Una Mujer Fantástica – A Fantastic Woman – Uma Mulher Fantástica

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Algumas vidas são muito mais difíceis do que o normal. E muito mais difíceis do que deveriam. E isso simplesmente pelo fato das pessoas não aceitarem o que é diferente a elas. Por que, afinal, tantas pessoas se importam com o que as outras fazem entre quatro paredes? Por que tantos querem dizer como os outros devem ser ou fazer? Una Mujer Fantastica é um filme muito contemporâneo e bastante contundente. Ele lembra o Pedro Almodòvar em sua melhor fase. Mas com mais suavidade, até. Um dos melhores filmes dessa temporada do Oscar 2018.

A HISTÓRIA: As cataratas, esplendorosas, aparecem em tela cheia. Diversos ângulos das quedas d’água que são uma das 7 Maravilhas do Mundo. Sobre umas almofadas, Orlando (Francisco Reyes) curte a sua sauna. Depois, ele recebe uma massagem relaxante. Em seguida, ele said a sauna Finlandia e caminha pelas ruas, até chegar ao escritório da empresa. Ele chama a secretária e pergunta se ela viu um envelope grande que ele tinha deixado sobre a mesa. Ela diz que não. Depois, ele procura em todas as partes do carro, e nada.

Mais tarde, em um hotel, ele pede um papel e um envelope. Em seguida, ele sobe até o andar em que Marina (Daniela Vega) está cantando. Ela vê quando Orlando chega e os dois se olham. Essa é uma noite especial. É o aniversário de Marina. Os dois jantam juntos, e aí ele dá de presente o envelope com a promessa de uma viagem às Cataratas – a viagem que ele tinha comprado ele perdeu. Eles são um casal, bastante feliz, mas logo essa alegria vai terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Una Mujer Fantastica): Fiquei surpresa positivamente com essa produção. Como é de praxe, não li nada sobre o filme antes de assisti-lo, por isso eu não sabia o que esperar do roteiro ou do desenvolvimento da história. Gostei muito do que eu vi. Especialmente por esse filme não ter nenhuma pirotecnia e nem por tratar de uma história “absurda” ou exagerada.

Na verdade, Una Mujer Fantástica é um filme no estilo “a vida como ela é”. Pois sim. E essa é uma das maiores qualidades dessa produção. Se formos olhar para o que vemos em cena, tudo que o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu esse roteiro junto com Gonzalo Maza – nos conta, é muito, muito plausível. Na verdade, assustadoramente plausível.

Nós partimos de um dia “comum” para o protagonista Orlando, um homem de meia idade que é senhor de si e responsável pelas suas ações, e terminamos nos desdobramentos do que pode acontecer com uma pessoa após ela passar por um problema de saúde bastante comum. (SPOILER – não leia a partir de aqui se você ainda não assistiu a esse filme). Então partimos desse “dia comum” do sujeito, que namora e vive com uma transsexual, para o momento de sua morte e toda a dor e luta de “su pareja”, Marina Vidal, para conseguir se despedir dele e ter o mínimo de respeito em sua fase de luto.

Una Mujer Fantástica é muito bem escrito e tem um desenvolvimento espetacular. Porque a câmera de Lelio, que permanentemente está próxima da protagonista desta história, aproxima também cada espectador de sua história, de todo o preconceito que ela sofre e, o que é mais tocante, de toda a sua dor. Como comentei antes, pela força narrativa dessa produção e pelo cuidado no desenvolvimento dos personagens centrais da história, essa produção me fez lembrar a melhor fase de Pedro Almodòvar. E isso não é pouco.

Ao assistir a essa produção, a verdade é que eu tive uma grande curiosidade para conhecer mais do trabalho de Sebastián Lelio. Acredito que o diretor, que em março completará 44 anos de idade, ganha uma outra projeção e respeito em Hollywood e no circuito mundial de cinema com esse Una Mujer Fantástica. Olhando para a trajetória do diretor, vi que ele dirigiu seis curtas antes de lançar o seu primeiro longa, La Sagrada Familia, em 2005.

Além desse filme, ele tem outros cinco longas no currículo. O único filme que eu assisti, dessa lista, foi Gloria (comentado aqui). Nesse ano, ele vai fazer a versão americana de Gloria, com Julianne Moore, Sean Astin, Michael Cera, Jeanne Tripplehorn, Holland Taylor, entre outros, no elenco. Gloria é um belo filme, mas acho que gostei mais de Una Mujer Fantástica. De qualquer forma, esse diretor tem um estilo interessante e marcante, e acho que vale seguirmos a sua trajetória.

Mas voltando para a história de Una Mujer Fantástica. O filme conta o que acontece na vida da transgênero Marina Vidal desde que o seu companheiro morre e até pouco depois do funeral e da cremação dele. Esse parece ser um período curto de tempo, mas tudo que a protagonista dessa história passa, nesse período, poderia resumir boa parte da sua vida desde que ela se descobriu Marina. Impressionante como temos todo o preconceito da sociedade destrinchado nessa produção.

Porque não é apenas a ex-mulher do falecido, Sonia (Aline Küppenheim) que tem uma postura de não “admitir” a existência de Marina e a sua relação com Orlando. A polícia age de forma estranha e preconceituosa com Marina, assim como o médico que atende Orlando, o filho do falecido, Bruno (Nicolás Saavedra) e, aparentemente, todas as pessoas que foram próximas de Orlando. Mas afinal de contas, por que é tão difícil para as pessoas aceitarem uma transgênero? Em essência, me parece, as pessoas tem uma grande dificuldade de aceitarem aquilo que é diferente a elas.

Mas, afinal de contas, quais as razões para isso? No fundo, todos somos diferentes e, ao mesmo tempo, mais similares do que pode parecer na superfície. Todos somos feitos de pele, carne, ossos, órgãos internos e sangue. Todos nascemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos vivemos grandes alegrias, sorrimos, choramos e vivenciamos grande tristeza, frustrações, decepções, temos que encarar desafios e vencer barreiras. Então por que, afinal de contas, não podemos ser um pouco mais solidários? Por que nem sempre conseguimos olhar para o outro como um ser humano com qualidades e defeitos como nós mesmos somos?

Acho que essa é a grande forma deste Una Mujer Fantástica. O filme coloca em evidência uma transgênero, uma pessoa tão marginalizada pela sociedade e que, provavelmente, não faz parte do convívio da maioria da audiência. E ao dar evidência para a sua vida, os seus gostos, o seu caráter e os seus sentimentos, Lelio desmistifica essa pessoa e a torna extremamente próxima do espectador. Que bom. Assim, ele nos faz um grande favor. Quem sabe, com esse filme, alguns preconceitos não caiam por terra? Quem sabe mais pessoas não consigam entender melhor o que é diferente a elas e aceitar essa diferença, abraçá-la sem medo, ter mais compaixão?

Outro ponto que me chamou muito a atenção nesse filme é como ele trata o preconceito das pessoas. Por que, afinal de contas, Sonia e Bruno tem tanta dificuldade de aceitar a “opção” que Orlando fez em sua vida? Ok, até entendo o “recalque” e a falta de aceitação de Sonia, que foi traída por Orlando. Mas se ela deveria ter “raiva” de alguém, deveria ser dele, não é mesmo? Porque foi ele que traiu a confiança dela. Marina não tinha nada a ver com isso. Pessoas adultas fazem as suas escolhas, e os demais deveriam ter a capacidade de respeitar essas decisões, não?

Bruno, por sua parte, me parece que reflete toda a cultura machista do Chile, do Brasil e de tantos outros países latinos. Para ele, só faz sentido um homem se interessar por uma mulher. Então ele não entende Marina, não consegue perceber que ela se vê como mulher – e é uma mulher. No fundo, ele é inseguro, um sujeito perdido e que não tem o mínimo respeito pelo que ele não entende. Faz o estilo “boçal” – como tantos que vemos cada vez mais proliferando-se por aí.

Mas o interessante é que ambos, tanto Sonia quanto Bruno, representam muito bem a maioria da sociedade. Sonia está muito preocupada com as aparências, com o que os “outros vão dizer”. Essa é a grande preocupação dela em relação aos “trâmites” finais envolvendo Orlando. Ela não mantinha uma boa relação com o ex, mas ela tinha que colocar uma bela nota de despedida no jornal e encenar um velório e uma despedida do ex-marido dentro “da normalidade” – e, para isso, seria “inconcebível” a presença de Marina.

O circo de Sonia e Bruno, assim, mostra o que as nossas sociedades tanto parecem prezar: as aparência. Não importa se eles, no fundo, não tinham uma relação próxima com Orlando. Não importa se a única pessoa que realmente deveria estar lá está proibida de ir. O que importa mesmo é que tudo seja feito dentro da política da “moralidade e dos bons costumes”. Mas do que adianta tanta mentira? No fim das contas, as pessoas estão mentindo para quem? Nessa busca desgastante pelas aparências, pessoas como Marina são sacrificadas e sofrem sem um pingo de remorso dos preconceituosos.

Por tudo isso, a história de Una Mujer Fantástica é marcante, envolvente e com um propósito muito bacana. Lelio evidencia a história de uma pessoa sobre a qual quase ninguém quer falar. Mas, como eu disse antes, uma pessoa como eu e você, com a sua luta, os seus desejos e sentimentos. Que deveria merecer, portanto, o mesmo respeito e consideração que qualquer outra pessoa. Lelio, aliás, explora muito bem as características de Marina, e faz doer em todos nós como ela tem um nível de dificuldade na vida que não deveria ter. Por esse aspecto, impossível não ficar mexida(o) com esse filme.

Todos os atores em cena estão muito bem, mas é de arrepiar o trabalho de Daniela Vega nessa produção. Ela tem um trabalho muito, muito marcante. Sem a entrega dela, esse filme não seria metade do que é. Se o Oscar fosse mais justo com as indicações de astros e estrelas, colocando o trabalho de todos no mesmo patamar, independente se eles trabalham ou não em Hollywood, certamente Daniela Vega teria conquistado uma indicação como Melhor Atriz. Ela merecia, sem dúvida – está muito melhor, a meu ver, para dar um exemplo, que Saoirse Ronan em Lady Bird (com crítica por aqui).

Mas, para não dizer que o filme é perfeito, teve dois pontos que me “incomodaram” um pouco nessa produção – porque eu acho que eles não fazem toooodo aquele sentido que deveriam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a verdadeira razão da policial Adriana (Amparo Noguera) insistir tanto para um exame de corpo de delito em Marina. Inicialmente, ela diz que é para ver se ela tinha sofrido algum abuso e/ou agressão. Mas o que isso realmente indicaria sobre Orlando ter morrido de causa natural ou de sua morte ter sido provocada?

Francamente, não me pareceu totalmente lógico aquele argumento. Então a real justificativa de Adriana seria de expor Marina, de matar a sua própria curiosidade sobre como seria o corpo da transsexual? Novamente, um tanto exagerado, não? A outra parte que me pareceu um tanto sem sentido e/ou lógica foi a forma com que Marina sai, perto do final, para correr com Diabla. Ela fez tanto para ter a cadela de volta e, do nada, após tantas recusas de Bruno, como Diabla acabou parando com Marina?

Uma explicação possível para isso é que Bruno manteve Diabla como “refém” como forma de pressionar Marina a não ir no velório de Orlando e que, passada aquela situação, ele resolveu devolver a cadela para a dona. Mas, então, se foi isso que aconteceu, não teria sido melhor Lelio apresentar essa cena? Apenas para essa parte não ficar um tanto sem sentido no filme? Esses são apenas pequenos detalhes que me pareceram um tanto falhos em um filme bem acima da média. Espero que Una Mujer Fantástica seja cada vez mais visto e que mais pessoas aprendam a ver ao outro, não importa o que ele faça entre quatro paredes e como ele enxergue a sua própria identidade, como um igual que merece respeito, consideração e empatia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu disse antes e volto a repetir: o grande nome desse filme é o de Daniela Vega. Que interpretação, meus amigos! Para mim, uma das melhores dessa temporada do Oscar. Pena que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não teve a coragem de indicá-la como Melhor Atriz. Ela merecia. Una Mujer Fantástica é o que é por causa dela. Trabalho impecável, e muito bem capturado por Sebastián Lelio que, aliás, revela-se também, mais uma vez, um belo diretor e roteirista. Ambos merecem ser acompanhados.

Algo que esse filme tem de qualidade – e todo grande filme precisa disso – é, aliás, o seu elenco. Todos que vemos em cena estão muito bem. Francisco Reyes está perfeito como Orlando – apesar dele “sumir” logo da trama, ele volta a aparecer depois em alguns momentos pontuais. Ele é muito bom sempre. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Luis Gnecco como Gabo, o único que se relaciona com Marina de uma forma um pouco mais humana; Aline Küppenheim como Sonia; Nicolás Saavedra como Bruno – figura que, não sei vocês, mas eu tive vontade de bater (e olha que eu sou anti-violência); Amparo Noguera como Adriana, policial que faz Marina passar por um grande constrangimento; Trinidad González como Wanda, irmã de Marina; Néstor Cantillana como Gastón, marido de Wanda; Alejandro Goic como o médico que atende Orlando no hospital; Antonia Zegers como Alessandra, chefe de Marina em um restaurante; e Sergio Hernández ótimo como o professor de canto da protagonista. Todos estão muito bem.

Muito interessante aquele detalhe da “chave misteriosa” de Orlando. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, ela alimentava os sonhos de Marina de encontrar algum “presente” de Orlando para ela. Um presente não planejado, é claro. Mas quem sabe algo dele que poderá compensar um pouco toda aquela ausência e dor provocada pela morte dele… Então, sem querer, ao atender a um cliente no restaurante, ela descobre que aquela chave é da sauna que ele frequentava. E quando ela finalmente chega no armário – após uma sequência interessante de “suspense” muito bem conduzida por Lelio -, o que ela encontra? Nada. E aquele vazio simboliza o que de fato Orlando deixou para ela. Nada além das lembranças.

Dos aspectos técnicos do filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora bastante pontual e interessante de Nani García e de Matthew Herbert; a direção de fotografia de Benjamín Echazarreta e os figurinos de Muriel Parra. Esses aspectos realmente “saltam aos olhos”. Além deles, vale citar o bom trabalho de Soledad Salfate na edição e de Estefania Larrain no design de produção.

Una Mujer Fantástica estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais em diferentes países mundo afora. Nessa trajetória, o filme recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 28 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Menção Especial no Prêmio do Júri Ecumênico do Festival Internacional de Berlim; para o Urso de Prata como Melhor Roteiro e para o Teddy de Melhor Filme, ambos dados também no festival de Berlim; para o Goya de Melhor Filme Iberoamericano; para o Prêmio Especial do Júri como Melhor Filme no Festival de Cinema de Havana; para o prêmio de Melhor Filme Latinoamericano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; para o Prêmio Fipresci de Melhor Atriz para Daniela Vega e a Menção Especial – Prêmio Cinema Latino para Sebastián Lelio no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, Una Mujer Fantástica fez US$ 111,3 mil nas bilheterias. Um resultado insignificante. Uma pena. Realmente os americanos não tem o costume e/ou interesse de ver ao cinema que é feito fora do seu país. Uma lástima, porque o cinema mundial tem ótimos realizadores, como este e tantos outros filmes nos demonstram a cada dia.

Em determinado momento, Sonia diz para Marina que ela tem dificuldade de “classificá-la”, mas que se ela fosse fazer, isso, talvez a chamaria de “quimera”. Para quem ficou curioso(a) para saber sobre uma quimera, sugiro esse texto do site Mitologia Grega BR que fala sobre esses seres conhecidos da mitologia grega.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 83 textos positivos e oito negativos para Una Mujer Fantástica, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média 8. Especialmente a nota do segundo site chama a atenção – está acima da média.

Una Mujer Fantástica é uma coprodução do Chile, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A vida é bela, mas pode ser também uma pedreira. O importante é que você não perca a perspectiva, mesmo quando lhe tirem o oxigênio. Mesmo quando lhe impeçam de falar, ou de ser. Porque tudo passa. O que é bom, e o que é ruim. Una Mujer Fantástica nos conta uma história bastante realista de uma forma muito competente e envolvente. Um grande trabalho de direção e de roteiro de Sebastián Lelio, e uma interpretação impecável de Daniela Vega.

Um filme que, como eu comentei antes, nos faz recordar do espanhol Almodòvar em sua melhor fase. Uma das grandes produções dessa safra do Oscar, e um filme que mereceu ser apontado como um dos favoritos da disputa de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apenas assista, e sem pré-conceitos. Espero que essa produção rompa algumas barreiras e faça as pessoas aceitarem mais as outras como elas são. Assim de simples (e quem dera que, realmente, na prática, fosse simples como realmente é).

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Antes das indicações ao Oscar saírem, havia um grande favorito para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira: In the Fade, do diretor Fatih Akin. Aí que, quando saíram as indicações ao Oscar 2018 e o filme de Akin ficou de fora, o favoritismo nessa categoria também foi perdido. Sim, há três filmes fortes no páreo, mas um favorito favorito, não existe.

Nas apostas relacionadas ao Oscar, Una Mujer Fantástica está liderando, e com uma bela vantagem sobre os demais. Em segundo lugar, segundo os apostadores, aparece The Square; e em terceiro, Loveless. Eu ainda não assisti a The Square – mas posso adiantar que ele será o próximo filme que eu vou comentar por aqui -, mas entre os outros filmes que concorrem nessa categoria em 2018, sem dúvida alguma eu prefiro o filme de Sebastián Lelio.

Com isso, não quero dizer que Loveless (com crítica nesse link) ou On Body and Soul (comentado por aqui) não sejam bons. Na verdade, os três filmes tem um belo “punch”, uma bela pegada. Todos são fortes e tratam de temas importantes. Todos são capazes de despertar um belo debate e de fazer pensar. Mas entre os três, prefiro Una Mujer Fantástica. Inicialmente, estarei na torcida por ele. Mas, para realmente bater o martelo nessa categoria, eu ainda preciso assistir a The Square e a The Insult.

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Gloria

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. 🙂 Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.