First Man – O Primeiro Homem

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O ser humano é capaz de feitos incríveis. Quase inacreditáveis. Uma história marcante sobre o potencial da Humanidade em surpreender e superar todas as perspectivas é contada com esmero em First Man. Por que o filme é brilhante? Além da parte técnica, perfeita, First Man mergulha sem pudores na vida real de um herói dos Estados Unidos – e, por que não dizer, da humanidade? – sem que este mergulho seja carregado de maquiagem. Não, muito pelo contrário. Vemos como nunca, até então, o quanto foi dura a conquista do espaço e o preço alto que muitos pagaram por isso. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Um voo turbulento. Tudo sacode, tudo treme, o horizonte não parece seguro. Dentro da cabine da aeronave, o piloto Neil Armstrong (Ryan Gosling) procura manter a calma mesmo frente a um cenário complicado. A nave acaba subindo, até 140 mil pés, e depois começa a descer. O voo é angustiante, mas o avião sobe até “ricochetear” na atmosfera.

Lá em cima, Armstrong tem uma visão fantástica, algo restrito a poucos. Inicialmente, ele não parece ter controle da aeronave, mas depois ele consegue esse controle e começa a descer. Esta é a história de Neil e de um feito incrível da humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Man): Eu não vou mentir para vocês. Fiquei extasiada ao assistir a First Man. De verdade, o filme me tocou, me envolveu e me deixou um bocado de tempo impactada. Assisti ele há algumas semanas, no cinema, e após desovar a outra crítica, finalmente chego a First Man.

Certamente vocês, como eu, já assistiram a diversos filmes “baseados em uma história real”. Existem muitos exemplos por aí. Uns melhores que outros. Não é fácil fazer um filme do estilo, claro. Muitos caem na armadilha do “filme-homenagem”, ou seja, naquela produção que acaba elogiando mais os personagens reais do que realmente procurando contar a história com a complexidade que qualquer  história real apresenta.

Porque a gente pode até tentar fazer tudo da maneira simples e tentar simplificar a problemática da vida, mas muitas vezes o que acontece em diferentes etapas da nossa trajetória não é tão simples quanto a gente gostaria. A vida é complicada, algumas vezes. Então por que muitos filmes baseados em histórias reais procuram simplificar ao máximo essas histórias?

First Man não faz isso. E talvez essa seja a base de toda a qualidade que o filme apresenta. Porque, como digo e gosto de repetir, um filme para ser bom, realmente bom, deve ter um ótimo roteiro. Encontramos exatamente isso no trabalho de Josh Singer, baseado no livro de James R. Hansen. First Man não é apenas envolvente e bem construído em sua narrativa, mas ele mergulha em um personagem central para mostrar a sua complexidade e sutilezas.

Ao redor desse personagem principal, que é como se fosse o sol em uma constelação, temos a vários personagens “satélites” que ajudam a explicar o protagonista. O sistema todo se mantêm em equilíbrio e trabalha em conjunto de uma forma muito precisa e interessante. Mas não é apenas o roteiro que explica o impacto e a força de First Man. Outro elemento fundamental, e acredito que um verdadeiro diferencial deste filme, seja a direção do talentoso Damien Chazelle.

O jovem diretor de 33 anos – ele terá 34 quando o Oscar 2019 for anunciado -, que anteriormente já nos mostrou o seu talento em Whiplash (comentado por aqui) e La La Land (com crítica neste link), apresenta em seu terceiro longa como diretor um passo à mais em direção ao seu amadurecimento enquanto realizador. Para mim, First Man é o seu melhor filme até o momento.

Não é nada simples mostrar toda a angústia, o desafio e o risco que pilotos de aeronaves e, depois, astronautas como Neil Armstrong na muito longínqua década de 1960. A direção de Chazelle mergulha naquela época e em cada detalhe da vida de Armstrong e das demais pessoas envolvidas diretamente na corrida espacial norte-americana. O resultado disso é que o espectador se sente literalmente imerso naquele realidade para vivenciar um dos grandes momentos da humanidade.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma quedinha gigantesca – e aí está uma antítese irônica – pelo poder de superação da raça humana. Não apenas por termos nos adaptado por tanto tempo, como espécie, e seguirmos fazendo isso, mas para nos aventurarmos por searas que nem mesmo os homens de ficção poderiam imaginar há mais de um século.

Dentro da história do nosso universo e mesmo da Terra, somos a espécie com menos “importância” em termos de longevidade. Mas de tempos em tempos alguns homens e mulheres buscam superar a nossa condição humana e nos levar para novas fronteiras do conhecimento e do saber. First Man conta uma destas histórias, com uma franqueza de roteiro e uma potência de direção que não é muito comum de encontrarmos no cinema de Hollywood.

Esse meu “fraco” pelas histórias de superação e pela capacidade humana de chegar a lugares pouco antes considerados impossíveis me fez cair como um patinho nessa história. Levada pelas mãos por uma competente e envolvente direção de Chazelle, me emocionei e fiquei realmente impactada com a história de Armstrong, de sua família e de seus colegas. De todas aquelas pessoas que se sacrificaram tanto para que a humanidade chegasse aonde ela nunca tinha chegado até então.

Além dos elementos já comentados, algo incrível nesse filme é como ele resgata com perfeição os anos 1960. Em cada detalhe, desde as casas e ruas comuns da época até os bastidores da Nasa. Impressionante vislumbrar como os americanos estavam distantes do sonho de chegar à lua mas, apesar de todos os prognósticos contra, eles avançaram arriscando pessoas e recursos para ganhar a queda de braço com os russos. Uma história realmente impressionante e que merecia ser contada.

Agora, além de tudo isso, precisamos falar sobre a humanidade que está neste filme, além da narrativa científica fascinante. Como comentei antes, um dos grandes méritos de First Man é que ele não se preocupa em homenagear as pessoas, simplesmente. Armstrong é mostrado da forma mais crua possível. Ele era um sujeito sério, quieto, preocupado com o seu “dever” e, ao mesmo tempo, angustiado com a perda da filha Karen (Lucy Stafford).

Apesar de ter uma história fascinante e de ser muito talentoso, Armstrong era um sujeito que não conseguia, exatamente, lidar com tudo que estava acontecendo. Ele tinha muita pressão no trabalho e, em casa, se cobrava sozinho pela morte da filha – ou, se ele não se cobrava, tinha dificuldade de aceitar.

Então ele amava a esposa, Janet, magistralmente interpretada por Claire Foy, e conseguia dar atenção para os dois filhos, Rick (interpretado por Gavin Warren e por Luke Winters) e Mark (Connor Blodgett), mas ele nem sempre conseguia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Então ele era um profissional super competente e um sujeito esforçado em casa, mas não era perfeito. Como ninguém é, na verdade. First Man apresentar isso com tanta franqueza é algo realmente precioso.

Enfim, o que mais eu posso dizer para vocês? Apenas que esse filme me conquistou do início ao fim. Por sua técnica apurada; pela direção mais que competente de Chazelle; pelo roteiro sensível, envolvente e bastante humano de Singer; pelo ótimo trabalho de Gosling e Foy, em interpretações envolventes e muito convincentes; enfim, pelo conjunto da obra do filme.

Além de tudo isso, First Man passa, a meu ver, mensagens realmente poderosas e importantes. Primeiro, que a humanidade é sim capaz de feitos incríveis. Mas por mais que o homem chegue à lugares inacreditáveis e veja cenas estonteantes, como a que vemos nesse filme quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na Lua – como não ficar completamente extasiada(o) com aquelas cenas? -, e por mais que estas conquistas sejam importantes para o indivíduo e para o coletivo, o que importa, no final, é o que nos une e o que não termina. Sim, o amor.

Para mim, esta foi a mensagem mais forte de First Man. E o que fez eu realmente amar esse filme. A vida é feita de muitos sacrifícios. Alguns conseguem fazer feitos incríveis para a humanidade, como Armstrong e Aldrin. Outros, conseguem realizar pequenos grandes feitos sobre os quais ninguém nunca vai ouvir falar. Mas, no final das contas, o que importa é honrar e homenagear quem a gente ama. E voltar para casa, ah, como isso é incrível! Sentir que você tem um lugar para retornar. Estas são algumas de várias reflexões e sentimentos que esta pequena joia rara nos apresenta.

Se para você estes valores que eu citei antes são importantes, se você se interessa por grandes momentos da nossa história e por pessoas “simples” mas geniais que tornaram eles possíveis, simplesmente não perca esse filme. Ele vale pela técnica e pelo sentimento. Pelo cuidado que apresenta em cada detalhe. Para mim, um dos grandes filmes do ano – e, possivelmente, dos últimos anos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não tinha nascido quando o homem foi à lua. Vi as imagens depois, é claro, assim como soube das teorias da conspiração e da descrença de muitas pessoas sobre o que aconteceu. Algo que eu acho incrível em First Man é que o filme mostra toda a precariedade daqueles anos, assim como a coragem e a inovação que foram necessárias para que a Nasa saísse de uma corrida espacial em posição de desvantagem e conseguisse passar à frente dos russos.

A história é contada sempre pelos vitoriosos, é claro. Mas com o passar do tempo e através de trabalhos como First Man a gente consegue ter uma visão menos idealizada dos fatos. Vemos os “heróis” como eles são, feitos de carne e osso, de sonhos e de frustrações. Tão bom encontrar pela frente um filme que verdadeiramente procurou nos remeter aos anos 1960 e àquela aventura que nos levou para o espaço. Uma reconstituição perfeita e fascinante. Algo que só o cinema é capaz de fazer.

Apenas por mostrar o desafio da Nasa de explorar o espaço e chegar à lua, uma forma de ultrapassar os “inimigos” russos, First Man já vale o ingresso. Mas o filme não é só isso. Acima de tudo, First Man é um filme muito humano. Primeiro, ao mostrar o cotidiano de “heróis” como Neil Armstrong, assim como as suas famílias.

Depois, por demonstrar como pessoas geniais, mas suscetíveis como qualquer outra a morrer em um acidente aéreo ou no espaço, podem ser capazes de vislumbrar algo tão magnífico como o espaço e pousar na lua. Ainda que eu e você nunca vamos fazer isso, mas pensar que outros como nós já fizeram e ver as imagens de First Man já nos bastam. É a humanidade mostrando que pode liderar feitos incríveis, se assim o desejar.

A direção impecável de Damien Chazelle é um dos principais trunfos de First Man. Ele coloca o espectador sempre em primeiro plano, para que sintamos tudo que o protagonista sente. Algo impressionante, especialmente nas cenas das missões nas quais ele participa. Consequentemente, outros aspectos fundamentais desse filme são a direção de fotografia de Linus Sandgren e os efeitos especiais e os efeitos visuais realizados por dezenas de profissionais. Visualmente, o filme é inesquecível.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso são a Direção de Arte, feita por dezenas de profissionais; a Edição e a Mixagem de Som, também de responsabilidade de dezenas de profissionais; a edição brilhante de Tom Cross; o design de produção de Nathan Crowley; a direção de arte de Rory Bruen, Chris Giammalvo, Justin O’Neal Miller, Benjamin Nowicki, Erik Osusky, Eric Sundahl e Thomas Valentine; os figurinos de Mary Zophres; a decoração de set de Randi Hokett e Kathy Lucas; e a trilha sonora de Justin Hurwitz.

Do elenco, os principais elogios vão para Ryan Gosling, que faz um trabalho bastante sóbrio, coerente e com alguns toques emotivos ao interpretar Neil Armstrong; e para Claire Foy como a esposa de Armstrong, Janet. Eu não acompanhei muito a atriz até o momento, mas ouvi sempre falar muito bem dela. Percebi o porquê ao vê-la nesse filme. Ela realmente está ótima, assim como Gosling – um dos grandes atores da sua geração. Os dois estão perfeitos, sem tirar ou por.

Além de Gosling e de Foy, merecem ser mencionados, pelo trabalho competente que apresentam, Jason Clarke como Ed White; Kyle Chandler como Deke Slayton; Corey Stoll em quase uma ponta como Buzz Aldrin – ele aparece menos que White e Slayton; Patrick Fugit como Elliott See; Christopher Abbott como Dave Scott; e Ciarán Hinds como Bob Gilruth. Todos “homens da Nasa”.

Também está bem, em um papel secundário, Olivia Hamilton como Pat White, esposa de Ed White. Além deles, vale citar o trabalho dos atores mirins, que interpretam aos filhos do casal Neil e Janet Armstrong: Gavin Warren e Luke Winters, nas duas versões de Rick Armstrong; Connor Blodgett como Mark Armstrong e Lucy Stafford como Karen Armstrong.

First Man estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória, e até o momento, First Man recebeu três prêmios e foi indicado a outros dois.

Os prêmios que First Man recebeu foram: Melhor Diretor do Ano para Damien Chazelle, Melhor Compositor do Ano para Justin Hurwitz e Melhor Editor do Ano para Tom Cross, todos conferidos pelo Hollywood Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Algumas das vozes que ouvimos no filme são gravações reais do programa espacial norte-americano. Por exemplo, quando a Apollo 11 aterrissa na lua, a resposta de Houston é a original. Ouvimos, naquele momento, a voz do astronauta Charles Duke, que foi o responsável pela comunicação com a Apollo 11 durante o pouso.

Para esta produção, Chazelle fez questão de treinar os atores na Nasa e de enviar para eles vídeos que estão no YouTube com cada pessoa que eles iriam personificar. Com isso, ele esperava que cada ator reproduzisse o jeito de falar e os “tiques” de linguagem de seus personagens. Ele também indicou uma série de livros e de filmes que eles deveriam assistir.

A famosa frase de Armstrong ao pisar na lua é objeto de controvérsias. O que ouvimos no filme é o que foi possível ouvir na Terra no áudio da Nasa: “Esse é um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Mais tarde, Armstrong disse que queria ter dito “Esse é um pequeno passo para um homem”, e que ele achava que tinha dito isso, de fato, mas nunca foi possível extrair isso da gravação daquele momento. Então o filme reproduz o que foi documentado.

A intenção de Chazelle com First Man foi “abordar a história como um thriller, fazendo o público sentir os perigos enfrentados pela equipe de astronautas”. Ele, de fato, conseguiu esse intento. Com louvores.

Ryan Gosling sofreu uma lesão durante uma das várias cenas que ele filmou em uma nave espacial. Chegando em casa, e após reclamar de forma “bizarra” e exagerada sobre ladrões de donuts, a companheira do ator, Eva Mendes, sugeriu que ele procurasse um hospital. Foi aí que eles descobriram que ele tinha sofrido uma concussão. Um perigo.

Os filhos de Neil Armstrong, Mark e Eric, disseram que First Man faz o retrato mais preciso possível dos pais deles, Neil e Janet.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 305 textos positivos e 41 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 8,1. Para mim, chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – bastante alta para o padrão do site. O site Metacritic apresenta o “metascore” 84 para First Man, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O metascore para o filme é fruto de 54 críticas positivas e de duas críticas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, First Man teria custado US$ 59 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 45 milhões. Ou seja, no total, o filme faturou cerca de US$ 87 milhões. Ele mal está se pagando, portanto. Uma pena, porque eu acho que ele merecia mais.

Pensando já no Oscar 2019 – iniciei esta “corrida” pela premiação com a crítica de A Star Is Born, que vocês podem acessar por aqui, mas logo vou me “debruçar” nos candidatos da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, acredito que First Man pode emplacar diversas indicações.

Por baixo, penso que ele pode emplacar em até 10 categorias. Não em surpreenderia se ele fosse indicado a Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Filme. Sim, ele pode chegar a tudo isso, da mesma forma com que pode ser indicado a um número bem menor ou praticamente ser esnobado pela Academia. Veremos, logo mais.

Sobre as chances dele ganhar um ou mais destes prêmios, prefiro esperar para ver quem são os concorrentes dele para depois opinar.

First Man é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Para conseguir feitos incríveis, é preciso uma dose considerável de sacrifício. Mas o que se conquista não é pensando em uma pessoa, mas em todos que vieram antes e em todos que já se foram. First Man é um dos filmes focados em uma história real mais interessantes que eu já vi. Especialmente porque ele foge do estilo “homenagem” e apresenta os personagens de forma bastante franca e direta.

A humanidade chegou muito longe, e a cada ano vai conquistando novas fronteiras do saber e se superando. First Man nos mostra o caminho árduo e pouco narrado de uma destas trajetórias. Com ótimo roteiro, interpretações inspiradas e uma direção incrível, é uma destas produções que deveria ser vista por todos. Para mim, um dos melhores filmes do ano e forte candidato ao Oscar 2019.

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White House Down – O Ataque

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O que esperar de um filme dirigido por Roland Emmerich e que tenha a Casa Branca como elemento fundamental? Muita ação, efeitos especiais e uma boa dose de patriotismo, correto? Sim, é isso mesmo que você vai encontrar em White House Down, último filme de ação de Emmerich. Esta produção não foi planejada para criar reflexões ou levantar questões existenciais. Ainda assim, ela apresenta alguns elementos interessantes além da ação pura e simples.

A HISTÓRIA: Emily (Joey King) coloca o celular para despertar pouco depois das 6h30min. Ela quer ouvir as últimas notícias, e fica sabendo sobre o retorno do presidente dos Estados Unidos, Sawyer (Jamie Foxx), após ele propor um acordo de paz envolvendo os países do Oriente Médio. A proposta, dizem as notícias, foi criticada no encontro do G-8, que reúne os países mais ricos e industrializados do mundo. Ao levantar as persianas do quarto, a garota vê helicópteros voando baixo na capital do país, Washington.

Em um deles está o presidente, que pede para que seja feito um pequeno desvio da rota. Com ele, os helicópteros passam pelo Lincoln Memorial, e ele fala de sua admiração por Lincoln para Finnerty (Maggie Gyllenhaal), uma das assessoras diretas de Sawyer. O presidente chega com segurança na Casa Branca. Em seguida, Cale (Channing Tatum) aparece brigando com um esquilo, enquanto aguarda por Raphaelson (Richard Jenkins), que avisa que eles terão uma manhã muito agitada. De fato, os EUA e o mundo ficarão surpresos com aquele dia, que terá um ataque bem orquestrado contra o presidente e a Casa Branca.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a White House Down): Uma premissa básica de qualquer filme de ação é explicar a “problemática” da história e os principais nomes da trama logo de cara. Então marque um X neste quadrinho com White House Down.

O filme com roteiro de James Vanderbilt vai direto ao assunto. Primeiro, apresentando o pequeno drama familiar do protagonista, que vive uma “crise” de representatividade como pai com a filha. Ao mesmo tempo, sabemos do momento de tensão que cerca o presidente dos Estados Unidos, envolvido em mais uma ação pacificadora que encontra crítica em várias partes. E, finalmente, somos apresentados aos atores principais da trama nos primeiros minutos da produção.

Tarefa básica de um roteiro de ação feita, mergulhamos em um estilo de texto que tem sido cada vez mais frequente em filmes do gênero – especialmente os que levam a assinatura de Roland Emmerich: doses de humor salpicadas aqui e ali entre uma correria e outra, uma cena de pancadaria e outra de explosões.

A lógica deste método é simples. Provocar riso, nem que seja de canto de boca, fazendo com que o público relaxe antes da próxima cena de ação que provoque tensão. Quanto mais altos e baixos em sensações no público o filme provoque, mas em um constante “crescente” da ação, melhor. White House Down segue à risca o manual de filmes de ação e consegue conduzir a história no tom certo até o final.

Alguém pode argumentar que este é um filme ufanista demais. Mas convenhamos, amigos e amigas, uma produção que tem a Casa Branca como elemento fundamental poderia ser diferente? Não, acho que não. E cá entre nós, acho o patriotismo – e/ou ufanismo – dos estadunidenses muito positivo. Nós também deveríamos gostar da nossa história e da nossa bandeira com maior intensidade – e não apenas lembrar do verde e amarelo quando torcemos por alguma Seleção do país.

Claro que há críticas a serem feitas para o nosso país, como há críticas nos EUA – e que as pessoas de lá seguem fazendo, apesar do cinema mostrar sempre um povo orgulhoso de seus símbolos nacionais. Agora, sempre vou concordar com a crítica de que os norte-americanos deveriam olhar para além dos seus próprios umbigos, se interessando mais pela história dos outros países do mundo. Mas cá entre nós, o quanto os brasileiros sabem ou se interessam pelos demais países da América do Sul, por exemplo? Então sim, muita vezes olhamos demais para o nosso próprio umbigo também.

Mas deixando para lá a questão “filosófica ufanista” do filme, vamos falar do enredo que ele nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O herói desta produção é um sujeito que não consegue a vaga que desejava, como segurança do presidente dos EUA, mas que acaba salvando a pátria. Claro que ele não faz isso por pura sorte. Cale tem experiência militar, tendo passado três temporadas em missões no Afeganistão e recebido uma medalha por uma ação heroica. Logo percebemos que os vilões da história também são bem preparados, tendo passado pelo Exército, Marinha ou por serviços secretos do país.

Aliás, a escolha do roteirista por mostrar que o risco é interno me pareceu muito interessante. Por duas razões, basicamente. Neste tempo de WikiLeaks e Edward Snowden, com suas respectivas críticas aos métodos de vigilância e espionagem dos EUA, seria ruim Hollywood lançar um filme em que os vilões viessem do Oriente Médio, da Rússia ou de outra parte do mundo preparada para afrontar o poderio do país norte-americano. Além do mais, após os ataques de 11 de Setembro de 2001, ficou cada vez mais difícil um alvo importante dos Estados Unidos ser atacado por alguma iniciativa externa.

Assim sendo, a maior ameaça parece mesmo ser interna. White House Down, desta forma, toca em um tema importante para qualquer país: como lidar com as insatisfações internas de maneira satisfatória? Qualquer governo é composto por pessoas com múltiplos interesses. Este filme deixa algumas motivações, muito palpáveis, bastante claras. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). James Woods interpreta a Walker, chefe de segurança do presidente que está começando a sua última semana de trabalho e que discorda dos métodos de Sawyer; e Richard Jenkins interpreta a Raphelson, que planeja o golpe contra o governo para defender os interesses de seus amigos da indústria armamentista. No caso de Walker, ainda devemos somar a mágoa dele pela morte do filho militar.

O fato é que não são poucos os integrantes de diferentes esferas do governo norte-americano que acreditam que a única solução para conflitos importantes no mundo passam, necessariamente, pela guerra. Isso especialmente no caso do Oriente Médio. White House Down toca neste assunto, o que eu achei uma cereja no bolo – afinal, seria muito mais fácil e “clássico” se o filme mostrasse que a origem do ataque contra a Casa Branca fosse externo. Mas estamos em uma aparente nova fase no mundo, em que a autocrítica – seja individual, seja coletiva, como de governos – predomina. A ameaça, nestes tempos de “sociedade do risco”, seguindo a teoria de Ulrich Beck, está em todas as partes.

Esta produção trata do risco interno, o que facilita a explicação de como um sistema de segurança tão potente como o que cerca a Casa Branca pode ter falhado de forma tão “simples”. Muitos outros filme já revelaram como uma “ajudinha interna” é fundamental para furar esquemas tidos como infalíveis. Claro que, mesmo assim, White House Down tem muitas sequências pouco críveis, especialmente aquelas que envolvem a “impossível” captura do “herói solitário”. Ele nos lembra o Rambo, em muitos momentos – especialmente quando cai de uma altura considerável e, como um gato, sai correndo em seguida sem levar nenhum tiro. 🙂

Agora, algo é fato: Vanderbilt pensou em saídas inteligentes dos “terroristas” para cada passo que o lado oposto poderia adotar. Desde as armadilhas nos corredores – mesmo os alternativos – que poderiam garantir a saída para o presidente, até a preparação para enfrentar as tentativas externas para recuperar a Casa Branca. As sequências de ação, de ataque e contra-ataque são incríveis. Mais um belo trabalho do mestre em filmes de grandes proporções (blockbusters) Roland Emmerich.

Um toque bem interessante também a “ambientação” da história nos dias atuais. Afinal, impossível não enxergar Barack Obama em Sawyer. Bacana que, no filme, o presidente não fica na postura da “dama que precisa ser protegida”. Demonstrando preparo para o uso de armas e para táticas de escape, Sawyer também assume a ação, toma iniciativa em diferentes momentos e demonstra ter uma real preocupação pelo país e pelas pessoas. Uma leitura de Obama que muitos acreditam – e outros discordam, como White House Down mesmo sugere. As referências iniciais de admiração do presidente fictício à figura de Abraham Lincoln também remetem à Obama – que sempre reafirma que a figura do ex-presidente que defendeu o voto das mulheres, e tantas outras leis que continuam atuais hoje, lhe inspira.

Gostei também de outro toque do roteiro: a influência que as novas gerações, superconectadas, podem ter em fatos decisivos. A esperta Emily, filha de Cale, tem a coragem desta moçada jovem e, desta forma, consegue uma resposta interessante do presidente dos EUA antes da Casa Branca ser atacada. Ela vai demonstrar essa coragem em muitos outros momentos do filme. Dona de um blog, algo muito bacana que a internet nos propiciou desde o final dos anos 1990, Emily é rápida no registro da ameaça com o smartphone que levava consigo e garante, assim, imagens importantes para a imprensa e para a inteligência do governo norte-americano. É a força das novas tecnologias e da apropriação que as pessoas estão dando para elas mostrando força em obras ficcionais e na vida real também.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que despertou a minha curiosidade durante boa parte do filme foi saber onde Emmerich teria rodado White House Down. Porque é evidente que não foi dentro da Casa Branca. 🙂 Buscando informações a esse respeito, descobri que esta produção foi filmada nos estúdios da Mel na cidade de Montreal, no Canadá. Vários sets foram construídos no local, incluindo uma réplica do interior da Casa Branca. A maioria das cenas externas da produção, claro, foram rodadas em Washington.

Em um filme como este, um elemento técnico é um artigo vital: a trilha sonora. Harald Kloser e Thomas Wanker fazem um excelente trabalho e apresentam uma trilha envolvente e, nos momentos certos, bastante emotiva. Além deles, vale destacar o trabalho da diretora de fotografia Anna Foerster, a edição de Adam Wolfe e, claro, o trabalho das equipes dos departamentos de Arte, de Som, dos Efeitos Especiais, e dos Efeitos Visuais. Aliás, não vou me surpreender se esta produção for indicada em algumas destas categorias técnicas, especialmente as últimas, no próximo Oscar.

Channing Tatum reforça, com o trabalho nesta produção, como está em uma ótima fase. Com White House Down ele demonstra como pode ser um nome forte nos filmes de ação – além de estrelar dramas e filmes em que precisa demonstrar todo o seu talento rebolando (como Magic Mike, comentado aqui no blog).

White House Down destaca o trabalho de três atores. Além de Tatum, o sempre competente Jamie Foxx e a revelação Joey King. Além deles, há nomes fortes que aparecem em papéis um pouco menores. Merecem destaque os veteranos James Woods como Walker, e Richard Jenkins como Raphelson; além dos sempre pontuais Maggie Gyllenhaal como Finnerty, que faz parte da guarda pessoal do presidente e discípula de Walker; Jason Clarke como Stenz, líder do grupo que invade a Casa Branca; Kevin Rankin como Killick, o bandido que vigia os reféns; Jimmi Simpson como Tyler, o “hacker” da produção; Michael Murphy como o vice-presidente Hammond; Rachelle Lefevre como Melanie, mãe de Emily; Lance Reddick como o general Caulfield; e Nicolas Wright como o guia Donnie. Peter Jacobson, conhecido pela série House M.D., aparece em uma ponta como Wallace, que faz parte da comitiva do vice-presidente.

Este filme, o décimo-sétimo na filmografia do diretor alemão Emmerich, estreou no dia 26 de junho na Indonésia. No dia seguinte, ele entrou em cartaz nos cinemas de Israel, do Kuwait, Líbano, Nova Zelândia, Cingapura e Coreia do Sul.

Como pede qualquer filme blockbuster, White House Down custou uma fortuna: US$ 150 milhões, aproximadamente. Nos Estados Unidos, onde está em cartaz desde o dia 30 de junho, o filme conquistou pouco mais de US$ 72,8 milhões nas bilheterias, segundo o site Box Office Mojo. Nos outros mercados, mundo afora, ele acumulou cerca de US$ 65,8 milhões. No total, até agora, US$ 138,6 milhões. Como falta estrear em vários mercados ainda, certamente o filme vai conseguir se pagar e conseguir algum lucro.

Até o momento, White House Down ganhou um prêmio e foi indicado a outros três no Teen Choice Awards. O prêmio que ele levou para casa foi o de Estrela do Verão Masculina para Channing Tatum. O que comprova que o ator é uma das referências para a garotada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção. Esta é uma boa avaliação, levando em conta os padrões da página. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com a produção, dedicando 77 críticas negativas e 69 positivas para White House Down, o que lhe dá uma aprovação de 47% e uma nota média de 5,4.

Eu gostei do filme, é fato. Especialmente porque ele entrega o que esperamos dele. Mas ele tem alguns “probleminhas” que não permitiram que eu desse a nota máxima para White House Down. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, me incomodou um pouco o tempo que os bandidos demoram para encontrar Cale e o presidente e, principalmente, para ligar Cale à Emily. Depois, acho que o filme poderia ser um pouco mais curto. Não faria falta cortar algumas cenas de tiroteio e explosões para tornar a história mais enxuta e dinâmica. Ainda assim, algo que me surpreendeu neste filme é de como algumas cenas, mesmo esperadas, causam impacto. O que mostra a eficiência do diretor e do roteirista, principalmente.

Com este filme, sigo a publicação de críticas dos países mais votados nas últimas “enquetes” aqui do blog. Na primeira, vocês, meus bons leitores, escolheram o Brasil para ser alvo de uma série de críticas. Publiquei algumas delas aqui no blog, e vou seguir buscando filmes nacionais sempre que possível. Depois, vocês votaram nos Estados Unidos para ser alvo de mais uma série de críticas. Pois bem, este é mais um filme desta série. Quando sair o resultado da enquete atual, envolvendo uma parte da Europa, vou focar algumas críticas nas três opções selecionadas até o momento. Assim, tento ampliar a influência de vocês aqui no site. Sigam contribuindo, please!

Chegou antes aos cinemas Olympus Has Fallen, dirigido por Antoine Fuqua e com Morgan Freeman, Gerard Butler e Aaron Eckhart no elenco. Fiquei curiosa para saber se o filme é bom… alguém assistiu? Conseguem comparar com White House Down? Qual é melhor?

CONCLUSÃO: Me surpreende quando alguém detona um filme como este por ele seguir a cartilha dos filmes do gênero. O que esperar de uma história que tem o ataque à Casa Branca e ao presidente dos Estados Unidos como questão central? Claro que haverá muito tiroteio, traidores, drama familiar, patriotismo e um herói que faz a gente lembrar o Rambo. Isso tudo faz parte de White House Down, uma produção com muitos efeitos especiais e a sorte de ótimos atores em ação.

Este filme entrega tudo que promete, e ainda guarda um par de cenas que realmente provocam impacto no espectador. Dava para esperar algo diferente? Tratando-se de Roland Emmerich, não. E quer saber? Isso não é um problema. Acho importante o filme satisfazer as expectativas do público que acompanha a história crescer em tensão até o minuto final. Além disso, White House Down trata da divisão de interesses na Casa Branca, e do perigo que isso pode significar para o mundo. No final, o filme parece sugerir que os Estados Unidos tem mais poder do que qualquer país deveria ter. Afinal, os governos são feitos de pessoas, que são falhas e suscetíveis a desejos de vingança e convicções destrutivas. Apenas por deixar esta questão no ar e por entregar o que promete, White House Down merece o meu respeito.

Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.