Toy Story 3


O tema de “fundo” desta vez não é adulto ou filosófico. Ainda assim, Toy Story 3 tem um argumento essencial que interessa e emociona aqueles que já passaram da adolescência e deixaram de brincar com os seus “velhos companheiros” de infância. Mais uma vez, a união da Pixar com a Disney produziu uma pequena obra-prima. Um filme impecável na realização e nas mensagens. Toy Story 3 une a agilidade de argumento da Pixar, que ajudou a modificar a indústria, com a preocupação em “belas mensagens” da Disney. Não foi por acaso, claro, que o filme dirigido por Lee Unkrich foi nomeado para cinco Oscar, incluindo a dobradinha de Melhor Filme e Melhor Filme de Animação. Certamente ele ganhará o segundo.

A HISTÓRIA: Um trem corre rápido. Surge da explosão de um de seus vagões, o vilão Mr. Potato Head (com voz de Don Rickles), carregando sacos de dinheiro. Em seguida, o destemido caubói Woody (voz de Tom Hanks) aparece para intimidá-lo. Mas a ameaça dura pouco, porque aparece para defender o marido a Mrs. Potato Head (voz de Estelle Harris). Quando Woody parece ter sido vencido, surge o apoio de Jessie (voz de Joan Cusack) e do fiel cavalo do caubói. Para evitar ser pego, Mr. Potato explode uma ponte e ameaça derrubar o trem cheia de órfãos. A aventura prossegue, com a entrada em cena de Buzz Lightyear (voz de Tim Allen) e de outros personagens. As sequências de aventura fazem parte de uma de tantas outras tardes de brincadeiras de Andy (voz de John Morris). O garoto, agora prestes a ir para a faculdade, deve fazer uma limpa em seu quarto, a pedido da mãe. Neste processo, por acidente, seus brinquedos acabam parando em um orfanato. E a aventura deles recomeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Toy Story 3): Impressionante como a aventura neste filme não para. Diferente dos filmes que antecederam Toy Story 3 nas edições anteriores do Oscar, que tinham muitas qualidades, mas também vários “altos e baixos” narrativos, nesta produção não existem momentos de “baixa”.

Méritos do excelente roteiro de Michael Arndt, baseado em uma história do trio John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich. Mérito também, claro, da direção precisa de Lee Unkrich. Assim, como pede a nova “ordem” dos filmes de animação, Toy Story 3 consegue uma proeza cada vez mais difícil: agradar a crianças de diferentes idades, jovens e adultos. Os menores devem ficar encantados com o colorido e com a ação constante. Os adolescentes devem se identificar com Andy, divididos entre o desafio da vida adulta e suas responsabilidade e as boas lembranças dos velhos companheiros de brincadeiras. E os adultos sentirão um certo saudosismo daquela época em que “tudo era mais fácil” ao mesmo tempo em que celebrarão o cinema bem feito e as mensagens de valorização da amizade e das boas lembranças.

Falando assim, pode até parecer fácil conseguir fazer um filme de animação deste jeito. Mas, claro está, não é uma tarefa nada simples aliar estas diferentes linhas de encantamento e leitura de uma mesma história, qualidade técnica e narrativa. Se fosse simples, teríamos vários Toy Story 3 por ano, mas não é isso o que acontece. Normalmente, um filme de animação consegue agradar apenas a um determinado segmento. Ou consegue ser muito bom tecnicamente, mas falhar em algum ponto da narrativa. Não é isso o que acontece por aqui.

Toy Story 3 consegue ser completo e simples, ao mesmo tempo. Não faz manobras mirabolantes para contar uma boa história. Não tira coelhos da cartola, para dizer de uma outra forma. Não. Unindo o melhor da Disney e da Pixar, o filme tem muita ação, aventura, diálogos que podem ser entendidos por qualquer pessoa, um roteiro bem escrito e que, ainda que linear na maior parte do tempo – com poucas “voltas ao passado” -, nem por isso previsível. Há invenção por aqui. E como explicam os mestres em seus grandes filmes – vide Hitchcock, um dos ícones do cinema -, não importa tanto se o final for surpreendente ou previsível, desde que a “aventura” que o cinema propicia até lá for divertido, emocionante, prender a nossa atenção, como espectadores, todo o tempo. Claro que reviravoltas e finais surpreendentes também são bacanas. Mas de pouco valem se o resto do “corpo” do filme não for convincente e de qualidade.

Então temos ação, drama, romance, comédia, faroeste e um pouco de suspense nesta produção. E os gêneros fluem e mudam com naturalidade e certa rapidez. Não há grandes pausas para reflexão ou para que o espectador puxe o lenço e seque as lágrimas. Isso pode até acontecer, mais perto do final, mas sem interromper o que interessa: a história. Em outras palavras, diferentes de outras produções – sejam elas de animação ou não -, Toy Story 3 não faz pirotecnia e nem deixa evidente a manipulação dos sentimentos e do tempo do espectador. Somos conduzidos pela história com maestria, sem ver o truque dos mágicos.

Não lembro se assisti a Toy Story 2. Mas vi o primeiro. E não há dúvidas que houve uma evolução na grife. Esta terceira parte da saga é muito, mas muito superior à primeira. Não apenas Andy chegou à puberdade, mas a história conduzida pelos brinquedos também. Além de entretenimento, Toy Story 3 trata de valores – como pede o bom e velho estilo da Disney, quando ela não se perde em produções bobas e sem qualidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No roteiro, há espaço para vilões, porque a vida é feita deles. E o filme não mostra um vilão qualquer, alguém estereotipado. Não. O que o espectador tem pela frente é Lotso (com voz do veterano Ned Beatty), um ursinho fofinho que era o melhor dos brinquedos, até que ele fica amargo e vingativo. Uma reflexão interessante sobre a própria essência das pessoas, capazes de guardar, dentro de si, protótipos de “anjos e demônios” – e escolhemos, diariamente, a quem alimentar e deixar pulsar.

Além desta ponderação, Toy Story 3 nos reserva outras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como aquela que perdura toda a produção: a força e a beleza da doação, da generosidade. É triste ver brinquedos acumulando pó e sendo comidos por traças. O filme mostra como o grande objetivo destes objetos, que ganham vida na nossa imaginação e nesta série de filmes, é a de serem brinquedos. Ou, em outras palavras, interagirem com as crianças e seus sonhos e fantasias. Sem isso, eles não tem sentido. O desprendimento é outra das lições deste filme. Assim como a força da amizade e da união, simbolizada pela grande aventura de Woody, Buzz Lightyear e toda a sua turma em retornar para a casa de Andy – eles não conseguiriam aquele feito se não estivessem sempre unidos e se sacrificando uns pelos outros.

Finalmente, Toy Story 3 nos mostra que cada fase da vida tem as suas preciosidades e que, mesmo adultos, não precisamos deixar de ser crianças ou adolescentes. Na verdade, um dos grandes desafios – e uma lição mais difícil de ser aprendida – é entender que carregamos todas as nossas “versões” anteriores conosco. E que não é preciso ser saudosista ou viver no passado para fazer a conexão com estas nossas outras versões, anteriores. Basta dar o devido peso e resgatar os melhores valores de cada época. Para mim, estas foram algumas das reflexões de Toy Story 3. E quantos filmes fazem você pensar em temas como estes, e desta forma? Pois palmas para os responsáveis por este grande filme. Pelo entretenimento e pela arte que ele significa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há um desfile de personagens interessantes nesta produção. E, claro, “por trás” das vozes deles, outro desfile de ótimos intérpretes. Além dos nomes já citados, vale a pena comentar o bom trabalho de Michael Keaton com o personagem de Ken; Wallace Shawn como Rex; John Ratzenberger como Hamm; Jodi Benson como Barbie; Emily Hahn como Bonnie; Blake Clark como Slinky Dog; Javier Fernandez Pena na divertida versão espanhola de Buzz; Timothy Dalton se dando bem como Mr. Pricklepants; Kristen Schaal como a “ligada na internet” Trixie; e Jeff Garlin como Buttercup, fechando a lista de novos brinquedos apresentados por Bonnie.

Citando os personagens do Ken e da Barbie, vale aqui um parênteses. A sequência em que Ken se exibe para a Barbie, mostrando o seu vasto guarda-roupas, é uma das melhores do filme. Enquanto ele se exibe – brincando com a vaidade que define a própria grife -, Barbie apenas pensa em como dará o passo estratégico seguinte. E no melhor estilo do humor da Pixar, genial a cena em que ela “tortura” Ken para conseguir ajudar os seus amigos em apuros. Sem apelar muito para o humor pesado, mas sem evitar a ironia, Toy Story 3 consegue equilibrar os diferentes níveis de leitura e agradar aos diferentes públicos.

Na parte técnica, o filme também é irretocável. Merece destaque, além do diretor Lee Unkrich, o departamento de arte com sete profissionais comandados por Susan Bradley; a trilha sonora rica e alegre de Randy Newman; a edição feita pelo diretor Unkrich e por Ken Schretzmann; a direção de arte de Daisuke Dice Tsutsumi; o departamento de animação com 63 profissionais (sim, 63!) comandados por Michael Stocker; o design de produção de Bob Pauley, e todas as outras dezenas de profissionais envolvidos.

Tanta gente envolvida em um mesmo projeto só poderia significar um custo alto de produção, certo? Pois sim. Toy Story 3 custou a fortuna de US$ 200 milhões. Algo espantoso, sem dúvida, e que poderia render algumas dezenas ou, inclusive, centenas de filmes “independentes”/baratos. E que não fossem de animação, é claro. Porque a verdade é que os filmes de animação atuais, utilizando alta tecnologia e um número tão grande de profissionais, só podem custar uma fortuna – com raras exceções que não passam por grandes estúdios. Mas para ser feito em tão “pouco” tempo e com olhos em ser um grande blockbuster, como é o caso desta produção, só com muito recurso mesmo.

Ainda que tenha custado a fortuna de US$ 200 milhões, Toy Story 3 saiu no lucro. Até o dia 21 de novembro do ano passado, quando saiu de cartaz nos Estados Unidos, a produção tinha arrecadado pouco mais de US$ 414,8 milhões. Mais que o dobro de seu custo inicial. E isso apenas nos Estados Unidos. Segundo o site Box Office Mojo, juntando a bilheteria conseguida nos demais países, Toy Story 3 superou a marca de US$ 1.063 milhões. Em outras palavras, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares – cinco vezes o seu custo milionário. Incrível, não? E merecido, devo dizer. É a grande indústria do cinema gastando horrores, produzindo sonhos e lucrando ainda mais.

A trajetória de Toy Story 3 começou no dia 12 de junho de 2010, no desconhecido festival de cinema de Taormina. A produção passou ainda por outros dois festivais, sem grande relevância, e estreou em todas as partes do mundo até outubro do ano passado.

Antes de assumir a direção de Toy Story 3, Lee Unkrich havia editado os dois filmes anteriores da grife e co-dirigido a Toy Story 2. Unkrich também co-dirigiu a Monsters, Inc. e Finding Nemo. A estreia dele na direção ocorreu em 1995, com a série televisiva Silk Stalkings. Foi o próprio John Lasseter que escolheu Unkrich para dirigir a Toy Story 3.

Algumas curiosidades sobre esta produção: o roteiro de Toy Story 3 demorou dois anos e meio para ser finalizado e para ter o seu storyboard feito; este é o primeiro filme a utilizar o padrão de som Dolby Surround 7.1 que, além dos cinco canais já conhecidos, trabalha com dois extras (“back surround left” e “back surround right”). A sequência inicial do filme, no melhor estilo faroeste, tinha sido pensada para o primeiro Toy Story, mas acabou sendo cortada do original. Toy Story 3 foi o primeiro filme de animação a passar da barreira de US$ 1 bilhão conquistado na bilheteria mundial. A cena em que Buzz e Jessie dançam um tango conta com uma versão de You’ve Got a Friend in Me, do Gipsy Kings.

Até o momento, além de ter sido indicado em cinco categorias do Oscar, Toy Story 3 recebe 18 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os 18 prêmios que levou para casa, 17 foram por Melhor Animação do ano. Além deles, ganhou como Melhor Filme Família pela avaliação da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para a produção. Até agora, a melhor nota para os filmes da grife. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 245 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% – e uma nota média de 8,8 – desempenho inferior ao dos dois filmes anteriores da saga dos brinquedos de Andy.

Ah, e importante observar: não assisti a Toy Story 3 na versão 3D. Mas imagino que, para quem assistiu, deve ter sido uma experiência incrível, certo? Aceito comentários nesta página. 🙂

CONCLUSÃO: Cinema é diversão, entretenimento. Especialmente o cinema de animação. Mas há algum tempo, este cinema não é apenas isto. Com esta premissa, Toy Story 3 cumpre as suas funções com perfeição. Antes de mais nada, é um filme movimentado, cheio de ação, do início até o fim. Depois, ele tem os seus momentos de “pausa para a emoção” – e, até, para leves reflexões/saudosismos. De quebra, a produção deixa uma ou duas mensagens para o espectador pensar. Primeiro, sobre a força e a importância da união, dos amigos, da família. Depois, deixa a mensagem de que honrar o passado, agradecer aos momentos bem vividos, é um dos gestos mais sábios que alguém pode ter. Olhar com carinho para os seus brinquedos preferidos não é render-se ao consumismo. Pelo contrário. É valorizar uma época de fantasia, de imaginação solta. E se a pessoa consegue fazer isso da forma correta, quem sabe, pode até manter aquela “criança” sempre viva. Ao roçar nestas ideias, Toy Story 3 é, sem dúvida, uma das melhores animações dos últimos tempos – para dizer o mínimo. E ganhará, com todo o mérito, o Oscar que lhe é devido. Assista, se você ainda não fez isso até agora. O filme merece – e a sua infância “esquecida”, também.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Como eu disse antes, Toy Story 3 foi indicado em cinco categorias do Oscar deste ano. Uma grande conquista. Mas ele não terá chances de fazer história e ganhar o Oscar principal, de Melhor Filme. Não sei se, um dia, Hollywood terá coragem de entregar um Oscar destes para uma animação mas, sem dúvida, isso não ocorrerá desta vez. Toy Story 3 vai ganhar sim na categoria de Melhor Animação. Mesmo que os outros concorrentes sejam muito bons – não posso falar a respeito porque ainda não os assisti -, não vejo concorrência para Toy Story 3. Não apenas pela grande bilheteria que o acompanha, mas porque o filme é muito bem feito mesmo.

E nas demais categorias, quais as chances de Toy Story 3? Acho que ele tem boas chances em Melhor Canção Original. Mas, para levar a estatueta para casa, ele terá que derrubar a forte concorrência de If I Rise, canção de Dido, A.R. Rahman e Rollo Armstrong. Acredito que eles sejam os favoritos na disputa. Mas eis uma categoria bastante aberta a surpresas. Na disputa de Melhor Edição de Som, por mais que o trabalho em Toy Story seja bem feito, não imagino ele ganhando de Inception, por exemplo. Ou mesmo de Unstoppable. Toy Story 3 corre por fora desta vez. E chegamos a Melhor Roteiro Adaptado: difícil, mais uma vez. Este parece ser o ano do ótimo texto de The Social Network. Sem ser o roteirista Aaron Sorkin ganhando a estatueta, vejo mais 127 Hours ou True Grit disputando as honras do que Toy Story 3. E não porque o roteiro do filme não seja bom. Pelo contrário. Mas os seus concorrentes são melhores.

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3 thoughts on “Toy Story 3

  1. MANO PORQUE VCS Ñ COLOCOU DE 700 MB VCS SÓ COLOCA DE 1GB ISSO É DIFICIO PRA BAIXAR FAZ UM QUE SEJA DE 700………….. OU DE 800 ATE AIE QUE SEJA DOWNLOAD DE UNICA PART ……………………. VALEU XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTTT AGRADECE

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  2. Oi herick!

    Então, cá entre nós, não entendi bulhufas do que você falou. Afinal, aqui não tem nenhum “mano”, muito menos arquivos de 700 Mb ou de 1 Gb. Mas vai que estavas usando o blog para dar recado para alguém que eu não conheço… então resolvi deixar assim mesmo e não te contrariar.

    Espero que em uma próxima vez você apareça para comentar algum filme que tenhas gostado ou fazer um comentário que faça mais sentido para mim e para a galera.

    Abraços e inté!

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  3. Maravilhoso, o que 10 anos de idade menina gostei, minha pequena gostei e tenho certeza que assim como milhões de pessoas. Para mim, foi inesquecível e maravilhoso, acho que a espera valeu a pena, sem dúvida que Toy Story 3 é um dos filmes infantis que marcaram jovens e velhos, uma mistura com alguma emoção foram a combinação perfeita para não apenas entreter o público, mas também para cativar. Ótimo, ótimo filme que não me canso de dizer isso.

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