Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

Indignation – Indignação

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Interessante a proposta deste filme. Por boa parte do tempo, somos levados a acreditar que estamos assistindo apenas a uma história ordinária. As “desventuras” de um jovem que deixa a casa dos pais e ingressa na universidade. Mas no final Indignation nos surpreende e nos faz pensar em cada detalhe do que assistimos. Não é um filme excepcional, mas é uma produção surpreendente. Nem tanto pela história em si, mas pela “pegadinha” que o roteiro nos apresenta. No fim, o filme começa tratando da morte e se desenrola pela vida apenas para nos mostrar como pensamos muito pouco sobre a nossa finitude.

A HISTÓRIA: Uma enfermeira coloca os remédios nos copinhos com os nomes dos pacientes identificados. Ela caminha com o carrinho até que cumprimenta a Olivia Anderson (Sue Dahlman). Com uma idade um tanto avançada, Olivia olha fixo para a parede com vasos de rosas. Corta. Em uma cena de guerra, o narrador reflete sobre a morte, que chega para todos, e sobre as pequenas escolhas que, encadeadas entre si, nos fizeram chegar àquele momento. Corta. Em uma igreja, celebram a memória de Jonah Greenberg. No velório para ele na casa de seus pais, os Greenberg (Joanne Baron e Richard Topol), Marcus (Logan Lerman) dá os seus pêsames e comenta que vai para a faculdade. Acompanhamos estas mudanças na vida do jovem que é um estudante brilhante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Indignation): Admito que por grande parte do tempo eu achei este filme apenas mediano. Ok, ele começa bem, questionando sobre as decisões que, mesmo de forma involuntária, contribuem para que cheguemos ao nosso derradeiro final. Mas depois o filme cai no que comentei antes como a “história ordinária” de um jovem que tinha grande potencial mas que parecia um pouco perdido sobre o que ele próprio queria da vida.

Enquanto assistia Indignation, tentei “complicar” um pouco a leitura do filme, tentando encará-lo como um exercício de entendimento da própria construção do “american way of life”. Afinal, o protagonista é um sujeito que demonstra como a “seleção natural” é decisiva na sociedade americana. Diferente de outros colegas e amigos, ele escapa da Guerra da Coreia no início dos anos 1950 porque ele tem notas excepcionais e, com elas, conseguiu entrar na universidade. Assim, o filme mostraria como os Estados Unidos premiam os mais capacitados, elevando o nível da nação ao estimular que as novas gerações consigam fazer o que os seus pais não conseguiram.

Mas pouco a pouco vamos vendo que mais que inteligente, Marcus é um sujeito ousado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de um momento ele se revela com uma certa tendência a não seguir ordens e a contrariar quem tem a autoridade – seja ao discordar do pai dele, seja ao questionar o reitor da universidade Dean Caudwell (o sempre competente Tracy Letts).

Mesmo sendo filho de pais judeus, Marcus não segue a religião e, na verdade, se diz ateu. Ao ir para a universidade em Ohio, ele acaba enfrentando uma realidade em que a religião joga um papel importante – tanto que os alunos são obrigados a assistir a um número mínimo de missas durante o tempo em que estão estudando. Ao definir-se como atue, Marcus mostra como prefere pensar por sua própria conta.

Em uma sociedade ainda bastante machista – vamos lembrar que estamos falando dos anos 1950 -, ele também contraria alguns conceitos da época ao se interessar pela independente e ousada Olivia Hutton – no início do filme, quando ela está com idade avançada, a enfermeira a chama de Olivia Anderson. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ali que eu me dei conta, pela primeira vez, que Olivia e Marcus não ficaram juntos. Porque o sobrenome da família dele aparece na sequência, Messner, e se Olivia passou a ter o sobrenome Anderson, é porque ela se casou com outra pessoa. Aliás, quem interpreta a Olivia jovem é a carismática atriz Sarah Gadon.

Para mim, o título do filme tem a ver justamente com esta “rebeldia” de Marcus. Ele não aceita o que considera uma interferência e imposição religiosa na faculdade, assim como não aceita muito bem, em determinado momento, ter que esquecer Olivia. Mas essa indignação que ele tem não o leva muito a lugar algum. E aí entra uma certa crítica ou “moral da história” do filme, quando a razão que faz ele ter o final que ele tem, no fim das contas, nada mais é do que reflexo do “jeitinho” e da “malandragem” que acaba mal. Outros também fizeram o que ele fez para burlar a norma das missas, mas contribuiu para o fracasso de Marcus, certamente, ele ter confrontado em duas ocasiões e de forma muito enérgica o diretor Dean Caudwell.

Toda essa história de Marcus me pareceu apenas mediana, morna. Uma tentativa de ousadia em uma época em que os Estados Unidos e boa parte do mundo ainda não estava preparada para tanto. Se 90% do filme é morno e mediano, o final realmente nos surpreende. O início do filme nos faz acreditar em uma certa morte, mas o final nos mostra que não era bem assim. Por aquela sequência final e a reflexão que ela desperta Indignation ganhou alguns pontinhos. Se não fosse por isso, certamente ele ficaria na casa da nota 7.

Sobre o “espírito” do filme, acho que ele trata de diversos temas, especialmente sobre como a sociedade “aprisiona” as pessoas e cobra delas determinados comportamentos. A pressão sobre isso pode acabar em pulsos cortados, como foi o caso de Olivia. Ela que acaba sendo julgada por todos por causa disso – inclusive pela mãe de Marcus. As pessoas que tentam quebrar estas regras, muitas vezes, pagam o preço por isso. Como é o caso do protagonista. Mas no fim das contas, e ele está certo sobre isso, o que importa é que amamos e fomos amados no caminho. Mesmo que não dure para sempre, ou que esse amor seja interrompido por algo ou alguém. O restante acaba sendo secundário.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como Indignation é ambientado nos Estados Unidos nos anos 1950, uma das qualidades da produção é a ambientação de época. Fazem um bom trabalho, neste sentido, Inbal Weinberg no design de produção; Derek Wang na direção de arte; Philippa Culpepper na decoração de set; os nove profissionais do departamento de arte; e, principalmente, Amy Roth nos figurinos.

Achei a direção de James Schamus bastante convencional. Bem feita, mas sem nenhum grande destaque ou novidade. Ele sabe valorizar bem o trabalho dos atores, variando em planos, buscando sempre imagens representativas, mas sem dar grande dinâmica para as cenas ou inovar na técnica de filmagem. O próprio diretor escreveu o roteiro do filme, baseado na obra de Philip Roth. Desconfio que o livro seja melhor que o filme – como na maioria das vezes, aliás.

Da parte técnica do filme, vale sim destacar a ótima direção de fotografia de Christopher Blauvelt, a interessante trilha sonora de Jay Wadley, bastante pontual, e a boa edição de Andrew Marcus.

As estrelas deste filme são os jovens atores Sarah Gadon e Logan Lerman. Eles já mostraram talento em produções anteriores e, aqui, novamente, revelam grande potencial. Os dois tem a tendência de ganharem cada vez mais evidência, especialmente se embarcarem em bons papéis.

Entre os coadjuvantes, vale citar o bom trabalho dos atores Linda Emond e Danny Burstein, que interpretam os pais de Marcus; Tracy Letts como o irritante reitor da universidade; e Ben Rosenfield e Philip Ettinger como os colegas de quarto judeus e um tanto irritantes de Marcus. Os demais atores fazem papéis realmente sem muita relevância.

Indignation estreou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 12 festivais pelo mundo – o último será o Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, a partir do dia 10 de novembro. Nesta trajetória o filme foi indicado apenas a um prêmio e, até o momento, não ganhou nenhum.

Para quem gosta de saber onde as produções foram filmadas, Indignation foi rodado no The College of New Rochelle, na cidade de New Rochelle, em Nova York, e no L’Escargot Restaurant, em Whitestone, também em Nova York.

Esta é a estreia do produtor e roteirista James Schamus na direção. Como produtor, ele tem nada menos que 50 filmes no currículo, tendo sido indicado, nesta função, para três Oscars. Ele foi indicado como produtor de Brokeback Mountain e como roteirista e um dos compositores da trilha sonora de Wo Hu Cang Long.

Nas bilheterias dos Estados Unidos este filme fez pouco mais de US$ 3,4 milhões. Não é muito, mas também não é de se jogar fora – ainda que eu desconfie que este filme deu prejuízo. Apenas desconfio porque não há informações sobre o quanto Indignation teria custado.

Indignation é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 73 críticas positivas e 17 negativas para Indignation. Essa quantidade de críticas positivas fez com que o filme fosse aprovado por 81% dos críticos – a nota média deles ficou em 7,3. Francamente? Achei a avaliação do IMDb e do Rotten Tomatoes bastante generosas. Acho que há filmes melhores e que não ganharam notas tão boas. Mas quem sou eu para discordar da maioria, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Por boa parte deste filme eu fiquei me perguntando: “Afinal, sobre o que trata este Indignation?”. Por um período, achei que era mais uma história de amor tendo a guerra como pano de fundo. Depois, vi ali até uma certa leitura crítica e um pouco cínica sobre o “modo de vida americano”. Até que, no final, realmente entendi. Indignation é uma grande reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida, sobre os valores e sentimentos para os quais damos importância e, claro, sobre o confronto de tudo isso quando chegamos no derradeiro momento em que devemos nos despedir de tudo isso. Por 90% do tempo este é um filme mediano. Mas no restante do tempo ele se revela brilhante. No fim das contas, vale assisti-lo, ainda que ele não seja realmente inesquecível.