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If Beale Street Could Talk – Se A Rua Beale Falasse

Um dos filmes mais contundentes sobre a discriminação racial e a falta de igualdade de direitos nos Estados Unidos. If Beale Street Could Talk é uma história simples, mas muito bem escrita e com propósitos claros. Além de mostrar, sem meandros, como os negros nos Estados Unidos foram e continuam sendo tratados como seres inferiores, essa produção também foca em uma história de amor poderosa. Sem dúvida alguma, If Beale Street Could Talk tem muitas qualidades. Apesar disso, acho que ele poderia ser um pouco mais curto. Facilmente poderíamos tirar meia hora da produção sem que ela ficasse pior.

A HISTÓRIA: Começa com uma apresentação de James Baldwin sobre a Rua Beale: “A Rua Beale é uma rua em New Orleans onde o meu pai, Louis Armstrong e o jazz nasceram. Cada pessoa negra que nasceu na América nasceu na Rua Beale, nasceu no bairro negro de alguma cidade americana, seja em Jackson, Mississippi, ou no Harlem, New York. A Rua Beale é o nosso legado. Esse romance trata da impossibilidade e da possibilidade, a necessidade absoluta de dar expressão a esse legado. A Rua Beale é barulhenta. Deixo ao leitor a tarefa de discernir o sentido da batida”.

Na primeira sequência, o casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) descem uma escada. Eles caminham de mãos dadas por um lugar tranquilo. Quando chegam próximos da avenida, eles se olham. Tish pergunta se ele está pronto. Fonny diz que ele nunca esteve tão pronto em sua vida. Eles se beijam. Na próxima cena eles se olham através de um vidro, porque Fonny está preso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a If Beale Street Could Talk): Esse é o típico exemplo de uma produção que começa muito, muito bem e que depois acaba diminuindo a sua força com o passar do tempo. O melhor de If Beale Street Could Talk é o seu começo, quando temos uma presença maior do texto de James Baldwin através da narrativa de Tish Rivers. Do meio para o final, o filme acaba ficando um tanto repetitivo com a evolução lenta do caso de Alonzo “Fonny” Hunt.

Isso não tira o mérito da produção, que tem outras qualidades. Além do texto de James Baldwin, presente em seu romance adaptado pelo roteirista e diretor Barry Jenkins, o filme tem como ponto alto o trabalho dos atores envolvidos no projeto. Todos estão muito bem, mas destaco o trabalho de duas atrizes: KiKi Layne como a protagonista e Regina King como Sharon Rivers, a mãe de Tish. Elas roubam a cena cada vez que aparecem, é algo impressionante.

A história começa muito bem, com a problemática do casal Tish e Fonny sendo apresentada de forma franca e direta. Fonny acaba de ser preso, e Tish apresenta a ele, à sua família e a nós, espectadores, a sua gravidez. Isso logo nos primeiros minutos da produção. A expectativa e o drama estão armados porque nós – e nem os personagens –  sabemos ainda por quanto tempo Fonny ficará preso. Todos desejam que ele saia logo da prisão. Afinal, ele foi injustamente acusado de estupro. Mas, como Tish nos fala logo no início de If Beale Street Could Talk, essa história se passa nos Estados Unidos, um país que se acostumou a tratar os negros de forma diferente e desigual.

Então a problemática está toda armada. De forma inteligente, Jenkins equilibra a narrativa no “tempo atual” com o retorno no tempo através de flashbacks para conhecermos melhor a história do relacionamento de Tish e Fonny. Um dos pontos altos do filme é quando a família de Tish convida a família de Fonny para contar-lhes a novidade da gravidez de Tish. Nesse momento, temos um exemplo contundente como o fanatismo envolvendo a “fé” pode provocar mais danos do que trazer soluções.

A reação da mãe de Fonny, a Sra. Hunt (Aunjanue Ellis), ao saber que Tish está grávida do filho, é estarrecedora. Mas tão típica de quem se acha superior aos demais e usa a “fé” como desculpa para a sua própria crueldade e maldade. Eu poderia escrever um tratado sobre isso, mas não vou. De qualquer forma, vale comentar que este é um dos pontos altos do filme, porque nos faz refletir sobre como as pessoas se dividem e rivalizam em momentos em que elas deveriam estar buscando a união e a empatia.

Até esse momento, o filme vai muito bem. Mas depois que a família de Fonny sai do apartamento, seguimos naquela mesma levada de tempo presente e flashbacks que acabam sendo um tanto repetitivos. Acho que o filme poderia ter uma duração ligeiramente menor e que alguns trechos poderiam ser um pouco condensados. Dou como exemplo toda a narrativa envolvendo Fonny e o seu amigo Daniel Carty (Brian Tyree Henry). Certo que é interessante termos a narrativa de Daniel sobre os terrores da prisão e como ele também foi preso injustamente. Mas os encontros e as interações entre os amigos poderiam ter sido resumidos sem prejuízo para a história.

O mesmo eu vejo em relação ao romance de Tish e Fonny. Algumas sequências poderiam ter sido suprimidas sem maiores problemas. Também acho que a viagem de Sharon Rivers atrás da pessoa que acusou Fonny, Victoria Rogers (Emily Rios) poderia ter aparecido antes na história. Em resumo, If Beale Street Could Talk poderia ter entre 20 e 30 minutos a menos de duração. Isso faria bem para a produção.

Mas, no geral, o filme é muito bem narrado, apresenta uma história envolvente e interessante que perde um pouco de força no meio da narrativa mas que tem alguns grandes momentos. O destaque vai para o texto de Baldwin, geralmente bem trabalhado por Jenkins, e para o trabalho dos atores, que estão muito bem em seus papéis. Todos, sem exceção. É um filme necessário, especialmente pela franqueza com que ele trata o tema da injustiça contra os negros nos Estados Unidos. Algo histórico e que continua acontecendo. Infelizmente.

Além da questão racial, que é algo fundamental nesta produção, algo que gostei em If Beale Street Could Talk é como, no fundo, esta é uma história de amor. Tish simboliza toda a abnegação e determinação de uma mulher que ama. Lembrando trechos da Bíblia, podemos dizer que esta produção resgata todo aquele conceito de que o amor é paciente, de que ele suporta tudo e espera tudo. Como falo na conclusão, inclusive. 😉

Sim, esse filme nos mostra a essência do amor. Não aquele construído sobre falsos preceitos, mas aquele verdadeiro, de uma pessoa que conhece a outra em sua profundidade. Nesses parâmetros, a espera é difícil, mas é suportável. Porque Tish e Fonny, apesar do vidro e das grades, nunca se separaram. Estando juntos, mesmo que não o tempo todo, eles conseguiram suportar a injustiça e o desprezo. Apenas o amor é capaz disso. Nesse sentido, este é um belo filme. Porque nos conta uma história necessária, bela e também inspiradora.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme não deixa claro quando essa história se passa. Mas procurando saber um pouco mais sobre a produção, descobri que a história de If Beale Street Could Talk se passa nos anos 1960. Infelizmente, naquela época, sem a tecnologia que temos hoje de câmeras espalhadas pelas ruas, em lojas e equipamentos de monitoramento, realmente a palavra de um policial que queria ferrar um negro podia valer mais que os fatos. Alguns reclamam do estilo “big brother” em que vivemos atualmente, mas é melhor assim do que antes, quando a perseguição contra uma pessoa podia ser viabilizada porque o ônus da prova é de quem é acusado.

Certo que Fonny estava apenas com a namorada e um amigo ex-presidiário na hora em que o crime de Victoria foi praticado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas nem Tish, a família deles ou o advogado Hayward (Finn Wittrock) poderiam ter conseguido alguma outra testemunha que tivesse visto Fonny entrando em casa e não saindo de lá ou alguém no local em que os fatos aconteceram com Victoria para dizer que um negro não saiu correndo em direção à Rua Beale depois do crime? Eles também poderia ter conseguido testemunhas para expor o preconceito do policial, não? Acho que alguns pontos faltaram ser explorados por essa história.

A grande surpresa desse filme, para mim, nem foi o ótimo trabalho de Regina King como Sharon Rivers, mãe de Tish. Depois dela ganhar todos os prêmios da temporada, inclusive o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, eu já esperava que ela tivesse grandes momentos em If Beale Street Could Talk. Mas quem me surpreendeu pelo excelente trabalho foi KiKi Layne como Tish. Não lembro de ter visto a atriz em outro trabalho, então ela foi uma revelação para mim. Pela característica do filme, como ela é a narradora e também pelo fato do personagem de Stephan James estar preso, é KiKi Layne que aparece na maior parte das cenas. E ela dá um show. Faz uma parceria ótima com James.

Pelo que eu vi, KiKi Layne tem uma trajetória realmente recente. Ela estreou em 2015 no curta Veracity. Depois, ela fez um trabalho na série Chicago Med e estrelou um filme televisivo chamado Untitled Lena Waithe Project antes de estrelar If Beale Street Could Talk. Ou seja, ela praticamente estreia nessa produção. Logo, a veremos em vários outros filmes, começando por Native Son e Captive State, duas produções de 2019 já finalizadas. Acho que vale ficar de olho nela.

Além de KiKi Layne e de Regina King, que se destacam nas suas interpretações, vale comentar o belo trabalho de Stephan James como Fonny; de Colman Domingo como Joseph Rivers, pai de Tish; de Teyonah Parris quase em uma ponta como Ernestine, irmã mais velha de Tish; de Michael Beach também em quase uma ponta como Frank Hunt, pai de Fonny; de Aunjanue Ellis em uma interpretação potente de apenas uma sequência como a mãe de Fonny; de Ebony Obsidian e Dominique Thorne como Adrianne e Sheila, respectivamente, irmãs de Fonny; de Diego Luna também em uma ponta como Pedrocito, amigo de Fonny; de Finn Wittrock como Hayward, advogado contratado para defender Fonny; de Ed Skrein como o policial Bell, que resolve se vingar de Fonny acusando-o de um crime que ele não cometeu; de Emily Rios como Victoria Rogers, a mulher que acusa Fonny; de Dave Franco como Levy, o primeiro sujeito que trata Tish e Fonny como pessoas normais; de Brian Tyree Henry como Daniel Carty, amigo de Fonny e que está com ele quando o crime de Victoria acontece; e de Kaden Byrd como Alonzo Jr, filho do casal. Todos estão bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou um pouco maiores do que algumas cenas.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de James Laxton e a trilha de sonora com uma pegada forte de jazz e muito presente durante a produção de Nicholas Britell. Também vale comentar a edição competente de Joi McMillon e Nat Sanders; o design de produção de Mark Friedberg; a direção de arte de Robert Pyzocha, Oliver Rivas Madera e Jessica Shorten; a decoração de set de Devynne Lauchner e Kris Moran e os figurinos de Caroline Eselin.

If Beale Street Could Talk estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, até março de 2019, de outros 13 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o filme dirigido por Barry Jenkins ganhou 87 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Regina King – e foi indicado a outros 151 prêmios. Números impressionantes, realmente.

Além de ganhar o Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King ganhou o Globo de Ouro na mesma categoria, assim como 39 outros prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante – impressionante! Destaque também para 8 prêmios de Melhor Filme, 3 prêmios de Melhor Diretor para Barry Jenkins, 13 prêmios de Melhor Trilha Sonora, 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e 2 de Melhor Atriz ou Melhor Performance para KiKi Layne. O filme foi indicado, no Oscar, ainda, para os prêmios de Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado.

Cliques de fotógrafos como Gordon Parks, Jack Garofalo e Paul Fusco foram fundamentais para que o diretor e o diretor de fotografia conseguissem restaurar o clima do final dos anos 1960 e do início dos anos 1970 de Nova York. As fotografias das prisões da cidade feitas por Bruce Davidson também foram usadas como referência. Para acertar na luz, Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton analisaram o trabalho de Roy DeCarava. “Queríamos traduzir a linguagem de Baldwin e a energia limpa do Harlem também no visual e na fotografia”, comentaram os realizadores.

O primeiro trailer de If Beale Street Could Talk foi lançado no dia 2 de agosto de 2018, no aniversário de 94 anos do escritor James Baldwin.

If Beale Street Could Talk é dedicado para James Baldwin, que é o escritor preferido do diretor e roteirista Barry Jenkins. Publicado em 1974, o filme tinha rendido, antes, uma adaptação feita por Robert Guédiguian e lançada em 1998.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para If Beale Street Could Talk, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 289 críticas positivas e 17 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,62. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para o filme, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – o site ainda apresenta o selo “Metacritic Must-see” para If Beale Street Could Talk.

De acordo com o site Box Office Mojo, If Beale Street Could Talk faturou US$ 14,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um super resultado, mas também não está mal.

If Beale Street Could Talk é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: O filme começa muito bem e tem trechos realmente preciosos. Ao mesmo tempo, If Beale Street Could Talk acaba sendo um tanto lento e longo demais. Apesar disso, achei a história bonita, muito bem conduzida e com ótimas atuações. Os maiores acertos do filme envolvem o seu discurso, bastante sincero sobre o preconceito racial que atinge negros de forma cruel e desumana nos Estados Unidos – e em outras partes, certamente. Está na hora de falarmos sobre isso com franqueza e de pararmos de fugir do assunto. Além disso, If Beale Street Could Talk nos mostra, de forma muito franca e honesta, como o amor tudo suporta, tudo espera. Ele é forte, ele resiste, ele perdura. Quando é verdadeiro. Um belo filme, com mensagens importantes e muito bem apresentadas.

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Selma – Selma: Uma Luta pela Igualdade

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Filme necessário e um dos melhores de 2014. Ainda bem que ele pode ganhar um pouco de visibilidade com o Oscar 2015, ainda que seja um dos menos comentados e badalados da premiação este ano. Selma, que baita filme! Há tempos eu queria assistir a uma produção decente sobre Martin Luther King Jr. e este título, finalmente, cumpre este papel. Para você que quer ouvir discursos inspiradores, sentir uma luta legítima ser desenvolvida com vigor na sua frente, mesmo que em uma obra de cinema, esta é uma ótima oportunidade. Inspirador.

A HISTÓRIA: Martin Luther King Jr. (o ótimo David Oyelowo) se prepara para um discurso de agradecimento. Mas após algumas frases, ele diz para a mulher, Coretta Scott King (Carmen Ejogo) que aquilo não está certo. Ele não se sente bem com a roupa que está usando. Sua cabeça está em outro lugar, nos homens, mulheres, jovens e crianças ainda marginalizados por serem negros. Coretta olha para o marido, eles tem um momento de paz, antes de Luther King Jr. receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Em seu discurso, Luther King fala que aceita aquela honra em nome de todos que morreram por serem negros e pelos 20 milhões de homens e mulheres negras que lutam por sua dignidade. Enquanto o discurso dele é ouvido, vemos cenas de um grupo de meninas negras descendo a escadaria de uma Igreja. Este filme conta os bastidores da luta de Luther King e dos negros pelo direito de votar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Selma): Ah, como faz toda a diferença do mundo um ótimo roteiro conduzindo a narrativa. Paul Webb faz um trabalho excepcional com o texto de Selma, sabendo ponderar diversos elementos narrativos nesta história, o que lhe garante ritmo, paixão e muitos elementos históricos.

Para começar, impossível fazer um filme decente sobre Martin Luther King Jr. sem utilizar os seus discursos inspirados. Provavelmente ele foi um dos grandes oradores de todos os tempos. E isso sem acrescentar o famoso e histórico discurso em Washington. Não. Este filme mostra os acontecimentos após a famosa Marcha sobre Washington, quando Luther King proferiu um dos discursos mais lembrados de todos os tempos, conhecido sob o título “Eu tenho um sonho” no dia 28 de agosto de 1963.

Inclusive, no início do filme, quando Luther King é agraciado com o Nobel da Paz, o orador que o apresenta lembra que aquele homem tinha um sonho. Pois bem, Selma fala de outro acontecimento marcante não apenas na vida deste homem genial por ter sido um ferrenho defensor dos direitos humanos, da paz e de igualdade racial. Esta produção aborda as marchas de Selma até Montgomery, cidades no Alabama, durante alguns meses de 1965.

O movimento com base em Selma foi fortemente reprimido pelas forças policiais sob o comando do governador George Wallace (Tim Roth). Houve muita pancadaria e mortes, tudo com cobertura da imprensa, inclusive das TVs. Aqueles eventos foram decisivos para que a opinião pública dos Estados Unidos mudasse e ficasse a favor, pelo menos em sua maioria, da igualdade dos direitos civis.

É emocionante acompanhar o movimento daquele grupo liderado por Luther King. Mas antes, vemos um exemplo prático, com a tentativa Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) em se registrar no cartório eleitoral para poder votar, sobre a problemática que precisava ser combatida. A lei, a Constituição dos Estados Unidos, previa o voto dos negros. Mas Estados como o do Alabama orientavam os responsáveis por fazer o registro dos votantes a não aceitar negros. Isso é mostrado sem firulas logo no início do filme.

Outro momento inteligente da produção, visto logo nos primeiros minutos, é mostrar o desconforto de Luther King em estar tão “alinhado” para receber o Nobel, em seguida ouvir parte do discurso dele enquanto acompanhamos um grupo de meninas inocentes caminhando para a morte em mais um atentado violento contra negros. Claramente o roteirista e a diretora Ava DuVernay quiseram mostrar que apesar do Nobel e dos discursos inspirados, nem Luther King conseguia frear desta forma a violência contra os seus irmãos.

Feita esta introdução, muito bem planejada, mergulhamos na tentativa de negociação de Luther King com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que a questão do voto fosse respeitada no país como política clara do Estado. No diálogo, Luther King não conseguiu nada, porque Johnson preferia adiar a decisão sem um prazo para resolver o assunto como forma de se preservar politicamente. Daí começa a ação, já que Luther King resolve reforçar em Selma o movimento que pedia igualdade nas urnas.

A partir daí, o filme não alivia. Ele mostra as articulações para a primeira manifestação em Selma e a forte repressão policial. As cenas de brutalidade policial são desconcertantes. Depois seguem outros atos e a primeira morte, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield), morto friamente com um tiro por um policial após ele, a mãe, Viola Lee Jackson (Charity Jordan) e o avô, Cage Lee (Henry G. Sanders) serem perseguidos e covardemente agredidos.

As cenas são impactantes e muito bem filmadas por Ava DuVernay. O interessante do roteiro é que ele foca sempre Luther King, mostrando as reflexões dele, as angústias e a preocupação com as pessoas que poderiam se ferir. Para ajudar, há o texto fantástico e irretocável dos discursos dele, que motivaram as pessoas na época e dificilmente não mexem com quem assiste ao filme hoje em dia. Aliado a isso, ajuda na narrativa os registros feitos pelo FBI na época, quando Luther King e as demais pessoas ao redor dele eram monitoradas e vigiadas.

Os registros do FBI, em especial, dão um toque muito interessante para o filme. Revelam um hábito antigo daquele país de monitorar as pessoas que eles consideravam relevantes para o sistema, especialmente se apresentavam “algum risco”. Especialmente interessante, ainda na parte inicial do filme, um diálogo entre o presidente Lyndon B. Johnson e o chefe do FBI J. Edgar Hoover (Dylan Baker). Inicialmente Hoover sugere que o “problema” Luther King poderia ser resolvido facilmente dando um “fim” na ameaça.

Como Johnson resiste a ideia de eliminar Luther King, a sugestão seguinte de Hoover é de desestabilizar o líder negro ao dinamitar o casamento dele com Coretta que, segundo o FBI, já estaria balançado – e de fato estava. Apesar das ameaças que recebia e da ausência do marido, assim como o risco eminente de morte dele, Coretta se manteve firme ao lado de Luther King. Este apoio é bem mostrado e valorizado no filme.

Com bem explica este texto da Wikipédia, as marchas saindo de Selma foram três. Antes da primeira, houve aquela caminhada pelas ruas de Selma de noite e que acabou sendo conhecido como “domingo sangrento”. Foi quando ocorreu a morte de Jimmie Lee Jackson, em fevereiro de 1965.

A primeira marcha propriamente dita, como bem retrata o filme, ocorrida no início de março, não contou com Martin Luther King Jr. e terminou no confronto na ponte Edmund Pettus. As redes de TV transmitiram o ataque policial e lançaram um movimento de apoio a Marcha de Selma.

A segunda tentativa de fazer o mesmo trajeto teve um apelo muito maior, inclusive com apoio de muitos brancos. Pessoas de diversas parte do país, incluindo Luther King, viajaram até Selma para fazer o mesmo trajeto novamente. Nesta segunda tentativa, eles caminharam até parte do trajeto e retrocederam. No filme, está certo o retrato de muitas pessoas surpresas com a decisão. Mas o roteirista quis sugerir que Luther King deu a ordem para voltar porque teria tido uma “inspiração divina”. Ele até pode ter tido uma, mas ele também tinha uma razão prática.

Antes da marcha acontecer o juiz Frank Minis Johnson (Martin Sheen) havia proibido a manifestação pacífica antes que outras audiências sobre a causa fossem feitas. Luther King já havia avisado aos companheiros que o apoiavam de que eles iriam retroceder. Mas a grande massa realmente não sabia disso previamente, por isso muitos ficaram confusos e perdidos. Mas todos acabaram seguindo o líder Luther King.

Após aquele evento, contudo, quatro membros da Ku-Klux-Kland atacaram três ministros brancos que haviam ido até Selma para apoiar o movimento. Um deles, James Reeb (Jeremy Strong), foi o mais agredido e morreu. Claro que o filme encurta as duas mortes – nenhuma das vítimas morreu na hora, mas após serem atendidas nos hospitais. Essa informação, contudo, não faz falta para a narrativa.

O filme acerta ao mostrar como o presidente Lyndon Johnson chama o governador George Wallace para conversar, mas este se mostra irredutível e não aceita dar espaço para as manifestações e mudar as regras em seu Estado. Depois da morte do manifestante branco, a opinião pública cai de pau no assunto e Johnson de fato encaminha um projeto de lei no Congresso que, depois, se tornaria a Lei dos Direitos ao Voto.

Para fechar o resgate histórico, Luther King e diversas outras pessoas lideraram a terceira e última marcha de Selma até Montgomery, esta sim pacífica e que terminou com o discurso Stars from Freedom do líder negro. Linda toda a sequência final que, inclusive, resgatou cenas verídicas da época. Para finalizar, como é feito com muitos filmes baseados em fatos reais, ficamos sabendo sobre o que aconteceu com alguns dos principais personagens desta produção depois que o discurso de Luther King termina.

Haveria mais uma morte relacionada ao movimento, desta vez de uma mulher branca, e outros fatos ocorreriam na vida daquelas pessoas retratadas no filme. Luther King sobreviveu aos conflitos e à perseguição em Selma, mas ele seria morto, três anos depois, em Memphis. Este filme é uma homenagem muito justa a ele, um homem admirável.

Bem conduzido, bem escrito e com ótimos atores envolvidos no projeto – inclusive em papéis bem secundários -, Selma é um filme marcante e necessário, como comentei lá encima. Para mim, ele foi mais envolvente e impactante que o premiado 12 Years a Slave, que ganhou três Oscar’s, incluindo o de Melhor Filme, em 2014.

Verdade que 12 Years a Slave trazia uma história menos conhecida à tona mas, ainda assim, Selma me pareceu mais interessante especialmente pelos discursos de Luther King. Pena que dois anos seguidos de filmes sobre igualdade e justiça para os negros não emplaca na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma pena.

Mas antes de finalizar, queria citar uma parte que me tocou especialmente neste filme. Perto do final, e com a iminência de que Luther King poderia ser morto a qualquer momento – o que tornaria a situação ainda mais complicada -, o emissário do presidente dos Estados Unidos, John Doar (Alessandro Nivola), sugere para que o líder do movimento negro se preserve e não se exponha mais na última marcha.

Luther King, com uma lucidez absurda, comenta que ele não é diferente dos demais, que ele também quer viver muito e ser feliz. Ele diz que poderia se focar no que ele queria, mas que não faria isso porque ele deveria fazer o que Deus queria. Impressionante quando uma pessoa percebe que tem um propósito maior e que ela pode fazer a diferença, mesmo que isso significar a sua morte. Existe exemplo maior de bravura e de honra? Não foi daquela vez que ele morreu, mas ao seguir lutando pelos direitos das pessoas, mais tarde, o fim trágico chegaria.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante como todos os atores estão bem neste filme. O destaque, evidentemente, é o protagonista. David Oyelowo encarna Martin Luther King Jr. e passa muita emoção, seriedade e compromisso com a causa que o líder negro defendia. Ele emociona, juntamente com o roteiro perfeito de Paul Webb. A diretora Ava DuVernay acerta também na escolha de cada ângulo e das dinâmicas com os atores.

O elenco de Selma está recheado de presenças ilustres, inclusive e especialmente em papéis bem secundários. No elenco principal, dos atores que aparecem mais, há nomes menos conhecidos do grande público, como Carmen Ejogo como Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr.; André Holland como Andrew Young e Colman Domingo como Ralph Abernathy, os dois braços direitos do protagonista. Fazem parte do grupo que acompanha Luther King os atores Ruben Santiago-Hudson como Bayard Rustin; Omar J. Dorsey como James Orange; Common como James Bevel; E. Roger Mitchell como Frederick Reese; e Wendell Pierce como o reverendo Hosea Williams.

Entre os moradores de Selma que acabam sendo importantes para o movimento, inclusive por alguns se tornarem vítimas dos absurdos policiais, destaque para Keith Stanfield como Jimmie Lee Jackson; Henry G. Sanders como Cager Lee; Charity Jordan como Viola Lee Jackson; Stephan James como John Lewis e Trai Byers como James Forman, dois estudantes que lideram o movimento negro em Selma e que divergem em diversos pontos das ações nas cidades. Em uma ponta também merece menção Nigel Thatch como Malcolm X.

Comentado os nomes menos conhecidos, vamos aos famosos que entraram no filme para fazer papéis pequenos. Começo com Oprah Winfrey, também produtora do filme, como Annie Lee Cooper, que diversas vezes tinha tentado, em vão, fazer um registro como eleitora e que, no primeiro ato público em Selma, é agredida por policiais. Tom Wilkinson está ótimo como o presidente Lyndonn B. Johnson, assim como Tim Roth que, mesmo aparecendo menos que Wilkinson, tem pelo menos uma cena inesquecível de diálogo com o veterano ator inglês.

Giovanni Ribisi interpreta a Lee White, braço direito do presidente; Dylan Baker se sai bem em um papel pequeno como J. Edgar Hoover, do FBI; Jeremy Strong também faz uma boa participação como James Reeb, primeira vítima branca do movimento; Alessandro Nivola aparece para intermediar as negociações entre o presidente de Luther King; Cuba Gooding Jr. como Fred Gray; e Martin Sheen faz uma super ponta – inclusive não creditada – como o juiz Frank Johnson.

Da parte técnica do filme, destaque para a ótima direção de fotografia de Bradford Young; para a edição de Spencer Averick; para a direção de arte de Kim Jennings; para os figurinos de Ruth E. Carter; e para a trilha sonora, incluindo a excelente canção Glory, interpretada por John Legend e Common.

Selma estreou no Festival AFI em novembro de 2014. Em fevereiro ele está confirmado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 71, incluindo dois Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Canção para Glory, composta por John Legend e Common; e para o prêmio Freedom of Expression Award entregue pela National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados de Georgia e Alabama, nos Estados Unidos. Foram rodadas cenas em cidades como Selma, Montgomery, Marietta, Conyers e Atalanta.

Agora, a seção de curiosidades sobre esta produção. Antes de Ava DuVernay assumir o projeto, Lee Daniels estava escalado como diretor. David Oyelowo lutou durante sete anos para conseguir o papel principal, porque Daniels inicialmente achou que ele não seria o melhor nome para interpretar Luther King. Mas DuVernay apostou nele.

Tim Roth cresceu durante a era de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Ele disse que lembra do governador George Wallace, guardando na memória que ele ficava espantado com as besteiras que saia da boca do político, que ele considerava um “monstro” – e a quem, ironicamente, ele interpretaria agora.

Entre os diretores interessados no roteiro de Selma estavam Steven Spielberg, Stephen Frears, Paul Higgs, Spike Lee e Michael Mann, além do já citado Lee Daniels.

O esquecimento do Oscar de indicar Ava DuVernay como Melhor Diretora e David Oyelowo como Melhor Ator provocou protesto de cinéfilos e pessoas dos bastidores de Hollywood. Os esquecimentos foram creditados à falta de diversidade racial em Hollywood e ao fato do estúdio Paramount não ter conseguido enviar cópias do filme a tempo para todos os membros da Academia conferirem o filme.

Ainda que não tenha recebido o crédito como coautora do roteiro, a diretora Ava DuVerney afirmou que fez alterações em 90% do texto de Paul Webb, incluindo ter dado uma nova versão para os discursos de Luther King – isso foi necessário porque outro estúdio tem os direitos dos originais.

Selma teria custado cerca de US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 39,5 milhões. Ainda falta muito para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Selma. Uma avaliação boa mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 99% e uma nota média de 8,7.

Selma é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos homens mais fantásticos de todos os tempos, Martin Luther King, em um momento decisivo não apenas de sua trajetória mas, e principalmente, dos Estados Unidos. Se em Lincoln assistimos a um homem corajoso mudando parte da história, aqui vemos a outro liderando um movimento fundamental para consolidar aquela mudança. Interessante assistir a Selma em 2015, ano em que um negro segue como presidente dos Estados Unidos e batalha para tornar aquele país ainda mais justo. Filme envolvente do início ao fim, com um ótimo roteiro, direção e um ator liderando todo o processo para quem precisamos tirar o chapéu. Vale muito o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Indicado apenas em duas categorias, sendo apenas uma realmente relevante, infelizmente as chances de Selma são praticamente zero no Oscar. Quer dizer, ela pode até levar em Melhor Canção. Mas quem realmente se importa com esta categoria? As pessoas que vencem, evidentemente, e quem tem o nome lembrado em uma indicação. Mas é só.

Selma também concorre como Melhor Filme. Mas por ele ter sido indicado apenas a esta categoria e a Melhor Canção, chances zero para o filme. Uma pena. Acho que ele deveria estar competindo lado a lado com Boyhood e The Imitation Game. Para mim, os melhores filmes da lista até o momento.

Da minha parte, meu voto ficaria ainda para Boyhood, mas Selma seria a minha segunda escolha. E não ficaria chateada se ele ganhasse. Depois viria The Imitation Game. E todos os demais… bem, acho inferiores. Assim de simples. Só falta Whiplash para fechar esta minha avaliação. Veremos se ele muda algo. 🙂

Mas para resumir a avaliação sobre Selma, infelizmente o filme corre totalmente por fora. Acho que ele deveria ter sido lembrado em pelo menos outras duas categorias: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator para o brilhante David Oyelowo. Não foi desta vez. Lástima.