Phantom Thread – Trama Fantasma

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O amor é um troço complicado. Especialmente quando tratamos do amor romântico, aquele que dilacera a pessoa, faz ela cometer atos até então impensados. Aquele amor que bagunça a tua vida e que muda a tua rotina. Digo que esse amor é complicado para não dizer que ele é aquela palavra que começa com F… Sim, porque ele é bem assim.

Phantom Thread, o último filme que me faltava para completar a lista dos 9 indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2018, me surpreendeu em alguns pontos e me tranquilizou em outros. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de quem eu tanto gosto, continua mandando bem. Fiquei feliz (e tranquila) por isso.

A HISTÓRIA: Começa com um “depoimento” de Alma (Vicky Krieps), que diz que Reynolds (Daniel Day-Lewis) transformou os sonhos dela em realidade. Em troca, ela teve que entregar para ele tudo que ele desejava. Alguém lhe pergunta o que isso seria, e ela diz que cada pedaço dela. O seu interlocutor pergunta se ele é um homem exigente, e comenta que deve ser difícil estar com ele, e Alma diz que ele é, possivelmente, o mais exigente dos homens. Em seguida, vemos a Reynolds começando mais um dia, com todo o seu preparo para que ele esteja impecável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Thread): Eu gosto de filme que parecem uma coisa e, depois, se revelam outra. Inicialmente, Phantom Thread parece uma produção sobre um sujeito que é admirado por seu talento, dedicação extrema ao trabalho e pela arte que ele produz com a ajuda de uma equipe de mulheres talentosas.

Ou seja, inicialmente esse filme parece tratar do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua arte com o design e os detalhes de cada vestido incrível que ele cria para as mulheres endinheiradas da Europa. Mas aos poucos vamos vendo que essa produção trata, em realidade, de outro tema. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Phantom Thread fala do encantamento, da paixão, do amor e de como tudo isso pode ser usado para a criação, para a dedicação de uma pessoa pela outra (ou por algo) ou para a destruição.

Gostei, nessa produção, especialmente, do roteiro do diretor Paul Thomas Anderson. Ele acertou tanto na apresentação dos personagens principais, adentrando na vida, em especial, do protagonista, quanto acertou em cheio na construção de alguns diálogos muito marcantes. Percebe-se que ele cuidou de cada linha da história, sem descuidar de nenhum detalhe. E o efeito disso tudo é que o seu filme é potente e, ao mesmo tempo, sutil. Curioso, não?

Não são muitos os filmes que tratam com o devido respeito e talento personagens com personalidade forte. Aqui, temos de maneira evidente, desde o princípio, o “sol” da personalidade de Reynolds Woodcock, um sujeito realmente exigente, talentoso e que não consegue mostrar fragilidade em momento algum, exceto quando está sobrecarregado pelo trabalho. Algumas vezes, todo esse nível de exigência, faz com que ele seja cruel com as pessoas – especialmente com as mulheres que, para ele, são um bocado “descartáveis”.

Mas, um belo dia, quando ele sai de Londres para “espairecer” um pouco pelo interior, ele se encontra com um mulher de sorriso fácil e encantadora, a jovem Alma. Ela vira o novo objeto de desejo dele, e o encantamento entre os dois fica evidente logo na primeira troca de olhares. O que descobrimos em Phantom Thread, e aos poucos, como deve ser, é que Reynolds encontrou em Alma uma mulher tão forte, determinada e apaixonada quanto ele. Só que de outra forma.

Eu já esperava por um belo trabalho do grande Daniel Day-Lewis, um dos meus atores preferidos. Mas, quem diria, ele tem uma atriz tão boa quanto ele com quem contracenar nessa produção. Até assistir a Phantom Thread, Vicky Krieps era uma desconhecida para mim. Mas que bela atriz, meus bons amigos e amigas do blog! Ela é encantadora, charmosa, carismática, perigosa e forte na medida certa.

Então, no fim das contas, Phantom Thread trata de tudo que eu comentei antes, mas, especialmente, sobre os ganhos, perdas e o preço alto que o amor romântico e extremo pode cobrar das pessoas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alma realmente ama Reynolds, e ele gosta dela. Mas para conseguir manter a relação entre os dois, Alma descobre que precisa fragilizar o ser amado quando ele não está preparado para isso – e quase até o ponto dele morrer. No fundo, ela se revela mais forte do que ele, porque ela pode viver sem Reynolds.

Esse é um ponto interessante do filme. Ambos podem viver um em o outro, mas eles decidem não fazer isso. Ela, porque está obstinada por ser a pessoa mais poderosa da relação. Ele, porque fica fascinado pelo ponto extremo em que ela chega por causa dele. Esse amor extremo que eles cultivam chega a ser doentio, além de perigoso. Mas quem somos nós, público que gosta de uma boa história, para julgá-los?

O título é algo interessante, também. Inicialmente, quando pensamos na palavra “trama”, em português, ela nos remete à ideia de “enredo”, de “história”. Mas, no caso desse filme, acho que a história tem mais a ver com a trama de tecidos, com a trama de fios que acaba sendo a base de um vestido ou de uma peça qualquer que nos veste e que ajuda a nos definir e/ou identificar os nossos gostos e escolhas para o mundo.

E o que seria o “fantasma” do título? Para mim, esse “fantasma” tem a ver com a presença da mãe na vida de Reynolds. Essa presença é marcante, não apenas quando ele se lembra e fala dela, mas, principalmente, quando o protagonista não nota que ela esteja presente. E a mãe está presente em todo o momento. Inclusive porque ele a idealiza, a coloca em um pedestal, e a torna insubstituível – por isso mesmo a sua dificuldade de aceitar qualquer mulher em sua vida por longo tempo.

Até conhecer Alma, Reynolds se considera um “solteiro convicto”. Há um diálogo precioso entre ele e Alma, quando ele fala sobre isso e sobre como “as expectativas e as suposições” sobre o outro trazem mágoas. Que frase, meus amigos! E essa é uma entre várias marcantes. Ele está certíssimo. Nos defendemos e nos isolamos justamente porque não queremos sofrer, e o sofrimento muitas vezes acontece por expectativas não atendidas e por suposições sobre o que os outros são ou fazem equivocadas.

Isso acontece com praticamente todo mundo. Em maior ou menor grau, a mãe e/ou o pai de uma pessoa marcam presença na vida dessa pessoa para sempre. Ela notando ou não. Esse “fantasma” pode ser uma presença suave, compreensiva, que apenas nos deixa menos “solitários”, ou pode ser uma presença tão grande, marcante e “pesada” que tira o espaço de outras pessoas que estão vivas e ao nosso redor. Para mim, esse é um dos pontos que essa produção trata de forma muito sutil.

Assim, essa produção trata de amor e trata também do que nos define, do que forma o nosso caráter e de elementos que ajudam a explicar o porquê de fazermos o que fazemos. É um filme bastante humanista, no final de contas. E muito belo também. Paul Thomas Anderson selecionou a sua equipe à dedo e conseguiu nos apresentar uma obra detalhista, atenciosa em cada detalhe, capaz de nos fascinar pelo visual e pelas palavras também selecionadas à dedo.

Enfim, um filme muito interessante e que nos surpreende positivamente por não ser pretensioso ou arrogante. Na verdade, Phantom Thread pode parecer mais simples do que é, para quem não estiver atento a cada detalhe. Mas ele é cheio de sutilezas e de pequenos detalhes, como os vestidos que Reynolds cria. Um filme provocante, atraente, e que faz pensar. Bem acima da média, pois, e merecedor de ter chegado ao Oscar 2018 com seis indicações, incluindo a de Melhor Filme.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma obra de cinema pode ser chamada dessa forma quando percebemos que cada detalhe da produção foi cuidado com esmero. E isso acontece com esse Phantom Thread. Todos os elementos dessa produção são perfeitos. Nenhum precisa de ajustes. Isso começa com a trilha sonora marcante e inspirada de Johny Greenwood, segue com as linhas do roteiro minuciosamente escritas por Paul Thomas Anderson, segue com o trabalho dedicado e inspirador dos atores e segue até os figurinos maravilhosos de Mark Bridges.

Isso apenas para falar dos elementos mais marcantes dessa produção. Mas todos os detalhes estão perfeitos e ajudam a contar essa história. Entre os aspectos técnicos, sem dúvida alguma os figurinos e a trilha sonora se destacam. Mas é possível destacar também a direção de fotografia maravilhosa de Paul Thomas Anderson; a edição de Dylan Tichenor; o design de produção de Mark Tildesley; a direção de arte de Chris Peters, Denis Schnegg e Adam Squires; a decoração de set de Véronique Melery; e a maquiagem feita por 19 profissionais competentes.

Entre outros elementos, Phantom Thread nos faz pensar sobre as nossas próprias manias, hábitos, e sobre o quanto estamos ou não abertos a abrir mão deles ou ceder para que outras pessoas façam parte da nossa vida. É especialmente interessante, por exemplo, como o protagonista tem hábitos bastante “marcados”. Como o café da manhã, que se não for silencioso e pacífico, pode “acabar” com todo o seu dia. Alma acaba se adaptando à rotina dele, mas ela também acaba alterando essa rotina aqui e ali, de forma sutil. E é isso, essa presença marcante de Alma, que não está ali para agradá-lo apenas, mas também para confrontá-lo, que acaba fascinando Reynolds.

Não sei vocês, mas acredito que isso seja verdadeiro em diversos aspectos da nossa vida. As pessoas mais marcantes não são aquelas que nos agradam, que estão tentando nos fazer “felizes” o tempo todo, mas aquela que nos fazem crescer, que nos questionam, que nos “confrontam”, mas que mostram que tem opinião e que tem talentos próprios. Pessoas que não são capazes de viver sob a sombra de ninguém, porque tem luz própria. Essas são as mais interessantes, não há dúvidas.

E o que dizer dos atores? Paul Thomas Anderson fez a escolha certa ao dar destaque, essencialmente, para o trabalho de três atores. Todos esperavam um belo trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele realmente faz mais um trabalho primoroso, detalhista e marcante. Como lhe é típico. Mas outros dois nomes, de mulheres, acabam se destacando na produção: Vicky Krieps como Alma e Lesley Manville como Cyril, irmã do protagonista. Interessante como elas, de forma sutil algumas vezes, outras vezes de forma bastante explícita, marcam presença e fazem duetos entre si. Esse trio de atores vale cada minuto em que eles aparecem em cena.

Além dos protagonistas e de Lesley Manville, Phantom Thread tem apenas alguns personagens coadjuvantes que ganham um certo destaque. Nesse sentido, vale comentar o trabalho de Camilla Rutherford como Johanna, a mulher que está com Reynolds no início da produção – mas que logo será despachada por Cyril a pedido de Reynolds; Gina McKee como Henrietta Harding, uma das clientes fiéis de Reynolds; Brian Gleeson como o Dr. Robert Hardy, que tenta atender Reynolds e que “entrevista” Alma naquela sequência inicial da produção; Lujza Richter como a Princesa Mona Braganza; Emma Clandon como a mãe de Reynolds e Harriet Sansom Harris como Barbara Rose, a socialite um tanto sem limites que “não merecia” ficar com um vestido de Reynolds.

Phantom Thread estreou em première em Beverly Hills no dia 24 de novembro de 2017. Depois, o filme fez uma trajetória em que passou por cinco festivais de cinema. Até o momento, ele ganhou 45 prêmios e foi indicado a outros 93 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar, sendo que o filme saiu vencedor de uma delas.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Oscar de Melhor Figurino; para o BAFTA de Melhor Figurino; para outros oito prêmios de Melhor Figurino; para sete prêmios de Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson; para 12 prêmios de Melhor Trilha Sonora; para dois prêmios de Melhor Filme; para um prêmio de Melhor Atriz para Vicky Krieps; para dois prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Lesley Manville; para três prêmios de Melhor Roteiro Original e para quatro prêmios de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Paul Thomas Anderson teve a ideia de fazer esse roteiro em um dia em que estava doente e de cama por causa disso. A esposa dele, Maya Rudolph, estava cuidando do diretor quando ele percebeu que ela lhe lançou um olhar tão cheio de ternura e de amor como há muito tempo ele não notava. Daí surgiu a ideia de Phantom Thread. Interessante.

Paul Thomas Anderson disse que a linha preferida dele do roteiro é aquela dita por Daniel Day-Lewis: “O chá está saindo, mas a interrupção permanecerá aqui comigo”. Hahahaha. Realmente a linha é ótima. E arrancou algumas risadas da plateia no cinema em que eu fui conferir essa produção.

Para se preparar para o filme, Daniel Day-Lewis assistiu a gravações de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, estudou designers famosos, consultou com um curador de moda e de têxteis no Museu Victoria e Albert em Londres e aprendeu sobre Marc Happel, chefe do Departamento de Vestuário do New York City Ballet. O ator também aprendeu a costurar e tentou costurar um vestido de bainha “Balenciaga” para a esposa Rebecca Miller. Não por acaso esse ator é tão bom em seu ofício. Ele realmente mergulha no personagem, vive por ele, e isso se nota na telona.

A atriz Vicky Krieps não se encontrou com o ator Daniel Day-Lewis até o primeiro dia de filmagens. Ela também foi orientada a sempre referir-se a ele como Reynolds, durante as filmagens, para que ela nunca perdesse da mente o personagem. Curioso que mesmo na fase de divulgação do filme, muitas vezes a atriz se referiu a Day-Lewis como Reynolds.

O ator Daniel Day-Lewis disse que Phantom Thread é o seu último filme. No dia 20 de junho de 2017 ele anunciou a sua aposentadoria. O cinema perde um grande ator, sem dúvidas.

A história do designer de moda espanhol Cristóbal Balenciaga, incluindo a sua dedicação ao trabalho e a sua vida um tanto “monástica” inspirou o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson na construção do protagonista desta história.

As filmagens de Phantom Thread terminaram no dia 26 de abril de 2017, mesmo dia em que o amigo e mentor de Paul Thomas Anderson, o diretor Jonathan Demme, faleceu de câncer. Phantom Thread é dedicado para Demme. Outro grande diretor, diga-se de passagem.

De acordo com as notas de produção, o roteiro de Paul Thomas Anderson teve uma grande participação do ator Daniel Day-Lewis. Tanto que o diretor disse que, provavelmente, o mais correto é que o ator tivesse recebido algum crédito por isso.

O diretor italiano Luca Guadagnino, de Call Me By Your Name (com crítica nesse link), considerou Phantom Thread o melhor filme de 2017. Enquanto isso, Paul Thomas Anderson disse, no Reddit, que o seu filme favorito no ano foi Call Me By Your Name. Sim, os dois filmes estão acima da média e estão entre as boas pedidas do ano, mas eu tive outros que me chamaram mais a atenção em 2017. Ainda assim, considero que ambos mereceram chegar bem no Oscar, por exemplo.

Seguindo uma tradição que Paul Thomas Anderson lançou e seguiu nos seus três filmes anteriores, os materiais publicitários de Phantom Thread apresentam cenas que não vemos na versão final da produção. Achei essa ideia ótima, afinal, muitas vezes os trailers estragam a nossa experiência dos filmes aos nos apresentarem cenas que não deveríamos ver fora de contexto.

Phantom Thread não cita nenhuma data, mas há algumas indicações na história que apontam que ela teria ocorrido entre maio de 1953, quando um cliente compra um vestido de gala para uma Coroação e outubro de 1954, data de uma revista UK Vogue que aparece na reta final da produção. Interessante pensar que essa história se passa nos anos 1950, especialmente pelo que acontece com os atores – e pela força da personagem feminina Alma.

Algumas sequências desse filme foram rodadas nas aldeias de Lythe e de Staithes, que estão próximas de Whitby, na costa leste da Inglaterra.

Esse filme é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 246 críticas positivas e 23 negativas para esta produção, o que garante para Phantom Thread uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,5. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção – elas estão bem acima da média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Phantom Thread fez pouco mais de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e cerca de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou até 11 de março. No total, portanto, essa produção acumula pouco mais de US$ 41,4 milhões. Um dos melhores resultados já obtidos por um filme de Paul Thomas Anderson. Fico feliz pelo diretor. E também porque o filme merece ser visto.

CONCLUSÃO: Um filme sobre um tipo de amor sobre o qual parte da Humanidade nunca vai vivenciar. Ou conhecer. Ou mesmo “roçar”. Phantom Thread trata de um desses amores descabidos, que começam com uma grande admiração, flerte, e que avançam para um desejo que não tem muitas barreiras. Um filme bem narrado, com uma condução bem cadenciada, ótimas interpretações e, principalmente, alguns diálogos preciosos.

Fico feliz em ver que o diretor Paul Thomas Anderson continua centrado, escrevendo bem, e nos lançando algumas ideias interessantes. A provocação dele é sempre bem-vinda. Um belo filme. Um dos mais contundentes sobre a “loucura” do amor que tivemos a possibilidade de ver nos últimos tempos.

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Zwei Leben – Two Lives – Duas Vidas

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Duas histórias pouco contadas e interessantes em um mesmo pacote. Isso não é fácil de encontrar. Mas Zwei Leiben apresenta esse pacote de forma eficaz, apesar da complexidade do assunto. Para quem gosta de filmes que se debruçam sobre histórias recentes de países importantes no cenário internacional, esta é uma boa pedida. Envolvente, esta produção tem ritmo, drama e suspense em partes bem dosadas.

A HISTÓRIA: Diferentes narradores comentam sobre a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Um deles afirma que a população, após “28 anos atrás do arame farpado”, não pode acreditar no que está acontecendo. Outra afirma que muitos manifestantes querem que as lições da RDA (República Democrática Alemã, criada em 1949 e sob a influência dos soviéticos) não sejam esquecidas.

Neste cenário, Katrine Evensen Myrdal (Juliane Köhler) caminha com passos firmes pelo aeroporto de Tyskland em novembro de 1990. Ela passa pelo controle do aeroporto e segue até o banheiro, onde coloca uma peruca e troca de roupa. Saindo dali, Katrine pega um trem, depois um táxi, e chega no local em que ela teria morado quando era criança. Dali, ela segue para o arquivo de Leipzig, onde encontra o nome que tanto estava procurando, de Hiltrud Schlömer. Em breve a história daquele orfanato virá à tona.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zwei Leben): Muito especial a forma com que o roteiro dos diretores Georg Maas e Judith Kaufmann, com a ajuda de Christoph Tölle, Stale Stein Berg e da colaboradora Hannelore Hippe foi construído. Nos primeiros segundos da produção o espectador é imerso no ambiente da história, ouvindo diferentes narradores falando do final do período de divisão alemã. Quem conhece um pouco da história mundial sabe o peso que isso teve para os alemães, para a Europa e para o mundo.

Em seguida, as primeiras cenas gravadas pelos diretores surgem na tela com a presença marcante da trilha sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas. O suspense preenche a narrativa com a troca de “personagem” feita pela protagonista. Não entendemos porque ela está se disfarçando, e a primeira impressão é que ela não quer que a família saiba que ela está correndo atrás do próprio passado. Mas então por que ela diz que se a antiga enfermeira do abrigo mantido por nazistas, Hiltrud Schlömer, estiver morta, o problema dela está resolvido?

Com o tempo é que vamos perceber que o problema de Katrine não é tão óbvio assim. E também identificamos que a narrativa não é linear. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente não apenas com a esclarecedora volta ao passado para explicar a evolução da protagonista como espiã, mas também quando sabemos que os fatos iniciais ocorreram algumas semanas depois do que a narrativa que veremos após aparecer o nome da produção. Ou seja, Katrine se disfarça após a aparição do representante da firma de advogados Hogseth & Co., Sven Solbach (Ken Duken).

A chegada dele quebra em duas partes a farsa de Katrine/Vera. Antes dele aparecer, ela mantinha uma vida muito tranquila nas redondezas de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Mulher de temperamento forte, Katrine trabalhava e tinha uma família para cuidar. A maior preocupação dela até a chegada de Sven era levar e trazer o neto para ser cuidado pela avó (a mãe de Katrine, Ase Evensen, interpretada pela veterana Liv Ullmann), enquanto a filha, Anne Myrdal (Julia Bache-Wiig) tenta entrar na universidade e criar a filha que ainda é um bebê.

Os problemas familiares de Katrine vão parecer brincadeira de criança quando Sven Solbach aparece para desenterrar o passado. Sim, eis a história clássica de uma mudança radical na narrativa de uma família quando alguém resolve mexer em vespeiros antigos. Mas aí está a graça deste filme. Ele não apenas conta a história de uma garota e de sua mãe que foram separadas quando a menina veio ao mundo por causa de resquícios repressivos da Segunda Guerra Mundial. Há ainda uma importante história de espiões no meio.

E de história de espiões o cinema está cheio. Mas não sob a ótima deste Zwei Leben. Porque aqui o espectador se aproxima da intimidade de uma espiã realista, com uma história fácil de acreditar. Por isso volto a afirmar o que eu comentei lá no início, de que não é fácil um filme ter duas histórias interessantes e complexas em um mesmo pacote. Acho que quem gosta de história, como eu, vai ficar fascinado com estes acontecimentos pós-Segunda Guerra.

Por um lado, temos a uma história de repressão das mulheres de um país invadido – a Noruega – que se relacionaram com soldados invasores – no caso, os alemães nazistas. Estas mulheres foram mantidas em campos na Noruega. O filme esboça esta explicação em um primeiro momento, mas de forma muito acertada o roteiro faz uma parada, mais ou menos no meio da produção, para explicar em detalhes como os alemães criaram clínicas maternais e orfanatos para diminuir o número de abortos e retirar de mães norueguesas os filhos que eles consideravam importantes – por terem os genes alemães – e levaram estas crianças para a Alemanha.

Em orfanatos como onde cresceu Katrine, a organização chamada Lebensborn mantinha as crianças com “sangue nobre alemão”. Representando a firma de advogados, Sven Solbach procura testemunhos para reabrir o caso destas crianças e apresentá-lo para uma comissão em Estrasburgo. A ideia deles é pedir reparação para aquelas famílias através do tribunal europeu dos direitos humanos. Daí ele insiste em contar com os depoimentos de Katrine e da mãe dela, Ase, porque elas seriam um raro caso de reencontro entre mãe e filha.

De forma bem acertada o roteiro de Zwei Leben apresenta esse momento de ruptura da família Evensen Myrdal sem entregar todo o “ouro” logo de cara. Assim, por um tempo, ficamos pensando se a resistência de Katrine se justifica pelos abusos que ela sofreu ou se há algo mais em jogo. Quando ela se encontra de forma misteriosa com Kahlmann (Thomas Lawincky) e explica para ele o que está acontecendo, e que alguém precisa agir para silenciar a testemunha que pode colocar o disfarce dela em risco, tudo vai ficando mais claro. Ela não é, exatamente, a vítima que se previa.

E daí surge a outra história interessante e complicada da trama baseada na novela manuscrita Eiszeiten, de Hannelore Hippe – que contribui com o roteiro de Zwei Leben. A heroína aqui é vilã, porque ela se infiltrou na família da norueguesa Ase Evensen fazendo-se passar pela filha dela que havia sido levada para a Alemanha. Cooptada quando também estava em um orfanato, Vera Freund, o verdadeiro nome da mulher que se passou por Katrine Evensen, trabalhou para o serviço secretor da RDA. Em todas as voltas para o passado, é especialmente interessante ver como ela foi preparada para o serviço.

Depois que o disfarce dela é descoberto e Vera/Katrine é confrontada pela família – especialmente na cena em que a filha lhe questiona na cozinha -, fica mais claro que apesar de ser vilã, ela também é vítima. Mas de uma maneira diferente do que poderíamos imaginar. Algo a destacar, além destas duas histórias interessantes sobre os bastidores de uma Alemanha dividida durante e após a Segunda Guerra Mundial, é a forma humana com que o filme é narrado. Nos aproximamos muito dos personagens principais, nos deliciando com ótimas interpretações e com um roteiro que não perde o ritmo em momento algum. Um grande trabalho da dupla Georg Maas e Judith Kaufmann e sua equipe.

Mas para não dizer que tudo são flores, algo me incomodou no desfecho desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Uma pessoa como Vera, treinada por muito tempo para assumir um disfarce e, com ele, conseguir informações valiosas para o sistema ao qual ela servia, vai de fato capitular e contar toda a verdade para a família que ela enganou por tanto tempo?

O previsível, para mim, seria ela seguir mentindo, mesmo confrontada com o vídeo da verdadeira Kathrin Lehnhaber, filha de Ase Evensen (interpretada, quando jovem, por Vicky Krieps). Ou se ela resolvesse contar a verdade naquele momento, ela não insistiria em tentar fazer as pazes com aquela família após a casa inteira ter “desmoronado”. A Vera que fez tudo o que ela fez teria seguido naquele avião e escapado.

Apenas esse “desvio” do esperado é que achei um pouco difícil de acreditar, frente a um filme que, até então, era bastante crível. Ainda assim, admito que é bacana a tentativa do roteiro em redimir a personagem. Desta forma, os realizadores apostam que os piores criminosos podem se colocar no lugar dos outros e ter atos de compaixão mesmo após diversos anos de mentira. É bacana pensar desta forma, mas só acho pouco realista. E em um filme que vinha tão bem nesse quesito, seria interessante ver Vera recomeçando outra vez.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de uma história fascinante, Zwei Leben conta com outro trunfo muito importante: um grande elenco. Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papeis, mas é preciso tirar o chapéu para a dupla de atrizes que dá vida a Katrine Evensen: Juliane Köhler na fase adulta, quando começamos a acompanhar a sua história, e Klara Manzel nas reconstituições de época de quando ela estava sendo preparada para desenvolver o papel que marcaria a sua trajetória de forma definitiva. Brilhantes as duas atrizes.

Para que elas consigam fazer um bom trabalho, faz falta um elenco de apoio também talentoso. Daí entram em cena figuras como a veterana Liv Ullmann, que interpreta a Ase Evensen e que comunica como poucas apenas pelo olhar; Sven Nordin como Bjarte Myrdal, o homem que passa boa parte da vida ao lado de Katrine Evensen; e o veterano Rainer Bock como Hugo, o “chefão” de Katrine e uma figura sempre misteriosa e perigosa na trama. Mesmo em um papel relativamente pequeno, Vicky Krieps consegue imprimir uma identidade importante e marcante como Kathrin Lehnhaber.

Outros atores com papeis menores merecem ser citados. Dennis Storhoi como o advogado Hogseth, chefe de Sven Solbach; Ursula Werner como Hiltrud Schlömer, testemunha importante da história de Katrine; e Thorbjorn Harr como o jovem Bjarte Myrdal. Eles complementam bem o elenco. Gostei do posicionamento do ator Ken Duken com o personagem Sven, mas não senti a mesma firmeza da atriz Julia Bache-Wiig, que interpreta Anne, filha de Katrine e Bjarte.

Para o filme funcionar tão bem, além do ótimo roteiro e de um elenco afinado, faz falta os outros elementos técnicos funcionarem bem. O primeiro elemento que chama a atenção no filme e que já comentei antes é a trilha sonora marcante da dupla Christoph Kaiser e Julian Maas. Diferente de outras produções recentes que eu assisti, neste filme a música é um elemento narrativo importante – e não complementar, como em outros casos.

Pouco a pouco também vai se destacando a direção de fotografia de Judith Kaufmann que, além de registrar o ambiente de cada cenário, ainda faz uma diferenciação bem marcante dos diferentes “tempos” narrativos. Destaque também para a edição precisa de Hansjörg Weissbrich e, evidentemente, pelo excepcional trabalho dos diretores.

Falando neles, é interessante observar a trajetória de cada um destes diretores alemães. Georg Maas tem sete trabalhos no currículo como diretor, sendo dois deles documentários feitos para a TV e um terceiro um filme produzido também para a TV. Das outras quatro produções, duas são documentários. Além de Zwei Leben, Maas dirigiu apenas outro filme para o cinema: NeuFundLand, lançado em 2003. Depois de Zwei Leben ele lançou um documentário para a TV sobre Liv Ullmann. Judith Kaufmann, por sua vez, tem uma carreira consolidada como diretora de fotografia. Ela tem 46 trabalhos atuando desta maneira. Como diretora, tem apenas Zwei Leben.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, esta produção foi totalmente feita na Alemanha e com algumas cenas na Noruega. As cenas foram rodadas em locais como North Rhine, Leipzig, Halle, Bergen, Bonn, Hamburgo e Schleswig-Holstein.

Zwei Leben estreou em outubro de 2012 na Noruega. Depois, em janeiro de 2013, o filme participaria de seu primeiro festival: o de Palm Springs. A trajetória do filme em festivais somaria outras 11 participações. Neste caminho, Zwei Leben abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme entregues no Festival de Cinema Biberach e no Festival de Cinema Independente de Biberach. A produção ganhou também dois prêmios da audiência no Festival Internacional de Cinema de Emden e os prêmios de Melhor Elenco e Melhor Edição no Festival de Cinema Alemão.

Este filme, coproduzido pela Alemanha e pela Noruega, foi escolhido para representar a Alemanha como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Zwei Leben. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,5. Achei baixa a nota, apesar do nível de aprovação estar bom.

CONCLUSÃO: Interessante quando um filme parece contar uma história e, depois, ele se revela bem mais complexo. Este é o caso de Zwei Leben. Reforçando uma das escolas de cinema mais propensa a esmiuçar e repensar a própria história, esta produção foca no período imediato após a unificação da Alemanha. Com o fim das divisões do país, vários expurgos do passado foram feitos, e muitas histórias duplas, reveladas. Esta produção de interesse histórico e humano parte de uma história particular para refletir sobre um sentimento mais generalizado. Bem narrado e com ótimos atores, o filme só peca um pouco para a solução final da história. Mas nada que comprometa a boa experiência anterior. Recomendo.