Observe and Report – Caos no Shopping Center


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Como prometido, resolvi “dar uma quebra” na sequência de filmes de terror e suspense e virei para o lado oposto: me atraquei em um filme de comédia. E não qualquer comédia, mas uma destas “politicamente incorretas”, escatológica mesmo, estrelada por Seth Rogen, um dos atores-símbolo da nova onda de filmes do gênero feitos em Hollywood. Observe and Report, que foi lançado no Brasil diretamente em DVD, tem algumas partes previsíveis demais, outras repetitivas mas, ainda assim, ele rende algumas risadas das boas – e questionamentos também. Agora, claro, é preciso ter paciência com as piadas preconceituosas, algumas racistas, outras xenófobas ou mesmo uma certa pancadaria exagerada. Se você souber separar o que é uma piada do que poderia ser uma apologia a estes conceitos e tiver sensibilidade para não achar graça no que realmente não tem graça, provavelmente gostará do filme. Até porque Observe and Report tira sarro, mais do que nada, dos conceitos e maneirismos que caracterizam os filmes de policiais e também muitos filmes de ação – este é seu foco principal.

A HISTÓRIA: Todos se preparam para o que parece ser mais um dia de comércio normal no shopping center da cidade. Mas a rotina é quebrada pela aparição de um sujeito baixinho, de óculos e que “ataca” diferentes mulheres no estacionamento mostrando seu corpo nu dissimulado por um sobretudo. Começa aí um problemão para o chefe da segurança do shopping, Ronnie Barnhardt (Seth Rogen), um sujeito que admite ser bipolar mas que, aparentemente, sofre de outros distúrbios de personalidade – como o de não ter a mínima noção do que realmente acontece ao seu redor. Fascinado/obcecado pela vendedora Brandi (Anna Faris), ele fará de tudo para protegê-la do maníaco que anda atacando as clientes e funcionárias do shopping. Mas para seu azar, Ronnie terá que competir com a autoridade e o profissionalismo do policial Harrison (Ray Liotta), chamado pelo administrador do shopping para auxiliar nas investigações sobre o maníaco e também para resolver uma série de roubos no local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Observe and Report): Ronnie Barnhardt é um tipo totalmente sem noção. Ele definitivamente acredita que tem o trabalho mais importante do mundo. Em certo momento do filme, ele fala convicto de que “o mundo precisa de um herói”. Isso antes dele enfrentar, praticamente sozinho, mais de uma dúzia de policiais. E por nada. Esse é o nosso “herói”. Claro, fica evidente, que este é o suprasumo da ironia destilada pelo diretor e roteirista Jody Hill neste filme. Alguns podem ficar incomodados com algumas cenas gratuitas de pancadaria e de preconceito estreladas pelo protagonista, mas meus amigos… esta é justamente a intenção do diretor. Mostrar o quanto ridícula é a maioria das cenas de pancadaria dos filmes policiais. O quanto a idéia de “herói” atualmente está deturpada e parece, cada vez mais, absurda e longe da realidade. No fundo, a maioria das pessoas admira gente que não tem nada de heróico em suas vidas – e as pessoas que realmente deveriam ser admiradas passam batidas ou, no máximo, são lembradas rapidamente quando morrem.

Mas ok, vou deixar o papo sério para depois. Falemos do filme… Seth Rogen merece, realmente, o lugar que tem conquistado como um dos principais atores de comédia de Hollywood – neste mês ele é o nome da capa da revista SET (isso se ela chegar nas mãos dos leitores até o fim de agosto). O cara é genial. Neste filme, por exemplo, ele interpreta o personagem mais absurdo em cenas de extrema comédia nonsense e, por que não, em cenas tristes também, da mesma forma. Ele não parece forçado. Seu tom é sempre natural. Parece mesmo que Ronnie Barnhardt é ele, não um personagem. Sem dúvida Seth Rogen é o nome do filme. Ao lado, para mim, de Michael Peña que, apesar de fazer um papel menor que Ray Liotta, se destaca como o “braço direito” de Ronnie. Também gostei muito de Collette Wolfe, que interpreta Nell, a atendente da lanchonete que sempre serve um café grátis para Ronnie.

Os mais sensíveis talvez fiquem indignados com as várias piadas e atitudes preconceituosas de Ronnie e sua turma de seguranças. Não sobra praticamente ninguém para eles sacanearem. O roteiro começa ironizando os repórteres que buscam a informação in loco – convenhamos que, muitos deles, mal informados e despreparados, bem que mereciam uma cutucada como a que Ronnie dá na repórter interpretada por Deborah Brown. Se bem que o que nos interessa naquela primeira cena é um dos vários exemplos da megalomania do protagonista.

O alvo seguinte da ironia é o personagem de Bruce (Alston Brown), o atendente gay que trabalha ao lado de Brandi. Mas a piada com ele é rápida e “leve”. Muito mais pesadas são as ironias com os estrangeiros que aparecem no filme, como com Saddamn (Aziz Ansari) e Ramón (de quem não consegui descobrir o nome do intérprete). Por mais que fique claro que Ronnie seja um desequilibrado, um cara sem noção e que se torna perigoso pela posição que assume em seu trabalho, fica difícil assistir as cenas dele com estes imigrantes. Porque as duas deixam de ser engraçadas para se tornarem preconceituosas e beirarem a ofensa, realmente. Ainda que a intenção de Jody Hill tenha sido, justamente, a de ironizar estas situações ao extremo para mostrar o quanto é absurdo o comportamento xenófobo de muitos estadunidenses, acho que ele pegou um pouco pesado demais em sua tentativa.

Outro alvo das ironias do roteirista/diretor, ainda que de forma bastante leve, é a “portadora de deficiência física” temporária vivida por Nell. Ainda que o único responsável pelas atitudes grosseiras seja seu chefe – ainda que Ronnie também tenha alguma reação estranha com a moça no início. Outra que não escapa das piadas é Brandi, que encarna a clássica “loira burra” ou, em outra leitura, o protótipo perfeito de mulher fútil e sem conteúdo. Como vocês podem notar, o filme está cheio de estereótipos e, claro, de piadas sobre eles. Neste quesito Observe and Report não nos conta nada de novo. Mas o principal foco desta produção não é tirar sarro destas pessoas, e sim dos filmes sobre policiais e “heróis” urbanos.

Algumas das melhores cenas de Observe and Report mostram o fascínio que as armas e a pancadaria exerce nas vidas de Ronnie e seus companheiros de trabalho. Todos parecem querer seguir os passos do Rambo. Para mim, isso mostra o melhor da ironia de Jody Hill, que brinca com os conceitos de heroísmo e de gosto pelas armas e obsessão pela segurança dos estadunidenses – e de muitas sociedades influenciadas por eles. Todos os homens parecem se sentir mais “machos” dando tiros ou empunhando armas. E Ronnie, claro, leva estes conceitos ao extremo, revelando uma falta de senso de realidade que, acredito, muitas pessoas estão vivendo hoje em dia.

Mas para que ele não apareça como um completo idiota ou um sujeito totalmente sem noção, Hill inseriu na história várias cenas dramáticas em que nosso “herói” leva um choque de realidade. As mais interessantes tem a ver com sua consulta com a psicóloga da polícia, quando ele tenta entrar para a corporação, e algumas de suas conversa com Brandi e com a mãe, vivida pela ótima Celia Weston. Observe and Report é um filme com vários altos e baixos, com alguma repetição e exagero nas piadas aqui e ali mas que, mais que outros, conta com um ator de primeira como protagonista e, além disso, critica de maneira salutar essa falta de senso de realidade que muitas vezes parece predominar na nossa sociedade.

Francamente eu fiquei pensando que existem exemplos como o de Ronnie em diferentes lugares… pessoas desequilibradas que precisariam de ajuda mas que, por conivência de suas famílias, de amigos/conhecidos e de chefes despreparados são aceitos em posições em que eles podem colocar a vida de outras pessoas em risco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que isso parece um discurso pesado e até exagerado, para alguns, mas o que foi aquela sequência final do filme? Por pouco Ronnie não mata o “pervertido” (Randy Gambill, o cara que paga o maior mico do filme) da história. Era necessária aquela reação exagerada dele? Claro que não. Assim como nada justifica a porrada que ele dá em Saddamn enquanto persegue seu alvo e nem a surra que Ronnie e Dennis dão nos skatistas que faziam a farra no estacionamento do shopping. No fim das contas, Observe and Report acaba contando a história de um protagonista e seu antagonista que vivem níveis distintos de frustração e que tem problemas psicológicos. Algumas vezes, francamente, achei a história mais triste que engraçada.

NOTA: 7,8 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Observe and Report tem um grupo de atores que aparece mais, digamos que um núcleo de protagonistas, mas os coadjuvantes também tem espaço para se destacarem. Essa é uma vantagem do roteiro de Jody Hill, que dá espaço para praticamente todos os atores demonstrarem um pouco de seu trabalho. Além dos coadjuvantes que já citei anteriormente, destaco o trabalho de John e Matt Yuan, que interpretam os irmãos gêmeos John e Matt Yuen, seguranças do shopping; Jesse Plemons como Charles, outro subordinado de Ronnie; Dan Bakkedahl, que interpreta Mark, o administrador do shopping; Ben Best como o detetive Nichols; e Fran Martone como a psicóloga que entrevista Ronnie para o teste da polícia.

Como a maioria das trilhas sonoras das últimas comédias de sucesso de Hollywood, Observe and Report tem uma seleção de músicas que casa bem com cada momento da sua história. No caso deste filme, esse é um mérito de Joseph Stephens, que assina a trilha sonora – composta, entre outros, por sucessos que vão de Queen até The Yardbirds.

Para os interessados na parte técnica do filme, cito a direção de fotografia de Tim Orr e a edição de Zene Baker – que fazem um trabalho correto, mas nada excepcional.

Observe and Report teria custado aproximadamente US$ 18 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 7 de junho, quase US$ 24 milhões. O filme se pagou mas, certamente, ficou abaixo das expectativas dos produtores. Na comparação com filmes recentementes estrelados por Seth Rogen, Observe and Report poderia ter se saído melhor. Só para comparar, o ator estrelou as produções Knocked Up, que custou US$ 30 milhões e arrecadou US$ 148,7 milhões; Pineapple Express, que custou US$ 27 milhões e arrecadou US$ 87,3 milhões; sem contar Superbad, no qual ele faz um papel secundário e que arrecadou US$ 121,4 milhões (tendo custado US$ 20 milhões). A exceção do ator, na questão de faturar pouco, proporcionalmente, foi o filme Zack and Miri Make a Porno, uma produção do ano passado que custou US$ 24 milhões e teria arrecadado US$ 31,5 milhões nos States.

O filme recebeu uma nota razoável na avaliação dos usuários do site IMDb: 6,6. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos: dedicaram 90 críticas positivas e 85 críticas negativas para a produção – quase um empate, o que lhe garante uma aprovação de 51%. Peter Bradshaw, do Guardian, comentou que teve uma “experiência desconfortável” com Observe and Report porque ele se considera um fã de Seth Rogen. No final de sua crítica, Bradshaw comenta que nesta produção “você quase ri de algo que é quase bom” e que, no fim das contas, tudo parece ser de “mau gosto”, mas que deve ser engraçado. Gostei deste texto de Wendy Ide, do Times, que comenta que Observe and Report chega “muito perto de ser um grande, se visto como um pouco perturbador, filme”, mas que isso não se concretiza não apenas pela violência gratuita ou por sua linguagem abobada, mas porque o filme “não vai suficientemente longe”. Ela tem razão.

CONCLUSÃO: Um filme que brinca com vários estereótipos e que, mais que nada, ironiza os filmes sobre policiais e algumas produções de ação de Hollywood. Estrelado por Seth Rogen, que interpreta um sujeito totalmente sem noção da realidade e que desempenha uma função de chefe de segurança de um shopping, Observe and Report reflete sobre a conivência de famílias e de parte da sociedade com a “criação” de possíveis monstros/heróis. Se bem que, francamente, o filme não chega tão longe em seus questionamentos. Na verdade, ele é feito para que as pessoas possam rir de piadas sobre “mulheres loiras, burras e fúteis”, sobre estrangeiros, repórteres despreparados, policiais e uma série de outros “personagens” da nossa sociedade. O problema é que o filme perde a linha algumas vezes na tentativa de nos fazer rir de situações mais tristes que engraçadas. Vale por algumas risadas e pela interpretação de Rogen, mas não esperem muito mais que isso.

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4 comentários em “Observe and Report – Caos no Shopping Center

  1. Eu vi ontem esse filme. Eu gosto do ator principal. o ultimo filme que vi com ele era uma comédia sobre filme pornografico ou algo parecido.
    Eu não vejo um filme para crescer como ser humano, gosto é de passar o tempo e deixar de lado os problemas, relaxar, esse filminho aí me ajudou bastante.

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  2. Olá Régis!

    Mais um recado seu bem instrutivo… “o ultimo filme que vi com ele era uma comédia sobre filme pornografico ou algo parecido”. É, percebe-se que você presta bastante atenção nas histórias dos filmes, hein? Tanto que não sabes ao certo do que tratava a tal produção. Mas ok, cada um “passa o seu tempo” como gosta, realmente.

    Que bom que você não assiste aos filmes para “crescer como ser humano”. Até porque, para fazer isso é preciso, antes de mais nada, entender e refletir sobre as coisas, não é mesmo? Interpretação de textos e, no caso do cinema, das histórias, é uma das formas de entender culturas, a arte, diferentes pontos de vista. Mas melhor não fazer isso… continue passando o seu tempo sem muitas vezes entender o que estás assistindo. Boa sorte para ti com tuas práticas de relaxamento tão criativas.

    Um abraço.

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  3. Péssimo filme e de extremo mau gosto. Não se encaixa no típico besteirol, porque fica muito abaixo disso. Estou longe de ser um puritano, mas esse filme ultrapassa qualquer barreira do bom senso. Seth Rogen perdeu uma ótima chance de ficar em casa comendo rosquinhas em vez de denegrir sua imagem com esse lixo.

    Não posso acreditar que alguém veja seu personagem como um herói. É preciso ter valores muito deturpados para enxergá-lo assim.

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  4. Olá Zé!!

    Nossa, você realmente odiou esse filme, hein? Pior que, agora pensando bem, acho que eu fui muito generosa na minha nota para ele. Hoje, diminuiria para um 7, pelo menos.

    hehehehehehehehe. E sim, esse filme é daqueles que simplesmente não precisavam existir. Gostei da tua frase “Seth Rogen perdeu uma ótima chance de ficar em casa comendo rosquinhas”… muito boa! 😉

    Concordo também que ninguém, com o mínimo de discernimento da realidade, possa considerar o seu personagem um herói. Mas sabes como é… há gente para tudo nesse mundo.

    Obrigada por tua visita e pelo teu comentário. E volte mais vezes! Seja bem-vindo.

    Um abraço!

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