. Finalizando os ganhos do filme, vale comentar a forma com que ele segue uma nova linha de produções que mostram as mulheres dando a volta por cima.

Vimos isso antes de forma marcante com Mad Max: Fury Road (comentado aqui). Depois veio Carol (com crítica neste link), Room (uma das grandes surpresas do Oscar, comentado aqui), Mustang (comentado neste link) e, agora, Ex Machina. Várias produções apostam as suas fichas na “libertação” feminina. Uma onda positiva que, esperamos, não seja apenas “modinha”. Ex Machina vem nesta levada sendo provocativo, sexy, psicológico e com a pitada adequada de suspense e esquisitice.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos elementos contribuem para este filme funcionar bem. Sem dúvida alguma uma das qualidades é o roteiro de Alex Garland que, descontados os pequenos erros, tem o ritmo adequado e as pequenas viradas de direção nos momentos certos. A direção dele também é bem competente, sempre próxima dos atores e da ação, distanciando-se apenas nos momentos em que isso interessa para a história.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma os grandes destaques são o design de produção de Mark Didby; a direção de arte de Katrina Mackay e Denis Schnegg; a decoração de set de Michelle Day; o departamento de arte com 43 profissionais; o departamento de efeitos especiais com 11 profissionais e os efeitos visuais envolvendo nada menos que 148 profissionais. Destes filmes que empregaram muita gente nos bastidores e que exigiu muito trabalho além das câmeras.

Apesar de ser um bom roteiro, três pontos me incomodaram nesta produção. Vejamos. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Para começar, aquele ponto que citei na crítica: dificilmente o genial e um tanto neurótico por segurança e controle Nathan deixaria de ouvir as conversas durante os blecautes entre Caleb e Ava por tantos dias. Depois, segundo Caleb, ele havia invertido a lógica da segurança da casa quando os blecautes aconteciam. Quando Ava sai do local, aparentemente, a casa passa por novo blecaute. Segundo Caleb, naquele momento, as portas não deveriam todas abrir? Neste caso ele poderia sair do local tranquilamente. O terceiro ponto é a falha temporal da história. Quando Caleb e Nathan estão conversando, na cozinha, o dono da casa comenta que Caleb irá embora no dia seguinte às 8h. Aparentemente, logo depois, Nathan mostra que estava ouvindo as conversas entre Caleb e Ava mesmo nos blecautes, e toda a sequência seguinte se desenrola. Mas quando Ava sai da casa ainda é dia e ela logo vai pegar o helicóptero… é como se toda essa ação tivesse acontecido muito cedo na manhã da saída de Caleb. Mas não é isso que o roteiro nos apresenta. Teríamos dois dias diferentes para acompanhar – desde a fala de Caleb e Nathan e até a “manhã seguinte” em que Ava escapa. Ou seja, uma bela falha temporal na história. Descuido do roteirista.

Outros aspectos técnicos que valem ser citados é a trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salisbury; a direção de fotografia de Rob Hardy e a edição de Mark Day.

Como protagonista deste filme Domhnall Gleeson mostra, mais uma vez, que é um ator a quem devemos estar atentos. Ele sempre se sai bem em seus papéis e, parece, está em rota crescente de boas produções. O mesmo se pode dizer de Alicia Vikander que, ao que tudo indicada, deve levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante este ano por The Danish Girl (com crítica neste link). São dois jovens talentos em ascensão e que merecem ser acompanhados. Normalmente o ator Oscar Isaac não me chama muito a atenção. Mas admito que neste filme ele está muito bem. Possivelmente é o melhor filme que eu vi dele até agora.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho de Sonoya Mizuno como Kyoko. Ela literalmente faz um papel mudo, mas tem bastante expressão e momentos feitos para ela se destacar.

Ex Machina estreou em janeiro de 2015 no Reino Unido, na Coreia do Sul, na Irlanda e na Suécia. No final daquele mês ele participou do primeiro festival, o de Göteborg. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Em sua trajetória o filme acumulou 51 prêmios e foi indicado a outros 114 – um número impressionante. Entre as indicações estão duas para o Oscar 2016.

Esta é uma produção que teria custado US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 25,4 milhões. No restante dos mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 11,4 milhões. Ou seja, tem conseguido se pagar.

Boa parte de Ex Machina foi rodado na Noruega, mas houve cenas também rodadas no Reino Unido, nas cidades de Londres e Buckinghamshire.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Independente Britânico, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhores Efeitos Visuais no British Independent Film Awards; e a escolha dele para figura na lista dos 10 melhores filmes independentes do ano pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Na visão do diretor Alex Garland o futuro de Ex Machina está a apenas “10 minutos” de distância da realidade que temos agora. “Se alguém como o Google ou a Apple anunciar amanhã que eles tinham feito a Ava, todos ficariam surpreendidos, mas eu não ficaria tão surpreso”, comentou.

O título é um derivado da expressão “Deus Ex-Machina”, que significa “um Deus para a máquina”, uma frase que tem origem nas tragédias gregas. Segundo a história original um ator interpretando Deus desceria por uma plataforma (a máquina) para resolver os problemas dos personagens, o que resultaria em um final feliz para todos.

Não comentei antes, mas o filme acerta em fazer diversas referências interessantes, que vão de Pollock até Robert Oppenheimer e o seu livro Prometheus Americano. A fala de Nathan pouco antes de dormir bêbado é um trecho de Gita que foi citado por Oppenheimer antes dos testes com explosivos que ele estava fazendo falhou.

Os três personagens principais deste filme tem os seus nomes inspirados em personagens da Bíblia – nada mais apropriado para um filme que trata dos riscos do homem querer tornar-se Deus. Ava é, claramente, uma alusão à Eva; Nathan era um profeta do tempo de Davi; e Caleb foi um emissário de Moisés para avaliar a Terra Prometida.

Outras referências interessantes no filme são um retrato de Margaret Stonborough-Wittgenstein pintada pelo artista Gustav Klimt no quarto de Nathan – Margaret era irmã de Ludwig Wittgenstein, autor de The Blue Book, mesmo nome do motor de busca criado por Nathan segundo a história de Ex Machina; e uma pintura de Ticiano que aparece do lado esquerdo na parede cheia de post-its de Nathan – a obra intitulada A Alegoria da Prudência tem três cabeças em três animais que podem ser interpretados pelos conceitos de memória, inteligência e perspicácia.

Este filme marca a estreia na direção de longas de Alex Garland. Sem dúvida nenhuma uma grande estreia!

Ex Machina seria uma releitura moderna da última peça de William Shakespeare, A Tempestade, na qual existe um “mestre mágico” no domínio da situação, a sua bela pseudo-filha que nunca havia conhecido outro homem além do “pai” e um homem jovem que acaba sendo ferido por ela.

Durante o filme as cores verde, vermelha e azul são valorizadas – o verde na floresta e nas plantas; o vermelho nos blecautes e o azul no teclado do sistema de segurança, por exemplo. Esta é uma referência para o padrão RGB utilizado para exibir imagens nos sistemas eletrônicos.

Agora, hora das curiosidades com SPOILER (não leia… bem, você já sabe). No final do filme aparece Sessão 7 – Ava, ainda que Caleb não esteja mais administrando o Teste de Turing e que Nathan seja morto. Essa parte dá a entender que no fim das contas quem estava aplicando o teste nos dois era Ava. Em certo momento Nathan provoco Caleb a pensar em uma cena da Jornada nas Estrelas. De fato Ex Machina se parece muito com Star Trek: Requiem for Methuselah, de 1969, episódio em que um gênio inventor cria um androide feminino e coloca o capitão Kirk como catalisador de uma experiência para descobrir se a androide poderia amar. Tanto o episódio de Star Trek quanto Ex Machina tem cenas em que aparecem vários robôs parcialmente inativos.

Quando está apenas como máquina, Ava não pisca. Ela só dá as primeiras piscadas quando veste a pele de outra androide e, com isso, termina de “construir-se” como mulher.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 206 críticas positivas e apenas 17 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 8.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Apesar de ter sido bem elogiado e bastante premiado, Ex Machina foi praticamente ignorado no Globo de Ouro 2016. Praticamente, eu digo, porque ele acabou rendendo uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante para Alicia Vikander – ela perdeu para Kate Winslet. Menos mal que o Oscar fez mais jus ao filme e o indicou em duas categorias.

CONCLUSÃO: Um filme competente em sua proposta. A história vai crescendo conforme mergulhamos junto com o protagonista na relação com Eva. Há um par de quase-reviravoltas na história, e isso faz Ex Machina cair no gosto de quem gosta de ser surpreendido. E ainda que este seja um filme que caminha ao lado de outras produções que contam uma certa “revolução feminina”, ele não apresenta, realmente, um grande avanço no gênero. Apesar de ser competente, ele não tem o impacto para o público atual que antes os clássicos da Inteligência Artificial – os já citados 2001 e Blade Runner – tiveram para os seus públicos. É bom, vale ser conferido, mas não é genial.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Ex Machina está concorrendo em duas categorias do maior prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que será entregue na noite deste próximo domingo, dia 28 de fevereiro. O filme concorre como Melhor Roteiro Original e como Melhores Efeitos Visuais. Sem dúvida alguma merecidas as duas indicações, ainda que eu tenha algumas ressalvas quanto à primeira indicação. Se bem que, devemos admitir, este ano está mais fraco em termos de Roteiro Original.

Ex Machina tem boas sacadas no roteiro, como eu comentei na crítica acima. Mas ele não consegue ir tão além no subgênero da AI a ponto de reinventar a roda. Ou seja, Ex Machina até ajuda a refrescar os filmes de inteligência artificial, ganha pontos na escolha de um texto mais psicológico e com provocação sexual, mas não chega a deixar o espectador maravilhado. Ainda assim, é bem conduzido e tem as surpresas desejadas no roteiro. Sendo assim, merece chegar entre os cinco finalistas em Melhor Roteiro Original.

Sobre ganhar… francamente prefiro o roteiro de Spotlight (comentado por aqui). E sobre originalidade, acho que até Inside Out (com crítica neste link) é mais original que Ex Machina – levando em conta os filmes anteriores dos dois gêneros. Sendo assim, acho que ele não deve levar esta estatueta – eu consideraria um pouco de zebra se isso acontecesse. Acredito que Spotlight será premiado nesta categoria.

Analisando a outra categoria, Melhores Efeitos Visuais, Ex Machina também mereceu a indicação. Não assisti a Star Wars: The Force Awakens, mas há outros três grandes concorrentes na disputa: The Martian (com crítica por aqui), The Revenant (comentado neste link) e, principalmente, Mad Max: Fury Road. Francamente, na maior parte das quedas-de-braço entre Star Wars: The Force Awakens e Mad Max: Fury Road eu acredito que dará o segundo. Neste caso, desconfio, Mad Max vai faturar. Um segundo possível vencedor seja The Martian – o filme merecia, mais que os outros quatro.

Para resumir, em Melhores Efeitos Visuais Mad Max: Fury Road é o grande favorito, mas The Martian pode faturar. Ex Machina ganharia apenas se tiver bom lobby e para não sair de mãos vazias – o que eu acho ser o resultado mais provável.

The Danish Girl – A Garota Dinamarquesa

thedanishgirl3

Esse filme será difícil de ser assistido por alguns, será uma verdadeira revelação para outros e, para um terceiro grupo, ele pode parecer uma redenção. Tudo vai depender sob que ótica você irá assistir a The Danish Girl. Da minha parte, ele foi difícil de ser visto, ao mesmo tempo que ele foi um eficaz cartão de visitas para uma realidade até agora desconhecida. Com atores de primeiríssima linha, especialmente com mais uma atuação inspirada de Eddie Redmayne, The Danish Girl se revela um filme necessário. Especialmente para ajudar a quebrar preconceitos ainda existentes.

A HISTÓRIA: Um conjunto de belas paisagens. Elas servem de inspiração para Einar Wegener (Eddie Redmayne). Gerda (Alicia Vikander), mulher dele, observa um de seus quadros. Perto dela, Einar é paparicado pela forma com que ele retrata Vejle. Os dois se olham, enquanto o agente dele, Rasmussen (Adrian Schiller) tenta exaltar o talento do artista. Essa história começa em Copenhagen em 1926. No dia seguinte Gerda acorda Einar, que a chama para a cama novamente. O casal de artistas é uma inspiração, ainda que eles tenham apelos muito diferentes. Em breve, contudo, Einar deixará aflorar a verdade sobre si mesmo, o que vai mudar a vida do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Danish Girl): Este filme não é fácil de ser visto. Pelo menos pela maioria das pessoas, eu aposto. Para mim não foi fácil. Primeiro porque é sempre duro ver o sofrimento alheio. E em The Danish Girl há bastante sofrimento. Mas ele não é tudo nesta história, é claro. Neste filme também há muito amor e a busca pela própria verdade. Ainda que esta verdade seja dura de aceitar, algumas vezes.

Serei franca em dizer que este filme mexeu com os meus preconceitos – ou com a minha dificuldade de entender o que é diferente de mim. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Assistindo a The Danish Girl percebi que é muito mais simples entender um homem que se apaixona por um homem e uma mulher que se apaixona por uma mulher do que me colocar no lugar de quem não aceita o próprio corpo e faz cirurgias arriscadas para ter o outro sexo – que, evidentemente, é o que ele entende como sendo o seu.

Em outras palavras, para mim foi muito mais simples me identificar com Gerda do que com Einar/Lili. E neste ponto reside uma das belezas desta produção com roteiro de Lucinda Coxon baseado no livro de David Ebershoff. Ela provoca quem não compartilha com a visão de mundo e de realidade de Lili a conhecer mais de perto a intimidade dos transexuais/transgêneros.

Agora, o contato não é delicado. Pelo contrário. Não estamos do lado de fora, conhecendo a mudança de Einar para Lili como simples espectadores. Estamos dentro do quarto do casal Gerda e Einar. “Estamos” presentes no estúdio em que Gerda está trabalhando no retrato da amiga do casal, Ulla (Amber Heard), quando a modelo se atrasa e ela pede para o marido vestir as meias e a sapatilha para se passar pela amiga, momento em que Einar sente a sua verdadeira identidade começar a aflorar.

O filme não demora para mostra esta ruptura na vida do casal e a evolução deste quadro. Ainda assim, temos tempo de conhecer um Einar antes da mudança. Ele era um artista talentoso e sensível, se vestia bem e não tinha, aparentemente, nenhuma atração por homens ou vontade de se passar por mulher. Pelo menos até aceitar a provocação de Gerda e se vestir como mulher para acompanhá-la em mais um dos eventos chatos com artista que ele odiava.

Inicialmente eles pareciam estar apenas brincando e “jogando”. Afinal, no início, Einar continuava atraído pela esposa. Mas conforme ele foi dando espaço para Lili, tudo começou a mudar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma maravilhosa o grande ator Eddie Redmayne foi deixando claro que Einar se sentia muito mais vivo e “inteiro” sendo Lili. Não demorou muito para que ele só quisesse dar espaço para ela – e para que Einar praticamente desaparecesse.

A beleza de The Danish Girl é nos mostrar essa autodescoberta de Einar como Lili com muita franqueza. Mas a honestidade não torna tudo mais simples. De qualquer forma, para quem nunca tinha realmente se interessado ou tido a oportunidade de se colocar na ótica de um transgênero, este filme é um verdadeiro achado. Em The Danish Girl fica muito evidente o que se passa com um homem que passou uma parte considerável da vida escondendo o que realmente sentia sobre si mesmo e que, em determinado momento, resolve ser verdadeiro consigo mesmo.

A descoberta e a transição são dolorosas. Ainda assim, em diversos momentos, dá para perceber a liberdade e a alegria que Einar sente ao caminhar naquela direção de se assumir. Isso tudo é verdade e um desafio para quem não é transgênero. Me colocando no lugar deles, também entendo que este filme seja uma verdadeira redenção e uma inspiração. Mas serei franca em dizer que me coloquei demais no lugar de Gerda. Impossível não ficar assustada, como ela, com a primeira noite em que Lili saiu de casa e com o que viria depois.

A interpretação de Alicia Vikander é perfeita neste sentido. Ela fica assustada com as mudanças pelas quais passa Einar. Até porque ela não demora muito para perceber que, finalmente, ela está conhecendo de verdade a pessoa com quem ela se casou. Na medida em que a verdade não consegue mais ser escondida, o casal passa por um doloroso processo de aceitação e de mudança. Não tem como não sentir a dor de Gerda ao ver que ela está perdendo o seu marido.

Daí também, serei franca, um pouco da minha dificuldade também de entender Einar/Lili. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como até ele experimentar as roupas e se sentir uma mulher ele tinha tanta atração e parecia apaixonado por Gerda? Entendo quem faça isso para “acobertar” a própria identidade enquanto tem uma vida dupla, por pressão social, mas alguém que parece realmente eliminar parte fundamental da própria identidade e viver uma outra persona por tanto tempo me parece algo incrível. Sei que os psicólogos podem explicar e que o fato da história se passar nos anos 1920 ajuda nesta explicação, mas ainda assim me parece incrível.

Por causa disso Gerda acredita que se casou com uma certa pessoa e que a conhecia, mas não. E o processo de descoberta de Einar e de Gerda é complicado. Primeiro ele mesmo parece não entender pelo que está passando. Muito menos ela. No início, me incomodou também o fato dele não ter coragem de falar a verdade para Gerda e sair escondido para se encontrar com Henrik (Ben Whishaw). Sempre sou à favor das pessoas jogarem aberto. A verdade deveria prevalecer. Bueno, isso acaba acontecendo mas, até lá, é duro ver o que acontece com Einar/Lili e Gerda.

Também não é nada fácil ver todas as soluções malucas e absurdas que diferentes médicos e “especialistas” dão para o caso de Lili. É de cortar o coração. Ninguém, por mais que a maioria não entenda pelo que está passando, dever ser sujeito àquelas dores e torturas. Mas todos sabemos como a sociedade lidava com este e com outros “problemas” há diversas décadas atrás.

Nestas horas – e em outras também – percebemos como sim, evoluímos com o passar do tempo. Mas algo que parece ainda não ter evoluído muito, e aí está a importância de The Danish Girl, é a aceitação e entendimento dos transgêneros pela maioria da sociedade. Ainda falta mais falarmos do assunto e conhecermos histórias como a de Lili. Talvez, com o tempo, elas se tornem tão naturais quanto as histórias de amor entre homossexuais.

Por falar em amor, uma das grandes mensagens de The Danish Girl é o imenso amor que existe entre Gerda e Einar/Lili. Enquanto Lili luta por sobreviver e por ser cada vez mais coerente consigo mesma, Gerda segura as pontas e enfrenta toda a dor de perder o marido para que Lili possa ganhar a vida. Impressionante a entrega de Gerda e o amor verdadeiro que ela sentia por Einar/Lili. Francamente, não sei se eu conseguiria fazer o mesmo. Provavelmente não. Mas Gerda nos ensina isso, que o mais bonito amor é aquele que quer que a outra pessoa seja feliz, que se sinta inteira e viva. Não há amor aonde o outro tem que mentir para si mesmo.

Claro que junto com esse amor gigante de Gerda por Einar/Lili está o amor de Lili pela própria verdade. A busca incessante de Einar para dar lugar para a sua verdadeira identidade é comovente e, certamente, inspirador para quem passa pelo menos. The Danish Girl consegue demonstrar isso mesmo para quem não faz parte deste grupo. Este, sem dúvida, é um grande mérito da produção. Conquista dos ótimos atores envolvidos no projeto, especialmente Eddie Redmayne e Alicia Vikander, e também da ótima direção de Tom Hooper.

O roteiro de Coxon e a direção de Hooper não embelezam a pílula. Pelo contrário. E isso é mais um ato corajoso dos realizadores deste filme. Francamente, gostei muito do resultado. Mas acho que o filme peca um pouco por não nos contextualizar mais na história de Einar. Talvez algum flashback do passado ou ele contando mais para Gerda sobre a sua trajetória, sentimentos e dificuldades poderia tornar o filme mais completo. De qualquer forma, é uma bela produção. E muito necessária, já que pouco ainda se fala, e de forma tão franca e humana, dos transgêneros no cinema. Sem contar que este é um trabalho exemplar dos atores principais. Maravilhosos, os dois.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eddie Redmayne realmente é um ator diferenciado. Ele consegue dar vida para Lili de uma forma genuína e que convence – quantos atores que você acompanha conseguiriam fazer o mesmo? Quantos não pareceriam forçados? Sei que ele tem Leonardo DiCaprio no papel da vida dele para enfrentar no Oscar, mas não dá para ignorar o excelente trabalho de Redmayne neste filme. Se ele seguir inspirado como agora, não tenho dúvida que outros prêmios virão.

Muito importante para The Danish Girl que o filme tenha, além de um Redmayne inspirado, uma Alicia Vikander igualmente em ótima forma. A atriz interpreta com maestria Gerda, fazendo muitas pessoas se sensibilizarem pelo que ela está passando na história. Francamente, o papel dela é muito diferente do de Rooney Mara em Carol, quando a interpretação é muito mais contida e nos detalhes – como na troca de olhares. No caso de Vikander a interpretação é muito mais direta, franca e entregue porque a personagem dela pede isso. Mara, por outro lado, faz uma entrega perfeita também, mas de outra forma.

Complicado escolher entre as duas. Assim como é complicado escolher entre Redmayne e DiCaprio. Para mim, todos estão perfeitos. A diferença talvez seja na classificação de “interpretação da vida” dos atores. DiCaprio realmente faz o melhor papel da carreira. Não conheço muito da trajetória de Vikander para dizer o mesmo dela, mas me parece que ela ganhou outro status a partir deste filme. Então, se formos olhar por esta ótica, talvez Vikander tenha uma vantagem sobre Mara. Agora, é preciso ainda ver a Kate Winslet em Steve Jobs – falo mais do Oscar logo abaixo.

Eu gosto muito do que Redmayne faz, mas tenho que confessar algo: me irrita um pouco o cacoete dele de piscar os olhos como se o personagem de Lili/Einar tivesse uma certa timidez que algumas vezes deve ser administrada através daquela piscada. Não sei, isso me faz lembrar de outros papéis dele. Acho que ele poderia utilizar outros recursos para variar um pouco.

A direção de Tom Hooper me pareceu soberba. Ele acerta ao estar atento a cada detalhe da interpretação dos atores na mesma medida em que ele valoriza a beleza dos lugares – afinal, este filme, ao ter dois protagonistas que são pintores, exige um apreço pelo visual diferenciado. Neste sentido, contribui para o bom trabalho visto no filme o diretor de fotografia Danny Cohen. Belo trabalho o dos dois.

Falando nas qualidades técnicas do filme, é preciso ressaltar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; a edição competente de Melanie Oliver; o design de produção requintado e certeiro de Eve Stewart; a direção de arte de Grant Armstrong e Tom Weaving; a decoração de set de Michael Standish; os figurinos perfeitos e muito bem pesquisados/criados por Paco Delgado; e o excelente trabalho de maquiagem dos 10 profissionais liderados por Caroline Case, Annette Field e Pari Khadem. Exemplar também o trabalho do departamento de arte que conta com 32 profissionais talentosos.

Este filme é capitaneado e tem na interpretação de Redmayne e Vikander uma de suas fortalezas. Mas é preciso enaltecer também o bom trabalho dos coadjuvantes. Destaque para Adrian Schiller como Rasmussen, que representa Einar e, rapidamente, entende o novo talento que aflora em Gerda a partir dos quadros inspirados em Lili; Amber Heard linda e com interpretação convincente como Ulla; Ben Whishaw ótimo como Henrik; Pip Torrens um tanto assustador como o Dr. Hexler, o primeiro a “tratar” Einar; Matthias Schoenaerts perfeito e maravilhoso como Hans Axgil, amigo de infância de Einar e grande parceiro de Gerda e Lili; e o grande Sebastian Koch muito bem como o médico Warnekros, o primeiro a entender os transexuais e fazer cirurgias de readequação genital.

Para quem ficou interessado pelo tema, assim como eu, recomendo a leitura de algumas perguntas e respostas sobre transgêneros e transexuais disponíveis aqui no site iGay.

The Danish Girl estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais de cinema. Em sua trajetória, até agora, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 63, incluindo quatro indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 10 premiações para Alicia Vikander como Melhor Atriz Coadjuvante, como “Performance Arrebatadora” de uma Atriz ou Atriz do Ano (prêmio que ela normalmente recebeu junto com a interpretação em outros filmes); e para um prêmio para Eddie Redmayne como Melhor Ator e outro para Tom Hooper como Melhor Diretor – além de um Queer Lion para ele no Festival de Cinema de Veneza.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões e faturado, até ontem, dia 20 de janeiro, pouco mais de US$ 9,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 13 milhões. No total, quase US$ 22,2 milhões. Ou seja, ele está longe ainda de se pagar – levando em conta que qualquer estúdio gasta muito mais do que apenas os recursos para a produção do filme. É preciso adicionar ainda os gastos com distribuição e publicidade. The Danish Girl precisa melhorar o desempenho para conseguir pagar o investido.

The Danish Girl foi filmado em Copenhagem, na Dinamarca; em Bruxelas, na Bélgica; em Londres e Hertfordshire, no Reino Unido; em Vigra Island e em Mount Mannen, na Noruega; e em Berlim, na Alemanha. Diversos lugares, não? Sem dúvida uma boa parte do orçamento foi nestes deslocamentos da equipe e elenco.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. The Danish Girl é baseado no livro homônimo de David Ebershoff que, na verdade, recria de forma ficcional a vida de Einar Wegener/Lili Elbe. Ou seja, não se trata de uma biografia real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relatos históricos apontam que Gerda Wegener era lésbica e que preferia a feminilidade de Lili do que a masculinidade de Einar. Além disso, eles teriam um relacionamento aberto e, quando o casamento deles terminou, cada um foi para um lado. Ou seja, uma história beeeeem diferente do filme. E, cá entre nós, que faz mais sentido. É bacana pensar em um amor de entrega tão grande quanto o que vemos de Gerda no filme, mas me parece que a história real é mais plausível.

Uma fonte mais fidedigna do que aconteceu com Einar/Lili está no livro Man into Woman, assinado por Niels Hoyer. Esse nome, Niels Hoyer, na verdade é o pseudônimo para Ernst Ludwig Hathorn Jacobson, editor de Lili que reuniu as cartas e o que ela escreveu em seu diário para que este material fosse transformado no livro autobiográfico. Este sim deve ser interessante de ler.

A verdadeira origem de Gerda Wegener não é americana e sim dinamarquesa. Gerda Gottlieb Wegener Porta nasceu no dia 15 de março de 1886 e faleceu no dia 28 de julho de 1940. Ela foi “tranformada” por Ebershoff em americana para agradar aos leitores dos Estados Unidos. A história real aponta para que Gerda era lésbica e tinha um relacionamento aberto com Einar/Lili. Na verdade, o relacionamento delas tinha mais a ver com o de irmãs do que de amantes ou cônjuges. No livro/filme Gerda aparece como uma esposa fiel que nunca deixou Lili. Bem, a história real não foi bem essa. Mais uma razão para eu deixar a nota do filme aonde ela está.

No início, Nicole Kidman queria estrelar e produzir o filme, com ela interpretando Einar/Lili. Para o papel de Gerda foram escaladas e depois pularam fora do projeto Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cotillard e Rachel Weisz. Tenho certeza que um projeto envolvendo Kidman e qualquer uma destas atrizes teria sido interessante mas, francamente, eu acho que foi muito mais justo com a história e interessante termos um homem passando pela experiência de Einar/Lili. Me parece muito mais lógico.

Einar/Lili não foi a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de redefinição de sexo, mas esteve entre as primeiras. Carla van Crist, Toni Ebel e Dorchen Ritcher tinham feito a cirurgia antes de Lili. Magnus Hirschfeld fundou em Berlim em 1919 o Instituto Sexual de Berlim, nos mesmos moldes do Instituto Kinsey. Os nazistas destruíram os arquivos do instituto em 1933, por isso não é possível saber exatamente quem foi a primeira pessoa a fazer a cirurgia de redefinição de sexo.

Os personagens de Hans Axgil e Henrik não existiram na vida real. Eles foram inventados pelo autor do romance (e, consequentemente, aparecem no filme). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O namorado de Lili quando ela morreu era um negociar de arte chamado Claude Lejeune, com quem ela esperava casar e ter um filho. Gerda também não estava perto de Lili quando ela morreu e sim estava casada com um oficial italiano chamado Fernando Porta. Ela se casou com ele em 1931 e os dois foram morar juntos na Itália. Dez anos depois, no Marrocos, Gerda soube da morte de Lili. Fernando Porta acabou com as economias da artista que, em 1936, resolveu se divorciar dele. Ela não teve filhos e não se casou novamente. Voltando para a Dinamarca, Gerda começou a beber muito e morreu pobre em 1940.

O casamento de Einar e Gerda durou 26 anos, entre os anos 1904 e 1930. Ele tinha 22 anos e ela 18 quando se casaram. Lili tinha 47 anos quando fez a cirurgia para redefinir o seu sexo e morreu aos 48 anos graças à rejeição de órgãos após fazer um transplante de útero. Gerda tinha 44 anos durante os eventos retratados no filme e morreu aos 54 anos vítima de um ataque cardíaco.

The Danish Girl inspirou mais pesquisas sobre o período retratado, assim como uma exposição das obras de Gerda que retratam Lili que será feita em Copenhage.

Dois atores transgêneros fazem duas super pontas neste filme. A atriz Rebecca Root interpreta a uma das enfermeiras de Lili e Jake Graf, um homem transgênero, faz uma ponta ao lado de Matthias Schoenaerts na galeria de arte em que estão sendo expostas as obras de Gerda.

No dia 23 de novembro a Casa Branca promoveu o evento Champions of Change em que foram homenageadas as pessoas por trás de The Danish Girl, Tangerine e da série Transparent.

Os quadros mostrados no filme são uma adaptação da obra de Gerda feitas pelo designer de produção Eve Stewart e pela artista britânica Susannah Brough. Não foram utilizada réplicas do trabalho de Gerda porque eles quiseram fazer quadros que parecessem com Redmayne e com Amber Heard.

Muitos estranharam (como eu) que Alicia Vikander foi nomeada como Melhor Atriz Coadjuvante. Isso porque ela acaba aparecendo mais até que Eddie Redmayne no filme. Mas há uma razão para isso: os produtores de The Danish Girl quiseram que ela fosse indicada a Melhor Atriz Coadjuvante porque acharam que ela teria mais chances de ganhar o Oscar. A atriz acabou não comentando esta polêmica.

O nome pós-transição adotado por Einar foi o de Ilse Elvenes. Quem deu o nome de Lili Elbe para ele foi a jornalista de Copenhagen Louise Lassen. Esta é uma de várias imprecisões da história de Einar.

No livro e na primeira versão do roteiro deste filme a personagem de Amber Heard era uma cantora de ópera chamada Anna Fonsmark. Mas no final, para o filme, a personagem passou a ser a bailarina Ulla Paulson. O personagem é inspirado em duas amigas de Einar: a atriz dinamarquesa Anna Larssen Bjorner e a bailarina do mesmo país Ulla Poulsen Skou.

Outra fantasia que não tem a ver com a história real. Lili e Gerda se mudaram para Paris em 1912 – detalhe que o filme começa em 1926. Paris foi uma cidade bastante liberal nos anos 1910 e 1920 e, justamente por isso, as duas se mudaram para lá. Na capital francesa Gerda vivia abertamente como lésbica. Por isso mesmo a cena em que Einar é espancado por dois homens em Paris não teria acontecido realmente.

Um fato interessante que foi deixado fora do roteiro do filme – assim como o transplante de útero que matou Lili e que foi a quinta cirurgia dela: o terceiro médico que ela consultou a diagnosticou como intersexual e afirmou que ela teria órgãos sexuais femininos rudimentares. As análises hormonais feitas pouco antes da primeira cirurgia dela indicaram que ela tinha mais hormônios femininos que masculinos no corpo – o que sugere que ela tivesse o cromossomo XXY, da Síndrome de Klinefelter, algo que seria reconhecido pela Medicina apenas a partir de 1942.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos, a Bélgica, a Dinamarca e a Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Provavelmente uma das menores notas entre os filmes indicados ao Oscar 2016. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,6. Também uma das avaliações mais baixas entre os filmes bem cotados nesta sequência de premiações em Hollywood.

CONCLUSÃO: Uma grande, imensa história de amor, e um filme que fala sobre a coragem de alguém que resolve assumir a sua própria identidade, mesmo que ela afronte o que a sociedade considere natural. The Danish Girl é um filme corajoso e duro, mas importante. Ele questiona a nossa própria capacidade de entender o que é diferente. Não é exatamente fácil assisti-lo. Mas isso pouco importa. Com grandes atuações e uma direção sensível e cuidadosa, é um belo filme na aparência e na mensagem.  E as premiações que deram destaque para ele até agora, como o Oscar, estão de parabéns por colocar um título tão diferente em evidência. Importante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Danish Girl está concorrendo em quatro categorias da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

A melhor chance do filme, me parece, está na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander enfrenta Kate Winslet, que já foi premiada por Steve Jobs, e Rooney Mara, que está espetacular também em Carol (comentado aqui). Francamente, se eu votasse no Oscar, eu ficaria em dúvida entre Vikander e Mara. São interpretações com tonalidades muito diferentes, mas acha que as duas estão impecáveis. Não assisti ainda a Winslet. Preciso ver Steve Jobs para opinar definitivamente sobre esta categoria.

O ator Eddie Redmayne está ótimo, mais uma vez, nesta produção, mas ele tem um páreo duríssimo ao concorrer com Leonardo DiCaprio. O favorito é o protagonista de The Revenant (com crítica neste link). Redmayne só leva a estatueta para casa se a Academia demonstrar, mais uma vez, que tem bronca com DiCaprio.

Agora, as duas indicações técnicas do filme. Na categoria Melhor Figurino The Danish Girl tem uma parada dura. Para mim, o favorito nesta categoria é Mad Max: Fury Road (comentado aqui), seguido de Cinderella e de Carol. Como não assisti a Cinderella, pessoalmente o meu voto iria para Carol, mas acho que Mad Max: Fury Road pode faturar. The Danish Girl corre um pouco por fora.

A categoria Melhor Design de Produção também está bem concorrida. The Danish Girl e Bridge of Spies concorrem por fora, com a decisão nesta categoria tendo Mad Max: Fury Road, The Revenant e The Martian (com crítica aqui) como as produções que estão se digladiando pela estatueta. Pessoalmente, eu ficaria dividida entre Mad Max e The Martian. Ou seja, The Danish Girl tem sérias chances de não levar nenhuma estatueta para casa. As melhores chances, se for levar algo, estão nas categorias dos atores. Veremos.