Blade Runner 2049

blade-runner-2049

Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

Anúncios

Arrival – A Chegada

arrival1

Este filme é recomendado para quem gosta de ficção científica, de ciência pura e dura e de comunicação. Se você não está neste grupo, pense bem antes de assistir a Arrival. Digo isso porque, me perdoem a expressão, mas esse filme é cabecice pura. Sim senhor, sim senhora. Arrival leva várias questões dos fãs de ficção científica para outro patamar. Por mais que desconfiemos de algo aqui e ali, é só no final mesmo que o filme faz todo o sentido. E é aí que você percebe a genialidade da história. Mais um grande filme do Sr. Dennis Villeneuve.

A HISTÓRIA: Da sala de uma casa vemos a uma linda paisagem. Louise Banks (Amy Adams) está admirando a filha, ainda bebê. Na sequência, ela aparece sentada e pede para a filha voltar para ela. Depois, Louise aparece brincando com Hannah (Abigail Pniowsky) maiorzinha. A menina corre, sorri, mas depois Louise aparece chorando no hospital e se despedindo da filha. “Volte para mim”, Louise diz novamente.

Após comentar que não sabe exatamente onde está o começo ou o fim, Louise afirma que existem dias que “definem a sua história além da sua vida”. Então ela recorda do dia em que “eles” chegaram. Ela percebe a sala bastante vazia, na universidade, e então fica sabendo que naves estacionaram em 12 locais do mundo. Assim começa a história do envolvimento de Louise com a chegada de seres de fora do Planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção Arrival): Este é um filme em que não dá para dormir no ponto. Como é preciso ter atenção em cada detalhe, também não é recomendado assistir a Arrival cansado. Outros filmes já trataram de extraterrestres e da forma com que a Humanidade lidou com ele em uma possível “invasão” ao nosso Planeta. Mas Arrival leva o tema para um outro patamar.

Na verdade, por incrível que possa parecer, este filme segue a linha do diretor Denis Villeneuve em desbravar alguns dos principais dilemas individuais e coletivos das sociedades. Temos dilemas morais aqui, como em outros filmes dele, e mais que uma produção sobre extraterrestres, esta é uma produção sobre pessoas, seres humanos. Essa é uma das questões brilhantes do filme, mas ela não é a única.

Voltemos um pouquinho. Para começar, mais uma vez, Villeneuve trabalha bem com a questão temporal da história. A exemplo do que vimos antes em Prisoners (comentado aqui) e em Enemy (com crítica neste link), em Arrival, novamente, não temos certeza sobre a ordem dos fatos. Afinal, em que momento os acontecimentos que abrem esta produção estão situados?

A impressão que o roteiro de Eric Heisserer, baseado na história “Story of Your Life” de Ted Chiang, nos dá é que aquele começo são lembranças da protagonista sobre o que aconteceu com a filha dela. Só muito mais para a frente é que vamos saber exatamente do que se trata. Villeneuve a cada filme mostra o seu talento para a narrativa. Depois daquela introdução das memórias de Louise, mergulhamos na ação propriamente dita. A protagonista acompanha as notícias pela TV, como a maioria da população do mundo, mas por ser uma reconhecida especialista em linguística, ela acaba sendo chamada pelo Exército americano, mais especificamente pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ajudar.

Como já foi mostrado em outros filmes, sendo o clássico Close Encounters of the Third Kind talvez o exemplo mais conhecido, a comunicação é um elemento-chave em um encontro de humanos com seres extraterrestres. De forma magistral e irretocável Villeneuve vai construindo a expectativa e a tensão até que pessoas comuns como Louise e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) se encontrem com os seres extraterrestres. A escolha é a acertada e funciona muito bem porque cria, desde o início, a empatia no público. Teria sido muito diferente mostrar “uma palhinha” de um encontro de um grupo de militares, por exemplo, como ocorreu no primeiro contato.

A primeira cena impactante é quando o público vê a nave. Impossível para mim, naquele momento, não lembrar do final de outro clássico, 2001: A Space Odyssey. Aliás, lembrei muito destes dois clássicos enquanto assistia a Arrival. E isso só fez ficar mais claro, para mim, como o filme de Villeneuve leva produções deste gênero para outro patamar. Diferente de outros filmes que apostam no confronto e na guerra entre humanos e extraterrestres, estas outras produções tem em comum um olhar muito mais cuidadoso, atento, e que observa, sobretudo, o nosso comportamento em relação ao diferente e ao estranho do que realmente os efeitos destes contatos.

De forma inteligente, o roteirista e o diretor de Arrival constroem a narrativa em um crescente. A primeira tensão é o encontro inicial dos protagonistas com os seres que eles deverão “desvendar”. Depois entra a parte superinteressante e lógica do trabalho linguístico de Louise. Enquanto os militares tem pressa para uma resposta, achando que ela virá simples em um entendimento sobre sons que eles nem sabem se tem algum significado, Louise mostra que é preciso sair do “modelo mental” humano e buscar conhecer a forma com que os seres de fora da Terra pensam.

Esta é a grande sacada do filme, a meu ver. E a grande explicação para o que a história nos revela está em um diálogo entre Louise e Ian. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em determinado momento, quando todos trabalham para compreender a linguagem dos extraterrestres mas ainda não chegaram a parte alguma, Ian pergunta para Louise se ela já está sonhando no idioma deles. E daí ele observa que quando uma pessoa realmente mergulha em um outro idioma, ela passa a pensar de outra forma, a ter a compreensão do mundo modificada e, consequentemente, começa a “sonhar” naquele idioma.

Aí está a grande resposta para o enigma de Arrival. Até então eu ficava me pergunta qual era a razão de, volta e meia, Louise ficar lembrando de momentos com a filha. A primeira resposta, e a mais óbvia, é que fatos do presente estavam fazendo ela relembrar de momentos com Hannah. Essa é a forma linear de pensar, acreditando que a vida tem começo, meio e fim e que, consequentemente, nossa memória também funciona assim. Só que Louise descobre depois de investigar a linguagem dos extraterrestres que eles não tinham uma forma de comunicação linear.

A “viagem” do argumento de Arrival é que se eles não tinham uma linguagem linear, eles também não pensavam ou viam a realidade de forma linear. Desta forma, de fato não existiria passado, presente e futuro, mas todo o conhecimento de alguém que tivesse essa forma de comunicação e, consequentemente, este mapa mental seria também não-linear. Ou seja, atemporal. A genialidade de Arrival ao ter este argumento é que conforme a especialista em linguística Louise ia realmente entendendo a forma de comunicação não-linear, ela própria passava a ver o mundo desta maneira. Assim, ela passou a vivenciar o futuro com a filha que nem havia nascido. Genial, não?

Enquanto todos os outros estavam com pensamento linear, Louise começou a enxergar a realidade de forma não-linear. Mas a compreensão dela, assim como a de qualquer um de nós que se aventura em um novo idioma e em uma nova forma de pensar, vai acontecendo aos poucos e de forma gradativa. Só perto do sinal que ela tem tudo claro. Por isso aquela sequência aparentemente maluca dela com o general Shang (Tzi Ma), manda-chuva da China, faz sentido.

No presente ela não sabia como evitar uma catástrofe mundial, mas conforme o entendimento dela ia ficando mais claro, ela foi buscar “no futuro” a resposta do que ela deveria dizer para Shang. Alguém que pensa de forma linear pode dizer: “Mas não faz sentido, como Shang poderia estar lembrando para ela sobre algo que ela contou para ele no passado se o passado ainda não tinha acontecido e, consequentemente, aquela cena da festa de lançamento do livro dela após o conflito resolvido também não seria uma realidade ainda”.

A questão, e a grande sacada deste filme é esta, é que quando Louise passa a pensar da mesma forma que os extraterrestres, ela tem conhecimento sobre todo o espaço temporal, inclusive do que acontece no futuro. Isso não impede, claro, que ações diferentes dela no presente não modifiquem o futuro. Mas ela tem acesso a conhecimentos prováveis do futuro e, com isso, consegue agir no presente e tomar decisões. Por um tempo depois de ter assistido ao filme me pareceu sem sentido, ainda assim, as cenas iniciais de Arrival.

Afinal, eu ficava pensando, não fazia sentido aquele começo de Louise indo para casa sozinha, como se já tivesse sido abandonada pelo marido e tivesse perdido a filha, e depois ela entrando na missão dos extraterrestres. Afinal, a história de Hannah estava no futuro. Mas aquele começo se explica não como um fato linear, e sim como lembranças de Louise depois que tudo aquilo tinha acontecido. É como se fosse uma introdução para a história que, a partir da chegada dos extraterrestres, volta para trás no tempo.

Enfim, diferente do que pensei inicialmente, Arrival não tem furos. Ele faz sentido, especialmente se você entende a proposta da não-linearidade. Uma dúvida que acho que muitos podem ter é porque no futuro Ian ia abandonar Louise quando ela contou para ele que Hannah iria morrer se ele, como ela, poderia ter a compreensão completa do tempo. Se fosse assim, ele já saberia o que iria acontecer com a filha antes mesmo dela nascer.

Para mim, a explicação para isso é simples: como acontece com diferentes idiomas que temos no mundo atualmente, nem todo mundo tem a capacidade de dominar certas linguagens. Há pessoas que aprendem, que mergulham e que realmente passam a pensar em outro idioma, mas tem outros que não tem esta capacidade. Ian era uma destas pessoas que certamente não entendeu/decifrou profundamento o idioma extraterrestre. Louise escreve um livro sobre aquela linguagem, mas certamente poucas pessoas no mundo tiveram a capacidade dela para realmente compreender o “presente” deixado pelos visitantes de fora da Terra.

Achei a premissa de Arrival brilhante, assim como a forma com que o filme é construído. A narrativa fragmentada e cheia de inserções de diferentes tempos da história de Louise é intricada, não é simples de entender. Mas é brilhante por realmente mergulhar e demonstrar o que a história quer nos mostrar de diferenciado em relação a filmes do gênero. A linguagem e a descoberta dela é fundamental para qualquer relação, e isso fica evidente neste filme.

Além das ponderações envolvendo a linguagem e a comunicação, gostei também de como o filme se debruça na raça humana. Este é outro atrativo da produção. Arrival mostra claramente como, apesar do início as diferentes nações colaborarem entre si, passado algum tempo predomina a característica egoísta e competitiva do ser humano. Isso é demonstrada pela “guerra fria” entre a China, os Estados Unidos e outros países. A tão falada geopolítica se apresenta com toda a sua divisão quando alguns países se sentem ameaçados e querem demonstrar mais força que os outros.

Neste sentido, Arrival apresenta algumas reflexões importantes sobre o nosso mundo. Primeiro, o pavor e o medo das pessoas sobre o desconhecido. Há revolta, depredação e falta de civilidade em várias partes do globo quando as naves aparecem. Depois, conforme o tempo passa e as nações não encontram respostas, a insegurança dos governos também marca posição. Como aconteceu com o 11 de Setembro e em outras ocasiões, a resposta para o medo é a ameaça e o confronto. Primeiro acabam as cooperações entre os países e, depois, muitos se armam para confrontar uma presença que eles não entendem. E quando você não entende, você se sente ameaçado.

Então Arrival não apenas apresenta um conceito interessante e diferenciado sobre o que motivaria a “visita” de extraterrestres na Terra, mas também nos coloca frente a um grande espelho. Como sugere um dos extraterrestres, eles estão “ajudando” a Humanidade desde os primórdios e, desta vez, vieram entregar a sua forma de se comunicar e de “pensar” para que tenhamos um entendimento completo do tempo. Desta forma, se este conhecimento for bem utilizado, catástrofes podem ser minimizadas e guerras podem ser evitadas. Em troca os extraterrestres querem ajuda nossa no futuro. Fica em aberto a razão para isso, mas não deixa de ser inteligente.

O filme precisa de muita atenção, até porque tem várias “interferências” de outros tempos no “presente” da protagonista, mas Arrival é construído de forma inteligente e funciona muito bem. Para finalizar, a produção reflete sobre algo que o brasileiro Pequeno Segredo (comentado aqui) também aborda: como você agiria frente a uma criança que você sabe que vai morrer e que é a sua filha? Você cuidaria para que ela fosse o mais feliz possível ou, de alguma forma, você evitaria aquele sofrimento.

Se em Pequeno Segredo o casal Schürmann deve decidir se vai ou não adotar uma menina que eles sabem que não deverá viver muito tempo, em Arrival Louise deve decidir se vai casar com Ian e ter uma filha com ele sabendo que ela vai morrer ainda jovem. Nos dois casos as duas mulheres optam por viver ao máximo ao lado de suas filhas, cuidando para dar todas as oportunidades de felicidade para elas e sem escapar da dor. Tocante. E nos faz pensar sobre as nossas próprias escolhas e sobre a vida. Ela é bela não porque não tenha dor e sofrimento, mas porque aprendemos com absolutamente tudo, especialmente na relação amorosa com as pessoas, e nisto está a sua beleza.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é impossível que, conforme eu vá assistindo aos outros favoritos ao Oscar, eu reveja a nota acima. Na verdade, mesmo agora eu fiquei muito em dúvida sobre que avaliação dar para Arrival. A indecisão estava entre o 10 acima e uma nota mais “modesta” como um 9,8. Mas decide dar a nota máxima porque, realmente, não vi nenhum defeito neste filme. O “furo” na história que eu achei que Arrival tinha acabou ficando claro depois de pensar um pouco mais. Arrival é bem redondo e bem acabado, então merece um ótimo conceito.

A direção de Denis Villeneuve, irretocável, e o ótimo roteiro de Eric Heisserer são realmente destaques importantes da produção. Mas não são os únicos. Amy Adams estava inspirada nesta produção, mostrando muita maturidade na interpretação e também muita veracidade na condução de sua personagem. Jeremy Renner está bem, mas ele fica um pouco eclipsado pela parceira de cena. Além deles, os outros atores tem papéis bem secundários, sem nenhum grande destaque.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia difícil e bem planejada e executada de Bradford Young. Também funcionam bem a edição de Joe Walker, a trilha sonora muito pontual de Jóhann Jóhannsson, o ótimo e interessante design de produção de Patrice Vermette, o departamento de som com um trabalho incrível de uma equipe de 33 profissionais, os efeitos especiais com cinco profissionais e os efeitos visuais envolvendo impressionantes 358 profissionais – sim, isso mesmo que você leu, uma equipe gigantesca de 358 profissionais. Não lembro de ter visto a um outro filme, pelo menos recentemente, que tenha envolvido uma equipe tão grande que trabalhou nos efeitos visuais da produção. Realmente o trabalho de toda esta equipe é impressionante e fundamental para Arrival.

Sobre o elenco, além dos atores que eu já destaque, vale citar o bom trabalho – ainda que sem graaaande expressão – dos atores Forest Whitaker como o coronel Weber, que convoca Louis e Ian; Michael Stuhlbarg, que interpreta o agente Halpern, que está coordenando as ações em Montana; Tzi Ma como o general Shang, presidente da China; Abigail Pniowsky como a Hannah de oito anos de idade; Mark O’Brien como o capitão Marks, um dos militares incomodados com a “falta de ação” contra os extraterrestres; Jadyn Malone como a Hannah de seis anos de idade; Julia Scarlett Dan como a Hannah com 12 anos de idade; e Carmela Nossa Guizzo como a Hannah de quatro anos.

Arrival estreou no Festival de Cinema de Veneza no dia 1º de setembro. Até o final de outubro ele participou e outros 12 festivais, uma verdadeira maratona, e em novembro, de mais dois. Com esta trajetória o filme conseguiu um prêmios e foi indicado a outros 13. O único que ele recebeu, até agora, foi o Silver Frog no Camerimage.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 47 milhões, faturou apenas nos Estados Unidos cerca de R$ 67,8 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez outros US$ 32,2 milhões. Batendo a marca de US$ 100 milhões e tendo muito ainda para faturar, Arrival é uma produção que sairá no lucro apesar do seu alto custo.

Arrival foi totalmente rodado no Canadá, em lugares como Montreal e Bas-Saint-Laurent. Entre outros locais, um dos pontos que foi aproveitado como cenário da produção foi a Universidade de Montreal.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criaram uma linguagem visual alienígena funcional. Eles criaram um tipo de “glossário” de logogramas com 100 tipos diferentes de imagens com “significados”, sendo que 70 delas são vistas no filme.

Na história de Ted Chiang, desembarcam na Terra 112 naves muito menores dos que as apresentadas no filme. Mas, sem dúvida, para o cinema, funcionou melhor a escolha feita pelos realizadores de Arrival.

Antes das filmagens começarem, Amy Adams não sabia falar mandarim. Mas ela acaba tendo que dizer uma frase neste idioma em certo momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, a frase que o general Shang sussurra para ela e que teria sido dita pela mulher dele no leito de morte foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas”. Uma boa frase para ele repensar o que estava prestes a fazer na história, realmente.

Descobri algumas coisas interessantes ao ler as notas da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente o filme teria “presentes” diferentes deixados pelos alienígenas em cada um dos oito países em que eles pararam as suas naves. Mas Villeneuve mudou de ideia após assistir a Interstellar. Ele não queria que um filme lembrasse o outro. A exemplo de quando Louise conta para Hannah que ela tinha recebido este nome porque ele era um palíndromo, o próprio filme e a última música que aparecem nele também são um palíndromo. Ou seja, as cenas iniciais do filme são também como a produção termina, uma forma de mostrar que a linguagem e a forma de pensar dos extraterrestres que nos é “presenteada” e compreendida por Louise não é linear e nem tem início, meio ou fim.

Denis Villeneuve é, sem dúvida alguma, um dos novos diretores que vale a pena acompanhar. Gostei muito dos dois filmes anteriores dele, que eu citei lá mais no início deste texto. Além deles, sei que tem outros filmes de Villeneuve que eu perdi e que foram bem elogiados – um dia, ainda, quero assisti-los. A próxima produção dirigida por ele também promete. Ele já está trabalhando na pós-produção de Blade Runner 2049, filme que dá continuidade para o clássico de Ridley Scott e que tem no elenco, entre outros nomes, Robin Wright, Harrison Ford, Ryan Gosling, Jared Leto, Barkhad Abdi, entre outros. Promete.

Assisti a este filme no cinema, e ele realmente pede ser apreciado em uma telona e com um grande som.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Arrival, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 248 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,4. Tanto a nota do público quanto da crítica comprovam que o filme foi aprovado por estes dois públicos e que está bem credenciado para emplacar alguns prêmios e indicações daqui para a frente.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Que filme, meus amigos! Ainda que ele não ignore outras referências de filmes com “contatos alienígenas”, ele nos leva a outro patamar neste tipo de produção. Mais do que nos fazer pensar sobre os “visitantes”, Arrival nos faz refletir sobre nós mesmos e sobre o tipo de organização global em que estamos. Este é um nível de análise. Mas há outro existencialista e um terceiro sobre a importância da comunicação. De forma muito genial o filme nos constrói uma narrativa que fará sentido realmente no final.

Com um roteiro primoroso, ótimos atores e uma direção competente, Arrival é realmente uma das grandes pedidas deste período pré-Oscar. Mais uma vez o diretor Dennis Villeneuve soube me conquistar. Por pouco ele não apresenta nenhum furo ou defeito. Por isso ele vai merecer as indicações que deverá receber no próximo Oscar. Agora, como eu comentei antes, este filme é super difícil de entender. É preciso estar atento e gostar dos temas para não ficar “perdido” no final. Para quem está familiarizado com boa parte dos temas tratados, contudo, Arrival é um deleite. Recomendo para estas pessoas. Para as demais, acredito que outros filmes podem funcionar melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Este é um dos filmes inevitáveis nesta temporada pré-Oscar segundo muitas bolsas de apostas de especialistas. Ao assistir a Arrival eu percebi o porquê do filme ser apontado como promissor em diversas categorias. Só não sei se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai topar o desafio de dar evidência para um filme tão complexo. Porque este filme não tem nada de simples ou de muito palatável para o grande público.

Caso a Academia resolver dar o devido crédito para o filme, apesar dele não ser muito simples, Arrival realmente pode chegar longe no Oscar. Há quem aposte que Arrival poderá ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Realmente eu acho que ele pode emplacar todas estas indicações, além de algumas outras técnicas, como Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e, talvez, Melhor Edição de Som.

Entre as categorias principais, talvez apenas Melhor Diretor pode ser mais difícil do filme figurar. Nas demais, acredito que ela consiga emplacar uma indicação. Agora, saber se ela tem chance de ganhar em alguma ou mais de uma, só esperando para ver a outros dos favoritos. Aparentemente Arrival corre por fora, mas vou conseguir falar com mais propriedade sobre isso após assistir a outros favoritos, como La La Land, Jackie, Fences, Silence e Manchester by the Sea. Veremos.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Nesta semana sai a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2017. Arrival foi indicado nas categorias Melhor Atriz – Drama (Amy Adams) e Melhor Trilha Sonora. A disputa nas duas categorias está bem acirrada.

Enemy – O Homem Duplicado

enemy1

Imagine um sujeito que tem uma vida comum, ensinando os mesmos conceitos para estudantes dia após dia, mantendo uma relação morna com a namorada e repetindo os mesmos passos um após o outro. Até que ele quebra um pouco a rotina assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho e vê a própria imagem em um papel secundário na trama. Este é apenas o começo de uma reflexão sobre as escolhas que fazemos sobre a nossa própria vida e sobre as características que nos definem. Enemy trata disso e de muito mais. Um filme difícil de digerir no início, mas que vai ficando melhor conforme pensamos nele.

A HISTÓRIA: Imagens de uma cidade que parece parada. Em uma gravação, a mãe de Adam (Jake Gyllenhaal) agradece por ele ter mostrado para ela o seu novo apartamento. Na sequência ela emenda que está preocupada com ele e afirma que não sabe como o filho consegue viver daquela maneira. Ela pede para ele retornar e diz que o ama. Dentro do carro, Adam olha o movimento passar. Na cama, uma mulher grávida e nua olha para trás. Corta.

Uma frase vaticina: “Caos é a ordem ainda não decifrada”. Adam contempla uma chave que vai levá-lo a um local onde vários homens observam mulheres nuas sentindo prazer. Uma delas flerta com uma aranha. Corta. A cidade encoberta por uma névoa é revelada de perto. E o professor Adam fala para os seus alunos sobre controle. Em breve a vida organizada e controlada dele passará por um grande teste.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Enemy): Eis uma produção pesada. Não apenas nas mensagens, mas principalmente na narrativa e nos recursos “ambientais” (vide trilha sonora e direção de fotografia). Por isso mesmo a primeira sensação quando este filme acaba é de indecisão sobre o que assistimos. Afinal, do que este filme trata? E qual é a versão verdadeira – de algumas possíveis?

Procurando saber um pouco mais sobre a história depois que Enemy terminou, percebi que o roteiro de Javier Gullón foi baseado no livro O Homem Duplicado, do escritor português José Saramago. Lembro bem de quando a obra do português foi lançada. Ela dividiu opiniões e muita gente entendeu o que quis do livro. Então, meus caros, como esperar algo diferente de um filme inspirado em uma obra que já tinha, por essência, o desejo de fazer pensar sobre identidade e com isso, provocar confusão nas leituras a respeito do que foi narrado?

Dito isso, vamos ao que interessa: afinal, do que Enemy trata? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro de tudo, esta produção aborda o sistema de vida atual de muitas sociedades modernas e urbanas. O protagonista deste filme é um sujeito que leva uma vida sem paixões e com muita rotina. Ainda que ele tenha um relacionamento com Mary (Mélanie Laurent), essa relação parece estar sempre próxima do fim – afinal, poucas vezes eles ficam mais tempos juntos do que na hora da cama. Há pouco diálogo e quase nenhuma convivência.

Quantas pessoas você conhece que vivem assim, cercadas de rotina e pouco sentimento? E mesmo o “antagonista” de Adam, o personagem de Anthony (o mesmo Jake Gyllenhaal), que em teoria tem uma vida bem mais “divertida” – afinal, ele é um ator que já conseguiu algumas pontas interessantes e que está procurando um lugar ao sol enquanto espera o primeiro filho ao lado da mulher Helen (Sarah Gadon) -, não tem uma vida exatamente “feliz”. Se fosse assim, ele não teria uma “vida dupla”.

E essa vida dupla não se manifesta apenas pelo clubinho de pervertidos do qual ele faz parte, mas também pelas traições dele no relacionamento – em certo momento Helen pergunta se ele vai ver a amante outra vez, apesar de ter prometido nunca mais fazer isso. Depois de ficar bem confusa com o filme, fui buscar mais informações sobre a obra de Saramago. E daí descobri que mais do que tratar de clonagem – essa foi a leitura de várias pessoas sobre a obra original -, o autor queria abordar a questão da identidade.

E quando ele trata dela, não está apenas discutindo o que, afinal, nos define ou não, mas também essa estranheza cada vez mais contaminante nos dias de hoje sobre o desconhecido, o diferente. Em uma sociedade individualista, cada vez mais as pessoas são “instruídas” a defender o seu próprio terreno, as opiniões e valores que tem, preservando estes conceitos sempre que se sente “ameaçada” por alguém que apresenta outras opiniões, valores e costumes.

O que você faz quando encontra alguém diferente ou muito parecida com você fala muito sobre a tua própria identidade. E afinal de contas é mais fácil lidar com alguém muito diferente ou muito parecido com a gente? Esta pergunta também aparece neste filme – e na obra de Saramago. Além disso, fica evidente como as duas obras – a cinematográfica e a literária – fazem uma crítica a essa vida “mais ou menos” que vai ocupando grande parte da existência do indivíduo. Ele não está satisfeito com a própria rotina ao mesmo tempo em que não consegue achar uma solução para este “estado das coisas”.

E o curioso do momento de “ruptura” da trama é a forma com que Adam e, principalmente, Anthony, flertam com a mudança radical da própria rotina para abraçar uma vida diferente. Claro que Anthony pensa em fazer isso rapidamente – trair a mulher com Mary e depois voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Ele lida com os problemas da própria rotina desta forma, com pequenas escapulidas sem o “perigo” da ruptura radical.

Adam, por outro lado, não deseja mudar nada. Mas, ao mesmo tempo, quando encara a realidade da namorada sendo enganada por Anthony e traindo ele com o sósia egoísta, Adam não consegue ficar impassível. Resolve dar o troco, sem saber exatamente aonde está se enfiando. Ele faz isso mais por automatismo do que por vontade de alterar tudo radicalmente. O problema é que Saramago é um mestre da surpresa. Ele acaba com os planos dos próprios personagens que cria.

Não apenas Anthony tem um final surpreendente como Adam também cai em uma realidade que não tinha planejado. É isso o que acontece quando não pensamos bem a respeito dos nossos próprios atos. Com o acidente fatal de Anthony e Mary – o filme não deixa muito claro que eles morrem no carro, mas o livro de Saramago sim deixa isso claro -, Adam acaba assumindo o lugar do ator. Enemy termina antes do desfecho do livro – falarei dele mais abaixo.

Mas o importante desta produção é que ela mantém estas reflexões da obra original de Saramago. Com algumas pequenas mudanças feitas pelo roteirista Javier Gullón que tornam o filme um artigo independente. Vejamos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, durante grande parte do filme o espectador não sabe exatamente o que está acontecendo. Especialmente as falas da mãe de Adam, interpretada pela veterana Isabella Rossellini, colocam dúvidas na cabeça do público.

Primeiro, ela diz que está preocupada com o filho e que não entende como ele consegue levar a vida que está levando. Isso sinaliza que Adam não estaria agindo bem. Mas daí mergulhamos na rotina dele, bastante entediante e “normal”, e parece deslocada aquela preocupação toda da mãe – mas deixamos a leitura sobre isso para depois, porque há mães um pouco “preocupadas demais”, por assim dizer, e aquela sensação de que existe alguma coisa podre no reino da perfeição pode ser apenas uma ilusão.

O tempo passa, Adam vê a “si mesmo” – ou alguém igual a ele, já que aparentemente ele não tem lembrança nenhuma de ter participado de filmes como figurante – em produções pouco conhecidas e daí fica esboçada a ideia de que Anthony é uma cópia perfeita de Adam e não a vida dupla do protagonista. É isso o que o roteiro nos faz acreditar, ainda que aquele sujeito igual a Adam pareça estranho, um pouco difícil de acreditar.

A primeira ideia que tive na cabeça, tentando “matar a charada” antes da hora, é que Anthony fosse a identidade dupla de Adam. E que ao confrontar a própria imagem no filme indicado pelo colega de trabalho (interpretado por Joshua Peace), em uma indicação “cheia de malícia”, ele tem que enfrentar o “transtorno dissociativo de personalidade”, como gostam de chamar os psicólogos. E mesmo o encontro no motel, para mim, não me pareceu definitivo – afinal, alguém que tem este transtorno pode também fantasiar um encontro inexistente.

Ajuda nesta teoria o encontro de Adam com a mãe quando o filme beira quase uma hora de duração. Além dela insistir que Adam é seu filho único e que é impossível ele ter encontrado alguém exatamente igual a ele – deve existir alguma diferença, ela argumenta -, a mãe do protagonista confunde a todos quando diz que ele deve desistir de atuar em filmes de terceira linha. Como mais tarde a mulher de Anthony comenta que achou estranho ele chegar em casa mais cedo porque iria visitar a mãe, algum desavisado pode achar que era o ator que estava falando com a mãe.

O problema é que o filme mostra Anthony perseguindo a namorada de Adam até o trabalho com uma roupa de motociclista e o homem que fala com a mãe em um apartamento estranho está vestido como o professor Adam. Então se aquele homem que fala com a própria mãe é Adam, por que ela comenta que ele deveria desistir de fazer filmes de terceira linha? Ela está apenas fazendo uma piada ou realmente dando um conselho para o filme? E se for o segundo caso, afinal de contas, Anthony nada mais é que a outra personalidade de Adam?

O roteiro de Enemy dá a entender que as traições de Adam e Anthony ocorrem simultaneamente. Enquanto Adam se faz passar por Anthony e se aproxima de Helen, o ator está na cama com Mary e, depois, se acidenta de carro quando Helen decide consumar a traição. A diferença é que Helen sabe o que está fazendo – que Adam não é Anthony – enquanto Mary está sendo enganada. Mas quem nos garante que, de fato, os fatos são simultâneos? Será mesmo que Adam não poderia ter “atuado” como Anthony com Helen primeiro e depois ter “atacado” Mary? As duas mulheres serem loiras e bem parecidas – exceto pela gravidez – também ajudam na confusão – que, sem dúvida, é um dos objetivos da história.

O que contradiz esta teoria de que os dois homens seriam a mesma pessoa são três pequenos detalhes. Primeiro, a questão temporal. Ainda é dia quando Anthony pega Mary para um dia diferente e “romântico” e também é dia quando Adam vai para o apartamento que o ator tem com a mulher grávida. Depois, quando amanhece, Helen ouve no rádio a notícia do acidente que ocorreu na madrugada antes de mudar a estação – dificilmente Adam teria tempo de transar com as duas mulheres e chegar em casa a tempo de Helen não desconfiar. E, finalmente, a questão da marca da aliança. Mary identifica o impostor porque ele tem a marca de uma aliança – algo que Adam nunca teve.

Estes detalhes derrubam a tese de que Adam tinha dupla personalidade. De fato, ele e Anthony eram idênticos, mas dois indivíduos diferentes. E como seria possível algo assim? Para mim, ficou evidente que a mãe de Adam mente. Ainda que ela jure que ele não teve um irmão gêmeo, será isso verdade? E se ele realmente era filho único, em que momento e com que objetivo teriam feito uma cópia perfeita dele? Seria possível uma clonagem sem o conhecimento da mãe de Adam? Acho beeeeeeeeeeem improvável.

Da minha parte, analisando apenas o filme, acredito que Anthony era irmão gêmeo de Adam e que as famílias dos dois não foram francas com eles – por motivos que desconhecemos. Quando Adam vê uma pessoa igual a ele atuando em filmes, fica perturbado. Ele se pergunta quem é ele, quem é o outro? O que define e o que diferencia cada um deles? Fica perturbado, perplexo, mas acaba aceitando essa figura diferente e tão parecida com ele. Com a aparição de Anthony, Adam repensa a própria vida.

O problema é que quando ele está pronto para fazer decisões importantes em sua própria vida, Anthony decide estragar tudo ao pular a cerca com Mary. Para o ator, acostumado a ter uma vida dupla e a enganar a mulher, esta será apenas mais uma traição. Para Adam, o significa do ato de Anthony é muito diferente. Ele não consegue lidar com a ideia de Mary estar na cama com outro homem, e a vida perfeita e ordenada que ele tinha acertado em sua própria cabeça desmorona.

No final, Adam acaba assumindo a posição de Anthony – mesmo antes dele e de Helen saberem do destino trágico de seus parceiros. Essa solução parece um pouco estranha no filme, mas é melhor explicada no livro. Aparentemente, segundo o roteiro de Gullón, Adam não consegue lidar com a traição involuntária de Mary e diz que não pode mais encontrar a namorada. Tendo perdido a amada, para ele parece natural assumir a outra vida já desenhada – de seu “sósia” Anthony. Helen estava farta do marido inconstante e traidor, e vê em Adam uma nova oportunidade de recomeço.

Claro que na vida real estas saídas parecem um tanto improváveis. Mas é bom lembrar que esta é uma ficção. 🙂 Sendo assim, acho sim que aqueles dois sujeitos idênticos eram, de fato, muito diferentes entre si. Ainda que eles tivessem em comum algo fundamental: a facilidade de mudar radicalmente de vida quando tivessem uma oportunidade. De forma simbólica, quando Adam aceita repetir os passos de Anthony e fazer parte daquele clube de homens sádicos, no lugar de Helen ele encontra uma aranha gigante.

Esta aranha, que ocupa todo o quarto, simboliza o mesmo animal que entra dentro da mulher observada por um grupo de homens excitados e silenciosos. Ela provoca prazer e dor na mulher, assim como a vida dupla que Adam começa a assumir vai trazer para ele e para quem estiver próximo dele. Provocações interessantes do roteirista Javier Gullón e do diretor Denis Villeneuve.

Ainda assim, muitas perguntas que Enemy levanta não são respondidas pela produção. E se você, como eu, for atrás do original, do livro O Homem Duplicado de José Saramago, tampouco terá uma resposta esclarecedora. Em sua obra, Saramago deixa claro que Mary e Anthony morreram no acidente de carro. Isso fica esclarecido. Mas o final do livro abre outra pergunta que Enemy não levanta.

Depois de assumir a identidade de Anthony a pedido de Helen, Adam recebe um telefonema em casa. A exemplo do que ele fez antes, agora é um outro homem que está ligando para dizer que ele é igual a Adam (agora na pele de Anthony). Mesmo perplexo, Adam aceita se encontrar com o desconhecido. Mas desta vez ele sai para o encontro armado. Temendo ser substituído da mesma forma com que ele fez com Anthony ele vai encontrar a sua cópia para eliminá-la? Conseguindo isto, por quanto tempo ele continuará seguro? A sensação de risco permanente é outra “praga” contemporânea. Saramago acerta ao tratar disto.

Mas a origem destas cópias não é explicada no livro de Saramago. Seriam elas resultado de clonagem? E se afirmativo, porque esta seria a resposta mais “plausível” (o que por si só já é um bocado absurdo, convenhamos), como estas cópias teriam sido feitas? E quem, afinal de contas, seria cópia de quem? Certamente há muita mentira e segredos espalhados aqui e ali para que aquelas cópias existissem. E a ameaça delas será constante. Assim como na vida real, sem que tenhamos cópias nos ameaçando, são arriscadas as ameaças constantes da vida que nos colocam em xeque a nossa própria identidade. Trabalho inteligente, ainda que o filme seja um pouco confuso demais.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante dizer que eu apenas entendi melhor a proposta de Enemy depois que busquei o original de Saramago. E ainda que isso seja interessante – essa ligação que muitas vezes o cinema faz com a literatura -, sou defensora da independência destas duas expressões artísticas. Por isso mesmo, acho ruim quando um filme como este exija do espectador que ele vá atrás da obra original para entender o que aconteceu – acho que ele deveria ser mais autoexplicativo.

Durante a exibição do filme, achei Enemy muito pesado. Não apenas pela história, que é um tanto confusa e tensa, mas também por causa das escolhas feitas pelo diretor de fotografia Nicolas Bolduc e pelos responsáveis pela trilha sonora, sempre densa e pesada, Danny Bensi e Saunder Jurriaans. Estes elementos ajudam no desconforto que a história quer provocar – assim como a obra de Saramago.

Por falar no original, no livro O Homem Duplicado, acho interessante citar o que o autor queria com a própria produção. Nesta entrevista para a Folha de São Paulo em 2002, na época do lançamento do livro, Saramago afirmava que tinha uma preocupação constante pelo outro e que O Homem Duplicado era um livro “engajadíssimo”. Apesar de comentar isso, ele não esclarece de forma clara o que queria com esta obra. Esboça, contudo, que a questão dos nomes tem uma importância menor – para as pessoas é importante dar nomes para tudo, ainda que isso não seja determinante sobre o que as coisas ou as pessoas são.

Gostei do título original do filme. Enemy. Afinal, o “inimigo” é aquele que aparece na vida do protagonista para confrontá-lo, vindo de fora, ou é ele próprio ao tomar as atitudes erradas? Seríamos nós mesmos os nossos maiores inimigos através da nossa consciência? Esta ideia também está, aparentemente, no original de Saramago.

Muito boa e segura a direção de Denis Villeneuve. Depois de dirigir o “fenômeno” Prisoners (comentado aqui), o diretor canadense marca mais uma dentro com Enemy. Novamente ele confunde o público com diversas pistas mas esclarece as dúvidas nos detalhes. Ou, pelo menos, tenta. 🙂 Eis um diretor para ficarmos de olho. Atualmente, ele trabalha na pré-produção de Sicario, previsto para ser lançado no próximo ano e tendo Josh Brolin, Benicio Del Toro e Emily Blunt no elenco; e também em Story of Your Life, previsto para 2016, com Amy Adams. Estaremos de olho.

Este é um filme com um elenco reduzido. A trama gira em torno dos personagens vividos por Jake Gyllenhaal – e por suas duas loiras. Além dos atores já citados, vale citar as pontas dos atores Tim Post, que interpreta o homem que trabalha na recepção do prédio de Anthony e que está louco para conseguir uma nova chave para a “diversão da turma”; e Kedar Brown como o segurança que entrega o envelope com a nova chave para Adam – correspondência destinada para Anthony. Os dois fazem pontas com certa relevância e que imprimem um pouco mais de mistério na história. Mas o grande trabalho fica mesmo com Gyllenhaal, muito bom em diferenciar os dois personagens/personalidades da história.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora e da direção de fotografia pesadas, vale citar o bom trabalho do editor Matthew Hannam e o figurino sutil e fundamental de Renée April.

Enemy estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros 21 festivais – uma marca impressionante! Nesta trajetória o filme conseguiu abocanhar sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Atriz Coadjuvante para Sarah Gadon na categoria Canadian Screen Award do Genie Awards, realizado em Ontario, no Canadá, neste ano.

De acordo com o site Box Office Mojo, Enemy teria conseguido pouco mais de US$ 1 milhão nos cinemas dos Estados Unidos. Pouco.

Enemy foi totalmente rodado nas cidades de Toronto e Mississauga, ambas no Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: o elenco assinou um contrato de confidencialidade que não lhes deixa dar entrevistas ou qualquer explicação sobre o significado das aranhas para a história. Interessante.

O protagonista foi oferecido para Javier Bardem, mas o ator achou que o personagem não “combinava” com ele. Estranho… pensar que alguns personagens não combinam com o ator. Depois, o papel foi oferecido para Christian Bale, que não pode aceitar devido a um conflito de agendas. Acho que ele teria se saído bem – só não sei se melhor que o Jake Gyllenhaal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Enemy. Uma boa avaliação, ainda que apenas mediana perto de outros filmes que viraram “sensação”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 60 textos positivos e 20 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,7.

Esta é uma coprodução do Canadá com a Espanha.

CONCLUSÃO: No início, não gostei tanto de Enemy. Achei o filme um pouco arrastado, enquanto a história se desenrolava, e o roteiro também bastante confuso. Mas isso apenas em um primeiro momento. Conforme fui pensando na história e conheci o original de José Saramago, as peças foram se encaixando melhor. Não existe apenas uma forma de entender este filme – ou a obra original que o inspirou. E isso é sempre uma grande qualidade para qualquer história. Enemy carece de um pouco mais de ritmo, mas até essa forma de narrativa ajuda na sensação de incômodo – que é o foco principal desta produção. No fim das contas este filme incomum mexe com nossos conceitos, interpretações, e deixa muitas perguntas no ar. Vale uma conferida por causa disso.

Prisoners – Os Suspeitos

prisoners1

Filmes policiais nos provocam. Afinal, sobram histórias de crimes ao nosso redor. Desaparecimentos, sequestros, mistérios que nos afetam direta ou indiretamente. Quando um roteiro de filme do gênero é bem escrito, nos fascina pelo mistério. Não por acaso, Seven é um dos meus filmes favoritos do gênero e de sempre. Desde o excelente filme de David Fincher, uma produção do gênero não mexia tanto comigo como esta Prisoners. Envolvente, bem escrito, mas com alguns probleminhas aqui e ali, este é um filme que respeita o gênero policial e a nossa inteligência.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores e neve. Keller Dover (Hugh Jackman) reza um Pai Nosso. Lentamente, um cervo começa a aparecer na cena. A câmera vai se afastando, e aparece à esquerda um rifle. O filho de Keller, Ralph (Dylan Minnette) dispara e acerta no alvo, sendo cumprimentado pelo pai. Na volta para casa, Keller explica para o filho o que a esposa lhe ensinou de mais valioso: estar sempre preparado. Ele diz que não importa o que aconteça, a família deles precisa estar preparada para enfrentar problemas. Por isso, ele mantém um estoque de suprimentos em casa. Mas nenhuma preparação vai impedir que a caçula da família, Anna (Erin Gerasimovich), e a filha de um casal de amigos, Joy Birch (Kyla Drew Simmons), desapareçam, tornando a vida de Keller e dos demais um verdadeiro purgatório.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Prisoners): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o princípio, é como ele alimenta a nossa dúvida. Afinal, o que aconteceu com aquelas duas meninas? Será possível que aquele trailer detonado que parou na vizinhança pode não ter nada a ver com o sumiço delas? Pouco provável, não é mesmo? E o estranho Alex Jones (Paul Dano) de fato tem a maturidade de uma criança de 10 anos e não fez nada ou é um sujeito dissimulado?

Estas são apenas algumas das várias perguntas que alimentam o imaginário do espectador enquanto a ação de Prisoners vai se desenvolvendo. E claro, como pede um bom filme policial, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) vai seguindo várias pistas e o próprio instinto e lançando informações que parecem desconexas, sem muito sentido, na nossa frente. Enquanto o próprio detetive tenta ligar os pontos, o espectador é convidado a fazer o mesmo pelo roteiro de Aaron Guzikowski.

Diferente de outros filmes, como muitas produções de Alfred Hitchcock, em Prisoners não temos o privilégio de saber mais da história do que os personagens envolvidos. Sem uma posição privilegiada, nos resta seguir os passos da dupla de protagonistas, o detetive Loki e o pai Keller, para saber quem está mais próximo da verdade. Tendo o risco de nenhum deles estar avançando na direção certa. Esta dúvida constante, esta incerteza é o que torna Prisoners angustiante e atraente.

Não é por acaso que o roteiro fica centrado nas ações destes dois personagens, o detetive e o pai desesperado. No caso de um desaparecimento, quando a polícia funciona, são estes dois agentes, a polícia e a família, mais diretamente afetados pelo acontecimento. Gostei da forma com que Prisoners mostra estes dois elementos. Temos um detetive que parece dedicado ao trabalho, mas que cria dúvidas sobre a sua competência para o espectador na medida em que o tempo vai passando e ele não consegue nada de muito concreto sobre o caso; e temos o pai de família que funciona com a visão de mundo de que ele é o provedor e o protetor, a pessoa que deve garantir a segurança de todos e resolver o problema.

Interessante esta leitura feita pelo roteiro de Guzikowski porque, bem sabemos, em muitos locais – e não apenas nesta ficção ambientada nos Estados Unidos – as coisas funcionam com esta lógica. Percebo que grande parte da população, inclusive no Brasil, pensa bastante com a lógica de “fazer as coisas a sua maneira”. Ou, em um contexto como o mostrado pelo filme, em pensar que a justiça deve ser feita de qualquer forma, a qualquer custo, e que a solução dos problemas está na mão dos envolvidos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste ponto Prisoners nos apresenta dúvida suficiente para pensar se as atitudes de Keller são exageradas ou estão indo na direção certa e necessária, ainda que não seja bonito ver alguém ser tão maltratado, agredido, torturado como Alex. E daí jogam um papel importante o casal Nancy (Viola Davis) e Franklin Birch (Terrence Howard), pais de Joy. Eles querem, evidentemente, que a filha seja resgatada com vida. Assim, tem o mesmo desejo essencial de Keller. Mas é evidente que Franklin não concorda com os métodos e com o grau de crueldade a que chega o amigo. Ainda assim, o que ele faz?

Ele divide o problema com a mulher. Não consegue carregar aquele “fardo” sozinho. E aí os Birch tomam a atitude de muita gente que legitima os absurdos cometidos na nossa e em tantas outras sociedade: eles lavam as próprias mãos. Nancy diz que não vai contribuir para que as torturas continuem, mas que eles também não devem fazer nada para impedir Keller. Esta ânsia por “justiça com as próprias mãos” está difundida e é muito perigosa, além de absurda.

Certo que alguém pode dizer que Keller poderia estar certo. Verdade. Mas de fato ele precisava fazer aquilo? A polícia não chegaria à verdade mais cedo ou mais tarde? A justificativa de Keller é que, quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para a filha dele e dos Birch. Bem, esse é o risco que se corre sempre que um crime é cometido. Mas nem por isso temos o direito de sair culpando pessoas e exigindo que elas paguem por algo que não temos certeza que ocorreu.

A sociedade existe com leis e regras justamente para não vivermos no caos. Imaginaram todos fazendo o que acham certo, sem seguir o que está estabelecido? Seria uma verdadeira loucura e, tenho certeza, muitas outras injustiças seriam cometidas. A Justiça é falha, verdade. Assim como a polícia nem sempre consegue resolver todos os crimes. Mas sem a confiança da sociedade nestas instituições tudo seria ainda pior. Viveríamos na barbárie.

Prisoners trata um pouco de tudo isso. Sobre este desejo das pessoas, especialmente dos “chefes de família”, de ter controle sobre tudo, de resolver os seus problemas sem ter a paciência ou a confiança necessárias nas instituições estabelecidas. Hugh Jackman convence muito bem como o pai desesperado e que segue a própria convicção tendo o resgate da filha e de sua amiga como seu único propósito. Mas quantas pessoas bacanas, corretas e com “fé” podem agir de forma equivocada e provocar absurdos tendo esta arrogância de saber o que é “melhor” a todo o momento?

As pessoas cheias de certezas são as mais perigosas que podem existir. A arrogância é um perigo, assim como a certeza de que temos o controle sobre tudo o que nos cerca. Isso é impossível. Interessante como a família Dover acredita nisto, que estão muito preparados para tudo – mantendo, inclusive, um grande estoque de mantimentos para qualquer catástrofe ou eventualidade que possa acontecer. Acreditando serem muito espertos, e preparados, eles não aceitam quando algo inesperado como o sumiço de Anna acontece. Difícil lidar com pessoas assim, e mais difícil ainda é perceber que há muita gente por aí com esta postura.

Não deixa de ser tragicamente cômico que este filme comece com um Pai Nosso. Porque tudo o que Keller e sua família parece carecer é de fé. Eles não acreditam na polícia. Não apenas Keller resolve fazer a “justiça com as próprias mãos” e resolver o problema sozinho, por não acreditar na eficiência de Loki, como a esposa dele, Grace (Maria Bello) não consegue sair da cama. Parece em depressão constante. Claro que dá para entendê-los. Afinal, o sumiço de uma filha deve ser algo horrível de enfrentar. Mas onde ficou a fé deles? Essa crise de valores, ou de ser coerente com o que se acredita e como se age, é uma leitura crítica interessante dos nosso tempo.

O outro protagonista desta história, o detetive Loki, por sua vez, demonstra uma fé aparentemente incansável no próprio trabalho. Ele segue todas as pistas que considera importantes e não perde a esperança de conseguir chegar a um bom resultado. E aí surge uma das razões principais para o roteiro de Guzikowski funcionar tão bem: o espectador passa a conhecer vários elementos que parecem não se encaixar com a história do sumiço de Anna e Joy.

Como por exemplo a história do padre Patrick Dunn (Len Cariou) e do homem que Loki encontra morto no porão dele. O que ela tem a ver com o caso que o detetive está investigando agora? E por que a senhora Milland (Sandra Ellis Lafferty) tem tanta certeza que a mesma pessoa que levou o filho dela, há 26 anos, cometeu o mesmo crime agora contra Anna e Joy? Puro chute? Ou estas histórias podem estar relacionadas? Não faz muito sentido, mas também seria estranho elas estarem no filme se fossem totalmente descoladas da trama.

Quando o personagem de Bob Taylor (David Dastmalchian) aparece em cena, as dúvidas aumentam. Suspeitíssimo, ele cria tensão ao entrar nas casas dos Birch e dos Dover. O que ele foi fazer lá? Ele é o parceiro de crime de Alex? Sem dúvida o filme ganha com este personagem, enquanto o tempo passa e a pressão fica cada vez maior para que um desfecho aconteça. Você chega a pensar que tudo aquilo pode ser um grande engano, ou que as meninas nunca mais serão encontradas. Muitas dúvidas no ar.

O desafio de um roteiro de filme policial não é apenas envolver o espectador com tensão, cenas de ação e com pistas jogadas aqui e ali para tornar a história interessante. No final, tudo precisa se encaixar e fazer sentido. Cada fato relevante mostrado no filme precisa estar conectado e fazer sentido. E isso acontece em Prisoners. Todos os elementos se encaixam. Mas há pelo menos dois pontos que não se encaixam muito bem e que acabam incomodando e prejudicando o resultado final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, se de fato Alex era inocente e tinha a mentalidade de uma criança de 10 anos, por que ele não reagiu antes falando a verdade para Keller? Impossível alguém acreditar que uma pessoa aguentaria tanta tortura e agressões apenas com medo de sofrer ainda mais ao dedurar a “tia” Holly Jones (Melissa Leo). Certamente ela e o marido educaram o garoto com medo, mas ainda assim é difícil acreditar que sob tanta tortura ele não falaria que deixou as meninas para a sequestradora. E o longo sequestro de Alex também justifica porque ele ficou com aquela mentalidade subdesenvolvida – afinal, ele não estudou e, certamente, foi bastante maltratado.

Outro ponto difícil de engolir tem a ver com o final. O detetive Loki faz barulho com o carro ao chegar, bate na porta e ainda chama a Holly. E, mesmo assim, a mulher segue com a rotina e não pensa em dispensar o policial ou se ver livre dele de outra maneira? Por que ela desistiria no final? Não faz sentido.

Esses dois pontos incomodam porque o restante do filme funciona muito bem. Além de questionar pontos importantes sobre a perda de fé, a loucura e as formas com que as pessoas lidam com a perda e o imprevisto, Prisoners amarra bem todas as pontas. Só não convence nos dois pontos citados, além de ser difícil de acreditar na resolução final para o drama de Keller. Por quanto tempo ele fez barulho? E como ninguém ouviu antes? O detetive Loki parece que é o único herói desta produção, que consegue envolver bem o espectador e que tem muitas qualidades, mas alguns probleminhas que poderiam ter sido evitados.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Foi difícil chegar a uma nota para este filme. Inicialmente, cheguei a avaliá-lo até melhor. Movida pela tensão criada pela história logo depois que Prisoners terminou. Mas os dias foram passando e, quanto mais eu pensava nos pontos que não se encaixavam, mas eu achava que deveria diminuir a nota do filme. Cheguei na avaliação acima porque acho que Prisoners toca em pontos importantes e que precisam ser discutidos. Se não fosse assim, talvez as pequenas mas importantes falhas do roteiro fariam ele descer ainda mas na minha avaliação.

O diretor Denis Villeneuve faz um belo trabalho. Além de destacar a interpretação dos atores, e de colocá-los sempre em sequências bastante extremas, ele não economia nas cenas noturnas e de impacto. O filme tem ritmo e valoriza o bom roteiro de Guzikowski. Mais um belo trabalho do diretor canadense que já acumula 53 prêmios na carreira que tem apenas seis longas, quatro curtas, uma série de TV e a participação em outro longa com um segmento até agora.

O personagem de Bob Taylor acaba se revelando ainda mais interessante no final. Ele e Alex Jones ganham uma dimensão totalmente diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Descobrimos que Bob foi o segundo garoto sequestrado pelo casal Jones e que, depois de fugir, nunca mais se recuperou. Ele descobriu o livro Finding the Invisible Man e resolveu recriar o roteiro de terror que viveu de uma forma bastante sinistra. E sem ser compreendido. O símbolo do labirinto, compartilhado por Bob e Alex, tinha origem no medalhão do marido de Holly, o mesmo homem que acaba sendo preso após confessar para o padre Patrick Dunn que havia matado a 16 crianças. Bob e Alex foram tão traumatizados que não conseguiram se livrar daquele terror, mas o detetive Loki acaba chegando à verdade.

Aliás, outro ponto interessante deste filme é a ironia do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desprezível a violência empregada por Keller contra Alex que, no fim das contas, foi a maior vítima de toda esta história. Mas se não fosse o cativeiro que ele provocou, o detetive Loki não teria ido até a casa de Holly para avisá-la do resgate de Alex e, consequentemente, não teria descoberto a verdade. Interessante esta provocação da história, após fazer toda aquele reflexão de que a justiça com as próprias mãos pode ser bastante injusta.

Os atores envolvidos nesta história fazem um belo trabalho. A ponto de convencer o espectador sobre o momento que cada um deles vive. O destaque, claro, fica para Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, que dominam a cena. Em papéis menores, mas igualmente convincentes, estão Viola Davis, Maria Bello e Terrence Howard. Mesmo aparecendo muito menos que os protagonistas, os suspeitos desta produção se saíram muito bem. Em papéis delicados, os atores Paul Dano e David Dastmalchian convencem pelo tanto que eles se revelam “desfuncionais”. Melissa Leo também está bem, se bem que eu acho que o excesso de maquiagem/caracterização atrapalha um pouco a atriz.

Da parte técnica do filme, vale destacar o ótimo trabalho do veterano diretor de fotografia Roger Deakins. Ele tem que lidar com várias cenas escuras e em penumbra e consegue um belo resultado final. Muito bom também o trabalho de edição da dupla Joel Cox e Gary Roach. A trilha sonora de Jóhann Johannsson é fundamental para o filme, ainda que não seja nada inovadora. Ela apenas segue o peso e o estilo de outros filmes de suspense policial.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Hugh Jackman entrou no projeto quando Antoine Fuqua era o diretor escalado para Prisoners. Depois, os dois saíram do projeto. Após vários anos de desenvolvimento para o filme sair do papel, Jackman acabou voltando.

Mark Wahlberg e Christian Bale chegaram a ser cogitados para estrelar o filme tendo Bryan Singer como diretor. Hummm… essa junção teria sido interessante também.

Prisoners estreou em agosto deste ano no Festival de Cinema de Telluride. Depois, ele passou pelos festivais de Toronto, San Sebastián e Zurique. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para Jake Gyllenhaal no Hollywood Film Festival e o terceiro lugar na escolha da audiência no Festival de Cinema de Toronto.

Aliás, gostei muito do nome original deste filme. Prisoners… o conceito de prisioneiros pode ser aplicado a vários personagens deste filme. Não apenas às vítimas diretas, as crianças, mas também aos familiares, que ficam aprisionados no drama da falta de respostas, e aos personagens Bob e Alex.

No Brasil, o filme acabou levando o nome de Os Suspeitos. Não é um nome equivocado, evidentemente. Mas acho que o original tinha mais força. Sem contar que já existe um filme com este nome no mercado nacional – tradução de The Usual Suspects, ótimo filme de 1995 dirigido por Bryan Singer.

Prisoners teria custado cerca de US$ 46 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 18, o filme faturou pouco mais de US$ 55,8 milhões. Nos demais mercados onde o filme já estreou, ele teria acumulado outros US$ 22,6 milhões. Ou seja, está dando lucro.

Esta produção foi filmada em três cidades do estado da Georgia, nos Estados Unidos: Porterdale, Conyers e Atlanta.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Prisoners. Uma excelente nota, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e 39 negativos para Prisoners, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,3.

A disputa entre os bonitões neste filme é dura. E os papéis que eles desempenham não favorecem muito para as fãs. 🙂 Mas apesar do cacoete com o olho, acho que eu votaria no Jake Gyllenhaal como o mais interessante do filme.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma a outras publicadas recentemente aqui no blog e que satisfazem a votação em que os EUA ganharam como alvo de uma série de críticas aqui no site. Espero que esteja sendo do agrado de vocês, caros leitores.

CONCLUSÃO: Crimes envolvendo crianças são mais cruéis. Mexem com qualquer pessoa, sendo ela mãe, pai, ou não tendo filhos. Prisoners pega o espectador pelo estômago quando duas meninas desaparecem e o tempo corre sem uma solução para o mistério. Um policial e um pai dividem a atenção na busca pela verdade. Busca essa que coloca a nossa apreensão e crença em uma solução em xeque. Normalmente, as pessoas querem que os bandidos se ferrem.

Mas e quando não temos certeza sobre quem é o bandido? E mesmo tendo esta certeza… a melhor saída é realmente a vingança? Este filme vai bem, coloca muitas pistas no caminho e explica tudo no final de forma satisfatória. Mesmo assim, tem alguns probleminhas para convencer ao público nos detalhes, o que não permite que ele seja perfeito. Mas é bom e angustiante.