Carol


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Há pessoas pelas quais somos atraídos diretamente e há pessoas que parecem nos afastar. O interesse transparente pode ser correspondido e, quando isso acontece, há quem avance e há quem opte por recuar. Essas decisões dependem de muitos fatores, inclusive do histórico e da vivência de cada indivíduo. Carol nos conta a história de uma atração forte e correspondida que avança, apesar da época não ser nada propícia para romances como o das pessoas envolvidas. Um filme com um roteiro bem construído, belas imagens e duas atrizes afinadas.

A HISTÓRIA: Grades e o barulho de trem ao fundo. Muitas pessoas saem do metrô e acompanhamos a um homem com chapéu e sobretudo cruzando uma rua com carros classudos e antigos. Ele entra em um restaurante e após falar com o barman conhecido, reconhece uma amiga que está de costas. Therese (Rooney Mara) apresenta para Jack (Trent Rowland) a sua companhia na mesa, Carol (Cate Blanchett). Jack pergunta se Therese não quer uma carona até a festa para a qual eles foram convidados. No caminho para lá, Therese observa o que acontece do lado de fora do carro, pelas ruas, e começa a se lembrar de sua história com Carol até aquela noite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carol): Filme bem escrito, bem dirigido, com uma reconstituição de época impecável e com duas atrizes imersas em seus papéis. Carol se revela, ainda, uma produção charmosa, provocadora e sensual. Neste tipo de filme o que interessam são os detalhes e as trocas de olhares, muitas vezes. Aqui não há pirotecnia ou grandes reviravoltas, ainda que o roteiro guarde algumas boas surpresas no caminho.

Um dos pontos altos da produção, sem dúvida, é o roteiro de Phyllis Nagy escrito a partir do romance The Price of Salt de Patricia Highsmith – lançado no Brasil com o título de Carol. Verdade que o filme utiliza aquele velho e conhecido recurso de nos mostrar uma breve sequência próxima do fim da história no início da produção para, depois, regressar na trama como uma forma de contar como todos chegaram naquela situação e qual era a verdadeira relação entre aquelas duas mulheres sentadas na mesa de um restaurante.

Ainda que este recurso seja batido, ele continua funcionando muito bem. Especialmente porque ele insere o suspense indicado para uma história ser desenrolada na sequência. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Desde o início de Carol o espectador é levado pelas mãos de Nagy e do diretor Todd Haynes para descobrir detalhes da relação daquelas duas mulheres. E não há rodeios na sequência. Logo que Therese começa a pensar em sua história com Carol, fica claro o fascínio que ela desperta na jovem vendedora de uma loja de departamentos.

Na verdade a atração é mútua e imediata. A imagem de Carol na loja de departamentos se destaca para os olhos de Therese mesmo com a grande movimentação das compras de Natal. Quando Carol olha para Therese também há atração, mas de outro tipo. E conforme a história vai se desenvolvendo com a ótima, cuidadosa e detalhista direção de Haynes, essa diferença de olhares fica ainda mais clara.

A interpretação da sempre ótima e especialmente linda neste filme Cate Blanchett transmitiu, para mim, um olhar de interesse com experiência. Ela olha para Therese com desejo, mas uma forma de desejar experiente, um pouco cansado, mas não o suficiente para não tentar um romance mais uma vez. O olhar que Rooney Mara, igualmente maravilhosa e também linda, consegue imprimir em sua Therese é diferente. Ela transmite fascínio e curiosidade constante por tudo e por todos, especialmente pela inteligência e elegância de Carol.

Não li o romance de Patricia Highsmith para ter detalhes da história ou para saber o quanto o filme é fidedigno ou justo com o original, mas esta diferença de olhar e de ótica me pareceu importante e acho que a produção de Haynes consegue expressar bem. A aproximação e a relação de Carol com Therese me fez lembrar bem daquela frase da música Realejo, de O Teatro Mágico, que diz “os dispostos se atraem”.

As duas estavam prontas para uma relação apaixonada e interessante. Therese pensou rápido ao devolver a luva que Carol tinha esquecido (propositalmente?) e esta, por sua vez, não perdeu nenhuma oportunidade de chamar Therese para encontros na sequência. Ainda que a relação das duas seja o foco principal da trama, torna a história ainda mais interessante o contexto social da época.

O filme se passa, como o romance de Highsmith, nos anos 1950 – começando em Nova York e, depois, percorrendo parte do país em uma road trip. Na época, ainda mais pessoas do que hoje se escandalizavam com o romance entre duas mulheres. Ainda mais quando uma delas era casada e tinha uma filha (o caso de Carol) e a outra tinha um namorado apaixonado e louco para casar (situação de Therese).

Para muitas mentes até hoje é difícil entender porque homens e mulheres se interessam por pessoas do mesmo sexo mesmo tendo tido relações heterossexuais “de sucesso” antes. Enfim, não entrarei nesta seara. Só quero dizer que concordo com o Papa Francisco que todas as pessoas precisam ser amadas e aceitas, independente de suas escolhas ou estilos de vida.

Mas voltando para Carol. Além da relação entre as duas personagens centrais, é muito interessante o contexto social da época. Apaixonado pela mulher, Harge Aid (Kyle Chandler) não aceita que Carol queira se divorciar. Para tentar convencê-la a não fazer isso, ele usa a filha do casal, Rindy (interpretada por Kk Heim e por Sadie Heim). Através de um advogado ele alega a “cláusula de moralidade” para ameaçar Carol de que, se ela realmente quiser o divórcio, ele ficará com a guarda completa da filha e vai proibi-la de ver a Rindy.

No início Carol se afasta por recomendação do advogado para não tornar o problema maior. Mas Harge fica sabendo do “sumiço” da quase ex-mulher e procura se vingar. Sem estragar as surpresas do filme, mas a partir daí há duas mudanças de curso na história. Diferente dos livros lançados até então sobre romances entre duas mulheres, na obra de Highsmith, pela primeira vez, a história não teve um fim trágico segundo este texto. Pelo contrário.

Coragem da autora. Mas, infelizmente, até hoje histórias como a de Carol choca muitos públicos. Menos que em 1952, quando The Price of Salt foi lançado. O que sinaliza que seguimos evoluindo na aceitação das diferenças, no respeito e no amor em relação a quem não “cumpre” todos os requisitos admitidos pela maioria. Um belo filme, pela homenagem que faz para a história original e por nos apresentar de forma tão competente os Estados Unidos nos anos 1950 e esta história de amor. Por ser tão bem conduzido, ele faz o público se envolver e torcer pelos personagens. Cinema em estado puro.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sentimento de culpa e frieza. Estes parecem ser dois comportamentos bem identificáveis entre as duas personagens centrais deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de uma ocasião a inexperiente Therese se sente culpada pelo sofrimento de Carol, que não consegue engolir a ação de Harge afastá-la da filha. Ela está vivendo o primeiro grande amor e sofre horrores com a separação. Quem não passou por isso? Carol, por outro lado, tem outra vivência, carregada de olhares de censura e de repúdio. Ainda que, convenhamos, ela é uma mulher corajosa para o seu tempo, procurando sempre ter opiniões firmes e mantê-las apesar das pressões dos demais. Em duas situações ela “se desfaz” de Therese, parece, com certa facilidade. Depois vamos entender que o que parece nem sempre é a realidade.

Gosto muito quando filmes de época consegue, com maestria, reproduzir um tempo antigo nos detalhes. Este é o caso de Carol. Das roupas até as casas e os automóveis (parte mais fácil), passando pela decoração interna dos ambiente e os produtos vendidos, esta produção não esqueceu de nenhum detalhe dos anos 1950. Por isso mesmo merecem aplausos o design de produção de Judy Becker, a direção de arte de Jesse Rosenthal, a decoração de set de Heather Loeffler, os figurinos de Sandy Powell e o departamento de arte com 25 profissionais. Rosenthal e Powell colecionam estatuetas douradas do Oscar e não seria de admirar que elas ganhassem  mais duas este ano.

Ainda falando da parte técnica do filme, vale destacar a comovente, emotiva e eficaz trilha sonora de Carter Burwell e a direção de fotografia de Edward Lachman. Faz um bom trabalho também o editor brasileiro Affonso Gonçalves.

Este é um filme de Cate Blanchett, em especial, mas também de Rooney Mara. Nunca vi as duas tão bonitas – acho que uma das intenções de Haynes era justamente esta. Além delas, é justo dizer que o elenco de apoio está bem. Além do já citado Kyle Chandler, que convence como o marido indignado por estar sendo deixado por Carol, estão bem Sarah Paulson como Abby Gerhard, romance anterior de Carol; John Magaro como o jornalista e amigo de Therese Dannie McElroy; e, em menor medida, porque me pareceu um tanto “sem sal”, Jake Lacy como Richard Semco, namorado de Therese.

Há diversos momentos em que o roteiro de Carol se destaca. Gostei, em especial, de dois: quando Dannie conversa com Therese sobre como as pessoas se atraem ou se distanciam e quando Carol dá um show falando que não é nenhuma mártir, mas deixando claro o que ela acha certo para a vida dela e da filha. Momentos preciosos.

Para não dizer que este filme é perfeito, achei que algumas vezes os coadjuvantes que eu citei acima, apesar de não fazerem feio, poderiam estar melhores em seus papéis. E pode parecer uma bobagem, mas para um diretor tão detalhista quanto Todd Haynes, me incomodou o pouco tempo que ele deixou o bilhete de Carol para Therese em cena. Apenas uma pausa no firme pode permitir que o espectador leia ele na íntegra. Detalhe bobo, mas que poderia ter sido percebido na hora da finalização do filme.

Carol estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 24 festivais de cinema mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou 28 prêmios e foi indicado a outros 128 (um número impressionante, diga-se), incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro.

Os prêmios que o filme recebeu, até agora, foram pulverizados. Mas destaco os seguintes: três em que ele aparece como um dos melhores filmes do ano; três que recebeu como Melhor Filme; dois para Rooney Mara como Melhor Atriz (incluindo o prêmio de Cannes que ela dividiu com Emmanuelle Bercot) e dois que ela recebeu como Melhor Atriz Coadjuvante; um para Cate Blanchett como Melhor Atriz; três como Melhor Fotografia; três como Melhor Roteiro; e três como Melhor Diretor.

Não há informações sobre o quanto Carol teria custado, mas o site BoxOfficeMojo traz os resultados das bilheterias do filme até o dia 4 de janeiro. Até esta data Carol tinha arrecadado pouco mais de US$ 5 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 6,3 milhões nos outros países em que ele já estreou.

Para quem gosta de saber os locais em que as produções foram rodadas, Carol foi filmado principalmente em cidades de Ohio como Cincinnati, Cheviot e Hamilton – com franca vantagem para a primeira. Algumas cenas também foram rodadas em Alexandria, no Kentucky.

Agora, algumas curiosidades sobre Carol. Rooney Mara, como é possível ver acima, está sendo bem premiada e elogiada por sua interpretação por Therese. Mas por pouco ela não ficou com o papel. Isso porque ela foi convidada para fazer Therese depois de sua performance em The Girl with the Dragon Tattoo mas, por estar muito cansada, ela acabou desistindo do convite. Mia Wasikowska entrou no lugar dela, mas acabou desistindo do papel também por causa de Crimson Peak. Foi aí que Mara voltou para o papel, especialmente depois que Haynes assinou para dirigir o filme em 2013.

Carol é uma destas produções de Hollywood que demorou muuuuito tempo para sair da gaveta. Para se ter uma ideia, Phyllis Nagy escreveu o primeiro rascunho do filme em 1996. Interessante também saber que ela foi amiga de Patricia Highsmith.

Algo que eu li agora e que fez muito sentido ao pensar em Carol: a fotografia da produção foi inspirada no trabalho dos fotógrafos Vivian Maier e Saul Leiter.

Carol foi aplaudido de pé no Festival de Cinema de Cannes durante a exibição para a imprensa internacional e também na estreia da produção no evento.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Carol, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 10 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6.

Difícil escolher um pôster para abrir este post. Carol tem diversos cartazes muito, muito bonitos. Algo condizente com a bela direção de fotografia deste filme.

CONCLUSÃO: Um filme acertado na reconstrução de época e com um roteiro bem construído. Carol nos apresenta algumas das qualidades essenciais de um bom filme, além de duas atrizes convincentes em seus respectivos papéis. Cate Blanchett combina com filmes de época e está mais linda do que nunca. Ao lado dela, uma Rooney Mara atenta aos detalhes. Uma bela produção que nos faz pensar sobre o amor e a liberdade de escolha das pessoas contra as convenções das sociedades e suas crenças.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Nem sempre um filme que chega com diversas indicações no Globo de Ouro consegue preservar esta força nas indicações ao Oscar. Apesar disto, acredito que Carol tem boas chances de aparecer em mais de uma categoria da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – especialmente depois que a premiação passou a ter até 10 filmes indicados na categoria principal.

Alguns podem achar que Carol é um filme ordinário. Não vejo desta forma. Como eu disse no texto acima, acho que ele é muito bem construído e que tem mais qualidades do que defeitos. Por isso mesmo eu acho que ele pode ser indicado, se tiver sorte, em sete categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção.

Podem ficar de fora da lista de indicações Atriz Coadjuvante – se a Academia entender que Mara também teria que ser indicada a Melhor Atriz – e pode entrar na lista Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original.

Claro que esta lista de indicações depende de lobby dos produtores e das qualidades dos demais concorrentes – ainda faltam muitos filmes para assistir. Do que vi até agora, acho que Carol tem chances como Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (ainda que faz falta ter assistido às demais possíveis concorrentes), Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. A minha consideração sobre estes dois últimos ainda pode mudar dependendo dos demais filmes.

Não vejo chances de Carol ganhar como Melhor Filme. Neste sentido acho Spotlight com chances maiores. O mesmo em relação a Melhor Diretor. Ainda que Todd Haynes faça um excelente trabalho, Alejandro González Iñarritu tem grandes chances de levar mais uma estatueta dourada para casa nesta categoria.

Cate Blanchett sempre merece um Oscar, mas não sei se ela chegará a receber a estatueta desta vez. Me parece que a concorrência está forte com outras atrizes – como Alicia Vikander de The Danish Girl e Saoirse Ronan em Brooklyn. Caso Blanchett e Mara forem indicadas – algo muito, muito difícil -, vejo maiores chances para Blanchett. Ainda que não seria injusto Mara ganhar uma estatueta. É uma atriz em franca ascensão. Logo veremos.

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9 comentários em “Carol

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