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Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

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Hacksaw Ridge – Até o Último Homem

Quando você defende valores corretos e está convicto sobre eles, não existe cenário agreste ou situação impossível pela frente. Hacksaw Ridge é um filme de guerra como você nunca viu. Por incrível que possa parecer, este é um libelo sobre a não violência e sobre a defesa da vida em meio à carnificina de uma guerra. Mel Gibson nos presenteia com um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos. Isso não é pouca coisa.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que se trata de uma história verdadeira. Muitos mortos no chão. Vários soldados estão sendo borbardeados e caem sobre o solo. Alguns são incendiados. Em meio àquela cena de guerra e morte, uma oração sobre Deus ecoa. Ela está sendo feita por Desmond Doss (Andrew Garfield), soldado que está sendo retirado do campo de batalha ferido. Este filme conta a história dele e do feito impressionante que ele foi capaz de realizar naquele mesmo cenário de destruição.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hacksaw Ridge): Eu admito logo de cara que este filme me conquistou. Fui fisgada e me emocionei em mais de um momento da produção. Se pensamos nela racionalmente, é claro que os roteiristas Robert Schenkkan e Andrew Knight e que o diretor Mel Gibson recorreram a vários lugares-comum e chavões. Mas você esquece de tudo isso quando vê o exemplo deixado por Desmond Doss.

Como vou falar novamente lá embaixo, na conclusão, este filme será visto e sentido de maneira muito diferente conforme as convicções do espectador. Para quem é ateu, mas acredita na não violência, na paz e na defesa da vida, este filme será uma história interessante descontada toda a parte “religiosa”. Para quem é cristão, como eu, as ações de Desmond Doss ganham outra camada de significado.

Como tantas outras produções, Hacksaw Ridge começa com uma “pílula” da parte final da história, quando Desmond é carregado por outros soldados que procuram salvá-lo no campo de batalhas. Depois deste rápido “lampejo” da parte final da história, o roteiro de Schenkkan e de Knight volta 16 anos no tempo.

Com esta escolha, vemos um pouco da infância de Desmond (quando criança, interpretado por Darcy Bryce), quando ele brincava nas Montanhas Blue Ridge, no Estado da Virgínia, ao lado do irmão Harold, conhecido como Hal (Roman Guerriero na fase infantil). Voltamos para um dia específico e que acabou sendo importante para formar o caráter de Desmond quando adulto.

No dia comum da família Doss que acompanhamos, o pai dos garotos, Tom (Hugo Weaving) bebe e se lamenta para os amigos mortos na guerra ao visitá-los no cemitério. Desmond e Hal acabam brigando, e em um gesto sem pensar, Desmond atinge o irmão com um tijolo. Naquele momento ele percebe que poderia ter matado o irmão, como Caim fez com Abel, e ouve da mãe, Bertha (Rachel Griffiths), que é cristã, que matar alguém é o pior pecado contra Deus. Essa lição marcaria o protagonista da história para sempre.

Na sequência, o roteiro de Hacksaw Ridge pula 15 anos para a frente, ou seja, um ano antes das cenas de guerra que iniciaram a produção. Novamente somos apresentados a fatos determinantes para a vida de Desmond. Quando o protagonista vê um acidente acontecer na rua, ele vai ao socorro do acidentado atingido em uma artéria e o salva ao fazer um torniquete na perna. Ele acompanha o jovem até o hospital, e é lá que ele conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer).

Ele fica imediatamente encantado por ela e começa a flertar com a garota. Quando os dois engatam um namoro, ele pede ajuda para ela porque ele quer saber mais de Medicina. Hal se alista e vai para a guerra, e não demora muito para Desmond seguir o mesmo caminho. Nenhum dos irmãos quer ficar em casa enquanto os seus amigos e conhecidos estão defendendo o país no campo de batalha – mesmo os dois “odiando” o pai alcoólatra e veterano de guerra, eles são inspirados por ele no exemplo de “servir à pátria” e de fazer o que é certo pelo coletivo da nação.

Mesmo fazendo parte da mesma família, nem todos tem as mesmas convicções e a mesma fé. O pai, Tom, claramente parece um morto-vivo e indica que já não é capaz de acreditar em nada, muito menos em Deus. A mãe dos garotos é religiosa. Hal parece ser neutro – não há muitas informações sobre ele, na verdade -, enquanto Desmond seguiu os passos da mãe e é bastante religioso.

Realmente parece assustador pensar em alguém indo para uma guerra sem ao menos carregar uma arma sequer para se defender. Afinal, tudo que se espera em um campo de batalha é que você seja atacado. Mas Desmond se recusa a carregar uma arma e, claro, se recusa solenemente a atacar uma pessoa ou matá-la – nem que isso signifique a própria sobrevivência.

Se você parar para pensar, isso sim é ser revolucionário. É marcar uma posição quando todos os outros dizem que isso é impossível e que você não pode fazer aquilo não apenas porque é suicídio, mas especialmente porque você estará passando uma mensagem muito ruim para o restante da tropa. Mesmo após ser preso, Desmond continua defendendo as suas convicções. E, aí entra a primeira surpresa do filme, Desmond só não se dá mal porque o pai, aparentemente “ausente”, intervém.

Em certo momento questionam Desmond: por que ele simplesmente não desiste daquela ideia maluca e vai para casa? Isso acontece quando ele vai para a corte marcial. Ali ele dá o primeiro depoimento contundente. As convicções de Desmond não permitem que ele fique em casa “tocando a vida” enquanto tantos outros homens estão se sacrificando por ele. É uma questão de honra e de lealdade por amigos, pelo irmão e por tantos outros desconhecidos. Ele não consegue apenas “deixar para lá”.

Pois bem, após uma intervenção salutar do pai, Desmond consegue terminar a formação e ir para a guerra sem ter pego em uma arma. Importante dizer que a convicção dele anti-violência tem duas fontes principais: o exemplo violento do pai, que era alcoólatra e batia em todos em casa, dos filhos até a esposa; e aquele exemplo citado antes, de quando o garoto Desmond percebeu que ele próprio tinha a capacidade de matar e que isso era algo muito, muito errado. Sem contar, evidentemente, como ele se inspira no exemplo de Cristo e nos mandamentos fundamentais.

Em determinado momento do filme, no campo de batalha, quando está falando com um dos colegas de farda, Smitty Ryker (Luke Bracey), Desmond também admite que, certa vez, pegou em uma arma para defender a mãe e que chegou a apontá-la para o pai. A partir daquele momento ele prometeu para si mesmo nunca mais pegar em uma arma novamente.

Estes e outros detalhes do filme fazem Hacksaw Ridge ser muito rico em histórias e muito coerente em sua narrativa. Uma pessoa cercada por violência tem a capacidade de escolher entre seguir aquela linha ou mudar completamente, tornando-se uma pessoa da paz. Esse segundo caminho é o que Desmond escolhe. Mas ele não se satisfaz apenas em ter esta conduta na sua vida pessoal. Ele leva esta ética para o campo de batalha. Isso sim, é algo incrível. E que nos demonstra, sem dúvidas, como é possível ter esta atitude pacifista em qualquer lugar e contexto.

Quando o diretor Mel Gibson leva a narrativa para o campo de batalha é que o filme ganha outra dimensão. As cenas recheadas de disparos, explosões, ataques e contra-ataques são impecáveis. O diretor demonstra conhecer bem esta narrativa e vemos um grande cuidado técnico com cada sequência. Mas o que ganha o espectador não são esses recursos já conhecidos. Acho difícil alguém não se emocionar com as cenas de Desmond correndo em meio ao perigo com cada companheiro de farda pelas costas.

Da minha parte, me emocionei logo nas primeiras sequências de Desmond salvando vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ainda que a emoção tenha começado pouco depois dele colocar os primeiros homens daquele batalhão nas costas e correr com eles para tentar salvá-los, sem se importar em quem poderia sobreviver ou não, porque ele acreditava que todos mereciam uma chance, foi na sequência em que Desmond fica sozinho e começa a salvar a todos que ele encontra pela frente, inclusive japoneses “inimigos”, que a emoção corre solta. Ele passou uma noite inteira, sozinho, fazendo isso, rezando a cada minuto e pedindo a Deus mais forças para seguir salvando vidas. Na verdade, toda vez que ele ora pedindo uma resposta e segue em frente ao ouvir um pedido de ajuda, a emoção corre solta. Há uma mensagem mais forte que essa? Acho difícil.

É fácil falar de princípios, de defesa da vida e da paz quando você está seguro e tranquilo na sua casa. Algo bem diferente é defender tudo isso estando sob risco constante de levar um tiro ou de ser implodido em um campo de batalha. Mas Desmond não tem nenhuma dúvida sobre como agir e sobre qual é a sua missão naquele local. Ele não vai matar ninguém. Ele está lá para salvar vidas. Incrível.

Tem gente que sempre usa o lema “uma andorinha só não faz Verão” para justificar que mais pessoas precisam ter interesse em uma ideia para que ela dê certo. Desmond mostra que uma pessoa sozinha pode fazer uma grande, imensa diferença. Ele mostrou mais honra e coragem do que muitos homens que foram para a guerra e apertaram gatilhos, usaram lança-chamas ou jogaram bombas nos inimigos.

Um tempo depois de ter assistido a Hacksaw Ridge, que achei muito inspirador, me lembrei de outro filme que mostra como uma única andorinha pode fazer uma grande diferença e salvar muitas vidas. Me lembrei de Schindler’s List, a história de outro homem que foi capaz de salvar muitas vidas. A exemplo de Desmond, Oskar Schindler teve a oportunidade de salvar pessoas e não se eximiu desta responsabilidade.

É inacreditável o que Desmond foi capaz de fazer. O exemplo dele foi tão inspirador que ele teve que entrar no campo de batalha novamente logo após ter passado uma noite salvando vidas sozinho. Os soldados que iam entrar em ação queriam ele por perto, como se ele fosse um tipo de “amuleto” ou alguém “protegido por Deus”. Neste momento Hacksaw Ridge mostra como um exemplo pode inspirar tantas pessoas. E é isso que Jesus continua fazendo até hoje.

Quando Desmond entra no campo de batalha novamente, é sábado, justamente o dia em que ele dizia que não poderia “trabalhar” por causa de sua fé. Mas ele sente que tem aquela missão para cumprir e, de fato, com o ânimo do exemplo dele, o batalhão vence a batalha e conquista Hacksaw. Desmond é ferido e consegue ser resgatado, e nos minutos finais do filme vemos a cenas reais do militar que foi condecorado por salvar 75 vidas. Certamente Mel Gibson quis colocar aquelas cenas no final para justificar alguns momentos mais “controversos” da produção.

Os roteiristas e o diretor constroem este filme de forma muito inteligente. Conhecemos as origens e o entorno familiar e social do protagonista, elementos que ajudaram a moldar o seu caráter. Os valores dele e a visão de mundo que ele constrói pelas experiências pelas quais ele passa são fundamentais para explicar a sua postura diferenciada no campo de batalha.

Depois de fazer esta contextualização essencial do personagem, entramos na ação propriamente dita. Nesta etapa, vemos o pior da guerra, toda a crueldade dos japoneses kamikazes e também dos soldados americanos, e um contra-exemplo dado por Desmond. Ele é o contraponto de tudo aquilo e serve de exemplo atualmente, nestes dias tão conturbados que vivemos no Brasil e no mundo, de que é possível buscar um caminho diferente.

Desmond nos lembra que sempre podemos escolher a paz e a defesa da vida, mesmo que todos ao nosso redor pareçam estar defendendo a violência e o conflito com a justificativa de que esta é a única saída. Nunca existe apenas uma saída. Desmond nos lembra que sempre temos a capacidade de escolher e que mesmo que a escolha faça todos pensarem que nós somos loucos ou “bobos”, ela vale a pena quando é feita com convicção.

Hacksaw Ridge também nos lembra que ninguém tem o direito de dizer para o outro o que ele deve fazer se isso vai contra o que ele acredita ser o melhor. Um belo e contundente filme. Um dos melhores filmes de guerra que já foram feitos para o meu gosto. Entra na lista de produções inesquecíveis e inspiradoras. Para quem é religioso, este filme também mostra como cada cristão pode ser o sal da Terra e servir de luz para os seus irmãos. Deus opera milagre através das pessoas que estão afinadas com ele, eu não tenho dúvidas disso. Desmond só conseguiu fazer tudo o que fez confiando muito em Deus e que ele lhe protegeria para cumprir a sua missão.

Ainda que Hacksaw Ridge tenha uma defesa da fé do protagonista inevitável, ele não precisa ser visto apenas sob esta ótica religiosa. Pode ser visto apenas como um filme de um homem com princípios diferentes dos de uma guerra. Mais uma grande produção desta safra especial do Oscar. Há muito tempo não se via filmes tão bons na disputa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande escolha dos produtores e do diretor Mel Gibson por Andrew Garfield como protagonista. Ele realmente tem o porte e o perfil adequado para o personagem de Desmond Doss. Afinal, o Desmond verdadeiro era magro e tido como um sujeito “fraco” para os padrões do Exército. Era um “cara comum” que foi capaz de um feito extraordinário. Garfield está muito bem no papel e merece, sem dúvida, ser indicado ao Oscar.

Logo depois de assistir a este filme eu pensei em dar a nota máxima para ele. Mas aí pensei um pouco melhor e teve um ou dois pontos que me “incomodaram” um pouco na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar dele ser baseado em fatos reais e eu achar que boa parte do que vemos no filme realmente aconteceu, tem partes que me pareceram um tanto “exageradas”. Primeiro, o filme é declaradamente pró-EUA. Ou seja, os japoneses são tratados como super cruéis e carniceiros,mas certamente esta visão também era a que o outro lado tinha dos americanos.

A simplificação dos japoneses e a sequência em que Desmond ajuda um inimigo e que é “poupado” por ele me pareceram um pouco equivocadas. Também me incomodou um pouquinho o tom de “protegidos por Deus” na segunda batalha em Hacksaw, quando eles vencem os japoneses. Desnecessário, afinal, Deus jamais estará do lado de alguém que faz guerra – uns vencem e outros perdem apesar de Deus. Também me incomodou um pouquinho a cena de “endeusamento” de Desmond, ou de torná-lo praticamente um “anjo” quando ele está sendo resgatado. Mas estes são detalhes em um filme com mensagem, no geral, bacana e importante.

Hacksaw Ridge é um filme declaradamente de um personagem. Ainda que tenhamos vários nomes interessantes em cena, esta produção é toda construída para valorizar a história de Desmond Doss. Andrew Garfield brilha no papel, neste que pode ser, até o momento, o filme da vida do ator. Ele tem uma presença, um carisma e uma postura otimista que é típica de quem está “repleto do Espírito Santo”, e por isso ele convence tanto no papel de Desmond. Mas além dele, tem outros atores importantes e que fazem bem o seu trabalho.

Do núcleo familiar do protagonista, vale destacar o belo trabalho de Hugo Weaving como o ex-veterano de guerra e patriarca da família Tom Doss; o coerente e sensível trabalho de Rachel Griffiths como a pacífica e amorosa mãe Bertha Doss; e o da talentosa atriz Teresa Palmer em um dueto importante com Andrew Garfield como a namorada e depois esposa dele, a enfermeira Dorothy Schutte. Também vale citar o bom trabalho de Nathaniel Buzolic como Hal Doss – ainda que o papel dele seja micro.

Do núcleo do exército, sem dúvida merecem aplausos os atores Sam Worthington como o capitão Glover; Vince Vaughn lembrando um pouco o capitão do clássico de Kubrick neste filme como o sargento Howell; e Luke Bracey brilha como Smitty Ryker. Todos eles tem em comum desprezarem Desmond no início, mas depois se renderem à bravura e ao exemplo dele.

Como em todo filme de guerra, é complicado ligar “o nome à pessoa”. Quando Desmond chega no treinamento militar, rapidamente um grupo de soldados se apresentam para ele. Mas é difícil, depois, você identificar este ou aquele no campo de batalha. Ainda assim, vale citar o nome de alguns atores que, mesmo sendo coadjuvantes, recebem um certo destaque na história nesta tentativa dos roteiristas em “humanizar” os soldados: Firass Dirani como Vito Rinnelli; Michael Sheasby como Tex Lewis; Luke Pegler como Hollywood Zane; Ben Mingay como Grease Nolan; Nico Cortez como Wal Kirzinski, apelidado de “Chefe”; e Goran D. Kleut como o “esquisitão” Ghoul.

Além deste grupo de atores que dão vida a jovens soldados, vale destacar alguns atores veteranos em pequenos papéis no filme, como Richard Roxburgh como o coronel Stelzer; Robert Morgan em uma participação contundente como o coronel Sangston; e Philip Quast como o juiz que sabe ser justo quando Desmond decide se defender na corte marcial.

Tecnicamente falando, o filme é irretocável. Não vi nenhum problema em parte alguma. Diversos talentos ajudaram este filme a ele ter a qualidade que vemos em cena. Para começar, a envolvente, emocional e um tanto época trilha sonora de Rupert Gregson-Williams que, sem dúvida alguma, ajuda bastante a história nas cenas de batalha.

Outros profissionais que dão um show em suas respectivas funções são o diretor de fotografia Simon Duggan; o editor John Gilbert; os 16 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 23 profissionais envolvidos no departamento de arte; os 21 profissionais que fazem um trabalho fundamental e perfeito no departamento de som; os 10 profissionais responsáveis pelos efeitos especiais; os 30 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais; além do design de produção de Barry Robinson; a direção de arte de Jacinta Leong e de Mark Robins; e os figurinos de Lizzy Gardiner.

Hacksaw Ridge estreou em setembro de 2016 no Festival de Cinema de Veneza. Foi o único festival em que a produção participou. Apesar disso, ela já contabiliza 38 prêmios e foi indicado a outros 79, incluindo seis indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de melhor elenco em um filme de ação dado pelo Screen Actors Guild Awards; quatro prêmios para Mel Gibson como Melhor Diretor; três prêmios de Melhor Filme, Melhor Filme de Ação ou Melhor Filme Estrangeiro; cinco prêmios de Melhor Ator para Andrew Garfield; e seis prêmios de Melhor Edição.

Esta produção teria custado cerca de US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 66,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 97,7 milhões. No total, faturou US$ 164,2 milhões, o que o coloca na trajetória de obter lucro.

Hacksaw Ridge foi totalmente rodado na Austrália, em locais como os estúdios Fox em Sydney; no cemitério Centennal Park, em Eastern Suburbs, também em Sydney; no Newington Amory, que serviu de locação para o Fort Jackson, e que fica no Sydney Olympic Park; e em cidades como Richmond (cenas da Igreja e do cinema) e Camden.

Este filme é uma coprodução da Austrália e dos Estados Unidos. Como este segundo país foi o mais votado em uma das enquetes feitas aqui no blog, ele entra para a lista de produções que atendem às votações feitas aqui.

Agora, para finalizar, algumas curiosidades sobre a produção. Sempre que perguntavam para Desmond Doss quantas pessoas ele tinha ajudado a salvar, ele dizia que aproximadamente 50. No entanto, testemunhas daqueles dias disseram que foi mais perto de 100. Para chegar a um meio-termo, eles chegaram ao número de 75.

De acordo com o diretor Mel Gibson, o filho de Desmond Doss, Desmond Jr., participou da escolha do elenco e ficou emocionado com a forma com que Andrew Garfield interpretou com fidelidade o pai dele.

As notas de produção dizem que Desmond Doss foi o único soldado que serviu na linha de frente sem portar uma arma. Na Segunda Guerra Mundial, nas guerras da Coreia e do Vietnã, os militares que eram da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram classificados como 1A-O, o que significava que eles estavam dispostos a servir, mas que não portariam uma arma em combate. Havia um grupo similar, chamado Society of Friends (Quaker) que se voluntariou desta forma na Primeira Guerra Mundial.

O produtor Hal B. Wallis tinha tentado comprar a história de Desmond Doss nos anos 1950, imaginando o ator Audie Murphy como o protagonista. Mas Desmond não tinha interesse em que a sua história se transformasse em um filme de Hollywood. Bem, como o filme mesmo nos informa, ele morreu em 2006… abrindo então a oportunidade para que os realizadores finalmente levassem a sua história para os cinemas.

As cenas de batalha demoraram 19 dias para serem filmadas.

Hacksaw Ridge foi aplaudido de pé durante nove minutos e 48 segundos na estreia no Festival de Cinema de Veneza – o próprio Mel Gibson cronometrou este tempo.

Além de salvar 75 homens, Desmond Doss teria tratado outros 55 que puderam sair do campo de batalha sozinhos.

A Bíblia que Desmond levava sempre consigo realmente foi perdida no campo de batalha e só foi recuperada depois que ele foi levado para casa para tratar de seus ferimentos. A divisão da qual ele fazia parte, depois de capturar Hacksaw, passou algum tempo procurando a Bíblia até que a conseguiram localizar.

Esta produção levou 59 dias para ser filmada.

O filme marca a estreia de Milo Gibson, filho do diretor Mel Gibson – ele faz o papel de Lucky Ford, um dos soldados do batalhão de Doss.

James Horner tinha sido contratado para fazer a trilha sonora de Hacksaw Ridge, mas com a morte prematura e repentina do premiado compositor, entrou em cena John Debney. Mas o trabalho dele foi rejeitado e aí assumiu o posto Rupert Gregson-Williams.

Impressionante uma parte da história real de Desmond. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele não foi ferido e resgatado na conquista de Hacksaw. Na verdade ele foi ferido algumas semanas depois na Campanha Okinawa durante um ataque noturno perto de Shuri. Ele foi ferido nas pernas por uma granada e teve que esperar cinco horas até que os maqueiros pudessem alcançá-lo. Neste tempo, ele tratou de suas próprias feridas como pôde.

Quando ele estava sendo levado por três maqueiros, eles foram atacados por um tanque japonês. Doss se arrastou para fora da maca para que outro soldado em situação mais grave que a dele fosse atendido primeiro. Enquanto ele esperava a maca retornar, ele foi baleado por um franco-atirador, o que causou uma fratura no braço de Desmond. Para tratá-la, ele próprio improvisou uma tala usando a parte de um rifle.

Desmond então rastejou cerca de 274 metros para uma estação de socorro em que ele pôde ser atendido. Estes e outros detalhes da história de Desmond foram deixados de fora do filme porque o diretor Mel Gibson achou que o público não acreditaria neles. Acho que ele tem razão. A história de Desmond é incrível demais para reles mortais acreditarem com toda a facilidade que deveriam sem estarem lá para presenciar os fatos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para Hacksaw Ridge, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 191 críticas positivas e 30 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Neste caso, estou mais do lado do público que vota no IMDb do que dos críticos que foram um tanto “duros” com a produção. Talvez tenha incomodado os críticos o tom religioso do filme, mas este era um elemento importante para o protagonista da história e não tinha como ser negado na produção. Para os padrões do site IMDb a nota de Hacksaw Ridge é muito boa.

CONCLUSÃO: O testemunho de uma pessoa através de seu exemplo vale mais do que mil discursos. Esse filme será visto de maneira muito diferente dependendo se o espectador acredita ou não em Deus. Mas, independente disso, Hacksaw Ridge é um grande testemunho de que é possível se manter fiel à si mesmo e ao que se acreditar ser certo mesmo que todas as pessoas ao redor e as condições que o cerca lhe disser o contrário.

Para o meu gosto, volto a afirmar: Hacksaw Ridge é um dos grandes filmes sobre guerra de todos os tempos. Ele mostra a crueldade de um campo de batalha mas vai muito além disso. Resgata uma história impressionante de bravura e de defesa da vida em um local em que o elemento mais constante e certo é o da morte. Bem conduzido, o filme começa morno, previsível, mas depois acerta o espectador direto na emoção. Mais uma das belas surpresas desta temporada do Oscar 2017. Altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Hacksaw Ridge está concorrendo em seis categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa a estatueta dourada nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor para Mel Gibson, Melhor Ator para Andrew Garfield, Melhor Edição para John Gilbert, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Em um ano “normal” do Oscar, Hacksaw Ridge talvez fosse o favorito na categoria Melhor Filme. Mas este não é um ano normal da premiação. A Academia está visivelmente querendo defender os seus valores e a si mesma e, por isso, deve premiar La La Land, um filme bom, mas que definitivamente não é o melhor do ano.

Consequentemente, se Hollywood quer consagrar La La Land, é praticamente certo que Mel Gibson vai perder a disputa para Damien Chazelle. E mesmo que aconteça uma zebra e Chazelle não vença, a estatueta deve ir para outro nome, para Barry Jenkins, de Moonlight. Na categoria Melhor Ator, a disputa está entre Denzel Washington (meu voto) e Casey Affleck.

Então as chances que restam para Hacksaw Ridge estão nas categorias técnicas. Como La La Land é o favoritíssimo para papar quase tudo na noite de entrega do Oscar, é o filme de Chazelle que tem a preferência para levar o Oscar de Melhor Edição – ainda que eu prefira o trabalho feito em Hacksaw Ridge.

O mesmo se pode dizer em Melhor Mixagem de Som, onde nas bolsas de apostas La La Land leva vantagem. A única categoria em que Hacksaw Ridge está liderando é na de Melhor Edição de Som. Francamente, acho que ele poderia levar tranquilamente nas três categorias técnicas. Acho o trabalho das equipes de Hacksaw Ridge mais contundentes nas três categorias do que as equipes de La La Land. Mas, novamente, este parece ser o ano do musical, então talvez Hacksaw Ridge saia com duas, uma ou nenhuma estatueta deste Oscar. Qualquer um destes cenários não será surpreendente. Uma pena. O filme merecia mais reconhecimento.

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The Social Network – A Rede Social

Como transformar a história de um nerd, cheia de termos técnicos de informática, em um filme interessante? O primeiro passo é convocar um ótimo roteirista que adota uma estratégia que parece, como o protagonista, pouco popular: um texto rápido, com muitas linhas por minuto. Depois, adicione uma ótima trilha sonora, uma direção de fotografia precisa, bons atores e um diretor para dar a unidade perfeita para tudo isso – e que ainda apresente, aqui e ali, minutos inspirados e de pura sugestão de sentidos. The Social Network transforma a história dos bastidores da criação do Facebook, a mais importante e badalada rede social do mundo, em um filme interessante que brinca com velhos estereótipos dos nerds recriando estes elementos. Quase perfeito por conseguir um ótimo resultado mesmo com muitos elementos que nadam contra a corrente dos filmes produzidos para as grandes audiências, The Social Network falha apenas ao simplificar algumas partes da história – tornando, no final, a vida do jovem bilionário Mark Zuckerberg pouco mais que uma obsessão por computadores e uma garota em especial.

A HISTÓRIA: Um garoto de fala rápida comenta com uma garota, na mesa de um bar, entre um gole e outro de cerveja, que existem mais pessoas com QI elevado na China do que habitantes nos Estados Unidos. Ela duvida, e a conversa segue em um troca constante de farpas e de conflitos de opinião. Para Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) esta é mais uma das várias conversas sem fim com a sua namorada e diva Erica Albright (Rooney Mara). Só que a garota, farta da falta de modéstia e de percepção “da realidade” do rapaz, decide dar um fim no relacionamento. Ele, indignado, vai para casa e detona Erica em seu blog pessoal. Por diversão, começa a fazer um ranking das garotas mais interessantes das principais “casas” (e/ou irmandades) que compõe Harvard. Esta brincadeira cria um colapso na internet da universidade. Zuckerberg ganha evidência e, nesta noite, começa a história que levaria o rapaz a criar o Facebook e se tornar, assim, um dos jovens mais ricos e conhecidos do mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Social Network): Verborrágico. Esta é a primeira característica evidente de The Social Network. É preciso ter atenção e conhecer um bocado dos termos/jargões da internet e/ou tecnológicos para acompanhar o roteiro de Aaron Sorkin. O filme é adaptado do livro de Ben Mezrich intitulado The Accidental Billionaires – antes que alguém me pergunte, ainda não li a obra, mas pretendo fazer isso em breve.

Sorkin foi ousado. Não abriu mão de ser fiel aos “personagens” (reais, diga-se) e ao seu modo de falar e agir. Com isso, ganhou pontos na minha análise. Mas, seguramente, perderá pontos entre o grande público. Especialmente porque não é todo mundo que conhece os termos “técnicos” usados na história. Essa ousadia, juntamente com o texto farto e veloz, diferenciam The Social Network de um filme “puramente” comercial. Se ele quisesse ser realmente popular, simplificaria muito mais o texto. Em outras palavras, parabéns ao roteirista por sua preocupação em ser fiel a uma versão da história – sim, porque mesmo o livro de Mezrich é considerado apenas uma “parte” de vários lances que compõe os bastidores que envolveram a criação do Facebook.

O roteiro de The Social Network é, sem dúvida, um de seus pontos fortes. Juntamente com a trilha sonora e a direção. Diria que este triângulo é decisivo por tornar o filme interessante, denso em conteúdo e leituras. O trabalho de Sorkin merece elogios não apenas por sua preocupação em tentar ser fiel aos personagens e ao que teria acontecido com eles. Mas também porque ele faz mágica com a história. Equilibra de forma exata momentos “cerebrais” com sequências que lembram os clássicos de festas em universidades estadunidenses vistas em tantos filmes “juvenis”, como Porky’s e Cia.

As festas regadas a bebidas, a homarada tentando se dar bem com as meninas, os caras que ficavam à margem de tudo isso… tudo está lá. Claro que em uma versão “repaginada”. Afinal, não estamos vendo uma história ambientada nos anos 1980, mas um enredo dos anos 2000, no qual gênios da informática poderiam se tornar celebridades mesmo tendo dificuldade em se relacionar pessoalmente. Esta, aliás, é uma das principais mensagens do filme… de como a informática ajudou a pessoas antes “marginalizadas” por falta de dotes físicos a conseguir uma certa evidência por apresentarem outros predicados.

O diretor David Fincher aproveita todas as “brechas” do roteiro para dar ritmo a esta história. E consegue. Acompanhos a história de Mark Zuckerberg do outono de 2003 em diante. Entre um momento e outro de verborragia do personagem – seja em diálogos com alguns interlocutores ou através de elocubrações de seus próprios pensamentos “compartilhada” conosco, espectadores -, Fincher destila cenas que mostram o contraste entre as diferentes faunas que compõe o compus de Harvard. E, mais tarde, o ambiente de desenvolvedores de produtos tecnológicos.

O roteiro e a direção bem feitos acabam tornando uma história cheia de termos técnicos e fidelidade a personagens “não muito interessantes” em algo bastante atrativo – pelo menos para quem se interessa por estes “bastidores” do mundo tecnológico. A história do surgimento do Facebook acaba sendo apresentada como uma disputa pela inovação que terminou nos tribunais. Parcerias e amizades foram alteradas com a velocidade de uma banda larga quando a proximidade com a fama e a oportunidade de tornar o experimento global foram se consolidando.

Só fico em dúvida sobre o interesse deste roteiro para os “não iniciados” com a tecnologia. Ou entre as pessoas que não se interessam tanto assim pelo mundo “dos nerds”. Acho que o grande público, os “não familiarizados”, podem ficar boiando boa parte do tempo. Daí o roteiro de Sorkin introduz outros elementos, como bebidas, flertes, disputas em tribunais e bastidores de Harvard para tentar agradar um pouco mais este público não muito familiarizado com a tecnologia. Talvez funcione, mas não acho que o filme se tornará tão popular quanto outras produções menos “técnicas”.

Algo fundamental, neste filme, é a trilha sonora. Um trabalho incrível, preciso, ponderado e provocante de Trent Reznor e Atticus Ross. Sem a trilha desta dupla, The Social Network perderia, pelo menos, 25% do ritmo e da graça. Vale destacar ainda a direção de fotografia de Jeff Cronenweth. Ele ajuda a colocar em prática as ideias de Fincher. As cenas noturnas e diurnas, como as que mostram festas e competição de canoagem, respectivamente, ganham plasticidade por esta parceria.

Sem dúvida o filme tem mais acertos do que erros. A aposta em intercalar o tradicional “suspense de tribunais” com uma narração do que é debatido entre os interessados nos processos, promove as quebras salutares na produção. A preocupação em reproduzir o jeito de falar do protagonista e de seus amigos, assim como em mostrar o contraponto entre os diferentes “jeitos de ser” das tribos de Harvard e das outras universidades também dá o “caldo” necessário para a história. Mas nem tudo são flores.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na sua preocupação em ser, ao mesmo tempo, “fiel” à realidade vivida pelos “personagens reais” e fazer-se interessante para um público maior do que o de “iniciados” naquele entorno de alta tecnologia, The Social Network acaba simplificando alguns aspectos da realidade. Torna muito evidente a fronteira de Zuckerberg como a de um sujeito isolado, quase um “loser” entre os bem-sucedidos da universidade. Segue uma trilha bastante perseguida, neste sentido, por outros filmes ambientados no mesmo universo de universidades de ponta dos Estados Unidos.

Não que Zuckerberg não fosse um nerd. Mas não acredito que ele fosse tão “isolado” quanto este filme e, aparentemente, o livro de Mezrich, sugerem. Com esta ideia, reforça-se o estigma de que os gênios da informática são sujeitos com dificuldade de se relacionar. E mesmo que isso aconteça, não deve ser visto como regra. Acho que é uma simplificação muito grande – e que já ocorreu antes com outros gênios de outras áreas do conhecimento. É fato que pessoas inteligentes demais não conseguem encontrar muito “eco” entre os demais mortais. Mas daí a mostrar-lhes como sujeitos isolados… acho uma simplificação um tanto burra.

De qualquer forma, para mim, esta simplificação até era esperada. Mas algo me surpreendeu – e negativamente. (SPOILER – não leia, realmente, se você não assistiu ao filme). Não gostei do final. Ele dá a entender que tudo que o criador de Facebook fez foi por causa de uma garota. Saída típica, e boba, eu diria. Por que tudo, sempre que possível, tem que se resumir a “um cara que não se conforma por ter perdido uma garota”? Não acho que esta seja a história de Zuckerberg. Posso até concordar que ele quis se tornar um sujeito excepcional. E que, obstinado e realmente com uma inteligência acima da média, batalhou para conseguir isso. E conseguiu. Mas resumir todo o seu trabalho e conquista a uma dor de cotovelo… menos, bem menos!

O criador do Facebook foi (ou é?) um gênio desta era recente por captar, como ninguém, o que as pessoas queriam. Utilizou tendências da alta tecnologia, criou ferramentas para isso e manteve o hábito mais que saudável de adaptar-se de forma contínua. Seja a ideias novas – de forma inteligente ele atuou como uma “parabólica” de sugestões dos que lhe cercavam – e/ou a desafios impostos pelos concorrentes e pelo mercado. Criou um produto novo, juntou uma equipe de gente talentosa para trabalhar nele – grupo esse pouco explorado pela história, aliás – e continuou modificando-o até torná-lo um fenômeno global.

Ainda que The Social Network sofra com aquelas simplificações que eu comentei acima, algo positivo este filme tem: ele não toma partido. Tenta contar a história sob as diversas óticas conflitantes e o espectador, em geral, fica livre para tirar as suas próprias conclusões. Ainda assim, como 99% dos filmes de Hollywood, ele meio que “encaminha” o público em uma direção.

E há uma sequência emblemática neste sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A partir de uma hora e 20 minutos da produção, Fincher e Sorkin brincam com duas realidades que jogam com um mesmo conceito/objetivo: a superação/fama. Primeiro, vemos os olhos do Zuckerberg de Jesse Eisenberg brilharem com as promessas de sucesso de Sean Parker (o criador do Napster, interpretado por Justin Timberlake). Em seguida, assistimos a uma competição disputadíssima de canoagem. O paralelo é evidente: todos aqueles jovens buscam a superação, ultrapassar os próprios limites, apenas para… conseguir a fama. Ser popular, diferenciar-se dos demais, era o objetivo final. De uns e de outros. Esta reflexão do filme, que reflete de forma tão evidente a nossa era, torna-o especial. Apesar de suas simplificações aqui e acolá. “Fraquezas” menores frente a um trabalho diferenciado.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes deles, mas os atores merecem um comentário à parte. Jesse Eisenberg se destaca entre todos os outros nomes. O ator nova-iorquino de 27 anos imita o jeito de falar e os trejeitos de Zuckerberg com perfeição. Um desempenho que, sem dúvida, merece uma indicação ao Oscar. Além dele, mostram talento Andrew Garfield no papel do brasileiro Eduardo Saverin; Armie Hammer no papel duplo dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (em algumas cenas Tyler foi interpretado também por Josh Pence) e Max Minghella como Divya Narendra. Além deles, vale comentar que os já citados Rooney Mara, como Erica Albright, e Justin Timberlake como Sean Parker fazem um bom trabalho. Em papéis menores, se saem bem Patrick Mapel como Chris Hughes; Brenda Song como a engraçada e “deslumbrada” Christy; e Rashida Jones como a advogada “solidária” a Zuckerberg.

A história real de Zuckerberg é realmente impressionante. Encontrei muitas matérias sobre ele. Para os interessados, vale citar esta, que revela que o patrimônio do criador do Facebook está estimado em US$ 6,9 bilhões e que ele passou a figurar na 35ª posição entre os homens mais ricos dos Estados Unidos da revista Forbes. Detalhe: aos 26 anos de idade!! Um fenômeno, sem dúvida. Neste novo ranking da Forbes, Zuckerberg ultrapassou Steve Jobs, da Apple. Mas fica atrás de Bill Gates, que continua sendo o número 1, com uma fortuna de US$ 54 bilhões; e da dupla Larry Page e Sergey Brin, criadores do Google, com uma fortuna de US$ 15 bilhões cada um.

O criador do Facebook tem uma forma interessante de pensar. Segundo esta matéria, no início do ano, Zuckerberg comentou que as pessoas não “esperam” mais ter privacidade. Curioso. Uma forma diferente de ver a realidade. Certamente as pessoas abriram bastante mão de suas privacidades nos últimos tempos mas, como efeito seguinte a esta exposição, começaram a perceber os riscos de tanta exposição. Tanto que passaram a reagir a isso e “voltar atrás”, em certa medida. Há fases e flutuações, é claro, mas passou a primeira fase da “inocência” nas exposições e eu diria que, agora, as pessoas estão mais “ligadas” em tudo de bom e de ruim que uma grande exposição, inclusive para desconhecidos, pode trazer.

Agora, uma certa ironia da vida real… (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Lá pelas tantas, The Social Network brinca com o “fascínio” dos nerds com as garotas asiáticas. No final, a produção deixa a entender que Zuckerberg fez tudo o que fez por causa de um amor “mal resolvido” com Erica Albright. Pois bem, não deixou de ser engraçado ver a este comentário no blog Somos Mulheres Reais e a foto que ela traz. Zuckerberg atualmente namora Priscilla Chan, uma estadunidense de origem chinesa que estuda Medicina. Como era de se esperar, eles se conheceram em uma festa em Harvard… hehehehehe. Uma ironia interessante, pois.

Em julho deste ano, o Facebook atingiu a marca de 500 milhões de usuários. No início, Zuckerberg tentou ignorar The Social Network e disse que não assistiria ao filme. Depois, acabou cedendo. Ao comentar sobre a produção, Zuckerberg afirmou que os produtores não entenderam como alguém pode ter construído algo simplesmente pelo gosto de “construir coisas”, referindo-se ao Facebook – afirmando, ainda, que não produziu a rede social pela fama ou para se tornar um bilionário. Ele teria afirmado também que “Cada camiseta e cada casaco que eu tinha no filme era de fato uma camiseta ou casaco que eu tenho”.

Fiquei curiosa sobre o atual paradeiro de Eduardo Saverin e sobre o que ele poderia ter dito sobre o filme. Aparentemente, ele está “ausente” de comentários a respeito e de entrevistas. Nesta matéria, falam um pouco a respeito disto. Nesta outra, um rápido resumo sobre a trajetória de Saverin.

Como comentei anteriormente, The Social Network sofre um pouco pela simplificação que ele faz da história. Também pelo fato do filme se basear no livro de Ben Mezrich que, declaradamente, “toma partido” de Eduardo Saverin e dá pouco – ou nenhum espaço – para a versão de Zuckerberg da história. Por isso mesmo, claro, a produção é um tanto “partidária” – ainda que, pelo visto, menos que o livro – o que é um acerto, pois. Neste link, uma entrevista de Mezrich sobre a forma com que Saverin se sentiu “traído” pelo ex-amigo e parceiro.

Uma curiosidade da produção: aquela verborragia inicial entre Zuckerberg e Erica Albright, que abre The Social Network, ocupou oito páginas de roteiro e 99 tomadas das filmagens. Impressionante.

Outro fato curioso: em certo momento do próprio julgamento, Zuckerberg afirma que sua invenção foi o fato mais importante de Harvard, incluindo 19 prêmios Nobel, 15 ganhadores do prêmio Pulitzer, dois futuros atletas olímpicos e uma estrela de cinema. Ainda que ele não cite quem seria esta estrela, ela é Natalie Portman, que estou em Harvard entre 1999 e 2003 e que ajudou o roteirista de The Social Network com algumas informações sobre os bastidores da universidade naqueles anos. A atriz, aliás, é a mais cotada a ganhar o Oscar 2011 por seu desempenho em Black Swan – filme dirigido por Darren Aronofsky que estou louca para assistir.

A atriz Rooney Mara impressionou David Fincher. A ponto dele convidá-la para seu próximo filme, The Girl with the Dragon Tatoo.

The Social Network estreou no dia 24 de setembro no Festival de Cinema de Nova York. Entrou, no dia 1º de outubro, no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá. Esteve também em festivais de cinema na Rússia, em Tóquio e em São Paulo. Deve estrear no Brasil, no circuito comercial, dia 3 de dezembro.

Segundo os produtores do filme, The Social Network teria custado US$ 50 milhões. Faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 14 de novembro, US$ 87,8 milhões. Contabilizadas as bilheterias mundiais, especialmente se o filme for indicado e, quem sabe, ganhar alguns Oscar’s, certamente ele faturará mais que o dobro em relação aos custos.

O filme tem tido uma bela recepção de público e, especialmente, como já era esperado, de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para a produção. O site Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 245 críticas positivas e apenas oito negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação impressionante de 97%. Sem dúvida ele está cotadíssimo para o Oscar e para outras premiações – como o Globo de Ouro e afins.

Me perdoem por ter demorado tanto para escrever este texto. Assisti o filme há mais de 10 dias e só agora consegui parar para escrever sobre ele. Tenho outro já na ponta da “agulha” para soltar por aqui. Forte candidato ao Oscar também. Pretendo publicá-lo mais rapidamente, deste vez. Obrigada a todos aqueles que não desistem de acompanhar o blog, mesmo quando demoro, como agora, para publicar algo por aqui. Abraços!!

Ah sim, e muitos vão perguntar: mas afinal, o quanto do filme é verdade? Bem, uma boa parte, certamente, é verdade. Mas uma certa parte, não. Afinal, o filme se baseia em um livro que, basicamente, escuta os críticos de Zuckerberg. Ele não é ouvido. Sua versão não está no livro e nem no filme. Ou seja: nem toda a verdade está aí. O criador do Facebook disse, recentemente, que sua vida foi menos dramática do que é mostrado na produção. Naturalmente. Sempre um filme irá dramatizar mais do que a realidade. Para tornar-se interessante, claro.

Francamente, a grande história do filme e que deve ter ocorrido na vida real é a seguinte: Zuckerberg é um cara inteligente acima da média. Soube criar um produto interessante e se aliar a pessoas fundamentais. Mas, ainda assim, não tinha a menor ideia do caminho que seu produto iria seguir no futuro. Ele teve sorte, bons contatos e uma boa dose de talento para conseguir o que conseguiu. Sem planejar cada passo, mas conseguindo tirar o melhor proveito de cada etapa. Isso também lhe torna genial. Basta saber até quando o Facebook dominará o mercado. E como Zuckerberg irá reagir quando não for mais o “dono” do pedaço. Questões para o futuro.

Só agora assisti ao trailer do filme. Simplesmente, genial. Perfeito. Ele resume The Social Network de forma perfeita. Afinal, “todos querem ser especiais”. De alguma forma.

CONCLUSÃO: O filme que trata dos bastidores da criação do Facebook não facilita o trabalho para os espectadores. Com a maior proporção de diálogos por minutos dos últimos tempos, The Social Network mergulha na vida do “nerd” Mark Zuckerberg, o criador da rede social, e mostra como o seu “invento” foi parar nos tribunais. Até um certo ponto, esta produção recria história de grupos universitários e irmandades já contadas por outras produções. Por outro lado, tem o cuidado de refletir sobre uma era diferente, caracterizada pelas comunicações por intermédio do computador. Este olhar cuidadoso – ainda que um pouco simplificado – sobre a geração Y (que nasceu com um mouse nas mãos) é o que diferencia The Social Network de outras produções. Assim como a sua evidente “crítica” a esta era de busca pela fama, pelo reconhecimento público. O roteiro de Aaron Sorkin é um dos pontos fortes da produção. Desafia o público com linhas rápidas e inteligentes a acompanhar o que está sendo dito. Ao mesmo tempo, junto com o trabalho preciso do diretor David Fincher, intercala cenas de tribunal e a narrativa dos fatos de forma cadenciada e envolvente. Os atores principais também ajudam, com destaque para Jesse Eisenberg. Talvez ele seja menos interessante para os “não iniciados” nas redes sociais. The Social Network será entendido, em sua plenitude, por quem acompanha a tecnologia. Talvez isso prejudique um pouco o filme. Ainda que, sem dúvida, ele mereça estar na lista das produções mais importantes de 2010 – com vaga garantida no Oscar, basta saber em quais e quantas categorias.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Ninguém duvida que The Social Network será indicado ao Oscar. Agora, resta saber, além das bolsas de apostas, em quais e quantas categorias ele estará. Pessoalmente, acredito que a produção deverá ser indicada na categoria de Melhor Filme, especialmente porque ela continuará com 10 produções na disputa, garantindo a vaga de The Social Network mesmo que o filme não se torne tão “popular” quanto os produtores gostariam. Também acho inevitável – se houver justiça – uma indicação de Aaron Sorkin para a categoria de Melhor Roteiro Adaptado. Ele merece. Fora estes dois, que são óbvios, com um bom lobby a produção pode ainda ser indicada a Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Ator para Jesse Eisenberg e Melhor Diretor para David Fincher. Estas duas últimas indicações, realmente, vão depender de um bom trabalho dos produtores para convencer os votantes. Mas é possível. Sobre levar a estatueta para casa, acho que ele tem boas chances em Melhor Filme, roteiro, trilha sonora e diretor. Veremos…