The Lady in the Van – A Senhora da Van


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Não importa o país em que você viva ou em que esteja de passagem. Sempre será possível encontrar alguém que more na rua e/ou que não tenha um endereço fixo. Algumas vezes isso acontece por pura fragilidade social, por falta de recursos financeiros para a pessoa ter uma residência própria ou compartilhada. Outras tantas vezes as razões passam por desentendimentos familiares, problemas mentais ou incapacidade de viver em um único local. Os motivos são variados. The Lady in the Van conta uma destas histórias. De quebra, o filme fala sobre como a sociedade vê pessoas com este perfil, e como não é difícil dar-lhes um pouco de oportunidade e de dignidade.

A HISTÓRIA: Um grito e o som de uma batida. Uma van anda veloz em uma estrada do interior enquanto um carro de polícia a persegue. No volante da van, Miss Shepherd (Maggie Smith), que olha assustada para o vidro da frente da van partido e com sangue. O policial Underwood (Jim Broadbent) vê quando ela tenta escapar dele. Corta. Cenas de um concerto. Corta. O escritor Alan Bennett (Alex Jennings) escreve sobre Miss Shepherd que, por bondade dele, vive na garagem de sua casa na velha van cheia de sacolas. Ela está ali há cinco anos. Mas voltamos no tempo, quando Bennett, em 1970, escolhe a casa em Camden Town, bairro de Londres, para viver. É em uma igreja próxima da residência que ele vai conhecer Miss Shepherd e, a partir dali, eles vão desenvolver uma relação duradoura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só leia quem já assistiu a The Lady in the Van): A minha maior motivação para assistir a este filme foi, sem dúvida alguma, a atriz Maggie Smith. Ela é uma das grandes atrizes da Inglaterra e um dos destaques da série de TV Downton Abbey, entre outros filmes e peças de teatro. Gosto muito do estilo dela e, claro, sempre é bom ver a um filme inglês. O humor deles é único.

Só depois de começar a assistir ao filme é que soube do que se tratava. The Lady in the Van é ao mesmo tempo um mergulho na história de uma homeless (pessoas sem uma residência) e uma apreciação detalhista do trabalho e da vida de um escritor, o inglês Alan Bennett. Certamente o filme tem uma graça bem diferente para quem conhece a obra de Bennett. Como não é o meu caso, achei esta produção apenas razoável. E explico o porquê na sequência.

Sempre que vejo um filme, quando ele não me “golpeia” completamente do início ao fim, me pergunto se ele poderia ser mais curto. Francamente, a primeira leitura que tive de The Lady in the Van, e isso enquanto eu assisti ao filme, é que ele poderia perfeitamente ser um curta. Talvez uma produção com 50 minutos de duração. Não era necessário quase duas horas de filme para contar a história de um escritor e a sua relação generosa e de pesquisa com uma senhora que vive em uma van.

Maggie Smith está ótima, não há o que contestar. Mas a história acaba sendo um tanto repetitiva, muitas vezes “derrapando” em basicamente as mesmas linhas – como as vezes em que Miss Shepherd viajou para aproveitar a brisa do mar e visitar o irmão Leo (David Calder) sorrateiramente. Uma sequência mostrando aquele tipo de viagem já seria suficiente, não? Também há muitas cenas que significam quase o mesmo envolvendo a mãe (Gwen Taylor) do escritor. Claro, para quem gosta da obra de Bennett, certamente estes detalhes são importantes e fazem sentido. Para mim, pareceram totalmente passíveis de cortes.

Boa parte do filme se justifica mostrando os personagens complementares da história, especialmente os vizinhos de Camden Town. Neste sentido também o filme pode interessar para quem viveu naquele bairro ou para quem se interessa por aquela região para saber como as pessoas viviam ali entre os anos 1970 e 1980 – a história acompanha a relação entre Bennett e Miss Shepherd até 1985. Estes são os pontos de interesse do filme, além de uma reflexão importante sobre como todas as pessoas “marginalizadas” da sociedade merecem respeito e consideração porque todas elas, afinal, tem as suas próprias histórias e riquezas a partir do que viveram até chegar àquele ponto.

Neste sentido, The Lady in the Van é um filme bacana e importante. As pessoas que fogem do “padrão aceitável” da sociedade, ou seja, pessoas que não tem casa, que não estão sempre limpas, que cheiram mal ou que tem comportamentos que podem não ser ilegais, mas que incomodam quem segue os padrões, tem as suas próprias histórias para contar. E ainda que elas não pareçam muito coerente às vezes – porque não estão com a sua saúde perfeita ou porque padecem de alguma condição mental diferenciada -, elas merecem respeito e atenção. O que, infelizmente, quase nunca acontece.

As pessoas estão mais acostumadas a não ver esse tipo de pessoa ou, quando as vêem, é apenas para fazer cara feia, de desprezo e atravessar a rua. Pouquíssimas pessoas olham para elas como indivíduos que merecem atenção, um “bom dia” ou “boa tarde”, alguns minutos de conversa. Normalmente os “homeless” são vistos como problema, como pessoas indesejáveis. The Lady in the Van trata a história de Miss Shepherd com respeito, mas também com um certo humor que muitas vezes pode ser questionável – tudo bem que é o estilo inglês de tratar os assuntos sérios, mas especialmente a trilha sonora um tanto “circense” me incomodou algumas vezes.

Além da reflexão óbvia sobre a figura de Miss Shepherd, este filme se debruça sobre o trabalho criativo de um escritor que ficou conhecido por escrever sobre o que ele observava e vivenciava. Daí é interessante não apenas o olhar que ele tem para a vizinhança – e, de quebra, para a sociedade inglesa -, mas também sobre a própria mãe e sobre si mesmo. Dá para entender porque ele trata de forma furtiva a própria homossexualidade – afinal, nos anos 1970 ela não era exatamente “bem vista” -, mas isso me incomodou um pouco, devo admitir. Acho que o filme – com roteiro do próprio escritor – poderia ter tratado esse tema de forma mais franca e aberta.

Também achei um tanto angustiante aquele permanente diálogo de Bennett com ele mesmo. O tempo todo o ator está falando com “outro ele mesmo”. Para resolver esta questão, o roteiro de Bennett e o diretor Nicholas Hytner resolveram colocar o ator sempre em dois “papéis”: o Bennett que sai para a rua, tem uma vida “pública”, digamos assim, e o Bennett que está sempre em casa, sentado na escrivaninha escrevendo. É uma forma de resolver a questão, mas achei ela um tanto esquizofrênica. Francamente, eu teria achado mais realista e interessante ele falando literalmente sozinho. Mas ok, há que se respeitar a escolha dos realizadores.

Os últimos pontos relevantes que o filme aborda tem a ver com a forma com que a administração pública lida com pessoas como Miss Shepherd e a relação estreita e muitas vezes comum entre altruísmo e a busca por benefício próprio ao fazermos uma boa ação.

A primeira assistente social a aparecer falando com Miss Shepherd, Lois (Claire Foy), deixa claro que o melhor seria se aquela senhora fosse para outro local – resolvendo, assim, um “problema” do bairro. A outra assistente social a acompanhar Miss Shepherd, Miss Briscoe (Cecilia Noble), aparece de tempos em tempos mais para cobrar uma boa postura de Bennett do que realmente se envolver com a senhora que vive em uma van.

Depois, e o próprio Bennett não escapa desta autocrítica, qual era a motivação dele em ajudar Miss Shepherd? Me parece que ele realmente tinha consideração e respeito por aquela senhora idosa, mas ele também se beneficiou da observação dela. Não apenas porque escreveu uma história a seu respeito, mas também porque conseguiu fazer com ela o que ele não conseguiu fazer com a própria mãe.

Bennett deixa claro, assim, como muitas vezes ajudamos outras pessoas não exatamente porque sejamos bons, ou porque é o certo, mas porque estamos resolvendo alguma outra “dívida” que temos com outra pessoa, com a sociedade ou conosco mesmos. E há quem ajude porque acha que assim terá um local no céu depois que morrer. Enfim, por muitas óticas que se veja, muitas vezes, a ajuda para os outros não tem tanto a ver com altruísmo, mas com atos que no fim tem causa própria. Esta reflexão é sempre válida, e é algo que The Lady in the Van nos propicia. Um bom filme, mas poderia ser mais curto, sem dúvida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Nicholas Hytner faz um trabalho correto neste The Lady in the Van. E apenas isso. A direção dele é tradicional, focando o trabalho dos atores e seguindo uma lógica praticamente toda linear. Nada além do previsível. O roteiro de Alan Bennett, baseado no livro que ele mesmo escreveu, também segue uma lógica tradicional, conservadora, com muito cuidado sobre como explorar cada aspecto da história. Por ser uma das pessoas diretamente envolvidas na história, temos com ele uma ótica bem definida e, claro, limitada.

A atriz Maggie Smith dá um show neste filme. Ela está ótima e é precisa, como sempre, aliás. O filme é dela. Alex Jennings, o outro personagem central nesta produção, também faz um bom papel. E atores veteranos como Jim Broadbent e David Calder acabam fazendo papéis bem secundários, quase em pontas.

Além deles, vale citar o trabalho de outros atores que ganham um certo destaque na história: Clare Hammond como a jovem Margaret Fairchild (nome verdadeiro de Miss Shepherd); George Fenton como o jovem motociclista que a protagonista mata em um acidente quando era mais jovem; Deborah Findlay como Pauline, mulher de Rufus (Roger Allam), casal que é vizinho de Bennett; Richard Griffiths como Sam Perry, Pandora Colin como Fiona Perry, Nicholas Burns como Giles Perry e Tom Klenerman como Tom Perry, família que também mora na vizinhança; Dominic Cooper em uma super ponta com o um ator que trabalha em uma das peças de Bennett; Frances de la Tour como Vaughan Williams, amiga de Bennett; Dermot Crowley como o padre que é antigo conhecido de Miss Shepherd; Linda Broughton como Edith Fairchild, cunhada da protagonista; e Andrew Knott como o homem da ambulância que trata Miss Shepherd com respeito e atenção. Estes são os coadjuvantes com maior destaque.

Da parte técnica do filme, nada muito a destacar além da edição de Tariq Anwar, dos figurinos de Natalie Ward e da ótima maquiagem com cinco profissionais liderados por Naomi Donne. A direção de fotografia de Andrew Dunn é bastante simples e tradicional, e a trilha sonora de George Fenton achei um tanto circense e irritante, para ser franca. No mais, bem feito design de produção de John Beard, a decoração de set de Niamh Coulter e a direção de arte de Tim Blake – mas nada, volto a dizer, excepcional.

O escritor Alan Bennett tem livros e peças de teatro que levam a assinatura dele, além de ter um trabalho reconhecido como roteirista do grupo que ficou conhecido como Beyond the Fringe, criado em 1964 e que tinha os diretores Peter Cook, Jonathan Miller e Dudley Moore como participantes. Como roteirista ele tem 33 trabalhos no currículo, incluindo filmes para o cinema e para a TV, minisséries e séries para a TV, peças de teatro filmadas e documentários feitos para a TV. Ele tem 10 prêmios no currículo e uma indicação ao Oscar por The Madness of King George. No dia 9 de maio Bennett completa 82 anos de idade.

The Lady in the Van estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros nove festivais de cinema – o último começando amanhã, dia 11 de abril, na Turquia. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro, incluindo uma indicação para Maggie Smith como Melhor Atriz – Comédia ou Musical no Globo de Ouro. O único prêmio que o filme ganhou foi o de Melhor Atriz para Maggie Smith no Evening Stardard British Film Award.

Esta produção teria custado 2,26 milhões de libras esterlinas. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu US$ 9,46 milhões. No Reino Unido ele fez mais 11,26 milhões de libras esterlinas. Ou seja, um verdadeiro sucesso nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme chegou a estar em cartaz em 602 cinemas e, no Reino Unido, em 549.

O filme foi totalmente rodado em Glouscester Crescent, em Camden Town, na cidade de Londres, e também em Broadstairs, na cidade de Kent, ambas, claro, no Reino Unido.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O diretor Nicholas Hytner disse para o jornal The Guardian que um dia a equipe de filmagens chegou na locação em Camden Town e percebeu que a van tinha sido assaltada, além de que duas pessoas tinham passado o final de semana dentro do veículo para que eles “passassem um bom tempo um com o outro”. Isso exigiu que a equipe tirasse tudo que estava dentro a van e que tinha sido “artisticamente sujo” para limpar tudo tudo e voltar a sujar da maneira que eles queriam para o filme. Eita!

O filme foi rodado na casa e na rua em que os fatos reais aconteceram. Algumas das pessoas que vivenciaram aqueles fatos ainda continuavam morando por ali.

Em maio do ano passado, no Hay Festival, o roteirista Alan Bennett comentou algo interessante: “A história deste filme tem lugar há 40 e poucos anos e Miss Shepherd está há muito tempo morta. Ela era difícil e excêntrica, mas acima de tudo, ela era pobre. E nestes dias, particularmente, a pobreza é algo que as pessoas não querem olhar muito. A pobreza é uma falha moral hoje e no tempo dos Tudors. Se esse filme tem um ponto, é sobre equidade e tolerância e sobre o contragosto em ajudar os menos favorecidos, aqueles que não estão bem nos dias atuais. E agora é provável que ainda menos”.

Esta é uma adaptação que Bennett fez de sua peça teatral lançada em 1999 e do drama transmitido pela Radio BBC em 2009, todas com o mesmo nome. Maggie Smith interpretou o papel em todas as ocasiões.

Agora, um detalhe diferente neste filme em relação ao material original de Bennett. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo Bennett, grande parte da história adaptada para o cinema é legítima e condizente com a história da verdadeira Miss Shepherd, com exceção do personagem do policial interpretado por Jim Broadbent. Na história real o homem que vinha volta e meia procurar Miss Shepherd era um homeless conhecido dela e não um policial que a extorquia.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre a personagem real que inspirou Bennett, há informações interessante neste link, em uma matéria do The Telegraph, e para saber mais sobre o escritor e roteirista Bennett, há outro texto interessante com os principais momentos da vida dele feita pelo The Telegraph e acessível aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 111 críticas positivas e apenas nove negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Acho que a nota dos críticos é uma avaliação bastante justa.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Filme interessante, com uma grande atriz interpretando a personagem principal, mas isso não garante que a história não seja um tanto arrastada. A premissa é boa, mas talvez ela rendesse melhor um curta. Com uma ótica bastante humana e inglesa, The Lady in the Van nos apresenta uma de tantas histórias de pessoas que decidiram ou foram impelidas a viver de forma alternativa à qual a sociedade está acostumada. Sem dúvida nenhuma elas merecem o nosso respeito e atenção, e o filme trata bem deste assunto. Um filme interessante, com uma boa proposta, mas que considerei apenas mediano.

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