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Little Women – Adoráveis Mulheres

Houve um tempo – e não faz tanto tempo assim – em que o melhor destino para uma mulher seria casar. Até hoje, na verdade, há quem pense que uma mulher só pode ser feliz se encontrar um bom partido. Little Women, história já várias vezes adaptada para o cinema, surge em uma nova versão, cheia de estrelas, sob a batuta da diretora e roteirista Greta Gerwig. Quem assistiu a alguma versão anterior da história verá pequenas diferenças na narrativa aqui e ali. Quem nunca assistiu à uma adaptação do romance de Louisa May Alcott poderá se surpreender mais com o que verá em cena.

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The Post – The Post: A Guerra Secreta

Ah, o jornalismo! O jornalismo de verdade, aquele que procura informar a sociedade sobre questões relevantes. O jornalismo que é capaz de mudar o curso da História quando conta o que os poderosos – e outros que nem são tão poderosos, mas acreditam ser – querem esconder. The Post nos conta uma história das boas sobre o papel do jornalismo no curso da História de um país.

Esse jornalismo, infelizmente, anda cada vez mais raro, muito também porque as pessoas deixaram de o financiar – e não existe jornalismo sem pessoas que paguem por ele. Um filme importante para os dias de hoje, mas que apenas mostra tudo o que estamos perdendo, e cada vez mais, com o fim do bom jornalismo.

A HISTÓRIA: Começa na Província de Hau Nghia, no Vietnã, em 1966. Barulho de helicópteros, soldados colocando capacetes e preparando armas, e em meio àquele cenário, Dan Ellsberg (Matthew Rhys) também recebe a sua arma. Um soldado pergunta quem ele é, e outro responde que ele trabalha para Lansdale na embaixada e que ele está ali apenas observando. Ele se prepara como os demais e avança com o pelotão.

À noite, eles são atacados, e muitos morrem ou são feridos. Ellsberg escreve o seu relatório a respeito. Na volta, ele fala para o secretário de Estado Robert McNamara (Bruce Greenwood) que as coisas não estão melhores ou piores no Vietnã. Estão iguais. McNamara fica inconformado com isso, mas quando fala com a imprensa, ele mente. Ellsberg decide fazer algo a esse respeito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Post): Sim, essa história é importante. Sim, é sempre válido contar boas histórias no cinema, até para que as novas gerações as conheçam. The Post conta um dos belos capítulos da história do jornalismo americano e mundial. Quando alguns jornais enfrentaram o interesse do governo de Richard Nixon de continuar abafando as mentiras envolvendo o Vietnã.

The Post é importante especialmente agora, quando alguns discursos muito equivocados nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes querem justificar mentiras e meia verdades contadas por administrações pública. Não existe “segurança nacional” ou a justificativa que for para que um governo minta para os seu povo. Afinal, os governantes estão lá para governar para todos e não para mentir e enganar a opinião pública.

Também é especialmente relevante essa história voltar a ganhar o holofote em um filme de Hollywood nessa época da nossa História em que, parece, cada vez menos pessoas estão interessadas em gastar dinheiro com o jornalismo. Conforme os hábitos das pessoas estão migrando para serviços de streaming e para um consumo limitado ao que se compartilha nas redes sociais – sendo uma parte considerável dessa informação enganosa e não checada por profissionais preparados para isso, como é o caso do jornalismo -, vale nos questionarmos sobre o que irá acontecer com as sociedades sem o bom e velho jornalismo.

Eu sei a resposta para isso. E ela não é nada boa. Há 21 anos eu escolhi essa profissão. Fiz o curso de Jornalismo e logo comecei a trabalhar na área. Hoje, sem vontade de ir para os grandes centros do Brasil – São Paulo ou Rio de Janeiro -, eu vejo cada vez menos oportunidades para os profissionais da minha área fazerem o que eles tanto quiseram. Ou seja, jornalismo. Anunciantes e leitores estão cada vez menos dispostos a investir no jornalismo de qualidade, e o que vemos são os jornais “se vendendo” para qualquer um que lhes ajude a manter as rotativas em funcionamento.

Onde eu moro, existem jornais que são capazes de demitir um jornalista ético e competente porque ele desagradou a um grande anunciante com uma matéria 100% correta que feriu os interesses dessa companhia. Nesse cenário, não existe jornalismo de qualidade, apenas enganação para leitores desavisados. Atualmente, percebo que poucos jornais resistem às pressões do mercado e dos anunciantes e realmente fazem o seu dever de casa.

Em The Post, os jornais foram ameaçados simplesmente pela administração central do país. E o que você faz diante disso? Jogos de poderes existiam na época e existem hoje em dia. Os jornalistas e empresas de jornalismo de verdade não perdem o foco de seus papéis e enfrentam o interesse que for – econômico ou político – para cumprir esse papel. Por isso, para uma jornalista como eu, é especialmente emocionante assistir a um filme como esse. Um bom exemplo de história de quando o jornalismo realmente foi corajoso e cumpriu o seu papel.

Depois de fazer estes comentários, alguns bastante pessoais, vou analisar o filme propriamente dito. O roteiro de Liz Hannah e de Josh Singer é bem escrito e equilibra elementos históricos com algumas “pílulas” narrativas bem planejadas para tornar um filme aparentemente “chato” e “burocrático” em uma história com um bocado de tensão, altos e baixos e suspense. A narrativa é clássica e linear, além de bastante direta.

Partimos do momento em que o personagem de Ellsberg decide tomar a sua atitude corajosa de fazer cópias ilegais de documentos sigilosos, após ele fazer uma incursão e ver o caos no Vietnã in loco em 1966, para outro momento decisivo dessa história, quando o jornal The Washington Post está lutando para sobreviver enquanto o concorrente The New York Times começa a publicar reportagens devastadoras sobre como diversas administrações americanas mentiram sobre a Guerra do Vietnã.

Assim, grande parte da narrativa dessa produção se passa em Washington, em 1971. Essa eu achei a parte mais interessante do filme, na verdade. Os bastidores de um grande jornal. Hannah e Singer se debruçam, especialmente, sobre dois personagens: Kay Graham (Meryl Streep), herdeira do jornal familiar e desafiada por todos os lados por estar nessa posição no The Washington Post, e Ben Bradlee (Tom Hanks), o diretor de redação do jornal.

Como eu conhecia a história sobre a batalha dos jornais contra Nixon antes mesmo do escândalo de Watergate, o centro dessa história não me surpreendeu. O que eu realmente achei interessante e importante de ser contado foram os bastidores da notícia. Tanto a guerra que existe entre os grandes jornais, essa concorrência saudável que às vezes inclui uma certa “espionagem” dos melhores repórteres e coberturas exclusivas, quanto e principalmente a relação às vezes próxima demais de alguns jornalistas e donos de jornais com o poder.

Esses pontos realmente são interessantes nesse filme e importantes de serem debatidos nas faculdades de jornalismo. Afinal, qual deve ser a postura mais ética dos jornalistas e dos donos de jornais em relação aos anunciantes, patrocinadores e os donos do poder? O quanto determinadas “proximidades” e “amizades” podem ser aceitas e o quanto elas podem significar miopia na cobertura da imprensa e, consequentemente, a perda de sentido do trabalho jornalístico?

Eu conheci várias pessoas que achavam normal amizade com fontes diversas. Da minha parte, de quem nunca gostou de ter amizade nem com a chefia do jornal e nem com as fontes – justamente por questões éticas -, eu sempre me perguntava: e toda essa “amizade”, até que ponto ela é proveitosa para o leitor/consumidor da notícia? O quanto essas relações de proximidade limitam os jornalistas a fazer as perguntas incômodas, a ir atrás de uma fumaça que eles viram em algum momento de seu trabalho de eternos “fuçadores” de notícia?

Ao mesmo tempo que eu escrevo essas linhas, eu sei que a relação entre jornalista e fontes, especialmente as que estão nos governos, não pode ser sempre de confronto e de desconfiança. É preciso alguma trégua, algum “armistício”, até para que notícias positivas também sejam divulgadas.

Mas é um princípio do jornalista sempre desconfiar e sempre estar atento às denúncias e insatisfações da sociedade. Quando você está próximo(a) demais do poder, inclusive fascinado por ele, atrás de um furo ou de uma exclusiva, você não tem o distanciamento suficiente para enxergar isso. E The Post toca muito bem nesse ponto.

No fim das contas, Graham e Bradlee assumiram a postura correta no caso das mentiras de diversas administrações sobre o Vietnã. Mas e antes, ao serem próximos dos Kennedy, eles não falharam? Provavelmente sim. Mas o importante, nesse filme e na vida real, é que aprendamos com os nossos erros. E, preferencialmente, com os erros dos outros também. The Post mostra como é possível evoluir e fazer a coisa certa apesar de todos os riscos que isso envolve.

O roteiro de The Post mostra muito bem os riscos que Graham, em especial, estava correndo com toda aquela história das denúncias envolvendo diversas administrações dos Estados Unidos. Endividado, o jornal poderia perder a oferta dos banqueiros que queriam investir na publicação quando ela resolveu abrir o capital. Ou seja, ela aderir à série de denúncias poderia prejudicar definitivamente o futuro da publicação.

Mas Graham viu que isso era o certo a se fazer – e, claro, não sejamos inocentes, ao publicar aquelas notícias o The Washington Post estava se credenciando como um dos grandes jornais do país. Ou seja, se desse errado a busca de recursos através dos banqueiros, o jornal poderia conseguir isso ao ganhar uma projeção nacional e o prestígio que a publicação não tinha até aquele momento.

Essas são as partes interessantes do filme e que valem algumas horas de debates sobre a realidade dos jornais e dos jornalistas nos cursos mundo afora. Agora, depois de comentar sobre as partes interessantes do filme, devo dizer que The Post me incomodou um pouquinho por seu tom “rocambolesco”. Por que eu digo isso? Porque The Post dá uma exagerada na história e tenta transformar a narrativa em uma produção ao estilo “espionagem” para prender a atenção dos espectadores. Mas podemos sentir o “cheiro” de que houve um pouco de exagero aqui e ali.

E realmente houve. Para começo de história, o filme sugere, mas depois faz questão de esquecer, o papel de protagonista naquela denúncia do The New York Times. Eles foram os primeiros a denunciar e o jornal que foi processado na Justiça pelo governo – o The Washington Post apenas seguiu no encalço do rival. Então por que, afinal de contas, essa produção não é sobre o jornal que protagonizou toda aquela denúncia? Bem, alguns elementos ajudam a explicar isso.

Primeiro, vivemos uma interessante – e mais do que justa – fase de histórias e filmes que enaltecem o protagonismo feminino. No caso do NYT, não tínhamos uma Kay Graham para mostrar o posicionamento de uma mulher forte, inteligente e independente no caso. Depois, o jornal dela realmente teria uma relevância grande logo a seguir: o protagonismo no caso das denúncias do caso Watergate – no qual os papéis se inverteriam, e o NYT teria que correr atrás do que o The Washington Post começou a fazer.

Enfim, esse filme peca um pouco pela previsibilidade, para quem, como eu, já conhecia a história, e peca um pouco pelo “exagero” em tornar o The Washington Post o protagonista do escândalo envolvendo os papéis do Pentágono. Mas, no geral, o filme é bem conduzido e bem narrado. E o grande destaque dele são os grandes atores em cena, especialmente a gigante Meryl Streep, que nos apresenta uma Kay Graham muito interessante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, o grande nome desse filme é o de Meryl Streep. Mais uma vez ela consegue se destacar. Tom Hanks também está bem, mas ela impressiona pelos detalhes da interpretação e por mergulhar tão bem na personagem. Além deles, Steven Spielberg faz um bom trabalho na direção, procurando sempre ampliar a visão do espectador em planos mais abertos quando possível. É como se ele estivesse sempre nos lembrando da necessidade de olhar os quadros de maneira mais ampla. Mas achei que tanto Hanks quanto Spielberg fazem um trabalho competente, mas também dentro do esperado. Nada além. Meryl Streep consegue fazer uma entrega um pouco acima da média.

Enquanto eu assistia a esse filme, eu lembrei muito de “ligações perigosas”. Assim mesmo, em letras minúsculas. Ou seja, não me lembrei do filme propriamente dito, mas dessa expressão que ajuda a explicar um bocado das relações entre jornalistas e as suas fontes. Os profissionais tem que ter atenção constante sobre o seu trabalho e buscarem sempre o caminho ético para não se perderem em algumas relações que podem descambar, às vezes, para o lado da promiscuidade. The Post mostra muito bem isso, especialmente na relação de Kay Graham com Robert McNamara e de Ben Bradlee e da esposa Tony Bradlee (Sarah Paulson) com os Kennedy.

Esse filme está cheio de atores interessantes em papéis menores. Temos alguns coadjuvantes muito bons em cenas, mas em papéis pouco desenvolvidos pelo roteiro de Liz Hannah e Josh Singer. Vale citar alguns desses nomes, pela ordem de importância no filme e de bom trabalho em cena: Bob Odenkirk como Ben Bagdikian, o repórter do The Washington Post que consegue localizar Ellsberg e conseguir com eles a papelada que o jornal tanto precisava; Tracy Letts como Fritz Beebe, braço direito de Graham; Bradley Whitford como Arthur Parsons, integrante do conselho do Post e que vive questionando a liderança de Graham; Bruce Greenwood como o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara; Matthew Rhys como Daniel Ellsberg, o “garganta profunda” desse caso; Alison Brie em uma super ponta como Lally Graham, filha de Kay; Jesse Plemons como Roger Clark, advogado que representa o The Washington Post; Carrie Con como Meg Greenfield, jornalista que faz parte da equipe que analisou a papelada do Pentágono; David Cross bem disfarçado como Howard Simons, editor do jornal que fez parte daquela força-tarefa; John Rue como Gene Patterson, outro editor que fez parte do grupo; Philip Casnoff como Chalmers Roberts, idem; Pat Healy como Phil Geyelin, idem.

O que chama a atenção dessa lista acima? Que fora alguns personagens, vários que eu citei vocês nem conseguiram identificar assistindo ao filme, não é mesmo? Esse eu achei um problema de The Post. O filme se preocupou em colocar todos os personagens em cena, até para os fãs que iriam procurar os nomes dos personagens reais que fizeram história, mas durante o desenrolar da produção os roteiristas não tiveram a preocupação de realmente apresentar e desenvolver aqueles personagens. O que eu acho um ponto falho.

Além dos atores citados, há vários outros que aparecem em cena. Muitos de interesse histórico, mas ainda menos desenvolvidos pelos roteiristas.

Entre os diferentes aspectos que compõem essa produção, fora a interpretação precisa e muito bem feita dos protagonistas, vale destacar o competente trabalho do diretor Steven Spielberg. Ele mostra a forma com que domina o seu ofício nos detalhes. Isso fica especialmente evidente na sequência em que Graham e Bradlee discutem com Beebe e Parsons, cada um em um telefone, sobre se o jornal vai embarcar na história dos papéis do Pentágono ou não. A forma com que aquela sequência foi filmada, planejada e editada é uma pequena aula de cinema.

Fazer um grande trabalho na direção em um filme de ação pode projetar um diretor, mas fazer um belo trabalho em um filme “intelectualizado” e pouco movimentado como esse, é só para quem conhece realmente o ofício. Tornar um filme como The Post atraente para os grandes públicos não é algo simples, mas Spielberg consegue isso utilizando todos os artifícios de planos e dinâmicas de câmera possíveis. Um belo trabalho, sem dúvida.

Falando nos aspectos técnicos de The Post, vale citar o belo trabalho do veterano John Williams na trilha sonora – ainda que, para o meu gosto, ele exagera na dose em alguns momentos; de Janusz Kaminski na direção de fotografia – ele utiliza uma fotografia um bocado escura, quase um preto e branco, parece que para marcar o realismo da história; a edição precisa e muito competente de Sarah Broshar e Michael Kahn; o design de produção de Rick Carter; a direção de arte de Kim Jennings e de Deborah Jensen; a decoração de set de Rena DeAngelo; e os figurinos precisos de outra veterana, Ann Roth.

Essa produção abre uma frente interessante de pesquisa sobre aquela época e alguns daqueles personagens. Andei lendo alguns textos a respeito, e deixo alguns aqui para vocês conferirem. Gostei, por exemplo, da ponderação de Helio Gurovitz sobre o filme e publicada no G1. Sobre a Katherine Graham real, vale dar uma conferida no material sobre ela na Wikipédia. E sobre a Guerra do Vietnã, gostei dessa matéria do site BBC Brasil, que tem algumas curiosidades do conflito, e dessa outra do site História do Mundo que dá uma boa resumida no conflito que durou impressionantes 16 anos.

The Post estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 22 de dezembro de 2017. Depois, no dia 4 de janeiro de 2018, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Esse foi o único festival em que o filme participou até o momento. No Brasil, o filme estreou no dia 1º de fevereiro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como o filme sugere, em todas as cenas em que o ex-presidente Richard Nixon aparece de costas na Casa Branca, a voz que ouvimos é realmente do ex-presidente americano. Achei um detalhe interessante e bacana do filme terem escolhido trechos de conversas dele.

Nas cenas em que os documentos do Pentágono aparecem no filme, realmente foram utilizadas as páginas originais – ou seja, os documentos que, de fato, resultaram no escândalo no governo Nixon e que foram copiadas por Daniel Ellsberg.

The Post é dedicado para Nora Ephron, que foi casada com Carl Bernstein, jornalista do The Washington Post que, com Bob Woodward, descobriu o escândalo de Watergate – aquele mesmo que derrubaria Nixon.

Sem nunca ter trabalhado antes com Spielberg, Meryl Streep ficou surpresa ao saber que o diretor não ensaiava as cenas com os seus atores. Tom Hanks sabia disso, mas não contou nada para a atriz para não “assustá-la”. Apesar de surpresa com essa forma de trabalhar de Spielberg, Meryl Streep trabalho nesse ritmo e surpreendeu o diretor, que volta e meia elogiava a forma com que a atriz tinha se transformado na personagem.

Benjamin C. Bradlee e a esposa dele, Sally Quinn, foram vizinhos de Steven Spielberg em Long Island por muitos anos. Mas eles só se conheceram socialmente.

Falando nas relações pessoais entre os realizadores desse filme e os personagens retratados, Tom Hanks chegou a conhecer Bradlee e também Kay Graham – ela, na véspera de sua morte.

Steven Spielberg tinha pressa em lançar The Post, como uma espécie de resposta a onda de “notícias falsas” nos Estados Unidos. Entre o momento em que o roteiro foi concluído e o filme foi lançado, passaram-se apenas nove meses. As filmagens ocorreram entre maio e julho de 2017, e The Post foi finalizado por Spielberg em duas semanas – ele nunca finalizou um filme tão rápido. Tudo para que The Post estreasse logo que possível.

Spielberg exibiu The Post para os filhos de Katherine Graham, Lally Weymouth e Donald Graham, e para a viúva de Bradlee, Sally Quinn. Todos aprovaram a produção.

Esse é o terceiro filme com roteiro de Josh Singer que explora a importância do jornalismo. Os anteriores foram The Fifth Estate e Spotlight.

O Prêmio Pulitzer de Jornalismo de 1972 sobre os escândalos dos papéis do Pentágono foi dado apenas para o The New York Times – isso ajuda amostrar como The Post “exagera” um bocado sobre a participação do The Washington Post naquele capítulo.

The Post termina praticamente no ponto em que o clássico All The President’s Men começa. Por isso, para alguns, The Post pode ser considerado um “prequel” do outro filme – afinal, um termina com o vigia descobrindo os assaltantes no prédio Watergate, mesmo ponto em que o outro começa.

Até o momento, The Post ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 79 – incluindo a indicação em duas categorias do Oscar 2018. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e Melhor Atriz para Meryl Streep no prêmio do National Board of Review. Também vale citar o prêmio de Melhor Filme e o Gary Murray Award de melhor elenco dados pela North Texas Film Critics Association.

The Post é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e que pediam por filmes dos Estados Unidos.

Essa produção, que teria custado US$ 50 milhões, faturou US$ 63,5 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 24,7 milhões nos outros países em que estreou. No acumulado, ele faturou pouco mais de US$ 88,2 milhões – ou seja, ainda falta um pouquinho para começar a registrar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 261 textos positivos e 35 negativos para a produção, o que garante para The Post uma aprovação de 88% e uma nota média 8. A nota no Rotten Tomatoes, em especial, chama a atenção, porque está acima da média.

CONCLUSÃO: Essa história não é, exatamente, nova. Quem acompanha a história do jornalismo mundial e conhece alguns de seus principais capítulos, não será surpreendido por The Post. Mesmo assim, esse filme vale por reunir um grande elenco para contar um dos grandes episódios do bom jornalismo americano. Quem dera que mais histórias como essa pudessem ser contadas no futuro. Com uma boa narrativa e com atores mais que competentes em papéis-chave, The Post faz um resgate histórico importante, especialmente nos dias de hoje, em que a imprensa anda cada vez mais atacada por todos os lados.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente? Gostei desse filme, mas eu não acho que ele se aproxima da qualidade do vencedor do Oscar Spotlight (comentado por aqui), um filme melhor conduzido e com menos exageros narrativos. Em resumo, a exemplo de Darkest Hour (com crítica neste link), eu considero um exagero The Post ter sido indicado a Melhor Filme no Oscar 2018. Para mim, os dois filmes não tem qualidade para chegarem a tal posição.

No lugar deles, por exemplo, eu colocaria I, Tonya (comentado aqui) ou mesmo The Florida Project (com crítica neste link), filmes mais corajosos e “inovadores” na narrativa. Mais criativos. Mas, certamente, The Post e Darkest Hour tiveram boas campanhas e um bom lobby para chegarem a suas indicações na categoria principal do Oscar 2018.

Mas quais são as chances de The Post no Oscar, afinal de contas? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Filme e Melhor Atriz para Meryl Streep. A atriz, recordista em indicados no Oscar, mereceu mais essa chance de ganhar uma estatueta. Ela é o grande nome desta produção – que tem outros grandes nomes envolvidos no projeto, como Steven Spielberg e Tom Hanks. Meryl consegue, mais uma vez, roubar a cena.

Apesar disso, ela não tem chances de levar a estatueta nesse ano. A favoritíssima para levar o Oscar para casa é a atriz Frances McDormand, a estrela de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado aqui). A única pessoa que pode estragar a festa de McDormand é a atriz Sally Hawkins, de The Shape of Water. Mas se eu fosse apostar em alguém, seria em McDormand.

The Post tem chances remotas – para não dizer zero – de vencer como Melhor Filme. Vejo que, antes dele, estão na frente dessa disputa Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; The Shape of Water e Dunkirk, nessa ordem. Ou seja, com duas indicações importantes no Oscar, The Post tem grandes chances de sair da premiação de mãos vazias. Não será injusto, especialmente quando estamos buscando por filmes excelentes e/ou acima da média nessa premiação.

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August: Osage County – Álbum de Família

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Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.

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The Iron Lady – A Dama de Ferro

O tempo passa para todas as pessoas. Seja você um cidadão “comum”, ou um nome de destaque nos livros de história. Se você tiver sorte e viver muito tempo, uma hora a fatura é cobrada. The Iron Lady equilibra a história de uma mulher que serviu e ainda serve de modelo depois que ela saiu dos holofotes e um rápido repasse em sua vida pública. E para interpretá-la, não existe e nem poderia existir alguém melhor que Meryl Streep. Mais uma vez ela dá uma aula de interpretação, e torna muito difícil a escolha dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Uma senhora idosa fica em dúvida sobre o leite que irá comprar. Mas a dúvida dura pouco. Caminhando devagar até o caixa, ela é ultrapassada por um engravatado que fala no telefone celular e parece estar com muita pressa. Ela pega um jornal The Times no caixa e paga a conta, ficando surpresa com o preço do leite. Enquanto toma café com o marido, Denis (Jim Broadbent), Margaret Thatcher (Meryl Streep) comenta sobre a subida do preço do leite. Ele brinca com a preocupação da esposa, e diz que “ela”, a empregada, está chegando perto. Quando a empregada chega, Margaret Thatcher está sozinha na mesa. A partir daí, o filme mostra a fragilidade da ex-primeira ministra inglesa e parte de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Iron Lady): O que você poderia esperar de um filme sobre a mulher que ajudou a mudar a história da Inglaterra e da política mundial, abrindo espaço para tantas outras mulheres trilharem o caminho do poder? Para começar, um filme que mostrasse a determinação e a força da Dama de Ferro, como ela ficou conhecida, certo? Pois bem, por incrível que possa parecer, The Iron Lady trata mais da fragilidade do que da fortaleza desta figura histórica.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a The Iron Lady). Grande parte do filme enfoca a velhice de Margaret Thatcher e seu progressivo mergulho em um estado de demência. Por um lado, esse enfoque assumido pelo roteiro de Abi Morgan é um acerto ao abordar um aspecto novo, pouco conhecido e inusitado da conhecida líder política britânica. Por outro lado, essa mesma sacada perde o caráter de novidade e acaba se transformando em um desperdício de tempo, de oportunidade para explorar um retrato mais completo da personalidade focada. O grande problema do roteiro é que ele perde o momento de dar a guinada, de sair do estado de “surpreendente” para jogar-se em um trabalho mais aprofundado.

Faltou um pouco mais de talento e de percepção para Abi Morgan. Ela perde o momento de ponderar o que poderia ser mais interessante para o espectador – além do caráter surpresa. E como o roteiro, especialmente quando o foco é uma personalidade histórica, é a alma de um filme e precisa ser bem costurado, o resultado de The Iron Lady se mostra fraco, quase decepcionante, quando percebemos o quanto da história de Thatcher é ignorado pelo texto do filme.

Sem Meryl Streep, o resultado teria sido catastrófico. Mas eis mais um filme em que ela salva a história. A interpretação dela é perfeita. Mais uma digna de prêmios. De Oscar. Mesmo que ela fiquei à ver navios, mais uma vez, na maior premiação do cinema dos Estados Unidos, ela é a grande responsável pelo interesse de The Iron Lady. Ela interpreta com gravidade e um grande respeito a personalidade de Thatcher. Mergulha de tal maneira na fragilidade da velhice e na convicção das opiniões fortes da primeira-ministra na vida adulta que você precisa esforçar-se para recordar da Thatcher real.

Pena que uma grande atriz, sozinha, não salva um filme com roteiro fraco. Para a sorte do espectador, contudo, há pelo menos mais um grande ator em cena: Jim Broadbent, que interpreta ao marido de Thatcher. Ele é a graça do filme – ou, pelo menos, tenta fazer rir em meio ao drama e ao tom sisudo do restante da história. A diretora Phyllida Lloyd faz um bom trabalho, ponderando bem cenas de reconstituição, a inserção de imagens de época, e imprimindo o tom exato, com a ajuda do diretor de fotografia Elliot Davis para diferenciar bem os tempos históricos. Ela também acerta ao tornar a câmera uma grande fã de Meryl Streep, acompanhando-a em cada movimento.

O problema está realmente no roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele gasta muito tempo batendo na tecla da fragilidade de Thatcher, uma forma de emocionar o espectador ao tornar uma personagem sem grande apelo popular como digna de piedade. Claro que, neste sentido, o filme faz pensar no que eu comentei lá no início. De que não importa o quanto grande ou “pequeno” alguém pode ser, o tempo passa para todos e, com esta passagem, a fatura vai ficando mais pesada. Mas o interessante mesmo de um filme sobre Margaret Thatcher não seria essa reflexão, ainda que ela seja válida, e sim mais detalhes sobre a história desta grande mulher. E faltam mais detalhes que possam encorpar essa reconstituição histórica.

Verdade que o espectador acaba tendo rápidas pinceladas sobre vários momentos da vida de Thatcher, antes mesmo dela ter este sobrenome. O problema é que rápidas pinceladas é muito pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sabemos nada da infância de Margaret, e saber tão pouco sobre a família dela não ajuda a montar um quadro sobre a formação da personagem histórica. A entrada e, principalmente, o sucesso dela na política também são tratados de maneira muito displicente. Ela não chegou a ser líder do partido sem alianças ou apoios importantes. Estas pessoas não aparecem – ou figuram apenas de relance, sem sabermos nada sobre elas. E mesmo o momento mais importante da personagem, quando ela se torna Primeira Ministra, é mostrado com pouca emoção ou profundidade.

Mesmo com tantos problemas, é interessante rever algumas frases famosas de Margaret Thatcher e relembrar, por exemplo, que ela citou a São Francisco de Assis logo que assumiu como Primeira Ministra. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A diretora e a roteirista acertam ao resgatar cenas históricas, e ao mostrar como o governo dela foi combatido. Mas os bastidores do poder e os jogos ao redor dela são quase todos ignorados. Algumas vezes, a questão parece estar resumida em uma questão sexista – homens versus mulher. Certo que esta foi uma questão importante, mas não foi a única que pudesse explicar a resistência dos pares de Thatcher ao seu poder. Também faltou mostrar o apoio que ela tinha da população – por grande porte do filme, até a guerra com a Argentina, pareceu que a população basicamente estava contra ela. E todos sabemos que ninguém ficaria tanto tempo no poder sendo impopular entre a massa e seus pares. Não faz muito sentido. E fragiliza o filme.

Meryl Streep, algumas das ótimas frases de Margaret Thatcher e o rápido repasse histórico daquela época fazem o filme não ser um completo desperdício e, porque não dizer, revelar-se até interessante. Se você conseguir ignorar algumas teclas batidas com repetição e a ligeireza do roteiro, poderá render-se a Streep. E isso sempre vale a pena.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Margaret Thatcher não foi apenas a primeira mulher a se tornar Primeira Ministra na Inglaterra – e a única, até agora. Ela foi também a figura forte de um dos principais países do mundo em uma época decisiva para a nossa história moderna. Thatcher ocupou a cadeira de Primeira Ministra entre 1979 e 1990. Certamente seria impossível, para qualquer filme, retratar com precisão os principais momentos destes 11 anos de governo dela. Mas faltou mais molho e enredo em The Iron Lady, tendo como fonte uma biografia e um tempo histórico tão determinante.

Este texto da Wikipédia, em inglês, traz mais informações sobre Margaret Thatcher do que todo o filme The Iron Lady. Para quem quiser saber um pouco mais sobre ela, é um bom ponto de partida. Aguardo o dia em que outro filme fizer mais justiça a uma personagem histórica desta grandeza. Gostaria de saber, por exemplo, dos bastidores das críticas que ela fazia à União Soviética, e a recepção que este combate tinha do outro lado – responsável por chamá-la de “dama de ferro”.

Segundo o texto da Wikipédia, como Primeira Ministra, entre outras ações, Thatcher desenvolveu uma política de desregulação, especialmente do setor financeiro, flexibilizando as regras trabalhistas, fechando e vendendo empresas estatais, e cortando subsídios dados para outras empresas. Parte destes pontos – especialmente as questões trabalhistas – são mostradas rapidamente no filme, com a consequente resistência de trabalhadores. Mas a recuperação da imagem de Thatcher não se deu apenas pela Guerra das Malvinas, em 1982.

Ainda que um conflito armado, que ressuscita a velha questão da soberania e do orgulho nacional, seja sempre um grande afrodisíaco para reeleições e para a política, a vitória da Inglaterra neste conflito justifica apenas em parte o sucesso de Thatcher para ser reeleita em 1983. As duras medidas tomadas logo que assumiu o poder começaram a surtir efeito e o país começou a registrar uma importante recuperação econômica.

Outro tema praticamente ignorado por The Iron Lady e que seria muito interessante de ter sido explorado foi a relação de Thatcher com lideranças mundiais, especialmente os Reagan. Também faltou abordar o que aconteceu com ela nos anos posteriores a ela ter deixado de ser a Primeira Ministra. Interessante como ela passou a ganhar 250 mil libras por ano para ser consultora geopolítica da companhia Philip Morris, por exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou de fora da história também os problemas que ela teve de saúde, como os derrames “suaves” sofridos em 2002 – um ano antes da morte do marido.

Para quem quiser ler um rápido resumo de Thatcher em português, indico este. Nele ficamos sabendo, por exemplo, que o estado de saúde da ex-líder política é muito mais complicado do que aquele mostrado no filme.

Indicando outras leituras: esta página, em inglês, é o site da fundação Margaret Thatcher, que traz materiais multimídia, frases, discursos, entrevistas e um material bem extenso da líder política; e esta outra página, especial da BBC, com um vasto material de texto, vídeos e áudio com Thatcher.

The Iron Lady estreou no dia 26 de dezembro na Austrália e na Nova Zelândia. Agora em fevereiro, mais precisamente no dia 14, o filme participa de seu primeiro festival, o de Berlim. Pelas característica do filme, não vejo ele fazendo uma grande carreira nos festivais ou ganhando muitos prêmios além daqueles entregues pelos círculos de críticos para Meryl Streep.

O filme teria custado aproximadamente US$ 13 milhões e faturado, até o dia 29 de janeiro, um mês depois de estrear nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 17,5 milhões. Sem dúvida esta bilheteria foi feita por duas razões: pelo nome de Meryl Streep, que é sempre um chamariz, e pela esperança dos espectadores de ver um grande filme sobre uma grande personagem histórica. Pena que apenas Streep faça valer o ingresso.

Até o momento, The Iron Lady ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo as nomeações para dois Oscar’s. Quase todos os prêmios recebidos foram para Meryl Streep, como era de se esperar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para o filme. É baixa, mas compreensível pela qualidade do roteiro da produção – frente ao que ela poderia ser. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também não perdoaram a fragilidade da produção. Eles dedicaram 101 críticas positivas e 86 negativas para The Iron Lady, o que garante uma aprovação de 54% para a produção – e uma nota de 5,8.

The Iron Lady é uma co-produção do Reino Unido com a França. Curioso, porque estas duas escolas de cinema, normalmente mais cuidadosas com cinebiografias, desta vez não tiveram a competência em focar uma personagem histórica tão relevante.

Fora os atores já citados, há pouca relevância no trabalho dos demais. Mas não custa citar os nomes de Alexandra Roach, que interpreta a jovem Margaret Thatcher; Harry Lloyd, que interpreta o jovem Denis Thatcher; e Olivia Colman, que faz um bom trabalho como a filha de Margaret, Carol. Da parte técnica do filme, nunca é demais citar o trabalho competente de Thomas Newman, na trilha sonora e a edição de Justine Wright.

Ah sim, e para quem acha que eu fui muito generosa com a nota acima, tenho duas considerações a fazer: de fato, acho que eu ando muito generosa, especialmente com os filmes indicados ao Oscar, já que este ano a premiação tem uma concorrência bem mais fraca do que em anos anteriores; e a nota é justificada, basicamente, por mais um excelente trabalho de Meryl Streep. Ela, sozinha, justifica a nota.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadoso, atento aos detalhes de mais uma interpretação exemplar de Meryl Streep. The Iron Lady é conduzido por esta atriz espetacular. E ainda tem um roteiro inteligente em vários momentos, mas que não consegue aproveitar o legado de Margaret Thatcher. A produção perde uma boa oportunidade de contar mais detalhes da vida desta grande líder política. O roteiro ignora as forças que a levaram para o poder e a sustentaram por tanto tempo. Porque ninguém chegaria onde ela chegou e nem ficaria tanto tempo no poder apenas por suas ideias brilhantes. Toda a reflexão sobre a fragilidade da etapa final de Margaret Thatcher é válida, mas poderia ter sido encurtada para explorar melhor outros aspectos relevantes da vida desta personalidade histórica. Mesmo com os seus defeitos e simplificação da história, The Iron Lady é uma ótima oportunidade para assistirmos a mais um grande trabalho de Meryl Streep e, ainda de quebra, saber um pouco mais sobre a rotina de Thatcher em um momento em que ninguém mais se interessava por ela.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Iron Lady concorre a duas estatuetas este ano: a de Melhor Atriz, para Meryl Streep, e a de Melhor Maquiagem. As duas indicações foram merecidíssimas. Bato palmas para elas. Mas quais as chances do filme ganhar alguma destas estatuetas?

Meryl Streep sempre merece um Oscar. Impressionante. Dito isso, acho que ela poderia receber o Oscar por The Iron Lady. Conta a seu favor o fato dela ter recebido um Globo de Ouro pelo papel. Mas tenho minhas dúvidas se ela vai conseguir isso. Primeiro, porque as bolsas de apostas estão apontando para uma vitória de Viola Davis. Que também merece, diga-se. Depois, porque The Help está com uma moral muito mais alta com a crítica do que The Iron Lady. E isso conta pontos na hora da votação.

O trabalho feito com a maquiagem também é merecedor de uma indicação. E eu acho, pela sutileza do trabalho, que ele merecia ganhar a estatueta. Só que será difícil, para não dizer impossível, já que The Iron Lady concorre com os fortes candidatos Albert Nobbs e, principalmente, Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2. Resumindo a ópera: acho que The Iron Lady pode sair do Oscar sem prêmio algum.

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Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events – Desventuras em Série

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Demorei para assistir a este filme de 2004, indicado pelo Caio Cézar há um bom tempinho, graças a um certo preconceito. Primeiro porque eu tinha achado o cartaz muito “Enchanted” para o meu gosto. Depois porque, francamente, poucas vezes eu gostei de alguma interpretação do Sr. Jim Carrey. Dito isso, fui deixando o filme para ver depois, até que enfrentei este meu preconceito e parti para assistir a Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events (nome gradinho, hein?). E que grata surpresa. Para a minha sorte, de quem não estava esperando muito desta produção, me deparei com um filme com efeitos visuais, especiais e de caracterização dos personagens incríveis. Um belo trabalho de equipe e que conta, ainda, com grandes atores em cena e uma história de fantasia envolvente e, na medida do possível, realista e/ou com fundo moral curioso – recomendadíssima para crianças e jovens, especialmente.

A HISTÓRIA: Começa em um bosque encantado, onde proliferam as borboletas e onde vive O Elfinho. Mas esta história feliz é interrompida pelo narrador do filme, Lemony Snicket (com a voz de Jude Law), que nos alerta que o que virá na sequência não será uma história feliz e sim uma narrativa “extremamente desagradável”. Snicket narra o momento em que os irmãos Violet (Emily Browning), Klaus (Liam Aiken) e Sunny (as gêmeas Kara Hoffman e Shelby Hoffman) se tornaram órfãos e passaram a ser perseguidos por um interesseiro familiar chamado Conde Olaf (Jim Carrey).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events): Como a maioria dos chamados “contos de fadas”, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events (que chamarei abreviadamente de LSASUE) tem sua “moral da história”, vários personagens bondosos e um grande vilão. No lugar da bruxa má e invejosa, o filme nos apresenta a um ator ambicioso e interesseiro interpretado por Jim Carrey. Em sua ânsia por conseguir a herança das crianças, o Conde Olaf se passa ainda por outros dois personagens – o de ajudante de cientistas e o de um marinheiro.

Mas antes de falar do desempenho de Carrey, queria ressaltar o carisma e o bom trabalho dos protagonistas desta história. O roteiro de Robert Gordon, baseado nos livros de Daniel Handler, consegue nos apresentar de forma bastante resumida e acertada as “vocações” de cada um dos irmãos. Assim, temos a Violet, de 14 anos, uma inventora que deixaria o MacGyver no chinelo; Klaus e sua paixão pela leitura (e memória privilegiada); e a pequena Sunny, que ainda nem começou a falar, mas que tem um apreço especial por morder quase tudo que vê pela frente, além de um senso de humor único.

Uma das grandes qualidades deste filme é o seu roteiro. Não li a obra de Daniel Handler que resultou no trabalho de Gordon, mas gostei muito da condução de seu texto e, consequentemente, da transposição em imagens de suas palavras – trabalho cuidadoso do diretor Brad Silberling. A verdade é que LSASUE tem tudo que um bom filme de aventura e fantasia precisa ter: ritmo, reviravoltas, acontecimentos estranhos e inexplicáveis em um primeiro momento, perigo, bons personagens, apreço pelos detalhes e pela beleza das imagens de tirar o chapéu.

Outra qualidade do filme é o seu humor sutil e, algumas vezes, sarcástico. Características, pelo que tudo indica, da obra original de Handler – o site dos livros A Series of Unfortunate Events pode ser conferido aqui (em inglês). Para começar, Handler não assina as obras – em seu lugar, ele usa o pseudônimo de Lemony Snicket. A série de livros escritas por ele envolvendo os Baudelaire abrange 13 obras destinadas, inicialmente, para o público infanto-juvenil (mas algo me diz que sua leitura pode ser interessante para qualquer idade).

Algo bacana de suas histórias, pelo pequeno extrato ao qual somos apresentados por este filme, é que elas tratam com a mesma naturalidade mortes/perdas, manifestações do mal (como crimes, cobiça e inveja), a união da família e a importância de se criar um “santuário” em que a “gentileza, a coragem e a abnegação” pelos outros pode ser preservadas. Em outras palavras, com o pseudônimo de Snicket, Handler nos apresenta uma série de livros que tratam dos desafios da vida real, ainda que suas histórias estejam cheias de fantasia.

A impressão que eu tive, ao visitar o site oficial da série de “Lemony Snicket”, é que o filme de Silberling utiliza o material dos três primeiros livros de Handler – talvez algo mais, de algum outro livro, tenha sido incluído no filme para dar um certo “desfecho” (ainda que um bocado aberto) para a história. Ou seja, se a produção tivesse conseguido o sucesso desejado pelos produtores, tranquilamente a história poderia ter tido uma continuação – o que não foi o caso. Uma pena. Nem sempre um filme bem acabado e “redondinho” em seus aspectos principais (roteiro, direção, fotografia e demais cuidados da produção) consegue cair no gosto do público.

Agora, as estrelas de LSASUE são os atores que interpretam os irmãos Baudelaire. Carismáticos e talentosos, ele seguram no tom exato os desafios de seus personagens – que, diga-se, não são poucos. Por outro lado, os intérpretes veteranos desta história deixam um pouco a desejar. Jim Carrey está mais caricato que nunca. Certo que parte de seu papel, como o Conde Olaf, um ator sem talento e ambicioso, exigia esse tom exagerado de Carrey. Ainda assim, achei que ele passa um pouco do limite. Também acho que a sempre ótima Meryl Streep não consegue chegar ao ponto exato da temerosa e cheia de manias tia Josephine. Os únicos que parecem ter se sentido confortáveis em seus papéis foram Billy Connolly como o tio Monty, o cientista aficcionado por cobras da família, e Timothy Spall como Mr. Poe, o advogado que cuida dos bens dos Baudelaire.

Além de reforçar a idéia de que a união faz a força e de que o principal de uma família deve ser a soma de diferentes talentos e características de seus integrantes, LSASUE tem como uma de suas morais a simbologia de um conto sobre a passagem da fase da infância para a vida adulta. Não é por acaso que o narrador cita o gesto de “passar a tocha” como algo simbólico e que, no filme, assume a figura de uma luneta. Objeto esse que nos remete à astronomia e, consequentemente, à ciência e ao conhecimento. Em outras palavras, o ritual de “passagem” de uma vida de brincadeiras, inocência e “pureza” se concretizaria com o conhecimento. Primeiro, o conhecimento do que está distante de nós (através da educação). Depois, do que está mais próximo e, o que é mais difícil, o auto-conhecimento.

Os pais dos Baudelaire morrem de maneira misteriosa, e deixam para os filhos como herança um pouco do conhecimento sobre a complexidade do mundo e da alma humana, cheia de bondade e de maldade. Além disso, está claro, o filme aposta em uma moral otimista, que acredita que é possível criar, não importa aonde ou apesar de quem, um santuário particular (ou entre pessoas com afinidade) onde a “gentileza, a coragem e abnegação” prevaleçam. Uma bela história e com algumas reflexões interessantes para distintos gostos e idades.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events é um destes exemplos de filme com a marca de Hollywood. Perfeito nos detalhes, ele nos apresenta uma adaptação perfeita da realidade imaginada pela literatura de Daniel Handler em imagens. Entre os vários profissionais responsáveis por este feito, destaco a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a direção de arte encabeçada por John Dexter; a decoração de set de Cheryl Carasik e os figurinos de Colleen Atwood, só para citar os aspectos mais destacados do filme.

A lista de profissionais envolvidos no departamento de arte de LSASUE é gigantesca – os curiosos podem dar uma conferida neste link do site IMDb. Não vou citar nomes, mas posso garantir que os cuidados com a parte artística do filme vão até os seus créditos finais, cheios de traços interessantes que lembram algumas produções de Tim Burton. Os efeitos especiais e os efeitos visuais da produção também contaram com dois times grandes, experientes e criativos. Um bom exemplo de produção nestes dois segmentos.

LSASUE custou uma pequena fortuna: US$ 140 milhões. Mas, francamente, eu acreditava que ela teria custado ainda mais – se fosse produzida hoje, em 2009, certamente não sairia por menos de US$ 180/200 milhões. Nas bilheterias o filme teve um desempenho razoável: conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 118,6 milhões. Pouco, se levarmos em consideração que o filme foi lançado justamente na época do Natal de 2004 e que perdurou nos cinemas estadunidenses até abril do ano seguinte.

Este filme teve algumas cenas rodadas em Wilmington, na Carolina do Norte; no Rockwell Defense Plant, na Califórnia e, claro, a maior parte da produção foi filmada mesmo em dois estúdios.

O início do filme é muito atrativo. Para começar, aquele começo falso de “O Elfinho”. Depois, Lemony Snicket dizendo que o espectador seria apresentado a uma história sobre “órfãos espertos, incêndios suspeitos, sanguessugas carnívoras, comida italiana e sociedades secretas”. Alguém consegue pensar em algo mais atrativo para a meninada? Mas eu, com a memória talvez um pouco fraca, demorei um pouco para atinar para a tal “comida italiana” na história – um prato tradicional feito por Klaus e que é comentado em mais de uma ocasião.

Outro pequeno ensinamento deste filme é que cada pessoa tem sua serventia, independente da idade ou de sua “vocação”. A inventora Violet, o “intelectual” (como muitos chamam quem gosta de ler tudo que aparece pela frente) Klaus e a pequena Sunny, que é especializada em morder distintos objetos, cada um deles tem um papel decisivo em algum momento complicado da história. Ninguém, segundo a história, é mais importante ou “melhor” que o outro. Quem dera que todos os adultos por aí seguissem essa idéia…

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Jim Carrey interpreta ao Conde Olaf que, por sua vez, se passa pelo italiano Stefano e pelo capitão Sham. A maquiagem e o vestuário são os maiores responsáveis pela mudança entre os “personagens”, assim como um sotaque diferenciado que o ator destila para cada um deles. Fora isso, seus trejeitos são praticamente os mesmos para os três personagens – o que irrita aos gostos mais apurados, ao mesmo tempo que justifica, propositalmente, o fato do Conde Olaf ser tão fraco ator.

Completando a lista de profissionais responsáveis pela qualidade deste filme, cito ainda o trabalho de Thomas Newman com a trilha sonora e de Michael Kahn na edição.

LSASUE registra a nota 6,9 no site IMDb, assim como 107 críticas positivas e 44 negativas pela análise dos críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes (o que lhe garante uma aprovação de 71%).

Lemony Snicket’s ganhou o Oscar de melhor maquiagem (assinada por Valli O’Reilly e Bill Corso) e outros seis prêmios, incluindo o de melhor atriz para Emily Browning conferido pelo Australian Film Institute. Além destes prêmios que levou para casa, o filme concorreu ainda a outros 21.

CONCLUSÃO: Um filme sobre três irmãos com aptidões diferentes que devem aprender a viver por sua conta e que, desta forma, simboliza o rito de passagem da infância para a vida adulta. Produzido com esmero, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events se destaca pela direção de fotografia, pelos efeitos especiais e visuais. Inspirado nos três primeiros livros de uma série de obras escritas por Daniel Handler para o público infanto-juvenil, este filme apresenta uma narrativa envolvente e que brinca com vários dogmas de alguns contos de fadas. Com um desempenho desigual de seu elenco, LSASUE se destaca pela simpatia dos atores que interpretam os irmãos Baudelaire e pela constante variação entre momentos de tensão e de ironia. Recomendado para todas as idades – especialmente para os que gostam de filmes de fantasia que tenham uma boa narrativa.

SUGESTÕES DE LEITORES: Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events foi citado pelo Caio Cézar no dia 11 de janeiro. Na época, ele comentava suas impressões sobre o filme The Curious Case of Benjamin Button, afirmando que a fotografia do candidato ao Oscar deste ano lembrava a de Lemony Snicket’s. Caio, muito bacana essa tua dica. Como eu disse antes, me surpreendi com o filme – até porque esperava algo mais fraquinho. Gostei muito da fotografia de LSASUE, mas achei ela mais conceitual que a de Benjamin Button. O que as duas tem em comum, sem dúvida, é a sua alta qualidade. Obrigada pela dica e apareça! Um abraço.