The Wife – A Esposa

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Qual papel a mulher que é casada desempenha na sociedade? Atualmente, diversificado – se ela tiver terreno para isso e assim desejar. Mas e há algumas décadas? A mulher estava sempre em uma papel secundário, afinal, “Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, como gostavam de dizer. Mas por que “por trás”? E será que realmente “por trás”? The Wife é um filme muito interessante por tratar deste aspecto, mas não apenas dele. Esta produção bateu forte em mim por abordar com franqueza a questão das aparências. Um marido aparentemente amoroso e atencioso que, depois, vamos ver que não era nada daquilo. Uma boa surpresa nesta temporada.

A HISTÓRIA: Começa em Connecticut em 1992. Joe Castleman (Jonathan Pryce) chega até a cama, onde Joan Castleman (Glenn Close) já está deitada. Ele está inquieto, e Joan pergunta o que ele está fazendo. Ela recomenda que ele não coma doces, como ele está fazendo, porque ele vai acabar não dormindo. Joe diz que se “aquilo não acontecer”, ele não quer ficar em casa recebendo ligações de consolo. Que eles devem ir para um chalé no Maine. Ela olha para cima, aparentemente pedindo paciência para lidar o marido, que está bem agitado. Ele se aproxima dela, mas Joan comenta que não quer sexo e que aquilo estava se desenrolando de forma patética.

Durante a noite, Joe atende uma ligação. Do outro lado da linha, o Sr. Arvid Engdahl, da Fundação Nobel, em Estocolmo, na Suécia. Inicialmente, Joe reage com surpresa, comentando que aquela situação deveria ser uma brincadeira. Sr. Arvid diz que não, mas Joe pede que ele aguarde um pouco porque ele gostaria que a esposa também escutasse, acessando uma outra linha. Em breve, a carreira de escritor de Joe Castleman será reconhecida com um Prêmio Nobel.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wife): O trabalho dos atores é o primeiro aspecto que salta aos olhos nesse filme. O segundo elemento de destaque, sem dúvida, é o roteiro de Jane Anderson, muito bem construído e envolvente. Cada linha é importante e está em seu lugar. Não é um roteiro verborrágico, cheios de frases e de palavras jogadas ao vento. Nem mesmo um destes roteiros que pretende dar uma “reviravolta” no final ou surpreender.

Isso, inclusive, foi uma das críticas sobre este filme. De que ele não era surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Comentam isso porque, de fato, quando The Wife começa a apresentar fatos do passado, não é muito difícil presumir que o verdadeiro responsável pelo Nobel de Literatura não era o marido, e sim a esposa. Mas esse fato sendo conhecido em meados do filme não é algo ruim para a produção. Na verdade, desde o início de The Wife, tive a sensação de que algo estava errado naquela história. Eu só não sabia o porquê.

O que nos faz duvidar daquele “conto de fadas” desde o início, antes mesmo do flashback começar? A maravilhosa interpretação de Glenn Close, que está perfeita como Joan Castleman. E esse é um dos aspectos que eu acho mais interessantes e diferenciados em The Wife. Aparentemente, Joe Castleman é um marido atencioso, generoso, que está sempre atento à esposa e homenageando ela. Enquanto isso, a esposa dele parece um tanto fria ou distante.

Mas aí, como já tenho certa experiência de vida, comecei a me perguntar: por que isso parece tão estranho? Porque as reações de Joan são tão diferentes do que seria normal de uma mulher que realmente estaria sendo paparicada e constantemente homenageada? É porque as aparências nunca são o que elas querem nos passar, não é mesmo? A parceria entre os atores é maravilhosa, e a maneira com que o roteiro de Anderson vai nos apresentando essa relação, mergulhando na intimidade dos protagonistas e nos mostrando as suas particularidades, é algo fascinante.

Honestamente, eu não sabia o que esperar desse filme. Isso porque eu não tinha lido nada a respeito da história antes. Então fui me surpreendendo com a história conforme ela foi se desenrolando. A produção mexeu comigo, especialmente, por dois aspectos: por nos contar uma história que explora, como poucas que eu tenho lembrança, como as aparências enganam e como as mulheres tiveram que abrir mão de seu talento por não serem levadas à sério em diferentes funções por causa de sociedades que não estavam (e não estão ainda) preparadas para isso.

The Wife nos apresenta, assim, com bastante contundência, essa questão da “esposa” ser sempre a sombra do marido. Sempre homenageada, muitas vezes amada, mas sempre colocada em segundo plano. Conforme a história vai se revelando, impossível não começar a lembrar de tudo que vimos antes e de como Joan teve que “engolir” a soberba do marido que, na verdade, não tinha quase mérito nenhum sobre o que estava recebendo. A carreira dele foi construída por ela, e o trabalho duro foi feito por ela também.

Ainda assim, Joe se mostra superior, sempre que pode, não apenas para ela e para os demais, mas para o filho que pretende ser escritor também, David (Max Irons). O comportamento de Joe frente aos familiares é um clássico do macho que se acha “alfa” na relação. Um perfil visto por tantas e tantas mulheres e filhos em diferentes famílias. Então, conforme a história avança e percebemos o papel de cada um naquele Nobel, impossível para uma espectadora desta produção não ficar mexida com a história de Joan.

Nesse sentido, é interessante rever o filme – ou lembrar dele. Para pensar em cada reação de Joe, inclusive a comemoração de “Eu ganhei um Nobel” pulando sobre a cama. O mínimo que ele deveria fazer era dizer “Nós ganhamos um Nobel”, não? Mas a soberba não lhe deixa esta possibilidade. Depois, cada elogio e palavra que Joan ouve sobre Joe, deveria ser dita para ela, na verdade. E como isso tudo pode não mexer com a gente?

Em uma época em que falamos sobre o empoderamento feminino, The Wife nos dá um tapa na cara de como as sociedades precisam evoluir muito ainda. Joan, apesar de muito talentosa, acaba não se lançando para a carreira de escritora porque todos lhe dizem que ela não terá espaço para isso. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A consequência é que ela, possivelmente culpada por ter terminado com o casamento de Joe, acaba aceitando “salvar” a carreira dele reescrevendo os seus livros.

Por causa dela, ele teve uma carreira. Teve sucesso. Mas ele não teve a coragem de falar sobre isso em público ou de começar a lançar os seus livros tendo os dois como autores. Que era o mínimo que ele deveria fazer, evidentemente. Depois, quando ganhou o Nobel, disse indiretamente que o prêmio era da esposa, mas sem realmente jogar luz sobre a verdade sobre a sua carreira. Isso tudo porquê? Pelo orgulho, que sempre parece ser maior entre os homens. Infelizmente.

Outro ponto que me chamou a atenção: que apesar de não ter tanto talento e nem tanto mérito sobre o Nobel, Joe “cantava de galo” frente ao filho, não incentivando ele em uma visível disputa entre os dois. Algo que Joan assistia de perto silenciosamente discordando. Mas para tudo há um limite, e no final do filme o limite chegou para Joan.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, conscientemente ou não, ela provocou a morte de Joe – ela sabia que ele tinha problema cardíaco e que aquele rompimento poderia originar um problema maior. No fim, ela diz para ele o que ele deseja ouvir e o “protege” frente ao biógrafo não autorizado Nathaniel Bone (Christian Slater), que havia chegado à verdade sobre a fraude do escritor. Ela fez isso por amor à ele. Não acredito. Fez mais para proteger a família, os filhos, esses sim que realmente lhe importavam.

Jane Anderson escreveu o roteiro de The Wife baseado no livro de mesmo nome de Meg Wolitzer. Fiquei curiosa para ler a obra que, imagino, seja ainda mais rica que esta produção. Outro ponto forte do filme, a meu ver, é a direção cuidadosa e que valoriza as interpretações dos atores feita por Björn Runge. Um belo trabalho, que casa muito bem com os outros elementos importantes da produção – roteiro e interpretações. Um filme que mexe especialmente com as mulheres e que trata de temas bastante relevantes. Deve ser assistido e apreciado.

Ah sim, e existe uma dúvida sobre o final desta produção. É claro que não existe apenas um final possível, já que ele ficou em aberto. Mas vou dar a minha opinião e leitura sobre aquele final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, Joan negou o que Nathanial havia descoberto para defender a família e o marido morto – e ganhador de um Nobel, no final das contas. Mas depois, pelo que ela falou para David no avião, ela contaria toda a verdade para os filhos, para que eles soubessem realmente o que aconteceu – e até para tirar das costas de David toda aquela cobrança do pai que não tinha realmente fundamento.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os protagonistas desta produção são os grandes responsáveis pela força de The Wife. Glenn Close e Jonathan Pryce tem muita experiência e são talentosos, então eles conseguem dar a dinâmica e a profundidade necessária para entendermos os seus personagens. Ainda que eles tenham muito de “comum”, eles são complexos e tem várias camadas de interpretação. Isso que torna o filme interessante, afinal, mergulhamos na privacidade deles e na sua relação.

The Wife é um filme sobre uma mulher que, apesar de protagonista, é considerada coadjuvante, e sobre uma relação que começou conturbada e que seguiu carregada de culpa e de parceria até o seu fim. Quantas relações podem ser classificadas sob esses mesmos critérios? Quantas “esposas” deveriam ser consideradas protagonistas, mas por causa da sociedade em que nasceram e foram criadas, não o são? The Wife nos faz pensar sobre tudo isso, assim como no jogo de poder dentro de uma família.

Apesar de Close e Pryce serem as estrelas desse filme, seria errado não comentar o belo trabalho de Annie Starke e Harry Lloyd como os jovens Joan e Joe. No passado, ela era uma estudante de Literatura e, ele, um de seus professores. Além deles, vale citar o trabalho competente de dois outros atores: Max Irons como David, o carente aspirante a escritor filho do “genial” Joe Castleman; e Christian Slater como Nathaniel Bone, um escritor que tenta escrever a biografia não autorizada de Castleman. Também vale citar o trabalho de ponta de Elizabeth McGovern como a escritora Elaine Mozell, que desencoraja a jovem Joan a se tornar escritora; de Karin Franz Körlof como Linnea, fotógrafa que acompanha de perto o novo escritor premiado com um Nobel; Richard Cordery como Hal Bowman, agente de Castleman; Jan Mybrand como Arvid Engdahl, contato do Nobel com os ganhadores dos prêmios; e Alix Wilton Regan como Susannah Castleman, filha do casal de escritores.

O filme é muito bem guiado pelo diretor Björn Runge, que sabe valorizar os talentos que tem em cena e fazer uma narrativa segura sobre a história perfeitamente adaptada pela roteirista Jane Anderson. Além deles, vale destacar outros aspectos técnicos do filme, como a direção de fotografia de Ulf Brantas; a trilha sonora de Jocelyn Pook; a edição de Lena Runge; o design de produção de Mark Leese; a direção de arte de Caroline Grebbell, Paul Gustavsson e Martin McNee; os figurinos de Trisha Biggar; e a decoração de set de Craig Menzies.

The Wife estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. No mesmo ano, o filme passou, ainda, pelos festivais de cinema de San Sebastián e de Zurique. Em circuito comercial, ele entraria em cartaz apenas no dia 2 de agosto de 2018 na Austrália e em Israel, estreando nos Estados Unidos no dia 17 de agosto. No mesmo ano, ele participaria de apenas mais um festival de cinema, o Noordelijk Film Festival.

Em sua trajetória por festivais e destacado em diversas premiações de cinema, The Wife ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Atriz para Glenn Close. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama para Gleen Close; para o prêmio de Melhor Atriz dado pelo Screen Actors Guild Awards; para outros oito prêmios de Melhor Atriz recebidos por Glenn Close e para um prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Jonathan Pryce.

Fiquei curiosa para saber quantas mulheres ganharam o Prêmio Nobel de Literatura. O prêmio começou a ser entregue, anualmente, desde 1901. As mulheres que o receberam, desde então, foram as seguintes: Selma Lagerlöf, em 1909; Grazia Deledda, em 1926; Sigrid Undset, em 1928; Pearl S. Buck, em 1938; Gabriela Mistral, em 1945; Nelly Sachs, em 1966; Nadine Gordimer, em 1991; Wislawa Szymborska, em 1996; Elfriede Jelinek, em 2004; Doris Lessing, em 2007; Herta Müller, em 2009; Alice Munro, em 2013; e Svetlana Alexijevich, em 2015. Ou seja, 13 mulheres em mais de 100 anos de premiação. São poucas, mas elas existem. Algumas delas poderiam ter inspirado a escritora que protagoniza esta produção. A lista completa dos premiados no Nobel de Literatura vocês encontram nesse artigo da Wikipédia – sem dúvida que eu preciso ler a vários deles.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme. A atriz Annie Starke, que interpreta a jovem Joan, é filha da atriz Glenn Close. Interessante, não? Eu não sabia disso até ler as notas dos produtores. 😉 Não achei elas muito parecidas, na verdade. Sem a nota, jamais adivinharia.

Embora uma parte do filme se passe, teoricamente, em Estocolmo, grande parte de The Wife foi rodado em Glasgow.

O processo de desenvolvimento de The Wife demorou 14 anos.

Glenn Close e Jonathan Pryce ensaiaram ao redor de uma mesa durante uma semana antes do filme começar a ser rodado.

O nome de Joan Archer – antes de casar com Joe -, o corte de cabelo curto e algumas das característica de seu papel neste filme lembram a heroína francesa Jeanne D’Arc.

The Wife tem uma importância especial para Glenn Close, que disse que a história lhe lembrou muito a própria mãe que, aos 80 anos de idade, disse que parecia que não tinha realizado nada em sua vida porque tinha sido apenas “uma esposa” – e mãe. Ao ser premiada, acredito que no Screen Actors Guild Awards, Close disse que a mãe dela não podia estar mais errada, porque ela tinha realizado muito sendo mãe e esposa. Foi emocionante de ver.

Esse é o primeiro filme falado em inglês do diretor Björn Runge.

O trecho de James Joyce citado duas vezes por Joe Castleman no filme faz parte do conto The Dead, que faz parte da coleção Dubliners, de 1914. Existem alguns paralelos entre o conto e o filme, especialmente entre a última cena do conto e a sequência após a festa de comemoração do Prêmio Nobel. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A cena do quarto, depois de uma festa, onde a esposa tem algum segredo para revelar é o paralelo mais forte, mas há ainda a questão da neve caindo “sobre os vivos e os mortos”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 162 críticas positivas e 30 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,1. No site Metacritic, The Wife apresenta um “metascore” 77, fruto de 34 críticas positivas, 1 mediana e 1 negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Wife faturou US$ 8,9 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 8,6 milhões nos outros mercados em que estreou, somando uma bilheteria de cerca de US$ 17,5 milhões.

The Wife é uma coprodução do Reino Unido, da Suécia e dos Estados Unidos. Como um dos países envolvidos na produção é os Estados Unidos, essa produção passa a fazer parte da relação de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Alguns criticaram esse filme por ter um final óbvio. Devo dizer, que não concordo com esse parecer. Claro, lá pelas tantas, quando o filme entra no seu flashback, não é difícil entender quem está por trás da obra que levou ao Nobel. Mas, nem por isso, a história deixa de ser surpreendente. Gostei, em especial, do roteiro e do trabalho dos protagonistas. Eles estão incríveis. Nos envolvem, nos emocionam e nos “tiram do sério” – ao menos àqueles que se indignam com a falta de oportunidades iguais para as pessoas.

Achei um filme potente e muito bem acabado. Me fez pensar e me tirou do sério, então, apenas por isso, já está bem acima da média. Entre as produções recentes, achei uma das mais contundentes sobre a relação que se desenvolve dentro de um lar, os jogos e disputas que existem neste ambiente, especialmente o “jogo de poder” entre o casal e os pais e filhos. Me impressionou a crítica sobre as aparências e sobre a desigualdade de oportunidades. Muito bom!

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Wife foi indicado em apenas uma categoria na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a de Melhor Atriz. Glenn Close está perfeita no papel de Joan Castleman. Mas é um desempenho digno de Oscar? Em outros anos, em que a disputa estava mais acirrada, talvez não. Mas neste ano, em que a principal rival nesta disputa é Lady Gaga, certamente que sim.

Eu não tenho nada contra a Lady Gaga, preciso dizer. Ela está bem em A Star Is Born (comentado neste link) – um dos trunfos do filme, inclusive. Mas ela interpreta, no fim das contas, a si mesma. O que eu acho de uma atriz que interpreta a si mesma? Que ok, isso é válido. Mas é digno de um Oscar? Acho que uma atriz que se desdobra para vivenciar alguém muito diferente dela, com todos os recursos e “imersão” que isso significa, tem mais méritos e merece mais o prêmio.

Assim, eu votaria tranquilamente em Gleen Close. O que os atores e atrizes do Oscar devem fazer? Pelo que vimos nas premiações que antecedem ao Oscar, o prêmio estará, realmente, entre Gleen Close e Lady Gaga. Mas acho que o favoritismo ainda é de Glenn Close. Se ganhar, certamente levará para casa uma estatueta não apenas por esse papel em The Wife, mas também por ótimos trabalhos em uma carreira longa e até hoje não premiada no Oscar – ela foi indicada sete vezes, mas esta poderá ser a sua primeira vez como vencedora. Merece.

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The Theory of Everything – A Teoria de Tudo

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Toda vez que um filme tenta contar a história de alguém que de fato existiu e faz isso de maneira extremamente correta, me incomodo. Isso porque ninguém tem uma vida assim. Não acredito em trajetórias floridas, edificantes, sem alguns descontroles aqui e ali – sejam eles da natureza que for. Por isso mesmo, admito, me decepcionei um pouco com The Theory of Everything, o filme baseado em parte da vida do físico mundialmente conhecido Stephen Hawking. Esta produção tem uma grande qualidade, mas vários outros defeitos.

A HISTÓRIA: Cenas um tanto borradas dentro de um palácio. Stephen Hawking (Eddie Redmayne) faz círculos sobre um lindo tapete em sua cadeira de rodas. A imagem faz lembrar um relógio no sentido anti-horário. O tempo volta, e o mesmo círculo vemos na roda de uma bicicleta em Cambridge, na Inglaterra, em 1963. Hawking está em uma bicicleta e o amigo Brian (Harry Lloyd) em outra. Os dois competem para ver quem chega mais rápido em uma festa. É lá que Hawking vê pela primeira vez Jane (Felicity Jones), com quem ele começa a namorar tempos depois. Esta é a história dos dois e de como Hawking surpreendeu o mundo por suas teorias e por seu exemplo de vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Theory of Everything): O nome deste filme é Eddie Redmayne. Ele dá um banho de interpretação em um papel difícil de ser vivenciado. Entra para a lista de grandes atores que já fizeram isso antes – lembro, assim, de pronto de Mathieu Amalric em Le Scaphandre et le Papillon, de Javier Bardem em Mar Adentro e de Marion Cotillard em De Rouille et d’Os, só para citar algumas interpretações marcantes.

Redmayne estudou certamente em detalhes as aparições de Hawking e tentou emular ao máximo o jeito do físico para repassar para o público da melhor forma possível a evolução dele desde a fase de estudante até a de personalidade inglesa recebida pela rainha da Inglaterra. Ele é o melhor do filme, não há dúvida. Outros pontos dignos de elogios são a direção de fotografia de Benoît Delhomme e a trilha sonora de Jóhann Jóhansson. A edição de Jinx Godfrey também é bastante correta, assim como os figurinos de Steven Noble.

Propositalmente eu quis destacar os pontos positivos antes de falar dos negativos. Até porque acho os segundos mais abundantes. Stephen Hawking é um homem extraordinário, que mudou para sempre a forma com que as pessoas veem a física e a ciência. Com a obra Uma Breve História do Tempo, ele tornou estes dois assuntos foco de um bestseller. Quem diria!

E qualquer pessoa que sabe disso, sabe também que ele escreveu a sua obra-prima em uma cadeira de rodas, praticamente imobilizado. Da minha parte, meu conhecimento dele ia um pouco além disso. Eu sabia também que ele é conhecido pelo bom humor e que havia feito algumas aparições na série The Big Bang Theory – uma de diversas que eu acompanho. Pronto, isso era tudo.

Por isso mesmo quando me mostraram o trailer de The Theory of Everything, fiquei fascinada pela premissa do filme. Segundo aquela pílula da história – que, vocês sabem, costumo evitar -, veríamos nesta produção como o amor foi fundamental para Hawking e, consequentemente, para a ciência. Fiquei interessada em conferir este trabalho não apenas por este viés romântico, mas também por conhecer um pouco mais sobre a doença que fez Hawking deixar de ter uma vida normal e também para saber as circunstância que cercaram o seu trabalho científico.

Imaginem que, por tudo isso, eu tinha um bocado de expectativas sobre esta produção. Daí que começo a assistir a The Theory of Everything, e o que me salta aos olhos é o excelente trabalho de Eddie Redmayne. Conforme a história vai se desenvolvendo, espero também que o roteiro de Anthony McCarten faça jus a Hawking. Ledo engano.

Sem dúvida o principal problema deste filme é o roteiro fraco de McCarten. Enquanto assistia à produção e descontando o trabalho de Redmayne, senti falta de um pouco mais de verossimilhança na história. Afinal, sempre me pergunto, se alguém se deu ao trabalho de fazer um filme inspirado em uma história real, o que custa ser o mais fiel possível à essa história? E não precisei de muito para desconfiar do que eu vi em The Theory of Everything.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira estranheza é que, mesmo considerando que “os tempos eram outros”, parece um pouco forçada a forma com que Jane decide se casar com Stephen mesmo sabendo que ele possivelmente teria apenas dois anos de vida. Certo que ela estava apaixonada por ele, inclusive dizia que o amava, mas me pareceu que a história, pelo menos da forma com que McCarten escreveu, pulou alguns episódios e/ou capítulos. Acho que mais cenas dirigidas por James Marsh deveriam ter mostrado a relação dos dois antes dela tomar uma decisão tão contundente e definitiva.

Depois, é verdade, o prognóstico médico se mostra errôneo, e Hawking não morre após dois anos. Pelo contrário, ele vai piorando pouco a pouco e vive até hoje – no último dia 8 de janeiro, aliás, ele completou 73 anos de vida. Então é louvável a dedicação de Jane para com o marido, mas vai ficando cada vez mais claro que o amor não basta para eles seguirem juntos.

Ela parece ter dificuldade de entender o humor dele, muitas vezes – como na cena em que ele brinca com os filhos -, e certamente eles são filhos de mundos muito diferentes: ele, da ciência, ela, religiosa. Aliás, neste quesito, este filme me fez lembrar a Creation, uma produção bem acabada e que revela um pouco da vida íntima de Charles Darwin – você pode conferir a crítica aqui. Curiosamente, enquanto Darwin também era um homem da ciência, a mulher dele se revelava muito religiosa – e tinha, a exeplo de Jane, dificuldade de entender como o marido não acreditava em Deus. Os dois filmes, por coincidência, tem suas qualidades, mas diversas falhas também.

Mas voltando para The Theory of Everything… Segundo esta produção, é louvável a dedicação de Jane para com o marido. Incentivado por ele, ela acaba entrando no coral comandado por Jonathan Hellyer Jones (o competente Charlie Cox). Logo no início fica evidente uma certa tensão sexual entre os dois, e quando ele passa a frequentar a casa da família, aparentemente sob a anuência de Hawking, esse interesse entre Jane e Jonathan vai ficando mais evidente. Esse é o ponto crucial em que eu desconfiei da história.

Para mim, ficou difícil de acreditar que Hawking decidiu “dar bola” para a enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake) como uma forma de terminar com o casamento com Jane para vê-la feliz partindo para uma nova vida com Jonathan. Sério mesmo que depois de Jane trair o marido na noite em que ele foi parar no hospital com pneumonia e os médicos sugerirem que o melhor poderia ser deixar ele morrer que ela iria lutar pela vida de Hawking e imediatamente se distanciar de Jones?

Sim, esse é o conto típico de Hollywood. Ou do cinemão comercial que quer nos contar uma história perfeita, como a dos contos de fada, em que os maus sempre são punidos e nos quais as princesas sempre ficam com os príncipes. A vida real é muito mais complexa que isso. Desta forma, desconfiei do conto de The Theory of Everything. Segundo ele, Jane foi fiel sempre, só pulou a cerca porque foi incentivada por Hawking e, ele sim, tinha uma natureza um tanto “safada” não apenas por não acreditar em Deus, mas porque vivia de risinhos com a enfermeira e porque gostava de revistas de sacanagem.

Oras, meus caros, é preciso ser muito inocente para acreditar nesta fórmula perfeita e de conto de fadas. Desconfiei, não gostei da quase santificação de Jane e nem da história “toda bela” de Hawking. Sempre há algo pode, em algum momento, no reino da Dinamarca. Pois bem, só depois de ver ao filme, que eu resolvi tirar algumas dúvidas a respeito. Foi aí que percebi que The Theory of Everything é baseado no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen escrito por Jane Hawking. Ah sim, daí tudo faz mais sentido.

Se este filme foi baseado no ponto de vista de Jane Hawking, claro que ela deveria parecer uma santa na história, não é mesmo? Evidente. Eu tinha uma vaga lembrança de que o próprio Stephen Hawking havia escrito um livro autobiográfico, e eu fui atrás. Encontrei a obra Minha Breve História (ou My Brief History, do original), lançada em 2013. E lá, meus caros, está o outro lado da moeda.

Hawking dedica um capítulo para os casamentos – porque além de ficar casado grande parte da vida com Jane, ele também se casou com uma de suas enfermeiras, Elaine Mason, no período de 1995 até 2007, quando eles se divorciaram. Desde então, Hawking conta no livro, ele mora sozinho com uma governanta. Pois bem, lá pelas tnatas, ele fala sobre o relacionamento de Jane com Jonathan, e fica sugerido de forma bem clara que os dois tiveram um caso por bastante tempo, com o amante da esposa morando inclusive na casa de Hawking, o que o teria deixado desconfortável lá pelas tantas. Uma versão bem diferente daquela da “santa Jane” que vemos no filme.

Além disso, senti falta de conhecer um Hawking mais brincalhão e menos “abobado”. Sempre soube da ironia refinada dele, mas isso fica bastante à margem da produção. Há falhas graves na história, assim como uma escolha bastante evidente por fazer o “feijão com arroz”, entregar uma história bem filmada, bonitinha, mas sem grandes altos e baixos como a vida de verdade se apresenta. Faltou realidade para um filme que pretende ser autobiográfico. E isso não é nada bom.

ADENDO: Senti, após escrever a crítica do filme e correr para publicá-la ainda no domingo, que faltou falar algo essencial: a história de Stephen Hawking é fantástica. Digna de tirarmos os nossos chapéus e que serve, de fato, como inspiração para muita gente. Em algo The Theory of Everything acerta: em mostrar como esse homem sempre amou a vida e quis/quer vivê-la o máximo possível. Ele, parece, enxerga potencial em todas as pessoas e nos ensina que as nossas dificuldades são fichinhas, na quase totalidade das vezes.

Apesar de vivenciar tantas dificuldades e limitações, ele nunca se sentiu limitado, e sempre guardo um bom sorriso e um olhar generoso. Tudo isso é fantástico e inspirador. O filme mostra um pouco isso, mas senti falta de ser mais legítimo com a história deste gênio. Este desperdício de potencial para fazer um filme verdadeiramente capaz de vencer gerações e continuar sendo importante, como é o caso do homem que inspirou esta produção, é o que acho mais lamentável. Mas a história de Hawking, em si, é digna de aplausos. Só queria acrescentar isso para não ser mal interpretada – não julguei mal o trabalho ou o exemplo de Hawking, mas o filme fraco que fizeram a respeito dele.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As qualidades técnicas desta produção eu já destaquei acima. Talvez vale acrescentar ainda o bom trabalho de John Paul Kelly no design de produção; e de Claire Nia Richards na decoração de set. Por outro lado, me incomodou um pouco o trabalho dos nove profissionais da equipe de maquiagem. Senti falta dos personagens, especialmente os protagonistas, envelhecerem mais durante o filme – afinal, muitos anos se passaram entre os primeiros e os últimos fatos, incluindo o miolo da história. Faltou vermos isso visualmente no rosto dos atores.

Dos atores em papéis secundários, sem dúvida alguma Harry Lloyd é o que tem o maior destaque como Brian, grande amigo de Stephen Hawking segundo o filme. Também vale destacar o trabalho de Simon McBurney como Frank Hawking, pai de Stephen; Lucy Chappell em micro-pontas como Mary Hawking, mãe do físico; Adam Godley em uma aparição como o médico que dá o diagnóstico catastrófico, lembrando outra aparições no melhor estilo da finada série Lost; e o sempre ótimo David Thewlis como Dennis Sciama, professor e mentor de Stephen Hawking.

Além dos atores já citados, vale comentar as pontas de Tom Prior como Robert Hawking quando o filho do físico tinha 17 anos; de Sophie Perry quando Lucy Hawking tinha 14 anos; e de Finlay Wright-Stephens quando Timothy Hawking tinha oito anos. Eles aparecem brincando no parque quando Hawking recebe as honras da realeza britânica – e quando ele fala uma das frases mais legais da produção, referindo-se ao maior feitos dos dois, que foi ter gerado e criado aqueles três filhos. Este é um dos momentos importantes da produção, assim como o discurso final de Hawking em que ele ressalta que todo o ser tem um propósito e a sua beleza. Esse ponto, assim como o trabalho de Eddie Redmayne, valem a experiência.

The Theory of Everything estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu 12 prêmios e foi indicada a outros 62, incluindo quatro Globos de Ouro. Até o momento – a premiação do Globo de Ouro ainda não chegou na parte boa – o filme recebeu apenas prêmios de menor relevância. Mas ele está indicado aos Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Eddie Redmayne, Melhor Atriz – Drama para Felicity Jones e Melhor Trilha Sonora. Acredito que apenas Redmayne tem já uma mão na estatueta… veremos se isso se confirma.

De acordo com o site Box Office Mojo, esta produção teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 25,9 milhões até hoje, dia 11 de janeiro. No restante dos países em que o filme já estreou ele conseguiu outros US$ 20,3 milhões. Ou seja, está conseguindo se pagar.

Este filme foi totalmente rodado no Reino Unido, incluindo Cambridge – outro erro histórico, já que Hawking morou um tempo importante nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos eufóricos, dedicando 157 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 – ainda assim, um bom patamar se levarmos em conta a exigência dos críticos dos site.

Estou correndo para escrever a crítica deste filme e publicá-la antes do final de domingo. Mas prometo que em breve vou acrescentar mais algumas informações por aqui, como curiosidades da produção e o resultado do Globo de Ouro nas categorias em que esta produção está concorrendo.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Algumas histórias verdadeiras são impressionantes. Poucas tanto quanto a de Stephen Hawking. Por isso mesmo, é um tanto frustrante encontrar um filme que não apenas perde a oportunidade de ser legítimo com a história real mas, principalmente, nem consegue ser melhor que os fatos nos quais deveria se basear. The Theory of Everything é uma produção muito “politicamente correta”. Ela tem um grande ator liderando o trabalho e fazendo a experiência valer a pena, mas é só. O roteiro é fraco e a condução do filme um tanto preguiçosa. Faltou tempero por aqui, algo que Hawking sempre conseguiu colocar em seus escritos e participações na cultura pop das últimas décadas. Perderam a oportunidade de fazer um filme melhor sobre ele.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: The Theory of Everything, como eu disse acima, recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro. O prêmio será entregue neste domingo, nos Estados Unidos. Mas independente se o filme vai receber ou não algum Globo de Ouro, o que nos interessa aqui é o Oscar. As indicações do filme ao prêmio máximo da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, contudo, pode nos dar uma prévia do que virá aí no próximo dia 15, quando serão conhecidos os indicados ao Oscar.

Para mim, é inevitável a indicação de Eddie Redmayne como Melhor Ator no Oscar 2015. Ele é o que há de melhor nesta produção e, de fato, faz um trabalho memorável, para ser guardado entre os grandes de todos os tempos. Ele será o nome a ser batido este ano – tenho sérias dúvidas se alguém conseguirá fazer isso. Além dele, outras indicações são incertas.

Não me surpreenderia que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood colocasse The Theory of Everything entre os 10 indicados a Melhor Filme do ano. Não acho que o filme mereça, mas sem dúvida é uma forma interessante de reconhecer a figura de Stephen Hawking e, de quebra, agradar aos milhões de fãs dele – incluindo aqueles que seguem a série The Big Bang Theory onde, volta e meia, ele é citado ou faz uma participação. Não seria também surpreendente o filme ser indicado em categorias como Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Para o meu gosto, o único prêmio que esta produção pode merecer é o de Melhor Ator. O restante, seria forçar a barra. Especialmente porque há outros filmes muito melhor acabados e com um desenvolvimento muito mais interessante que este para serem premiados este ano.

The Iron Lady – A Dama de Ferro

O tempo passa para todas as pessoas. Seja você um cidadão “comum”, ou um nome de destaque nos livros de história. Se você tiver sorte e viver muito tempo, uma hora a fatura é cobrada. The Iron Lady equilibra a história de uma mulher que serviu e ainda serve de modelo depois que ela saiu dos holofotes e um rápido repasse em sua vida pública. E para interpretá-la, não existe e nem poderia existir alguém melhor que Meryl Streep. Mais uma vez ela dá uma aula de interpretação, e torna muito difícil a escolha dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Uma senhora idosa fica em dúvida sobre o leite que irá comprar. Mas a dúvida dura pouco. Caminhando devagar até o caixa, ela é ultrapassada por um engravatado que fala no telefone celular e parece estar com muita pressa. Ela pega um jornal The Times no caixa e paga a conta, ficando surpresa com o preço do leite. Enquanto toma café com o marido, Denis (Jim Broadbent), Margaret Thatcher (Meryl Streep) comenta sobre a subida do preço do leite. Ele brinca com a preocupação da esposa, e diz que “ela”, a empregada, está chegando perto. Quando a empregada chega, Margaret Thatcher está sozinha na mesa. A partir daí, o filme mostra a fragilidade da ex-primeira ministra inglesa e parte de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Iron Lady): O que você poderia esperar de um filme sobre a mulher que ajudou a mudar a história da Inglaterra e da política mundial, abrindo espaço para tantas outras mulheres trilharem o caminho do poder? Para começar, um filme que mostrasse a determinação e a força da Dama de Ferro, como ela ficou conhecida, certo? Pois bem, por incrível que possa parecer, The Iron Lady trata mais da fragilidade do que da fortaleza desta figura histórica.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a The Iron Lady). Grande parte do filme enfoca a velhice de Margaret Thatcher e seu progressivo mergulho em um estado de demência. Por um lado, esse enfoque assumido pelo roteiro de Abi Morgan é um acerto ao abordar um aspecto novo, pouco conhecido e inusitado da conhecida líder política britânica. Por outro lado, essa mesma sacada perde o caráter de novidade e acaba se transformando em um desperdício de tempo, de oportunidade para explorar um retrato mais completo da personalidade focada. O grande problema do roteiro é que ele perde o momento de dar a guinada, de sair do estado de “surpreendente” para jogar-se em um trabalho mais aprofundado.

Faltou um pouco mais de talento e de percepção para Abi Morgan. Ela perde o momento de ponderar o que poderia ser mais interessante para o espectador – além do caráter surpresa. E como o roteiro, especialmente quando o foco é uma personalidade histórica, é a alma de um filme e precisa ser bem costurado, o resultado de The Iron Lady se mostra fraco, quase decepcionante, quando percebemos o quanto da história de Thatcher é ignorado pelo texto do filme.

Sem Meryl Streep, o resultado teria sido catastrófico. Mas eis mais um filme em que ela salva a história. A interpretação dela é perfeita. Mais uma digna de prêmios. De Oscar. Mesmo que ela fiquei à ver navios, mais uma vez, na maior premiação do cinema dos Estados Unidos, ela é a grande responsável pelo interesse de The Iron Lady. Ela interpreta com gravidade e um grande respeito a personalidade de Thatcher. Mergulha de tal maneira na fragilidade da velhice e na convicção das opiniões fortes da primeira-ministra na vida adulta que você precisa esforçar-se para recordar da Thatcher real.

Pena que uma grande atriz, sozinha, não salva um filme com roteiro fraco. Para a sorte do espectador, contudo, há pelo menos mais um grande ator em cena: Jim Broadbent, que interpreta ao marido de Thatcher. Ele é a graça do filme – ou, pelo menos, tenta fazer rir em meio ao drama e ao tom sisudo do restante da história. A diretora Phyllida Lloyd faz um bom trabalho, ponderando bem cenas de reconstituição, a inserção de imagens de época, e imprimindo o tom exato, com a ajuda do diretor de fotografia Elliot Davis para diferenciar bem os tempos históricos. Ela também acerta ao tornar a câmera uma grande fã de Meryl Streep, acompanhando-a em cada movimento.

O problema está realmente no roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele gasta muito tempo batendo na tecla da fragilidade de Thatcher, uma forma de emocionar o espectador ao tornar uma personagem sem grande apelo popular como digna de piedade. Claro que, neste sentido, o filme faz pensar no que eu comentei lá no início. De que não importa o quanto grande ou “pequeno” alguém pode ser, o tempo passa para todos e, com esta passagem, a fatura vai ficando mais pesada. Mas o interessante mesmo de um filme sobre Margaret Thatcher não seria essa reflexão, ainda que ela seja válida, e sim mais detalhes sobre a história desta grande mulher. E faltam mais detalhes que possam encorpar essa reconstituição histórica.

Verdade que o espectador acaba tendo rápidas pinceladas sobre vários momentos da vida de Thatcher, antes mesmo dela ter este sobrenome. O problema é que rápidas pinceladas é muito pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sabemos nada da infância de Margaret, e saber tão pouco sobre a família dela não ajuda a montar um quadro sobre a formação da personagem histórica. A entrada e, principalmente, o sucesso dela na política também são tratados de maneira muito displicente. Ela não chegou a ser líder do partido sem alianças ou apoios importantes. Estas pessoas não aparecem – ou figuram apenas de relance, sem sabermos nada sobre elas. E mesmo o momento mais importante da personagem, quando ela se torna Primeira Ministra, é mostrado com pouca emoção ou profundidade.

Mesmo com tantos problemas, é interessante rever algumas frases famosas de Margaret Thatcher e relembrar, por exemplo, que ela citou a São Francisco de Assis logo que assumiu como Primeira Ministra. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A diretora e a roteirista acertam ao resgatar cenas históricas, e ao mostrar como o governo dela foi combatido. Mas os bastidores do poder e os jogos ao redor dela são quase todos ignorados. Algumas vezes, a questão parece estar resumida em uma questão sexista – homens versus mulher. Certo que esta foi uma questão importante, mas não foi a única que pudesse explicar a resistência dos pares de Thatcher ao seu poder. Também faltou mostrar o apoio que ela tinha da população – por grande porte do filme, até a guerra com a Argentina, pareceu que a população basicamente estava contra ela. E todos sabemos que ninguém ficaria tanto tempo no poder sendo impopular entre a massa e seus pares. Não faz muito sentido. E fragiliza o filme.

Meryl Streep, algumas das ótimas frases de Margaret Thatcher e o rápido repasse histórico daquela época fazem o filme não ser um completo desperdício e, porque não dizer, revelar-se até interessante. Se você conseguir ignorar algumas teclas batidas com repetição e a ligeireza do roteiro, poderá render-se a Streep. E isso sempre vale a pena.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Margaret Thatcher não foi apenas a primeira mulher a se tornar Primeira Ministra na Inglaterra – e a única, até agora. Ela foi também a figura forte de um dos principais países do mundo em uma época decisiva para a nossa história moderna. Thatcher ocupou a cadeira de Primeira Ministra entre 1979 e 1990. Certamente seria impossível, para qualquer filme, retratar com precisão os principais momentos destes 11 anos de governo dela. Mas faltou mais molho e enredo em The Iron Lady, tendo como fonte uma biografia e um tempo histórico tão determinante.

Este texto da Wikipédia, em inglês, traz mais informações sobre Margaret Thatcher do que todo o filme The Iron Lady. Para quem quiser saber um pouco mais sobre ela, é um bom ponto de partida. Aguardo o dia em que outro filme fizer mais justiça a uma personagem histórica desta grandeza. Gostaria de saber, por exemplo, dos bastidores das críticas que ela fazia à União Soviética, e a recepção que este combate tinha do outro lado – responsável por chamá-la de “dama de ferro”.

Segundo o texto da Wikipédia, como Primeira Ministra, entre outras ações, Thatcher desenvolveu uma política de desregulação, especialmente do setor financeiro, flexibilizando as regras trabalhistas, fechando e vendendo empresas estatais, e cortando subsídios dados para outras empresas. Parte destes pontos – especialmente as questões trabalhistas – são mostradas rapidamente no filme, com a consequente resistência de trabalhadores. Mas a recuperação da imagem de Thatcher não se deu apenas pela Guerra das Malvinas, em 1982.

Ainda que um conflito armado, que ressuscita a velha questão da soberania e do orgulho nacional, seja sempre um grande afrodisíaco para reeleições e para a política, a vitória da Inglaterra neste conflito justifica apenas em parte o sucesso de Thatcher para ser reeleita em 1983. As duras medidas tomadas logo que assumiu o poder começaram a surtir efeito e o país começou a registrar uma importante recuperação econômica.

Outro tema praticamente ignorado por The Iron Lady e que seria muito interessante de ter sido explorado foi a relação de Thatcher com lideranças mundiais, especialmente os Reagan. Também faltou abordar o que aconteceu com ela nos anos posteriores a ela ter deixado de ser a Primeira Ministra. Interessante como ela passou a ganhar 250 mil libras por ano para ser consultora geopolítica da companhia Philip Morris, por exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou de fora da história também os problemas que ela teve de saúde, como os derrames “suaves” sofridos em 2002 – um ano antes da morte do marido.

Para quem quiser ler um rápido resumo de Thatcher em português, indico este. Nele ficamos sabendo, por exemplo, que o estado de saúde da ex-líder política é muito mais complicado do que aquele mostrado no filme.

Indicando outras leituras: esta página, em inglês, é o site da fundação Margaret Thatcher, que traz materiais multimídia, frases, discursos, entrevistas e um material bem extenso da líder política; e esta outra página, especial da BBC, com um vasto material de texto, vídeos e áudio com Thatcher.

The Iron Lady estreou no dia 26 de dezembro na Austrália e na Nova Zelândia. Agora em fevereiro, mais precisamente no dia 14, o filme participa de seu primeiro festival, o de Berlim. Pelas característica do filme, não vejo ele fazendo uma grande carreira nos festivais ou ganhando muitos prêmios além daqueles entregues pelos círculos de críticos para Meryl Streep.

O filme teria custado aproximadamente US$ 13 milhões e faturado, até o dia 29 de janeiro, um mês depois de estrear nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 17,5 milhões. Sem dúvida esta bilheteria foi feita por duas razões: pelo nome de Meryl Streep, que é sempre um chamariz, e pela esperança dos espectadores de ver um grande filme sobre uma grande personagem histórica. Pena que apenas Streep faça valer o ingresso.

Até o momento, The Iron Lady ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo as nomeações para dois Oscar’s. Quase todos os prêmios recebidos foram para Meryl Streep, como era de se esperar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para o filme. É baixa, mas compreensível pela qualidade do roteiro da produção – frente ao que ela poderia ser. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também não perdoaram a fragilidade da produção. Eles dedicaram 101 críticas positivas e 86 negativas para The Iron Lady, o que garante uma aprovação de 54% para a produção – e uma nota de 5,8.

The Iron Lady é uma co-produção do Reino Unido com a França. Curioso, porque estas duas escolas de cinema, normalmente mais cuidadosas com cinebiografias, desta vez não tiveram a competência em focar uma personagem histórica tão relevante.

Fora os atores já citados, há pouca relevância no trabalho dos demais. Mas não custa citar os nomes de Alexandra Roach, que interpreta a jovem Margaret Thatcher; Harry Lloyd, que interpreta o jovem Denis Thatcher; e Olivia Colman, que faz um bom trabalho como a filha de Margaret, Carol. Da parte técnica do filme, nunca é demais citar o trabalho competente de Thomas Newman, na trilha sonora e a edição de Justine Wright.

Ah sim, e para quem acha que eu fui muito generosa com a nota acima, tenho duas considerações a fazer: de fato, acho que eu ando muito generosa, especialmente com os filmes indicados ao Oscar, já que este ano a premiação tem uma concorrência bem mais fraca do que em anos anteriores; e a nota é justificada, basicamente, por mais um excelente trabalho de Meryl Streep. Ela, sozinha, justifica a nota.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadoso, atento aos detalhes de mais uma interpretação exemplar de Meryl Streep. The Iron Lady é conduzido por esta atriz espetacular. E ainda tem um roteiro inteligente em vários momentos, mas que não consegue aproveitar o legado de Margaret Thatcher. A produção perde uma boa oportunidade de contar mais detalhes da vida desta grande líder política. O roteiro ignora as forças que a levaram para o poder e a sustentaram por tanto tempo. Porque ninguém chegaria onde ela chegou e nem ficaria tanto tempo no poder apenas por suas ideias brilhantes. Toda a reflexão sobre a fragilidade da etapa final de Margaret Thatcher é válida, mas poderia ter sido encurtada para explorar melhor outros aspectos relevantes da vida desta personalidade histórica. Mesmo com os seus defeitos e simplificação da história, The Iron Lady é uma ótima oportunidade para assistirmos a mais um grande trabalho de Meryl Streep e, ainda de quebra, saber um pouco mais sobre a rotina de Thatcher em um momento em que ninguém mais se interessava por ela.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Iron Lady concorre a duas estatuetas este ano: a de Melhor Atriz, para Meryl Streep, e a de Melhor Maquiagem. As duas indicações foram merecidíssimas. Bato palmas para elas. Mas quais as chances do filme ganhar alguma destas estatuetas?

Meryl Streep sempre merece um Oscar. Impressionante. Dito isso, acho que ela poderia receber o Oscar por The Iron Lady. Conta a seu favor o fato dela ter recebido um Globo de Ouro pelo papel. Mas tenho minhas dúvidas se ela vai conseguir isso. Primeiro, porque as bolsas de apostas estão apontando para uma vitória de Viola Davis. Que também merece, diga-se. Depois, porque The Help está com uma moral muito mais alta com a crítica do que The Iron Lady. E isso conta pontos na hora da votação.

O trabalho feito com a maquiagem também é merecedor de uma indicação. E eu acho, pela sutileza do trabalho, que ele merecia ganhar a estatueta. Só que será difícil, para não dizer impossível, já que The Iron Lady concorre com os fortes candidatos Albert Nobbs e, principalmente, Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2. Resumindo a ópera: acho que The Iron Lady pode sair do Oscar sem prêmio algum.