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Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

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Tokyo!

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Uma das cidades mais impressionantes do mundo, Tokyo rendeu uma homenagem curiosíssimas de três diretores estrangeiros. Tokyo! mistura em um liquidificador alguns dos temas mais corriqueiros na lenda que circula sobre a capital japonesa atualmente. A solidão e o isolamento das pessoas em uma metrópole; os espaços cada vez mais diminutos para sobreviver em uma cidade muito competitiva; as lendas urbanas de monstros escondidos no esgoto subterrâneo; o medo do desconhecido plasmado nos estrangeiros… e a lista de temas pode continuar. Eles, assim como as ruas de Tokyo, renderam três histórias distintas criadas e dirigidas por Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong. Tokyo! deve agradar a todos os curiosos sobre o atual modo de vida dos habitantes da capital japonesa, apesar do tom surrealista de cada uma de suas histórias isoladas – interligadas apenas pelo cenário da cidade.

A HISTÓRIA: Ou melhor, as histórias. A primeira, intitulada Interior Design, narra a adaptação do casal Hiroko (Ayako Fujitani) e Akira (Ryo Kase) à vida em Tokyo. Em busca de seu sonho para ser um reconhecido cineasta, Akira acaba fazendo com que a namorada reveja os seus próprios desejos. A segunda história, Merde, revela a lenda urbana de um personagem estranho chamado de “a criatura do esgoto” (interpretado por Denis Lavant). Parecido com o “corcunda de Notre Dame” (mas sem a corcunda 🙂 ), ele aterroriza as ruas da cidade atacando pessoas inocentes. A última história do filme, intitulada Shaking Tokyo, foca o cotidiano de um “hikikomori”, ou seja, de um homem (interpretado por Teruyuki Kagawa) que vive isolado em casa há 10 anos. Fugindo do contato humano e da vida em sociedade, ele acaba mudando seu estilo de vida depois de manter um contato visual com uma entregadora de pizza (Yû Aoi).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tokyo!): O trabalho dos três diretores é interessante, mas claramente eu preferi aquele que fecha com uma chave de ouro o filme. Pode parecer estranho, mas o recheio de Tokyo! me pareceu o menos interessante. É verdade que o ator Denis Lavant dá um show de interpretação como Merde ou a chamada “criatura do esgoto” na parte dirigida por Leos Carax. Ainda assim, este foi o trecho menos interessante do filme. Michel Gondry, com Interior Design, nos apresenta uma história sobre a “utilidade” que as pessoas precisam ter hoje em dia muito bacana, ainda que um pouco surrealista demais. E para nossa sorte, o diretor Joon-ho Bong fecha o trinômio criativo com uma história muito delicada, lírica e romântica. Para falar com precisão do filme, vou comentar cada trecho do filme de maneira isolada.

Interior Design – Primeira história do filme, dirigida e escrita pelo francês Michael Gondry, ela faz uma espécie de homenagem ao cinema – assim como outro filme do diretor em 2008, Be Kind Rewind, comentado aqui no blog. Os protagonistas do “conto fílmico” de Gondry estão envolvidos com a produção cinematográfica. Ainda que o tamanho de tal produção seja a de filmes B – na melhor das hipóteses. O importante na história é o desejo do protagonista Akira em se tornar “revolucionário” ao provocar reações na platéia, em produzir um tipo de cinema que não deixará os espectadores indiferentes. Curioso que a homenagem de Gondry ao cinema japonês e sua tradição em criar monstros e filmes do gênero não termina na produção independente de Akira, mas se estende desde os segundos iniciais de Interior Design através da imaginação dos personagens em criar histórias fantásticas com base em cenas cotidianas – da chuva que cai no dia da chegada do casal em Tokyo até os edifícios abandonados da cidade. Tudo vira elemento criativo para Akira e sua namorada, Hiroko, darem margem à fantasia e criarem histórias fantásticas.

Se Interior Design terminasse aí, poderíamos dizer que Gondry dedicou o ano de 2008 para fazer homenagens ao cinema. Mas não. Sua história continua. E justamente esta continuação que a torna especialmente interessante. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Quando Hiroko literalmente se transforma em uma mobília, o diretor e roteirista francês questiona a necessidade de nossa sociedade em rotular as pessoas. Todos precisam ter uma utilidade nesta vida. Precisam servir para algo. E o que acontece com os que não encontram uma “serventia”, com os que se limitam a saber do que gostam ou desgostam, sem terem que trabalhar diariamente para conseguir o pão de cada dia? Eles são rechaçados e mal vistos, é claro, como o que acontece com Hiroko. Depois de ouvir a amiga, Akemi (Ayumi Ito), lhe julgamento duramente para o namorado, Hiroko se sente um objeto, uma peça a mais na paisagem das casas diminutas japonesas.

O surrealismo visto no estilo de Gondry no anterior Eternal Sunshine of the Spotless Mind ganha um novo contorno nesta história. Impressionante a transformação de Hiroko em uma cadeira – transformação esta que lembra algumas histórias de terror japonês. Mas para a nossa surpresa, passamos do horror – compartido pela própria personagem – para o lirismo quando Hiroko, finalmente, parece se sentir confortável como mobília do desconhecido Hiroshi (Nao Omori). Analisando esta história, parece que algumas vezes uma pessoa “sem utilidade” se sente mais confortável quando está imersa em uma realidade estranha e diferente. Destaque para os atores principais, especialmente para Ryo Kase, assim como para o diretor de fotografia, Masami Inomoto.

Merde – Segunda história do filme, foi a que menos gostei. Ela é dirigida pelo também francês Leos Carax, responsável pelo excelente Les Amants du Pont-Neuf, e que estava há nove anos sem filmar. Talvez atraído pelo lado grotesco dos filmes de terror japoneses, Carax buscou um paralelo entre as lendas urbanas daquele país e a tradição do terror francesa – como por exemplo a história do Corcunda de Notre Dame. Nesta mescla de referentes surgiu a história de Merde, magistralmente interpretado por Denis Lavant. O mais curioso deste trecho do filme é realmente a interpretação do ator, que consegue imprimir um tom de verdade em seu personagem fantástico.

Fora Lavant, a história merece ser mencionada pelo ritmo um bocado frenético do início, que nos mostra a vida cotidiana de Tokyo através do compasso enlouquecido da “criatura do esgoto”, e da leve polêmica da idéia que perpassa esta história. Afinal, lá pelas tantas, quando Merde passa a ser julgado, entra em debate a resistência dos japoneses aos estrangeiros e uma certa reciprocidade destes – especialmente dos franceses – com o que é japonês. No filme, este embate fica diluído em um tom de pastiche e comédia, mas trata-se de um tema sério (e real). Outro tema tratado de maneira ligeira, mas que é igualmente interessante, é a superexposição de criminosos na mídia – o que causa, inclusive, a transformação de suas imagens em produtos a serem consumidos, no melhor estilo de “camisetas de Che Guevara”. Carax faz um bom trabalho, com a ajuda da diretora de fotografia Caroline Champetier.

Shaking Tokyo – Para mim, a melhor das três histórias. Dirigida e escrita pelo sul-coreano Joon-ho Bong, Shaking Tokyo mostra a intimidade de um “hikikomori” que há 10 anos abriu mão do contato social. Em outras palavras, há uma década ele vive isolado em casa, sobrevivendo com o dinheiro que o pai lhe envia a cada mês e pedindo suas necessidades básicas por telefone. Este homem, interpretado com perfeição e sensibilidade pelo ator Teruyuki Kagawa, acaba rompendo suas próprias regras de isolamento quando, em um dia determinado, resolve fazer contato visual com uma entregadora de pizzas.

O diretor Joon-ho Bong resgata os planos detalhistas e cuidadosos que marca parte do cinema asiático para contar esta história de maneira a dar o devido peso a elementos importantes no cotidiano do homem isolado, como é a questão do tempo e da luz. Mas quem esperava uma história 100% realista, logo se depara também com um certo tom de fantasia presente nas outras duas histórias de Tokyo! Aqui, o absurdo entra em cena quando ficamos sem saber se o terremoto que fez a entregadora de pizza desmaiar na entrada da casa daquele homem isolado foi provocado pela Natureza mesmo ou pelos sentimentos em ebulição do protagonista – afinal, o mesmo aconteceria depois, no desfecho do filme.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a Tokyo!). Em uma época em que a tecnologia é discutida como uma forma de isolar as pessoas em casa, Shaking Tokyo mostra um cotidiano bastante “arcaico” do protagonista, que acaba sendo “invadido” pela modernidade de uma entregadora de pizza que desenha botões de “start” e de opções funcionais no próprio corpo. Uma interessante – e bonita – brincadeira do roteirista e diretor a respeito da “automatização” ou, pelo menos, ultra-modernização das pessoas. Por tudo isso, se torna, mais do que nunca, fundamental o toque humano, o contato físico, tão problemático em algumas culturas – como a japonesa ou a indiana, para citar dois exemplos.

O tom irreal se extende nesta história especialmente quando o protagonista resolve tomar uma atitude. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como nas histórias anteriores de Tokyo!, a câmera de Joon-ho Bong passa a percorrer as ruas da cidade que estão, como em uma história futurista, desertas. Todas as pessoas teriam se isolado. Esse cenário absurdo é elevado a uma outra potência quando a câmera mostra um entregador de pizzas robô. É preciso ter senso de humor para assistir a este filme. 😉 E o melhor ainda está para acontecer, justamente em mais um momento de tremor na capital japonesa. Destaque neste segmento para os atores Kagawa e Yû Aoi, para o diretor e seu olhar cuidadoso e para o diretor de fotografia Jun Fukumoto, que consegue o tom exato de cada momento.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como os cartazes do filme sugerem, Tokyo! é um destes filmes que mostra apenas uma parte da realidade de uma cidade complexa como é a capital do Japão. Esqueça os templos e santuários antigos. Esqueça o Hanami e outras tradições japonesas. Tokyo! revela apenas o lado moderno da cidade. É um prato cheio para quem tem a curiosidade de ver como se configura a arquitetura em permanente mudança desta cidade, assim como com que cores o cotidiano de quem vive por ali é pintado.

Leitora de blogs de espanhóis que vivem em Tokyo, achei interessante confirmar algumas curiosidades comentadas por eles em seus posts, como a configuração das ruas da cidade – com prédios altos e baixos cohabitando os mesmos cenários; a profusão de guarda-chuvas transparentes quando chove; entre outros detalhezinhos que acabam aparecendo no filme.

Certamente as pessoas que já moraram ou, pelo menos, visitaram Tokyo alguma vez, irão reconhecer muitos prédios e ruas da cidade.

Tokyo! estreou em maio do ano passado no Festival de Cannes, selecionado para a mostra Un Certain Regard. Em sua trajetória por festivais, chegou a ser indicado como melhor filme no Sitges – Festival Internacional de Cinema Catalão, mas acabou perdendo o prêmio para Surveillance, já comentado aqui no blog.

Na avaliação de público e crítica o filme têm conseguido uma boa média. Os usuários do site IMDb lhe conferiram a nota 7,4, enquanto os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 38 textos positivos e 14 negativos – o que lhe garante uma aprovação de 73%.

Destes filmes que devem ser vistos por poucos, Tokyo! acumulou, até o dia 31 de maio, pouco mais de US$ 345 mil nos Estados Unidos.

Achei curiosa a crítica de Stephen Holden sobre o filme publicada no New York Times. Em seu texto, Holden comenta que Tokyo! retrata uma cidade futurista habitada por xenófobos e excêntricos, e que a única relação entre as três histórias pode ser “melhor definida pelo ponto de exclamação do título”. Nunca melhor resumido. Mas o crítico achou justamente o segmento de Joon-ho o mais fraco dos três – eu penso o contrário, como disse antes.

Um ponto interessante da crítica de Holden é quando ele faz um paralelo entre a figura fantástica do Godzilla e o segmento filmado por Carax, salientando a crítica do diretor a repressão da memória histórica japonesa. Para Holden, o trecho em que é mostrado os resquícios da guerra no subterrâneo da cidade revela, na verdade, a negação dos japoneses de seu passado. Eles preferem, na opinião do crítico, deixar os “horrores enterrados” até que, muito tempo depois, eles possam explodir de uma forma tempestiva.

Para constar: Tokyo! é uma co-produção da França, do Japão, da Alemanha e da Coréia do Sul.

A exemplo de outros filmes, os cartazes de Tokyo! são fascinantes – uns melhores que os outros.

CONCLUSÃO: Um filme que prima pela realidade fantástica, dividido em três histórias sem nenhum ponto em comum – exceto o cenário da capital japonesa. Criativo, divertido e surrealista, Tokyo! explora a modernidade e a vocação para histórias de “terror” do cinema japonês, brincando com estereótipos e com problemas bastante reais. Entre eles, o isolamento das pessoas, a disputa por espaços cada vez mais diminutos, a tendência em transformar as pessoas em “objetos” com alguma utilidade prática e a resistência aos estrangeiros. Bem diferente dos outros filmes do gênero, como os que retratam Paris e Nova York, Tokyo! respeita as características modernas da capital japonesa e torna o tom fantástico o principal ingrediente do trajeto que percorre os diferentes cenários – internos e externos – desta cidade fascinante.