Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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Captain Phillips – Capitão Phillips

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As histórias reais contadas pelo cinema sempre guardam elementos de interesse para o público. Captain Phillips não foge da regra. Neste filme somos apresentados a procedimentos de resistência e de ataque no mar, o que garante a parte da ação. E também a uma história emocionante, de um sujeito que comum que é muito bom no que faz e que vive períodos de tensão extrema. De quebra, existe de fundo um debate interessante sobre o abismo social que existe no mundo – e que, surpresa para o espectador, também coloca em posições opostas algumas pessoas no mar.

A HISTÓRIA: Na cidade de Underhill, em Vermont, o capitão Richard Phillips (Tom Hanks) se prepara para zarpar em mais uma viagem no dia 28 de março de 2009. Ele adiciona na bagagem o documento de marinheiro mercante e uma foto de família. A mulher dele, Andrea (Catherine Keener) acompanha o marido no carro e diz que, ao invés destas viagens ficarem mais fáceis conforme o tempo passa, elas parecem mais difíceis. No caminho até o aeroporto, o casal fala sobre os dois filhos.

Andrea está preocupada que tudo parece estar mudando muito rápido, enquanto Richard se diz preocupado com o mercado de trabalho, muito mais exigente que antigamente, o que poderá tornar o caminho de um dos filhos, Danny, que anda matando aula, muito mais difícil. Depois, acompanhamos a jornada do capitão Phillips em mais uma viagem. Que diferente das outras, será interrompida por piratas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Captain Phillips): Um bom roteiro faz toda a diferença. Recentemente eu comentei isso por aqui, quando falei de Gravity, um dos fortes candidatos em várias categorias do próximo Oscar. Enquanto no filme estrelado por Sandra Bullock falta um texto melhor, em Capitan Phillips o trabalho de Billy Ray sobre o original de Richard Phillips e Stephan Talty é exemplar.

Não é fácil adaptar para o cinema uma história em que sobram dados técnicos e que mexe com um tema que pouca gente se importa: a batalha entre grandes empresas comerciais, sediadas em países ricos, e os pobres coitados do litoral africano. Não tenho ideia de como o trabalho de Phillips e Talty se desenvolvem no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, que inspirou o filme. Mas sei que Ray conseguiu dividir bem os momentos de ação, que cercam grande parte da trama, com vários de tensão e um final arrebatador.

Claro que apenas um ótimo roteiro não adianta. Quantos filmes você já assistiu que até tinham um bom texto, mas que decepcionaram com a escalação e/ou atuação do elenco? Pois bem, outra qualidade de Captain Phillips foi a escolha do protagonista e do principal coadjuvante. Não é por acaso que muitas bolsas de apostas apontam boas chances de indicações para o Oscar para Tom Hanks e Barkhad Abdi (Richard Phillips e Muse, respectivamente).

Mas vamos falar do filme propriamente dito. Primeiro, achei importante que o roteiro de Ray apresenta rapidamente, e na sequência, as realidades de Phillips e Muse. Afinal, eles seriam as principais figuras da queda-de-braço que acompanharíamos nesta produção. Somos apresentados a eles e ao local em que eles vivem, e pouco mais que isso. A ideia do roteiro é não perder muito tempo com a história de vida de cada um deles – afinal, quanto menos soubermos, maior o nível de incerteza sobre as suas motivações, sobre a formação que tiveram para aqueles momentos de tensão e sobre o que eles podem temer perder.

Claro que seria interessante sabermos mais de cada personagem, para termos uma contextualização maior da vida dos protagonistas. Por outro lado, é acertada a escolha do roteirista em deixar esta lacuna no filme porque ela, como afirmei há pouco, alimenta a dúvida no espectador. Para quem gosta de ação, Captain Phillips não demora muito para desenvolver as situações de conflito.

Achei interessante como Muse, apesar de ser o cara que escolhe a tripulação para as missões de ataque a navios cargueiro, tem uma posição frágil no grupo. É possível perceber a tensão entre os piratas desde o início. E como Muse não é um cara forte, ele não impõe a autoridade naturalmente. Mas conforme o filme se desenvolve, percebemos que ele sabe agir nos momentos precisos porque é inteligente e também sabe ser violento.

De qualquer forma, desde o princípio, e isso é um elemento importante, percebemos que existem discordâncias e rivalidades entre os homens que vão atacar o navio comandado por Phillips. E no próprio navio cargueiro também existem divergências – mas elas são de outro tipo. E aqui fica evidente o abismo que separa os dois lados desta história: enquanto os piratas ameaçam agressões por quase nada, como uma “encarada” em momento errado, os tripulantes do navio Maersk Alabama discordam por estarem em uma situação frágil, sem armas, e tem em alguns sindicalizados a figura do protesto. Que facilmente é contornado – muito diferente da realidade de Muse.

Com o desenrolar do filme, observamos procedimentos e um linguajar técnico desconhecidos dos leigos. Um elemento a mais de interesse na história e que não chega a pesar porque o filme logo parte para a ação do ataque de quatro piratas ao navio Maersk Alabama. Mesmo inicialmente parecendo improvável que quatro caras armados em uma lancha conseguiriam render um navio cargueiro gigante como aquele, Captain Phillips comprova que a tarefa não é tão difícil para homens que conhecem o mar e que encontram pela frente pessoas desarmadas.

Mas do lado do navio Maersk Alabama existe a figura do capitão Phillips. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A postura dele é fundamental para que o ataque dos piratas seja frustrado. Ele ganha a disputa nos detalhes, mandando a tripulação esconder-se no local correto, deixando o rádio aberto para que eles soubessem por onde ele seguiria levando os bandidos para percorrer o navio e avisando Shane (Michael Chernus) da chegada deles no local em que eles guardavam os alimentos. Também é fundamental a dica sobre a armadilha com vidros estilhaçados.

A calma de Phillips e os atos inteligentes nos momentos de crise são fundamentais para que a história se reverta a favor da tripulação do cargueiro. Mas a mesma inteligência o espectador não percebe nos companheiros de Phillips. Afinal, como eles conseguiram fazer aquela trapalhada na troca de Muse por Phillips? A ação deveria ter sido outra, mesmo com o nervosinho Bilal (Barkhad Abdirahman) a ponto de sair atirando para todos os lados.

E daí começa o segundo round de tensão no filme. Sabemos que será quase impossível que aquele plano de Muse dê certo. E conforme o filme vai passando, e entram em cena a Força-Tarefa Combinada 151 das Forças Marítimas Combinadas e, na sequência final, os SEALs (força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), essa sensação fica ainda mais clara. Inicialmente, a impressão do espectador é que Phillips vai sobreviver – afinal, ele é o “mocinho” e não teria graça o filme terminar com a morte dele.

Mas dois elementos me deixaram com uma boa dúvida sobre esta certeza perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que Phillips tenha sido esperto em dizer em que local ele estava sentado no bote baleeiro, as confusões armadas com a tentativa de fuga dele e com o nervosismo do violento Bilal fazem ele ficar fora daquele local, aumentando as chances dele levar um tiro de quem foi para lá salvá-lo. E quando ele começa a escrever uma carta para a família… achei aquele um péssimo sinal. Logo imaginei que o filme terminaria com a morte dele e com Andrea lendo a mensagem final do marido. Detalhes sobre a captura dele poderiam ser passadas pelo oficial que fez filmagens da baleeira e com relatos de outras testemunhas. Essa dúvida na reta final ajuda o filme a alimentar a tensão do espectador – o que reforça a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de Hanks na catarse derradeira.

Deu gosto de ver uma trama tão bem escrita e com uma direção primorosa de Paul Greengrass. O diretor se firma, mais uma vez, como um especialista em filmes de ação. O ritmo não cai neste filme, e mesmo quando vivemos momentos de “baixo estímulo”, como podem ser algumas sequências dentro do barco baleeiro, as dúvidas sobre o que a tensão entre os personagens pode desencadear e a movimentação das equipes de resgate não deixam o filme ficar arrastado. Em diversos momentos a trilha sonora de Henry Jackman se mostra fundamental para a história, assim como o excelente trabalho do editor Christopher Rouse.

Tom Hanks e Barkhad Abdi duelam nos olhares, nos silêncios e nos diálogos. Mas é o personagem de Muse que tem algumas das tiradas mais brilhantes. Achei ótimas, em especial, as seguintes: quando Phillips diz que eles tem US$ 30 mil no cofre do navio cargueiro e oferece este dinheiro para os piratas, Muse pergunta se Phillips acha que ele é um mendigo (hahahahaha); e outra é quando ele diz “eu amo os EUA” após ser rendido na casa de máquinas.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que faltou apresentar para o espectador a repercussão daquele evento nos Estados Unidos e na comunidade mundial. Afinal, os SEALs entram em cena e tem a ordem expressa de impedir que aquele sequestro terminasse na costa somali porque o caso teria tido um grande repercussão. Sem vermos isto na prática, fica um pouco difícil acreditar que o sequestro de um capitão renderia uma mobilização tão grande.

Além de um ótimo filme de ação, Captain Phillips explora a desigualdade absurda de condições que encontrávamos no mundo em 2009 – e que continua seguindo válida agora, quatro anos depois. Em mais de uma ocasião Phillips observa os atos dos sequestradores e questiona o que eles, especialmente para Muse e para o mais jovem do grupo, Elmi (Mahat M. Ali), estão fazendo. Há um momento emblemático no questionamento, quando Phillips diz que Muse pode fazer algo diferente além de ser pescador (após o sequestrador dizer que os barcos internacionais acabaram com a pesca dos somalis) ou sequestrador. No que Muse responde que há outras opções nos EUA, mas não ali.

De fato, é difícil dizer para um jovem que vive na favela ou em locais como a Somália de que existem muitas opções no mundo. São ótimas as histórias de quem vence as mazelas e as condições precárias e consegue vencer na vida, seguir um caminho dos sonhos. Mas elas são muito raras, e sabemos disso. Por mais que não queiramos muitas vezes admitir. Por isso mesmo, acredito que muitos espectadores vão simplesmente torcer por Phillips e desejar que os sequestradores sejam mortos. Porque para estas pessoas a norma ideal é aquela de “bandido bom é bandido morto”.

Mas acho que este filme quer apontar outro sentido. Phillips não tenta apenas sobreviver, mas ele tem vários gestos de pura humanidade – especialmente com o ferido Elmi. E ele não faz isso apenas porque acha que deve dobrar os sequestradores. De fato ele pensa no abismo que lhes separa. Nunca fui e nunca serei da opinião que pessoas em ambientes muito diferentes podem julgar-se umas às outras. Consequentemente, jamais vou achar que “bandido bom é bandido morto”. O que precisamos ou deveríamos fazer, ao invés de alimentar o ódio e a vingança, é agir para romper com estes estigmas de “pobres tem que se ferrar” ou “se virar” enquanto eu tenho uma vida boa.

Apesar de imaginarmos como seria o final de Captain Phillips, ele não é bonito. Tanto é que o próprio Phillips grita “não” quando percebe o que aconteceu. Mesmo ele, tendo passado por tudo o que passou, tendo sido agredido e humilhado, principalmente por Bilal, não desejava a morte dos sequestradores. Uma lição para nós e para quem mais quiser ouvir. Porque enquanto alguns ganharem milhões – inclusive os chefes de Muse – e outros viverem na miséria, vamos ver absurdos acontecerem diariamente neste mundo. Seja em mar, terra ou ar. Captain Phillips não se exime de fazer esta ponderação, o que torna o filme um verdadeiro achado entre as grandes produções de Hollywood.

NOTA: 9,9 9,8 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito em dúvida sobre que nota dar para Captain Phillips. Afinal, logo após assisti-lo, sai do cinema com a sensação de “que maravilha”. Me emocionei com o final, após ser surpreendida por alguns momentos de tensão verdadeiramente bem feitos. Só que eu estava na dúvida sobre dar-lhe um 9,7 ou 9,8… ou então me render à nota máxima. Eu ia dando um 9,8 até que escrevi o final do texto sobre a produção, refletindo sobre o questionamento que Captain Phillips deixa no ar. E mesmo podendo abaixar a nota depois, já que tenho grandes expectativas com 12 Years A Slave, vou me arriscar a dar uma nota bem próxima do máximo por enquanto. ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): No fim das contas, me rendi mesmo ao 9,8. Mas não foi após assistir a 12 Years a Slave, e sim a Dallas Buyers Club. Quem diria!

Captain Phillips começa apresentando dois lugares muito diferentes entre si: Underhill, nos Estados Unidos, onde mora o protagonista, e Eyl, na Somália. Esta última, uma cidade litorânea no país africano, foi considerada em 2008 a Capital Pirata do Mundo devido à alta atividade de sequestro de navios cargueiros feita naquela região. Detalhe: ela ganhou esse título nada honroso um ano antes dos fatos que acontecem no filme. Na cidade de Eyl teria surgido toda uma “indústria” de ataques piratas no Índico, envolvendo sequestradores, mediadores, contatos, casas de prostituição e até um serviço de “comida para levar” destinada a piratas e reféns seguindo um estudo de Miguel Salvatierra publicado na revista Politica Exterior XXIII de março/abril de 2009.

Em certo momento, Muse diz que ele participou de um ataque no ano anterior em que eles conseguiram US$ 6 milhões. Imediatamente Phillips pergunta porque ele segue fazendo sequestros se ganhou tanto dinheiro. O silêncio de Muse deixa claro que ele é apenas mais um explorado naquela indigna indústria de fazer dinheiro com ataques a navios cargueiros. Mesmo comandando as operações ele deve ganhar uma miséria – e os outros então, muito menos. O que faz com que eles nunca deixem de praticar seus crimes. A mesma lógica de quem trabalha para traficantes.

A direção de Paul Greengrass é perfeita. Ele se aproxima de Tom Hanks no início, quando o capitão está preocupado com o navio antes dele partir. Neste momento, a câmera comandada por ele, com o fundamental trabalho do diretor de fotografia Barry Ackroyd, fica próxima de Tom Hanks – logo atrás, no ombro do ator, ou logo à frente. É como se seguíssemos os passos do homem que está no comando. Depois, no momento da ação, ele troca planos gerais com o close dos atores principais e com a dinâmica dos espaços. Uma das melhores sequências, de tantas ótimas de ação, é a do desembarque dos SEAL que pulam de uma avião. Um profissional que conhece bem o próprio ofício.

Muse, Bilal, Najee (interpretado por Faysal Ahmed, que fica marcado no filme por comandar o barco baleeiro) e Elmi escolhem um ótimo navio para atacar. Maersk Alabama estava carregado com 2.400 toneladas de carga comercial. Valia uma verdadeira fortuna.

Interessante como o público da sessão em que eu estava tinha pressa de sair da sala de cinema. Muitos se movimentaram antes mesmo de aparecerem as informações finais sobre a trama. Quase perderam as informações de que Muse foi levado para os Estados Unidos e condenado a 33 anos de prisão pelo crime de pirataria e de que Phillips, mesmo tendo passado por todo o drama que passou, voltou a trabalhar na Marinha mercante no ano seguinte, em 2010. Impressionante a determinação deste capitão. Com seu exemplo, ele nos ensina que alguém que tem uma vocação deve segui-la, apesar das dificuldades, dos riscos e dos dramas.

Esta é uma produção em que Tom Hanks brilha. Durante o filme inteiro mas, especialmente, na sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gente, o que foi aquela entrega do ator ao ser atendido por uma médica? Acredito que ele verdadeiramente se emocionou com aquela cena. E nós vamos com ele, nos colocando em seu lugar ao perceber, pela primeira vez, que ele estava vivo apesar de tudo. Merece ser premiado, sem dúvida. E interessante saber que aquela sequência foi no improviso. Hanks contracenou com a oficial da Marinha na vida real Danielle Albert. Ela foi instruída a seguir um procedimento médico normal mas, por ser muito fã de Hanks, na primeira tomada ela simplesmente travou. Foi aí que Hanks brincou que ele deveria ser o único a estar em estado de choque. E daí filmaram outra vez. E ele fez aquele assombro de interpretação.

Além de Hanks, é importante citar o ótimo trabalho de Barkhad Abdi como Muse. Ele dá uma interpretação bastante realista e humana para o “anti-herói” deste filme.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outros coadjuvantes que acabam tendo certa relevância para a história: David Warshofsky interpreta a Mike Perry, o piloto da casa das máquinas que coloca força total no Maersk Alabama sob as ordens de Phillips; Corey Johnson interpreta a Ken Quinn, que está na sala de comando quando o barco cargueiro é tomado pelos sequestradores e acaba sendo ameaçado de levar um tiro na cabeça; o veterano Chris Mulkey faz John Cronan, o trabalhador sindicalizado que reclama da falta de armas; Yul Vazquez faz o capitão Frank Castellano, da Força-Tarefa Combinada 151; e Max Martini faz o comandante dos SEAL.

Falando na força de elite da Marinha dos EUA, impressionante o preparo dos militares. Não por acaso eles são considerado os “top” da Marinha. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando o comandante dos SEAL percebe onde está a arma de Bilal, automaticamente ele pede para pararem o reboque porque sabe que ele terá que dar um passo à frente. E “pimba”! Problema resolvido.

A trilha sonora de Henry Jackman começa a entrar em ação com mais força a partir da perseguição das duas lanchas de piratas ao navio cargueiro. Momento de quebra da narrativa. A partir daí, ela não sai de cena como elemento importante para a narrativa.

Tem um detalhe que achei interessante. Esta história se passa em 2009. E naquele ano o uso de drones (naves não-tripuladas) já era importante para os EUA. Ele é utilizado para sobrevoar o barco baleeiro quando a Força-Tarefa Combinada 151 está planejando a ação que vai fazer. Hoje, mais do que naquele ano, os drones são usados a rodo para várias operações, inclusive de ataque, feita pelos EUA mundo afora.

Agora, teve um momento do filme que eu achei que a Força-Tarefa Combinada 151 fez uma verdadeira “babada”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Phillips tem a ação corajosa de se jogar na água e começa a nadar, eles deveriam ter identificado o capitão e ter acabado com o sequestro naquele momento. Mas não. Literalmente eles “comem poeira” e deixam os sequestradores retomarem o comando. Uma grande tropeçada.

Da parte técnica do filme, tudo funciona muito bem. Além do show de direção de Greengrass, da envolvente trilha sonora de Jackman e da ágil e precisa edição de Rouse, vale destacar o ótimo trabalho do já citado diretor de fotografia Barry Ackroyd, além dos efeitos sonoros e visuais que aparecem em cena para ajudar a história – e não para tomar o lugar do enredo sendo mais importante que ele.

Captain Phillips foi rodado em diversos lugares, incluindo estúdios em Malta e no Reino Unido, e com cenas externas em mais de uma cidade dos Estados Unidos, em Malta e nos Marrocos.

E agora, uma curiosidade sobre este filme: em uma entrevista para a rádio NPR, Tom Hanks disse que a primeira vez que ele encontrou os atores que interpretam aos piratas foi quando Greengrass filmou a invasão à sala de comando. O diretor revelou que este contato “tardio” foi proposital, para criar uma tensão real entre os atores “invasores” e os que estavam tendo o espaço “invadido”.

A história real do sequestro do Maersk Alabama foi fundamental para outra obra, a Djibouti, de 2010, lançada pelo escritor Elmore Leonard.

Captain Phillips estreou no Festival de Cinema de Nova York em setembro. Depois, ele participaria ainda dos festivais de Londres e de Tokyo. Até o momento, o filme conseguiu um prêmio e foi indicado a outros dois. Mas, certamente, ele será bem indicado nas premiações dos círculos de críticos de cinema nos EUA e também nas principais premiações norte-americanas. O único prêmio que recebeu foi o de Produtor do Ano para Michael De Luca no Hollywood Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 55 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até a última quarta-feira (dia 13/11), quase US$ 92,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, Captain Phillips conseguiu outros US$ 55,1 milhões.

De acordo com este resumo da Amazon sobre o livro que inspirou o filme, o sequestro do capitão Phillips “dominou a mídia durante cinco dias em abril de 2009”. O romance é narrado em primeira pessoa. Apesar da experiência angustiante, comenta o texto, Phillips permaneceu com a fé inabalável, assim como um “senso de humor infalível”. Phillips tinha 30 anos de experiência no mar quando foi sequestrado na costa somali. No livro, segundo o texto, Phillips apresenta os sequestradores “com compaixão e equilíbrio”.

Procurando saber um pouco mais sobre o assunto, encontrei este texto da Folha de S. Paulo do dia 9 de abril de 2009 que tenta explicar os ataques piratas na costa da Somália. Há algumas informações interessantes ali. Achei informativa também esta resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a “questão da pirataria na Somália” publicada em 2010.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Captain Phillips. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e 12 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,4.

Esta é uma produção 100% EUA. Sendo assim, ela entra para a lista de filmes que eu estou comentando, produzidas naquela país, e que satisfaz o pedido feito por vocês, caros leitores, que votaram nos EUA para uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Não é fácil fazer um filme sobre pirataria na região marítima da Somália. O assunto, por si só, não tem grande interesse para o público. Os ataques começaram há muito tempo e seguem ocorrendo e ninguém parece se importar muito com isso. Assim como com as milhares de pessoas que morrem no mar tentando sair da África para viver na Europa – recentemente o Papa Francisco chamou a atenção para o assunto. Por isso mesmo é impressionante como Captain Phillips funciona tão bem.

Mérito do diretor e dos roteiristas, não há dúvidas. Eles fazem um excelente trabalho, junto com um Tom Hanks comprometido e entregue na interpretação – o que deve lhe render uma indicação ao Oscar. De forma acertada, somos logo apresentados ao “herói” e ao “anti-herói” e seus respectivos “bandos”. Há muitas falas técnicas no filme, mas elas não incomodam, apenas tornam a história ainda mais verossímil. E o principal: Captain Phillips não se revela apenas um ótimo filme de ação, mas também uma produção que aborda questões difíceis de desigualdade social, frieza e humanismo e que, de quebra, ainda emociona. Não há como não se colocar no lugar do protagonista no final. Por ser tão humano, este filme se revela maravilhoso. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não tenho dúvidas que Captain Phillips será um dos filmes indicados na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A dúvida é sobre quantas indicações ele vai receber e se conseguirá levar alguma estatueta para casa.

Como sempre, é difícil opinar sobre as chances de cada concorrente sem ter visto aos principais nomes que estão sendo cotados para a disputa. Então, sem medo de errar, e explicando que ainda falta ter o quadro mais completo, posso dizer que eu acredito que este filme terá pelo menos cinco indicações, com boas chances de chegar a seis e até passar este número.

Para mim, é certo que ele será indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Tom Hanks) e, possivelmente, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e, quem sabe, Melhor Diretor. O crítico Peter Knegt, do IndieWire, também vê como possíveis as indicações de Captain Phillips como Melhor Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Melhor Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som.

De todas estas categorias, francamente vejo ele com boas chances como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator. Tudo vai depender do quanto 12 Years A Slave realmente é bom. Porque vejo os dois filmes concorrendo nas categorias principais. Comparado com outro “favorito” do ano, Gravity, não tenho dúvidas de que Captain Phillips é melhor. Os dois filmes competem, especialmente, nas categorias técnicas.

A Academia e o resto do mundo gostam de Tom Hanks. E faz tempo que ele não ganha um Oscar. Ele tem duas estatuetas na estante de casa: uma por Philadelphia, dada em 1994, e outra, no ano seguinte, por Forrest Gump. Hanks tem ainda outras três indicações – todas como Melhor Ator. Seria bacana ele receber mais um Oscar – que ele merece, especialmente, pelo final de Captain Phillips.

A performance dele é arrebatadora. Mas vai depender muito de vermos os outros concorrentes dele, especialmente Chiwetel Ejiofer por 12 Years A Slave e Leonardo DiCaprio por The Wolf of Wall Street. Há outros nomes bem cotados, mas que eu não acho que tenham o apelo para derrubar Hanks. Logo veremos.