Vice

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Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

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Molly’s Game – A Grande Jogada

Um roteirista competente e que você gosta, protagonistas idem e uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Molly’s Game tinha bons predicados para me atrair para o cinema. Mas, francamente, o filme consegue alimentar mais expectativas do que realmente entregar algo de qualidade. Longo demais, arrastado demais, esse filme só acerta mesmo no seu começo. E olha lá. Eu diria que Molly’s Game acerta na edição ligeira e em algumas linhas interessantes do roteiro no início mas, depois, ele se mostra muito mais vazio, arrastado e forçado do que seria desejado.

A HISTÓRIA: Uma pessoa desce uma colina cheia de neve munida de esquis. A narradora, Molly Bloom (Jessica Chastain) comenta que uma pesquisa feita com 300 atletas perguntou para eles o que de pior pode acontecer nos esportes? As respostas foram variadas, mas uma delas apontava para ficar em 4º lugar nas Olimpíadas. Molly afirma que esta é uma história real, mas que todos os nomes, exceto o dela, foram alterados. Por motivo que logo vamos entender. A própria Molly nos conta a sua história nesse filme, começando no momento em que ela tentou se classificar para as Olimpíadas de Inverno pela equipe americana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Molly’s Game): Eu gosto dos Jogos Olímpicos. Muito mais dos tradicionais do que das Olimpíadas de Inverno. Mas, na verdade, gosto de todos os Jogos. Por isso, achei interessante aquele começo de Molly’s Game. Até porque aquele começo tem um roteiro ágil e uma edição das cenas muito competente. Mas depois daquele começo, esse filme se revela bastante irregular.

Ok, interessante a história de uma garota que poderia ter sido uma desportista brilhante, ou uma advogada talentosa, mas que acabou cedendo para o dinheiro fácil e que caiu em uma cilada que ela mesma armou para si. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, apesar de tanto ir e vir na história e de uma tentativa clara do roteirista e diretor Aaron Sorkin de fazer um filme acima da média, Molly’s Game nada mais é do que uma produção sobre as escolhas que uma pessoa faz na sua vida e o resultado que estas escolhas tem na sua história.

Além disso, o filme tem algumas outras questões, como a ideia defendida pela sociedade americana de que os Estados Unidos é um país com oportunidade para todos – seja dentro ou fora da lei -; a relação entre pais e filhos e o alto nível de cobrança que os primeiros podem colocar nos segundos e os efeitos disso; assim como a ideia de que até os criminosos tem a sua “ética” e código de conduta.

Ou seja, nenhuma ideia nova sob o sol. Talvez a única parte mais interessante desse filme seja a forma com que Molly’s Game mostra como a Justiça americana – e de qualquer outro país – tenta pressionar e punir alguns criminosos “menores” para conseguir pegar os peixes maiores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Molly Bloom cometeu um crime, mas o FBI que a investigou e o governo americano que a processou estavam mais interessados no que ela sabia, nas pessoas que participavam da jogatina, do que realmente no crime que ela cometeu.

Informação é poder. Conhecer pessoas importantes e o que elas falam e sobre o que elas tratam era o real poder de Molly e o que interessava para quem a processou. Mas ela se manteve firme e não entregou ninguém – apenas pessoas que já tinham sido entregues antes por Brad (Brian d’Arcy James). Segundo uma linha do filme, ela estava preservando o próprio nome, a única coisa lhe restou e que lhe importava.

Agora, vamos falar dos pontos que me incomodaram nesse filme. Primeiro, a história se esforçar tanto em tornar uma garota como Molly como “heroína”. Até a linha da “ética” de criminosa dela me pareceu um tanto forçada. Apesar ser levemente interessante, a história dela não é, de fato, realmente surpreendente ou reveladora. Sorkin escreveu o roteiro desse filme baseado no livro escrito por Molly Bloom. Aparentemente, ela soube valorizar muito bem a própria história. E, para o meu gosto, a história dela não é tãooo interessante assim. Há outras histórias melhores por aí.

Depois, me pareceu um bocado mal desenvolvida a questão da real motivação da protagonista para ela ter feito o que fez. Em um dos raros diálogos de Jessica Chastain com Kevin Costner, que faz o pai dela, Charlie Jaffey, ele, como psicólogo, faz a filha “destrinchar” a sua história até achar as respostas para tudo que aconteceu. Possivelmente aquela é a parte mais interessante do filme, mas ela ficou restrita a um diálogo entre pai e filha. Muito pobre, a meu ver. Sorkin podia ter desenvolvido melhor a relação da protagonista do com o pai, já que este era um fator determinante. Mas não.

No lugar disso, ele gastou um grande, grande tempo mostrando as jogatinas entre ricaços e poderosos. Primeiro, em encontros orquestrado pelo chefe de Molly, Dean Keith (Jeremy Strong). Depois, nos encontros orquestrados pela própria Molly. Mesmo na segunda fase, quando ela realmente entra de cabeça no poker e passa a trabalhar com os viciados em jogo 24 horas por dia, ela não desce do salto. Está sempre bem, bonita, mesmo quando ela já está viciada em diferentes drogas. Quem realmente acredita que aquela mulher não ficou um tanto surtada tomando tantas coisas?

Esse é um dos pontos que me incomodaram em Molly’s Game. O filme acaba sendo “perfeitinho” demais. Parece que Sorkin ficou muito preocupado em render uma “homenagem” para a personagem e não quis torná-la vulnerável ou mais “humana” em momento algum. Assim, essa produção me pareceu um tanto longe da “história real” ou da vida como ela é. Outro ponto que me incomodou: o roteiro perde um longo tempo nas “negociações” e vai-não-vai entre Molly e o advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). Realmente aquilo faz uma graaaande diferença para a história, para o filme? Acho que não.

Assim, tira um pouco daqui, explica melhor ali, simplifica acolá, Molly’s Game poderia ter, perfeitamente, 30 minutos a menos de duração. Isso teria ajudado a história e teria evitado que eu tivesse que lutar para não dormir no cinema. Olha, não cheguei a “pescar” ou a cochilar, mas que deu vontade, ah, isso deu. Filme bem mediano, para resumir. Poderia ser melhor, se fosse mais realista e desenvolvesse melhor os personagens – especialmente a relação pai e filha. Mas essa produção não faz isso, e o resultado é que ela facilmente provoca tédio e sono.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ah sim, antes que eu me esqueça. Esse filme trata de um outro aspecto além dos que eu citei antes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Molly’s Game aborda muito bem todo o “submundo” da jogatina ilegal nos Estados Unidos. E que está presente em vários outros países também – incluindo o Brasil. Nestes locais, as pessoas cheias de dinheiro que não sabem como gastar as suas fortunas e precisam fazer algo para sentir emoção, se entregam em longas disputas movidas à dinheiro e adrenalina. Para alguns, não importa ganhar ou perder. Interessa fazer parte de um “clube seleto” em que eles entram apenas por estarem dispostos a gastar grandes quantidades de dinheiro.

O mundo é feito destes disparates mesmo. Enquanto aquele bando de ricaços de vários países e origens gastavam milhões de dólares sem propósito algum além de algumas horas de diversão e para saciar o seu vício por jogar, quantas pessoas estão por aí morando nas ruas, pedindo trocados nas esquinas e/ou mendigando qualquer trabalho que lhes dê o que comer? O quanto Molly ou qualquer outro que vemos em cena se importa com isso? E por que mesmo a gente deveria se importar com a história deles? Sim, não dá para ignorar que eles existem. Mas acho que tem histórias mais interessantes para conhecermos e para nos inspirarmos – até porque a história de Molly não me inspira para nada.

Molly’s Game marca a estreia de Aaron Sorkin na direção. Ele é bem conhecido como roteirista. Fez a sua carreira nessa área. Inclusive ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2011, pelo roteiro de The Social Network (comentado por aqui). O que comentar sobre ele como diretor? Que ele não faz nada demais. Faz uma direção “básica”, digamos assim. Focada nos atores, na dinâmica entre eles e contando as suas histórias de forma pincelada aqui e ali. Mas nada que realmente surpreenda.

Gosto de várias pessoas que estão nesse elenco. Mas não acho que ninguém está realmente brilhante nesta produção. Até porque o roteiro não ajuda muito, não é mesmo? Com um roteiro mais ou menos, não tem como um grande ator fazer um trabalho realmente memorável. Assim, todos estão bem, mas nada que você não possa esquecer após uma semana de ter visto a esse filme.

Entre os atores que fazem parte deste elenco, vale comentar o bom trabalho – mas não excepcional, volto a dizer – de Jessica Chastain como Molly Bloom; Michael Cera como Player X, o jogador que realmente define o sucesso ou o fracasso como organizadora de partidas da protagonista; Jeremy Strong como Dean Keith, o sujeito sem noção que introduz Molly na vida do poker; Brian d’Arcy James como Brad, o cara que sempre perde mas que continua jogando; Bill Camp como Harlan Eustice, um cara talentoso no poker, mas que perde a cabeça quando começa a perder no jogo; Idris Elba em um papel super morno como o advogado Charlie Jaffey; Kevin Costner em quase uma ponta como Larry Bloom, pai de Molly; Chris O’Dowd como Douglas Downey; Graham Greene em uma super ponta como o juiz Foxman; Samantha Isler como a jovem Molly e Piper Howell como Molly aos sete anos de idade.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a edição de Alan Baumgarten, Elliot Graham e Josh Schaeffer – que realmente se mostra interessante no início do filme e, depois, cai um tanto no “lugar comum”; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen; o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Brandt Gordon; a decoração de set de Patricia Larman; e os figurinos de Susan Lyall.

A única parte realmente interessante de Molly’s Game é quando Kevin Costner conversa com a filha sobre o que aconteceu com ela e sobre a sua motivação para ter chegado tão fundo no poço. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, segundo a análise de Larry Bloom, tudo que Molly fez se explica pelo fato dela ter descoberto, ainda criança, que o pai traía a mãe dela (interpretada por Claire Rankin). Isso é interessante. Para as pessoas perceberem como algumas decisões muito equivocadas que elas podem tomar quando adultas tem, de fato, relação com decepções, traumas e descobertas ruins que elas tiveram na infância e/ou juventude. Especialmente quando o assunto está relacionado aos pais. No caso de Molly, ela se decepcionou com o pai, que deveria ser um exemplo para ela, e, como consequência, passou a encarar os outros, incluindo a sociedade, com um bocado de cinismo (e desprezo, até). E tudo porque ela não resolveu bem a questão da traição paterna. Interessante.

Molly’s Game estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros oito festivais. Nessa trajetória, o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 41 – incluindo a indicação para o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Público como melhor filme dos EUA no Festival de Cinema de Mill Valley.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Dizem, nos bastidores, que existe uma grande probabilidade do Player X ser, na vida real, o ator Tobey Maguire.

Molly Bloom falou para o diretor e roteirista Aaron Sorkin que gostaria que o seu papel fosse interpretado por Jessica Chastain.

No filme, o advogado de Molly aparece lendo um dos exemplares do livro lançado por ela e que conta a sua história. Na vida real, o livro de Molly não foi publicado antes do julgamento dela ter terminado.

De acordo com Molly Bloom, a maior quantia que ela viu um jogador perder em uma noite foi de US$ 100 milhões. Esse mesmo jogador recuperou esse dinheiro no dia seguinte. Agora, vocês já pensaram uma jogatina significar prejuízo de US$ 100 milhões? Algo realmente inacreditável.

A quantidade de dinheiro que o FBI apreendeu de Molly e a multa que ela teve que pagar por fazer algo ilegal foi bem maior no filme do que na vida real.

Molly’s Game é uma coprodução dos Estados Unidos, da China e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 195 críticas positivas e 42 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,2. Acho que os crítico e os usuários do site IMDb realmente viram mais qualidades nessa produção do que eu. 😉

Molly’s Game tem 140 minutos de duração – ou seja, 2h20. Tranquilamente, como eu disse antes, ele poderia ter meia hora a menos. Muito longo para o meu gosto.

De acordo com o site Box Office Mojo, Molly’s Game faturou pouco mais de US$ 28,7 milhões nos Estados Unidos. Não há informações ainda sobre os outros mercados em que a produção já estreou.

Essa é a última crítica que eu publico aqui no blog antes da entrega do Oscar. Logo mais, vou começar a cobertura da premiação aqui no site. A minha expectativa é que os prêmios sejam bem espalhados. Acho que vários filmes vão levar pelo menos um ou dois Oscar’s para casa. Será bacana de ver. Muita gente sairá feliz da noite de hoje. Quem vai levar Melhor Filme? Estou entre Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui); Dunkirk (com crítica neste link) e The Shape of Water (com crítica por aqui). Eu, francamente, votaria no primeiro. Mas não me surpreenderia se um dos outros dois desse uma de “zebra” e levasse o Oscar para casa.

CONCLUSÃO: Francamente, eu nunca indicaria Molly’s Game ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Se eu votasse e decidisse qualquer coisa na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, é claro. Filme um tanto pretensioso demais, essa produção sofre mesmo por ser longa, repetitiva e arrastada. Honestamente? Há muitos, mas muitos mesmo filmes melhores no mercado.

Só perca o seu tempo com essa produção se você tem uma “tara” especial pelo roteirista, pelo diretor ou por algum dos atores em cena. Do contrário, faça uma escolha melhor e assista a uma outra produção melhor acabada – nessa lista, incluo inclusive o fenômeno Black Panther, que segue nos cinemas e é uma pedida bem melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Molly’s Game ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado já é um grande prêmio para Aaron Sorkin. Mas alguma chance do filme ganhar nessa categoria? Nenhuma. Concorrendo com Call Me By Your Name (comentado por aqui), The Disaster Artist, Logan (com crítica neste link) e Mudbound, Molly’s Game tem chance zero de levar a estatueta dourada para casa.

Para mim, o grande favorito nessa categoria é mesmo Call Me By Your Name. O filme merece levar o Oscar. Não assisti ainda a Mudbound e a The Disaster Artist, mas acho que depois de Call Me By Your Name, seria interessante ver Logan premiado – no caso do primeiro não ser, claro. Mas Molly’s Game não merece levar. Na verdade, como eu disse antes, nem merecia ter sido indicado. Mas o Oscar tem dessas coisas. Para mim, Molly’s Game foi indicado porque a Academia gosta de Sorkin. Nada mais.

Loving

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Duas pessoas se amam para valer, mas elas acabam sendo foras-da-lei por causa disso. Não porque tenham cometido algum crime, mas simplesmente porque elas têm cor de pele diferente. Esta é a história de Loving, um filme singelo e com narrativa linear que nos conta mais um capítulo da vergonhosa história de racismo nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Após um longo silêncio, Mildred (Ruth Negga) diz para Richard (Joel Edgerton) que está grávida. Ele ri e diz “ótimo”. Fica feliz com a notícia, o que alivia a preocupação de Mildred. Corta. Em uma disputa entre dois motoristas, o carro preparado por Richard ganha a disputa. Ele comemora com Mildred e não se importa de destoar do grupo de negros sendo o único branco da turma. Do outro lado da pista, um grupo de brancos, que perdeu a disputa, olha torto para o casal. O preconceito contra eles mal começou a aparecer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving): O que me atraiu neste filme foi a indicação dele ao Oscar de Melhor Atriz para Ruth Negga. Simpatizei com a atriz na entrega do Oscar e senti a necessidade de conferir o seu trabalho nesta produção.

Ruth Negga faz um belo trabalho em Loving, mas achei o desempenho dela tão bom quanto do ator Joel Edgerton, protagonista da produção também. O diretor Jeff Nichols, que também escreveu o roteiro de Loving, acertou a mão ao tentar contar a história o mais fiel possível com a realidade. Porque sim, este é mais um filme desta temporada do Oscar baseado em uma história real.

Diferente até do que tem sido cada vez mais recorrente no cinema de Hollywood, de filmes recheados de histórias fragmentadas e/ou com um bocado de flashbacks, Loving investe em uma história linear. Vejo que esta foi uma boa escolha de Nichols. Apenas senti falta, na história, de saber um pouco como o casal Mildred e Richard se conheceu. Faltou um pouco de romance, para o meu gosto.

Mas algo bacana do filme é o retrato bem realista dos personagens. Mildred era uma mulher simples, assim como Richard era um operário típico dos Estados Unidos. Os atores que os interpretam e o roteiro de Nichols conseguem construir muito bem estes perfis. No geral, Richard é um cara silencioso e muito trabalhador. Ele tem um olhar carregado de amor e de cuidado para Mildred. Ela, que acaba segundo as pontas em casa, se revela uma mulher com consciência racial e de justiça muito interessante.

O casal foi esperto em seguir a ordem judicial por um tempo, indo morar em Washington de favor. Mas quando um dos filhos dele sofre um acidente, Mildred resolve dar um basta para aquela rotina. Ela nunca quis deixar o interior, tipo de vida que ela sempre conheceu. E é assim que eles vivem diversos anos como foras-da-lei e se escondendo não muito longe de onde moram os pais dos protagonistas.

A minha única dúvida é se eles não sofreram mais hostilidades do que aquele episódio de uma “mensagem velada” que Richard recebe no carro dele. Especialmente quando o casal acaba aparecendo mais na imprensa, acho difícil eles não terem sido alvo de mais problemas. Mas o filme não mostrou isso, então há que se respeitar a escolha de Nichols, ainda que eu gostaria de ver ainda mais realidade na tela.

Sobre a história, Loving mostra de forma simples e honesta como a legislação nos Estados Unidos demorou para se libertar dos tempos de escravidão. É um absurdo pensar que duas pessoas simplesmente não poderiam ficar juntas por causa da cor de suas peles. Não tem o mínimo cabimento. Por isso mesmo é ultrajante o comportamento racista do delegado que prende o casal e que penaliza mais a mulher. Não apenas por ela ser mulher, mas especialmente por ser negra, e sem se importar se ela estava grávida – muito pelo contrário.

Impossível não achar aquela sequência absurda. A sorte é que o protagonista era um sujeito simples, mas controlado. Alguém um pouco mais “latino” teria perdido o controle e colocado tudo a perder. De qualquer forma, revoltante o tratamento dado a Mildred e também revoltante a condenação deles. Justamente por esta história precisar ser contada que eu dei a nota abaixo para o filme.

Sobre a interpretação de Ruth Negga, acho que ela se sai muito bem no papel principal. Ela não exagera na interpretação e faz uma entrega muito coerente e que passa legitimidade. Agora, ela merecia uma indicação como Melhor Atriz no Oscar? Francamente, acho que merecia mais que ela estar lá a atriz Amy Adams por seu excelente trabalho em Arrival (com crítica neste link). Mas, em um ano em que Emma Stone ganha a estatueta no lugar de Natalie Portman e Isabelle Huppert, não é possível exigir muita coerência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, não é mesmo?

No geral, a história de Loving é importante e merece ser conhecida. Só que por não explorar tanto o romance entre os protagonistas ou mesmo a relação deles com outros personagens, a história acaba sendo um tanto burocrática demais. Mas, no geral, vale ser visto, especialmente em casa.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Adam Stone e para a trilha sonora com bom resgate de época e bem pontual de David Wingo.

Além dos protagonistas já citados e que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Chris Greene como Percy, o amigo mais próximo de Richard; Sharon Blackwood como Lola, mãe do protagonista; Christopher Mann como Theoliver, pai de Mildred; Marton Csokas como o sheriff Brooks; Bill Camp como o advogado Frank Beazley; David Jensen como o juiz Bazile; Jevin Crochrell e Brenan Young interpretam Sidney, primeiro filho do casal de protagonistas; Jordan Williams Jr. e Dalyn Cleckley interpretam Donald, o segundo filho deles; Georgia Crawford e Quinn McPherson interpretam Peggy, a caçula do casal; Nick Kroll interpreta ao advogado Bernie Cohen, figura fundamental na causa dos protagonistas; Jon Bass interpreta ao advogado Phil Hirschkop; e Michael Shannon faz uma ponta como o fotógrafo da Life Grey Villet.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Jeff Nichols. Ele estreou em 2007 com Shotgun Stories e, no ano passado, lançou Midnight Special. O diretor de 38 anos de idade já tem 21 prêmios no currículo. Dirigido por ele, antes de Loving, eu assisti a Mud (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 185 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

Loving teria custado cerca de US$ 9 milhões e faturado, apenas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,7 milhões. Ou seja, até o momento, o filme está dando prejuízo.

Este filme, que até o momento tem 21 prêmios, é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Uma história importante para a evolução dos Estados Unidos e que é contada de maneira muito franca e singela. Uma das qualidades do filme é que ele não exagera em suas tintas e nem no sentimentalismo. Loving conta a saga do casal que foi proibido de ficar junto e que conseguiu permanecer unido apesar da lei e de diversas pessoas serem contra. Boa história, com atores afinados, bela fotografia, Loving só não tem força para entrar na lista das produções inesquecíveis.