Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2016 Saga Star Wars Votações no blog

Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2012

Extremely Loud & Incredibly Close – Tão Forte e Tão Perto

Como ensinar o seu filho, que tem medo de tomar determinadas atitudes que você tomava na idade dele sem pestanejar, a aventurar-se? E como uma criança deve lidar com o pior dos acontecimentos? Quando eu soube que Extremely Loud & Incredibly Close resgatava alguns dos sentimentos que circundaram os ataques ao World Trade Center, e que um garotinho narraria a história por sua ótica, fiquei com o pé atrás. Seria este mais um dramalhão? Outra desculpa para Hollywood fazer chorar com o seu drama, muito legítimo, do 11 de Setembro? Para a minha surpresa, este filme é mais que um dramalhão. Ainda que ele seja pensado para fazer o espectador chorar, ele também guarda algumas boas ideias e reflexões. Mais do que eu esperava (sim, minha expectativa era bastante baixa).

A HISTÓRIA: Um homem parece voar. O menino Oskar Schell (Thomas Horn) olha fixo para a frente e reflete sobre como, atualmente, um número maior de pessoas vive mais tempo, enquanto aumenta também o número de mortos. Ele comenta que se aproxima o dia em que não haverá mais espaço para enterrar tanta gente, e que será necessário construir edifícios submersos, cidades inteiras sob a terra para colocar estas pessoas mortas. Da imagem dele no quarto, saltamos para vê-lo no carro com a avó (Zoe Caldwell). Oskar assiste dali um enterro, e pergunta para a avó se ninguém sabe que o caixão está vazio. Ele não vê sentido no que chama de “funeral falso”. O garoto sai do carro e senta em um banco. Olha para a cidade, Nova York, e lembra do melhor dos desafios lançado por seu pai, Thomas (Tom Hanks): o sexto bairro da cidade. A partir daí, acompanhamos a rotina da família de Oskar, e sua busca pelo legado do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Extremely Loud & Incredibly Close): A primeira qualidade que eu vi neste filme foi a busca do roteirista por destacar a missão de um pai em despertar a curiosidade e o encantamento de um filho. Algo muito bacana em Extremely Loud é que os “segredos” do filme vão sendo contados aos poucos. Para começar, não sabemos até que ponto aquele menino está ou não fora da curva. Ele é apenas muito inteligente ou tem alguma doença ou distúrbio? Também ficamos sabendo logo que o pai do menino morreu, mas demora um pouco para sabermos como foi esta morte.

Esta é uma ótima vantagem da história. O roteiro de Eric Roth, sem dúvida, é o ponto forte do filme. Ele destilou alguns diálogos simplesmente geniais – todos proferidos pelo protagonista. O garoto Thomas Horn também segura muito bem a responsabilidade e a complexidade de seu papel. Em alguns momentos, e falarei deles depois, ele chega a irritar. Mas isso, antes de mais nada, é uma responsabilidade do roteiro. Roth é o que o filme tem de melhor mas ele é, também, o responsável por suas derrapadas.

As dúvidas sobre a origem de toda aquela genialidade do menino duram exatos 30 minutos. Quando o filme chega neste ponto, Oskar conta sobre a origem de sua personalidade diferenciada para Abby Black (Viola Davis). Os minutos até ali guardam o tempo mágico do filme, quando ele funciona muito bem. Naquela meia hora, vemos a parceria entre Horn e Tom Hanks. O ator veterano e premiado incentiva a criatividade e a imaginação do filme. Pode parecer loucura, mas cheguei a ver, neste trecho, o mesmo incentivo ao encantamento e à imaginação feito por The Artist e Hugo, mas sem que o tema cinema fosse o foco desta vez.

Os jogos entre o pai e o filho foram mostrados de uma maneira encantadora. E se encaixam com perfeição para o novo desafio de Oskar, depois que o pai dele já tinha morrido. Com sua maneira peculiar de raciocinar, Oskar tenta reconstruir os minutos que separaram as mensagens deixadas pelo pai e o final de sua vida. O garoto demora um ano para entrar no quarto do pai e buscar “pistas” que ele pode ter deixado para ajudar o filho a entender o que aconteceu. Na tentativa de pegar uma máquina fotográfica, ele encontra uma chave, misteriosa. Referência bastante simbólica, pois. Decifrar o que aquela chave é capaz de abrir poderia ser o último jogo entre pai e filho, e essa possibilidade passa a mover Oskar.

Antes do minuto 30, o espectador dá risadas com a personalidade diferenciada de Oskar. Com os preparativos dele para sua nova e maior aventura. Mas pelas mesmas linhas do roteiro de Roth, o espectador também fica assustado com a lista de coisas simples que o menino acha complicado fazer, experiências que ele não consegue vivenciar – especialmente as listadas quando ele começa a buscar os Black pelas ruas de Nova York. Isso tudo seriam efeitos do trauma da perda do pai? Faria sentido… E daí surge um dos melhores momentos do filme, aquele em que Thomas estimula Oskar a experimentar a sensação de usar um balanço.

Este momento é a grande sacada de Extremely Loud. Afinal, ele nos faz refletir sobre esta geração pós-11 de Setembro. As crianças estão contaminadas com o medo que reinou no mundo logo após os ataques às Torres Gêmeas? Se estão, como incentivá-las a se arriscarem, a fazerem algo com a esperança de ter um futuro melhor? Como quebrar o medo da queda, de machucar-se, para que elas possam viver aventuras e sentir prazer em coisas simples? Até o minuto 30, estes parecem ser os questionamentos que começam a ser esboçados em Extremely Loud. A chave, os medos do garoto, tudo parece ser uma forma sugestiva de tratar de outros temas, mais profundos. Pena que isso mude pouco depois.

Porque quando Oskar conversa com a primeira pessoa Black que ele encontra, ele explica a origem de seus temores e de sua inteligência fora do comum: o garoto tem a Síndrome de Asperger. Essa informação é fundamental para entender o que se passa. Por isso mesmo, para o meu gosto, ela poderia ter sido dada muito depois – pela metade do filme, por exemplo, sem prejuízos para a história. Manteria o suspense e as leituras diferenciadas por mais tempo. Isso porque, ao saber que o menino tem Asperger, sabemos a origem de tudo.

Essa síndrome, mais comum entre garotos, é uma variação do autismo. Ela faz os portadores terem uma relação diferenciada com tudo. Uma das características da síndrome é que a criança desenvolve um interesse excessivo por determinados temas, concentrando toda a sua atenção e conversas nestes assuntos de interesse. Ela permite que a pessoa desenvolva um conhecimento profundo sobre aquilo que lhe chama a atenção mas, ao mesmo tempo,  dificuldade em lidar com outros temas que repudia. Reações ao extremo, pois. Isso explica totalmente Oskar, verdade?

Talvez uma boa parte dos espectadores não entenda isso logo de cara e pode ter ido buscar informações sobre a Síndrome de Asperger depois do filme terminar. Mas graças a Mary and Max, comentado aqui, a minha ficha logo caiu. E daí as outras leituras do roteiro evaporaram. Ainda assim, o texto de Roth e a ótima direção de Stephen Daldry seguram a atenção até o final.

Alguém pode ter se perguntado: “Mas caramba, não teria sido muito mais fácil Oskar perguntar para a mãe se ela sabia o que aquela chave poderia abrir?”. Claro, teria sido mais fácil. Mas no contexto do filme essa saída mais prática não faria sentido. Primeiro porque aquela busca era tudo que Oskar precisava para perdurar aquelas lembranças do pai, a sensação que ele passou a ter de que Thomas continuava lá, jogando com ele. Depois que para um portador da Síndrome de Asperger a lógica é sempre diferente do que a de uma pessoa comum. Para Oskar a mãe não teria a resposta, e seria uma bobagem perguntar isso para ela.

Claro que nós, adultos, duvidamos que aquilo poderá chegar a algum lugar. Torcemos, claro, porque o roteiro foi feito para isso, para que o espectador cruze os dedos para que aquele garoto consiga encontrar a resposta que ele tanto deseja. Mas daí lembramos daquelas frases famosas… “Um homem viaja o mundo à procura do que ele precisa e volta para casa para encontrar” (de George Moore), “Viajar é fazer uma jornada para dentro de si mesmo” (Dena Kaye) e, principalmente, aquele clássico de que o viajar é mais importante que chegar no destino.

Sim, porque Oskar vai colecionando histórias, alegrias e dores de pessoas com o sobrenome Black pelo caminho. Mesmo o foco dele estando na fechadura que seria aberta por aquela chave, ele aprende um bocado no caminho – especialmente quando a mãe dele, Linda (Sandra Bullock) repassa todas aquelas histórias com o menino, uma a uma. E daí surge a única reflexão que justifica o filme fazer referência ao 11 de Setembro – além daquela anterior, sobre a questão do medo das gerações mais jovens. A de que, apesar do que todos nós sabemos que cada uma das 2.606 pessoas mortas nos ataques às Torres Gêmeas farão falta, que cada uma de suas famílias entrou em luto e teve que batalhar para sair da dor, existem tantas outras histórias parecidas, de dor e de perdas, espalhadas por aí…

O filme não minimiza a tragédia do 11 de Setembro. Pelo contrário, mostra em detalhes o impacto que um fato como aquele pode ter na vida de uma família – e, em especial, no cotidiano de um menino como Oskar, com a Síndrome de Asperger. Mas também dimensiona o fato com um pouco de distanciamento, mostrando que tantas outras tragédias pessoas antecederam e continuam acontecendo em diferentes bairros de Nova York e, além daquele cenário, no mundo. Essa sim, parece uma reflexão com a marca do diretor, Stephen Daldry.

Pessoalmente, acho que o filme teria ganho mais pontos se contasse a história do menino, de sua perda e de sua busca pelo legado do pai sem colocar a tragédia do 11 de Setembro no meio. Compreendo a necessidade dos Estados Unidos de continuar retratando aquela dor e plasmando ela no cinema para a posteridade. Mas acho que o tema já está muito desgastado. Focar um garoto com a Síndrome de Asperger, tornando esta doença um pouco mais conhecida, é uma grande sacada. O restante… bem, ainda que aumente o drama e a tensão, achei um bocado desnecessário. E que aí sim, devo concordar, leva o filme ao patamar do melodrama. Não fazia falta.

Para finalizar, mais um detalhe sobre a busca do garoto. Interessante como ele tenta achar lógica no que aconteceu. Mas a mãe dele, lá pelas tantas, em uma das sequências que eu achei mais forçadas do filme, fala para o menino, aos berros, que é impossível chegar a uma explicação lógica para o que aconteceu. Para Oskar, esse é o maior drama. Porque o mundo precisa de lógica.

Difícil para qualquer mãe ou pai explicar para o filho ou filha que, muitas vezes, não há lógica, realmente. Explicações sempre existem. Mas, ainda assim, não há lógica. Como neste caso do 11 de Setembro. E em tantas outras perdas de familiares. De qualquer forma, e bastante sem querer, Oskar encontra a sua resposta final. E segue a vida. Eis a grande mensagem do filme, de que a vida continua, por mais absurdos que sejam alguns fatos.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes sobre os fatos um tanto irritantes da produção. Thomas Horn faz um grande trabalho, mas os momentos de descontrole de seu personagem, quando ele surta e atira coisas enquanto grita, acabam irritando. Eu sei, crianças agem assim em alguns momentos. Isso poderia ter acontecido uma vez no filme, sem maiores problemas de irritação. Mas repetir a cena, apenas para reforçar o drama e a empatia do espectador, foi forçado.

Gostei muito do trabalho do veteraníssimo Max von Sydow. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para alguns, foi irritante aquela infindável exposição de bilhetes do avô de Oskar. Eu não achei exagerados. Eles foram inteligentes, alguns inusitados. E Sydow consegue tornar o personagem interessante, conseguindo afastá-lo da provável caricatura. Não é difícil matar este mistério. Um espectador um pouco mais atento descobre a ligação entre o hóspede da avó de Oskar e o garoto muito antes do próprio menino verbalizar a sua conclusão. Isso não estraga o filme, como o restante das surpresas reveladas antes da hora. Mas por ser previsível, poderia ter sido desvelada antes, talvez.

Viola Davis é um monstro. O papel dela neste filme não é muito grande e, mesmo assim, ela arrebenta. Não adianta, esta atriz se diferencia da maioria de sua geração. Está na hora, realmente, dela ganhar um Oscar. Por tudo que apresentou até agora em uma carreira relativamente curta, que soma quase 16 anos – e feita, no início, principalmente por trabalhos em séries para a TV.

Algo que irrita um pouco também nesta produção tem a ver com a personagem de Linda Schell. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Convenhamos, alguém engoliu aquela versão de que a mãe de Oskar poderia ser tão ausente ao ponto de deixar o filho sair a qualquer momento, com a desculpa esfarrapada que fosse, e tudo bem? Aquilo não se encaixava e a explicação final apenas ajustou algo que parecia absurdo. Não, aquela mãe não era tão desnaturada e nem estava tão imersa na própria dor a ponto de abandonar o garoto. Aliás, Roth poderia ter deixado pelo menos essa dúvida um pouco mais séria. Se mostrasse a mulher deprimida, por exemplo, ou entregue a algum vício, talvez pudesse ter preservado o suspense até o final. Do jeito que ele explorou a história de Linda, ficou só estranha aquela ideia do “abandono” – pelo menos até o final, redentor. Por outro lado, a explicação sobre os atos de Linda só tornou ainda mais evidente qual era a função daquela chave: provocar uma busca que não distanciou Oskar de Linda, mas que os aproximou e fez ambos superarem melhor o luto.

Muito inteligente o personagem de Thomas Schell. Com os jogos e desafios que ele propunha para o filho, sabendo que Oskar gostava daquelas “pesquisas”, ele estimulava o garoto a explorar a cidade e a interagir com as pessoas. Tentando minimizar o risco do isolamento social do menino.

Stephen Daldry é um grande diretor. Aqui, mais uma vez, ele ganha pontos pelos detalhes. Primeiro, pelo ótimo trabalho desenvolvido com o garoto Thomas Horn. Ele consegue tirar o melhor do menino, que é um estreante. E esta não é a primeira vez que ele consegue fazer isso. No ano 2000, ele revelou para o mundo o talento de Jamie Bell no lindo Billy Elliot. O diretor ganha o espectador também nos detalhes. Na busca do melhor ângulo da câmera e na captura das nuances da cidade, como quando ele foca Oskar do alto, mostrando uma revoada de pássaros abaixo da câmera e sobre o garoto. Por estas e por outras que Daldry é um diretor diferenciado.

Além dos atores já citados, vale citar John Goodman em uma super ponta, como o porteiro Stan, um tanto cômico – mas com uma participação fundamental para a história. Jeffrey Wright também faz uma ponta na história, aparecendo quase no final do filme – pelo menos com alguma relevância porque, antes, ele nem dá “as caras” direito – como William Black, ex-marido de Abby.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho sempre acima da média de Alexandre Desplat na trilha sonora. Ele embala o drama e as aventuras de Oskar com precisão. Maximiza a mensagem da produção. A direção de fotografia de Chris Menges também valoriza o trabalho de Daldry, destacando Nova York com cores sérias e um tanto efêmeras. Finalmente, bom o trabalho de edição de Claire Simpson.

Extremely Loud & Incredibly Close se justifica de várias formas. Pelo sentimento do menino, cada vez que ele sai de casa e, com sua aventura, sente-se mais próximo do pai, enquanto parece tornar-se mais distante da mãe – e isso o deixa dividido – e, principalmente, pelo jogo de palavras que Oskar fazia com o pai, juntando expressões que parecem conflitantes. A tradução para o Brasil ficou horrível, claro, porque não dimensiona nem uma justificativa, nem outra.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Jonathan Safran Foer lançado em abril de 2005. Foer é o mesmo autor do genial Everything is Illuminated. Não li a nenhum dos dois livros, mas posso dizer que a versão para o cinema de Everything is Illuminated é – perdão o trocadilho que isso possa suscitar – brilhante.

Extremely Loud estreou nos Estados Unidos em circuito comercial no dia 1º de janeiro. De lá até o dia 12 de fevereiro, o filme acumulou pouco mais de US$ 29,4 milhões nas bilheterias. Não está mal, mas certamente está abaixo da expectativa do estúdio – especialmente por causa dos nomes estelares de Tom Hanks e Sandra Bullock no elenco.

A estreia do filme ocorreu em Toronto, no Canadá, e de forma restrita nos Estados Unidos no dia 25 de dezembro. Depois o filme começou a estrear mundo afora. Com uma carreira tão curta, até o momento, o filme participou apenas de um festival, o de Berlim.

Até o momento, Extremely Loud faturou seis prêmios e foi indicado a mais oito, incluindo dois Oscar. Três dos seis prêmios abocanhados pela produção foram para Thomas Horn. Mas nenhum, até agora, de grande relevância.

Entre os nove indicados como Melhor Filme no Oscar deste ano, Extremely Loud & Incredibly Close é o que registra a menor nota na avaliação dos usuários do site IMDb: 6,4. De fato, o filme não pode competir com outros que estão na lista. Mas como vocês sabem, analisando as outras críticas que publiquei por aqui, não considerei este o pior filme da disputa. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais rígidos: publicaram 82 críticas negativas e 70 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 46% e uma nota média de 5,6.

Agora, vou explicar a minha nota para Extremely Loud. De fato, o filme força a barra em alguns momentos e parece exagerar a dose no drama. Algumas de suas surpresas desaparecem muito rápido. Mas eu acho que as reflexões que ele suscita e, principalmente, o mérito dele em explorar a ótica de um menino com a Síndrome de Asperger torna as suas intenções superiores às falhas da produção. Eu gosto de boas intenções.

Stephen Daldry não é um diretor voraz. Depois de estrear no cinema em 1998, com o curta Eight, ele produziu apenas quatro longa-metragens. Os três que antecedem Extremely Loud são maravilhosos. Além do já citado Billy Elliot, estão The Hours e The Reader.

Para quem desconhece a Síndrome de Asperger, recomendo a animação citada anteriormente, Mary e Max. Muitos sites tratam da doença, mas achei este bastante direto e explicativo. Dá uma ideia geral e introdutória sobre a síndrome.

Ah sim, e uma explicação para uma das curiosidades do filme. Nova York tem cinco “boroughs” (bairros): Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. Segundo o Censo dos Estados Unidos de 2010, a população da cidade chega a 8,17 milhões de pessoas.

CONCLUSÃO: Depois de mostrar as perdas dos ataques às Torres Gêmeas por diferentes ângulos, com a produção de diversos dramas e documentários, Hollywood volta ao tema a partir da ótica de uma criança. Os elementos estavam dados para Extremely Loud & Incredibly Close ser um dramalhão. Mas soma-se a isso algumas relações familiares complicadas e um garoto que foge dos padrões comuns, e temos pela frente uma história mais ampla. Dramas humanos acontecem por todas as partes, em todas as direções que se possa olhar. Interessante como a busca de um garoto pelo legado do pai nos mostra isso. Coloca a tragédia daquele 11 de Setembro em seu lugar. Porque a vida continua, nos conta o protagonista. Mesmo que seja preciso percorrer um longo caminho até sentir-se preparado para isto. Extremely Loud trata disto, e de como as diferenças podem ser compreendidas com um pouco de interesse e esforço. No fim das contas, este é um dramalhão, que simplifica muitas histórias e cai na repetição em muitos momentos. Mas o roteiro inteligente de Eric Roth faz a história não se perder e manter o interesse do espectador. Não é um filme brilhante ou inovador na forma ou conteúdo. Mas faz pensar enquanto tenta provocar o choro. Só por isso, ele já se diferencia um pouco do balaio de produções comuns.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Para muita gente, e eu me incluo neste grupo, foi uma surpresa Extremely Loud & Incredibly Close ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme este ano. Quando o nome dele apareceu na lista divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, todos reclamaram. Alguns apontavam este ou aquele como injustiçado. Outros simplesmente chamaram a indicação de absurda. De fato, nos moldes antigos do Oscar, quando apenas cinco filmes eram indicados para a categoria principal, Extremely Loud não chegaria tão longe. Mas agora os tempos são outros.

Esta produção foi indicada também em outra categoria: melhor ator coadjuvante pelo trabalho de Max von Sydow. Na indicação principal, como melhor filme, Extremely Loud não tem chances. Ainda que o filme trate de um tema importante para os Estados Unidos e que ele comece muito bem, a verdade é que esta produção não tem força – e nem méritos, convenhamos – para vencer os favoritos The Artist, The Descendants ou Hugo. Mesmo Sydow, que faz um ótimo trabalho neste filme, não deve ganhar. Primeiro, porque o favoritíssimo da noite é Christopher Plummer. Depois porque outros nomes, como Jonah Hill, tiveram um peso mais decisivo em seus respectivos filmes do que Sydow. Para resumir, Extremely Loud deve contentar-se com as indicações. Porque ele não tem chance de vencer nas categorias nas quais compete neste Oscar.