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Molly’s Game – A Grande Jogada

Um roteirista competente e que você gosta, protagonistas idem e uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Molly’s Game tinha bons predicados para me atrair para o cinema. Mas, francamente, o filme consegue alimentar mais expectativas do que realmente entregar algo de qualidade. Longo demais, arrastado demais, esse filme só acerta mesmo no seu começo. E olha lá. Eu diria que Molly’s Game acerta na edição ligeira e em algumas linhas interessantes do roteiro no início mas, depois, ele se mostra muito mais vazio, arrastado e forçado do que seria desejado.

A HISTÓRIA: Uma pessoa desce uma colina cheia de neve munida de esquis. A narradora, Molly Bloom (Jessica Chastain) comenta que uma pesquisa feita com 300 atletas perguntou para eles o que de pior pode acontecer nos esportes? As respostas foram variadas, mas uma delas apontava para ficar em 4º lugar nas Olimpíadas. Molly afirma que esta é uma história real, mas que todos os nomes, exceto o dela, foram alterados. Por motivo que logo vamos entender. A própria Molly nos conta a sua história nesse filme, começando no momento em que ela tentou se classificar para as Olimpíadas de Inverno pela equipe americana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Molly’s Game): Eu gosto dos Jogos Olímpicos. Muito mais dos tradicionais do que das Olimpíadas de Inverno. Mas, na verdade, gosto de todos os Jogos. Por isso, achei interessante aquele começo de Molly’s Game. Até porque aquele começo tem um roteiro ágil e uma edição das cenas muito competente. Mas depois daquele começo, esse filme se revela bastante irregular.

Ok, interessante a história de uma garota que poderia ter sido uma desportista brilhante, ou uma advogada talentosa, mas que acabou cedendo para o dinheiro fácil e que caiu em uma cilada que ela mesma armou para si. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, apesar de tanto ir e vir na história e de uma tentativa clara do roteirista e diretor Aaron Sorkin de fazer um filme acima da média, Molly’s Game nada mais é do que uma produção sobre as escolhas que uma pessoa faz na sua vida e o resultado que estas escolhas tem na sua história.

Além disso, o filme tem algumas outras questões, como a ideia defendida pela sociedade americana de que os Estados Unidos é um país com oportunidade para todos – seja dentro ou fora da lei -; a relação entre pais e filhos e o alto nível de cobrança que os primeiros podem colocar nos segundos e os efeitos disso; assim como a ideia de que até os criminosos tem a sua “ética” e código de conduta.

Ou seja, nenhuma ideia nova sob o sol. Talvez a única parte mais interessante desse filme seja a forma com que Molly’s Game mostra como a Justiça americana – e de qualquer outro país – tenta pressionar e punir alguns criminosos “menores” para conseguir pegar os peixes maiores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Molly Bloom cometeu um crime, mas o FBI que a investigou e o governo americano que a processou estavam mais interessados no que ela sabia, nas pessoas que participavam da jogatina, do que realmente no crime que ela cometeu.

Informação é poder. Conhecer pessoas importantes e o que elas falam e sobre o que elas tratam era o real poder de Molly e o que interessava para quem a processou. Mas ela se manteve firme e não entregou ninguém – apenas pessoas que já tinham sido entregues antes por Brad (Brian d’Arcy James). Segundo uma linha do filme, ela estava preservando o próprio nome, a única coisa lhe restou e que lhe importava.

Agora, vamos falar dos pontos que me incomodaram nesse filme. Primeiro, a história se esforçar tanto em tornar uma garota como Molly como “heroína”. Até a linha da “ética” de criminosa dela me pareceu um tanto forçada. Apesar ser levemente interessante, a história dela não é, de fato, realmente surpreendente ou reveladora. Sorkin escreveu o roteiro desse filme baseado no livro escrito por Molly Bloom. Aparentemente, ela soube valorizar muito bem a própria história. E, para o meu gosto, a história dela não é tãooo interessante assim. Há outras histórias melhores por aí.

Depois, me pareceu um bocado mal desenvolvida a questão da real motivação da protagonista para ela ter feito o que fez. Em um dos raros diálogos de Jessica Chastain com Kevin Costner, que faz o pai dela, Charlie Jaffey, ele, como psicólogo, faz a filha “destrinchar” a sua história até achar as respostas para tudo que aconteceu. Possivelmente aquela é a parte mais interessante do filme, mas ela ficou restrita a um diálogo entre pai e filha. Muito pobre, a meu ver. Sorkin podia ter desenvolvido melhor a relação da protagonista do com o pai, já que este era um fator determinante. Mas não.

No lugar disso, ele gastou um grande, grande tempo mostrando as jogatinas entre ricaços e poderosos. Primeiro, em encontros orquestrado pelo chefe de Molly, Dean Keith (Jeremy Strong). Depois, nos encontros orquestrados pela própria Molly. Mesmo na segunda fase, quando ela realmente entra de cabeça no poker e passa a trabalhar com os viciados em jogo 24 horas por dia, ela não desce do salto. Está sempre bem, bonita, mesmo quando ela já está viciada em diferentes drogas. Quem realmente acredita que aquela mulher não ficou um tanto surtada tomando tantas coisas?

Esse é um dos pontos que me incomodaram em Molly’s Game. O filme acaba sendo “perfeitinho” demais. Parece que Sorkin ficou muito preocupado em render uma “homenagem” para a personagem e não quis torná-la vulnerável ou mais “humana” em momento algum. Assim, essa produção me pareceu um tanto longe da “história real” ou da vida como ela é. Outro ponto que me incomodou: o roteiro perde um longo tempo nas “negociações” e vai-não-vai entre Molly e o advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). Realmente aquilo faz uma graaaande diferença para a história, para o filme? Acho que não.

Assim, tira um pouco daqui, explica melhor ali, simplifica acolá, Molly’s Game poderia ter, perfeitamente, 30 minutos a menos de duração. Isso teria ajudado a história e teria evitado que eu tivesse que lutar para não dormir no cinema. Olha, não cheguei a “pescar” ou a cochilar, mas que deu vontade, ah, isso deu. Filme bem mediano, para resumir. Poderia ser melhor, se fosse mais realista e desenvolvesse melhor os personagens – especialmente a relação pai e filha. Mas essa produção não faz isso, e o resultado é que ela facilmente provoca tédio e sono.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ah sim, antes que eu me esqueça. Esse filme trata de um outro aspecto além dos que eu citei antes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Molly’s Game aborda muito bem todo o “submundo” da jogatina ilegal nos Estados Unidos. E que está presente em vários outros países também – incluindo o Brasil. Nestes locais, as pessoas cheias de dinheiro que não sabem como gastar as suas fortunas e precisam fazer algo para sentir emoção, se entregam em longas disputas movidas à dinheiro e adrenalina. Para alguns, não importa ganhar ou perder. Interessa fazer parte de um “clube seleto” em que eles entram apenas por estarem dispostos a gastar grandes quantidades de dinheiro.

O mundo é feito destes disparates mesmo. Enquanto aquele bando de ricaços de vários países e origens gastavam milhões de dólares sem propósito algum além de algumas horas de diversão e para saciar o seu vício por jogar, quantas pessoas estão por aí morando nas ruas, pedindo trocados nas esquinas e/ou mendigando qualquer trabalho que lhes dê o que comer? O quanto Molly ou qualquer outro que vemos em cena se importa com isso? E por que mesmo a gente deveria se importar com a história deles? Sim, não dá para ignorar que eles existem. Mas acho que tem histórias mais interessantes para conhecermos e para nos inspirarmos – até porque a história de Molly não me inspira para nada.

Molly’s Game marca a estreia de Aaron Sorkin na direção. Ele é bem conhecido como roteirista. Fez a sua carreira nessa área. Inclusive ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2011, pelo roteiro de The Social Network (comentado por aqui). O que comentar sobre ele como diretor? Que ele não faz nada demais. Faz uma direção “básica”, digamos assim. Focada nos atores, na dinâmica entre eles e contando as suas histórias de forma pincelada aqui e ali. Mas nada que realmente surpreenda.

Gosto de várias pessoas que estão nesse elenco. Mas não acho que ninguém está realmente brilhante nesta produção. Até porque o roteiro não ajuda muito, não é mesmo? Com um roteiro mais ou menos, não tem como um grande ator fazer um trabalho realmente memorável. Assim, todos estão bem, mas nada que você não possa esquecer após uma semana de ter visto a esse filme.

Entre os atores que fazem parte deste elenco, vale comentar o bom trabalho – mas não excepcional, volto a dizer – de Jessica Chastain como Molly Bloom; Michael Cera como Player X, o jogador que realmente define o sucesso ou o fracasso como organizadora de partidas da protagonista; Jeremy Strong como Dean Keith, o sujeito sem noção que introduz Molly na vida do poker; Brian d’Arcy James como Brad, o cara que sempre perde mas que continua jogando; Bill Camp como Harlan Eustice, um cara talentoso no poker, mas que perde a cabeça quando começa a perder no jogo; Idris Elba em um papel super morno como o advogado Charlie Jaffey; Kevin Costner em quase uma ponta como Larry Bloom, pai de Molly; Chris O’Dowd como Douglas Downey; Graham Greene em uma super ponta como o juiz Foxman; Samantha Isler como a jovem Molly e Piper Howell como Molly aos sete anos de idade.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a edição de Alan Baumgarten, Elliot Graham e Josh Schaeffer – que realmente se mostra interessante no início do filme e, depois, cai um tanto no “lugar comum”; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen; o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Brandt Gordon; a decoração de set de Patricia Larman; e os figurinos de Susan Lyall.

A única parte realmente interessante de Molly’s Game é quando Kevin Costner conversa com a filha sobre o que aconteceu com ela e sobre a sua motivação para ter chegado tão fundo no poço. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, segundo a análise de Larry Bloom, tudo que Molly fez se explica pelo fato dela ter descoberto, ainda criança, que o pai traía a mãe dela (interpretada por Claire Rankin). Isso é interessante. Para as pessoas perceberem como algumas decisões muito equivocadas que elas podem tomar quando adultas tem, de fato, relação com decepções, traumas e descobertas ruins que elas tiveram na infância e/ou juventude. Especialmente quando o assunto está relacionado aos pais. No caso de Molly, ela se decepcionou com o pai, que deveria ser um exemplo para ela, e, como consequência, passou a encarar os outros, incluindo a sociedade, com um bocado de cinismo (e desprezo, até). E tudo porque ela não resolveu bem a questão da traição paterna. Interessante.

Molly’s Game estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros oito festivais. Nessa trajetória, o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 41 – incluindo a indicação para o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Público como melhor filme dos EUA no Festival de Cinema de Mill Valley.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Dizem, nos bastidores, que existe uma grande probabilidade do Player X ser, na vida real, o ator Tobey Maguire.

Molly Bloom falou para o diretor e roteirista Aaron Sorkin que gostaria que o seu papel fosse interpretado por Jessica Chastain.

No filme, o advogado de Molly aparece lendo um dos exemplares do livro lançado por ela e que conta a sua história. Na vida real, o livro de Molly não foi publicado antes do julgamento dela ter terminado.

De acordo com Molly Bloom, a maior quantia que ela viu um jogador perder em uma noite foi de US$ 100 milhões. Esse mesmo jogador recuperou esse dinheiro no dia seguinte. Agora, vocês já pensaram uma jogatina significar prejuízo de US$ 100 milhões? Algo realmente inacreditável.

A quantidade de dinheiro que o FBI apreendeu de Molly e a multa que ela teve que pagar por fazer algo ilegal foi bem maior no filme do que na vida real.

Molly’s Game é uma coprodução dos Estados Unidos, da China e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 195 críticas positivas e 42 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,2. Acho que os crítico e os usuários do site IMDb realmente viram mais qualidades nessa produção do que eu. 😉

Molly’s Game tem 140 minutos de duração – ou seja, 2h20. Tranquilamente, como eu disse antes, ele poderia ter meia hora a menos. Muito longo para o meu gosto.

De acordo com o site Box Office Mojo, Molly’s Game faturou pouco mais de US$ 28,7 milhões nos Estados Unidos. Não há informações ainda sobre os outros mercados em que a produção já estreou.

Essa é a última crítica que eu publico aqui no blog antes da entrega do Oscar. Logo mais, vou começar a cobertura da premiação aqui no site. A minha expectativa é que os prêmios sejam bem espalhados. Acho que vários filmes vão levar pelo menos um ou dois Oscar’s para casa. Será bacana de ver. Muita gente sairá feliz da noite de hoje. Quem vai levar Melhor Filme? Estou entre Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui); Dunkirk (com crítica neste link) e The Shape of Water (com crítica por aqui). Eu, francamente, votaria no primeiro. Mas não me surpreenderia se um dos outros dois desse uma de “zebra” e levasse o Oscar para casa.

CONCLUSÃO: Francamente, eu nunca indicaria Molly’s Game ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Se eu votasse e decidisse qualquer coisa na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, é claro. Filme um tanto pretensioso demais, essa produção sofre mesmo por ser longa, repetitiva e arrastada. Honestamente? Há muitos, mas muitos mesmo filmes melhores no mercado.

Só perca o seu tempo com essa produção se você tem uma “tara” especial pelo roteirista, pelo diretor ou por algum dos atores em cena. Do contrário, faça uma escolha melhor e assista a uma outra produção melhor acabada – nessa lista, incluo inclusive o fenômeno Black Panther, que segue nos cinemas e é uma pedida bem melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Molly’s Game ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado já é um grande prêmio para Aaron Sorkin. Mas alguma chance do filme ganhar nessa categoria? Nenhuma. Concorrendo com Call Me By Your Name (comentado por aqui), The Disaster Artist, Logan (com crítica neste link) e Mudbound, Molly’s Game tem chance zero de levar a estatueta dourada para casa.

Para mim, o grande favorito nessa categoria é mesmo Call Me By Your Name. O filme merece levar o Oscar. Não assisti ainda a Mudbound e a The Disaster Artist, mas acho que depois de Call Me By Your Name, seria interessante ver Logan premiado – no caso do primeiro não ser, claro. Mas Molly’s Game não merece levar. Na verdade, como eu disse antes, nem merecia ter sido indicado. Mas o Oscar tem dessas coisas. Para mim, Molly’s Game foi indicado porque a Academia gosta de Sorkin. Nada mais.

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The Big Short – A Grande Aposta

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Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.

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Selma – Selma: Uma Luta pela Igualdade

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Filme necessário e um dos melhores de 2014. Ainda bem que ele pode ganhar um pouco de visibilidade com o Oscar 2015, ainda que seja um dos menos comentados e badalados da premiação este ano. Selma, que baita filme! Há tempos eu queria assistir a uma produção decente sobre Martin Luther King Jr. e este título, finalmente, cumpre este papel. Para você que quer ouvir discursos inspiradores, sentir uma luta legítima ser desenvolvida com vigor na sua frente, mesmo que em uma obra de cinema, esta é uma ótima oportunidade. Inspirador.

A HISTÓRIA: Martin Luther King Jr. (o ótimo David Oyelowo) se prepara para um discurso de agradecimento. Mas após algumas frases, ele diz para a mulher, Coretta Scott King (Carmen Ejogo) que aquilo não está certo. Ele não se sente bem com a roupa que está usando. Sua cabeça está em outro lugar, nos homens, mulheres, jovens e crianças ainda marginalizados por serem negros. Coretta olha para o marido, eles tem um momento de paz, antes de Luther King Jr. receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Em seu discurso, Luther King fala que aceita aquela honra em nome de todos que morreram por serem negros e pelos 20 milhões de homens e mulheres negras que lutam por sua dignidade. Enquanto o discurso dele é ouvido, vemos cenas de um grupo de meninas negras descendo a escadaria de uma Igreja. Este filme conta os bastidores da luta de Luther King e dos negros pelo direito de votar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Selma): Ah, como faz toda a diferença do mundo um ótimo roteiro conduzindo a narrativa. Paul Webb faz um trabalho excepcional com o texto de Selma, sabendo ponderar diversos elementos narrativos nesta história, o que lhe garante ritmo, paixão e muitos elementos históricos.

Para começar, impossível fazer um filme decente sobre Martin Luther King Jr. sem utilizar os seus discursos inspirados. Provavelmente ele foi um dos grandes oradores de todos os tempos. E isso sem acrescentar o famoso e histórico discurso em Washington. Não. Este filme mostra os acontecimentos após a famosa Marcha sobre Washington, quando Luther King proferiu um dos discursos mais lembrados de todos os tempos, conhecido sob o título “Eu tenho um sonho” no dia 28 de agosto de 1963.

Inclusive, no início do filme, quando Luther King é agraciado com o Nobel da Paz, o orador que o apresenta lembra que aquele homem tinha um sonho. Pois bem, Selma fala de outro acontecimento marcante não apenas na vida deste homem genial por ter sido um ferrenho defensor dos direitos humanos, da paz e de igualdade racial. Esta produção aborda as marchas de Selma até Montgomery, cidades no Alabama, durante alguns meses de 1965.

O movimento com base em Selma foi fortemente reprimido pelas forças policiais sob o comando do governador George Wallace (Tim Roth). Houve muita pancadaria e mortes, tudo com cobertura da imprensa, inclusive das TVs. Aqueles eventos foram decisivos para que a opinião pública dos Estados Unidos mudasse e ficasse a favor, pelo menos em sua maioria, da igualdade dos direitos civis.

É emocionante acompanhar o movimento daquele grupo liderado por Luther King. Mas antes, vemos um exemplo prático, com a tentativa Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) em se registrar no cartório eleitoral para poder votar, sobre a problemática que precisava ser combatida. A lei, a Constituição dos Estados Unidos, previa o voto dos negros. Mas Estados como o do Alabama orientavam os responsáveis por fazer o registro dos votantes a não aceitar negros. Isso é mostrado sem firulas logo no início do filme.

Outro momento inteligente da produção, visto logo nos primeiros minutos, é mostrar o desconforto de Luther King em estar tão “alinhado” para receber o Nobel, em seguida ouvir parte do discurso dele enquanto acompanhamos um grupo de meninas inocentes caminhando para a morte em mais um atentado violento contra negros. Claramente o roteirista e a diretora Ava DuVernay quiseram mostrar que apesar do Nobel e dos discursos inspirados, nem Luther King conseguia frear desta forma a violência contra os seus irmãos.

Feita esta introdução, muito bem planejada, mergulhamos na tentativa de negociação de Luther King com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que a questão do voto fosse respeitada no país como política clara do Estado. No diálogo, Luther King não conseguiu nada, porque Johnson preferia adiar a decisão sem um prazo para resolver o assunto como forma de se preservar politicamente. Daí começa a ação, já que Luther King resolve reforçar em Selma o movimento que pedia igualdade nas urnas.

A partir daí, o filme não alivia. Ele mostra as articulações para a primeira manifestação em Selma e a forte repressão policial. As cenas de brutalidade policial são desconcertantes. Depois seguem outros atos e a primeira morte, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield), morto friamente com um tiro por um policial após ele, a mãe, Viola Lee Jackson (Charity Jordan) e o avô, Cage Lee (Henry G. Sanders) serem perseguidos e covardemente agredidos.

As cenas são impactantes e muito bem filmadas por Ava DuVernay. O interessante do roteiro é que ele foca sempre Luther King, mostrando as reflexões dele, as angústias e a preocupação com as pessoas que poderiam se ferir. Para ajudar, há o texto fantástico e irretocável dos discursos dele, que motivaram as pessoas na época e dificilmente não mexem com quem assiste ao filme hoje em dia. Aliado a isso, ajuda na narrativa os registros feitos pelo FBI na época, quando Luther King e as demais pessoas ao redor dele eram monitoradas e vigiadas.

Os registros do FBI, em especial, dão um toque muito interessante para o filme. Revelam um hábito antigo daquele país de monitorar as pessoas que eles consideravam relevantes para o sistema, especialmente se apresentavam “algum risco”. Especialmente interessante, ainda na parte inicial do filme, um diálogo entre o presidente Lyndon B. Johnson e o chefe do FBI J. Edgar Hoover (Dylan Baker). Inicialmente Hoover sugere que o “problema” Luther King poderia ser resolvido facilmente dando um “fim” na ameaça.

Como Johnson resiste a ideia de eliminar Luther King, a sugestão seguinte de Hoover é de desestabilizar o líder negro ao dinamitar o casamento dele com Coretta que, segundo o FBI, já estaria balançado – e de fato estava. Apesar das ameaças que recebia e da ausência do marido, assim como o risco eminente de morte dele, Coretta se manteve firme ao lado de Luther King. Este apoio é bem mostrado e valorizado no filme.

Com bem explica este texto da Wikipédia, as marchas saindo de Selma foram três. Antes da primeira, houve aquela caminhada pelas ruas de Selma de noite e que acabou sendo conhecido como “domingo sangrento”. Foi quando ocorreu a morte de Jimmie Lee Jackson, em fevereiro de 1965.

A primeira marcha propriamente dita, como bem retrata o filme, ocorrida no início de março, não contou com Martin Luther King Jr. e terminou no confronto na ponte Edmund Pettus. As redes de TV transmitiram o ataque policial e lançaram um movimento de apoio a Marcha de Selma.

A segunda tentativa de fazer o mesmo trajeto teve um apelo muito maior, inclusive com apoio de muitos brancos. Pessoas de diversas parte do país, incluindo Luther King, viajaram até Selma para fazer o mesmo trajeto novamente. Nesta segunda tentativa, eles caminharam até parte do trajeto e retrocederam. No filme, está certo o retrato de muitas pessoas surpresas com a decisão. Mas o roteirista quis sugerir que Luther King deu a ordem para voltar porque teria tido uma “inspiração divina”. Ele até pode ter tido uma, mas ele também tinha uma razão prática.

Antes da marcha acontecer o juiz Frank Minis Johnson (Martin Sheen) havia proibido a manifestação pacífica antes que outras audiências sobre a causa fossem feitas. Luther King já havia avisado aos companheiros que o apoiavam de que eles iriam retroceder. Mas a grande massa realmente não sabia disso previamente, por isso muitos ficaram confusos e perdidos. Mas todos acabaram seguindo o líder Luther King.

Após aquele evento, contudo, quatro membros da Ku-Klux-Kland atacaram três ministros brancos que haviam ido até Selma para apoiar o movimento. Um deles, James Reeb (Jeremy Strong), foi o mais agredido e morreu. Claro que o filme encurta as duas mortes – nenhuma das vítimas morreu na hora, mas após serem atendidas nos hospitais. Essa informação, contudo, não faz falta para a narrativa.

O filme acerta ao mostrar como o presidente Lyndon Johnson chama o governador George Wallace para conversar, mas este se mostra irredutível e não aceita dar espaço para as manifestações e mudar as regras em seu Estado. Depois da morte do manifestante branco, a opinião pública cai de pau no assunto e Johnson de fato encaminha um projeto de lei no Congresso que, depois, se tornaria a Lei dos Direitos ao Voto.

Para fechar o resgate histórico, Luther King e diversas outras pessoas lideraram a terceira e última marcha de Selma até Montgomery, esta sim pacífica e que terminou com o discurso Stars from Freedom do líder negro. Linda toda a sequência final que, inclusive, resgatou cenas verídicas da época. Para finalizar, como é feito com muitos filmes baseados em fatos reais, ficamos sabendo sobre o que aconteceu com alguns dos principais personagens desta produção depois que o discurso de Luther King termina.

Haveria mais uma morte relacionada ao movimento, desta vez de uma mulher branca, e outros fatos ocorreriam na vida daquelas pessoas retratadas no filme. Luther King sobreviveu aos conflitos e à perseguição em Selma, mas ele seria morto, três anos depois, em Memphis. Este filme é uma homenagem muito justa a ele, um homem admirável.

Bem conduzido, bem escrito e com ótimos atores envolvidos no projeto – inclusive em papéis bem secundários -, Selma é um filme marcante e necessário, como comentei lá encima. Para mim, ele foi mais envolvente e impactante que o premiado 12 Years a Slave, que ganhou três Oscar’s, incluindo o de Melhor Filme, em 2014.

Verdade que 12 Years a Slave trazia uma história menos conhecida à tona mas, ainda assim, Selma me pareceu mais interessante especialmente pelos discursos de Luther King. Pena que dois anos seguidos de filmes sobre igualdade e justiça para os negros não emplaca na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma pena.

Mas antes de finalizar, queria citar uma parte que me tocou especialmente neste filme. Perto do final, e com a iminência de que Luther King poderia ser morto a qualquer momento – o que tornaria a situação ainda mais complicada -, o emissário do presidente dos Estados Unidos, John Doar (Alessandro Nivola), sugere para que o líder do movimento negro se preserve e não se exponha mais na última marcha.

Luther King, com uma lucidez absurda, comenta que ele não é diferente dos demais, que ele também quer viver muito e ser feliz. Ele diz que poderia se focar no que ele queria, mas que não faria isso porque ele deveria fazer o que Deus queria. Impressionante quando uma pessoa percebe que tem um propósito maior e que ela pode fazer a diferença, mesmo que isso significar a sua morte. Existe exemplo maior de bravura e de honra? Não foi daquela vez que ele morreu, mas ao seguir lutando pelos direitos das pessoas, mais tarde, o fim trágico chegaria.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante como todos os atores estão bem neste filme. O destaque, evidentemente, é o protagonista. David Oyelowo encarna Martin Luther King Jr. e passa muita emoção, seriedade e compromisso com a causa que o líder negro defendia. Ele emociona, juntamente com o roteiro perfeito de Paul Webb. A diretora Ava DuVernay acerta também na escolha de cada ângulo e das dinâmicas com os atores.

O elenco de Selma está recheado de presenças ilustres, inclusive e especialmente em papéis bem secundários. No elenco principal, dos atores que aparecem mais, há nomes menos conhecidos do grande público, como Carmen Ejogo como Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr.; André Holland como Andrew Young e Colman Domingo como Ralph Abernathy, os dois braços direitos do protagonista. Fazem parte do grupo que acompanha Luther King os atores Ruben Santiago-Hudson como Bayard Rustin; Omar J. Dorsey como James Orange; Common como James Bevel; E. Roger Mitchell como Frederick Reese; e Wendell Pierce como o reverendo Hosea Williams.

Entre os moradores de Selma que acabam sendo importantes para o movimento, inclusive por alguns se tornarem vítimas dos absurdos policiais, destaque para Keith Stanfield como Jimmie Lee Jackson; Henry G. Sanders como Cager Lee; Charity Jordan como Viola Lee Jackson; Stephan James como John Lewis e Trai Byers como James Forman, dois estudantes que lideram o movimento negro em Selma e que divergem em diversos pontos das ações nas cidades. Em uma ponta também merece menção Nigel Thatch como Malcolm X.

Comentado os nomes menos conhecidos, vamos aos famosos que entraram no filme para fazer papéis pequenos. Começo com Oprah Winfrey, também produtora do filme, como Annie Lee Cooper, que diversas vezes tinha tentado, em vão, fazer um registro como eleitora e que, no primeiro ato público em Selma, é agredida por policiais. Tom Wilkinson está ótimo como o presidente Lyndonn B. Johnson, assim como Tim Roth que, mesmo aparecendo menos que Wilkinson, tem pelo menos uma cena inesquecível de diálogo com o veterano ator inglês.

Giovanni Ribisi interpreta a Lee White, braço direito do presidente; Dylan Baker se sai bem em um papel pequeno como J. Edgar Hoover, do FBI; Jeremy Strong também faz uma boa participação como James Reeb, primeira vítima branca do movimento; Alessandro Nivola aparece para intermediar as negociações entre o presidente de Luther King; Cuba Gooding Jr. como Fred Gray; e Martin Sheen faz uma super ponta – inclusive não creditada – como o juiz Frank Johnson.

Da parte técnica do filme, destaque para a ótima direção de fotografia de Bradford Young; para a edição de Spencer Averick; para a direção de arte de Kim Jennings; para os figurinos de Ruth E. Carter; e para a trilha sonora, incluindo a excelente canção Glory, interpretada por John Legend e Common.

Selma estreou no Festival AFI em novembro de 2014. Em fevereiro ele está confirmado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 71, incluindo dois Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Canção para Glory, composta por John Legend e Common; e para o prêmio Freedom of Expression Award entregue pela National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados de Georgia e Alabama, nos Estados Unidos. Foram rodadas cenas em cidades como Selma, Montgomery, Marietta, Conyers e Atalanta.

Agora, a seção de curiosidades sobre esta produção. Antes de Ava DuVernay assumir o projeto, Lee Daniels estava escalado como diretor. David Oyelowo lutou durante sete anos para conseguir o papel principal, porque Daniels inicialmente achou que ele não seria o melhor nome para interpretar Luther King. Mas DuVernay apostou nele.

Tim Roth cresceu durante a era de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Ele disse que lembra do governador George Wallace, guardando na memória que ele ficava espantado com as besteiras que saia da boca do político, que ele considerava um “monstro” – e a quem, ironicamente, ele interpretaria agora.

Entre os diretores interessados no roteiro de Selma estavam Steven Spielberg, Stephen Frears, Paul Higgs, Spike Lee e Michael Mann, além do já citado Lee Daniels.

O esquecimento do Oscar de indicar Ava DuVernay como Melhor Diretora e David Oyelowo como Melhor Ator provocou protesto de cinéfilos e pessoas dos bastidores de Hollywood. Os esquecimentos foram creditados à falta de diversidade racial em Hollywood e ao fato do estúdio Paramount não ter conseguido enviar cópias do filme a tempo para todos os membros da Academia conferirem o filme.

Ainda que não tenha recebido o crédito como coautora do roteiro, a diretora Ava DuVerney afirmou que fez alterações em 90% do texto de Paul Webb, incluindo ter dado uma nova versão para os discursos de Luther King – isso foi necessário porque outro estúdio tem os direitos dos originais.

Selma teria custado cerca de US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 39,5 milhões. Ainda falta muito para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Selma. Uma avaliação boa mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 99% e uma nota média de 8,7.

Selma é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos homens mais fantásticos de todos os tempos, Martin Luther King, em um momento decisivo não apenas de sua trajetória mas, e principalmente, dos Estados Unidos. Se em Lincoln assistimos a um homem corajoso mudando parte da história, aqui vemos a outro liderando um movimento fundamental para consolidar aquela mudança. Interessante assistir a Selma em 2015, ano em que um negro segue como presidente dos Estados Unidos e batalha para tornar aquele país ainda mais justo. Filme envolvente do início ao fim, com um ótimo roteiro, direção e um ator liderando todo o processo para quem precisamos tirar o chapéu. Vale muito o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Indicado apenas em duas categorias, sendo apenas uma realmente relevante, infelizmente as chances de Selma são praticamente zero no Oscar. Quer dizer, ela pode até levar em Melhor Canção. Mas quem realmente se importa com esta categoria? As pessoas que vencem, evidentemente, e quem tem o nome lembrado em uma indicação. Mas é só.

Selma também concorre como Melhor Filme. Mas por ele ter sido indicado apenas a esta categoria e a Melhor Canção, chances zero para o filme. Uma pena. Acho que ele deveria estar competindo lado a lado com Boyhood e The Imitation Game. Para mim, os melhores filmes da lista até o momento.

Da minha parte, meu voto ficaria ainda para Boyhood, mas Selma seria a minha segunda escolha. E não ficaria chateada se ele ganhasse. Depois viria The Imitation Game. E todos os demais… bem, acho inferiores. Assim de simples. Só falta Whiplash para fechar esta minha avaliação. Veremos se ele muda algo. 🙂

Mas para resumir a avaliação sobre Selma, infelizmente o filme corre totalmente por fora. Acho que ele deveria ter sido lembrado em pelo menos outras duas categorias: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator para o brilhante David Oyelowo. Não foi desta vez. Lástima.

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Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.