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Steve Jobs

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Um personagem de relevância histórica é sempre difícil de retratar em apenas um filme. Basta lembrar de grandes lideranças políticas ou de grandes artistas e os filmes que tentaram contar a suas histórias ou parte delas para ter isto claro. Mas algumas produções conseguem se dar melhor que outras nesta tarefa. Steve Jobs é um destes filmes que fica no meio do caminho. Ele tem qualidades, mas deixa bastante a desejar – especialmente se você conhece um pouco sobre a história do personagem retratado. Francamente, depois de assisti-lo, fico surpresa com as indicações que recebeu para o Oscar. Para mim, não passa de um filme razoável.

A HISTÓRIA: Começa com aquele vídeo histórico com a entrevista que um jornalista da rede ABC fez com o escritor Arthur C. Clarke, de 2001: A Space Odyssey. O jornalista apresenta para o escritor o seu filho Jonathan, comentando que ele será um adulto – a entrevista acontece em 1974 – no ano que o autor projetou em seu livro, e pergunta como será o mundo em 2001. Clarke prevê que todos terão um computador e que as pessoas terão mais liberdade e autonomia por causa disso. Corta.

Passamos para 1984, em Cupertino, na Califórnia, quando Steve Jobs (Michael Fassbender) se prepara para lançar o Macintosh para uma grande e sedenta plateia. Nos bastidores ele discute com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) porque o computador não conseguirá responder “olá” durante a apresentação. A partir deste momento conhecemos mais sobre a personalidade e a vida do homem que transformara a Apple e o consumo de tecnologia no muno.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Steve Jobs): Honestamente, se não fosse pelo Oscar, eu não teria assistido a Steve Jobs. Digo isso porque, como comentei lá no início, sempre acho complicado um filme de duas horas ou pouco mais apresentar um recorte interessante de um personagem histórico interessante e controverso, como é o caso do ícone da informática em questão.

Enfrentei a missão por causa do meu desafio pessoal de assistir ao máximo de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Além disso, admito, tinha curiosidade de ver o desempenho de Michael Fassbender e Kate Winslet nesta produção. Afinal, os dois estão sendo volta e meio lembrados em premiações como duas das melhores interpretações de 2015. Não sou uma fanática por Steve Jobs, daquelas que sabe tudo sobre a vida dele. Mas já li um bocado, vi alguns de seus vídeos disponíveis no YouTube – de apresentações de produtos, como o lançamento do iPod e do iPhone, até entrevistas com ele – e, por isso, sei que ele não era um gênio sem problemas.

Muito pelo contrário. Steve Jobs era um visionário com pés, canelas e pernas de barro. Talvez por isso ele chame tanto a atenção. Faz parte da atratividade dele, evidentemente, também ele ter ajudado a mudar uma indústria e a empresa que ele ajudou a fundar e recuperar fazer parte da vida de milhões de pessoas no mundo inteiro. Tivemos vários outros gênios na história da humanidade, muitos deles muito maiores que Steve Jobs – que tal falar de Copérnico, Galileu Galilei, Da Vinci, Darwin e Einstein, só para citar alguns dos óbvios?

Todos viveram em uma época em que não era possível utilizar a mídia global a seu favor e nem promover grandes eventos para o lançamento de suas últimas “descobertas”. Também havia uma capacidade de documentação e registro muito, mas muito menor do que aquela vivida por Steve Jobs. A favor dele, além de uma bela capacidade de persuasão e de convencimento da mídia – falando bem ou mal dele, mas normalmente bem -, havia o fato de tudo poder ser gravado, documentado, transmitido e propagado para milhões como nunca antes na história.

Steve Jobs, o filme, faz um recorte bem pequeno da trajetória de Steve Jobs. O filme vai do lançamento do Macintosh, em 1984, passando pela saída traumática dele da Apple até o retorno do executivo para a companhia para o lançamento do iMac em 1998. Inicialmente, acho estranho contar de forma linear e tão limitada a vida de um personagem como este, tendo a possibilidade de utilizar outros recursos, como flashbacks para contar fatos importantes do passado – esse recurso até é utilizado, mas pouco e de forma muito pontual – e um roteiro e uma edição mais elaborada para contar uma parte maior da vida de Jobs.

Agora, entendo a escolha do roteirista Aaron Sorkin e do diretor Danny Boyle de centrar este filme apenas no período entre 1984 e 1998. Com esta escolha eles tentam resumir este personagem complexo e conturbado em um conceito: um homem brilhante, um tanto cruel, obcecado pelo trabalho e pelos detalhes, frio com a maioria das pessoas mas capaz de mostrar também algum sentimento e, principalmente, obcecado pela Apple e por fazer uma desforra contra todos aqueles que foram contra ele e/ou não entenderam a sua genialidade antes.

O problema é que esta é apenas uma parte da história de Jobs. Verdade que ele era tudo isso, mas ele era também um sujeito muito preocupado com o design e com o “estado de arte” da tecnologia. Ele poderia ser um pouco egocêntrico, mas ele não queria só ser o centro das atenções e retomar o posto que havia perdido na Apple. Ele queria, de fato, comprovar a própria teoria de que as pessoas poderiam ter bons equipamentos, úteis para as suas vidas e que ajudariam a revolucionar o mundo – como previu o Arthur C. Clarke que aparece no vídeo que abre o filme.

Entendo que Sorkin e Boyle escolheram o período citado por mostrar que este gênio da informática teve dois “fracassos” importantes antes de conseguir o primeiro sucesso. Isto é algo fundamental para as pessoas que atuam na área e para a cultura dos Estados Unidos.

Lá, diferente do Brasil, se aceita e até se estimula que um empreender tente e erre antes de simplesmente não tentar. Os fracassos fazem parte do processo. Neste sentido, Steve Jobs acerta ao mostrar como o protagonista desta história se deu mal com o lançamento do Macintosh e, depois, com o lançamento do Cubo da NeXT antes de ter sucesso comercial pela primeira vez.

Mas aí, justamente aí, está um dos grandes problemas deste filme. Algo que me incomodou quando saímos do lançamento do Cubo para “viajarmos” direto no tempo para o lançamento do iMac em 1998. Quem leu a obra de Walter Isaacson, no qual o roteiro de Sorkin teria se baseado ou, como eu, ao menos leu alguns trechos deste livro, sabe que há um capítulo importante neste período temporal de Jobs que fez toda a diferença para a vida dele e para esta história.

Esse capítulo tem a ver com a compra da Pixar por Jobs em 1986. Tudo o que ele fez no estúdio simplesmente é ignorado pelo filme de Sorkin/Boyle. Achei lamentável. Até porque não era difícil falar a respeito – mesmo que a intenção dos realizadores era mostrar sempre os bastidores e momentos de “tensão” que antecederam a algumas de suas famosas apresentações de novos produtos. Além disso, me pareceu exagerada a força que o roteiro fez para mostrar a relação (ou falta dela, em muitos momentos) de Jobs com a filha Lisa (Makenzie Moss quando ela tinha cinco anos, Ripley Sobo quando ela tinha nove e a brasileira Perla Haney-Jardine quando ela tinha 19 anos).

Neste filme percebemos muito o lado perfeccionista e cruel de Steve Jobs, seja no trato dele com a equipe com a qual ele trabalhava e que eram subordinados dele, seja na forma com que ele lidava com a ex-namorada Chrisann Brennan (Katherine Waterston) ou com Lisa. Parece que Sorkin fez questão de mostrar bastante da relação de Jobs com Lisa, em especial, para tentar “humanizá-lo”. Como se o robô fosse, pouco a pouco, se tornando humano. Sabemos que Jobs, de fato, foi com o tempo suavizando um pouco o trato, mas a verdade é que ele nunca deixou de ser perfeccionista e um tanto “babaca” com as demais pessoas.

Isso acontece com muitos de nós, diga-se de passagem. Somos mais diretos, afoitos e temos muita pressa para conquistar o que queremos quando somos muito jovens. Com o tempo, a maturidade nos ensina a desacelerar e a relaxar. Inevitável que isso tivesse acontecido com Jobs. Mas esta reflexão não aparece tanto no filme quanto desejado. Também achei estranho tantas discussões ao estilo “lavar a roupa suja” do protagonista com John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Wozniak (Seth Rogen) enquanto o roteiro ignora a Pixar e os outros relacionamentos que Jobs teve na vida – apenas em um breve momento o roteiro cita Joan Baez, mas é só.

Toda obra, e os filmes estão incluídos nesta categoria, defende uma ideia. Isso acontece em Steve Jobs também. Mas a ideia que o filme defende é deficitária. Este é o problema. Esta produção é muito menor do que poderia ser. Verdade que ela tem o mérito, ao menos, de não endeusar Jobs. Menos mal. Ele tinha diversos pecados e falhas, como tantos outros gênios antes e depois dele – mas sem tanta documentação a respeito, volto a ressaltar.

O filme mostra parte delas, mas ignora muitas de suas qualidades – apenas algumas são enfocadas na história. Na maior parte do tempo ele parece apenas um grande babaca obcecado pelo trabalho e por apresentações de produtos perfeitas e que não sabia lidar com as pessoas, nem amar a filha, nem reconhecer os colegas que tinham feito os produtos que ele apresentava com tanta soberba. E ainda que ele fosse um pouco disso, certamente ele era mais do que este retrato imperfeito.

Também senti falta de algo importante no filme: um pouco mais sobre a história por trás dos três aparatos destacados nas apresentações de Jobs. Afinal, como surgiram as “viradas de chave” do Macintosh, do Cube da NeXT e do iMac? Em que pontos Jobs foi decisivo e em que pontos outras pessoas foram determinantes? Claro, alguém pode argumentar, que Sorkin não poderia ter se aprofundado na personalidade de Jobs ao mesmo tempo em que detalhava cada uma destas inovações. Mas acho que ele não precisava nem ir tanto ao céu e nem ir tanto a Terra.

Sorkin poderia perfeitamente ter encurtado as várias discussões entre o protagonista e Wozniak ou de Jobs com Sculley e ter colocado um pouco mais de dinâmica e edição em contar um pouco dos bastidores dos laboratórios e não apenas da “coxia” das apresentações dos produtos. Na verdade, achei o filme bem devagar, em muitos momentos, com um ritmo lento demais e sem a necessária profundidade narrativa ou do personagem central.

Alguns momentos da história também me pareceram forçados para arrancar algum “sentimento” do espectador – especialmente na reta final envolvendo a personagem de Joanna Hoffman (Kate Winslet) e a de Lisa em relação a Jobs. Vi uma forçada de barra desnecessária ali. E quanto às interpretações… Fassbender e Winslet estão bem. O filme é centrado bastante nos dois. Mas não vi em nenhum deles uma interpreta digna do Oscar. E mesmo eles terem sido indicados achei um pouco de bondade da Academia. Se eu votasse, não teria colocado eles lá.

NOTA: 7 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do diretor Danny Boyle. Ele está na lista dos diretores que eu gosto sempre de acompanhar. Por isso mesmo achei este Steve Jobs um ponto fora da curva da filmografia dele. Para mim, um de seus filmes mais fracos e, sem dúvida alguma, menos ousados. Claro que ele faz um bom trabalho, como não poderia deixar de ser. Boyle acompanha de perto os atores principais, especialmente Fassbender e Winslet. Acerta ao mostrar os comentários da imprensa após cada lançamento fracassado, dando um certo “contexto histórico” – ainda que limitado – para a história. Mas, cá entre nós, nada inovador.

O roteirista Aaron Sorkin realmente é um dos “queridinhos de Hollywood”. Só isso poderia explicar ele ganhando o Globo de Ouro de Melhor Roteiro por este filme. Para mim o roteiro de Steve Jobs é um dos pontos fracos da produção. E deveria ser exigido que constasse, em alguma parte, que o roteiro é “levemente” baseado no livro de Walter Isaacson.

Porque o livro homônimo dele sim trata Jobs de maneira muito mais ampla e justa, contando a história completa deste personagem, todas as suas nuances, crises, carreira e vida pessoal. Muito diferente do filme. Além disso, me parece um crime Steve Jobs ganhar o Globo de Ouro concorrendo com Room (comentado aqui), Spotlight (com crítica neste link) e mesmo The Big Short (crítica por aqui). Qualquer um destes três tem um roteiro muito, mas muito melhor que Steve Jobs.

Eu até simpatizo com o ator Seth Rogen mas, francamente, acho que um ator mais “de peso” e, talvez, mais velho, deveria ter encarnado Steve Wozniak. Faria mais sentido.

Como comentei antes, o filme é bastante centrado na interpretação de Michael Fassbender e de Kate Winslet. Até porque boa parte da história é feita sobre a interação dos dois. Ambos estão bem, mas nada extraordinário. Cite já alguns coadjuvantes de renome, como Jeff Daniels, Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Os três estão bem, mas algo esperado de atores deste nível – novamente, nada demais. Do elenco de apoio, gostei em especial da interpretação de Katherine Waterston como Chrisann Brennan e da carioca Perla Haney-Jardine como a filha de Jobs quando ela tinha 19 anos. Não lembro de ter visto Haney-Jardine em cena antes. Acho que ela tem carisma e promete. Pode estourar em breve – se tiver boas oportunidades para isso. É alguém interessante para ser acompanhada.

Além desse povo, aparece um pouco mais em cena, entre os coadjuvantes, John Ortiz como o jornalista Joel Pforzheimer.

Da parte técnica do filme, achei interessante o visual conferido em cada momento da história. Mérito do diretor Danny Boyle e, principalmente, das escolhas do diretor de fotografia Alwin H. Küchler. Boa também a edição de Elliot Graham. A trilha sonora de Daniel Pemberton aparece pouco, até porque o filme tem na verborragia dos diálogos de Jobs um de seus elementos centrais, dando pouco espaço para uma trilha sonora. Os demais elementos, como direção de arte, design de produção, decoração de set e figurinos são bem feitos, mas nada a destacar.

Steve Jobs estreou em setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais e mostras de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme acumulou 12 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo duas indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro; e para nove prêmios de Melhor Ator para Michael Fassbender.

Este filme teria custado US$ 30 milhões e faturado, nos Estados Unidos, até o dia 10 de dezembro, quase US$ 17,8 milhões. Nos outros mercados em que ele estreou ele faturou quase US$ 11,2 milhões. Ou seja, no total, ele ainda não conseguiu cobrir nem os gastos com as filmagens – e há ainda outros custos para cobrir. Em resumo, talvez ele não consiga se pagar. Cá entre nós, não me surpreende. O filme realmente não é digno de uma boa propaganda boca a boca. Ele está muito aquém do personagem que tenta retratar.

Steve Jobs foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em locais como Berkeley, Cupertino, San Francisco (no War Memorial Opera House e no Davies Symphony Hall) e em Palo Alto.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Para marcar bem a passagem de tempo, Steve Jobs foi filmado com equipamentos diferentes para cada momento da história. Na primeira parte, em 1984, o filme foi rodado em 16 mm; a segunda parte, em 1988, em 35 mm, e a última, em 1998, em digital.

Michael Fassbender chegou a dizer que o ator Christian Bale deveria ter feito o papel de Jobs. E esta produção, inicialmente, ia ser rodada por David Fincher. Mas a Sony resolveu não aceitar as exigências dele – como pagamento de US$ 10 milhões e controle criativo total sobre a produção – e, por isso, o filme ficou com Danny Boyle. Quando o diretor assumiu o projeto, Jobs foi oferecido para Leonardo DiCaprio, que não topou, e depois para Bale, que também recusou.

O cofundador da Apple Steve Wozniak teria trabalhado como consultor do filme. Por isso, talvez, o personagem dele aparece duas vezes basicamente discursando o mesmo. 😉

Algo curioso: DiCaprio não aceitou fazer Steve Jobs para poder, no lugar, embarcar em The Revenant. E é bem possível que ele ganhe o Oscar por causa desta decisão. Cá entre nós, comparando os filmes e roteiros, sem dúvida alguma ele acertou na aposta.

Inicialmente Aaron Sorkin queria Tom Cruise para interpretar Jobs. Sério?

Agora, mais razões para não gostar do roteiro de Sorkin. O que motivou, inclusive, que eu abaixasse um pouco mais a nota. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas “cruciais” da produção nunca aconteceram na vida real. Por exemplo, aquela em que Lisa faz um desenho no Macintosh. Outra que nunca aconteceu foi a “reconciliação” entre John Sculley e Jobs e a maioria dos argumentos utilizados por Steve Wozniak com Jobs, além da sequência final entre Jobs e a filha (esta, na verdade, ao menos para mim, já estava na cara que tinha sido forçada).

Busquei no livro de Isaacson essa parte sobre a paternidade de Lisa Brennan. O livro é claro sobre como tudo aconteceu e explica que Jobs simplesmente decidiu ignorar que ele era pai da menina. É como se ele pudesse “escolher” entre ser pai ou não e ter optado pela segunda opção – mesmo sendo óbvio que Lisa era a sua filha. No livro, comenta-se, que ele fez isso porque tinha outros planos para a sua vida – como fazer a carreira que ele fez. Ou seja, um belo de um babaca e covarde.

O computador que ele lançou com o nome de Lisa era, de fato, uma homenagem para a filha que ele negava até então. Outra verdade é que inventaram um acrônimo que não significava nada para tentar “esconder” a homenagem para a menina. Em outro momento do livro Isaacson comenta que quando Lisa ficou maior, ela e o pai viviam uma relação de altos e baixos. Os dois eram temperamentais e tinham dificuldade de pedir desculpas. Chegaram a ficar mais de um ano sem se falarem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 198 críticas positivas e 34 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 7,6. Este é um dos raros casos em que eu não consigo ter uma visão tão positiva quanto o resto do público e da crítica – vocês sabem que eu costumo ser bondosa. 😉

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Há alguns anos eu ganhei o livro Steve Jobs, de Walter Isaacson, de presente. Até hoje não li a obra inteira, apenas trechos aqui e ali. Mas por atuar como jornalista e cobrar as áreas de economia e tecnologia, impossível não ter lido, nestes anos todos, tantas histórias e partes sobre a vida e a obra de Jobs. Por isso mesmo achei este filme bastante menor do que ele poderia ser. Verdade que a história acerta ao mostrar dois grandes fracassos do ícone da tecnologia antes dele começar a acertar e iniciar o processo que tornaria a Apple a empresa mais valiosa do mundo.

Mas fora isso, muito da personalidade e da história do retratado fica de fora – e detalhe, com “esquecimentos” importantes no período retratado. As interpretações dos atores principais são boas e coerentes, mas nada demais. Em resumo, um filme apenas mediano. Se tiveres outra opção para assistir e que tem a tendência de ser melhor, recomendo passar para uma segunda opção.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Steve Jobs acabou sendo indicado em apenas duas categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa como Melhor Ator para Michael Fassbender e como Melhor Atriz Coadjuvante para Kate Winslet. Francamente? Se for feita a justiça, ele não levará em nenhuma destas duas categorias.

Sem dúvida alguma Leonardo DiCaprio e Eddie Redmayne estão melhores e The Revenant e The Danish Girl (comentado aqui), respectivamente. E o mesmo pode ser dito de Matt Damon por seu trabalho em The Martian (com crítica neste link). Então, só em Melhor Ator, temos três nomes mais fortes que Fassbender na disputa. Se ele ganhasse, para mim, seria a maior zebra da noite.

O mesmo posso dizer da categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander, para mim, é o nome do ano. Ela merece levar o Oscar. Mas se ela não levar, prefiro Rooney Mara em Carol (com crítica neste link) do que Winslet em Steve Jobs. Nada contra os atores, quero deixar claro, mas para mim há uma diferença grande de performance entre eles. Sendo assim, não será nenhuma surpresa se Steve Jobs não ganhar nada no Oscar deste ano.

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The Martian – Perdido em Marte

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Dificuldades e desafios sempre vão aparecer pela frente. Algumas vezes eles são tão grandes e decisivos que ameaçam a nossa vida. Nestes momentos, alguns indivíduos parecem crescer e se tornam maiores. Conseguem superar a dificuldade ou o desafio para sobreviver. The Martian é uma ficção, mas ela nos conta uma destas histórias inspiradoras que trata do espírito da superação e da busca pela sobrevivência a qualquer preço.

A HISTÓRIA: Imagens do planeta vermelho. Uma terra ainda inóspita e desabitada. A parte denominada Acidalia Planitia foi utilizada pela missão Ares III da Nasa como local de pouso. Começamos a acompanhar o dia da missão relacionada ao sol 18. Um dos astronautas, Mark Watney (Matt Damon), comenta com a equipe que o solo está mais fino na seção 29, o que deve facilitar as futuras análises.

Ele está recolhendo diversas amostras do solo de Marte. Outro astronauta, Rick Martinez (Michael Peña), tira sarro da descoberta e Watney pergunta o que de importante ele irá fazer no dia, talvez verificar se a VAM (veículo utilizado pela tripulação) segue no mesmo local. Em breve, uma tempestade fará o grupo de astronautas sair de Marte, exceto por um deles que sofre um acidente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Martian): Os leitores que me acompanham aqui no blog há mais tempo sabem que eu tenho algumas manias. Uma delas é não assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los. Outra é de evitar o máximo possível ler qualquer coisa a respeito deles antes de conferir a produção. Segui estas regras mais uma vez ao ver The Martian.

Sendo assim, a minha primeira surpresa foi me deparar, logo nos minutos iniciais, com um elenco tão bom e que parece ter sido reunido à dedo para The Martian. Ainda que grande parte do filme seja focado no solitário personagem de Matt Damon, o elenco de apoio é um verdadeiro deleite. Sem contar que o próprio Matt Damon está muito bem em seu papel – talvez um dos melhores de sua carreira até agora.

A segunda surpresa ao assistir ao filme foi a qualidade das imagens da produção. O diretor Ridley Scott reuniu uma equipe de primeira linha para conseguir fazer um filme impecável de ficção científica com o que há de melhor atualmente em tecnologia para o cinema. E tudo isso a serviço de uma grande história. Drew Goddard faz um belo trabalho no roteiro desta produção – texto baseado no livro homônimo de Andy Weir.

Vencedor da categoria Melhor Filme – Musical ou Comédia no Golden Globes deste ano, The Martian também me surpreendeu por não ser um filme de comédia. Claro que há humor na produção, mas esse humor é inteligente, não é forçado e nem é o ponto forte do filme. Há bastante ação, aventura e drama além da evidente ficção científica. Definitivamente não acho que The Martian pode ser considerado uma comédia pura e simplesmente.

Feitas estas observações, quero dizer que The Martian foi uma grande surpresa. Tanto pela excelência técnica da produção quanto e principalmente pela qualidade do roteiro e da equipe envolvida no projeto. Gostei demais do texto de Goddard. E a direção de Ridley Scott é impecável em cada detalhe. Não teve nenhum momento em que o filme me deu sono ou “preguiça” de assisti-lo. Pelo contrário. Mesmo tendo duas horas e 24 minutos de duração, The Martian tem um bom ritmo e prende a atenção do espectador do primeiro até o último minuto.

Claro que há muitas cenas que são um pouco “forçadas”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o protagonista ter sobrevido aos ferimentos causados por aquele pedaço de antena que ficou enfiado em seu corpo. Se o pedaço tivesse atravessado uma perna ou um braço dele, tudo bem. Teria resolvido o que ele fez – inclusive aqueles grampos. Mas a tal antena atravessou a barriga dele, atingindo, não há dúvida, algum órgão interno. Pelo local de entrada do objeto, provavelmente o intestino. Sério mesmo que ele não teria, sem uma operação, uma hemorragia interna e morreria disso em alguns dias?

Mas aí vale aquela regra de quando assistimos filmes de ação ou de ficção científica: não dá para exigir que tudo que vemos seja lógico. Se pedíssemos isso não existiram produções como Mission Impossible. Então vamos combinar de dar diversos descontos para alguns fatos que acontecem em The Martian – além do citado, acho que chama mais a atenção a viabilidade das “coberturas” com plástico que Watney faz para sobreviver na estação em que ele está vivendo em Marte e depois na cápsula que vai levá-lo para fora do planeta vermelho.

Se tivermos boa vontade e dermos descontos para estes “tropeços” da história, podemos nos centrar no que importa mesmo em The Martian. A grande mensagem do filme é a de não desistir nunca. Você foi preparado, é inteligente e tem diversos instrumentos para encontrar soluções para os seus problemas. Então você tenta, acerta e erra, e quando algo dá errado, volta a tentar. Watney encarna o espírito de todo cientista, especialmente aqueles envolvidos em missões espaciais. E este é um diferencial desta produção.

Como você eu já vi a diversos filmes de ficção científica. Mas nunca, antes de The Martian, assisti a um que tratasse tanto do espírito do astronauta. Como Watney deixa bem claro no final, eles sempre estão em situações extremas e em locais nada amigáveis ou propícios para a vida. Muitas vezes eles tem que lutar para sobreviver. Para isso, devem estar muito bem preparados. Sempre que encontram um problema, devem encontrar uma solução para ele. E, desta forma, tentar sobreviver sempre e completar as suas missões.

Os astronautas são a elite dos cientistas – ou parte dela, pelo menos. Não por acaso é tão difícil e competitiva a seleção de astronautas. Não lembro de ter visto a outro filme que tratasse tão bem do perfil deles e dos bastidores da Nasa. Afinal, lá pelas tantas, Watney consegue se comunicar e a trama se divide entre o que acontece em Marte e o que acontece na Terra. Esse é outro ponto interessante deste filme. Não ficamos assistindo a um homem solitário falando com a câmera (no fundo, o público que está assistindo ao filme) o tempo todo, ao estilo de Cast Away. Não.

O que vemos é uma dinâmica muito interessante entre o que acontece em Marte e na Terra e, em certo ponto, inclusive com uma terceira linha narrativa, a da nave com a equipe de astronautas comandada por Melissa Lewis (Jessica Chastain). Em cada realidade destas há problemas acontecendo e exigindo escolhas dos personagens envolvidos.

Em Marte, Watney dá um banho de como ter uma atitude adequada frente a uma situação complicada. Ele encara as situações com humor e com sabedoria, tentando aprender e se superar a cada momento. Na Terra, o diretor da Nasa Teddy Sanders (Jeff Daniels) lidera uma equipe diversificada e tem diversas questões que analisar, inclusive o orçamento e a política. Ao lado dele, destaque para o ético Mitch Henderson (Sean Bean) e para o supercompetente e preocupado com cada etapa dos planos envolvendo Watney, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor).

E, finalmente no espaço, na viagem de retorno para a Terra, os colegas de Watney estão no escuro por uma parte da viagem até que ficam sabendo que ele sobreviveu. Em certo momento eles devem decidir se voltam para buscá-lo ou não. Eles próprios tem os seus desafios e o risco de perder o que mais amam.

Envolvente e bem escrito, o roteiro deste filme surpreende e convence – descontados aqueles detalhes. O texto tem algumas tiradas muito boas, especialmente as referências nerds. Matt Damon, como eu disse antes, está ótimo, assim como o estrelado elenco de coadjuvantes. Todos estão muito bem e convencem. A produção também é impecável e cheia de detalhes nos três ambientes.

Ridley Scott dá uma aula de direção. Para diferentes momentos da produção ele utiliza distintas técnicas e elementos de filmagem. Todos se justificam e se explicam. Nas cenas no espaço, o filme não deixa nada a desejar para o elogiado Gravity. Aliás, impossível não lembrar da produção de Alfonso Cuarón que ganhou sete estatuetas do Oscar (e que foi comentada aqui). Pessoalmente, prefiro muito mais The Martian – gosto pessoal, evidentemente. Em termos de qualidade técnica e entrega de elenco, The Martian é tão bom quanto Gravity – ou superior.

Honestamente, gostaria de não dar uma nota tão efusiva quanto a abaixo para esta produção. Pensei muito, mas não vi nenhuma grande falha que pudesse ser apontada. Também levei em conta não apenas as qualidades desta produção, mas o efeito que ela teve em mim. Gostei e me surpreendi com a narrativa, assim como com os outros elementos. E quando eu não consigo achar um defeito em um filme e ele me toca por sua mensagem, dá nisso.

NOTA: 10 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que The Martian não chamou a minha atenção antes dele ser indicado e ganhar em diversas categorias do Globo de Ouro e, principalmente, de ser indicado ao Oscar. Como vocês que me acompanham sabe, todos os anos me esforço para assistir ao máximo de filmes que concorrem ao Oscar. Primeiro porque eu respeito e admiro a premiação. Depois porque eu acho que ela nos ajuda a encontrar alguns filmes realmente bons. Qual a minha surpresa, ao ser “obrigada” a assistir The Martian – especialmente porque ele concorre a Melhor Filme -, que ele era tão bom. Merece estar nas listas dos críticos entre os melhores de 2015, sem dúvida.

Ridley Scott é um grande diretor. Um dos grandes de Hollywood. Mas ao mesmo tempo que ele foi capaz de nos apresentar grandes produções como American Gangster, Hannibal e Gladiator – para falar das mais recentes – e clássicos insuperáveis como Blade Runner e Alien, nos últimos anos tive um pouco de preguiça de assistir a produções dele que não foram nada bem na avaliação de crítica e público como Exodus: Gods and Kings, The Counselor ou Robin Hood. Sou franca em dizer que não assistir a nenhum destes. Scott estava me dando uma certa “preguiça” ultimamente. Mas parece que ele voltou à boa forma com The Martian. Que bom! Esperamos que ele siga nesta maré nas próximas produções.

Falando em voltar à boa forma, Matt Damon também está incrível nesta produção. Ele fará uma boa queda-de-braços com Leonardo DiCaprio no Oscar – ainda que, me parece, o protagonista de The Revenant leva uma boa vantagem na disputa. Mas não seria injusto premiar a Matt Damon. Veremos.

Sobre o elenco de The Martian, vale citar os outros nomes envolvidos no projeto e que são fundamentais para dar qualidade para a produção – eles se saem muito bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou quase uma ponta: Kristen Wiig como Annie Montrose, relações públicas da Nasa; Kate Mara como a astronauta Beth Johanssen, especializada em sistemas e a “nerd” da turma; Sebastian Stan como o astronauta Chris Beck, responsável mais pela parte operacional da missão no espaço – ele que sai para fazer manutenções fora da nave, por exemplo; Aksel Hennie fecha o grupo de astronautas da missão de Watney como Alex Vogel; Benedict Wong como Bruce Ng, que lidera o grupo responsável por construir as naves e o módulo que vai levar alimentos para a sobrevivência de Watney; Mackenzie Davis como Mindy Park, a operadora que descobre que Watney está vivo; e Donald Glover como Rich Purnell, o super nerd que faz os cálculos e descobre que a nave que está indo para a Terra pode retornar para Marte e buscar Watney.

Aliás, agora eu vou me dar o direito de fazer um comentário bem nerd. Além de adorar filmes, eu tenho um fraco por séries de TV. Então foi um prazer rever nesta produção quatro atores que eu gostei muito de acompanhar em quatro séries distintas. Jeff Daniels, astro de The Newsroom – série infelizmente cancelada após a terceira temporada; Sean Bean, ator consagrado como o Ned Stark de Game of Thrones; Kate Mara, a Zoe Barnes de House of Cards; e o figuraça Donald Glover, da genial e cancelada Community. Também foi um prazer rever em cena tão bem a ótima Jessica Chastain e o ator Michael Peña.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, The Martian teve cenas na Jordânia, na Hungria e nos Estados Unidos. As cenas de Marte, claro, foram rodadas em Wadi Room, na Jordânia, que tem um deserto de cor vermelha. As cenas da Nasa foram feitas no Johnson Space Center, nos Estados Unidos, e as de interior na Hungria.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O livro que inspirou The Martian tem uma história interessante. Andy Weir publicou a história pela primeira vez, apenas para se divertir, em seu blog. Aos poucos as pessoas pediram para ele colocar a história de alguma forma para download. Até que ele colocou a história para download na Amazon Kindle ao custo de US$ 0,99.

Ridley Scott filmou as cenas individuais com Matt Damon durante cinco semanas seguidas, para que o ator ficasse mais livre após estas filmagens. Desta forma, Damon se encontrou com muitas pessoas do elenco apenas quando o filme foi promovido.

Agora, uma dúvida que eu tive e certamente você teve no final do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção ainda). Matt Damon realmente emagreceu dezenas de quilos para aparecer tão magro na reta final de The Martian? O ator gostaria de ter feito isso, de ter emagrecido para aparecer inclusive nas cenas finais, mas Ridley Scott lhe proibiu. No lugar dele foi utilizado um dublê de corpo na sequência em que ele aparece nu de costas e bem magro.

No livro de Weir, Mark Watney tem dois mestrados, um em botânica e o outro em engenharia mecânica. No filme é citado apenas o PhD dele em botânica – ainda que fique claro, pelos fatos, que ele entende de engenharia, mas isso não fica claro no roteiro como está no livro.

Interessante que durante o filme, quando Watney pensa em plantar batatas, logo de cara eu pensei: “Certo, e a água para isso?”. Na sequência veio a resposta para a minha dúvida – bastante criativa, diga-se. Agora, algo interessante sobre a realidade superando a ficção. Quatro dias antes do filme ser lançado nos cinemas, a Nasa revelou que tinha encontrado provas de que ainda há água salgada em Marte. Ou seja, a questão da água seria ainda mais fácil para um possível Watney no planeta vermelho – bastaria dessalinizá-la para usar em um cultivo ou consumir bebendo.

A missão a Marte mostrada no filme emularia missões reais que a Nasa está planejando para o futuro.

Parece incrível, mas The Martian foi filmado em apenas 72 dias.

Um dia ou “sol” em Marte é cerca de 37 minutos mais longo do que um dia na Terra. O ciclo sono-vigília do ser humano é de 24 horas e 11 minutos, mas experimentados tem mostrado que ciclos que variam entre 23 horas e 30 minutos e 24 horas e 36 minutos não causam problemas de adaptação para as pessoas, por isso um ser humano não teria grandes problemas para se adaptar no “tempo” de Marte.

O abrigo-barraca em que Watney passa a maior parte do tempo é chamado “hab” (abreviação para Mars Lander Habitat). A Nasa já tem protótipos de habs completos para Marte, com oxigenadores, recuperadores de água e sistemas de portas que protegem os astronautas da atmosfera quase sem ar e com frequentes bombardeios de radiação de Marte.

A paisagem e o ambiente de Marte que vemos no filme foram feitos com a combinação de cenas reais do deserto e computação gráfica.

As cenas exteriores em Marte foram rodadas no Korda Studios em Budapeste, na Hungria. Considerado o maior estúdio do mundo, lá o desenhista de produção Arthur Max pode instalar uma tela verde gigantesca, que ocupou quatro paredes. “Era o espaço suficiente para fazer uma paisagem marciana grande”, comentou Max.

De acordo com as notas de produção do filme, há algumas diferenças entre o livro e a produção de Ridley Scott. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Watney teria passado por bem mais dificuldades do que as que vemos no filme, por exemplo, e quem acaba resgatando ele no espaço foi Beck e não Lewis como aparece no filme. No livro também não há aquela sequência final de Watney como professor na Nasa – a obra termina com ele sendo resgatado e eles voltando para a Terra.

The Martian estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participaria, ainda, dos festivais de Nova York e Bergen. Até o momento o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 124. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme – Musical ou Comédia e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Matt Damon no Globo de Ouro; cinco prêmios como Melhor Roteiro Adaptado; por ter aparecido em quatro listas como um dos melhores filmes de 2015; e, finalmente, pelos prêmios de Melhor Diretor para Ridley Scott, Melhor Ator para Matt Damon e Melhor Roteiro Adaptado pelo National Board of Review.

Antes falei do elenco, mas é preciso falar da parte técnica do filme – uma parte fundamental da produção. Além do ótimo roteiro de Drew Goddard, se destacam em The Martian a direção de fotografia de Dariusz Wolski; o design de produção de Arthur Max; a trilha sonora de Harry Gregson-Williams; a direção de arte com nove profissionais; a decoração de set de Celia Bobak e Zoltán Horváth; os figurinos de Janty Yates; o departamento de arte com 93 profissionais; o departamento de som com 29 profissionais; os efeitos visuais que contaram com uma equipe de 30 pessoas; e os efeitos visuais com uma equipe interminável – parei de contar em 300. Nunca vi uma equipe tão grande de efeitos visuais envolvida em um filme. Realmente impressionante.

The Martian teria custado US$ 108 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 227 milhões. No restante do mundo, nos mercados em que a produção já estreou, ele fez pouco mais de US$ 370,5 milhões. Ou seja, até agora, faturou cerca de US$ 597,6 milhões. Nada mal. Um belo lucro, apesar do custo bastante alto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção – uma bela avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 262 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9. A avaliação dos críticos, para mim, poderia ter sido melhor – especialmente a nota. Mas gostos são gostos, não é mesmo?

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos melhores filmes de ficção científica que eu já assisti. Verdade que The Martian tem diversos episódios difíceis de acreditar. Mas é como em filmes de ação. Quem pode exigir que tudo seja verossímil? The Martian tem um grande roteiro, é bem contado e tem um ator esforçado em cena. Há humor inteligente, ação e um certo suspense em cena, além de ótimas sequências de pura ficção científica.

Ainda que seja um filme sobre exploração espacial, ele é, principalmente, uma produção sobre a força do espírito humano e o amor pela ciência. Há nesta produção mais testemunhos sobre o que faz homens e mulheres passarem meses ou anos longe de casa e em situações inóspitas e arriscadas do que em qualquer outro filme. Para mim, foi surpreendente o que The Martian me passou. Uma das surpresas desta reta final para o Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Martian é o terceiro filme com o maior número de indicações no prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele só está atrás de The Revenant (com crítica aqui), indicado em 12 categorias, e de Mad Max: Fury Road (com comentário neste link), indicado em 10.

A produção dirigida por Ridley Scott concorre a Melhor Filme, Melhor Ator (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Visuais. Vejamos cada categoria destas. Em Melhor Edição de Som há grandes concorrentes. Vejo que Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens estão liderando nesta categoria. Ainda que The Martian tenha um grande trabalho aqui. Ainda assim, acho que ele concorre por fora.

Em Melhor Mixagem de Som novamente grandes concorrentes para esta produção. Além de Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens está na parada Bridge of Spies (com crítica aqui). Ou seja, nesta duas categorias The Martian concorre por fora. Não seria injusto ele ganhar, mas ele teria que derrotar os favoritos. Em Melhor Ator, sem dúvida, Matt Damon tem como grande rival Leonardo DiCaprio – para mim, o favorito. Mas, como sabemos, DiCaprio já mereceu um Oscar antes, mas até agora a Academia o esnobou. Veremos se neste ano ele leva a melhor. De qualquer forma, novamente, não seria injusto Damon levar a estatueta. E falando em esnobada… desta vez quem a Academia esqueceu foi Ridley Scott, que acabou não sendo indicado a Melhor Diretor.

Na categoria Melhor Design de Produção The Martian tem dois grandes rivais: Mad Max: Fury Road e The Revenant. Parada dura. Ainda acho que Mad Max: Fury Road leva vantagem aqui também. Em Melhores Efeitos Visuais, talvez aquela equipe gigantesca que eu cite antes façam The Martian levar a estatueta. Para isso, ele terá que vencer os fortes Mad Max: Fury Road, Star Wars: The Force Awakens e The Revenant. Outra disputa entre gigantes.

Como Melhor Roteiro Adaptado o filme tem alguma chance. De fato o roteiro é um dos pontos fortes de The Martian. Mas o mesmo pode ser dito de Room (comentado neste link) e Carol (com crítica aqui). Francamente, fico em dúvida entre eles, mas acho que meu voto iria para Room. Nesta categoria tudo pode acontecer, há chances para os três – vejo menos possibilidade para The Big Short (com crítica neste link). Brooklyn ainda preciso assistir.

E, finalmente, Melhor Filme. Acho que The Revenant e Spotlight estão na frente de The Martian na disputa. Ainda que não seria injusto o filme levar o caneco. A safra está boa neste ano – talvez a produção mais “fraca” na disputa seja Bridge of Spies. Todos os outros, de fato, são muito bem acabados – ainda que Mad Max: Fury Road não tenha “feito a minha cabeça”, ele é muito bem acabado. Será um Oscar interessante de ser assistido.

ADENDO (18/01): Pensei melhor e achei que dar um 10 para o filme seria um pouco de exagero. Por isso reduzi a nota um bocadinho. 😉 De qualquer forma, é uma bela produção. Uma das melhores sobre exploração do espaço que eu já assisti.

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Looper – Looper: Assassinos do Futuro

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Dizem que nada se cria, tudo se copia. Que tanto já foi feito e dito sobre amor, vingança, sentido de autopreservação e outros temas fundamentais que nada mais de original, verdadeiramente original, restou. Looper parece ser uma prova desta premissa. Ele lembra demais a “alma” de The Terminator para parecer original. Mas tem uma certa novidade, aqui e ali e, especialmente, apuro técnico que não fazem esta experiência ser ruim. Afinal, o que, de fato, é original?

A HISTÓRIA: O dia está prestes a amanhecer, e Joe (Joseph Gordon-Levitt) dá mais uma olhada em seu relógio de bolso, antes de seguir treinando palavras em francês. Ele olha fixo para a frente, onde repousa, no chão, uma lona extendida. Após dar mais uma olhada no relógio, ele se levanta, empunha a arma e atira no homem que surge a sua frente. Ele explica que a viagem no tempo ainda não foi inventada, em 2044, mas que 30 anos depois ela será proibida e utilizada por criminosos para que eles consigam se livrar das pessoas, já que despachar um corpo no futuro não será uma tarefa simples. Os assassinos especializados em se desfazerem destas pessoas do futuro são chamados de loopers. Joe é um deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Looper): Falar de viagem no futuro outra vez… e como ser original? Provavelmente, após a trilogia genial de Back to the Future e os filmes incríveis de The Terminator, isso seja impossível. Ainda assim, o diretor e roteirista Rian Johnson se lançou neste desafio, entregando o interessante Looper.

E o filme começa com uma ironia superinteressante: ao invés de termos “exterminadores do futuro” voltando para o passado para eliminar alguma ameaça, acompanhamos as histórias de “exterminadores do passado” que puxam o gatilho para tirar do futuro inimigos de organizações criminosas. Interessante. A tradução do título no Brasil, assim, pode ser vista como errada ou correta. Como tudo se passa no futuro – 2044 e 2074 -, o título não está errado, ainda que pareça estranho.

Looper deixa muitos elementos para o público pensar. Alguns menos importantes que outros para a história. Por exemplo, de como a viagem no tempo tornou-se proibida no “segundo” futuro – para não tornar a história uma bagunça, já que, como nos ensinou Back to the Future, cada mudança, por mínima que seja, do passado, altera o presente e o futuro. Outro exemplo é como o futuro de 2074, além de viagem no tempo, tem a rastreabilidade levada à escala máxima – tanto que fica quase impossível para uma pessoa desaparecer.

Looper faz lembrar um pouco também o espírito de Mad Max. Não porque temos uma sociedade desolada de recursos, mas pela falta de “humanidade” dos cenários. Não temos heróis em Looper. As duas versões de Joe são, na essência, de bandidos sem remorso. Que apenas pensam como irão sobreviver. Joe não se esforça muito para ajudar o seu melhor amigo Seth (Paul Dano), quando ele precisa. E segue a linha dos demais loopers, de esbanjar dinheiro, viver a vida adoidado e desprezando todos os marginalizados da sociedade futurista.

Mesmo sem se aprofundar muito no contexto que cerca aqueles personagens, Looper deixa claro que as sociedades futuristas deixam as pessoas com medo. Tanto que boa parte delas vive armada, pronta para puxar o gatilho e acertar qualquer pessoa que pareça um pouco ameaçadora. Também é um tempo em que a evolução de uma habilidade – a telecinética – é vista como piada. Esqueçam os heróis e os superheróis. Ninguém quer saber deles, aparentemente.

Looper, assim, é um bocado cínico. Na essência. E acerta nas apostas que faz. Depois de mostrar o cotidiano repetitivo e frio de Joe e os demais loopers, o filme ganha interesse ao apresentar o “encerramento de um loop”. Cada um daqueles assassinos sabe que, mais cedo ou mais tarde, isso irá acontecer com eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a premissão não é ruim: após matar a você mesmo, você ganha várias barras de ouro e 30 anos de vida com liberdade para ser vivida.

Todo “exterminador do passado” sabe que isso vai acontecer com ele. Mas acompanhamos uma fase em que isto está ocorrendo com muito mais frequência. Porque há um vilão novo no futuro. E para acabar com esse inimigo é que o Joe de 2074 (o ótimo Bruce Willis) engana a morte – como não lembrar de The Terminator? Apenas o alvo mudou, afinal, o “senhor da chuva” já é um garoto, e não adianta mais matar a mãe dele. 🙂

O ritmo de Looper vai bem até o velho Joe aparecer e começar o seu plano de busca do vilão do futuro. Nesta hora, o Joe jovem ajuda a desacelerar um pouco o filme. Claro que esta “esfriada” é necessária para explicar a origem do poder do “senhor da chuva”, e revelar o que há de verdade na lenda que o velho Joe trouxe a seu respeito. Mas querendo ou não, aquela parte é a menos interessante da produção – até porque o garoto Pierce Gagnon, que interpreta a Cid, irrita um pouco com aquela cara demoníaca e sua “superinteligência”.

De qualquer forma, o ambiente envolvendo Cid e Sara (Emily Blunt) abre aquela velha discussão sobre o que define o futuro das pessoas. Quanto este futuro é determinado por sua “essência”, por características inatas que lhe acompanham de antes mesmo de nascer, e o quanto é determinado por sua criação, amor familiar, amigos e o restante do “meio” que vai lhe cercando a vida afora? A questão está lançada e tem uma certa resposta no final. Digo isso porque há muito para acontecer após aquela cena final, e fica a gosto de cada um imaginar o futuro a partir dali.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um acerto de Looper é explicar o que irá acontecer antes de que aconteça. Vide o momento decisivo da conversa do Joe do futuro com a sua versão mais jovem. A explicação dele sobre as lendas envolvendo o vilão do futuro é o que torna a convivência de Joe, Sara e Cid interessante. E também, naquele momento, existe uma questão fundamental neste filme: afinal, o antigo é melhor que o novo ou vice-versa? Os “dois” Joe se sentem superior, de alguma forma. O mais jovem porque sabe que tudo que ele fizer vai determinar a sua versão mais velha. E o mais velho porque ele sabe todas as besteiras e visões equivocadas que o mais novo tem. Sem dúvida, aquele é o grande momento de Looper.

Impressiona como este filme é bem acabado nos efeitos especiais e, principalmente, como ele deixa tantos temas abertos para a discussão e a reflexão. O embate entre o velho e o novo aparece a todo momento. Assim como, e de forma muito natural, a velha questão de Back to the Future de como cada mudança no presente afeta o futuro. O Joe de Bruce Willis segue tendo a sua mulher (Qing Xu) na memória, ainda que tudo nos leve a crer que aquele futuro não irá acontecer. Isso porque, até que algo realmente se defina, ele ainda pode viver muitas das coisas que tinham ocorrido na primeira versão. Interessante.

O diretor Rian Johnson afirma que cuidou de cada detalhe do roteiro para que este filme não tivesse furos. Ainda assim, há pelo menos duas partes que eu não entendi muito bem (e, como sempre, agradeço quem puder ajudar a esclarecer). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro: a primeria sequência em que Joe não mata a sua versão no futuro representa a imaginação dele enquanto espera a figura da vítima aparecer, atrasada, na sua frente? Segundo: por que Joe fica mais sensível para matar o segundo garoto? Parece até que ele conhece a Suzie (Piper Perabo). Para mim, a resposta para a primeira pergunta é que sim, Joe primeiro imagina aquela sequência antes de atirar em seu “eu do futuro” e, para a segunda, é de que o Joe velho não conhecia Suzie, mas hesita apenas porque ficou mais difícil para ele seguir matando crianças.

Uma sacada muito bacana de Looper é como a versão de Joe do futuro acaba aprendendo com os novos fatos que vão acontecendo com o Joe do presente. Bem pensado pelo diretor.

Interessante como Looper está recheado de ótimos atores. Além dos já citados, vale comentar a participação de Jeff Daniels como Abe, o homem que tira Joe das ruas e garante “um futuro melhor” pra ele ao torná-lo um looper; Noah Segan como Kid Blue, o capanga que quer impressionar Abe e que acaba sendo a parte “engraçada” e trapalhona da trama; Frank Brennan como o Seth do futuro; além da super ponta de Piper Perabo.

Tecnicamente, tudo funciona muito bem em Looper. Da trilha sonora envolvente de Nathan Johnson até a excelente e precisa edição de Bob Ducsay – um dos pontos altos do filme; a direção de fotografia de Steve Yedlin; o ótimo design de produção de Ed Verreaux e a direção de arte de James A. Gelarden – que ajudam o filme a ser estiloso. Por outro lado, há um quesito na parte técnica que me irritou – ainda que eu entenda a razão dele ter sido feito como foi: a maquiagem da equipe liderada por Kimberly Amacker, Jack Lazzaro, Aimee Stuit e Emily Tatum. Me incomodou, do início até o final do filme, a maquiagem feita a golpes de facão para tornar Gordon-Levitt mais “parecido” com Bruce Willis. Sei lá, acho que podiam ter resolvido esta questão de outra forma – como o velho Joe ter feito, para fugir da polícia, uma plástica no futuro ou algo assim.

Além daqueles pontos do roteiro que parecem um pouco mal amarrados – citados acima -, e da maquiagem de Gordon-Levitt, me irritou um pouco o exagero da interpretação do garoto Pierce Gagnon. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme ia muito bem até o guri começar a surtar e parecer um personagem demoníaco de filmes de terror. Não tenho problemas com estes personagens, desde que eles estejam nos filmes do gênero. Um garoto diabólico em Looper me pareceu um pouco exagerado. Um pouco mais de sutileza para este personagem teria sido mais interessante.

Looper custou cerca de US$ 35,7 milhões e arrecadou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de novembro, quase US$ 65,6 milhões. Nada mal. Mas pela propaganda boca-a-boca, certamente, ele vai conseguir faturar muito mais que isso. E merece. Não é fácil fazer um ótimo filme de ficção científica, ainda mais tratando de questões futuristas e viagem no tempo hoje em dia.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro deste ano. De lá para cá, ele participou de apenas dois outros festivais, o de Zurique e o Night Visions. Apesar destas participações, ele não ganhou nenhum prêmio até o momento. Mas deve figurar no próximo Oscar em categorias técnicas, como a de efeitos visuais.

Algumas curiosidades sobre a produção: Joseph Gordon-Levitt gravou várias falas de Bruce Willis ditas em filmes anteriores em seu iPod para emular o melhor possível o jeito de falar do ator. Ele também assistiu a várias produções para tentar repetir os trejeitos de Willis. Outro detalhe: no dia em que foi gravada a cena em que ele cai da escada externa do prédio onde vive, ao tentar fugir dos bandidos, Gordon-Levitt comemorava o aniversário de 30 anos.

Vi uma entrevista em vídeo com o diretor que achei interessante citar aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ele explica a razão do filme ter tantos elementos do passado. Rian Johnson diz que os filmes futuristas que mostram tudo muito futurista lhe incomodam, porque não parecem realista. E dá exemplo do relógio e do sapato que ele estava usando na hora da entrevista… apesar de estarmos em 2012, utilizamos muitas coisas que lembram demais a metade do século passado. E ele acha que o futuro será assim… especialmente o futuro onde as coisas não funcionam bem. Porque quando as coisas não funcionam bem, as pessoas tendem a buscar referências no passado, quando a realidade parecia ter mais lógica. E o segundo ponto, que eu achei especialmente interessante, foi quando perguntaram para ele porque a violência é tão realista no filme. Ele diz que esta é a questão fundamental de Looper. Ele quer mostrar como a violência utilizada para resolver a violência acaba não solucionando nada – vide a busca pelo garoto. Pelo contrário, essa lógica acaba sendo o problema. Bacana.

Looper se saiu muito bem ao conquistar a opinião do público e da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, uma avaliação ótima para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 216 textos positivos e apenas 15 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% – e uma nota média de 8,1. Muito boa nota também.

Há uma outra entrevista do diretor que eu achei interessante. Nela, Johnson comenta a cena no café. De como cada versão de Joe se acha superior e de que, apesar da versão de Willis dizer que sabe o quanto jovem está equivocado, porque já viveu “aquela vida” e por se sentir em outro nível, ele não percebe que segue meio que “preso” aquela falta de maturidade – que nada mais é do que uma forma egoísta de levar a vida.

CONCLUSÃO: Quem tem The Terminator e suas sequencias como referência, vai assistir Looper com um certo incômodo. Possivelmente o mesmo incômodo que o próprio mecanismo do “looper” provoque. Afinal, o passado volta, e volta, e parece que permaneceremos naquele “eterno retorno”. Mas temos a possibilidade de alterar essas repetições. Assim, Looper também altera a lógica de The Terminator. Nesta produção há violência, drama, cenas incríveis que usam o melhor da tecnologia e um bando de gente sem muito escrúpulo além da autopreservação. E ainda que a história, lá pelas tantas, fique um bocado previsível, essa previsibilidade ajuda a alimentar a tensão. Para que todos estejam ansiosos para ver quem segurará as suas crenças até o final. Porque, por incrível que pareça, Looper planta a sua semente naquela velha discussão sobre o que forma o caráter de um indivíduo. O quanto nós trazemos de antes do berço e o quanto somos moldados a ser. Essa reflexão, junto com ótimos efeitos, bons atores e uma recriação de histórias que já vimos antes, fazem de Looper uma peça eficaz de entretenimento.