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Elefante Blanco – Elefante Branco

Eu tenho uma quedinha pelo Ricardo Darín. Na verdade, é uma queda considerável. Ao ponto de, quando vejo o nome dele em uma produção, tento assistí-la, não importa a história. No caso de Elefante Blanco, além de Darín, me chamou a atenção o filme ser dirigido por Pablo Trapero, diretor que me conquistou com Carancho (comentado aqui). Mas o filme não me convenceu, no final. Sim, a Argentina também tem problemas sociais como o Brasil, ainda que as favelas e comunidades criadas em locais irregulares não tenham ganho a mídia tanto quanto as made in Rio de Janeiro. Certo também que a Igreja tem um trabalho social importante. Mas o foco nestas duas realidades e o estilo de Darín e de Trapero não são suficiente para salvarem uma história que se revela longa demais e pouco interessante.

A HISTÓRIA: O padre Julián (Ricardo Darín) faz um exame complexo e delicado. Em outra parte, um homem se esconde na mata enquanto vários outros tentam encontrá-lo à noite. O padre Nicolás (Jérémie Renier) se esgueira enquanto escuta pessoas serem mortas porque não apontam para que lado ele fugiu.  Não demora muito para que Julián busque a Nicolás, resgatado após a morte de todos do vilarejo. A ideia de Julián é que Nicolás possa ajudá-lo a cuidar da comunidade formada ao redor de um elefante branco deixado pelo governo argentino. Pelos cálculos da Igreja, que tem um projeto social ali, há pelo menos 30 mil pessoas vivendo próximas ao projeto abandonado do maior hospital da América Latina lançado em 1937. Enquanto tentam erguer moradias mais dignas para aquelas pessoas,  padres, assistentes sociais e voluntários devem lidar com uma realidade violenta criada pelo tráfico de drogas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elefante Blanco): O diretor e roteirista Pablo Trapero tem um estilo de cinema interessante. Ele gosta de tratar assuntos complexos da realidade argentina, buscando uma forma de fazer “cinema social”. Relembrando o neo realismo italiano – guardadas todas as proporções de diferenças históricas e de realidades diferentes, mas ambos buscavam os “marginalizados” e beber da dureza de algumas realidades.

Trapero gosta desta abordagem. Não assisti ao premiado Leonera, mas assistindo a Carancho se percebe esta identidade como algo determinante para o diretor. Essa verve realística e seu estilo de dirigir e de escrever que incorpora o jeito de falar, de agir e a velocidade da vida cotidiana funcionaram bem em Carancho. Mas em Elefante Blanco o discurso não funcionou tão bem.

Primeiro porque não há esperança em parte alguma. A realidade é ruim e nada sinaliza para uma melhora do quadro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o protagonista está doente e tem tudo para ter uma morte súbida a qualquer minuto. Pressentindo isso, ele busca um “pupilo” para deixar em seu lugar. Esta promessa, contudo, está em dúvidas sobre o que fará da vida. Problema clássico quando o mestre tenta encontrar segurança na busca por “passar o bastão”. Como se não bastasse este ponto clássico, essa troca de “poder” entre heróis é buscada em meio a uma realidade caótica em que transbordam exemplos ruins – de gangues rivais aliciando jovens e empregados insatisfeitos com falta de pagamento – e onde falta mais ações heróicas.

Certo que a realidade é complicada. E o filme de Trapero mostra que este tipo de dificuldade em encontrar saídas para realidades violentas e contaminadas pelo tráfico de drogas não é algo que acontece apenas com o Brasil e a Colômbia, na América Latina. A Argentina, tão culta e que passou por tantos problemas econômicos nas últimas duas décadas, também tem as suas favelas e projetos sociais conturbados. Mas além desta constatação, o que nos sobra?

A importância da Igreja naquela realidade mostrada pelo filme é evidente. O trabalho dos personagens de Darín e Renier me fizeram lembrar muito a corrente da Teologia da Libertação, que mergulhou na realidade brasileira. E claro, de várias outras correntes da Igreja que, igualmente, buscam desenvolver no contato com as pessoas que mais precisam a verdadeira vocação do cristão. Só que isso não bastou para Trapero, e os roteiristas que ajudaram o diretor a escrever esta história, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre.

Os quatro também precisaram tocar em outra dificuldade de um dos dogmas da Igreja: a castidade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nicolás sucumbe aos encantos da charmosa, determinada e linda Luciana (a sempre excelente Martina Gusman). E o discurso que os realizadores parecem nos deixar, no final das contas, é que tipo de homem pode ser santo? Aquele que se mantém fiel a todos os dogmas da Igreja e, desta forma, fica mais isolado da realidade (como nos retiros nos quais Nicolás se coloca de tempos em tempos) ou aquele que se “contamina” com os problemas do mundo e tenta participar das soluções para eles? Aliás, o homem mais santo seria aquele que consegue estes dois feitos? Manter-se “isolado” dos pecados, sem sucumbir às tentações, enquanto mergulha nos ambientes cheios de mazelas e tentações?

Apenas este último parágrafo renderia um texto inteiro. Mas como eu disse antes, quando comentava outros filmes que tratam sobre fé e religião, não é esta a proposta deste site. Aqui falamos de cinema. E voltando a ele, Elefante Blanco traz uma realidade complicada e homens que buscam permanecer santos (sejam eles homens ou mulheres) tentando fazer o melhor que eles podem naquele contexto.

Não é comum um filme ter esta abordagem. Por isso mesmo ele tem boas intenções, pena que a ideia não funcione muito bem no cinema. Porque o discurso cansa, e a falta de surpresa na história diminui o envolvimento que esta produção poderia ter junto ao público. Também prejudica a história não sabermos mais sobre os personagens principais. Sobre os seus passados, o que lhes trouxe até aquele ponto.

A falta de profundidade sobre os personagens em um filme centrado em três pessoas dificulta a compaixão de quem assiste e a capacidade do espectador colocar-se no lugar de qualquer um dos personagens. Uma pena. Porque histórias carregadas de humanidade, como esta, só funcionam bem quando esta “mágica” acontece.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor. Talvez um 6. Mas é difícil dar uma nota muito baixa para uma história que tem Ricardo Darín como protagonista. Também gosto muito da Martina Gusman, ainda que o seu papel, nesta produção, seja tão “ligeiro” e sem profundidade. Unidimensional, pode-se dizer.

Jérémie Renier é carismático, tem um sorriso lindo, é bonito e tem uma boa sintonia com Martina Gusman, especialmente nas cenas “provocantes”, mas, infelizmente, ele não convence no papel. É de doer as cenas em que ele demonstra estar “arrependido por ter sobrevivido”, dizendo sentir-se culpado de ter causado a morte de tantas pessoas e não ter morrido também. Aliás, boa parte da fraqueza do filme está neste personagem, que deveria ser o mais complexo da trama, mas que encontra um ator sem força para levar o papel ao máximo que ele poderia ir.

A trilha de sonora é uma das melhores qualidades de Elefante Blanco. Bela seleção feita por Michael Nyman. Me fez descobrir, por exemplo, a interessantíssima música Las Cosas que No se Tocan, de Pity Álvarez interpretada por Intoxicados.

Elefante Blanco estreou em maio, na Argentina. Depois, no mesmo mês, participou do Festival de Cannes. Em setembro e outubro, dos festivais de Hamburgo e Warsaw. Nesta trajetória, só foi indicado para um prêmio, no Um Certo Olhar, de Cannes. Mas não levou ele para casa – perdeu para Después de Lucía, uma co-produção México e França.

Para quem gosta de saber onde as produções foram rodadas, Elefante Blanco foi filmado em Buenos Aires, com cenas externas, mais precisamente, na Praça Guemes.

Pablo Trapero tem 14 filmes no currículo como diretor. Faz parte desta lista três curtas, um documentário, uma série de TV e um segmento no longa Stories on Human Rights, de 2008, codirigido por vários nomes. A parceria com Martina Gusman iniciou em 2006 com o filme Nacido y Criado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Uma nota boa que, tenho certeza, foi bastante provocada pelo fascínio de Darín, Gusman e Trapero – mais do que pelo resultado do filme propriamente. No site Rotten Tomatoes, até o momento, há apenas duas críticas citadas. Ambas positivas.

Da parte técnica do filme, pouco a destacar. Achei a direção de Trapero muito “tradicional”, sem ousadia ou um trabalho de edição interessante. O mesmo sobre a direção de fotografia, que garante apenas imagens utilizáveis, por assim dizer, mas nada além da média.

Elefante Blanco é uma co-produção da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: A trilha sonora e a ideia original de Elefante Blanco é o que esta produção tem de melhor. Pena que nem sempre uma ideia original resulte em um bom filme. E este é o caso. Elefante Blanco nasce com uma premissa bacana, de apresentar uma face da Argentina pouco conhecida e de mostrar que a complexidade da vida não permite leituras preto e branco, como muitos gostam de fazer acreditar. Mesmo homens que buscam fazer o bem e seguir o caminho da santidade apresentam fraquezas e caem em suas imperfeições. E há realidades de degradação e de vulnerabilidade das pessoas difícil de mudar. Porque todos tem pressa, com razão, mas há muita gente que prefere que estas realidades não mudem. A intenção de Elefante Blanco é boa, há ótimos atores em cena, mas o filme acaba sendo arrastado demais, previsível e mesmo quando surpreende, não é para deixar um gosto de “quero mais”, mas o desejo que tudo termine logo. Não funciona, infelizmente. Mas vale uma nota 7, especialmente por Darín, que sempre faz um trabalho de excelência.

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El Baile de la Victoria – A Dançarina e o Ladrão

Um filme com vários clichês pode ser bom? Vai depender de como a história é conduzida, dos atores e, claro, de um roteiro sem nenhum grande absurdo pelo caminho. El Baile de la Victoria foi atacado por parte da crítica internacional por ter muitos clichês. Apesar deles – ou inclusive por eles -, o filme demonstra o talento do espanhol Fernando Trueba em contar uma história sobre as possibilidades que todos deveriam ter de recomeçar a própria vida. Esta produção fala também sobre redenção, a descoberta do amor nos locais mais improváveis e sobre a (parece cada vez mais) difícil arte de sonhar.

A HISTÓRIA: Dois olhos castanhos olham em direção à Cordilheira. Algo levanta poeira, ao longe, e a dona dos olhos castanhos parece agitar-se. A câmera sobe até o céu e retorna mostrando a cidade de Santiago do Chile. Uma notícia na rádio informa que o novo governo promulgou uma anistia para os presos do país, libertando todos que tivessem cumprido dois terços de suas penas e que não tivessem sido condenados por assassinato. Entre os que seriam soltos estava uma “lenda do crime”, o ladrão especializado em cofres Nicolás Vergara Grey (Ricardo Darín). Mas a história vai centrar-se em um anistiado menos conhecido, o jovem Ángel Santiago (Abel Ayala) que, logo que sai da cadeia, encontra a apaixonante Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer). A história dos três será entrelaçada em um conto sobre as mudanças ocorridas no Chile após a ditatura de Pinochet.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Baile de la Victoria): Como recomeçar a vida quando todas as portas parecem fechadas? Que chances dois ex-presidiários tem de serem respeitados e amados? Estas são duas perguntas levantadas por El Baile de la Victoria. Mas o filme não fala apenas da dificuldade de dois indivíduos em se reerguerem, mas do desafio de toda uma nação para começar a dar os primeiros voos após um longo período de ditadura.

O roteiro do diretor Fernando Trueba, de Jonás Trueba e de Antonio Skármeta é inspirado na obra homônima do escritor chileno lançada em 2003. Não li o livro de Skármeta, por isso não sei até que ponto o filme segue com fidelidade o original. Mas posso dizer que o diretor e os roteiristas acertaram na dosagem do drama, da comédia e da “aventura” nesta produção.

As histórias paralelas e intercaladas dos personagens de Vergara Grey e de Ángel mantêm o interesse do público até o final. Trueba não se preocupa em acelerar a narrativa, e nem cede ao estilo de filme policial. Ele prefere equilibrar o drama dos dois ex-presidiários na busca por novas rotas na vida ao mesmo tempo que mostra o lirismo da dança e do talento de uma garota que plasma a dor provocada pela ditadura chilena.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é por acaso e nem forçada a mudez traumática da personagem Victoria. Toda a odisseia envolvendo a garota, que dá título ao filme, na busca por uma oportunidade, de leveza e da própria “voz” resume a própria trajetória do país, que deve buscar os caminhos para encontrar o “gosto” pela vida novamente. Também não é à toa o pulso cicatrizado de Victoria, e o amor que ela sente por um garoto como Ángel. O condor macho do final, símbolo clássico da liberdade, também não aparece por acidente.

Aliás, cada parte de El Baile de la Victoria é bem planejado. Eis um filme inteligente, e que não pensa duas vezes em abrir espaço para cenas plasticamente bonitas. Alguns podem ficar irritados quando Ángel sai cavalgando pela cidade. Eu achei lindo. E a reação das pessoas enquanto ele passava, de espanto e resistência, mostra como ninguém hoje parece estar aberto para o inusitado e para as belas surpresas que a vida pode nos trazer.

Depois, claro, há uma explicação para o apreço de Ángel por aquele cavalo. Algo até dispensável. Mas que pode agradar às pessoas que precisam sempre de uma explicação lógica para tudo que veem pela frente. O trio de protagonistas luta por uma oportunidade. E por suas próprias paixões. Vergara Grey tem frustrado o sonho de resgatar o afeto familiar. E o que fazer quando o que você mais queria retomar não existe mais? Para alguns, isso pode significar o fim da linha. Mas a história de amor até certo ponto pueril de Ángel e Victoria faz o veterano ícone da bandidagem rever a sua própria história, quando ela ainda não estava falida.

Abel Ayala resgata uma tradição de personagens inocentes e que, mesmo com uma história complicada, acabam conquistando o público com um jeito simples e cheio de romantismo. Acompanhado de um chapéu durante grande parte do filme, ele lembra muito comediantes históricos, como Buster Keaton e, porque não, ao “herói” mexicano Cantinflas.

Ricardo Darín está brilhante, como sempre. Dá o devido peso, desesperança e novo ânimo para o personagem do criminoso que é admirado por seus feitos – e que, nem por isso, tem a vida mais fácil. A direção de Trueba é uma das principais qualidades do filme, ao lado do trabalho dos atores e da trilha sonora fundamental que acompanha a história. Falarei mais dela abaixo. Grande trabalho também do diretor de fotografia Julián Ledesma. Trueba acerta ao equilibrar o foco no trabalho dos atores com as cenas em que destaca o lirismo da história, seja nas cavalgadas de Ángel ou nos passos da bailarina Victoria.

O filme também prende a atenção do espectador porque alimenta uma dúvida constante sobre o que poderá dar de errado naquela história, nos planos de Ángel. E há duas fontes de problemas: o próprio plano ousado para o último assalto que ele propõe para Vergara Grey e a ameaça do diretor do presídio (Julio Jung) de eliminá-lo como forma de proteger-se de um problema que ele criou.

Aqui, mais uma vez, a imagem do abuso, de um sujeito que tinha o poder na mão e que o utilizou para subjugar alguém sem defesa – mais uma alusão ao que Pinochet fez com o próprio povo. E o que Ángel faz a respeito? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como El Baile de la Victoria ensina em mais de uma ocasião, a grande volta por cima dos personagens e da nação chilena está na fortaleza do perdão, muito mais que na busca pela vingança – que não faz o tempo voltar atrás e apagar as cicatrizes, mas apenas dar prosseguimento à dor.

Sobre o que realmente aconteceu no final… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quem se salvou e quem não conseguiu se salvar? Bem, como sempre, isso vai depender da leitura particular do espectador, que acredita no que quiser. O mais provável é que aquele cavalo estivesse correndo sozinho ou, na melhor das hipóteses, com o corpo inerte de Ángel. Dificilmente ele sobreviveria ao ataque que sofreu e, ainda, a uma cavalgada em terrenos inóspitos. Ainda assim, não seria bobagem acreditar que ele conseguiu. E que ao encontrar aos outros dois protagonistas, ele conseguiria seguir em frente. Sonhar é sempre possível. El Baile de la Victoria demonstra isso. E mesmo que ele tenha se tornado um “anjo”, e voado junto com as asas do condor, aquela não deixa de ser, também, uma vitória.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso que esta produção não tenha um nome assinando a trilha sonora. Até porque ela é maravilhosa. Não sei quem definiu as músicas, mas vale comentar que a trilha tem algumas músicas brasileiras. Faz parte da seleção canções de Milton Nascimento (Tema dos Deuses e Pablo nº 2, que ele fez com R. Bastos), Andrés Calamaro y Jerry González (a clássica El Día que me Quieras), Herbie Hancock (Sleeping Giant), Kurt Weill (Youkali Tango-Habanera), Victor Young (The Left Hand of God), Coleman Hawkins Quartet (Love Song From Apache), entre outros.

Vale comentar que a assinatura da anistia para os presos, mostrada no início do filme, plasma uma das primeiras decisões do presidente chileno com a chegada da democracia e o fim da ditadura de Pinochet.

O escritor Antonio Skármeta é um dos nomes mais conhecidos da literatura chilena. Nascido em Antofagasta em 1940, ele é autor também do clássico O Carteiro e o Poeta, que rendeu um belíssimo filme homônimo e que ele escreveu na Alemanha quando estava exilado – com o golpe militar em seu país, ele teve que sair de lá, morando primeiro na Argentina, por um ano. Recebeu diversos prêmios em sua trajetória como escritor.

Fernando Trueba é um diretor espanhol veterano. Procurando saber mais sobre ele, fiquei contente em saber que ele se formou na Faculdade de Ciências da Informação em Madri… temos algo em comum. Tenho um prazer incontido quando sei que pisei nos mesmos corredores que grandes diretores como ele. 🙂 Nascido em Madri em 1955, Trueba tem no currículo a direção de 27 filmes e o roteiro de outras 29 produções. Ele estreou na direção com o curta Óscar y Carlos, de 1974. Dos longas, destaque para Ópera Prima, El Año de las Luces, Belle Epoque (com Penélope Cruz e  que ganhou o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1994), La Niña de Tus Ojos e Chico & Rita, este último indicado ao Oscar de Melhor Animação este ano.

Trueba é um sujeito engraçado. Nesta matéria do jornal El Mundo, ele fala sobre El Baile de la Victoria e sobre os seus projetos futuros. Comenta, por exemplo, que o livro no qual o filme se inspirou lhe interessou pela “mistura dos tons entre a tragédia, a comédia, o romantismo, inclusive o western. O filme fala sobre o amor e a beleza; do que é preciso ser feito para aprisionar a beleza”. Depois, ele segue dizendo que este talvez seja um dos temas que mais lhe interessam, o de como “aprisionar a beleza e colocá-la dentro de um retângulo”.

No final, ele fala sobre o cinema de seu país: “O cinema espanhol, como o francês e o alemão, é um monte de merda do qual, de repente, surgem coisas bonitas”. hehehehe. Achei um tanto exagerado mas que, nem por isso, deixa der ser menos ácido ou engraçado. 🙂

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho da atriz Ariadna Gil como Teresa Capriatti, o amor da vida de Vergara Grey; a brasileira Marcia Haydée – bem que eu desconfiei pelo sotaque dela ao falar espanhol – como a professora de dança de Victoria; e Luis Dubó como o assassino de aluguel Rigoberto Marín.

Mesmo tendo nascido no Brasil, Marcia Haydée ficou conhecida por estrelar filmes produzidos na Europa. Seu trabalho de maior destaque foi o papel de Marguerite Gautier no filme alemão Die Kameliendame (The Lady of the Camellias, de 1987).

Mesmo rodado no Chile, El Baile de la Victoria é uma produção espanhola e foi o filme indicado pela Espanha para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar de 2010. Mas ficou de fora da lista dos finalistas.

El Baile de la Victoria estreou no dia 18 de setembro de 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha. Depois, ele participaria de outros quatro festivais, nenhum de grande expressão. Nesta trajetória, o filme foi indicado a 12 prêmios, mas não ganhou nenhum.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para a produção. Pouco conhecido no mercado dos Estados Unidos – tanto que não há informações sobre o desempenho do filme nas bilheterias daquele país ou no restante do globo -, El Baile de la Victoria não foi alvo, até o momento, de nenhum texto de críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes.

CONCLUSÃO: Concordo que El Baile de la Victoria tem muitos clichês. Mas quem se importa com isso quando o filme funciona? Além do mais, cada vez é mais difícil um filme não ter qualquer clichê. Em El Baile de la Victoria, o diretor Fernando Trueba consegue destilar algumas cenas belíssimas, e os atores seguram bem a responsabilidade de seus papéis. Além do mais, é sempre um prazer assistir ao grande Ricardo Darín em cena. Desta vez, ele não é o protagonista. Mesmo assim, ele faz a diferença na produção. Carregada de alguns simbolismos, esta produção também toca em algumas feridas do Chile e, porque não dizer, da América Latina, que ainda tem que se livrar dos fantasmas de tempos totalitários e das ditaduras. Mas estes temas são tratados nas entrelinhas e de forma simbólica. Em primeiro plano, está o conto de um trio de marginalizados que busca uma alternativa para suas vidas. É um belo filme, mas não uma obra-prima.

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Carancho – Abutres

Muitos temas unem brasileiros e argentinos. E não falo de futebol. Vizinhos, colonizados, com uma história que envolve ditaduras militares, épocas de “euforia” e queda econômica, entre tantos outros fatores, a verdade é que compartilhamos de mais semelhanças do que gostaríamos algumas vezes de admitir. Contamos também com alguns grandes filmes em nossas histórias ainda que, a cada ano que passe, fica mais evidente que o cinema brasileiro está ficando para trás. Cada vez mais. Carancho, filme que representa a Argentina no próximo Oscar, torna isto ainda mais evidente. E também mostra como há sempre espaço para a criatividade e a inovação no cinema. O diretor Pablo Trapero, ao lado de outros três roteiristas, mostra como um tema “corriqueiro” e tratado com certo descaso pelas pessoas pode render uma grande, impactante e envolvente história. O grande cinema argentino, mais uma vez, mostra as suas armas – e torço, desde já, para que este filme esteja entre os cinco finalistas ao prêmio de Hollywood.

A HISTÓRIA: Fotos em preto e branco de um acidente. Pequenos pedaços de uma tragédia. Cinco linhas de texto revelam o tamanho do problema dos acidentes de trânsito na Argentina. Por ano, 8 mil pessoas morrem, em média, no país devido a este tipo de ocorrência. No final do texto, comenta-se que esta realidade sustenta no país um negócio milionário de indenizações. Um homem leva uma surra de outro dois. Corta. Uma pessoa aplica uma injeção em um pé. Esta pessoa é Luján (Martina Gusman), uma médica que dobra os horários de trabalho em um hospital e no socorro de emergências. Lentamente, o homem ferido se levanta. Ele vai até um carro e sai dirigindo. Pouco depois, Luján encontra ele na cena de um acidente. Neste momento, ela conhece a Sosa (Ricardo Darín), um advogado que trabalha representando vítimas e familiares de vítimas de acidentes de trânsito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à  seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Carancho): O ritmo certo, os melhores atores, um roteiro envolvente, o cuidado de destacar o essencial de forma diferenciada e, para arrematar, uma história que pode ser entendida por diferentes camadas. Este é o grande cinema visto em Carancho. Mais uma vez, termino de assistir a um filme argentino e me pergunto: como eles são tão bons?

Parece quase uma senha. Quando Ricardo Darín está em uma produção, isto é praticamente sinônimo de um grande filme. Não gostei muito – e quem acompanha o blog sabe disto – de El Secreto de Sus Ojos (comentado aqui) ter ganho o último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não porque o filme não seja bom. Mas porque eu acho que outros concorrentes da última edição do prêmio são melhores que o filme que acabou sendo premiado. Mas enfim, sempre é merecido premiar ao cinema dos nossos vizinhos. Porque eles realmente tem uma produção de filmes admirável. Acho improvável que Carancho consiga abocanhar outro prêmio, assim seguido. Também admito que ainda não assisti a nenhum dos outros concorrentes. Mas, como falei antes, torço para que ele esteja entre os finalistas.

Bato palmas para todo filme que demonstra que a criatividade é uma qualidade infinita. Não importa o quanto falamos de amor, morte, traições, disputas e um longo etcétera desde o início dos tempos. O quanto os temas se repetem desde os primeiros e grandes clássicos da literatura e do teatro. Há sempre algo novo para falar, um olhar diferenciado sobre o óbvio. Carancho faz isso. Pega um tema “corriqueiro” nas páginas de qualquer jornal de qualquer país, como é o extermínio de pessoas no trânsito das grandes urbes, e o transforma em uma trama deliciosa.

Nesta produção há romance, intriga, uma levada policial, crimes e uma boa dose de realidade inquietante. O cinema argentino não tem medo de tocar em feridas. Diferente do nosso que, na maioria das vezes, prefere concentrar-se apenas em histórias “edificantes”. Aqui a violência do trânsito é desbravada em duas frentes: a da médica socorrista e a do advogado “carancho”. Aliás, este é um bom momento para comentar sobre o título do filme – que é, também, o “apelido” do protagonista. Carancho é uma ave de rapina comum na Argentina. Ela se alimenta de animais mortos – uma interessante alusão ao que Sosa faz – insetos e répteis. Por ser uma espécie de gavião, o carancho é ao mesmo tempo visto como um símbolo de força, de caça, como de bicho solitário e “aproveitador”. Aqui algumas informações, em espanhol, sobre o termo.

Desde o princípio, o roteiro de Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre deixa claro que haverá um romance entre Sosa e Luján. Sem forçar a barra, os quatro roteiristas nos poupam tempo e “expectativa”. Afinal, Carancho não tem muito tempo a perder com rodeios. Com precisão cirúrgica a história vai, pouco a pouco, mergulhando no cotidiano complicado de cada um dos protagonistas. Os dois, cada um a sua maneira, parecem ser prisioneiros de uma realidade para a qual eles não encontram muita saída. E esta realidade é dura, injusta e se torna, cada vez mais, cruel.

O tema dos acidentes ganha uma complexidade social muito maior. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por um lado, vemos aos socorristas e médicos do sistema de saúde sendo explorados por cargas de trabalho absurdas. Por outro lado, somos apresentados a uma máfia de advogados que vive da exploração de pessoas desinformadas e fragilizadas pela perda de parentes ou por serem vítimas, elas próprias, da violência do trânsito. Carancho não alivia na crítica a estas duas formas de exploração e coloca os dedos todos nas feridas. Denuncia, ao mesmo tempo em que não faz discursos. Produz e apresenta, isso sim, um roteiro envolvente e uma direção que consegue transformar grandes ideias em imagens precisas.

Não há sobras neste filme. E nem falta nada para a história. Pablo Trapero tem o cuidado de buscar o ângulo certo para cada cena. Focando o trabalho exemplar dos atores, ele também tem o cuidado de explorar o entorno, revelando a crueza da cidade, de suas ruas; uma certa “falta de esperança” nos hospitais e nas salas dos advogados e repartições públicas. A direção de fotografia de Julián Apezteguia, que utiliza lentes para tornar ainda mais evidentes as cores duras e cruas da realidade, tem um grande papel neste belo desempenho do diretor. Filmado grande parte de noite, Carancho evidencia os contraste das cores de emergência, especialmente, com o escuro de uma permanente sensação de “falta de esperança”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como em outras produções, Carancho segue uma ladeira abaixo que deixa o espectador com a permanente sensação de que o pior ainda está por vir. E realmente está. Como em outros filmes, também, nesta produção há pequenos momentos de “paz e deleite”. Mas o espectador com um pouco de experiência sabe que isto não deve durar muito. E os roteiristas, por sua vez, sabem que este tipo de “armadilha” prende a atenção e faz com que as pessoas torçam pelos protagonistas. Ainda que – e especialmente se – eles não sejam santos. Luján é uma drogada – encontrou nas agulhas uma forma de ter alívio em uma rotina de exploração absurda. Sosa é um aproveitador que usa como muleta o fato de ter perdido a licença para trabalhar por conta própria como advogado. E ainda assim, por serem tão explorados e vítimas, torcemos por eles.

Mesmo com um roteiro brilhante, uma dupla de protagonistas de primeira grandeza e tantos outros acertos técnicos, Carancho tem um ou dois problemas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, ele não explica alguns detalhes que seriam importantes para a história. Como a razão que fez Sosa perder a sua licença para trabalhar como advogado. Depois, comete um ou dois deslizes de continuidade. Como na cena em que Sosa é golpeado por Casal. O chefe do protagonista não chega nem perto de golpeá-lo na cabeça com a garrafa – e, ainda assim, Sosa aparece com um corte profundo depois. Mas francamente? Nenhum destes pequenos “pecados” faz a história perder a força, o ritmo ou as diferentes camadas de leitura.

Sem artifícios, Carancho não evita o drama e nem a crítica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expõe as dores de quem perdeu ou continua perdendo com a violência no trânsito. Revela os abusos de poder e a forma com que a cobiça pelo dinheiro levam para longe da virtude hospitais e “fundações” que acabam burlando a lei para conseguir mais dinheiro dos seguros. E o melhor de tudo é que Carancho explora a antiga história de “redenção” de maneira diferenciada, fazendo com que o espectador torça pelos protagonistas porque eles estão, mais que nada, tentando libertar-se de uma realidade pela qual eles não exatamente escolheram. Existe uma diferença gigante entre escolher uma profissão e se tornar prisioneiro de práticas infames de conduta para sobreviver. Além disso, existe a história de amor. A velha promessa deste sentimento como saída para pessoas perdidas. Por tudo isso, Carancho é este grande filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Saudade de assistir a um filme que me convencesse do início até o final. E não porque ele trate de assuntos novos. Mas porque tem o respeito de tornar velhos temas como atrativos. Depois de uma sequência de filmes que repetiram velhos padrões e ideias, nada como encontrar uma bela produção argentina com seus ventos inovadores.

O ritmo de Carancho é acelerado. E toda a aura que lhe acompanha casa bem com esta “jovialidade”. Uma prova disto é a trilha sonora, sempre no último volume. Algumas vezes, inclusive, a música e o som ambiente acabam dificultando para entender as falas dos personagens. Pequenos “erros” que não tiram o brilho da produção.

Gostaria, aliás, de saber de quem é a trilha sonora do filme. Assim como conseguir identificar os atores com seus respectivos personagens. Mas, infelizmente, nem o site oficial de Carancho e nem a “bíblia” do IMDb trazem estas informações.

De qualquer forma, vale comentar o trabalho dos atores. Além de Ricardo Darín, que está incrível – só para não variar – e demonstra, mais uma vez, que é um “monstro” como intérprete, um dos grandes nomes do cinema argentino e, quem sabe, do mundo, vale tirar o chapéu para Martina Gusman. A atriz faz um par perfeito com Darín. Cada olhar que eles trocam, cada momento em que ela está sozinha e com dor, sono, apreensão, valem o filme. Ouvi falar muito bem de Leonera, filme protagonizado por ela e dirigido, também, por Trapero. Mas ainda não o assisti. Agora, fiquei ainda mais curiosa. Porque a atriz é grande, e está fantástica e precisa em Carancho.

Infelizmente não consigo linkar cada ator com cada personagem, mas devo dizer que a equipe inteira de Carancho faz um belo trabalho. Destaco, em especial, aos intérpretes de Casal, Rinaldi, Pico e o vendedor dos carros de ferro-velho para o protagonista. Consegui identificar alguns pelos créditos finais do filme: Carlos Weber interpreta Pico; José Luis Arias a Casal; e Roberto Maciel a Rinaldi.

Merece uma menção a parte também o belo trabalho de edição feito pelo diretor ao lado de Ezequiel Borovinsky. Sem dúvida os dois conseguem o ritmo exato para a produção e escolhem bem os recursos para narrar de forma diferenciada esta história.

Carancho estreou na Argentina em maio. No mesmo mês, o filme participou do Festival de Cannes. Depois, esteve ainda nos festivais de Toronto, San Sebastian, Rio de Janeiro e, agora em outubro, em Hamburgo e Londres. Mesmo com todas as suas qualidades, o filme ainda não abocanhou nenhum prêmio. O que já sinaliza poucas chances para que ele chegue com força para o próximo Oscar.

Co-produzido pela Argentina, pelo Chile e pela França – contando ainda com dinheiro coreano -, Carancho foi todo filmado na cidade de Buenos Aires.

Antes deste filme, Pablo Trapero dirigiu outras seis produções. Com Leonera, de 2008, o diretor conquistou 16 prêmios e 27 indicações. Ele foi responsável, ainda, pelo roteiro de 10 de seus trabalhos, incluindo sete longas e três curtas. Um diretor que, sem dúvida, merece ser melhor conhecido – sim, este foi um momento “mea culpa”. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Carancho. O filme praticamente não foi comentado pela imprensa internacional. Tanto que o site Rotten Tomatoes – literalmente um termômetro neste sentido – apresenta apenas uma crítica: a de Enrique Buchichio, do Uruguay Total. Neste texto, Buchichio afirma que a produção de Trapero é um “thriller urbano escuro, denso, pessimista, com grandes destaques técnicos (especialmente fotografia, som e montagem) e um retrato hiperrealista de ambientes e personagens que fecham em uma história de amor. Muito bom cinema, apesar de alguma superficialidade”.

O crítico comenta ainda que Carancho é uma das produções “mais notáveis” que chegou da Argentina em seu país – o Uruguai. Ele afirma que, para sorte do espectador, o filme não cai na “denúncia social”. Ainda que o filme não fuja de uma certa denúncia, para Buchichio ele se revela, basicamente, “uma história de amor entre dois perdedores que estão tratando de sobreviver”. Concordo com ele, ainda que eu ache que Carancho é, ao mesmo tempo, estas duas coisas e mais. Curioso que Buchichio afirma que falta química entre os protagonistas. Não percebi isso. Até porque uma certa “estranheza” entre eles se justifica pelo tipo de ambiente e relações com os quais eles estão acostumados. Percebe-se, com um bocado de esforço, o quanto o tempo vai fazendo eles quebrarem as armaduras e se aproximarem realmente – especialmente Luján.

O crítico reconhece uma levada noir no filme. Com toda a razão. Eu não tinha observado isso antes, mas é bem verdade. Seja pelo tipo de história, pelos personagens ou pelos rumos que o roteiro vai tendo, assim como a violência e a levada embebida na urbe, tudo isso faz de Carancho um exemplar que segue a escola noir. Buchichio afirma que Carancho só não é melhor por alguns deslizes do elenco, inclusive citando a Martina Gusman que, segundo ele, repete no filme alguns vícios vistos anteriormente – não tenho esse conhecimento para concordar ou discordar.

Através da crítica do uruguaio é que fiquei sabendo que a protagonista de Carancho é a esposa do diretor.

CONCLUSÃO: A violência do trânsito vista de uma maneira diferenciada. Não apenas as colisões são violentas, mas todo o cenário que envolve as cenas de batidas e atropelamentos. Pessoas morrem, outras ficam incapacitadas. E ao redor delas, gira muito dinheiro. Seja através da estrutura de socorro, de ambulâncias até hospitais, seja por fundações e profissionais que correm atrás de indenizações para as vítimas e seus familiares. Adicione-se aí as seguradoras e seus interesses. Carancho, novo filme do diretor e roteirista argentino Pablo Trapero, apresenta uma história intricada, violenta, cheia de nuances, sordidez e algo de romance e esperança. Pessoas aprisionadas em estilos de vida que não gostam acabam se encontrando e buscando saídas. E ainda que o horizonte pareça cada vez mais complicado, o espectador segue com elas na busca por uma alternativa. Com um ritmo ágil, um roteiro bem amarrado e uma direção atenta aos melhores ângulos, Carancho revela mais um grande trabalho dos atores Ricardo Darín e Martina Gusman. O elenco de apoio também se sai muito bem, em uma produção essencialmente urbana e que segue a desesperança do cinema noir. Mais um grande exemplo do cinema da Argentina.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Comentei anteriormente que estou na torcida por este filme. E isso porque ele é o primeiro da lista de pré-selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que eu assisti. hehehehehe. Mas vocês que acompanham este blog acho que já me conhecem: sou assim mesmo, meio “passional”. Quando um filme me convence, porque tem ao mesmo tempo criatividade, qualidade técnica, bom roteiro, elenco e direção, abraço a causa, dou nota máxima e torço para que ele se dê bem nas premiações. Mas fora o meu lado passional, sou realista. Até o momento, Carancho não ganhou prêmio algum nos festivais pelos quais passou. Além disso, a crítica internacional tem falado pouco ou quase nada dele. Estes são dois bons termômetros para saber sobre as chances de uma produção estrangeira para o Oscar. Assim, sendo, acho que Carancho pode até chegar, com um pouco de sorte e um tanto de lobby, a figurar entre os cinco finalistas ao prêmio. Mas dificilmente – e também porque a Argentina acaba de sair de um Oscar vencedora – ele terá chances de levar a estatueta. Ainda assim, é um belo filme que merece ser visto.

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El Secreto de Sus Ojos – O Segredo dos Seus Olhos

Entre os países da América Latina, a Argentina possivelmente tem o cinema mais regular da região – produzindo sempre uma média de filmes de qualidade. El Secreto de Sus Ojos, representante do país por uma vaga no próximo Oscar, não foge desta regra. Ainda que narrado de forma bastante tradicional, este filme sobre uma investigação policial inconclusa e a busca de um oficial de Justiça aposentado por respostas sobre o seu passado tem pelo menos duas grandes qualidades: a presença sempre gratificante do talentoso Ricardo Darín e a sua parceria com a encantadora/convincente Soledad Villamil. Inspirado em uma obra literária, El Secreto de Sus Ojos mantêm duas linhas narrativas – presente e passado – em uma história de crimes, desejos contidos, paixões, Justiça e literatura.

A HISTÓRIA: Entre as plataformas 7 e 8 de uma estação de trem, uns olhos se destacam. Um homem tenta superá-los e pega uma pasta de couro, caminhando em seguida junto ao trem parado. Esta é uma cena de despedida. Ela habita a memória do agora aposentado Benjamín Esposito (Ricardo Darín). O antigo oficial de Justiça insiste em escrever um romance sobre o seu passado, que envolve não apenas aquela separação emocionada na estação de trem, mas também um crime hediondo. Utilizando como pretexto a sua busca pelo que realmente ocorreu com o culpado do caso Morales, Benjamín tenta também fazer as pazes com o seu próprio passado, especialmente no que se refere a sua antiga chefe, a juíza Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Secreto de Sus Ojos): Grande parte do que acontece na história contada por esta produção é previsível. Esperamos que o amor entre Benjamín e Irene vá ficando cada vez mais evidente, assim como confiamos que o culpado por ter matado a jovem e encantadora Liliana Coloto (Carla Quevedo) perca o controle e tenha alguma forma de julgamento justo. Ainda assim, e mesmo se tratando de uma adaptação de um romance no melhor estilo tradicional, El Secreto de Sus Ojos nos guarda algumas surpresas interessantes e bastante pontuais.

O diretor Juan José Campanella adaptou para a forma de um roteiro o livro La Pregunta de Sus Ojos com a ajuda de seu próprio autor, Eduardo Sacheri. Algo que me chamou a atenção, logo no início do filme, é que ele não alivia em seu linguajar. Não lembro de ter assistido, recentemente, a outro filme argentino que tenha tantos palavrões, xingamentos e “linguagem coloquial”. Algo curioso, se pensamos o tempo e o ambiente em que se passa a história – provavelmente algo planejado pelo escritor para diferenciar esta publicação de outras do gênero. A verdade é que o texto de Sacheri tira o véu do ambiente formal do Judiciário e nos aproxima de seus bastidores, onde existem disputas por poder, traições, assédio sexual, alcoolismo e, claro, algo de Justiça.

Como todo filme com duas narrativas principais em paralelo e um protagonista que busca solucionar dois problemas, El Secreto de Sus Ojos corria o risco de se perder em “costuras” de roteiro mal feitas. Mas não. As histórias paralelas são bem amarradas e prendem o interesse do espectador. O mérito principal, claro, fica por conta dos atores envolvidos no projeto. Darín, mais uma vez, confirma o seu posto como o principal – ou um dos, pelo menos – ator do cinema argentino. Em um filme em que “os olhos” – que simbolizam as expressões sem diálogos – devem comunicar tanto ou mais que as palavras proferidas pelos personagens, ninguém melhor que Darín para comandar o elenco. Mas para a sorte do espectador, junto com ele há outros atores muito competentes em cena.

Para começar, Soledad Villamil. Junto com Darín, ela consegue sugerir, sempre na medida exata, a proximidade, o desejo e os valores contrastantes da relação de uma “superiora” com o seu “subordinado” em um ambiente tão rígido quanto o do Judiciário. Logo no primeiro encontro entre Benjamín e Irene sabemos que algo ocorreu – ou deveria ter ocorrido – entre os dois. Buscando sempre olhar para o futuro, Irene não consegue mensurar o quanto de sua vida pode ainda ser mudada. Benjamín, por sua vez, parece não aceitar o rumo que sua vida tomou – e insiste, mais que Irene, em olhar para o passado. Não apenas para entendê-lo mas, especialmente, para tentar ajustá-lo.

É sempre gratificante assistir a dois grandes atores em cena. E o melhor: atores maduros. Junto com Darín e Villamil, El Secreto de Sus Ojos conta com o talento do ótimo Guillermo Francella, que interpreta a Pablo Sandoval, “subalterno” e amigo de Benjamín. O lado “mais fraco” entre os intérpretes fica por conta de Pablo Rago, como Ricardo Morales, marido de Liliana Coloto, e Javier Godino como Isidoro Gómez, o assassino confesso da moça de lindo sorriso. Não quero dizer que os atores sejam ruins, não. Mas perto do trio de protagonistas experientes, realmente fica evidente que lhes falta estrada.

De qualquer forma, El Secreto de Sus Ojos funciona bem. Consegue manter a atenção do público mesmo em seus momentos de “baixada narrativa”. Tem algumas cenas fortes e certa surpresa, o que garante que, junto com o desempenho dos atores, o filme se mantenha acima da média. No quesito direção, não há nenhuma surpresa ou virtuosismo. Na verdade, Campanella faz um trabalho apenas correto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo que seja, aparentemente, um filme sobre uma “investigação policial”, El Secreto de Sus Ojos se mostra, essencialmente, uma produção sobre paixões. Ele reflete, como poucos ultimamente, sobre a energia que nos move em uma direção – seja ela um amor, a justiça ou o crime. Francamente, o roteiro fez com que eu duvidasse permanentemente do marido de Liliana. Achei que Morales podia ser o verdadeiro culpado. Mas que boa surpresa a do final, quando fica ainda mais claro como a verdadeira “justiça” nunca poderá residir no “olho por olho, dente por dente”.

Por ser protagonizada por personagens “com mais idade”, El Secreto de Sus Ojos também reserva outra mensagem importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A de que nunca é tarde para buscar a paz com o próprio passado e, principalmente, viver uma grande paixão. Ok, a mensagem pode parecer até piegas – e talvez seja, um pouco -, mas nem por isso ela deixa de funcionar. O que apenas comprova como bons atores e um roteiro escrito com certo cuidado podem fazer com que idéias “batidas” ainda convençam.

Merece certa atenção também a crítica velada de Sacheri a época em que Isabel Perón governou o país. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Durante seu governo, o desafeto de Benjamín, Romano (Mariano Argento), coloca o assassino de Liliana Coloto em uma posição importante entre o corpo de segurança da presidente. De fato, durante o mandato de Isabel Perón, muitos abusos foram cometidos contra seus opositores. Um pouco de fundo histórico em uma história que brinca com a fronteira entre realidade, recordações distorcidas e a imaginação de um escritor que tenta encontrar sentido em fatos do seu passado que não ficaram totalmente esclarecidos. O espectador não sabe, com 100% de segurança, se tudo que está assistindo – pelo menos na narrativa sobre o passado dos protagonistas – é parte de uma ficção ou reflete, exatamente, o que ocorreu com Benjamín e os demais há 25 anos. Algo que ficará sem resposta – o que torna a história ainda mais interessante e realista.

NOTA: 8,3 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ator Javier Godino me enganou. Eu podia jurar, quando ele apareceu pela primeira vez em cena, que ele era o jovem ator destacado no último filme do Almodóvar. Ledo engano. Eu o confundi com Rubén Ochandiano, que interpreta a Ray X/Ernesto Jr. em Los Abrazos Rotos (comentado aqui no blog). Certo que eles guardam certa semelhança, mas acho que no fundo o que eu precisava mesmo era descansar os meus olhos cansados. 😉

Ambientado em duas épocas, no final dos anos 1990/início dos anos 2000 e em 1974, El Secreto de Sus Ojos compartilha personagens e a cidade de Buenos Aires. Como todo filme “de época” pede, esta produção é bem acabada em seus detalhes. Dos figurinos assinados por Cecilia Monti até o design de produção de Marcelo Pont Vergés, tudo funciona a serviço da história, auxiliando na ambientação de épocas e costumes. A direção de fotografia do brasileiro Félix Monti, contudo, não marca nenhuma mudança entre as épocas – o que não deixa de ser algo raro. Monti preferiu, tudo indica, o uso de um mesmo jogo de cores e de lentes para registrar a história. Por isso mesmo, acaba sendo tão fundamental o uso de figurinos, objetos de cena e da maquiagem idealizada por Fernanda Cacivio e Lucila Robirosa para distinguir os diferentes tempos narrativos.

El Secreto de Sus Ojos estreou na Argentina em agosto deste ano. Até o momento, o filme participou de apenas cinco festivais. Entre eles, o de Toronto, o de San Sebastián, o do Rio de Janeiro, o da AFI e, em novembro, do festival de Mar del Plata. Até o momento, a produção dirigida por Campanella não recebeu nenhum prêmio.

Para os que gostaram da trilha sonora, vale a pena citar o nome de seus realizadores: Federico Jusid e Emilio Kauderer.

O cinema argentino tem um grande incentivo: a constante parceria de investidores e organismos oficiais da Espanha. El Secreto de Sus Ojos segue esta linha, tendo recebido um importante aporte dos espanhóis. O filme de Campanella teria custado, aproximadamente, 2 milhões de euros. Apenas na Espanha, onde estreou em setembro, El Secreto de Sus Ojos arrecadou pouco mais de 3,5 milhões de euros até o final de outubro.

Nascido em Buenos Aires há exatos 50 anos, Juan José Campanella leva em seu currículo como diretor pelo menos 21 projetos. Entre eles, destaque para El Mismo Amor, La Misma Lluvia, produção de 1999 protagonizada por Ricardo Darín e Soledad Villamil (sim, a dupla repetiu a dose nesta nova produção, uma década depois); El Hijo de la Novia, de 2001, e Luna de Avellaneda, de 2004, ambas estreladas por Darín; e por seu trabalho como diretor de alguns episódios de House M.D., Law & Order, 30 Rock, entre outros projetos para a TV dos Estados Unidos e da Argentina.

Poucos críticos comentaram, até o momento, este novo filme de Campanella. Mas neste site, Hugo Zapata afirma que El Secreto de Sus Ojos é melhor que a obra literária que o originou. Ele afirma, por exemplo, que o filme desenvolve com “maior profundidade a relação dos personagens principais”. “Mais que um policial negro clássico, o diretor apresenta um grande thriller aonde o mistério está muito bem construído”, na avaliação do crítico do site argentino.

O crítico Carlos Boyero, do jornal espanhol El País, comentou neste texto que após o açucarado e “enervante” Luna de Avellaneda, ele tinha medo de assistir a outro filme ruim e/ou pretensioso de Campanella. Mas, após assistir a nova produção, o crítico se sentiu feliz. Ele se disse admirado pela “capacidade de seu autor para combinar com fluidez, tensão, harmonia, dureza e verossimilhança o cinema negro e a tragédia sentimental, a violência e o tom autenticamente lírico”. Boyero destaca ainda a linguagem expressiva do autor que consegue ser “tão sutil quanto poderosa”. Para o crítico, os espectadores de El Secreto de Sus Ojos adentram no “território do grande cinema, do classicismo, de um universo tão rico como complexo no qual tudo tem sentido, te envolve, te sugere, te implica e te comove”.

La Pregunta de Sus Ojos, obra que inspirou o filme de Campanella, foi editada pela primeira vez em 2005. Na Espanha, o livro de Eduardo Sachari foi editado com o título de El Secreto de Sus Ojos. Este foi seu primeiro romance – anteriormente Sachari, um professor licenciado em História, havia publicado apenas livros de contos. Encontrei neste site uma comparação entre o livro e o filme (texto em espanhol).

A história policial que motiva uma revisão da vida dos protagonistas de El Secreto de Sus Ojos se passa nos anos 1970, uma década conturbada para a Argentina. Em março de 1973 o país viveu as primeiras eleições presidenciais em uma década. Aqueles anos foram marcados pela vitória do peronismo – nome como ficou conhecida a “era” do militar Juan Domingo Perón. Depois de governar o país entre 1946 e 1955, Perón voltou ao poder em 1973, ficando no cargo até o ano seguinte, quando morreu em julho. Sua mulher na época, Isabel Perón, sucedeu o militar até que foi derrubada do poder por um novo golpe militar, em março de 1976.

Em 2007, segundo esta reportagem da Folha de S. Paulo, um juiz argentino pediu a prisão da ex-presidente Isabel Perón como “parte de uma investigação sobre a morte de dissidentes antes da ditadura militar na Argentina”. Isabel Perón, que foi condenada por corrupção em 1981 – e, posteriormente, perdoada – se exilou na Espanha. Segundo promotores argentinos, ela teria assinado “três decretos que permitiriam a realização de atos de terrorismo de Estado durante seu governo”, documentos estes que também teriam permitido a “aniquilação de elementos subversivos de esquerda e facilitado a ação do Triplo A” (como ficou conhecido o esquadrão da morte direitista atuante na época).

CONCLUSÃO: Um dos diretores argentinos mais conhecidos internacionalmente volta a investir na dupla de atores Ricardo Darín e Soledad Villamil em um filme que mistura drama e enredo policial na mesma medida. El Secreto de Sus Ojos busca equilibrar constantemente a verborragia argentina, com diálogos rápidos e carregados de regionalismos/humor/palavrões com uma certa levada sentimentalista – que privilegia troca de olhares românticos e sedutores. Narrada em dois tempos, esta história segue uma linha de direção tradicional por Juan José Campanella. O diretor consegue, com pulso firme, envolver o espectador em uma história que joga com múltiplas dúvidas e a incerteza entre o limite entre realidade, distorções da memória e ficção. O mérito principal desta produção, contudo, reside no excelente trabalho de Darín e a sua parceria afinada com Villamil e o comediante (aqui em papel dramático) Guillermo Francella.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: El Secreto de Sus Ojos é um filme bem acabado e que revela a experiência de um diretor que sabe manejar muito bem os diferentes recursos narrativos do cinema atual. O espectador é levado pela narrativa, dividida em dois tempos históricos, através de closes, panorâmicas, câmeras na mão, e demais planos de filmagem conhecidos por quem acompanha as diferentes séries televisivas atuais. Ainda que tenha estas características, este não é um filme inesquecível. E nem primordial. Por isso mesmo, não acredito que El Secreto de Sus Ojos conseguirá uma das cinco vagas na categoria de Melhor Fime Estrangeiro no próximo Oscar. E mesmo que consiga chegar lá, ele não tem chances de ganhar a estatueta se comparado com Un Prophète ou outras produções que tiveram uma cotação melhor nas críticas recentes aqui no blog – e que estão pré-selecionadas para a votação da Academia.

ATUALIZAÇÃO (27/07/2015): Olá, meus bons leitores! Estou atualizando este texto tanto tempo depois dele ter sido publicado, inclusive mudando a nota dada para este filme, porque acabei revendo ele agora. El Secreto de Sus Ojos passou em um canal da TV à cabo na noite do dia 26/07 e revi essa produção. Com outros olhos. Em outra época. E daí pude perceber que o filme era melhor do que aquele originário 8,3. Provavelmente em 2009, quando assisti ao filme argentino, eu tinha gostado mais de outras produções que concorreram ao Oscar.

Admito que muitas vezes faço isso. Minha avaliação é contaminada pela competição entre os filmes. Ou seja, quando um grupo de produções concorre ao Oscar, acabo não vendo elas individualmente, mas na comparação com os outros filmes. O que não é justo, ainda que justificável e compreensível. Tudo isso para dizer que, olhado isoladamente, El Secreto de Sus Ojos merece sim mais que um 9. Acho que 9,3 é suficiente, mas também não seria demais dar um pouco mais, como um 9,5 ou 9,7. Este film, de fato, é uma bela peça de cinema.

Como muitos de vocês devem lembrar/saber, El Secreto de Sus Ojos se consagrou como o Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2010. Para lembrar, ele ganhou do peruano La Teta Asustada, do alemão Das Weisse Banda – Eine Deutsche Kindergeschichte, dos israelense Ajami e do francês Un Prophète. Lembro que, na época, exceto por Ajami, que nunca assistir, gostei mais dos filmes alemão, francês e peruano do que do argentino. Mas olhando hoje, exclusivamente para a produção de Campanella, é importante dizer que ele é, de fato, um belo filme. Pronto, justiça feita. 🙂