Disobedience – Desobediência

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Um dos filmes mais contundentes sobre liberdade de escolha que eu já vi. Disobedience trata, com um bocado de coragem e uma boa dose de espaço para discussão, temas tão importantes e controversos quanto a liberdade individual, a religião, o senso de comunidade, a constituição familiar e a sexualidade. Bem, com todos esses elementos misturados, vocês já podem ter uma ideia da potência desta produção.

Mais um belo trabalho do diretor Sebastián Lelio, que vem se consolidando, pouco a pouco, filme a filme, como um dos nomes mais interessantes do “novo cinema” chileno – e, quem sabe, até mundial. Excelentes interpretações também dos protagonistas. Se você não tem muitas amarras ideológicas – ou uma “religiosidade” exacerbada/extremista -, assista. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Um rabino, Rav Krushka (Anton Lesser), fala para um grupo de homens sobre os seres que foram criados por Deus. Os anjos, que procuram fazer tudo o que Deus deseja; os animais, que seguem apenas os seus desejos; e os homens, que foram criados após seis dias da Criação. Segundo a Torá, comenta Krushka, Deus pegou um punhado de terra e criou o homem e a mulher, os únicos seres que são capazes de desobedecer. Como homens e mulheres tem ao mesmo tempo a clareza dos anjos e o desejo dos animais, Deus deu como um fardo e um privilégio a estes seres o livre-arbítrio, ou seja, o poder de escolher.

Depois de fazer esta pregação, Krushka cai no chão, sendo imediatamente socorrido por Dovid Kuperman (Alessandro Nivola) e por outros homens que estavam ouvindo o que ele falava. Corta. Em outra cidade, Ronit Krushka (Rachel Weisz) faz fotos de um senhor já com certa idade e cheio de tatuagens. Ela insiste nos cliques, esperando pela melhor foto. No meio da sessão, uma garota que faz parte da sua equipe lhe chama para falar com um homem. A fotógrafa para a sessão, sai dali e, na sequência, vemos a várias cenas dela que demonstram como ela parece estar um tanto “perdida”. Em breve, ela voltará para a cidade que deixou para trás para se despedir do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disobedience): Um filme que começa com a pregação e a reflexão que Disobedience apresenta não pode ser ruim. Sem delongas, o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu o roteiro desse filme ao lado de Rebecca Lenkiewicz, ambos inspirados no livro de Naomi Alderman – nos introduz o tema da liberdade de escolha (ou livre-arbítrio, como alguns gostam de chamar).

Esse tema, evidentemente, é a espinha dorsal desta produção. Mas que ninguém se engane que a narrativa que veremos depois se torna menos potente ou provocativa porque temos esta leve “introdução” nos primeiros minutos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja verdade que o cartaz de Disobedience já entregue parte do “segredo” dessa produção, aquele beijo que vemos no cartaz poderia ser explicado de muitas maneiras diferentes. Então o que veremos depois não perde a potência por causa desse “spoiler”.

Algo que gostei muito no roteiro de Lelio e de Lenkiewicz é que eles sabem, muito, mas muito bem, valorizar as palavras e o silêncio. Ah, como isso faz diferença em um filme! Disobedience tem muitos momentos de silêncio em cena, ou de poucos diálogos ditos em voz baixa. E isso tem um efeito maravilhoso na narrativa. Fora os gemidos de prazer de uma Rachel McAdams em grande momento, não temos nada que “suba o tom” nesta produção. E isso já nos diz muito sobre Disobedience.

Esse filme trata de maneira muito interessante a questão da fé, da família, do contexto em que nascemos e somos criados e das escolhas que fazemos ao longo da nossa vida. Afinal de contas, o quanto as pessoas com muita fé estão realmente dispostas a abrir mão de suas “convicções”, dos dogmas ou da “tradição” da sua religião para encontrar a parte realmente essencial da fé que elas professam – ou delas mesmas?

Isso não é simples, e nem eu e nem Disobedience temos todas as respostas para estas e outras perguntas. Como eu já disse em outras ocasiões aqui no blog, esse espaço não é destinado para discutir a religião ou a fé das pessoas. Não, não. Se você quer fazer isso por aqui, este não é o espaço. Mas por este ser um blog sobre cinema, e por eu falar sobre os filmes conforme eu os vou vendo, inevitável falar sobre estes temas quando eles fazem parte da narrativa da produção comentada.

Além disso, especificamente em Disobedience, não tem como eu falar sobre o filme sem tratar de temas nevrálgicos apresentados pelo roteiro. E as questões citadas antes fazem parte destes temas. Então vamos lá. Disobedience trata de uma comunidade judaica mas, certamente, poderia tratar de várias outras religiões – inclusive as cristãs. A maioria delas, ao menos as que professam um único Deus “criador”, tratam sobre questões essenciais envolvendo esse Deus.

Estas religiões afirmam que Deus criou tudo que existe e que Ele nos deu como maior presente a liberdade de escolha – o tal livre-arbítrio. Não foi abordado muito nesse filme, mas estas mesmas religiões também falam que Deus é misericordioso e amoroso. Essas questões centrais são abordadas em Disobedience, assim como outras leituras sobre o papel do ser humano no mundo – casar e ter filhos – e outras regras que devem ser respeitadas segundo a tradição judaica.

A grande questão levantada por Disobedience é: quais são as questões fundamentais da fé? Será, por exemplo, que a recomendação de que todas as mulheres deveriam se casar com bons homens e ter filhos não vai de encontro à questão da liberdade de escolha? Quantas regras os judeus e os cristãos seguem e que foram “impostas” com o passar do tempo e com as interpretações dos seus respectivos livros sagrados? Na essência, o que realmente importa em uma crença ou em outra?

Se Deus é misericordioso e amoroso, quem é o ser humano para julgar um semelhante? Podemos nos encher de regras e interpretar os livros sagrados como bem entendermos mas, no final, para quem tem fé, não é realmente Deus que irá nos julgar? Então por que não respeitar um de seus melhores – e maiores – presentes para o ser humano, que foi o poder de escolher o seu próprio caminho? Nesse sentido, achei esse filme muito potente.

Agora, claro, Disobedience não é apenas discurso e reflexão. O filme envolve o espectador em um jogo intenso de desejo e de dilemas vividos pelos personagens principais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como eu disse antes, o beijo entre as personagens das duas Rachel poderia ter diversas interpretações e contextos. No início, achamos sim que poderia existir algo entre elas. Mas aos poucos descobrimos que o que existe ali não é “algo”, mas muito.

Esti Kuperman quase enlouqueceu quando Ronit Krushka abandonou a comunidade deles e partiu para Nova York. E agora, que ela conseguiu que Ronit voltasse para se despedir do pai recém-falecido, o desejo pela amiga e “primeiro amor” volta a ser irrefreável. Quando elas finalmente ficam juntas, no filme, eu pensei: “Como Esti vai conseguir viver a sua vida normalmente depois disso?”.

Claro que voltar para a “vida normal” com o marido Dovid era impossível. Gostei muito do roteiro, que inicialmente deixa muitos elementos “no ar” e, depois, nos atropela com os sentimentos das duas protagonistas – especialmente da personagem Esti. As duas Rachel estão de parabéns, assim como o diretor, por nos fazer embarcar na história delas de forma tão intensa. Basta um pouco de empatia para conseguir colocar-se no lugar delas.

O que eu achei muito interessante em Disobedience é que esse filme fala, com todas as letras, que ninguém deveria ser obrigado a ser – ou fingir ser – o que não é. Se Deus realmente nos deu a liberdade da escolha, ninguém mais nos deveria obrigar a nada. Quem, afinal, criou tantas caixinhas para as pessoas entrarem dentro? Isso realmente faz sentido? No fim das contas, nada é mais potente – e difícil – do que ser um “espírito livre”, como diria Nietzsche. Mas nada também é mais prazeroso.

Até perto do final, Disobedience nos fala muito bem sobre isso. Achei muito potentes as trocas entre os três atores principais – e uma das cenas mais fortes da produção é quando Esti fala com Dovid na cozinha. Falar a verdade pode ser duríssimo, mas também é muito libertador. O filme ia muito bem nestas discussões e na forma com que ele abordou a busca de liberdade e de realização de Esti até que os realizadores optaram por aquela reviravolta no final.

Francamente, eu não esperava por aquilo. Verdade que nem sempre as histórias terminam bem, mas a decisão de Esti de ficar não fez muito sentido por tudo que tínhamos visto antes. Ela era muito intensa e estava “perdidamente” apaixonada por Ronit.

Mesmo sabendo da gravidez, pediu pela liberdade para Dovid – alegando, de forma inteligente, que o filho (ou filha) deles deveria nascer em outro local, onde poderia ter a liberdade de ser quem gostaria de ser, diferente dela. E aí, na reta final, aparentemente incentivada pela questão da gravidez, ela decide não partir para ter uma vida com Ronit?

Não sei, para mim esse final foi bastante frustrante. Especialmente porque ele voltou a privilegiar a “família tradicional” e a segurança de Esti criar o seu filho (ou filha) naquela comunidade judaica e não tudo o que ela tinha defendido até então. Pela narrativa que vimos antes, nunca Esti conseguiria ser feliz realmente com Dovid – mesmo ela dormindo no sofá. Ela também não se sentiria plena vivendo naquela comunidade que não daria escolha para o filho (ou filha) dela.

Claro que eu entendo essa “reviravolta” final da produção. Com ela, os roteiristas quiseram nos dizer que o poder de escolha pode, muitas vezes, fazer a pessoa decidir pela segurança e pelo tradicional ao invés de optar pelo risco. Sim, isso é verdade. Mesmo que a gente torça pelo “final feliz”, no final das contas vai prevalecer a escolha do indivíduo – e não o que um ou outro deseja para ele. A nossa capacidade de escolher é então novamente valorizada pela produção, ainda que o desfecho aponte para uma certa frustração de expectativas.

Um outro ponto muito relevante desta produção e sobre o qual eu gostei muito é a questão da presença potente dos “pais” nesse história. Por um lado, Ronit quer honrar e demonstrar o amor que tinha pelo pai, um rabino tradicional que não aceitava que a filha fosse uma “ovelha negra”. Por outro lado, Ronit, Esti e Dovid, entre outros, vivem o dilema de fazer a vontade do “Pai”, ou seja, de fazer o que é bom para os “olhos de Deus”.

Assim, Disobedience fala sobre esses dois sentimentos que muitas vezes dividem as pessoas que tem fé: fazer as escolhas certas segundo os seus próprios critérios, valores, pensamentos e desejos, e fazer as escolhas certas segundo o “desejo de Deus” – que, muitas vezes, é tão difícil de “adivinhar”. Por termos toda esse complexidade e dualidade, que eu acho – e defendo – que deveríamos ser muito mais generosos uns com os outros. E deixar o julgamento, o senso de justiça e o “tira-teima” sobre o que é bom e verdadeiro para Deus – e mais ninguém.

Voltando para o que é, afinal de contas, essencial para qualquer religião, acredito que para os cristãos o essencial seria os dois mandamentos sobre os quais Jesus falou. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” ou o “próximo como Eu vos amei”. Se as pessoas realmente acreditassem nisso, elas até poderiam discordar uma das outras, mas jamais julgariam ou hostilizariam a um semelhante.

Porque, no final das contas, somos todos mortais, falhos, buscando o equilíbrio entre o comportamento de anjos e de animais e tendo apenas o poder de escolha como uma das nossas principais “armas” – para o bem e para o mal. Para quem tem fé, será inevitável buscar “agradar ao Pai”. Essa busca é válida mas, no fim das contas, apenas Ele poderá nos dizer o quanto acertamos ou erramos na tentativa. O que Disobedience nos mostra, por A+B, é que o amor não pode ser um erro nessa equação. Não importa o que algumas interpretações dos livros sagrados nos digam.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Francamente, eu estava muito perto de dar uma nota 10 para este filme. Sério mesmo. Só que aí aconteceu o que aconteceu… Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz resolveram dar uma reviravolta para o “tradicional” no final que eu achei um tanto “decepcionante”. Simplesmente porque eu acho que o que vemos nos últimos minutos de filme não casa com o restante da narrativa. Até entendo as razões deles fazerem isso – levar a compreensão do “livre-arbítrio” ao extremo -, mas, ainda assim, para mim, o filme perdeu um ponto por causa daquela escolha.

Disobedience tem muitas qualidades. Para começar, um roteiro quase irrepreensível. Apesar da reviravolta um tanto questionável no final, algo precisa ser dito: Lelio e Lenkiewicz souberam conduzir a história com maestria, seguindo alguns passos da cartilha do cinema com esmero.

O filme vai nos apresentando os personagens, seus gostos, valores e contexto social pouco a pouco, até que mergulhamos em uma realidade em que nem tudo pode ser dito ou demonstrado – muito pelo contrário. Esconder-se, manifestar o que se sente sem que outros possam ver, tudo isso é um belo gatilho de sensações e de angústia para os personagens e para quem assiste ao filme.

Adicionando a esse roteiro competente o belo trabalho do trio de protagonistas, como comentei antes, fica quase impossível o espectador não se colocar no lugar deles – e sempre que isso acontece o filme ganha em potência. Na direção, Sebastián Lelio demonstra, a exemplo do que vimos em Una Mujer Fantástica (comentado por aqui), pleno domínio do “jogo de cena”, uma bela e segura condução dos atores e um olhar atento para as nuances das suas interpretações. Mais um belo trabalho desse diretor que merece ser acompanhado.

Existe um momento bastante “duro” de assistir nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Ronit decide realmente ir embora. Claro que o que muitos podiam estar esperando é que ela ficasse, para ajudar Enit a se encontrar, ou que convidasse ela a ir embora junto. Mas não. Dá para entender Ronit, ainda que seja complicado, porque, afinal de contas, cada um deve ser “dono” de seus próprios caminhos. Enit tinha que decidir por conta própria o que fazer. Ainda assim, achei que Ronit foi um pouco “covarde” por simplesmente ir embora e deixar todo aquele “estrago” para Enit resolver sozinha. Quando vemos a Enit na farmácia, não é difícil imaginar que ela comprou um monte de remédio para suicidar-se em um quarto de hotel. Ainda bem que a história não foi para esse caminho – ainda que, na vida real, isso não seria difícil de acontecer naquele contexto. Infelizmente. Por isso, é preciso ter muito cuidado e zelo com aqueles que amamos e em quem despertarmos amor. Não adianta apenas virar as costas, muitas vezes, e sair de perto. É preciso encontrar outras saídas.

O nome que mais me chamou a atenção, nessa produção, inicialmente, foi o de Rachel Weisz. Ela é uma grande atriz, e sempre aprecio vê-la em cena. E ainda que seja verdade que ela está muito bem em Disobedience, quem me chamou mesmo a atenção foi Rachel McAdams. Para mim, ela faz um trabalho impecável e potente, nos apresentando uma personagem com maior complexidade do que o vivenciado por Rachel Weisz. A meu ver, o trabalho de Rachel McAdams está alguns degraus acima dos outros protagonistas desse filme. Ainda assim, é preciso tirar o chapéu para Rachel Weisz, Alessandro Nivola e Rachel McAdams da mesma forma. Eles estão excelentes nesse filme.

Disobedience é um grande filme por causa do roteiro, da direção e do trabalho dos protagonistas. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas vale comentar também o bom trabalho de um time relativamente pequeno de coadjuvantes. Entre outros nomes, vale destacar o belo trabalho de Anton Lesser como Rav Krushka, pai de Ronit; Allan Corduner como Moshe Hartog, tio de Ronit; Bernice Stegers como Fruma Hartog, tia de Ronit; Nicholas Woodeson como Rabbi Goldfarb; e Liza Sadovy como Rebbetzin Goldfarb. Todos estão muito bem.

Esse filme tem diversas sutilezas. Por exemplo, o diálogo entre Ronit e o homem tatuado que ela está fotografando no início da produção. O homem, com o corpo cheio de tatuagens, comenta que a primeira que ele, o rosto de Jesus, ele fez quando tinha 15 anos. “Essa doeu”, ele comenta. Para quem logo vai voltar a “mergulhar” em uma comunidade judaica, essa introdução não me parece desprovida de sentido. E o filme tem muito disso. Pequenas sutilezas.

Entre os aspectos técnicos do filme, além do roteiro e da direção muito acima da média já comentados, vale destacar a direção de fotografia de Danny Cohen; a edição de Nathan Nugent; a trilha sonora de Matthew Herbert; o design de produção de Sarah Finlay; os figurinos de Odile Dicks-Mireaux; e a direção de arte de Jimena Azula e Bobbie Cousins.

Disobedience estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois desta data, o filme participou de outros 12 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme foi indicado a cinco prêmios – mas não levou nenhum para casa.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Sebastián Lelio comentou sobre como foi trabalhar com as atrizes Rachel Weisz e Rachel McAdams, que são bastante diferentes entre si. Para ele, Weisz parece uma “força da natureza”, uma atriz com “personalidade vulcânica”. Por outro lado, McAdams é meticulosa, uma espécie de “especialista disfarçada” que se esconde atrás de uma peruca e de maquiagem. Para o diretor, os estilos diferentes das duas atrizes se encaixaram perfeitamente nas personagens principais do filme, que são também diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. Faz sentido.

Segundo a história de Disobedience, as personagens de Weisz e McAdams tem a mesma idade, mas fora da tela Weisz é oito anos mais velha que McAdams.

Disobedience marca a estreia em filme falados em língua inglesa do diretor Sebastián Lelio. Para mim, foi uma bela estreia. Vejo muito futuro para ele – seja no cinema latino, seja no cinema dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 106 críticas positivas e 20 negativas para Disobedience – o que garante para o filme uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” de 74 para esta produção – fruto de 32 críticas positivas e de quatro medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Disobedience faturou cerca de US$ 3,5 milhões nos Estados Unidos e US$ 2,4 milhões nos outros mercados em que estreou. Ou seja, no total, o filme fez cerca de US$ 5,9 milhões. Pouco, para os padrões de Hollywood, mas um resultado razoável para um filme “independente”. O problema é que, segundo o site IMDb, esse filme teria custado cerca de US$ 6 milhões para ser feito. Somando a isso os custos de produção e de divulgação, esse filme não está nem conseguindo se pagar. Uma pena.

Disobedience é uma coprodução do Reino Unido, da Irlanda e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme potente. Provocativo, instigante, sensual e que nos faz refletir sobre algumas questões fundamentais. Não é todo dia que a gente pode se deparar com um filme como Disobedience. Com um roteiro bem acima da média, uma direção cuidadosa e ótimas interpretações dos atores principais, esse filme só não é perfeito porque ele “cede” no final.

Ok, a vida nem sempre tem finais felizes. Mas nesta produção, em especial, a escolha de Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz para o desfecho do filme parece um tanto estranha – se levarmos em conta o restante da trama. Ainda assim, como comentei lá no início, se você está aberto(a) à novas ideias, esta pode ser uma produção bastante instigante. Vale pelo debate e pela reflexão que levanta. Um filme porreta, por assim dizer.

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Una Mujer Fantástica – A Fantastic Woman – Uma Mulher Fantástica

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Algumas vidas são muito mais difíceis do que o normal. E muito mais difíceis do que deveriam. E isso simplesmente pelo fato das pessoas não aceitarem o que é diferente a elas. Por que, afinal, tantas pessoas se importam com o que as outras fazem entre quatro paredes? Por que tantos querem dizer como os outros devem ser ou fazer? Una Mujer Fantastica é um filme muito contemporâneo e bastante contundente. Ele lembra o Pedro Almodòvar em sua melhor fase. Mas com mais suavidade, até. Um dos melhores filmes dessa temporada do Oscar 2018.

A HISTÓRIA: As cataratas, esplendorosas, aparecem em tela cheia. Diversos ângulos das quedas d’água que são uma das 7 Maravilhas do Mundo. Sobre umas almofadas, Orlando (Francisco Reyes) curte a sua sauna. Depois, ele recebe uma massagem relaxante. Em seguida, ele said a sauna Finlandia e caminha pelas ruas, até chegar ao escritório da empresa. Ele chama a secretária e pergunta se ela viu um envelope grande que ele tinha deixado sobre a mesa. Ela diz que não. Depois, ele procura em todas as partes do carro, e nada.

Mais tarde, em um hotel, ele pede um papel e um envelope. Em seguida, ele sobe até o andar em que Marina (Daniela Vega) está cantando. Ela vê quando Orlando chega e os dois se olham. Essa é uma noite especial. É o aniversário de Marina. Os dois jantam juntos, e aí ele dá de presente o envelope com a promessa de uma viagem às Cataratas – a viagem que ele tinha comprado ele perdeu. Eles são um casal, bastante feliz, mas logo essa alegria vai terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Una Mujer Fantastica): Fiquei surpresa positivamente com essa produção. Como é de praxe, não li nada sobre o filme antes de assisti-lo, por isso eu não sabia o que esperar do roteiro ou do desenvolvimento da história. Gostei muito do que eu vi. Especialmente por esse filme não ter nenhuma pirotecnia e nem por tratar de uma história “absurda” ou exagerada.

Na verdade, Una Mujer Fantástica é um filme no estilo “a vida como ela é”. Pois sim. E essa é uma das maiores qualidades dessa produção. Se formos olhar para o que vemos em cena, tudo que o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu esse roteiro junto com Gonzalo Maza – nos conta, é muito, muito plausível. Na verdade, assustadoramente plausível.

Nós partimos de um dia “comum” para o protagonista Orlando, um homem de meia idade que é senhor de si e responsável pelas suas ações, e terminamos nos desdobramentos do que pode acontecer com uma pessoa após ela passar por um problema de saúde bastante comum. (SPOILER – não leia a partir de aqui se você ainda não assistiu a esse filme). Então partimos desse “dia comum” do sujeito, que namora e vive com uma transsexual, para o momento de sua morte e toda a dor e luta de “su pareja”, Marina Vidal, para conseguir se despedir dele e ter o mínimo de respeito em sua fase de luto.

Una Mujer Fantástica é muito bem escrito e tem um desenvolvimento espetacular. Porque a câmera de Lelio, que permanentemente está próxima da protagonista desta história, aproxima também cada espectador de sua história, de todo o preconceito que ela sofre e, o que é mais tocante, de toda a sua dor. Como comentei antes, pela força narrativa dessa produção e pelo cuidado no desenvolvimento dos personagens centrais da história, essa produção me fez lembrar a melhor fase de Pedro Almodòvar. E isso não é pouco.

Ao assistir a essa produção, a verdade é que eu tive uma grande curiosidade para conhecer mais do trabalho de Sebastián Lelio. Acredito que o diretor, que em março completará 44 anos de idade, ganha uma outra projeção e respeito em Hollywood e no circuito mundial de cinema com esse Una Mujer Fantástica. Olhando para a trajetória do diretor, vi que ele dirigiu seis curtas antes de lançar o seu primeiro longa, La Sagrada Familia, em 2005.

Além desse filme, ele tem outros cinco longas no currículo. O único filme que eu assisti, dessa lista, foi Gloria (comentado aqui). Nesse ano, ele vai fazer a versão americana de Gloria, com Julianne Moore, Sean Astin, Michael Cera, Jeanne Tripplehorn, Holland Taylor, entre outros, no elenco. Gloria é um belo filme, mas acho que gostei mais de Una Mujer Fantástica. De qualquer forma, esse diretor tem um estilo interessante e marcante, e acho que vale seguirmos a sua trajetória.

Mas voltando para a história de Una Mujer Fantástica. O filme conta o que acontece na vida da transgênero Marina Vidal desde que o seu companheiro morre e até pouco depois do funeral e da cremação dele. Esse parece ser um período curto de tempo, mas tudo que a protagonista dessa história passa, nesse período, poderia resumir boa parte da sua vida desde que ela se descobriu Marina. Impressionante como temos todo o preconceito da sociedade destrinchado nessa produção.

Porque não é apenas a ex-mulher do falecido, Sonia (Aline Küppenheim) que tem uma postura de não “admitir” a existência de Marina e a sua relação com Orlando. A polícia age de forma estranha e preconceituosa com Marina, assim como o médico que atende Orlando, o filho do falecido, Bruno (Nicolás Saavedra) e, aparentemente, todas as pessoas que foram próximas de Orlando. Mas afinal de contas, por que é tão difícil para as pessoas aceitarem uma transgênero? Em essência, me parece, as pessoas tem uma grande dificuldade de aceitarem aquilo que é diferente a elas.

Mas, afinal de contas, quais as razões para isso? No fundo, todos somos diferentes e, ao mesmo tempo, mais similares do que pode parecer na superfície. Todos somos feitos de pele, carne, ossos, órgãos internos e sangue. Todos nascemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos vivemos grandes alegrias, sorrimos, choramos e vivenciamos grande tristeza, frustrações, decepções, temos que encarar desafios e vencer barreiras. Então por que, afinal de contas, não podemos ser um pouco mais solidários? Por que nem sempre conseguimos olhar para o outro como um ser humano com qualidades e defeitos como nós mesmos somos?

Acho que essa é a grande forma deste Una Mujer Fantástica. O filme coloca em evidência uma transgênero, uma pessoa tão marginalizada pela sociedade e que, provavelmente, não faz parte do convívio da maioria da audiência. E ao dar evidência para a sua vida, os seus gostos, o seu caráter e os seus sentimentos, Lelio desmistifica essa pessoa e a torna extremamente próxima do espectador. Que bom. Assim, ele nos faz um grande favor. Quem sabe, com esse filme, alguns preconceitos não caiam por terra? Quem sabe mais pessoas não consigam entender melhor o que é diferente a elas e aceitar essa diferença, abraçá-la sem medo, ter mais compaixão?

Outro ponto que me chamou muito a atenção nesse filme é como ele trata o preconceito das pessoas. Por que, afinal de contas, Sonia e Bruno tem tanta dificuldade de aceitar a “opção” que Orlando fez em sua vida? Ok, até entendo o “recalque” e a falta de aceitação de Sonia, que foi traída por Orlando. Mas se ela deveria ter “raiva” de alguém, deveria ser dele, não é mesmo? Porque foi ele que traiu a confiança dela. Marina não tinha nada a ver com isso. Pessoas adultas fazem as suas escolhas, e os demais deveriam ter a capacidade de respeitar essas decisões, não?

Bruno, por sua parte, me parece que reflete toda a cultura machista do Chile, do Brasil e de tantos outros países latinos. Para ele, só faz sentido um homem se interessar por uma mulher. Então ele não entende Marina, não consegue perceber que ela se vê como mulher – e é uma mulher. No fundo, ele é inseguro, um sujeito perdido e que não tem o mínimo respeito pelo que ele não entende. Faz o estilo “boçal” – como tantos que vemos cada vez mais proliferando-se por aí.

Mas o interessante é que ambos, tanto Sonia quanto Bruno, representam muito bem a maioria da sociedade. Sonia está muito preocupada com as aparências, com o que os “outros vão dizer”. Essa é a grande preocupação dela em relação aos “trâmites” finais envolvendo Orlando. Ela não mantinha uma boa relação com o ex, mas ela tinha que colocar uma bela nota de despedida no jornal e encenar um velório e uma despedida do ex-marido dentro “da normalidade” – e, para isso, seria “inconcebível” a presença de Marina.

O circo de Sonia e Bruno, assim, mostra o que as nossas sociedades tanto parecem prezar: as aparência. Não importa se eles, no fundo, não tinham uma relação próxima com Orlando. Não importa se a única pessoa que realmente deveria estar lá está proibida de ir. O que importa mesmo é que tudo seja feito dentro da política da “moralidade e dos bons costumes”. Mas do que adianta tanta mentira? No fim das contas, as pessoas estão mentindo para quem? Nessa busca desgastante pelas aparências, pessoas como Marina são sacrificadas e sofrem sem um pingo de remorso dos preconceituosos.

Por tudo isso, a história de Una Mujer Fantástica é marcante, envolvente e com um propósito muito bacana. Lelio evidencia a história de uma pessoa sobre a qual quase ninguém quer falar. Mas, como eu disse antes, uma pessoa como eu e você, com a sua luta, os seus desejos e sentimentos. Que deveria merecer, portanto, o mesmo respeito e consideração que qualquer outra pessoa. Lelio, aliás, explora muito bem as características de Marina, e faz doer em todos nós como ela tem um nível de dificuldade na vida que não deveria ter. Por esse aspecto, impossível não ficar mexida(o) com esse filme.

Todos os atores em cena estão muito bem, mas é de arrepiar o trabalho de Daniela Vega nessa produção. Ela tem um trabalho muito, muito marcante. Sem a entrega dela, esse filme não seria metade do que é. Se o Oscar fosse mais justo com as indicações de astros e estrelas, colocando o trabalho de todos no mesmo patamar, independente se eles trabalham ou não em Hollywood, certamente Daniela Vega teria conquistado uma indicação como Melhor Atriz. Ela merecia, sem dúvida – está muito melhor, a meu ver, para dar um exemplo, que Saoirse Ronan em Lady Bird (com crítica por aqui).

Mas, para não dizer que o filme é perfeito, teve dois pontos que me “incomodaram” um pouco nessa produção – porque eu acho que eles não fazem toooodo aquele sentido que deveriam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a verdadeira razão da policial Adriana (Amparo Noguera) insistir tanto para um exame de corpo de delito em Marina. Inicialmente, ela diz que é para ver se ela tinha sofrido algum abuso e/ou agressão. Mas o que isso realmente indicaria sobre Orlando ter morrido de causa natural ou de sua morte ter sido provocada?

Francamente, não me pareceu totalmente lógico aquele argumento. Então a real justificativa de Adriana seria de expor Marina, de matar a sua própria curiosidade sobre como seria o corpo da transsexual? Novamente, um tanto exagerado, não? A outra parte que me pareceu um tanto sem sentido e/ou lógica foi a forma com que Marina sai, perto do final, para correr com Diabla. Ela fez tanto para ter a cadela de volta e, do nada, após tantas recusas de Bruno, como Diabla acabou parando com Marina?

Uma explicação possível para isso é que Bruno manteve Diabla como “refém” como forma de pressionar Marina a não ir no velório de Orlando e que, passada aquela situação, ele resolveu devolver a cadela para a dona. Mas, então, se foi isso que aconteceu, não teria sido melhor Lelio apresentar essa cena? Apenas para essa parte não ficar um tanto sem sentido no filme? Esses são apenas pequenos detalhes que me pareceram um tanto falhos em um filme bem acima da média. Espero que Una Mujer Fantástica seja cada vez mais visto e que mais pessoas aprendam a ver ao outro, não importa o que ele faça entre quatro paredes e como ele enxergue a sua própria identidade, como um igual que merece respeito, consideração e empatia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu disse antes e volto a repetir: o grande nome desse filme é o de Daniela Vega. Que interpretação, meus amigos! Para mim, uma das melhores dessa temporada do Oscar. Pena que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não teve a coragem de indicá-la como Melhor Atriz. Ela merecia. Una Mujer Fantástica é o que é por causa dela. Trabalho impecável, e muito bem capturado por Sebastián Lelio que, aliás, revela-se também, mais uma vez, um belo diretor e roteirista. Ambos merecem ser acompanhados.

Algo que esse filme tem de qualidade – e todo grande filme precisa disso – é, aliás, o seu elenco. Todos que vemos em cena estão muito bem. Francisco Reyes está perfeito como Orlando – apesar dele “sumir” logo da trama, ele volta a aparecer depois em alguns momentos pontuais. Ele é muito bom sempre. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Luis Gnecco como Gabo, o único que se relaciona com Marina de uma forma um pouco mais humana; Aline Küppenheim como Sonia; Nicolás Saavedra como Bruno – figura que, não sei vocês, mas eu tive vontade de bater (e olha que eu sou anti-violência); Amparo Noguera como Adriana, policial que faz Marina passar por um grande constrangimento; Trinidad González como Wanda, irmã de Marina; Néstor Cantillana como Gastón, marido de Wanda; Alejandro Goic como o médico que atende Orlando no hospital; Antonia Zegers como Alessandra, chefe de Marina em um restaurante; e Sergio Hernández ótimo como o professor de canto da protagonista. Todos estão muito bem.

Muito interessante aquele detalhe da “chave misteriosa” de Orlando. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, ela alimentava os sonhos de Marina de encontrar algum “presente” de Orlando para ela. Um presente não planejado, é claro. Mas quem sabe algo dele que poderá compensar um pouco toda aquela ausência e dor provocada pela morte dele… Então, sem querer, ao atender a um cliente no restaurante, ela descobre que aquela chave é da sauna que ele frequentava. E quando ela finalmente chega no armário – após uma sequência interessante de “suspense” muito bem conduzida por Lelio -, o que ela encontra? Nada. E aquele vazio simboliza o que de fato Orlando deixou para ela. Nada além das lembranças.

Dos aspectos técnicos do filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora bastante pontual e interessante de Nani García e de Matthew Herbert; a direção de fotografia de Benjamín Echazarreta e os figurinos de Muriel Parra. Esses aspectos realmente “saltam aos olhos”. Além deles, vale citar o bom trabalho de Soledad Salfate na edição e de Estefania Larrain no design de produção.

Una Mujer Fantástica estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais em diferentes países mundo afora. Nessa trajetória, o filme recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 28 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Menção Especial no Prêmio do Júri Ecumênico do Festival Internacional de Berlim; para o Urso de Prata como Melhor Roteiro e para o Teddy de Melhor Filme, ambos dados também no festival de Berlim; para o Goya de Melhor Filme Iberoamericano; para o Prêmio Especial do Júri como Melhor Filme no Festival de Cinema de Havana; para o prêmio de Melhor Filme Latinoamericano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; para o Prêmio Fipresci de Melhor Atriz para Daniela Vega e a Menção Especial – Prêmio Cinema Latino para Sebastián Lelio no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, Una Mujer Fantástica fez US$ 111,3 mil nas bilheterias. Um resultado insignificante. Uma pena. Realmente os americanos não tem o costume e/ou interesse de ver ao cinema que é feito fora do seu país. Uma lástima, porque o cinema mundial tem ótimos realizadores, como este e tantos outros filmes nos demonstram a cada dia.

Em determinado momento, Sonia diz para Marina que ela tem dificuldade de “classificá-la”, mas que se ela fosse fazer, isso, talvez a chamaria de “quimera”. Para quem ficou curioso(a) para saber sobre uma quimera, sugiro esse texto do site Mitologia Grega BR que fala sobre esses seres conhecidos da mitologia grega.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 83 textos positivos e oito negativos para Una Mujer Fantástica, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média 8. Especialmente a nota do segundo site chama a atenção – está acima da média.

Una Mujer Fantástica é uma coprodução do Chile, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A vida é bela, mas pode ser também uma pedreira. O importante é que você não perca a perspectiva, mesmo quando lhe tirem o oxigênio. Mesmo quando lhe impeçam de falar, ou de ser. Porque tudo passa. O que é bom, e o que é ruim. Una Mujer Fantástica nos conta uma história bastante realista de uma forma muito competente e envolvente. Um grande trabalho de direção e de roteiro de Sebastián Lelio, e uma interpretação impecável de Daniela Vega.

Um filme que, como eu comentei antes, nos faz recordar do espanhol Almodòvar em sua melhor fase. Uma das grandes produções dessa safra do Oscar, e um filme que mereceu ser apontado como um dos favoritos da disputa de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apenas assista, e sem pré-conceitos. Espero que essa produção rompa algumas barreiras e faça as pessoas aceitarem mais as outras como elas são. Assim de simples (e quem dera que, realmente, na prática, fosse simples como realmente é).

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Antes das indicações ao Oscar saírem, havia um grande favorito para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira: In the Fade, do diretor Fatih Akin. Aí que, quando saíram as indicações ao Oscar 2018 e o filme de Akin ficou de fora, o favoritismo nessa categoria também foi perdido. Sim, há três filmes fortes no páreo, mas um favorito favorito, não existe.

Nas apostas relacionadas ao Oscar, Una Mujer Fantástica está liderando, e com uma bela vantagem sobre os demais. Em segundo lugar, segundo os apostadores, aparece The Square; e em terceiro, Loveless. Eu ainda não assisti a The Square – mas posso adiantar que ele será o próximo filme que eu vou comentar por aqui -, mas entre os outros filmes que concorrem nessa categoria em 2018, sem dúvida alguma eu prefiro o filme de Sebastián Lelio.

Com isso, não quero dizer que Loveless (com crítica nesse link) ou On Body and Soul (comentado por aqui) não sejam bons. Na verdade, os três filmes tem um belo “punch”, uma bela pegada. Todos são fortes e tratam de temas importantes. Todos são capazes de despertar um belo debate e de fazer pensar. Mas entre os três, prefiro Una Mujer Fantástica. Inicialmente, estarei na torcida por ele. Mas, para realmente bater o martelo nessa categoria, eu ainda preciso assistir a The Square e a The Insult.

Gloria

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. 🙂 Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.