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The Big Short – A Grande Aposta

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Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.

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Carol

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Há pessoas pelas quais somos atraídos diretamente e há pessoas que parecem nos afastar. O interesse transparente pode ser correspondido e, quando isso acontece, há quem avance e há quem opte por recuar. Essas decisões dependem de muitos fatores, inclusive do histórico e da vivência de cada indivíduo. Carol nos conta a história de uma atração forte e correspondida que avança, apesar da época não ser nada propícia para romances como o das pessoas envolvidas. Um filme com um roteiro bem construído, belas imagens e duas atrizes afinadas.

A HISTÓRIA: Grades e o barulho de trem ao fundo. Muitas pessoas saem do metrô e acompanhamos a um homem com chapéu e sobretudo cruzando uma rua com carros classudos e antigos. Ele entra em um restaurante e após falar com o barman conhecido, reconhece uma amiga que está de costas. Therese (Rooney Mara) apresenta para Jack (Trent Rowland) a sua companhia na mesa, Carol (Cate Blanchett). Jack pergunta se Therese não quer uma carona até a festa para a qual eles foram convidados. No caminho para lá, Therese observa o que acontece do lado de fora do carro, pelas ruas, e começa a se lembrar de sua história com Carol até aquela noite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carol): Filme bem escrito, bem dirigido, com uma reconstituição de época impecável e com duas atrizes imersas em seus papéis. Carol se revela, ainda, uma produção charmosa, provocadora e sensual. Neste tipo de filme o que interessam são os detalhes e as trocas de olhares, muitas vezes. Aqui não há pirotecnia ou grandes reviravoltas, ainda que o roteiro guarde algumas boas surpresas no caminho.

Um dos pontos altos da produção, sem dúvida, é o roteiro de Phyllis Nagy escrito a partir do romance The Price of Salt de Patricia Highsmith – lançado no Brasil com o título de Carol. Verdade que o filme utiliza aquele velho e conhecido recurso de nos mostrar uma breve sequência próxima do fim da história no início da produção para, depois, regressar na trama como uma forma de contar como todos chegaram naquela situação e qual era a verdadeira relação entre aquelas duas mulheres sentadas na mesa de um restaurante.

Ainda que este recurso seja batido, ele continua funcionando muito bem. Especialmente porque ele insere o suspense indicado para uma história ser desenrolada na sequência. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Desde o início de Carol o espectador é levado pelas mãos de Nagy e do diretor Todd Haynes para descobrir detalhes da relação daquelas duas mulheres. E não há rodeios na sequência. Logo que Therese começa a pensar em sua história com Carol, fica claro o fascínio que ela desperta na jovem vendedora de uma loja de departamentos.

Na verdade a atração é mútua e imediata. A imagem de Carol na loja de departamentos se destaca para os olhos de Therese mesmo com a grande movimentação das compras de Natal. Quando Carol olha para Therese também há atração, mas de outro tipo. E conforme a história vai se desenvolvendo com a ótima, cuidadosa e detalhista direção de Haynes, essa diferença de olhares fica ainda mais clara.

A interpretação da sempre ótima e especialmente linda neste filme Cate Blanchett transmitiu, para mim, um olhar de interesse com experiência. Ela olha para Therese com desejo, mas uma forma de desejar experiente, um pouco cansado, mas não o suficiente para não tentar um romance mais uma vez. O olhar que Rooney Mara, igualmente maravilhosa e também linda, consegue imprimir em sua Therese é diferente. Ela transmite fascínio e curiosidade constante por tudo e por todos, especialmente pela inteligência e elegância de Carol.

Não li o romance de Patricia Highsmith para ter detalhes da história ou para saber o quanto o filme é fidedigno ou justo com o original, mas esta diferença de olhar e de ótica me pareceu importante e acho que a produção de Haynes consegue expressar bem. A aproximação e a relação de Carol com Therese me fez lembrar bem daquela frase da música Realejo, de O Teatro Mágico, que diz “os dispostos se atraem”.

As duas estavam prontas para uma relação apaixonada e interessante. Therese pensou rápido ao devolver a luva que Carol tinha esquecido (propositalmente?) e esta, por sua vez, não perdeu nenhuma oportunidade de chamar Therese para encontros na sequência. Ainda que a relação das duas seja o foco principal da trama, torna a história ainda mais interessante o contexto social da época.

O filme se passa, como o romance de Highsmith, nos anos 1950 – começando em Nova York e, depois, percorrendo parte do país em uma road trip. Na época, ainda mais pessoas do que hoje se escandalizavam com o romance entre duas mulheres. Ainda mais quando uma delas era casada e tinha uma filha (o caso de Carol) e a outra tinha um namorado apaixonado e louco para casar (situação de Therese).

Para muitas mentes até hoje é difícil entender porque homens e mulheres se interessam por pessoas do mesmo sexo mesmo tendo tido relações heterossexuais “de sucesso” antes. Enfim, não entrarei nesta seara. Só quero dizer que concordo com o Papa Francisco que todas as pessoas precisam ser amadas e aceitas, independente de suas escolhas ou estilos de vida.

Mas voltando para Carol. Além da relação entre as duas personagens centrais, é muito interessante o contexto social da época. Apaixonado pela mulher, Harge Aid (Kyle Chandler) não aceita que Carol queira se divorciar. Para tentar convencê-la a não fazer isso, ele usa a filha do casal, Rindy (interpretada por Kk Heim e por Sadie Heim). Através de um advogado ele alega a “cláusula de moralidade” para ameaçar Carol de que, se ela realmente quiser o divórcio, ele ficará com a guarda completa da filha e vai proibi-la de ver a Rindy.

No início Carol se afasta por recomendação do advogado para não tornar o problema maior. Mas Harge fica sabendo do “sumiço” da quase ex-mulher e procura se vingar. Sem estragar as surpresas do filme, mas a partir daí há duas mudanças de curso na história. Diferente dos livros lançados até então sobre romances entre duas mulheres, na obra de Highsmith, pela primeira vez, a história não teve um fim trágico segundo este texto. Pelo contrário.

Coragem da autora. Mas, infelizmente, até hoje histórias como a de Carol choca muitos públicos. Menos que em 1952, quando The Price of Salt foi lançado. O que sinaliza que seguimos evoluindo na aceitação das diferenças, no respeito e no amor em relação a quem não “cumpre” todos os requisitos admitidos pela maioria. Um belo filme, pela homenagem que faz para a história original e por nos apresentar de forma tão competente os Estados Unidos nos anos 1950 e esta história de amor. Por ser tão bem conduzido, ele faz o público se envolver e torcer pelos personagens. Cinema em estado puro.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sentimento de culpa e frieza. Estes parecem ser dois comportamentos bem identificáveis entre as duas personagens centrais deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em mais de uma ocasião a inexperiente Therese se sente culpada pelo sofrimento de Carol, que não consegue engolir a ação de Harge afastá-la da filha. Ela está vivendo o primeiro grande amor e sofre horrores com a separação. Quem não passou por isso? Carol, por outro lado, tem outra vivência, carregada de olhares de censura e de repúdio. Ainda que, convenhamos, ela é uma mulher corajosa para o seu tempo, procurando sempre ter opiniões firmes e mantê-las apesar das pressões dos demais. Em duas situações ela “se desfaz” de Therese, parece, com certa facilidade. Depois vamos entender que o que parece nem sempre é a realidade.

Gosto muito quando filmes de época consegue, com maestria, reproduzir um tempo antigo nos detalhes. Este é o caso de Carol. Das roupas até as casas e os automóveis (parte mais fácil), passando pela decoração interna dos ambiente e os produtos vendidos, esta produção não esqueceu de nenhum detalhe dos anos 1950. Por isso mesmo merecem aplausos o design de produção de Judy Becker, a direção de arte de Jesse Rosenthal, a decoração de set de Heather Loeffler, os figurinos de Sandy Powell e o departamento de arte com 25 profissionais. Rosenthal e Powell colecionam estatuetas douradas do Oscar e não seria de admirar que elas ganhassem  mais duas este ano.

Ainda falando da parte técnica do filme, vale destacar a comovente, emotiva e eficaz trilha sonora de Carter Burwell e a direção de fotografia de Edward Lachman. Faz um bom trabalho também o editor brasileiro Affonso Gonçalves.

Este é um filme de Cate Blanchett, em especial, mas também de Rooney Mara. Nunca vi as duas tão bonitas – acho que uma das intenções de Haynes era justamente esta. Além delas, é justo dizer que o elenco de apoio está bem. Além do já citado Kyle Chandler, que convence como o marido indignado por estar sendo deixado por Carol, estão bem Sarah Paulson como Abby Gerhard, romance anterior de Carol; John Magaro como o jornalista e amigo de Therese Dannie McElroy; e, em menor medida, porque me pareceu um tanto “sem sal”, Jake Lacy como Richard Semco, namorado de Therese.

Há diversos momentos em que o roteiro de Carol se destaca. Gostei, em especial, de dois: quando Dannie conversa com Therese sobre como as pessoas se atraem ou se distanciam e quando Carol dá um show falando que não é nenhuma mártir, mas deixando claro o que ela acha certo para a vida dela e da filha. Momentos preciosos.

Para não dizer que este filme é perfeito, achei que algumas vezes os coadjuvantes que eu citei acima, apesar de não fazerem feio, poderiam estar melhores em seus papéis. E pode parecer uma bobagem, mas para um diretor tão detalhista quanto Todd Haynes, me incomodou o pouco tempo que ele deixou o bilhete de Carol para Therese em cena. Apenas uma pausa no firme pode permitir que o espectador leia ele na íntegra. Detalhe bobo, mas que poderia ter sido percebido na hora da finalização do filme.

Carol estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme participaria, ainda, de outros 24 festivais de cinema mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou 28 prêmios e foi indicado a outros 128 (um número impressionante, diga-se), incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro.

Os prêmios que o filme recebeu, até agora, foram pulverizados. Mas destaco os seguintes: três em que ele aparece como um dos melhores filmes do ano; três que recebeu como Melhor Filme; dois para Rooney Mara como Melhor Atriz (incluindo o prêmio de Cannes que ela dividiu com Emmanuelle Bercot) e dois que ela recebeu como Melhor Atriz Coadjuvante; um para Cate Blanchett como Melhor Atriz; três como Melhor Fotografia; três como Melhor Roteiro; e três como Melhor Diretor.

Não há informações sobre o quanto Carol teria custado, mas o site BoxOfficeMojo traz os resultados das bilheterias do filme até o dia 4 de janeiro. Até esta data Carol tinha arrecadado pouco mais de US$ 5 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 6,3 milhões nos outros países em que ele já estreou.

Para quem gosta de saber os locais em que as produções foram rodadas, Carol foi filmado principalmente em cidades de Ohio como Cincinnati, Cheviot e Hamilton – com franca vantagem para a primeira. Algumas cenas também foram rodadas em Alexandria, no Kentucky.

Agora, algumas curiosidades sobre Carol. Rooney Mara, como é possível ver acima, está sendo bem premiada e elogiada por sua interpretação por Therese. Mas por pouco ela não ficou com o papel. Isso porque ela foi convidada para fazer Therese depois de sua performance em The Girl with the Dragon Tattoo mas, por estar muito cansada, ela acabou desistindo do convite. Mia Wasikowska entrou no lugar dela, mas acabou desistindo do papel também por causa de Crimson Peak. Foi aí que Mara voltou para o papel, especialmente depois que Haynes assinou para dirigir o filme em 2013.

Carol é uma destas produções de Hollywood que demorou muuuuito tempo para sair da gaveta. Para se ter uma ideia, Phyllis Nagy escreveu o primeiro rascunho do filme em 1996. Interessante também saber que ela foi amiga de Patricia Highsmith.

Algo que eu li agora e que fez muito sentido ao pensar em Carol: a fotografia da produção foi inspirada no trabalho dos fotógrafos Vivian Maier e Saul Leiter.

Carol foi aplaudido de pé no Festival de Cinema de Cannes durante a exibição para a imprensa internacional e também na estreia da produção no evento.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Carol, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 10 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6.

Difícil escolher um pôster para abrir este post. Carol tem diversos cartazes muito, muito bonitos. Algo condizente com a bela direção de fotografia deste filme.

CONCLUSÃO: Um filme acertado na reconstrução de época e com um roteiro bem construído. Carol nos apresenta algumas das qualidades essenciais de um bom filme, além de duas atrizes convincentes em seus respectivos papéis. Cate Blanchett combina com filmes de época e está mais linda do que nunca. Ao lado dela, uma Rooney Mara atenta aos detalhes. Uma bela produção que nos faz pensar sobre o amor e a liberdade de escolha das pessoas contra as convenções das sociedades e suas crenças.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Nem sempre um filme que chega com diversas indicações no Globo de Ouro consegue preservar esta força nas indicações ao Oscar. Apesar disto, acredito que Carol tem boas chances de aparecer em mais de uma categoria da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – especialmente depois que a premiação passou a ter até 10 filmes indicados na categoria principal.

Alguns podem achar que Carol é um filme ordinário. Não vejo desta forma. Como eu disse no texto acima, acho que ele é muito bem construído e que tem mais qualidades do que defeitos. Por isso mesmo eu acho que ele pode ser indicado, se tiver sorte, em sete categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção.

Podem ficar de fora da lista de indicações Atriz Coadjuvante – se a Academia entender que Mara também teria que ser indicada a Melhor Atriz – e pode entrar na lista Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora Original.

Claro que esta lista de indicações depende de lobby dos produtores e das qualidades dos demais concorrentes – ainda faltam muitos filmes para assistir. Do que vi até agora, acho que Carol tem chances como Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (ainda que faz falta ter assistido às demais possíveis concorrentes), Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. A minha consideração sobre estes dois últimos ainda pode mudar dependendo dos demais filmes.

Não vejo chances de Carol ganhar como Melhor Filme. Neste sentido acho Spotlight com chances maiores. O mesmo em relação a Melhor Diretor. Ainda que Todd Haynes faça um excelente trabalho, Alejandro González Iñarritu tem grandes chances de levar mais uma estatueta dourada para casa nesta categoria.

Cate Blanchett sempre merece um Oscar, mas não sei se ela chegará a receber a estatueta desta vez. Me parece que a concorrência está forte com outras atrizes – como Alicia Vikander de The Danish Girl e Saoirse Ronan em Brooklyn. Caso Blanchett e Mara forem indicadas – algo muito, muito difícil -, vejo maiores chances para Blanchett. Ainda que não seria injusto Mara ganhar uma estatueta. É uma atriz em franca ascensão. Logo veremos.