The Post – The Post: A Guerra Secreta

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Ah, o jornalismo! O jornalismo de verdade, aquele que procura informar a sociedade sobre questões relevantes. O jornalismo que é capaz de mudar o curso da História quando conta o que os poderosos – e outros que nem são tão poderosos, mas acreditam ser – querem esconder. The Post nos conta uma história das boas sobre o papel do jornalismo no curso da História de um país.

Esse jornalismo, infelizmente, anda cada vez mais raro, muito também porque as pessoas deixaram de o financiar – e não existe jornalismo sem pessoas que paguem por ele. Um filme importante para os dias de hoje, mas que apenas mostra tudo o que estamos perdendo, e cada vez mais, com o fim do bom jornalismo.

A HISTÓRIA: Começa na Província de Hau Nghia, no Vietnã, em 1966. Barulho de helicópteros, soldados colocando capacetes e preparando armas, e em meio àquele cenário, Dan Ellsberg (Matthew Rhys) também recebe a sua arma. Um soldado pergunta quem ele é, e outro responde que ele trabalha para Lansdale na embaixada e que ele está ali apenas observando. Ele se prepara como os demais e avança com o pelotão.

À noite, eles são atacados, e muitos morrem ou são feridos. Ellsberg escreve o seu relatório a respeito. Na volta, ele fala para o secretário de Estado Robert McNamara (Bruce Greenwood) que as coisas não estão melhores ou piores no Vietnã. Estão iguais. McNamara fica inconformado com isso, mas quando fala com a imprensa, ele mente. Ellsberg decide fazer algo a esse respeito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Post): Sim, essa história é importante. Sim, é sempre válido contar boas histórias no cinema, até para que as novas gerações as conheçam. The Post conta um dos belos capítulos da história do jornalismo americano e mundial. Quando alguns jornais enfrentaram o interesse do governo de Richard Nixon de continuar abafando as mentiras envolvendo o Vietnã.

The Post é importante especialmente agora, quando alguns discursos muito equivocados nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes querem justificar mentiras e meia verdades contadas por administrações pública. Não existe “segurança nacional” ou a justificativa que for para que um governo minta para os seu povo. Afinal, os governantes estão lá para governar para todos e não para mentir e enganar a opinião pública.

Também é especialmente relevante essa história voltar a ganhar o holofote em um filme de Hollywood nessa época da nossa História em que, parece, cada vez menos pessoas estão interessadas em gastar dinheiro com o jornalismo. Conforme os hábitos das pessoas estão migrando para serviços de streaming e para um consumo limitado ao que se compartilha nas redes sociais – sendo uma parte considerável dessa informação enganosa e não checada por profissionais preparados para isso, como é o caso do jornalismo -, vale nos questionarmos sobre o que irá acontecer com as sociedades sem o bom e velho jornalismo.

Eu sei a resposta para isso. E ela não é nada boa. Há 21 anos eu escolhi essa profissão. Fiz o curso de Jornalismo e logo comecei a trabalhar na área. Hoje, sem vontade de ir para os grandes centros do Brasil – São Paulo ou Rio de Janeiro -, eu vejo cada vez menos oportunidades para os profissionais da minha área fazerem o que eles tanto quiseram. Ou seja, jornalismo. Anunciantes e leitores estão cada vez menos dispostos a investir no jornalismo de qualidade, e o que vemos são os jornais “se vendendo” para qualquer um que lhes ajude a manter as rotativas em funcionamento.

Onde eu moro, existem jornais que são capazes de demitir um jornalista ético e competente porque ele desagradou a um grande anunciante com uma matéria 100% correta que feriu os interesses dessa companhia. Nesse cenário, não existe jornalismo de qualidade, apenas enganação para leitores desavisados. Atualmente, percebo que poucos jornais resistem às pressões do mercado e dos anunciantes e realmente fazem o seu dever de casa.

Em The Post, os jornais foram ameaçados simplesmente pela administração central do país. E o que você faz diante disso? Jogos de poderes existiam na época e existem hoje em dia. Os jornalistas e empresas de jornalismo de verdade não perdem o foco de seus papéis e enfrentam o interesse que for – econômico ou político – para cumprir esse papel. Por isso, para uma jornalista como eu, é especialmente emocionante assistir a um filme como esse. Um bom exemplo de história de quando o jornalismo realmente foi corajoso e cumpriu o seu papel.

Depois de fazer estes comentários, alguns bastante pessoais, vou analisar o filme propriamente dito. O roteiro de Liz Hannah e de Josh Singer é bem escrito e equilibra elementos históricos com algumas “pílulas” narrativas bem planejadas para tornar um filme aparentemente “chato” e “burocrático” em uma história com um bocado de tensão, altos e baixos e suspense. A narrativa é clássica e linear, além de bastante direta.

Partimos do momento em que o personagem de Ellsberg decide tomar a sua atitude corajosa de fazer cópias ilegais de documentos sigilosos, após ele fazer uma incursão e ver o caos no Vietnã in loco em 1966, para outro momento decisivo dessa história, quando o jornal The Washington Post está lutando para sobreviver enquanto o concorrente The New York Times começa a publicar reportagens devastadoras sobre como diversas administrações americanas mentiram sobre a Guerra do Vietnã.

Assim, grande parte da narrativa dessa produção se passa em Washington, em 1971. Essa eu achei a parte mais interessante do filme, na verdade. Os bastidores de um grande jornal. Hannah e Singer se debruçam, especialmente, sobre dois personagens: Kay Graham (Meryl Streep), herdeira do jornal familiar e desafiada por todos os lados por estar nessa posição no The Washington Post, e Ben Bradlee (Tom Hanks), o diretor de redação do jornal.

Como eu conhecia a história sobre a batalha dos jornais contra Nixon antes mesmo do escândalo de Watergate, o centro dessa história não me surpreendeu. O que eu realmente achei interessante e importante de ser contado foram os bastidores da notícia. Tanto a guerra que existe entre os grandes jornais, essa concorrência saudável que às vezes inclui uma certa “espionagem” dos melhores repórteres e coberturas exclusivas, quanto e principalmente a relação às vezes próxima demais de alguns jornalistas e donos de jornais com o poder.

Esses pontos realmente são interessantes nesse filme e importantes de serem debatidos nas faculdades de jornalismo. Afinal, qual deve ser a postura mais ética dos jornalistas e dos donos de jornais em relação aos anunciantes, patrocinadores e os donos do poder? O quanto determinadas “proximidades” e “amizades” podem ser aceitas e o quanto elas podem significar miopia na cobertura da imprensa e, consequentemente, a perda de sentido do trabalho jornalístico?

Eu conheci várias pessoas que achavam normal amizade com fontes diversas. Da minha parte, de quem nunca gostou de ter amizade nem com a chefia do jornal e nem com as fontes – justamente por questões éticas -, eu sempre me perguntava: e toda essa “amizade”, até que ponto ela é proveitosa para o leitor/consumidor da notícia? O quanto essas relações de proximidade limitam os jornalistas a fazer as perguntas incômodas, a ir atrás de uma fumaça que eles viram em algum momento de seu trabalho de eternos “fuçadores” de notícia?

Ao mesmo tempo que eu escrevo essas linhas, eu sei que a relação entre jornalista e fontes, especialmente as que estão nos governos, não pode ser sempre de confronto e de desconfiança. É preciso alguma trégua, algum “armistício”, até para que notícias positivas também sejam divulgadas.

Mas é um princípio do jornalista sempre desconfiar e sempre estar atento às denúncias e insatisfações da sociedade. Quando você está próximo(a) demais do poder, inclusive fascinado por ele, atrás de um furo ou de uma exclusiva, você não tem o distanciamento suficiente para enxergar isso. E The Post toca muito bem nesse ponto.

No fim das contas, Graham e Bradlee assumiram a postura correta no caso das mentiras de diversas administrações sobre o Vietnã. Mas e antes, ao serem próximos dos Kennedy, eles não falharam? Provavelmente sim. Mas o importante, nesse filme e na vida real, é que aprendamos com os nossos erros. E, preferencialmente, com os erros dos outros também. The Post mostra como é possível evoluir e fazer a coisa certa apesar de todos os riscos que isso envolve.

O roteiro de The Post mostra muito bem os riscos que Graham, em especial, estava correndo com toda aquela história das denúncias envolvendo diversas administrações dos Estados Unidos. Endividado, o jornal poderia perder a oferta dos banqueiros que queriam investir na publicação quando ela resolveu abrir o capital. Ou seja, ela aderir à série de denúncias poderia prejudicar definitivamente o futuro da publicação.

Mas Graham viu que isso era o certo a se fazer – e, claro, não sejamos inocentes, ao publicar aquelas notícias o The Washington Post estava se credenciando como um dos grandes jornais do país. Ou seja, se desse errado a busca de recursos através dos banqueiros, o jornal poderia conseguir isso ao ganhar uma projeção nacional e o prestígio que a publicação não tinha até aquele momento.

Essas são as partes interessantes do filme e que valem algumas horas de debates sobre a realidade dos jornais e dos jornalistas nos cursos mundo afora. Agora, depois de comentar sobre as partes interessantes do filme, devo dizer que The Post me incomodou um pouquinho por seu tom “rocambolesco”. Por que eu digo isso? Porque The Post dá uma exagerada na história e tenta transformar a narrativa em uma produção ao estilo “espionagem” para prender a atenção dos espectadores. Mas podemos sentir o “cheiro” de que houve um pouco de exagero aqui e ali.

E realmente houve. Para começo de história, o filme sugere, mas depois faz questão de esquecer, o papel de protagonista naquela denúncia do The New York Times. Eles foram os primeiros a denunciar e o jornal que foi processado na Justiça pelo governo – o The Washington Post apenas seguiu no encalço do rival. Então por que, afinal de contas, essa produção não é sobre o jornal que protagonizou toda aquela denúncia? Bem, alguns elementos ajudam a explicar isso.

Primeiro, vivemos uma interessante – e mais do que justa – fase de histórias e filmes que enaltecem o protagonismo feminino. No caso do NYT, não tínhamos uma Kay Graham para mostrar o posicionamento de uma mulher forte, inteligente e independente no caso. Depois, o jornal dela realmente teria uma relevância grande logo a seguir: o protagonismo no caso das denúncias do caso Watergate – no qual os papéis se inverteriam, e o NYT teria que correr atrás do que o The Washington Post começou a fazer.

Enfim, esse filme peca um pouco pela previsibilidade, para quem, como eu, já conhecia a história, e peca um pouco pelo “exagero” em tornar o The Washington Post o protagonista do escândalo envolvendo os papéis do Pentágono. Mas, no geral, o filme é bem conduzido e bem narrado. E o grande destaque dele são os grandes atores em cena, especialmente a gigante Meryl Streep, que nos apresenta uma Kay Graham muito interessante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, o grande nome desse filme é o de Meryl Streep. Mais uma vez ela consegue se destacar. Tom Hanks também está bem, mas ela impressiona pelos detalhes da interpretação e por mergulhar tão bem na personagem. Além deles, Steven Spielberg faz um bom trabalho na direção, procurando sempre ampliar a visão do espectador em planos mais abertos quando possível. É como se ele estivesse sempre nos lembrando da necessidade de olhar os quadros de maneira mais ampla. Mas achei que tanto Hanks quanto Spielberg fazem um trabalho competente, mas também dentro do esperado. Nada além. Meryl Streep consegue fazer uma entrega um pouco acima da média.

Enquanto eu assistia a esse filme, eu lembrei muito de “ligações perigosas”. Assim mesmo, em letras minúsculas. Ou seja, não me lembrei do filme propriamente dito, mas dessa expressão que ajuda a explicar um bocado das relações entre jornalistas e as suas fontes. Os profissionais tem que ter atenção constante sobre o seu trabalho e buscarem sempre o caminho ético para não se perderem em algumas relações que podem descambar, às vezes, para o lado da promiscuidade. The Post mostra muito bem isso, especialmente na relação de Kay Graham com Robert McNamara e de Ben Bradlee e da esposa Tony Bradlee (Sarah Paulson) com os Kennedy.

Esse filme está cheio de atores interessantes em papéis menores. Temos alguns coadjuvantes muito bons em cenas, mas em papéis pouco desenvolvidos pelo roteiro de Liz Hannah e Josh Singer. Vale citar alguns desses nomes, pela ordem de importância no filme e de bom trabalho em cena: Bob Odenkirk como Ben Bagdikian, o repórter do The Washington Post que consegue localizar Ellsberg e conseguir com eles a papelada que o jornal tanto precisava; Tracy Letts como Fritz Beebe, braço direito de Graham; Bradley Whitford como Arthur Parsons, integrante do conselho do Post e que vive questionando a liderança de Graham; Bruce Greenwood como o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara; Matthew Rhys como Daniel Ellsberg, o “garganta profunda” desse caso; Alison Brie em uma super ponta como Lally Graham, filha de Kay; Jesse Plemons como Roger Clark, advogado que representa o The Washington Post; Carrie Con como Meg Greenfield, jornalista que faz parte da equipe que analisou a papelada do Pentágono; David Cross bem disfarçado como Howard Simons, editor do jornal que fez parte daquela força-tarefa; John Rue como Gene Patterson, outro editor que fez parte do grupo; Philip Casnoff como Chalmers Roberts, idem; Pat Healy como Phil Geyelin, idem.

O que chama a atenção dessa lista acima? Que fora alguns personagens, vários que eu citei vocês nem conseguiram identificar assistindo ao filme, não é mesmo? Esse eu achei um problema de The Post. O filme se preocupou em colocar todos os personagens em cena, até para os fãs que iriam procurar os nomes dos personagens reais que fizeram história, mas durante o desenrolar da produção os roteiristas não tiveram a preocupação de realmente apresentar e desenvolver aqueles personagens. O que eu acho um ponto falho.

Além dos atores citados, há vários outros que aparecem em cena. Muitos de interesse histórico, mas ainda menos desenvolvidos pelos roteiristas.

Entre os diferentes aspectos que compõem essa produção, fora a interpretação precisa e muito bem feita dos protagonistas, vale destacar o competente trabalho do diretor Steven Spielberg. Ele mostra a forma com que domina o seu ofício nos detalhes. Isso fica especialmente evidente na sequência em que Graham e Bradlee discutem com Beebe e Parsons, cada um em um telefone, sobre se o jornal vai embarcar na história dos papéis do Pentágono ou não. A forma com que aquela sequência foi filmada, planejada e editada é uma pequena aula de cinema.

Fazer um grande trabalho na direção em um filme de ação pode projetar um diretor, mas fazer um belo trabalho em um filme “intelectualizado” e pouco movimentado como esse, é só para quem conhece realmente o ofício. Tornar um filme como The Post atraente para os grandes públicos não é algo simples, mas Spielberg consegue isso utilizando todos os artifícios de planos e dinâmicas de câmera possíveis. Um belo trabalho, sem dúvida.

Falando nos aspectos técnicos de The Post, vale citar o belo trabalho do veterano John Williams na trilha sonora – ainda que, para o meu gosto, ele exagera na dose em alguns momentos; de Janusz Kaminski na direção de fotografia – ele utiliza uma fotografia um bocado escura, quase um preto e branco, parece que para marcar o realismo da história; a edição precisa e muito competente de Sarah Broshar e Michael Kahn; o design de produção de Rick Carter; a direção de arte de Kim Jennings e de Deborah Jensen; a decoração de set de Rena DeAngelo; e os figurinos precisos de outra veterana, Ann Roth.

Essa produção abre uma frente interessante de pesquisa sobre aquela época e alguns daqueles personagens. Andei lendo alguns textos a respeito, e deixo alguns aqui para vocês conferirem. Gostei, por exemplo, da ponderação de Helio Gurovitz sobre o filme e publicada no G1. Sobre a Katherine Graham real, vale dar uma conferida no material sobre ela na Wikipédia. E sobre a Guerra do Vietnã, gostei dessa matéria do site BBC Brasil, que tem algumas curiosidades do conflito, e dessa outra do site História do Mundo que dá uma boa resumida no conflito que durou impressionantes 16 anos.

The Post estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 22 de dezembro de 2017. Depois, no dia 4 de janeiro de 2018, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Esse foi o único festival em que o filme participou até o momento. No Brasil, o filme estreou no dia 1º de fevereiro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como o filme sugere, em todas as cenas em que o ex-presidente Richard Nixon aparece de costas na Casa Branca, a voz que ouvimos é realmente do ex-presidente americano. Achei um detalhe interessante e bacana do filme terem escolhido trechos de conversas dele.

Nas cenas em que os documentos do Pentágono aparecem no filme, realmente foram utilizadas as páginas originais – ou seja, os documentos que, de fato, resultaram no escândalo no governo Nixon e que foram copiadas por Daniel Ellsberg.

The Post é dedicado para Nora Ephron, que foi casada com Carl Bernstein, jornalista do The Washington Post que, com Bob Woodward, descobriu o escândalo de Watergate – aquele mesmo que derrubaria Nixon.

Sem nunca ter trabalhado antes com Spielberg, Meryl Streep ficou surpresa ao saber que o diretor não ensaiava as cenas com os seus atores. Tom Hanks sabia disso, mas não contou nada para a atriz para não “assustá-la”. Apesar de surpresa com essa forma de trabalhar de Spielberg, Meryl Streep trabalho nesse ritmo e surpreendeu o diretor, que volta e meia elogiava a forma com que a atriz tinha se transformado na personagem.

Benjamin C. Bradlee e a esposa dele, Sally Quinn, foram vizinhos de Steven Spielberg em Long Island por muitos anos. Mas eles só se conheceram socialmente.

Falando nas relações pessoais entre os realizadores desse filme e os personagens retratados, Tom Hanks chegou a conhecer Bradlee e também Kay Graham – ela, na véspera de sua morte.

Steven Spielberg tinha pressa em lançar The Post, como uma espécie de resposta a onda de “notícias falsas” nos Estados Unidos. Entre o momento em que o roteiro foi concluído e o filme foi lançado, passaram-se apenas nove meses. As filmagens ocorreram entre maio e julho de 2017, e The Post foi finalizado por Spielberg em duas semanas – ele nunca finalizou um filme tão rápido. Tudo para que The Post estreasse logo que possível.

Spielberg exibiu The Post para os filhos de Katherine Graham, Lally Weymouth e Donald Graham, e para a viúva de Bradlee, Sally Quinn. Todos aprovaram a produção.

Esse é o terceiro filme com roteiro de Josh Singer que explora a importância do jornalismo. Os anteriores foram The Fifth Estate e Spotlight.

O Prêmio Pulitzer de Jornalismo de 1972 sobre os escândalos dos papéis do Pentágono foi dado apenas para o The New York Times – isso ajuda amostrar como The Post “exagera” um bocado sobre a participação do The Washington Post naquele capítulo.

The Post termina praticamente no ponto em que o clássico All The President’s Men começa. Por isso, para alguns, The Post pode ser considerado um “prequel” do outro filme – afinal, um termina com o vigia descobrindo os assaltantes no prédio Watergate, mesmo ponto em que o outro começa.

Até o momento, The Post ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 79 – incluindo a indicação em duas categorias do Oscar 2018. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e Melhor Atriz para Meryl Streep no prêmio do National Board of Review. Também vale citar o prêmio de Melhor Filme e o Gary Murray Award de melhor elenco dados pela North Texas Film Critics Association.

The Post é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e que pediam por filmes dos Estados Unidos.

Essa produção, que teria custado US$ 50 milhões, faturou US$ 63,5 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 24,7 milhões nos outros países em que estreou. No acumulado, ele faturou pouco mais de US$ 88,2 milhões – ou seja, ainda falta um pouquinho para começar a registrar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 261 textos positivos e 35 negativos para a produção, o que garante para The Post uma aprovação de 88% e uma nota média 8. A nota no Rotten Tomatoes, em especial, chama a atenção, porque está acima da média.

CONCLUSÃO: Essa história não é, exatamente, nova. Quem acompanha a história do jornalismo mundial e conhece alguns de seus principais capítulos, não será surpreendido por The Post. Mesmo assim, esse filme vale por reunir um grande elenco para contar um dos grandes episódios do bom jornalismo americano. Quem dera que mais histórias como essa pudessem ser contadas no futuro. Com uma boa narrativa e com atores mais que competentes em papéis-chave, The Post faz um resgate histórico importante, especialmente nos dias de hoje, em que a imprensa anda cada vez mais atacada por todos os lados.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente? Gostei desse filme, mas eu não acho que ele se aproxima da qualidade do vencedor do Oscar Spotlight (comentado por aqui), um filme melhor conduzido e com menos exageros narrativos. Em resumo, a exemplo de Darkest Hour (com crítica neste link), eu considero um exagero The Post ter sido indicado a Melhor Filme no Oscar 2018. Para mim, os dois filmes não tem qualidade para chegarem a tal posição.

No lugar deles, por exemplo, eu colocaria I, Tonya (comentado aqui) ou mesmo The Florida Project (com crítica neste link), filmes mais corajosos e “inovadores” na narrativa. Mais criativos. Mas, certamente, The Post e Darkest Hour tiveram boas campanhas e um bom lobby para chegarem a suas indicações na categoria principal do Oscar 2018.

Mas quais são as chances de The Post no Oscar, afinal de contas? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Filme e Melhor Atriz para Meryl Streep. A atriz, recordista em indicados no Oscar, mereceu mais essa chance de ganhar uma estatueta. Ela é o grande nome desta produção – que tem outros grandes nomes envolvidos no projeto, como Steven Spielberg e Tom Hanks. Meryl consegue, mais uma vez, roubar a cena.

Apesar disso, ela não tem chances de levar a estatueta nesse ano. A favoritíssima para levar o Oscar para casa é a atriz Frances McDormand, a estrela de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado aqui). A única pessoa que pode estragar a festa de McDormand é a atriz Sally Hawkins, de The Shape of Water. Mas se eu fosse apostar em alguém, seria em McDormand.

The Post tem chances remotas – para não dizer zero – de vencer como Melhor Filme. Vejo que, antes dele, estão na frente dessa disputa Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; The Shape of Water e Dunkirk, nessa ordem. Ou seja, com duas indicações importantes no Oscar, The Post tem grandes chances de sair da premiação de mãos vazias. Não será injusto, especialmente quando estamos buscando por filmes excelentes e/ou acima da média nessa premiação.

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Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

Indignation – Indignação

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Interessante a proposta deste filme. Por boa parte do tempo, somos levados a acreditar que estamos assistindo apenas a uma história ordinária. As “desventuras” de um jovem que deixa a casa dos pais e ingressa na universidade. Mas no final Indignation nos surpreende e nos faz pensar em cada detalhe do que assistimos. Não é um filme excepcional, mas é uma produção surpreendente. Nem tanto pela história em si, mas pela “pegadinha” que o roteiro nos apresenta. No fim, o filme começa tratando da morte e se desenrola pela vida apenas para nos mostrar como pensamos muito pouco sobre a nossa finitude.

A HISTÓRIA: Uma enfermeira coloca os remédios nos copinhos com os nomes dos pacientes identificados. Ela caminha com o carrinho até que cumprimenta a Olivia Anderson (Sue Dahlman). Com uma idade um tanto avançada, Olivia olha fixo para a parede com vasos de rosas. Corta. Em uma cena de guerra, o narrador reflete sobre a morte, que chega para todos, e sobre as pequenas escolhas que, encadeadas entre si, nos fizeram chegar àquele momento. Corta. Em uma igreja, celebram a memória de Jonah Greenberg. No velório para ele na casa de seus pais, os Greenberg (Joanne Baron e Richard Topol), Marcus (Logan Lerman) dá os seus pêsames e comenta que vai para a faculdade. Acompanhamos estas mudanças na vida do jovem que é um estudante brilhante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Indignation): Admito que por grande parte do tempo eu achei este filme apenas mediano. Ok, ele começa bem, questionando sobre as decisões que, mesmo de forma involuntária, contribuem para que cheguemos ao nosso derradeiro final. Mas depois o filme cai no que comentei antes como a “história ordinária” de um jovem que tinha grande potencial mas que parecia um pouco perdido sobre o que ele próprio queria da vida.

Enquanto assistia Indignation, tentei “complicar” um pouco a leitura do filme, tentando encará-lo como um exercício de entendimento da própria construção do “american way of life”. Afinal, o protagonista é um sujeito que demonstra como a “seleção natural” é decisiva na sociedade americana. Diferente de outros colegas e amigos, ele escapa da Guerra da Coreia no início dos anos 1950 porque ele tem notas excepcionais e, com elas, conseguiu entrar na universidade. Assim, o filme mostraria como os Estados Unidos premiam os mais capacitados, elevando o nível da nação ao estimular que as novas gerações consigam fazer o que os seus pais não conseguiram.

Mas pouco a pouco vamos vendo que mais que inteligente, Marcus é um sujeito ousado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de um momento ele se revela com uma certa tendência a não seguir ordens e a contrariar quem tem a autoridade – seja ao discordar do pai dele, seja ao questionar o reitor da universidade Dean Caudwell (o sempre competente Tracy Letts).

Mesmo sendo filho de pais judeus, Marcus não segue a religião e, na verdade, se diz ateu. Ao ir para a universidade em Ohio, ele acaba enfrentando uma realidade em que a religião joga um papel importante – tanto que os alunos são obrigados a assistir a um número mínimo de missas durante o tempo em que estão estudando. Ao definir-se como atue, Marcus mostra como prefere pensar por sua própria conta.

Em uma sociedade ainda bastante machista – vamos lembrar que estamos falando dos anos 1950 -, ele também contraria alguns conceitos da época ao se interessar pela independente e ousada Olivia Hutton – no início do filme, quando ela está com idade avançada, a enfermeira a chama de Olivia Anderson. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ali que eu me dei conta, pela primeira vez, que Olivia e Marcus não ficaram juntos. Porque o sobrenome da família dele aparece na sequência, Messner, e se Olivia passou a ter o sobrenome Anderson, é porque ela se casou com outra pessoa. Aliás, quem interpreta a Olivia jovem é a carismática atriz Sarah Gadon.

Para mim, o título do filme tem a ver justamente com esta “rebeldia” de Marcus. Ele não aceita o que considera uma interferência e imposição religiosa na faculdade, assim como não aceita muito bem, em determinado momento, ter que esquecer Olivia. Mas essa indignação que ele tem não o leva muito a lugar algum. E aí entra uma certa crítica ou “moral da história” do filme, quando a razão que faz ele ter o final que ele tem, no fim das contas, nada mais é do que reflexo do “jeitinho” e da “malandragem” que acaba mal. Outros também fizeram o que ele fez para burlar a norma das missas, mas contribuiu para o fracasso de Marcus, certamente, ele ter confrontado em duas ocasiões e de forma muito enérgica o diretor Dean Caudwell.

Toda essa história de Marcus me pareceu apenas mediana, morna. Uma tentativa de ousadia em uma época em que os Estados Unidos e boa parte do mundo ainda não estava preparada para tanto. Se 90% do filme é morno e mediano, o final realmente nos surpreende. O início do filme nos faz acreditar em uma certa morte, mas o final nos mostra que não era bem assim. Por aquela sequência final e a reflexão que ela desperta Indignation ganhou alguns pontinhos. Se não fosse por isso, certamente ele ficaria na casa da nota 7.

Sobre o “espírito” do filme, acho que ele trata de diversos temas, especialmente sobre como a sociedade “aprisiona” as pessoas e cobra delas determinados comportamentos. A pressão sobre isso pode acabar em pulsos cortados, como foi o caso de Olivia. Ela que acaba sendo julgada por todos por causa disso – inclusive pela mãe de Marcus. As pessoas que tentam quebrar estas regras, muitas vezes, pagam o preço por isso. Como é o caso do protagonista. Mas no fim das contas, e ele está certo sobre isso, o que importa é que amamos e fomos amados no caminho. Mesmo que não dure para sempre, ou que esse amor seja interrompido por algo ou alguém. O restante acaba sendo secundário.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como Indignation é ambientado nos Estados Unidos nos anos 1950, uma das qualidades da produção é a ambientação de época. Fazem um bom trabalho, neste sentido, Inbal Weinberg no design de produção; Derek Wang na direção de arte; Philippa Culpepper na decoração de set; os nove profissionais do departamento de arte; e, principalmente, Amy Roth nos figurinos.

Achei a direção de James Schamus bastante convencional. Bem feita, mas sem nenhum grande destaque ou novidade. Ele sabe valorizar bem o trabalho dos atores, variando em planos, buscando sempre imagens representativas, mas sem dar grande dinâmica para as cenas ou inovar na técnica de filmagem. O próprio diretor escreveu o roteiro do filme, baseado na obra de Philip Roth. Desconfio que o livro seja melhor que o filme – como na maioria das vezes, aliás.

Da parte técnica do filme, vale sim destacar a ótima direção de fotografia de Christopher Blauvelt, a interessante trilha sonora de Jay Wadley, bastante pontual, e a boa edição de Andrew Marcus.

As estrelas deste filme são os jovens atores Sarah Gadon e Logan Lerman. Eles já mostraram talento em produções anteriores e, aqui, novamente, revelam grande potencial. Os dois tem a tendência de ganharem cada vez mais evidência, especialmente se embarcarem em bons papéis.

Entre os coadjuvantes, vale citar o bom trabalho dos atores Linda Emond e Danny Burstein, que interpretam os pais de Marcus; Tracy Letts como o irritante reitor da universidade; e Ben Rosenfield e Philip Ettinger como os colegas de quarto judeus e um tanto irritantes de Marcus. Os demais atores fazem papéis realmente sem muita relevância.

Indignation estreou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 12 festivais pelo mundo – o último será o Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, a partir do dia 10 de novembro. Nesta trajetória o filme foi indicado apenas a um prêmio e, até o momento, não ganhou nenhum.

Para quem gosta de saber onde as produções foram filmadas, Indignation foi rodado no The College of New Rochelle, na cidade de New Rochelle, em Nova York, e no L’Escargot Restaurant, em Whitestone, também em Nova York.

Esta é a estreia do produtor e roteirista James Schamus na direção. Como produtor, ele tem nada menos que 50 filmes no currículo, tendo sido indicado, nesta função, para três Oscars. Ele foi indicado como produtor de Brokeback Mountain e como roteirista e um dos compositores da trilha sonora de Wo Hu Cang Long.

Nas bilheterias dos Estados Unidos este filme fez pouco mais de US$ 3,4 milhões. Não é muito, mas também não é de se jogar fora – ainda que eu desconfie que este filme deu prejuízo. Apenas desconfio porque não há informações sobre o quanto Indignation teria custado.

Indignation é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 73 críticas positivas e 17 negativas para Indignation. Essa quantidade de críticas positivas fez com que o filme fosse aprovado por 81% dos críticos – a nota média deles ficou em 7,3. Francamente? Achei a avaliação do IMDb e do Rotten Tomatoes bastante generosas. Acho que há filmes melhores e que não ganharam notas tão boas. Mas quem sou eu para discordar da maioria, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Por boa parte deste filme eu fiquei me perguntando: “Afinal, sobre o que trata este Indignation?”. Por um período, achei que era mais uma história de amor tendo a guerra como pano de fundo. Depois, vi ali até uma certa leitura crítica e um pouco cínica sobre o “modo de vida americano”. Até que, no final, realmente entendi. Indignation é uma grande reflexão sobre as escolhas que fazemos na vida, sobre os valores e sentimentos para os quais damos importância e, claro, sobre o confronto de tudo isso quando chegamos no derradeiro momento em que devemos nos despedir de tudo isso. Por 90% do tempo este é um filme mediano. Mas no restante do tempo ele se revela brilhante. No fim das contas, vale assisti-lo, ainda que ele não seja realmente inesquecível.

August: Osage County – Álbum de Família

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Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.