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Captain Phillips – Capitão Phillips

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As histórias reais contadas pelo cinema sempre guardam elementos de interesse para o público. Captain Phillips não foge da regra. Neste filme somos apresentados a procedimentos de resistência e de ataque no mar, o que garante a parte da ação. E também a uma história emocionante, de um sujeito que comum que é muito bom no que faz e que vive períodos de tensão extrema. De quebra, existe de fundo um debate interessante sobre o abismo social que existe no mundo – e que, surpresa para o espectador, também coloca em posições opostas algumas pessoas no mar.

A HISTÓRIA: Na cidade de Underhill, em Vermont, o capitão Richard Phillips (Tom Hanks) se prepara para zarpar em mais uma viagem no dia 28 de março de 2009. Ele adiciona na bagagem o documento de marinheiro mercante e uma foto de família. A mulher dele, Andrea (Catherine Keener) acompanha o marido no carro e diz que, ao invés destas viagens ficarem mais fáceis conforme o tempo passa, elas parecem mais difíceis. No caminho até o aeroporto, o casal fala sobre os dois filhos.

Andrea está preocupada que tudo parece estar mudando muito rápido, enquanto Richard se diz preocupado com o mercado de trabalho, muito mais exigente que antigamente, o que poderá tornar o caminho de um dos filhos, Danny, que anda matando aula, muito mais difícil. Depois, acompanhamos a jornada do capitão Phillips em mais uma viagem. Que diferente das outras, será interrompida por piratas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Captain Phillips): Um bom roteiro faz toda a diferença. Recentemente eu comentei isso por aqui, quando falei de Gravity, um dos fortes candidatos em várias categorias do próximo Oscar. Enquanto no filme estrelado por Sandra Bullock falta um texto melhor, em Capitan Phillips o trabalho de Billy Ray sobre o original de Richard Phillips e Stephan Talty é exemplar.

Não é fácil adaptar para o cinema uma história em que sobram dados técnicos e que mexe com um tema que pouca gente se importa: a batalha entre grandes empresas comerciais, sediadas em países ricos, e os pobres coitados do litoral africano. Não tenho ideia de como o trabalho de Phillips e Talty se desenvolvem no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, que inspirou o filme. Mas sei que Ray conseguiu dividir bem os momentos de ação, que cercam grande parte da trama, com vários de tensão e um final arrebatador.

Claro que apenas um ótimo roteiro não adianta. Quantos filmes você já assistiu que até tinham um bom texto, mas que decepcionaram com a escalação e/ou atuação do elenco? Pois bem, outra qualidade de Captain Phillips foi a escolha do protagonista e do principal coadjuvante. Não é por acaso que muitas bolsas de apostas apontam boas chances de indicações para o Oscar para Tom Hanks e Barkhad Abdi (Richard Phillips e Muse, respectivamente).

Mas vamos falar do filme propriamente dito. Primeiro, achei importante que o roteiro de Ray apresenta rapidamente, e na sequência, as realidades de Phillips e Muse. Afinal, eles seriam as principais figuras da queda-de-braço que acompanharíamos nesta produção. Somos apresentados a eles e ao local em que eles vivem, e pouco mais que isso. A ideia do roteiro é não perder muito tempo com a história de vida de cada um deles – afinal, quanto menos soubermos, maior o nível de incerteza sobre as suas motivações, sobre a formação que tiveram para aqueles momentos de tensão e sobre o que eles podem temer perder.

Claro que seria interessante sabermos mais de cada personagem, para termos uma contextualização maior da vida dos protagonistas. Por outro lado, é acertada a escolha do roteirista em deixar esta lacuna no filme porque ela, como afirmei há pouco, alimenta a dúvida no espectador. Para quem gosta de ação, Captain Phillips não demora muito para desenvolver as situações de conflito.

Achei interessante como Muse, apesar de ser o cara que escolhe a tripulação para as missões de ataque a navios cargueiro, tem uma posição frágil no grupo. É possível perceber a tensão entre os piratas desde o início. E como Muse não é um cara forte, ele não impõe a autoridade naturalmente. Mas conforme o filme se desenvolve, percebemos que ele sabe agir nos momentos precisos porque é inteligente e também sabe ser violento.

De qualquer forma, desde o princípio, e isso é um elemento importante, percebemos que existem discordâncias e rivalidades entre os homens que vão atacar o navio comandado por Phillips. E no próprio navio cargueiro também existem divergências – mas elas são de outro tipo. E aqui fica evidente o abismo que separa os dois lados desta história: enquanto os piratas ameaçam agressões por quase nada, como uma “encarada” em momento errado, os tripulantes do navio Maersk Alabama discordam por estarem em uma situação frágil, sem armas, e tem em alguns sindicalizados a figura do protesto. Que facilmente é contornado – muito diferente da realidade de Muse.

Com o desenrolar do filme, observamos procedimentos e um linguajar técnico desconhecidos dos leigos. Um elemento a mais de interesse na história e que não chega a pesar porque o filme logo parte para a ação do ataque de quatro piratas ao navio Maersk Alabama. Mesmo inicialmente parecendo improvável que quatro caras armados em uma lancha conseguiriam render um navio cargueiro gigante como aquele, Captain Phillips comprova que a tarefa não é tão difícil para homens que conhecem o mar e que encontram pela frente pessoas desarmadas.

Mas do lado do navio Maersk Alabama existe a figura do capitão Phillips. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A postura dele é fundamental para que o ataque dos piratas seja frustrado. Ele ganha a disputa nos detalhes, mandando a tripulação esconder-se no local correto, deixando o rádio aberto para que eles soubessem por onde ele seguiria levando os bandidos para percorrer o navio e avisando Shane (Michael Chernus) da chegada deles no local em que eles guardavam os alimentos. Também é fundamental a dica sobre a armadilha com vidros estilhaçados.

A calma de Phillips e os atos inteligentes nos momentos de crise são fundamentais para que a história se reverta a favor da tripulação do cargueiro. Mas a mesma inteligência o espectador não percebe nos companheiros de Phillips. Afinal, como eles conseguiram fazer aquela trapalhada na troca de Muse por Phillips? A ação deveria ter sido outra, mesmo com o nervosinho Bilal (Barkhad Abdirahman) a ponto de sair atirando para todos os lados.

E daí começa o segundo round de tensão no filme. Sabemos que será quase impossível que aquele plano de Muse dê certo. E conforme o filme vai passando, e entram em cena a Força-Tarefa Combinada 151 das Forças Marítimas Combinadas e, na sequência final, os SEALs (força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), essa sensação fica ainda mais clara. Inicialmente, a impressão do espectador é que Phillips vai sobreviver – afinal, ele é o “mocinho” e não teria graça o filme terminar com a morte dele.

Mas dois elementos me deixaram com uma boa dúvida sobre esta certeza perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que Phillips tenha sido esperto em dizer em que local ele estava sentado no bote baleeiro, as confusões armadas com a tentativa de fuga dele e com o nervosismo do violento Bilal fazem ele ficar fora daquele local, aumentando as chances dele levar um tiro de quem foi para lá salvá-lo. E quando ele começa a escrever uma carta para a família… achei aquele um péssimo sinal. Logo imaginei que o filme terminaria com a morte dele e com Andrea lendo a mensagem final do marido. Detalhes sobre a captura dele poderiam ser passadas pelo oficial que fez filmagens da baleeira e com relatos de outras testemunhas. Essa dúvida na reta final ajuda o filme a alimentar a tensão do espectador – o que reforça a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de Hanks na catarse derradeira.

Deu gosto de ver uma trama tão bem escrita e com uma direção primorosa de Paul Greengrass. O diretor se firma, mais uma vez, como um especialista em filmes de ação. O ritmo não cai neste filme, e mesmo quando vivemos momentos de “baixo estímulo”, como podem ser algumas sequências dentro do barco baleeiro, as dúvidas sobre o que a tensão entre os personagens pode desencadear e a movimentação das equipes de resgate não deixam o filme ficar arrastado. Em diversos momentos a trilha sonora de Henry Jackman se mostra fundamental para a história, assim como o excelente trabalho do editor Christopher Rouse.

Tom Hanks e Barkhad Abdi duelam nos olhares, nos silêncios e nos diálogos. Mas é o personagem de Muse que tem algumas das tiradas mais brilhantes. Achei ótimas, em especial, as seguintes: quando Phillips diz que eles tem US$ 30 mil no cofre do navio cargueiro e oferece este dinheiro para os piratas, Muse pergunta se Phillips acha que ele é um mendigo (hahahahaha); e outra é quando ele diz “eu amo os EUA” após ser rendido na casa de máquinas.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que faltou apresentar para o espectador a repercussão daquele evento nos Estados Unidos e na comunidade mundial. Afinal, os SEALs entram em cena e tem a ordem expressa de impedir que aquele sequestro terminasse na costa somali porque o caso teria tido um grande repercussão. Sem vermos isto na prática, fica um pouco difícil acreditar que o sequestro de um capitão renderia uma mobilização tão grande.

Além de um ótimo filme de ação, Captain Phillips explora a desigualdade absurda de condições que encontrávamos no mundo em 2009 – e que continua seguindo válida agora, quatro anos depois. Em mais de uma ocasião Phillips observa os atos dos sequestradores e questiona o que eles, especialmente para Muse e para o mais jovem do grupo, Elmi (Mahat M. Ali), estão fazendo. Há um momento emblemático no questionamento, quando Phillips diz que Muse pode fazer algo diferente além de ser pescador (após o sequestrador dizer que os barcos internacionais acabaram com a pesca dos somalis) ou sequestrador. No que Muse responde que há outras opções nos EUA, mas não ali.

De fato, é difícil dizer para um jovem que vive na favela ou em locais como a Somália de que existem muitas opções no mundo. São ótimas as histórias de quem vence as mazelas e as condições precárias e consegue vencer na vida, seguir um caminho dos sonhos. Mas elas são muito raras, e sabemos disso. Por mais que não queiramos muitas vezes admitir. Por isso mesmo, acredito que muitos espectadores vão simplesmente torcer por Phillips e desejar que os sequestradores sejam mortos. Porque para estas pessoas a norma ideal é aquela de “bandido bom é bandido morto”.

Mas acho que este filme quer apontar outro sentido. Phillips não tenta apenas sobreviver, mas ele tem vários gestos de pura humanidade – especialmente com o ferido Elmi. E ele não faz isso apenas porque acha que deve dobrar os sequestradores. De fato ele pensa no abismo que lhes separa. Nunca fui e nunca serei da opinião que pessoas em ambientes muito diferentes podem julgar-se umas às outras. Consequentemente, jamais vou achar que “bandido bom é bandido morto”. O que precisamos ou deveríamos fazer, ao invés de alimentar o ódio e a vingança, é agir para romper com estes estigmas de “pobres tem que se ferrar” ou “se virar” enquanto eu tenho uma vida boa.

Apesar de imaginarmos como seria o final de Captain Phillips, ele não é bonito. Tanto é que o próprio Phillips grita “não” quando percebe o que aconteceu. Mesmo ele, tendo passado por tudo o que passou, tendo sido agredido e humilhado, principalmente por Bilal, não desejava a morte dos sequestradores. Uma lição para nós e para quem mais quiser ouvir. Porque enquanto alguns ganharem milhões – inclusive os chefes de Muse – e outros viverem na miséria, vamos ver absurdos acontecerem diariamente neste mundo. Seja em mar, terra ou ar. Captain Phillips não se exime de fazer esta ponderação, o que torna o filme um verdadeiro achado entre as grandes produções de Hollywood.

NOTA: 9,9 9,8 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito em dúvida sobre que nota dar para Captain Phillips. Afinal, logo após assisti-lo, sai do cinema com a sensação de “que maravilha”. Me emocionei com o final, após ser surpreendida por alguns momentos de tensão verdadeiramente bem feitos. Só que eu estava na dúvida sobre dar-lhe um 9,7 ou 9,8… ou então me render à nota máxima. Eu ia dando um 9,8 até que escrevi o final do texto sobre a produção, refletindo sobre o questionamento que Captain Phillips deixa no ar. E mesmo podendo abaixar a nota depois, já que tenho grandes expectativas com 12 Years A Slave, vou me arriscar a dar uma nota bem próxima do máximo por enquanto. ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): No fim das contas, me rendi mesmo ao 9,8. Mas não foi após assistir a 12 Years a Slave, e sim a Dallas Buyers Club. Quem diria!

Captain Phillips começa apresentando dois lugares muito diferentes entre si: Underhill, nos Estados Unidos, onde mora o protagonista, e Eyl, na Somália. Esta última, uma cidade litorânea no país africano, foi considerada em 2008 a Capital Pirata do Mundo devido à alta atividade de sequestro de navios cargueiros feita naquela região. Detalhe: ela ganhou esse título nada honroso um ano antes dos fatos que acontecem no filme. Na cidade de Eyl teria surgido toda uma “indústria” de ataques piratas no Índico, envolvendo sequestradores, mediadores, contatos, casas de prostituição e até um serviço de “comida para levar” destinada a piratas e reféns seguindo um estudo de Miguel Salvatierra publicado na revista Politica Exterior XXIII de março/abril de 2009.

Em certo momento, Muse diz que ele participou de um ataque no ano anterior em que eles conseguiram US$ 6 milhões. Imediatamente Phillips pergunta porque ele segue fazendo sequestros se ganhou tanto dinheiro. O silêncio de Muse deixa claro que ele é apenas mais um explorado naquela indigna indústria de fazer dinheiro com ataques a navios cargueiros. Mesmo comandando as operações ele deve ganhar uma miséria – e os outros então, muito menos. O que faz com que eles nunca deixem de praticar seus crimes. A mesma lógica de quem trabalha para traficantes.

A direção de Paul Greengrass é perfeita. Ele se aproxima de Tom Hanks no início, quando o capitão está preocupado com o navio antes dele partir. Neste momento, a câmera comandada por ele, com o fundamental trabalho do diretor de fotografia Barry Ackroyd, fica próxima de Tom Hanks – logo atrás, no ombro do ator, ou logo à frente. É como se seguíssemos os passos do homem que está no comando. Depois, no momento da ação, ele troca planos gerais com o close dos atores principais e com a dinâmica dos espaços. Uma das melhores sequências, de tantas ótimas de ação, é a do desembarque dos SEAL que pulam de uma avião. Um profissional que conhece bem o próprio ofício.

Muse, Bilal, Najee (interpretado por Faysal Ahmed, que fica marcado no filme por comandar o barco baleeiro) e Elmi escolhem um ótimo navio para atacar. Maersk Alabama estava carregado com 2.400 toneladas de carga comercial. Valia uma verdadeira fortuna.

Interessante como o público da sessão em que eu estava tinha pressa de sair da sala de cinema. Muitos se movimentaram antes mesmo de aparecerem as informações finais sobre a trama. Quase perderam as informações de que Muse foi levado para os Estados Unidos e condenado a 33 anos de prisão pelo crime de pirataria e de que Phillips, mesmo tendo passado por todo o drama que passou, voltou a trabalhar na Marinha mercante no ano seguinte, em 2010. Impressionante a determinação deste capitão. Com seu exemplo, ele nos ensina que alguém que tem uma vocação deve segui-la, apesar das dificuldades, dos riscos e dos dramas.

Esta é uma produção em que Tom Hanks brilha. Durante o filme inteiro mas, especialmente, na sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gente, o que foi aquela entrega do ator ao ser atendido por uma médica? Acredito que ele verdadeiramente se emocionou com aquela cena. E nós vamos com ele, nos colocando em seu lugar ao perceber, pela primeira vez, que ele estava vivo apesar de tudo. Merece ser premiado, sem dúvida. E interessante saber que aquela sequência foi no improviso. Hanks contracenou com a oficial da Marinha na vida real Danielle Albert. Ela foi instruída a seguir um procedimento médico normal mas, por ser muito fã de Hanks, na primeira tomada ela simplesmente travou. Foi aí que Hanks brincou que ele deveria ser o único a estar em estado de choque. E daí filmaram outra vez. E ele fez aquele assombro de interpretação.

Além de Hanks, é importante citar o ótimo trabalho de Barkhad Abdi como Muse. Ele dá uma interpretação bastante realista e humana para o “anti-herói” deste filme.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outros coadjuvantes que acabam tendo certa relevância para a história: David Warshofsky interpreta a Mike Perry, o piloto da casa das máquinas que coloca força total no Maersk Alabama sob as ordens de Phillips; Corey Johnson interpreta a Ken Quinn, que está na sala de comando quando o barco cargueiro é tomado pelos sequestradores e acaba sendo ameaçado de levar um tiro na cabeça; o veterano Chris Mulkey faz John Cronan, o trabalhador sindicalizado que reclama da falta de armas; Yul Vazquez faz o capitão Frank Castellano, da Força-Tarefa Combinada 151; e Max Martini faz o comandante dos SEAL.

Falando na força de elite da Marinha dos EUA, impressionante o preparo dos militares. Não por acaso eles são considerado os “top” da Marinha. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando o comandante dos SEAL percebe onde está a arma de Bilal, automaticamente ele pede para pararem o reboque porque sabe que ele terá que dar um passo à frente. E “pimba”! Problema resolvido.

A trilha sonora de Henry Jackman começa a entrar em ação com mais força a partir da perseguição das duas lanchas de piratas ao navio cargueiro. Momento de quebra da narrativa. A partir daí, ela não sai de cena como elemento importante para a narrativa.

Tem um detalhe que achei interessante. Esta história se passa em 2009. E naquele ano o uso de drones (naves não-tripuladas) já era importante para os EUA. Ele é utilizado para sobrevoar o barco baleeiro quando a Força-Tarefa Combinada 151 está planejando a ação que vai fazer. Hoje, mais do que naquele ano, os drones são usados a rodo para várias operações, inclusive de ataque, feita pelos EUA mundo afora.

Agora, teve um momento do filme que eu achei que a Força-Tarefa Combinada 151 fez uma verdadeira “babada”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Phillips tem a ação corajosa de se jogar na água e começa a nadar, eles deveriam ter identificado o capitão e ter acabado com o sequestro naquele momento. Mas não. Literalmente eles “comem poeira” e deixam os sequestradores retomarem o comando. Uma grande tropeçada.

Da parte técnica do filme, tudo funciona muito bem. Além do show de direção de Greengrass, da envolvente trilha sonora de Jackman e da ágil e precisa edição de Rouse, vale destacar o ótimo trabalho do já citado diretor de fotografia Barry Ackroyd, além dos efeitos sonoros e visuais que aparecem em cena para ajudar a história – e não para tomar o lugar do enredo sendo mais importante que ele.

Captain Phillips foi rodado em diversos lugares, incluindo estúdios em Malta e no Reino Unido, e com cenas externas em mais de uma cidade dos Estados Unidos, em Malta e nos Marrocos.

E agora, uma curiosidade sobre este filme: em uma entrevista para a rádio NPR, Tom Hanks disse que a primeira vez que ele encontrou os atores que interpretam aos piratas foi quando Greengrass filmou a invasão à sala de comando. O diretor revelou que este contato “tardio” foi proposital, para criar uma tensão real entre os atores “invasores” e os que estavam tendo o espaço “invadido”.

A história real do sequestro do Maersk Alabama foi fundamental para outra obra, a Djibouti, de 2010, lançada pelo escritor Elmore Leonard.

Captain Phillips estreou no Festival de Cinema de Nova York em setembro. Depois, ele participaria ainda dos festivais de Londres e de Tokyo. Até o momento, o filme conseguiu um prêmio e foi indicado a outros dois. Mas, certamente, ele será bem indicado nas premiações dos círculos de críticos de cinema nos EUA e também nas principais premiações norte-americanas. O único prêmio que recebeu foi o de Produtor do Ano para Michael De Luca no Hollywood Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 55 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até a última quarta-feira (dia 13/11), quase US$ 92,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, Captain Phillips conseguiu outros US$ 55,1 milhões.

De acordo com este resumo da Amazon sobre o livro que inspirou o filme, o sequestro do capitão Phillips “dominou a mídia durante cinco dias em abril de 2009”. O romance é narrado em primeira pessoa. Apesar da experiência angustiante, comenta o texto, Phillips permaneceu com a fé inabalável, assim como um “senso de humor infalível”. Phillips tinha 30 anos de experiência no mar quando foi sequestrado na costa somali. No livro, segundo o texto, Phillips apresenta os sequestradores “com compaixão e equilíbrio”.

Procurando saber um pouco mais sobre o assunto, encontrei este texto da Folha de S. Paulo do dia 9 de abril de 2009 que tenta explicar os ataques piratas na costa da Somália. Há algumas informações interessantes ali. Achei informativa também esta resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a “questão da pirataria na Somália” publicada em 2010.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Captain Phillips. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e 12 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,4.

Esta é uma produção 100% EUA. Sendo assim, ela entra para a lista de filmes que eu estou comentando, produzidas naquela país, e que satisfaz o pedido feito por vocês, caros leitores, que votaram nos EUA para uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Não é fácil fazer um filme sobre pirataria na região marítima da Somália. O assunto, por si só, não tem grande interesse para o público. Os ataques começaram há muito tempo e seguem ocorrendo e ninguém parece se importar muito com isso. Assim como com as milhares de pessoas que morrem no mar tentando sair da África para viver na Europa – recentemente o Papa Francisco chamou a atenção para o assunto. Por isso mesmo é impressionante como Captain Phillips funciona tão bem.

Mérito do diretor e dos roteiristas, não há dúvidas. Eles fazem um excelente trabalho, junto com um Tom Hanks comprometido e entregue na interpretação – o que deve lhe render uma indicação ao Oscar. De forma acertada, somos logo apresentados ao “herói” e ao “anti-herói” e seus respectivos “bandos”. Há muitas falas técnicas no filme, mas elas não incomodam, apenas tornam a história ainda mais verossímil. E o principal: Captain Phillips não se revela apenas um ótimo filme de ação, mas também uma produção que aborda questões difíceis de desigualdade social, frieza e humanismo e que, de quebra, ainda emociona. Não há como não se colocar no lugar do protagonista no final. Por ser tão humano, este filme se revela maravilhoso. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não tenho dúvidas que Captain Phillips será um dos filmes indicados na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A dúvida é sobre quantas indicações ele vai receber e se conseguirá levar alguma estatueta para casa.

Como sempre, é difícil opinar sobre as chances de cada concorrente sem ter visto aos principais nomes que estão sendo cotados para a disputa. Então, sem medo de errar, e explicando que ainda falta ter o quadro mais completo, posso dizer que eu acredito que este filme terá pelo menos cinco indicações, com boas chances de chegar a seis e até passar este número.

Para mim, é certo que ele será indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Tom Hanks) e, possivelmente, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e, quem sabe, Melhor Diretor. O crítico Peter Knegt, do IndieWire, também vê como possíveis as indicações de Captain Phillips como Melhor Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Melhor Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som.

De todas estas categorias, francamente vejo ele com boas chances como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator. Tudo vai depender do quanto 12 Years A Slave realmente é bom. Porque vejo os dois filmes concorrendo nas categorias principais. Comparado com outro “favorito” do ano, Gravity, não tenho dúvidas de que Captain Phillips é melhor. Os dois filmes competem, especialmente, nas categorias técnicas.

A Academia e o resto do mundo gostam de Tom Hanks. E faz tempo que ele não ganha um Oscar. Ele tem duas estatuetas na estante de casa: uma por Philadelphia, dada em 1994, e outra, no ano seguinte, por Forrest Gump. Hanks tem ainda outras três indicações – todas como Melhor Ator. Seria bacana ele receber mais um Oscar – que ele merece, especialmente, pelo final de Captain Phillips.

A performance dele é arrebatadora. Mas vai depender muito de vermos os outros concorrentes dele, especialmente Chiwetel Ejiofer por 12 Years A Slave e Leonardo DiCaprio por The Wolf of Wall Street. Há outros nomes bem cotados, mas que eu não acho que tenham o apelo para derrubar Hanks. Logo veremos.

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Extremely Loud & Incredibly Close – Tão Forte e Tão Perto

Como ensinar o seu filho, que tem medo de tomar determinadas atitudes que você tomava na idade dele sem pestanejar, a aventurar-se? E como uma criança deve lidar com o pior dos acontecimentos? Quando eu soube que Extremely Loud & Incredibly Close resgatava alguns dos sentimentos que circundaram os ataques ao World Trade Center, e que um garotinho narraria a história por sua ótica, fiquei com o pé atrás. Seria este mais um dramalhão? Outra desculpa para Hollywood fazer chorar com o seu drama, muito legítimo, do 11 de Setembro? Para a minha surpresa, este filme é mais que um dramalhão. Ainda que ele seja pensado para fazer o espectador chorar, ele também guarda algumas boas ideias e reflexões. Mais do que eu esperava (sim, minha expectativa era bastante baixa).

A HISTÓRIA: Um homem parece voar. O menino Oskar Schell (Thomas Horn) olha fixo para a frente e reflete sobre como, atualmente, um número maior de pessoas vive mais tempo, enquanto aumenta também o número de mortos. Ele comenta que se aproxima o dia em que não haverá mais espaço para enterrar tanta gente, e que será necessário construir edifícios submersos, cidades inteiras sob a terra para colocar estas pessoas mortas. Da imagem dele no quarto, saltamos para vê-lo no carro com a avó (Zoe Caldwell). Oskar assiste dali um enterro, e pergunta para a avó se ninguém sabe que o caixão está vazio. Ele não vê sentido no que chama de “funeral falso”. O garoto sai do carro e senta em um banco. Olha para a cidade, Nova York, e lembra do melhor dos desafios lançado por seu pai, Thomas (Tom Hanks): o sexto bairro da cidade. A partir daí, acompanhamos a rotina da família de Oskar, e sua busca pelo legado do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Extremely Loud & Incredibly Close): A primeira qualidade que eu vi neste filme foi a busca do roteirista por destacar a missão de um pai em despertar a curiosidade e o encantamento de um filho. Algo muito bacana em Extremely Loud é que os “segredos” do filme vão sendo contados aos poucos. Para começar, não sabemos até que ponto aquele menino está ou não fora da curva. Ele é apenas muito inteligente ou tem alguma doença ou distúrbio? Também ficamos sabendo logo que o pai do menino morreu, mas demora um pouco para sabermos como foi esta morte.

Esta é uma ótima vantagem da história. O roteiro de Eric Roth, sem dúvida, é o ponto forte do filme. Ele destilou alguns diálogos simplesmente geniais – todos proferidos pelo protagonista. O garoto Thomas Horn também segura muito bem a responsabilidade e a complexidade de seu papel. Em alguns momentos, e falarei deles depois, ele chega a irritar. Mas isso, antes de mais nada, é uma responsabilidade do roteiro. Roth é o que o filme tem de melhor mas ele é, também, o responsável por suas derrapadas.

As dúvidas sobre a origem de toda aquela genialidade do menino duram exatos 30 minutos. Quando o filme chega neste ponto, Oskar conta sobre a origem de sua personalidade diferenciada para Abby Black (Viola Davis). Os minutos até ali guardam o tempo mágico do filme, quando ele funciona muito bem. Naquela meia hora, vemos a parceria entre Horn e Tom Hanks. O ator veterano e premiado incentiva a criatividade e a imaginação do filme. Pode parecer loucura, mas cheguei a ver, neste trecho, o mesmo incentivo ao encantamento e à imaginação feito por The Artist e Hugo, mas sem que o tema cinema fosse o foco desta vez.

Os jogos entre o pai e o filho foram mostrados de uma maneira encantadora. E se encaixam com perfeição para o novo desafio de Oskar, depois que o pai dele já tinha morrido. Com sua maneira peculiar de raciocinar, Oskar tenta reconstruir os minutos que separaram as mensagens deixadas pelo pai e o final de sua vida. O garoto demora um ano para entrar no quarto do pai e buscar “pistas” que ele pode ter deixado para ajudar o filho a entender o que aconteceu. Na tentativa de pegar uma máquina fotográfica, ele encontra uma chave, misteriosa. Referência bastante simbólica, pois. Decifrar o que aquela chave é capaz de abrir poderia ser o último jogo entre pai e filho, e essa possibilidade passa a mover Oskar.

Antes do minuto 30, o espectador dá risadas com a personalidade diferenciada de Oskar. Com os preparativos dele para sua nova e maior aventura. Mas pelas mesmas linhas do roteiro de Roth, o espectador também fica assustado com a lista de coisas simples que o menino acha complicado fazer, experiências que ele não consegue vivenciar – especialmente as listadas quando ele começa a buscar os Black pelas ruas de Nova York. Isso tudo seriam efeitos do trauma da perda do pai? Faria sentido… E daí surge um dos melhores momentos do filme, aquele em que Thomas estimula Oskar a experimentar a sensação de usar um balanço.

Este momento é a grande sacada de Extremely Loud. Afinal, ele nos faz refletir sobre esta geração pós-11 de Setembro. As crianças estão contaminadas com o medo que reinou no mundo logo após os ataques às Torres Gêmeas? Se estão, como incentivá-las a se arriscarem, a fazerem algo com a esperança de ter um futuro melhor? Como quebrar o medo da queda, de machucar-se, para que elas possam viver aventuras e sentir prazer em coisas simples? Até o minuto 30, estes parecem ser os questionamentos que começam a ser esboçados em Extremely Loud. A chave, os medos do garoto, tudo parece ser uma forma sugestiva de tratar de outros temas, mais profundos. Pena que isso mude pouco depois.

Porque quando Oskar conversa com a primeira pessoa Black que ele encontra, ele explica a origem de seus temores e de sua inteligência fora do comum: o garoto tem a Síndrome de Asperger. Essa informação é fundamental para entender o que se passa. Por isso mesmo, para o meu gosto, ela poderia ter sido dada muito depois – pela metade do filme, por exemplo, sem prejuízos para a história. Manteria o suspense e as leituras diferenciadas por mais tempo. Isso porque, ao saber que o menino tem Asperger, sabemos a origem de tudo.

Essa síndrome, mais comum entre garotos, é uma variação do autismo. Ela faz os portadores terem uma relação diferenciada com tudo. Uma das características da síndrome é que a criança desenvolve um interesse excessivo por determinados temas, concentrando toda a sua atenção e conversas nestes assuntos de interesse. Ela permite que a pessoa desenvolva um conhecimento profundo sobre aquilo que lhe chama a atenção mas, ao mesmo tempo,  dificuldade em lidar com outros temas que repudia. Reações ao extremo, pois. Isso explica totalmente Oskar, verdade?

Talvez uma boa parte dos espectadores não entenda isso logo de cara e pode ter ido buscar informações sobre a Síndrome de Asperger depois do filme terminar. Mas graças a Mary and Max, comentado aqui, a minha ficha logo caiu. E daí as outras leituras do roteiro evaporaram. Ainda assim, o texto de Roth e a ótima direção de Stephen Daldry seguram a atenção até o final.

Alguém pode ter se perguntado: “Mas caramba, não teria sido muito mais fácil Oskar perguntar para a mãe se ela sabia o que aquela chave poderia abrir?”. Claro, teria sido mais fácil. Mas no contexto do filme essa saída mais prática não faria sentido. Primeiro porque aquela busca era tudo que Oskar precisava para perdurar aquelas lembranças do pai, a sensação que ele passou a ter de que Thomas continuava lá, jogando com ele. Depois que para um portador da Síndrome de Asperger a lógica é sempre diferente do que a de uma pessoa comum. Para Oskar a mãe não teria a resposta, e seria uma bobagem perguntar isso para ela.

Claro que nós, adultos, duvidamos que aquilo poderá chegar a algum lugar. Torcemos, claro, porque o roteiro foi feito para isso, para que o espectador cruze os dedos para que aquele garoto consiga encontrar a resposta que ele tanto deseja. Mas daí lembramos daquelas frases famosas… “Um homem viaja o mundo à procura do que ele precisa e volta para casa para encontrar” (de George Moore), “Viajar é fazer uma jornada para dentro de si mesmo” (Dena Kaye) e, principalmente, aquele clássico de que o viajar é mais importante que chegar no destino.

Sim, porque Oskar vai colecionando histórias, alegrias e dores de pessoas com o sobrenome Black pelo caminho. Mesmo o foco dele estando na fechadura que seria aberta por aquela chave, ele aprende um bocado no caminho – especialmente quando a mãe dele, Linda (Sandra Bullock) repassa todas aquelas histórias com o menino, uma a uma. E daí surge a única reflexão que justifica o filme fazer referência ao 11 de Setembro – além daquela anterior, sobre a questão do medo das gerações mais jovens. A de que, apesar do que todos nós sabemos que cada uma das 2.606 pessoas mortas nos ataques às Torres Gêmeas farão falta, que cada uma de suas famílias entrou em luto e teve que batalhar para sair da dor, existem tantas outras histórias parecidas, de dor e de perdas, espalhadas por aí…

O filme não minimiza a tragédia do 11 de Setembro. Pelo contrário, mostra em detalhes o impacto que um fato como aquele pode ter na vida de uma família – e, em especial, no cotidiano de um menino como Oskar, com a Síndrome de Asperger. Mas também dimensiona o fato com um pouco de distanciamento, mostrando que tantas outras tragédias pessoas antecederam e continuam acontecendo em diferentes bairros de Nova York e, além daquele cenário, no mundo. Essa sim, parece uma reflexão com a marca do diretor, Stephen Daldry.

Pessoalmente, acho que o filme teria ganho mais pontos se contasse a história do menino, de sua perda e de sua busca pelo legado do pai sem colocar a tragédia do 11 de Setembro no meio. Compreendo a necessidade dos Estados Unidos de continuar retratando aquela dor e plasmando ela no cinema para a posteridade. Mas acho que o tema já está muito desgastado. Focar um garoto com a Síndrome de Asperger, tornando esta doença um pouco mais conhecida, é uma grande sacada. O restante… bem, ainda que aumente o drama e a tensão, achei um bocado desnecessário. E que aí sim, devo concordar, leva o filme ao patamar do melodrama. Não fazia falta.

Para finalizar, mais um detalhe sobre a busca do garoto. Interessante como ele tenta achar lógica no que aconteceu. Mas a mãe dele, lá pelas tantas, em uma das sequências que eu achei mais forçadas do filme, fala para o menino, aos berros, que é impossível chegar a uma explicação lógica para o que aconteceu. Para Oskar, esse é o maior drama. Porque o mundo precisa de lógica.

Difícil para qualquer mãe ou pai explicar para o filho ou filha que, muitas vezes, não há lógica, realmente. Explicações sempre existem. Mas, ainda assim, não há lógica. Como neste caso do 11 de Setembro. E em tantas outras perdas de familiares. De qualquer forma, e bastante sem querer, Oskar encontra a sua resposta final. E segue a vida. Eis a grande mensagem do filme, de que a vida continua, por mais absurdos que sejam alguns fatos.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes sobre os fatos um tanto irritantes da produção. Thomas Horn faz um grande trabalho, mas os momentos de descontrole de seu personagem, quando ele surta e atira coisas enquanto grita, acabam irritando. Eu sei, crianças agem assim em alguns momentos. Isso poderia ter acontecido uma vez no filme, sem maiores problemas de irritação. Mas repetir a cena, apenas para reforçar o drama e a empatia do espectador, foi forçado.

Gostei muito do trabalho do veteraníssimo Max von Sydow. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para alguns, foi irritante aquela infindável exposição de bilhetes do avô de Oskar. Eu não achei exagerados. Eles foram inteligentes, alguns inusitados. E Sydow consegue tornar o personagem interessante, conseguindo afastá-lo da provável caricatura. Não é difícil matar este mistério. Um espectador um pouco mais atento descobre a ligação entre o hóspede da avó de Oskar e o garoto muito antes do próprio menino verbalizar a sua conclusão. Isso não estraga o filme, como o restante das surpresas reveladas antes da hora. Mas por ser previsível, poderia ter sido desvelada antes, talvez.

Viola Davis é um monstro. O papel dela neste filme não é muito grande e, mesmo assim, ela arrebenta. Não adianta, esta atriz se diferencia da maioria de sua geração. Está na hora, realmente, dela ganhar um Oscar. Por tudo que apresentou até agora em uma carreira relativamente curta, que soma quase 16 anos – e feita, no início, principalmente por trabalhos em séries para a TV.

Algo que irrita um pouco também nesta produção tem a ver com a personagem de Linda Schell. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Convenhamos, alguém engoliu aquela versão de que a mãe de Oskar poderia ser tão ausente ao ponto de deixar o filho sair a qualquer momento, com a desculpa esfarrapada que fosse, e tudo bem? Aquilo não se encaixava e a explicação final apenas ajustou algo que parecia absurdo. Não, aquela mãe não era tão desnaturada e nem estava tão imersa na própria dor a ponto de abandonar o garoto. Aliás, Roth poderia ter deixado pelo menos essa dúvida um pouco mais séria. Se mostrasse a mulher deprimida, por exemplo, ou entregue a algum vício, talvez pudesse ter preservado o suspense até o final. Do jeito que ele explorou a história de Linda, ficou só estranha aquela ideia do “abandono” – pelo menos até o final, redentor. Por outro lado, a explicação sobre os atos de Linda só tornou ainda mais evidente qual era a função daquela chave: provocar uma busca que não distanciou Oskar de Linda, mas que os aproximou e fez ambos superarem melhor o luto.

Muito inteligente o personagem de Thomas Schell. Com os jogos e desafios que ele propunha para o filho, sabendo que Oskar gostava daquelas “pesquisas”, ele estimulava o garoto a explorar a cidade e a interagir com as pessoas. Tentando minimizar o risco do isolamento social do menino.

Stephen Daldry é um grande diretor. Aqui, mais uma vez, ele ganha pontos pelos detalhes. Primeiro, pelo ótimo trabalho desenvolvido com o garoto Thomas Horn. Ele consegue tirar o melhor do menino, que é um estreante. E esta não é a primeira vez que ele consegue fazer isso. No ano 2000, ele revelou para o mundo o talento de Jamie Bell no lindo Billy Elliot. O diretor ganha o espectador também nos detalhes. Na busca do melhor ângulo da câmera e na captura das nuances da cidade, como quando ele foca Oskar do alto, mostrando uma revoada de pássaros abaixo da câmera e sobre o garoto. Por estas e por outras que Daldry é um diretor diferenciado.

Além dos atores já citados, vale citar John Goodman em uma super ponta, como o porteiro Stan, um tanto cômico – mas com uma participação fundamental para a história. Jeffrey Wright também faz uma ponta na história, aparecendo quase no final do filme – pelo menos com alguma relevância porque, antes, ele nem dá “as caras” direito – como William Black, ex-marido de Abby.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho sempre acima da média de Alexandre Desplat na trilha sonora. Ele embala o drama e as aventuras de Oskar com precisão. Maximiza a mensagem da produção. A direção de fotografia de Chris Menges também valoriza o trabalho de Daldry, destacando Nova York com cores sérias e um tanto efêmeras. Finalmente, bom o trabalho de edição de Claire Simpson.

Extremely Loud & Incredibly Close se justifica de várias formas. Pelo sentimento do menino, cada vez que ele sai de casa e, com sua aventura, sente-se mais próximo do pai, enquanto parece tornar-se mais distante da mãe – e isso o deixa dividido – e, principalmente, pelo jogo de palavras que Oskar fazia com o pai, juntando expressões que parecem conflitantes. A tradução para o Brasil ficou horrível, claro, porque não dimensiona nem uma justificativa, nem outra.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Jonathan Safran Foer lançado em abril de 2005. Foer é o mesmo autor do genial Everything is Illuminated. Não li a nenhum dos dois livros, mas posso dizer que a versão para o cinema de Everything is Illuminated é – perdão o trocadilho que isso possa suscitar – brilhante.

Extremely Loud estreou nos Estados Unidos em circuito comercial no dia 1º de janeiro. De lá até o dia 12 de fevereiro, o filme acumulou pouco mais de US$ 29,4 milhões nas bilheterias. Não está mal, mas certamente está abaixo da expectativa do estúdio – especialmente por causa dos nomes estelares de Tom Hanks e Sandra Bullock no elenco.

A estreia do filme ocorreu em Toronto, no Canadá, e de forma restrita nos Estados Unidos no dia 25 de dezembro. Depois o filme começou a estrear mundo afora. Com uma carreira tão curta, até o momento, o filme participou apenas de um festival, o de Berlim.

Até o momento, Extremely Loud faturou seis prêmios e foi indicado a mais oito, incluindo dois Oscar. Três dos seis prêmios abocanhados pela produção foram para Thomas Horn. Mas nenhum, até agora, de grande relevância.

Entre os nove indicados como Melhor Filme no Oscar deste ano, Extremely Loud & Incredibly Close é o que registra a menor nota na avaliação dos usuários do site IMDb: 6,4. De fato, o filme não pode competir com outros que estão na lista. Mas como vocês sabem, analisando as outras críticas que publiquei por aqui, não considerei este o pior filme da disputa. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais rígidos: publicaram 82 críticas negativas e 70 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 46% e uma nota média de 5,6.

Agora, vou explicar a minha nota para Extremely Loud. De fato, o filme força a barra em alguns momentos e parece exagerar a dose no drama. Algumas de suas surpresas desaparecem muito rápido. Mas eu acho que as reflexões que ele suscita e, principalmente, o mérito dele em explorar a ótica de um menino com a Síndrome de Asperger torna as suas intenções superiores às falhas da produção. Eu gosto de boas intenções.

Stephen Daldry não é um diretor voraz. Depois de estrear no cinema em 1998, com o curta Eight, ele produziu apenas quatro longa-metragens. Os três que antecedem Extremely Loud são maravilhosos. Além do já citado Billy Elliot, estão The Hours e The Reader.

Para quem desconhece a Síndrome de Asperger, recomendo a animação citada anteriormente, Mary e Max. Muitos sites tratam da doença, mas achei este bastante direto e explicativo. Dá uma ideia geral e introdutória sobre a síndrome.

Ah sim, e uma explicação para uma das curiosidades do filme. Nova York tem cinco “boroughs” (bairros): Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. Segundo o Censo dos Estados Unidos de 2010, a população da cidade chega a 8,17 milhões de pessoas.

CONCLUSÃO: Depois de mostrar as perdas dos ataques às Torres Gêmeas por diferentes ângulos, com a produção de diversos dramas e documentários, Hollywood volta ao tema a partir da ótica de uma criança. Os elementos estavam dados para Extremely Loud & Incredibly Close ser um dramalhão. Mas soma-se a isso algumas relações familiares complicadas e um garoto que foge dos padrões comuns, e temos pela frente uma história mais ampla. Dramas humanos acontecem por todas as partes, em todas as direções que se possa olhar. Interessante como a busca de um garoto pelo legado do pai nos mostra isso. Coloca a tragédia daquele 11 de Setembro em seu lugar. Porque a vida continua, nos conta o protagonista. Mesmo que seja preciso percorrer um longo caminho até sentir-se preparado para isto. Extremely Loud trata disto, e de como as diferenças podem ser compreendidas com um pouco de interesse e esforço. No fim das contas, este é um dramalhão, que simplifica muitas histórias e cai na repetição em muitos momentos. Mas o roteiro inteligente de Eric Roth faz a história não se perder e manter o interesse do espectador. Não é um filme brilhante ou inovador na forma ou conteúdo. Mas faz pensar enquanto tenta provocar o choro. Só por isso, ele já se diferencia um pouco do balaio de produções comuns.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Para muita gente, e eu me incluo neste grupo, foi uma surpresa Extremely Loud & Incredibly Close ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme este ano. Quando o nome dele apareceu na lista divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, todos reclamaram. Alguns apontavam este ou aquele como injustiçado. Outros simplesmente chamaram a indicação de absurda. De fato, nos moldes antigos do Oscar, quando apenas cinco filmes eram indicados para a categoria principal, Extremely Loud não chegaria tão longe. Mas agora os tempos são outros.

Esta produção foi indicada também em outra categoria: melhor ator coadjuvante pelo trabalho de Max von Sydow. Na indicação principal, como melhor filme, Extremely Loud não tem chances. Ainda que o filme trate de um tema importante para os Estados Unidos e que ele comece muito bem, a verdade é que esta produção não tem força – e nem méritos, convenhamos – para vencer os favoritos The Artist, The Descendants ou Hugo. Mesmo Sydow, que faz um ótimo trabalho neste filme, não deve ganhar. Primeiro, porque o favoritíssimo da noite é Christopher Plummer. Depois porque outros nomes, como Jonah Hill, tiveram um peso mais decisivo em seus respectivos filmes do que Sydow. Para resumir, Extremely Loud deve contentar-se com as indicações. Porque ele não tem chance de vencer nas categorias nas quais compete neste Oscar.

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Toy Story 3

O tema de “fundo” desta vez não é adulto ou filosófico. Ainda assim, Toy Story 3 tem um argumento essencial que interessa e emociona aqueles que já passaram da adolescência e deixaram de brincar com os seus “velhos companheiros” de infância. Mais uma vez, a união da Pixar com a Disney produziu uma pequena obra-prima. Um filme impecável na realização e nas mensagens. Toy Story 3 une a agilidade de argumento da Pixar, que ajudou a modificar a indústria, com a preocupação em “belas mensagens” da Disney. Não foi por acaso, claro, que o filme dirigido por Lee Unkrich foi nomeado para cinco Oscar, incluindo a dobradinha de Melhor Filme e Melhor Filme de Animação. Certamente ele ganhará o segundo.

A HISTÓRIA: Um trem corre rápido. Surge da explosão de um de seus vagões, o vilão Mr. Potato Head (com voz de Don Rickles), carregando sacos de dinheiro. Em seguida, o destemido caubói Woody (voz de Tom Hanks) aparece para intimidá-lo. Mas a ameaça dura pouco, porque aparece para defender o marido a Mrs. Potato Head (voz de Estelle Harris). Quando Woody parece ter sido vencido, surge o apoio de Jessie (voz de Joan Cusack) e do fiel cavalo do caubói. Para evitar ser pego, Mr. Potato explode uma ponte e ameaça derrubar o trem cheia de órfãos. A aventura prossegue, com a entrada em cena de Buzz Lightyear (voz de Tim Allen) e de outros personagens. As sequências de aventura fazem parte de uma de tantas outras tardes de brincadeiras de Andy (voz de John Morris). O garoto, agora prestes a ir para a faculdade, deve fazer uma limpa em seu quarto, a pedido da mãe. Neste processo, por acidente, seus brinquedos acabam parando em um orfanato. E a aventura deles recomeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Toy Story 3): Impressionante como a aventura neste filme não para. Diferente dos filmes que antecederam Toy Story 3 nas edições anteriores do Oscar, que tinham muitas qualidades, mas também vários “altos e baixos” narrativos, nesta produção não existem momentos de “baixa”.

Méritos do excelente roteiro de Michael Arndt, baseado em uma história do trio John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich. Mérito também, claro, da direção precisa de Lee Unkrich. Assim, como pede a nova “ordem” dos filmes de animação, Toy Story 3 consegue uma proeza cada vez mais difícil: agradar a crianças de diferentes idades, jovens e adultos. Os menores devem ficar encantados com o colorido e com a ação constante. Os adolescentes devem se identificar com Andy, divididos entre o desafio da vida adulta e suas responsabilidade e as boas lembranças dos velhos companheiros de brincadeiras. E os adultos sentirão um certo saudosismo daquela época em que “tudo era mais fácil” ao mesmo tempo em que celebrarão o cinema bem feito e as mensagens de valorização da amizade e das boas lembranças.

Falando assim, pode até parecer fácil conseguir fazer um filme de animação deste jeito. Mas, claro está, não é uma tarefa nada simples aliar estas diferentes linhas de encantamento e leitura de uma mesma história, qualidade técnica e narrativa. Se fosse simples, teríamos vários Toy Story 3 por ano, mas não é isso o que acontece. Normalmente, um filme de animação consegue agradar apenas a um determinado segmento. Ou consegue ser muito bom tecnicamente, mas falhar em algum ponto da narrativa. Não é isso o que acontece por aqui.

Toy Story 3 consegue ser completo e simples, ao mesmo tempo. Não faz manobras mirabolantes para contar uma boa história. Não tira coelhos da cartola, para dizer de uma outra forma. Não. Unindo o melhor da Disney e da Pixar, o filme tem muita ação, aventura, diálogos que podem ser entendidos por qualquer pessoa, um roteiro bem escrito e que, ainda que linear na maior parte do tempo – com poucas “voltas ao passado” -, nem por isso previsível. Há invenção por aqui. E como explicam os mestres em seus grandes filmes – vide Hitchcock, um dos ícones do cinema -, não importa tanto se o final for surpreendente ou previsível, desde que a “aventura” que o cinema propicia até lá for divertido, emocionante, prender a nossa atenção, como espectadores, todo o tempo. Claro que reviravoltas e finais surpreendentes também são bacanas. Mas de pouco valem se o resto do “corpo” do filme não for convincente e de qualidade.

Então temos ação, drama, romance, comédia, faroeste e um pouco de suspense nesta produção. E os gêneros fluem e mudam com naturalidade e certa rapidez. Não há grandes pausas para reflexão ou para que o espectador puxe o lenço e seque as lágrimas. Isso pode até acontecer, mais perto do final, mas sem interromper o que interessa: a história. Em outras palavras, diferentes de outras produções – sejam elas de animação ou não -, Toy Story 3 não faz pirotecnia e nem deixa evidente a manipulação dos sentimentos e do tempo do espectador. Somos conduzidos pela história com maestria, sem ver o truque dos mágicos.

Não lembro se assisti a Toy Story 2. Mas vi o primeiro. E não há dúvidas que houve uma evolução na grife. Esta terceira parte da saga é muito, mas muito superior à primeira. Não apenas Andy chegou à puberdade, mas a história conduzida pelos brinquedos também. Além de entretenimento, Toy Story 3 trata de valores – como pede o bom e velho estilo da Disney, quando ela não se perde em produções bobas e sem qualidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No roteiro, há espaço para vilões, porque a vida é feita deles. E o filme não mostra um vilão qualquer, alguém estereotipado. Não. O que o espectador tem pela frente é Lotso (com voz do veterano Ned Beatty), um ursinho fofinho que era o melhor dos brinquedos, até que ele fica amargo e vingativo. Uma reflexão interessante sobre a própria essência das pessoas, capazes de guardar, dentro de si, protótipos de “anjos e demônios” – e escolhemos, diariamente, a quem alimentar e deixar pulsar.

Além desta ponderação, Toy Story 3 nos reserva outras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como aquela que perdura toda a produção: a força e a beleza da doação, da generosidade. É triste ver brinquedos acumulando pó e sendo comidos por traças. O filme mostra como o grande objetivo destes objetos, que ganham vida na nossa imaginação e nesta série de filmes, é a de serem brinquedos. Ou, em outras palavras, interagirem com as crianças e seus sonhos e fantasias. Sem isso, eles não tem sentido. O desprendimento é outra das lições deste filme. Assim como a força da amizade e da união, simbolizada pela grande aventura de Woody, Buzz Lightyear e toda a sua turma em retornar para a casa de Andy – eles não conseguiriam aquele feito se não estivessem sempre unidos e se sacrificando uns pelos outros.

Finalmente, Toy Story 3 nos mostra que cada fase da vida tem as suas preciosidades e que, mesmo adultos, não precisamos deixar de ser crianças ou adolescentes. Na verdade, um dos grandes desafios – e uma lição mais difícil de ser aprendida – é entender que carregamos todas as nossas “versões” anteriores conosco. E que não é preciso ser saudosista ou viver no passado para fazer a conexão com estas nossas outras versões, anteriores. Basta dar o devido peso e resgatar os melhores valores de cada época. Para mim, estas foram algumas das reflexões de Toy Story 3. E quantos filmes fazem você pensar em temas como estes, e desta forma? Pois palmas para os responsáveis por este grande filme. Pelo entretenimento e pela arte que ele significa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há um desfile de personagens interessantes nesta produção. E, claro, “por trás” das vozes deles, outro desfile de ótimos intérpretes. Além dos nomes já citados, vale a pena comentar o bom trabalho de Michael Keaton com o personagem de Ken; Wallace Shawn como Rex; John Ratzenberger como Hamm; Jodi Benson como Barbie; Emily Hahn como Bonnie; Blake Clark como Slinky Dog; Javier Fernandez Pena na divertida versão espanhola de Buzz; Timothy Dalton se dando bem como Mr. Pricklepants; Kristen Schaal como a “ligada na internet” Trixie; e Jeff Garlin como Buttercup, fechando a lista de novos brinquedos apresentados por Bonnie.

Citando os personagens do Ken e da Barbie, vale aqui um parênteses. A sequência em que Ken se exibe para a Barbie, mostrando o seu vasto guarda-roupas, é uma das melhores do filme. Enquanto ele se exibe – brincando com a vaidade que define a própria grife -, Barbie apenas pensa em como dará o passo estratégico seguinte. E no melhor estilo do humor da Pixar, genial a cena em que ela “tortura” Ken para conseguir ajudar os seus amigos em apuros. Sem apelar muito para o humor pesado, mas sem evitar a ironia, Toy Story 3 consegue equilibrar os diferentes níveis de leitura e agradar aos diferentes públicos.

Na parte técnica, o filme também é irretocável. Merece destaque, além do diretor Lee Unkrich, o departamento de arte com sete profissionais comandados por Susan Bradley; a trilha sonora rica e alegre de Randy Newman; a edição feita pelo diretor Unkrich e por Ken Schretzmann; a direção de arte de Daisuke Dice Tsutsumi; o departamento de animação com 63 profissionais (sim, 63!) comandados por Michael Stocker; o design de produção de Bob Pauley, e todas as outras dezenas de profissionais envolvidos.

Tanta gente envolvida em um mesmo projeto só poderia significar um custo alto de produção, certo? Pois sim. Toy Story 3 custou a fortuna de US$ 200 milhões. Algo espantoso, sem dúvida, e que poderia render algumas dezenas ou, inclusive, centenas de filmes “independentes”/baratos. E que não fossem de animação, é claro. Porque a verdade é que os filmes de animação atuais, utilizando alta tecnologia e um número tão grande de profissionais, só podem custar uma fortuna – com raras exceções que não passam por grandes estúdios. Mas para ser feito em tão “pouco” tempo e com olhos em ser um grande blockbuster, como é o caso desta produção, só com muito recurso mesmo.

Ainda que tenha custado a fortuna de US$ 200 milhões, Toy Story 3 saiu no lucro. Até o dia 21 de novembro do ano passado, quando saiu de cartaz nos Estados Unidos, a produção tinha arrecadado pouco mais de US$ 414,8 milhões. Mais que o dobro de seu custo inicial. E isso apenas nos Estados Unidos. Segundo o site Box Office Mojo, juntando a bilheteria conseguida nos demais países, Toy Story 3 superou a marca de US$ 1.063 milhões. Em outras palavras, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares – cinco vezes o seu custo milionário. Incrível, não? E merecido, devo dizer. É a grande indústria do cinema gastando horrores, produzindo sonhos e lucrando ainda mais.

A trajetória de Toy Story 3 começou no dia 12 de junho de 2010, no desconhecido festival de cinema de Taormina. A produção passou ainda por outros dois festivais, sem grande relevância, e estreou em todas as partes do mundo até outubro do ano passado.

Antes de assumir a direção de Toy Story 3, Lee Unkrich havia editado os dois filmes anteriores da grife e co-dirigido a Toy Story 2. Unkrich também co-dirigiu a Monsters, Inc. e Finding Nemo. A estreia dele na direção ocorreu em 1995, com a série televisiva Silk Stalkings. Foi o próprio John Lasseter que escolheu Unkrich para dirigir a Toy Story 3.

Algumas curiosidades sobre esta produção: o roteiro de Toy Story 3 demorou dois anos e meio para ser finalizado e para ter o seu storyboard feito; este é o primeiro filme a utilizar o padrão de som Dolby Surround 7.1 que, além dos cinco canais já conhecidos, trabalha com dois extras (“back surround left” e “back surround right”). A sequência inicial do filme, no melhor estilo faroeste, tinha sido pensada para o primeiro Toy Story, mas acabou sendo cortada do original. Toy Story 3 foi o primeiro filme de animação a passar da barreira de US$ 1 bilhão conquistado na bilheteria mundial. A cena em que Buzz e Jessie dançam um tango conta com uma versão de You’ve Got a Friend in Me, do Gipsy Kings.

Até o momento, além de ter sido indicado em cinco categorias do Oscar, Toy Story 3 recebe 18 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os 18 prêmios que levou para casa, 17 foram por Melhor Animação do ano. Além deles, ganhou como Melhor Filme Família pela avaliação da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para a produção. Até agora, a melhor nota para os filmes da grife. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 245 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% – e uma nota média de 8,8 – desempenho inferior ao dos dois filmes anteriores da saga dos brinquedos de Andy.

Ah, e importante observar: não assisti a Toy Story 3 na versão 3D. Mas imagino que, para quem assistiu, deve ter sido uma experiência incrível, certo? Aceito comentários nesta página. 🙂

CONCLUSÃO: Cinema é diversão, entretenimento. Especialmente o cinema de animação. Mas há algum tempo, este cinema não é apenas isto. Com esta premissa, Toy Story 3 cumpre as suas funções com perfeição. Antes de mais nada, é um filme movimentado, cheio de ação, do início até o fim. Depois, ele tem os seus momentos de “pausa para a emoção” – e, até, para leves reflexões/saudosismos. De quebra, a produção deixa uma ou duas mensagens para o espectador pensar. Primeiro, sobre a força e a importância da união, dos amigos, da família. Depois, deixa a mensagem de que honrar o passado, agradecer aos momentos bem vividos, é um dos gestos mais sábios que alguém pode ter. Olhar com carinho para os seus brinquedos preferidos não é render-se ao consumismo. Pelo contrário. É valorizar uma época de fantasia, de imaginação solta. E se a pessoa consegue fazer isso da forma correta, quem sabe, pode até manter aquela “criança” sempre viva. Ao roçar nestas ideias, Toy Story 3 é, sem dúvida, uma das melhores animações dos últimos tempos – para dizer o mínimo. E ganhará, com todo o mérito, o Oscar que lhe é devido. Assista, se você ainda não fez isso até agora. O filme merece – e a sua infância “esquecida”, também.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Como eu disse antes, Toy Story 3 foi indicado em cinco categorias do Oscar deste ano. Uma grande conquista. Mas ele não terá chances de fazer história e ganhar o Oscar principal, de Melhor Filme. Não sei se, um dia, Hollywood terá coragem de entregar um Oscar destes para uma animação mas, sem dúvida, isso não ocorrerá desta vez. Toy Story 3 vai ganhar sim na categoria de Melhor Animação. Mesmo que os outros concorrentes sejam muito bons – não posso falar a respeito porque ainda não os assisti -, não vejo concorrência para Toy Story 3. Não apenas pela grande bilheteria que o acompanha, mas porque o filme é muito bem feito mesmo.

E nas demais categorias, quais as chances de Toy Story 3? Acho que ele tem boas chances em Melhor Canção Original. Mas, para levar a estatueta para casa, ele terá que derrubar a forte concorrência de If I Rise, canção de Dido, A.R. Rahman e Rollo Armstrong. Acredito que eles sejam os favoritos na disputa. Mas eis uma categoria bastante aberta a surpresas. Na disputa de Melhor Edição de Som, por mais que o trabalho em Toy Story seja bem feito, não imagino ele ganhando de Inception, por exemplo. Ou mesmo de Unstoppable. Toy Story 3 corre por fora desta vez. E chegamos a Melhor Roteiro Adaptado: difícil, mais uma vez. Este parece ser o ano do ótimo texto de The Social Network. Sem ser o roteirista Aaron Sorkin ganhando a estatueta, vejo mais 127 Hours ou True Grit disputando as honras do que Toy Story 3. E não porque o roteiro do filme não seja bom. Pelo contrário. Mas os seus concorrentes são melhores.

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The Great Buck Howard – A Mente Que Mente

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O desejo irrefreável de acreditar que os acontecimentos ocorrem por uma razão e de que cada um de nós tem um espaço definido no mundo. Tal desejo é a espinha dorsal do filme The Great Buck Howard. Esta produção, encabeçada por nomes como John Malkovich e Tom Hanks (que, na verdade, faz apenas uma ponta no filme), também se debruça sobre o “showbusiness” e sobre o tema dos “artistas marginais”. Ainda assim, meus caros leitores, não se enganem: The Great Buck Howard segue a linha de produções que tentam ser mais do que realmente são. Bastante lento, previsível e sem muitos atrativos além de Malkovich, este é um filme que acaba dando sono. E preguiça (até para escrever sobre ele). Claro que se ele for espremido, até solta algum suco interessante. Mas como entretenimento, The Great Buck Howard é muito fraquinho.

A HISTÓRIA: Os três primeiros minutos do filme contam, de forma acelerada, como Troy Gable (Colin Hanks) resolveu dar uma reviravolta em sua vida. Deixando para trás tudo o que seu pai (Tom Hanks) tinha planejado para ele, Troy abandona a faculdade de Direito depois de dois anos e resolve não fazer nada. Pelo menos até que ele encontre a sua verdadeira vocação – começando com a tentativa de ser escritor. Mas como o dever das contas chama, Troy se aventura a buscar um emprego. Lendo os classificados do jornal ele decide trabalhar como assistente pessoal e coordenador de turnês do “famoso” Buck Howard (John Malkovich) – alguém de quem ele nunca tinha ouvido falar. A partir daí, acompanhamos as aventuras de Troy e de Buck Howard em uma turnê pelo interior dos Estados Unidos e pela busca do artista em voltar a ter destaque na mídia nacional.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Great Buck Howard): O começo do filme, ainda que nada inovador, parece promissor. Uma boa edição e a escolha acertada das imagens nos leva a crer que veremos um filme criativo pela frente. Ledo engano. Para começar, pelo ritmo que o filme escrito e dirigido por Sean McGinly toma depois, não entendo o porque de tanta aceleração narrativa naqueles 3 minutos de largada. A história chega a ter nuances tediosos lá pelas tantas… assim sendo, aquela introdução sobre a vida e as intenções do protagonista poderia ter sido um pouquinho mais extensa. Se isso fosse feito, pelo menos não correríamos o risco de achar que o resto do filme seguiria a mesma linha de edição criativa e narrativa acelerada – o que não ocorre, está claro.

Comentada essa diferença brutal entre o que o filme “sugere” nos minutos iniciais e o que ele nos apresenta no restante de seu tempo, vamos ao que interessa: o que The Great Buck Howard quer nos dizer. Para começar, se fôssemos buscar uma “moral da história”, ela nos falaria sobre a necessidade de corrermos atrás dos nossos sonhos, sobre a magia que a vida deveria ter e sobre como podemos aprender com os exemplos de vida mais inusitados/pouco valorizados. Certo, todas estas mensagens são bacanas e necessárias. O problema é que McGinly erra a mão na forma – e não no conteúdo. Assim sendo, além de nos apresentar um filme bastante arrastado e lento, em muitos momentos, o diretor e roteirista tenta nos convencer de uma história bastante surreal, pouco engraçada (sendo que a produção é classificada como comédia) e que emociona mais pelo uso da trilha sonora no final do que por outros recursos.

Sem contar o uso dos estereótipos como principal recurso para dar “profundidade” (leia-se isso com ironia) para os personagens do filme. Vejamos: Troy é o típico rapaz boa-praça que, sem ter muito rumo na vida, decide acompanhar um artista cheio de manias e gênio “complicado” como forma de se inspirar para seu sonhado trabalho como escritor. Ao ler os créditos do filme é que me dei conta de que Colin Hanks não apenas tentava seguir os passos do “eternamente boa-praça” Tom Hanks… sendo filho do astro de Forrest Gump, entende-se como ele se parece tanto com o pai (nos trejeitos e na aparência física). Sendo assim, fica evidente a “forçada de barra” para que um cara um tanto sem graça como Troy consiga “se dar bem” com a única mulher bonita da história, Valerie Brennan (Emily Blunt). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos combinar que nunca, na vida real, um “casinho” de final de semana de turnê no interior dos Estados Unidos entre um cara como Troy e uma garota como Valerie seria levado a sério depois, quando os dois se encontrassem em Los Angeles. Apenas nos filmes do(s) senhor(es) Hanks.

Seguindo com os estereótipos: o artista tão admirado pelas pessoas simples do interior dos Estados Unidos, que ainda guardam na memória suas antigas aparições na tevê, tem que ser um purgante instável, cheio de altos e baixos, muquirana, “duas-caras” (uma para o público, outra para a intimidade) e com um certo problema em “ver a realidade”. Seu empresário, que lhe acompanha há muitos anos, Gil Bellamy (Ricky Jay) é o típico cara que sabe que seu artista está “por baixo”, que não interessa a mais ninguém da mídia, na mesma medida em que tem a noção de que não deve jamais falar sobre isso com ele. Gil não investe mais na carreira de Buck porque sabe que não há muito que fazer com um artista que parece ter “parado no tempo”.

Mr. Gable, o pai de Troy, veste a roupa do “homem de família” que desaprova qualquer manobra do filho por terrenos perigosos – como é o caso de empregos que não tenham um cartão-ponto para ser batido no final do expediente. E Valerie é a típica “mulher moderna” que trabalha em um ambiente competitivo, dominado por homens, que bebe sempre que não está trabalhando, vive sua “liberdade sexual”… em outras palavras: parece imitar os passos de seus “competidores” masculinos. Fora estes personagens principais, temos a Doreen (Debra Monk) e seu irmão Kenny (Steve Zahn), mais dois estereótipos do que seriam as pessoas “do interior” dos Estados Unidos – neste caso, de Cincinnati. Doreen e Kenny são dois interioranos loucos para estar perto do “astro” que saiu na tevê e, no caso de Debra Monk, a atriz ainda explora o estereótipo da mulher que jura (e quer demonstrar) que tem talento artístico. Certo que os estereótipos normalmente trabalham com idéias reais, mas o problema quando um filme se limita apenas a eles é que tudo fica mais pobre de sentido e significado – sem contar que tais idéias, que não são as únicas da realidade, se tornam ainda mais reforçadas.

Mas para não dizer que tudo em The Great Buck Howard se resume a problemas, a reflexão e a ironia do filme em relação ao showbusiness é algo interessante. A necessidade de Buck em seguir o seu trabalho e sua preocupação em voltar a sair na mídia são aspectos realistas da vida de artistas que não aparece muito nos filmes. Acompanhamos apenas o resultado do trabalho de assessores de imprensa, empresários e especialistas em marketing através da mídia, mas ficamos sabendo pouco sobre a luta das personalidades que não conseguem esse espaço.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei especialmente interessante o momento em que Buck Howard deixa de ser um “artista decadente” para ser o novo “queridinho da América”. O que muitos artistas não percebem – e digo isso porque estive “do outro lado” da questão, trabalhando na mídia – é que ninguém aparece sem ter uma novidade para contar. Howard passou grande parte de sua carreira fazendo o mesmo show, sem nenhuma mudança ou inovação. Como ele esperava ser convidado para os principais programas da televisão sem ter nada de novo para contar? Sem nenhum “interesse” por parte do público, que cada vez mais tem uma nova celebridade para acompanhar, Howard não conseguiu ressurgir mesmo quando fez um número novo e excepcional. Mas ao entrar em colapso, virou notícia na “sociedade do espetáculo”. E como um canal de televisão puxa ao outro, o artista virou a “nova antiga celebridade” do momento. Interessante reflexão.

Também achei interessante a homenagem do diretor e roteirista para os artistas que buscam colocar um pouco de “magia” e mistério na vida de seu público. Nos créditos finais de The Great Buck Howard, McGinly cita nominalmente a O Incrível Kreskin, autoproclamado o “mais conhecido mentalista” do mundo. Bonito. Kreskin, nascido nos Estados Unidos em 1935, se tornou muito popular através de um programa na TV norte-americana na década de 1970. Também interessante a idéia mantida pelo filme de que os artistas que fazem essa “magia” continuar maravilhando ao público não são aqueles que aparecem constantemente nos programas de Conan O’Brien, Regis Philbin, Jon e Martha Stewart ou Jay Leno. E sim os que percorrem quase anonimamente as cidades de todo um país, algumas vezes se apresentando para um grande público, outras vezes, para poucas pessoas. Esta homenagem vale o filme, assim como a interpretação normalmente magnética e excepcional de John Malkovich.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os créditos deste filme são gigantescos. Além dos atores e das personalidades da tevê citadas anteriormente, há muitos outros na lista. Como The Great Buck Howard é praticamente um “road movie” artístico, ele está cheio de coadjuvantes e de pequenas pontas. Além dos atores já citados, queria comentar sobre a participação de Adam Scott como Alan, o assistente de Buck Howard antes de Troy; Patrick Fischler como Michael Perry, um dos empresários de Las Vegas interessado no show do artista; Don Most como o produtor do programa Tonight Show; e Griffin Dunne como Jonathan Finerman, um conceituado roteirista e apresentador de tevê. Menção especial para a divertida aparição do ator George Takei, conhecido pelo personagem de Sulu em Star Trek e, recentemente pela série Heroes, na história.

Gostei bastante da trilha sonora de Blake Neely. Ela acaba sendo fundamental para conduzir o filme, especialmente nos momentos em que o roteiro e até os atores parecem um tanto incapazes de dar a devida “emoção” para a história. O trabalho de Neely acaba fazendo isso por eles – inclusive no “grand finale”. Também achei interessante a apresentação do Clap Your Hands Say Yeah (aqui a página deles no MySpace) no filme. Ficou bacana – e reforçou a idéia de “artistas que se apresentam em qualquer lugar por amor à arte”. Na parte técnica, gostei ainda dos trabalhos do diretor de fotografia Tak Fujimoto e da edição de Myron I. Kerstein.

Como a história mesmo sugere, The Great Buck Howard foi filmado nas cidades de Los Angeles, Nova York e Las Vegas.

O quinto filme no currículo do diretor Sean McGinly estreou em janeiro de 2008 no Festival de Sundance. De lá para cá, ele participou de outros dois festivais e estrou, de maneira limitada, nos cinemas dos Estados Unidos em março de 2009. Sua carreira, pelo visto, ficará mais restrita ao mercado do DVD. A bilheteria do filme comprova as apostas baixas que ele recebeu: nos Estados Unidos, até o início de julho, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 748 mil – nada para os padrões de Hollywood.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7 para o filme – nota essa com a qual eu estou de acordo, ainda que, admito, fiquei entre as notas de 6,5 e 7,5 na cabeça desde que os créditos terminaram. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos com a produção. Eles dedicaram 63 críticas positivas e 24 negativas para The Great Buck Howard, o que lhe garante uma aprovação de 72% – bastante boa para a média do site.

Ah sim, e o papai do protagonista, Tom Hanks, foi tão bacana que, além de fazer uma ponta importante no filme, ainda ajudou a produzí-lo. Isso que se pode chamar de “empurrãozinho” para a carreira do filhão, hein?

CONCLUSÃO: Uma comédia que aposta mais no talento de John Malkovich do que em um roteiro engraçado ou envolvente. Cheio de “boas intenções”, este filme peca por uma introdução totalmente descolada do restante da narrativa – o que cria falsas expectativas. Se visto com paciência, pode agradar aos que buscam histórias “bonitinhas” e sem muita criatividade. Além de um John Malkovich se “sentindo em casa” em mais um papel de “sujeito estranho” que parece viver sobre os “próprios louros”, o filme vale pela trilha sonora fundamental, que dá o tom dramático e envolvente para o filme que a direção e o roteiro não conseguem garantir. O filme deve valer a pena como curiosidade sobre os bastidores do showbusiness e se for encarado como um conto a respeito da busca pelo próprio talento. Mas isso vai depender do gosto – e do tempo – de cada um.